Sonho dos Esquecidos – Parte 1 – Maura.

     Maura observava a televisão e somente a televisão. Ouvia ecos de vozes que, ela juraria se ainda pudesse falar, soavam simultaneamente próximos e distantes.

Mãe.

Ela não entende mais.

Mãe.

Ela está aqui, mas não está.

Mãe.

O pai se foi há anos. É coisa de…

Família é assim mesmo.

Ela deu azar. O Alzheimer é genético.

Sim.

Mãe, a senhora quer alguma coisa?

Mãe, a senhora está com frio?

Mãe?

     As palavras passavam pela memória de Maura como se estivessem passeando apressadas em um shopping com a urgência de evitar a cobrança do ticket do estacionamento. Elas seguiam trôpegas, como se estivessem embriagadas, para os recônditos da cada vez mais inconsciente consciência de Maura. Ela ainda se lembrava de coisa ou outra, sabia diferenciar os seis filhos pelos sons das vozes e pelos ritmos das falas. Não se esquecia de que havia dois que jamais a visitavam, um deles homem e a outra uma mulher, mas como é que ela poderia reclamar na atual conjectura? Não tinha voz. Maura suspirava, mas seus pulmões eram tão fracos que os filhos não distinguiam uma arfada de ar simples de uma respiração prolongada. A velha senhora estava totalmente entregue, ainda assim, era obrigada a escutar os resmungos de quem dividia o ambiente com ela.

Ele foi embora, Paula. Descobriu sobre os meus dois casos. É, eu sei que você é uma santa e nunca faz nada errado, mas eu fiz.

Engraçado. Eu achei que ele fosse um bundão incorrigível.

Eu não sei o que eu achei.

Você vai sentir a falta dele agora, irmã, mas ele não vai sentir a sua. Quer água, mãe?

Por que você defende ele? Eu sou a sua irmã!

Você é a pessoa que errou. Fosse você mesma a mamãe ou o papai, que Deus o tenha, eu ainda falaria sobre o seu erro.

Por que você é tão má comigo?

A minha honestidade te fere? Você foi ruim com as pessoas por anos. Parece que nunca aprende.

     Maura nem se recordava de como a alimentavam, mas já não fazia tanta diferença. A vida era uma tragédia sem importância agora que ela era a extensão do cômodo, apenas uma nova parte envelhecida da mobília. Quando se lembrava de sentir e via, enxergava com atenção tudo ao redor, porém, mantinha-se imóvel. Os gestos que era capaz de fazer com a cabeça fugiam à compreensão dos filhos. Ninguém entendia o vagaroso menear de seu pescoço. Os olhares cheios de significados eram respondidos com frases confortáveis, repletas de pena na intenção e na réplica falada. Maura se sentia velha para isso e seus lábios formaram por um instante seu antigo e discreto sorriso juvenil, afinal, ela estava realmente velha para qualquer coisa. Suspirou outra vez. Maura se recordava de que uma ou outra vez os filhos haviam conversado sobre a infância compartilhada e as melhores refeições que mamãe preparava. Uma ou outra vez discorreram sobre memórias felizes. Uma ou outra vez o mundo real, qual ela já não tinha mais certeza da realidade, voltava a ser palatável para quem se acostumou a sentir o gosto de coisas ruins ou a não sentir qualquer gosto sequer.

Água.

Mãe?

Mamãe? A senhora aceita água?

Acho que ela já ficou surda.

Por que perguntamos se ela aceita água? Ela não responde mais.

Precisamos conversar com ela para estimulá-la.

Estimulá-la com qual finalidade?

Que horror! Você parece tão fria!  

Seja racional. Ela parece ouvir algo?

Ela pode ser surda, mas definitivamente não é cega.

E como você sabe?

Olha o jeito que ela assiste a televisão.

É.

É o quê?

Parece que ela presta atenção.

Pobre, mamãe.

Se você diz que sente essa compaixão deveria aparecer mais vezes.

Pelo menos eu me importo de verdade em aparecer.

Eu sei bem como se importa…

Sua rata egoísta!

Sua porca interesseira!

     Sobre uma coisa, porém, as filhas estavam certas: ela gostava de mergulhar profundamente na televisão.     

    Foi em uma terça-feira do mês de janeiro, não que Maura fosse se lembrar da data, mas havia assistido a televisão por volta de oito horas consecutivas. Os filhos não estavam presentes, mas ela também não deu pela ausência deles. A enfermeira que ficava na casa algumas vezes na semana falava em voz alta com seu namorado na sala ao lado. Suas conversas eróticas seriam facilmente escutadas se houvesse mais alguém por perto, mas ela acreditava piamente que a senhora Maura havia passado para a outra vida, deixando só o corpo, uma sombra vaga que fica e habita, mesmo quando todo o resto insiste, implora, para ser deixado para trás. A indiferença era a única característica que marcava a velha senhora. Sentia como se toda a indignação de evitar conflitos e situações dignas de asco fosse apenas um privilégio da juventude. Respirou profundamente, mas ainda que alguém estivesse por perto, não teria notado a diferença entre a leveza e o peso. A enfermeira seguia na chamada.

Cale a boca, seu idiota. Ela está vegetativa! Só a carcaça envelhecida fica ali o dia inteiro. Sim, eu sei o que estou falando. Você pode relaxar. Eu vou…

O que você vai fazer comigo?

Você não dá conta.

Cala a boca.

Eu já disse que a velha é surda.

Se eu ligar a televisão ela fica parecendo um bebê.

Você pode aparecer hoje?

Ela dorme no sofá. A gente usa a cama grande.

