Discreto.

Inicio uma conversa franca
Defronte a uma imensidão branca
Sentindo uma enorme sede

A dor qual ela banca
Quando sozinha no quarto se tranca
E se atira contra a rede

Cogita desistir
Reluta em admitir
Não vê saída

Não sabe o que sentir
Esqueceu de como sorrir
Perdeu-se de sua vida

Escute-me hoje, por favor,
A face febril está em rubor
Tire o rosto da parede

A fase passa e também a dor
Recupera sua alegria e sua cor
A Tristeza têm olhos verdes

Aposto no que me aquece
Finjo crer nas minhas preces
Celebro minha existência

Príncipe que não se esquece
Demônio que se oferece
Anjo sem paciência

Abro um compartimento secreto
utilizando frases em outros dialetos
que encontrei em grimórios antigos

Concentro-me em pessoas e objetos
Sozinho sou e permaneço discreto
A infinitude de um caso perdido.

Sem título

Eu não sinto até que me machuque de vez em quando, ei, por favor, machuque-me esta noite, não, eu não quero que essa seja uma canção que se encerra no refrão ou antes mesmo disso, eu quero que possamos ser escutados através do tempo-espaço infinito, eu vou voltar para assombrar seus pesadelos quando você estiver longe de alcançar os sonhos meus e, eu vou sorrir enquanto te observo à luz daquele antigo segredo e a vejo cair nas contradições das promessas que nunca prometeu, mas disse sem dizer e a comunicação tácita também firma compromissos, eu te observo daqui, velha amiga, companheira, companheiro, veja, eu vejo que palavra é essa tão bonita, eu escuto a voz que começa mansa e termina viperina na madrugada abafada, o meu grito se abafa e tudo se esquenta, mas minha alma