    A enfermeira estava parcialmente equivocada sobre a morte precoce da senhora. Maura se sentia tão bem quanto uma mulher de noventa e quatro anos podia se sentir. No começo, quando perdeu os movimentos, irritava-se com a incapacidade de trocar o canal da televisão, mas aprendeu a gostar de tudo o que estava passando, inclusive dos esportes. Naquela noite especificamente, ela juraria se pudesse falar, sentia-se completamente confortável com a programação. Na televisão A Sociedade dos Poetas Mortos havia encerrado para, em seguida, começar a sessão da madrugada com O Exterminador do Futuro. Depois de envelhecer, quando se percebeu incapaz de se expressar, Maura se reconheceu como uma grande fã do famoso ator Arnold Schwarzenegger. Talvez lhe faltasse versatilidade na interpretação, admitia, porém, adorava um brutamontes com cara de maluco que era capaz de explodir tudo. Estreitou os olhos para prestar melhor atenção no filme e sentiu o cansaço lhe pesar. Não era tarefa fácil ser uma velha que vivia para assistir TV. Maura fechou os seus olhos, sem nunca saber se os abriria no dia seguinte. Havia inúmeros relatos de pessoas que morriam durante o sono, ela não estava livre da ameaça da morte nem durante o repouso. Os lábios se abriram discretamente em um sorriso fraco, que desapareceu em instantes. Ela honestamente já não se importava em viver ou morrer. Cada novo dia era quase igual ao anterior, só os filmes eram diferentes. Quando fechou os olhos naquela noite, Maura nem desconfiava do que a esperava quando despertasse. Tudo seria diferente na próxima vez em que abrisse seus olhos.

O Lanterneiro

Sucede que o rapaz tinha cidade de origem e tinha enorme orgulho dela, porém, a emoção transbordava de seus olhos negros como a noite. Sua pele era amorenada e seus cabelos compridos. Na cabeça um boné velho que outrora deveria ter sido laranja, mas agora parecia bege, o acessório marcado pelo desgaste do uso assim como a insistência do sol marca a pele. O rapaz, como você pode imaginar, também tinha nome, mas gostava mesmo é de ser conhecido pelo ofício! Sou lanterneiro, dizia ele, de onde venho sou o melhor no que faço. Como tu chama o lanterneiro pros teus lados? Bate-chapa? Funileiro? Lanterninha? Consertador? Conserteiro? Faz tudo? Bicador?

Ligeiramente sem graça, o sujeito de camiseta preta pediu para que o adolescente com trejeitos de homem feito explicasse sobre a sua função e se calou sobre o ofício do lanterninha. Não queria confundir o jovem falando sobre cinemas. O lanterneiro inflou de orgulho antes de contar. Fabrico lanternas, meu senhor, e lá dizem que sou o rei das lanternas. Também conserto e troco os faróis dos carros. É o que faço pra viver. O patrão diz que tenho sorte de trabalhar com ele, eu também acho, que nem todo mundo paga R$ 600,00 prum menino, mas que ele que é bom e reconhece meu trabalho, paga o que eu valho. Costumo de ficar de 7 até 13 horas por dia lá na empresa do patrão, mas não têm problema. O patrão é quase um pai pra eu. O pai, por outro lado, sumiu no mundo quando eu era criança e a mãe não parece que gosta muito de mim. Diz que desde que eu nasci ela ficou feia. Será que a gente pode ter culpa na feiura do outro, meu senhor? Falo da feiura que mora pra dentro e da feiura que a gente acaba de notar no espelho quando têm uma pereba na cara ou o cabelo não fica do jeito que a gente gosta. O lanterneiro respirou e pareceu suavemente distante, a tristeza marcando suas olheiras arroxeadas, a reflexão tão profunda aparentemente não compatível com um rapaz tão novo e tão simples. Pago a conta da casa e trabalho. Fiz escolinha até os catorze anos e é por isso que sou um tanto esperto. Dá pra ver que eu era o melhor da turma? Sei somar e diminuir. Sei até multiplicar o básico. Pareço esperto, meu senhor?

Então, lanterneiro, eu pude mesmo notar que você é um rapaz esperto, mas isso não explica você ao meu lado aqui neste avião. O moço sorriu e foi tomado por um certo constrangimento. O homem com roupas simples tinha o cuidado de desviar os olhos do garoto lanterneiro, que às vezes parecia revolver para dentro, como quem respirava em si para se permitir continuar. Nessa vida a gente num quer saber só de ser o melhor em lanternagem, não é, meu senhor? Visivelmente embaraçado pelo pronome de tratamento, o ouvinte finalmente interferiu. O meu nome é Roberto, meu caro lanterneiro. Ainda que eu possa continuar te chamando como preferires, eu insisto que me diga o seu nome. O lanterneiro pareceu alegre e surpreso, um sorriso jovial e amarelado brotou repentinamente, mas logo se recompôs em sua postura resguardada e tímida. O sorriso morreu, mas a lucidez do rapaz era digna de espanto. Pois eu sou Amaro José Gonçalves Rosa, sen… É. Seu Roberto. O lanterneiro estava encabulado, ainda assim, ofereceu a mão para um cumprimento e Roberto a apertou com energia. Agora continue sua história, rapaz.

É que até o mais simples dos homens sonha com uma moça pra se ajuntar, né? Ninguém quer ser sozinho e qualquer bobão sabe que a solidão dói. É aí que mora o meu coração, Seu Roberto. Eu conheci minha namorada faz quatro anos, mas nunca vi ela de perto. Roberto pareceu visivelmente incomodado e já pensou nas inúmeras hipóteses de golpe que o pobre lanterneiro poderia ter caído, mas o jovem riu com tanto gosto que ele relaxou. Fica calmo, senhor Roberto. Roberto. A gente já se viu por câmera, entende? Essas coisas da internet. A gente se conheceu no Face e fala sempre. Já fiz aquelas chamadas de vídeo com a mãe dela também. A gente até jogava um joguinho junto. Ela é de verdade, afirmou como quem já estava acostumado a explicar a situação constrangedora. Então você está indo se encontrar com sua namorada? O rapaz sorriu largamente. Sim, eu até tô atrasado, mas dessa vez vai dar certo. O pai dela tá precisando de um lanterneiro. Ela diz que não aguenta mais de saudade e que precisa de mim e que quer se ajuntar logo. Eu também quero ela sabe. Ela é diferente, sabe, muita gente não sabe, eu mesmo não sei se sei, mas ela me acalma. Às vezes a vida é corrida por demais e é bom ligar a câmera e ver ela. Até posso ficar de vergonha quando encontrar com ela porque sou inexperiente na vida, mas quero ver ela, senhor. Quero dar um abraço apertado nela e um beijo, disse e corou como se a revelação do beijo fosse incriminadora.

Roberto decidiu que era melhor não perguntar sobre como ele havia conhecido sua paixão, mas não pôde segurar sua curiosidade. Já deu errado antes? O lanterneiro sentiu a alegria minguar, porém, não pareceu abalado. Era extremamente esperançoso, apesar do nervosismo, no que o futuro lhe reservava após o voo. Primeira vez que eu comprei passagem, eu comprei errado. O homem do cyber falou que eu comprei num site falso. Gastei todas minhas economias, R$ 1.500,00, mas era um site falso. Aí tive que juntar o dinheiro de novo. Levou meses. Aí não fui apressado duas vezes e tô aqui. Roberto sorriu e tocou no ombro do rapaz. Aqui está você. Cruzando o país por amor. O sorriso singelo do lanterneiro fez Roberto continuar. Vai dar tudo certo, rapaz. Você decerto desconfia que por aí vão te chamar de louco, mas eu admiro sua coragem. O lanterneiro, apesar de esperto, não pareceu entender o comentário. Como assim? Roberto explicou: acho que isso que você está fazendo é muito bonito. Realmente bonito. E quem revolveu para dentro pensando na própria vida foi o doutor Roberto.

Se o que faço é bonito, não sei mesmo, seu Roberto, mas é que a gente se apetece de fazer o que gosta e precisa de fazer, né? E bonita mesmo é ela, seu Roberto. Minhas mãos tão suando, ocê tá vendo, mas é tudo junto. Sair de Sergipe e ir pra cidade grande, voar de avião, medo de não chegar lá. Roberto suspirou e se viu novamente na necessidade de encorajar o rapaz. Havia algo no lanterneiro que o fazia lembrar dele mesmo, exceto pelo fato de que nunca havia sido tão corajoso assim. Roberto se lembrou dos tempos em que tinha fobia em falar com outras pessoas, mas um amigo seu sempre lhe dizia: tudo o que conscientemente negar aos outros, é punição ou bênção para você mesmo. Quando alguém entra em um avião, cheio de medo, preocupado com a vida ou com a morte e precisa apenas ouvir a voz de um desconhecido para ficar bem, não é dever moral do ouvinte ser também falante? Vou chegar em Guarulhos junto com você, senhor José, o lanterneiro. Eu preciso correr para o avião que me leva até minha cidade, mas posso te guiar até o caminho. Você vai chegar no seu destino. Vai encontrar sua namorada. Vai poder ser lanterneiro outra vez.

O lanterneiro sempre falava sem pensar, mas desta vez guardou o pensamento. Sabia que era lanterneiro mesmo sem a lanternagem, como o jardineiro é jardineiro mesmo sem o jardim. Ele vai continuar olhando para as flores e plantas, vai continuar pensando em cuidar, continuar tendo o cuidado necessário para o que precisa de cuidado. Sentia-se bobo, mas pensava em consertar coisas antes de dormir. O restante do voo foi curto e José reconheceu a sorte de ter Roberto sentado ao lado. O homem o ouviu durante todo o percurso e ainda o encorajou. Era tão bom ver alguém diferente dele próprio e das pessoas de sua terra que ele se sentia aliviado. Ninguém sabia como seria a seguir, pois nem Deus e nem o Diabo ensinavam sobre como tudo é diferente quando a gente sai de perto de algo que é tão confortável. Cá que mereço uma vida melhor pra mim, seu Roberto. É por isso que saí de lá.

José se despediu de Roberto com outro aperto de mão. Este voltaria a pensar no lanterneiro inúmeras vezes, mas o primeiro só se lembraria da fala tranquila do homem no avião, esquecendo-se pouco depois de seu nome. O lanterneiro desceu do avião e foi guiado por uma atendente da companhia aérea até o próximo avião. Ainda tinha que pegar um trem e depois um ônibus na rodoviária, mas estava cada vez mais encorajado. Sentia como se a felicidade fosse a única consequência de tamanho risco. Meu povo não se esconde e nem eu. E é que eu amo ela e o jeito toda que ela é comigo. Se deixei minha terra é pra ser feliz. Se lá na minha cidade fosse feliz acho que não existia motivo pra sair, né, disse em uma conversa com ele mesmo. O antigo patrão dizia que falar sozinho fazia bem para a mente e o lanterneiro confiava completamente no patrão. O homem fazia tão bem pra ele, um mero menino trabalhador, que deu uma barra de chocolate grande e um abraço rápido antes do lanterneiro se despedir. Vai ser difícil achar alguém tão competente e com o custo benefício tão bom quanto o seu, meu guri. Boa sorte. Se tudo der errado lá pra sua nova vida, eu te recontrato por metade do salário. José acreditou que era muita bondade do patrão e agradeceu, totalmente enrubescido.

Sucede que o rapaz chegou até a cidade que queria e encontrou a namorada que nunca havia namorado até então. Cortou o cabelo e trocou o boné bege por um chapéu de caubói. O rapaz ainda chamava José, que nessa vida ninguém muda de verdade o nome que recebe, mas não havia Diabo ou Deus que o persuadia do contrário: ainda preferia ser conhecido como um lanterneiro ou até como O Lanterneiro.

Sobre o futuro e o destino dele, não é incumbência do narrador revelar, assim, suponho que cada leitor conclua o que bem entender sobre a pureza e a ingenuidade do rapaz. Certamente há quem creia que o lanterneiro José se deu mal na vida, entretanto, outros vão escolher acreditar que ele foi o lanterneiro mais famoso da nova cidade e viveu uma vida boa e simples até seus últimos dias. Quem saberá dizer se ele teve filhos? Quem algum dia saberá se viveu feliz ou triste? Só uma coisa era certa sobre aquele adolescente que se formava cada vez mais homem e que um dia virou homem tão seguro de si que ninguém sequer imaginava que um dia ele havia sido adolescente. Ele nunca se arrependia e sempre tinha a coragem de seguir os desejos do seu coração. Resolvi que era necessário relatar resumidamente a história de um rapaz que entendia tudo sobre luz e que jamais teve medo da escuridão.

Prelúdio de um assalto

O corpo de Miguel estava inerte no sofá e sua respiração era tão lenta que era quase impossível dizer se estava vivo ou morto. O cinzeiro estava cheio de bitucas de cigarro e o piso acarpetado também. Mu acreditou que apenas a sorte do desgraçado havia impedido com que o apartamento queimasse, pois o parceiro sempre se drogava e perdia a noção das coisas quando estava frustrado. Tendo por base o cheiro de bebidas baratas e prostitutas, Miguel havia estado bastante decepcionado. Juca estava sentado com a coluna completamente torta. A boca aberta liberava um ar fétido e Mu teve vontade de arrebentar a boca do idiota com socos.        
Escutem aqui, seus merdas! Nós não somos sócios? Que diabos vocês estão fazendo nesse apartamento de merda? Não me recordo bem, mas parece o cheiro do rabo da sua mãe, Juca. O outro retardado está vivo?!
Ele fodeu tudo outra vez, cara. É sempre assim… – Comentou Juca sem qualquer emoção na fala. 
Você nos botou nessa, Ferraz. Agora estamos fodidos assim… – O único homem sóbrio no quarto desferiu um soco violento em Juca.        
Vou te relembrar das regras, seu drogado de merda. Nunca me chame de Murilo ou de Ferraz. Vocês, palermas, possuem o péssimo hábito de serem uns fracassados do caralho, mas não me envolvam nas suas burrices. – Disse com a face transformada em um esgar odioso.        
– Tanto faz, cara. Tanto faz… – Seu tom era exageradamente despreocupado e tranquilo. Agia como se nem tivesse sido atingido. – Ele desobedeceu seu plano. – Indicou com a cabeça. – Por que não o soca também? – Mu sentiu a raiva crescer. Talvez fosse melhor mesmo se livrar de idiotas como aqueles, mas não tinha associados competentes para o próximo assalto. Miguel e Juca não eram tão ruins, porém, eram especialmente fracos com as drogas. O primeiro era viciado em cocaína e Juca usava de tudo um pouco, mas estava conseguindo se controlar nos últimos meses. A fúria de Murilo era grande. Não perdoaria a incompetência.        
Quanto tempo até que o Miguel deixe esse estado vegetativo? – Perguntou ligeiramente irritado. – Quanto tempo até que você possa ser útil? – Juca ergueu calmamente os olhos e os susteve com tranquilidade na direção de Mu. Não havia raiva e nem incômodo.        
Eu só preciso de um banho, cara. Aquele ali acho que não sai do lugar. Talvez um chute na barriga ajude, entende? Acorda com um sustinho básico e vomita o que precisar, mas aí a gente levanta e vai. Se você achar mesmo que a gente precisa dele…        
Você sabe como são os meus alvos, Juca. Precisamos de três e eu não conheço mais ninguém apto.        
Tá de sacanagem comigo, chefe? Olha, cara, numa boa, minha mãe aleijada é mais útil que esse fodido. Eu conheço um cara que pode ajudar a gente. O apelido dele é Aborto e você imagina a razão. O maluco nasceu do avesso. É mais feio que enrabar a irmã no natal, saca? Tão feio que ele assusta as pessoas com a cara dele mais do que aquelas suas máscaras de esquiador. – Mu odiava contar com o apoio de desconhecidos, mas deteve o olhar minuciosamente em Miguel. Ainda não sabia se o sujeito estava vivo ou morto.       
– Ligue para esse filho da puta. Pouco me interessa se ele é bonito ou feio. Precisamos de mais um. – Disse e seguiu para o banheiro. Gritou antes de empurrar a porta com violência. – Você toma banho depois que eu mijar.         – Cuidado com o cavalo de Troia, cara. –  Disse e pegou seu telefone para discar o número de Aborto. A chamada estava em espera. Juca era preguiçoso, mas não incompetente. Sabia desde o dia anterior que Miguel jamais conseguiria e ele mesmo havia antecipado a grande oportunidade para o colega de infância apelidado de Aborto. Mu já estava mijando quando viu e sentiu a podridão da maior cagada de toda sua vida.        
PORRA! – Berrou furioso, mas continuou a mijar em cima dos monstruosos pedaços de merda. Eram tão grandes que cobriam a água. – CARALHO! DE QUE CU ARROMBADO SAIU ISSO? VAI SE FUDER, FILHO DA PUTA.        
Cara, eu estou no telefone com o Aborto. Se você tá tão pistola é a hora de colocar o Miguelito pra desentupir essa porcaria. Eu vou tomar meu banho prendendo a respiração. – Parou de falar com Mu por um instante. – Alô? Fala, meu bem abortado. Como é que está essa minha placenta?        
Puta que me pariu. – Resmungou Mu antes de decidir que era melhor se calar, pois o cheiro horrível estava agora em sua língua e em suas narinas. Fechou a tampa e saiu sem lavar as mãos. Olhou com um ódio crescente para Miguel que seguia deitado. Mu ainda não sabia dizer se ele estava dormindo ou morto, porém, já não interessava. – Melhor que esteja morto, arrombado filho da puta.        
Certo, cara. É isso. Mu é o melhor do ramo, nunca errou. Vamos ganhar um cash alto, coisa supimpa mesmo, saca? Depois você pode fechar a zona e passar suas DST’s para quantas putas quiser. Se quiser comer cu de macho também não é da minha conta, Aborto, só não me enfia no meio desses seus rolos. Sabe que eu ainda quero me casar na igreja? – Mu esperava agora com mais paciência do que antes. Juca deu um esboço de sorriso pela primeira vez. – Você é um filhinho de uma putinha, cara. Eu ainda vou casar na igreja com uma mina firmeza, saca? Uma que tenha todos os dentes na boca e que vai parir o Juquinha. A gente não precisa ter essa vida de fodido, precisa?        
Não. – Sussurrou Mu com pensamentos irritadiços e distantes. Recordou-se da vida boa que tinha antes de mergulhar nos crimes, mas jamais voltaria. Os grandes assaltos eram uma espécie de talento natural. Se sou bom nesse ofício, eu preciso continuar, certo? Eu dou sentido para o emprego dos policiais filhos da puta. 
– Que se foda, seu abortado. O Juquinha vai ter uma boa vida, cara. Vai estudar em colégio grão fino e vai fazer três refeições por dia. Vai até comer pão com… – Pensou e olhou para Mu. – Como chama aquele doce lá que todo mundo gosta? Aquele marrom.       
Nutella.        
Isso. Vai até comer pão com nutella nos domingos, sacou? Isso eu garanto, cara. Chega desse papo. Ainda não tenho a morena então vamo ao que interessa. Vamos passar aí. – Tapou o fone e olhou para Mu. – Que horas vamos lá?        
Passamos em meia hora. Ele não precisa de nada. Estou com as armas, as máscaras e o plano.        
Meia hora, cu sujo. Passamos aí em meia hora. Não se atrase. Meu patrão preza pela excelência e não quero que ele tenha a sensação de que eu troquei um ladrão de merda por outro. Ok. Até já.        
Eu te espero lá no carro. Nove minutos, no máximo. Você tem certeza que esse Aborto é alguém em quem podemos confiar?       
Relaxa, cara. O maluco estudou comigo na quarta-série. É mais burro que uma porta com os números, mas assalta desde os doze anos. Nunca foi pego pelos homem, tá ligado? Conheço a peça. Se o seu plano…               
Você sabe que eu não falho. – Cortou com aspereza. – Seis minutos. Mu deu mais uma olhada para Miguel ainda imóvel no sofá. – Se esse merda não morreu ainda, eu quero que você me lembre de matarmos ele na volta. Arrombado viciado de merda. Já não bastasse atrapalhar quase sempre, ainda entope a privada… – Resmungou e bateu a porta ao sair apressado rumo ao carro. Juca sorriu genuinamente e esfregou as mãos andando vagarosamente até o banheiro.        
Nunca falhou até hoje, burguês filho da puta. – Chegou perto de Miguel e o analisou. – Seu merda. Nunca entendi sua lealdade por esse porra do Ferraz. Viadinho chupador de cacete. – Disse e cuspiu no homem deitado. – Deu conta de se arrebentar sozinho, mas depois disso foi fácil te tornar completamente incapaz. Vou sair pra esse roubo, mas não volto. Boa morte, cara. Minhas últimas palavras pra você? Sua lealdade te ferrou, seu arrombado. Parabéns por ter nascido como gente e morrido como uma anta. A gente se vê no inferno. – Cuspiu de novo e seguiu para o banheiro lavar apenas os sovacos e o pau. Era da opinião que deveria estar cheirosinho quando encontrasse aquela que seria a mãe do Juquinha. 

Nossos dragões

Os olhos de Tristan encaravam a criatura gigantesca, mas só instantes depois pôde se permitir a acreditar no que via. Um dragão maior do que uma montanha prostrava-se diante do cavaleiro. Os olhos de Tristan marejaram, e os pelos de seu corpo inteiro se eriçaram. O seu avô, Tristan I, havia dito que em uma de suas centenas travessias pelo Oásis de Freoni, vislumbrara a beleza e o terror de um dragão. 

Você não vai acreditar, briguento, mas o bicho era maior que tudo o que você já viu. Maior do que um grifo, maior do que um sapo-rei, e maior até do que os muros da capital das luzes. Eu estava com Samir, Beltenker, Himmurd, que Amon Rá os tenha, e Grass. Só Grass e eu estamos vivos nos dias atuais, ou, pelo menos foi o que me contaram. Beltenker faleceu há 15 anos, Samir na década passada, e Himmurd ano retrasado. E não tenho notícias de Grass desde o velório de Himmurd. 

Tristan esperava pacientemente que os rodeios da história de seu avô terminassem para que ele continuasse a descrição do dragão. Seu pai lhe ensinara que os velhos, apesar de lentos na fala, sempre tinham algo sábio a ensinar, mesmo quando não pretendiam que seu ouvinte aprendesse.

Feroz, briguento. O dragão parecia feroz, mesmo dormindo. Estava descansando a cabeça dentro do pequeno lago que havia no oásis, e protegendo seu próprio corpo com a cauda. A cauda, briguento, era tão longa a ponto de conseguir protegê-lo em trezentos e sessenta graus. Só conseguiriam atacar o dragão pelo alto, mas quem seria suficientemente louco para atacar uma criatura gutural e temível? Eu não, e nem meus companheiros cavaleiros. Grass era o único mago da pequena companhia e se demonstrou ainda menos curioso do que nós. O velho abafou a vontade de rir e continuou o monólogo.

Não façam barulho. A audição de um dragão é mil vezes melhor do que a de um humano, e eles podem ouvir os pensamentos turbulentos também. Não o encarem muito. Sua pele esconde olhos que observam ao seu redor enquanto os olhos da face descansam. Não respirem muito forte perto dele. A respiração de um dragão puxa muito ar. Se ele sentir que mais alguém está puxando o ar, nós podemos estar encrencados”. É claro que nós cavaleiros seguramos a gargalhada. Sabíamos que os magos eram sábios, mas nós conhecíamos também um homem apavorado. Grass agia de uma maneira excessivamente sistemática.

O velho divagou por mais um instante parecendo rememorar com pesar o seu passado que nunca mais retornaria. De repente seus olhos faiscaram com a lembrança. 

Gigantesco! Ficamos a observá-lo por uma hora ou quatro, quem sabe dizer? Sabíamos que presenciávamos algo mágico e não ousamos nos mexer. O dragão se revirou, e sem tomar conhecimento de que era observado, ou, sem se importar com isso, sentou-se por um instante antes de voar. Sua pele era negra e reluzente, e parecia que toda a extensão de seu corpo era pesada e resistente como placas de aço. Abriu a boca em um longo bocejo, e vi dentes que seriam capazes de destruir metade de um castelo em uma mordida. Seus olhos eram púrpuros e incandescentes, e por um milésimo de segundo estiveram em nossa direção. Prendemos a respiração, paralisados, como quem aceita que a morte em uma circunstância tão singular não é tão ruim, mas também como quem sabe não ter como reagir. O dragão não nos deu importância. A nossa vida não o interessava e deve ter imaginado, com razão, que cinco coisinhas não ajudariam a saciar sua fome. Bateu suas gigantescas asas e voou. Samir foi arremessado dez metros ao longe pela lufada de ar, e nós só não tivemos o mesmo destino porque nos agarramos firmemente em árvores. Ah, briguento… Quase ninguém acredita nessa história, e ninguém se importa mais. Os que viveram para ver já não estão mais entre nós, e a nova geração só bebe e engorda. A paixão pela aventura morreu. Você acredita no seu velho?

Tristan deixou as lágrimas escorrerem por seu rosto. Na época em que escutara a história havia acreditado plenamente em seu avô, mas com o passar dos anos e o aperfeiçoamento no ofício de cavaleiro de Prontera, aprendera a distinguir os animais dos monstros e os monstros dos mitos. Um dragão não passava de… Verdade!  

Os dragões eram mesmo reais. Este que estava defronte a ele não era o mesmo que seu avô vira quase um século antes, mas era, sem sombra de dúvidas, um dragão. Grande como uma montanha, e com uma pele vermelha e incandescente que lembrava um vulcão. Tristan estava desnorteado demais para encontrar palavras para descrever o que observava.

Espero que me perdoe, velho. Cresci e passei a achar que todas as histórias infantis eram criadas para impressionar crianças. Ah! Eu estava tão errado, mas agora já não importa. Em algum lugar do outro mundo iremos nos encontrar, e falaremos sobre nossos dragões! Neste outro mundo é que decidiremos qual foi o mais majestoso e terrível! Descanse em paz, meu bom velho. – De repente Tristan estava cansado. Sentia o peso de suas quarenta e uma primaveras sobre os ombros. – O seu briguento ainda não tem filhos, e nem é um rei tão importante ou imponente quanto deveria ser. Como venceremos essa guerra, meu velho? Como mudarei o destino? – Tristan suspirou. – Não tenho as respostas que gostaria, mas saiba que o seu briguento vai até o final com isso. Pela linhagem dos reis, pela população, e por Prontera! Por nossos dragões não imaginados também…

Tristan sentou-se e ficou a observar minuciosamente a criatura. Sentia em suas entranhas que jamais teria outra oportunidade de contemplar uma lenda viva. Admirou a beleza do dragão até ser lentamente arrebatado para um sono profundo e sem sonhos. Dormiu com tranquilidade pela última vez antes da guerra que se aproximava.

Este conto é do ano de 2017 e utilizei o cenário do jogo Ragnarok como fundo para minha história. Criei-o como um exercício de escrita e acabei me afeiçoando ao texto, pois me fez lembrar de momentos distantes e irrecuperáveis que vivi com meus próprios avós.

O que não se espera

O que não se espera é sempre excitante. A promessa do que está para chegar nos deixa ébrios, mesmo antes da bebida. E bebemos, é claro, quem deixaria de beber em uma noite tão quente? Quem deixaria de beber em uma noite tão bonita? Quem deixaria de sorrir com uma companhia tão bendita?

Nem tudo o que falo é bem dito. Às vezes gaguejo num constrangimento bonito. Torço, porém, para que nossas atitudes benditas sejam também. Que mal faz em beber um pouco além? E a curiosidade que há é porque há de haver. A gente se conta e se desvenda um pouco demais, um pouco ou muito além do que é preciso. E a preciosidade que há em conseguir fazer brotar num rosto novo um largo sorriso mexe por dentro. Dois estranhos se estranhando e descobrindo a inédita felicidade que se compartilha em momentos bons. Silêncio. Barulho. Sua voz. A minha voz. O reconhecimento é tácito. É como se algumas pessoas soubessem pegar atalhos.

Escolhe aí o que você quer beber.
– Por mim tanto faz.
– Por mim também.
– Essa não te dá dor de cabeça?
– Eu nem sei.
– Tanto faz?
– Tanto faz.

E aí a gente se perde e quer forçar o esquecimento. Um clima pinta, a gente se finta, antes de voltar a se fitar. Suas palavras derramam tinta, mas não é você que pinta? E o clima amistoso muda e tudo parece ligeiramente fora de lugar. Eu mais dentro de olhos grandes provocativos, os olhos também em mim. Que é que há?

Não era a última?
– A próxima vai ser.

E a gente sabe que poderia continuar até amanhecer, mas não vamos. Hoje ninguém sai embriagado. Então recuo depois de ter avançado. Na verdade é quase como perder o tempo certo de furar o sinal durante as madrugadas. Arrependo-me, mas menos do que eu gosto de admitir. Ainda assim sei que não posso e nem vou me repetir. Este é o dilema que se apresenta e urge em mim um desejo de consumir. Refreio-me. Os limites, repito em voz alta, existem sempre.

O que não se espera é que tantas vontades surjam tão de repente.

Cristopher Green

     Cristopher Green era o tipo de homem menos verde que havia. Em todos os aspectos que se pudesse descrevê-lo, ele era cinza. Usava sempre um terno preto com uma camisa social branca por baixo, remangada, embora ninguém jamais soubesse. É que odiava a sensação dos fechos e do botão em contato com a pele. A calça e os sapatos eram pretos, pois preferia a noite. Se fosse alguém diurno, Cristopher não hesitaria em usar calças cáqui e sapatos brancos. As únicas pessoas que ele tinha na vida estavam habituadas a chamá-lo de Cris e os desconhecidos o chamavam de Sr. Green, embora não existisse nada mais irônico. Cris costumava evitar a luz do sol e jamais passava protetor solar na sua pele alva e sardenta. Fazia a barba sempre com quatro dias de atraso de um jeito que era comum que estivesse com um aspecto de abandono. Seus cabelos escuros e compridos desciam até a altura dos ombros e eram rebeldes, despontando para os lados, mesmo que o sujeito não os penteasse por opção. Cris odiava o pragmatismo da maioria das pessoas, ainda que isso nunca o tivesse tornado agressivo. Sentia-se avulso ao mundo. Isolava-se sempre que conseguia, mas não conseguia se afastar sempre. As coisas eram diferentes no mundo de Cris. Suponha que na sua cidade o pôr do sol acontecesse às 17h45, Cris já estava escuro desde às 16h00. Se o nascer do dia ocorresse às 6h00 com o primeiro canto matinal de um galo, Cris contrariava a lei natural. Despertava em três horários diferentes: 04h33, 11h36 e 15h39. O restante das horas era vago e o homem acinzentava tudo que pudesse, como quem varre a poeira de um cômodo a outro sem realmente se livrar dela. Creio que você possa imaginar a profissão de Cristopher Green. Obviamente era advogado, até pela razão da ironia que haveria em seu nome se fosse engenheiro ou jardineiro. Claro que ele não era do tipo de cidadão que presava pelas causas ambientais, mas sempre era alvo de piadas sem nenhuma graça em relação ao sobrenome. O que você precisa saber sobre Cris é o que o motivou a fazer aquela estranha viagem de quarenta e dois dias para a Islândia: silêncio. O advogado só falava quando precisava, ainda que escutasse dezenas de pessoas na maior parte dos seus dias, estivesse literalmente acordado ou não. Cristopher sabia que a maioria das pessoas era tragicamente comum e eram vítimas ingênuas que não percebiam o quanto a sociedade as forçava a compartilhar hábitos, mas admitia que a lucidez talvez fosse um veneno sem antídoto. Uma vez que você algo, você nunca mais pode deixar de ver. Cris era ateu, mas sempre murmurava um deus me livre quando pensava em dividir suas excentricidades. Não havia pior pesadelo. Acreditava que a vida só valia a pena se as escolhas fossem realmente suas e o controle, mesmo descontrolado, centrasse em sua própria pessoa. Não se interessava em brigar pela razão, pois não havia razão que o descrevesse e nem descrição que o racionalizasse. Era muito exato para ser humano e seus instintos o impeliam a calcular hipóteses antes de agir, exceto no que concernia à súbita ida até a Islândia.
– O que há na Islândia, Cris?        
– Há a Islândia, Tom.       
– Isso tudo é por que você não come ninguém aqui, Cris? Vai cruzar o oceano por que não quer gastar trocados com prostitutas? Você é muito verde mesmo. Sabe que na Islândia é mais difícil, não é? É capaz de você foder uma pedra ou uma cachoeira ou um deus esquecido.        
– Claro, Tom. Verde como o meu nome. Sexo com deuses. É isso.      
– Vou te dizer, Cris. Você pode não ter o jeito com as mulheres como eu tenho, sabe? – Disse e cheirou o próprio sovaco em um gesto que fez Cristopher se sentir enojado.
– Use a tática do cabelereiro, Cris. Na adolescência vi muitos amigos que conseguiam fazer funcionar.        
– Que conversa é essa, Tom?       
– Sabia que ia te interessar, Cris. É simples. Você vira o melhor amigo da princesa e ela vai te usar como confessionário. Você saberá todos os segredos. Parece chato, não? Mas tenha confiança, Cris e no momento em que ela ficar vulnerável… BAM! Você mostra o seu verdadeiramente verde para ela.        
– Isso é nojento, Tom.      
– Isso é estratégia, Cris. E você bem que poderia fazer bom uso dela para se dar bem com as mulheres ou vai ser um virgem eterno, ainda que tenha transado com duas ou três. Estou dizendo, cara. De dez manés que usam essa tática, nove se dão bem. Às vezes a menina percebe a coisa endurecendo, Cris, e aí pula fora, mas nessa situação basta que você não seja tão verde.        
– Do que está falando, Tom? Isso não é sobre mulheres.        
– Então você é gay, cara?        
– Você é um idiota.        
– Um idiota que entende das gatinhas, Cris. Quer morrer virgem, cara?        
– Não sou virgem, Tom.       
– Pode não ser virgem porque perdeu a virgindade, Cris, mas na sua alma e na essência age como o maior dos cabaços.

     Cristopher sabia que aquele tipo de conversa ridícula era o tipo favorito de conversa de seu amigo Thomas Nutshell. A sorte de Cris era que a conversa nunca se prolongava, pois Tom era de idas e vindas costumeiras e estava quase sempre embriagado ou drogado. Ainda assim, Cris sabia que Tom possuía a rara capacidade de ser honesto, independentemente da situação. Era o tipo de cara que levantaria o punho contra o próprio pai, se o pegasse cometendo alguma injustiça e que afrontaria até os melhores amigos em caso de necessidade. Podia ter suas peculiaridades e indubitavelmente era um idiota, mas prezava pelo que era certo acima de tudo. Certa feita espancou um tal de Vicente que era da mesma roda de amigos que ele, pois o rapaz diz que usou da tática de se aproveitar de menina bêbada.
– É o que eu digo, Cris. Jogue a porra do jogo, mas não descumpra as regras. Aquele filho de uma puta… Arranquei alguns dentes do babaca e não me arrependo. Soube que a garota já estava desmaiada antes? Meu único motivo de alívio é que a menina abusada prestou queixa. Muitas delas sofrem com esses caras e não prestam, Cris. É um mundo fodido. 


     Thomas faria falta na Islândia. A maioria das pessoas existia placidamente de uma forma tão mecânica que Cris zombava da possibilidade de sentir a ausência delas. Sentiria falta de seus três gatos e de sua cadela, mas os humanos, ainda que semelhantes a ele pela espécie, pareciam-lhe completamente alheios pelas vicissitudes. Cristopher era cinza e sólido, pouco dado às mudanças, enquanto o restante mudava as cores e os cortes dos cabelos, as preferências sexuais, as residências, gostos, maneiras e maneirismos. Trocavam os restaurantes de sempre e os faziam ser os restaurantes do de quando em quando até que, enfim, por fim, fossem os restaurantes de nunca mais. Não havia apego ou constrangimento em alterar tudo subitamente, mesmo que não houvesse motivos e as refeições ainda continuassem quentes e perfeitas. Cristopher pensava que talvez na Islândia tudo fosse diferente. Ainda que os deuses quais não acreditava lá fossem mais antigos e menos esquecidos, ainda que a aridez desértica e gelada fizesse com que poucos habitassem o país, ainda que os céticos oferecessem a chance de degelo à própria insensibilidade. Cris se indagou sobre como seria ou não vasta a sua dieta. Provavelmente os islandeses bebiam sopa no almoço e na janta. Pelo menos a cerveja nunca estaria quente. Cris imaginou se alguém sentiria sua falta e concluiu que talvez e apenas talvez, Laura e Tom. Laura era a única mulher na vida de Cris que se fazia presente sem ter a obrigação. Não era agiota ou parente e tampouco colega de escola de Cris. Ela havia entrado casualmente na vida do rapaz em uma ocasião, quando ele estava sentado sozinho em uma praça. Ela se sentou ao seu lado comendo um bolo de três cores: branco, marrom e cinza. Ofereceu-lhe um pedaço e disse.
– Hoje é o meu aniversário.     
– Então você é do dia 10? Minha mãe é do dia 15 de julho.     
– Sim. Legal.     
– Parabéns.
– Obrigada.

     Os dois então comeram o bolo de cappuccino e compartilharam um silêncio estendido. O cabelo dela era quase prateado e Cris pensou que era semelhante ao da mulher do seriado, mas não sabia explicar qual era o seriado e por isso nunca chegou a perguntar para Laura se havia se inspirado na atriz. Cris era quieto e quase nunca falava. Ela, por outro lado, dividia-se em dois estados completamente opostos: o silêncio velado e a ininterrupta comunicação. Na terceira vez que se encontraram, Cris teve a impressão de ter respondido a mais de quinze perguntas e escutado pelo menos dez histórias. Considerava-se sortudo por poder dividir o tempo com ela, mas tinha uma intuição de que aquilo tudo um dia se perderia. Admitia que intuições eram como poderes abstratos e não fazia sentido crer naquele tipo de coisa, mas será que na Islândia encontraria respostas? Cris nunca havia usado a tática do cabeleireiro. Seria possível que Laura o fizesse cabeleireiro por ter segundas intenções? Impossível! Possível? Por que estava dando corda para algo leviano que Tom havia dito? E do que isso importava para alguém mecânico como ele, afinal? Cristopher Green respirou fundo e sorriu, o desânimo marcando as covinhas de suas bochechas. Para todas as coisas na vida, Cris parecia ser insuficiente. Era como se tivesse nascido para fracassar. Às vezes, porém, ele se olhava e pensava que pelo menos tinha o rosto perfeito e estranhamente adequado para que alguém o socasse em cheio.
– Sabe de uma coisa, Cris? Eu gosto de você.     
– Acho que também gosto de você, Laura.     
– Acha? – Disse e fez uma careta dramática, mas pensando naquela feição, meses depois, Cristopher se perguntou se ela estava mesmo preocupada com a resposta.
– Acho. Copo meio cheio, copo meio vazio. Faz diferença? Você tem água ainda. Pode beber se estiver com sede. – Laura gargalhou alto e de maneira escandalosa. Cris gostava dos pequenos surtos dela.     
– Diga-me, Cris. Você é a minha água para quando eu estiver sedenta? – Cristopher sabia que a pergunta era uma provocação, mas deu de ombros.     
– Sou. – Ela o observou com seus olhos grandes como a lua e escuros como o céu noturno. Ainda que pareça idiota, Cris admitiu que eles dançavam em pequenas doses de brilho, como estrelas despregadas do firmamento. Sentiu vontade de dizer isso a ela, mas sabia que seu romantismo soaria completamente bobo e constrangedor. Preferiu ficar calado. O silêncio era um bom amigo.      
– Você, Cristopher Green, é diferente, mas não é menos idiota que qualquer outro homem.

     Talvez Laura sentisse sua falta. Talvez Tom sentisse sua falta. Talvez não houvesse táticas ou respostas, mas apenas mais perguntas na Islândia. Uma vez viu o mapa de um jogo baseado no país e pensou que seria legal um dia visitar aquela imensidão. Se os dinossauros ainda existissem e suportassem o frio, aquele era o cenário ideal para que vivessem. Não fazia sentido que um homem tomasse, por vontade própria, um avião para a Islândia. Cris pensou em coisas que não costumava pensar. Lembrou-se de todos os seus horripilantes desenhos de quando era criança, mas a sensação de estar vivo o transbordava naqueles palitos feios e descoordenados expostos no papel. Era à época bom nos videogames e os amigos apanhavam para ele no Super Smash Bros 64, ainda que ele jogasse com Jigglypuff ou Yoshi. Era bom saber que era bom em algo, mas queria sentir que viver garantisse o sentido de sentir e bem, na maioria das vezes, a vida era vaga e faltava o sentir do sentido. Sentiu um peso e subitamente um alívio, mas não sentiu vontade de chorar, embora ironicamente tivesse sentido o aroma de café, completamente inapropriado para a fila de embarque que se fazia no túnel para entrar no avião. O cheiro foi um sinal de alerta de que poderia estar enlouquecendo.
     – Talvez eu ame algumas coisas e não deva. Talvez essa viagem seja uma inoportunidade oportuna. Talvez eu me conheça mais e valha a pena ou veja que gastei um dinheiro difícil de ganhar para me conhecer e entender que eu mesmo não valho o que penso, se é que penso valer mesmo alguma coisa. Só espero não morrer congelado enquanto estiver cagando. Quero uma morte bem morrida, daquelas que o apresentador do jornal possa falar sem precisar forçar a seriedade e que a mãe possa chorar ao dar a notícia. Alguém chorará por mim?

     Cristopher Green divagava. Sentou-se na sua poltrona e em seguida uma senhora gorda sentou ao seu lado. Alguns minutos depois ela havia adormecido e escorava a cabeça pesadamente no ombro de Cristopher. Ele imaginou que a maioria das pessoas se irritaria com a invasão de privacidade e em um dia comum até ele talvez se irritasse, mas não era um dia comum. Seus ombros ficariam doloridos, mas e daí? A dor vem e vai e por isso não importava tanto. Quase ninguém sentiria sua falta e naquele fim de tarde atípico, ele poderia ser exceção ao que todos costumam tomar pelo comportamento padrão.
 Que você durma bem, mulher gorda. Não sei o que há na Islândia, mas eu vou para lá e por coincidência você também. Espero que um de nós possa achar o que procura.

   Cristopher não era de dormir em aeronaves, mas apagou instantes depois enquanto imaginava se os dragões islandeses eram mais reais que os deuses inventados pelos humanos. De alguma forma não metafórica sentia a leveza de existir, como se o fato de viajar o desobrigasse das obrigações e o removesse de suas responsabilidades. Dormiu confortavelmente e sonhou que seu pai, sua professora de matemática na escola, Tom Cruise, Tom Nutshell e Laura estavam reunidos contanto histórias saudosistas a respeito de Cristopher Green, que era ele e ao mesmo tempo não era ninguém. No sonho seu nome soava como se ele tivesse sido especial em vida. Alguém algum dia faz morada permanente em outros corações? Somos especiais ou sempre mais dos mesmos? Cristopher acordou repentinamente quando, enfim, o avião pousou no Aeroporto Internacional de Keflavík. Sorriu pela primeira vez em algum tempo com a expectativa de descobrir o que havia na Islândia.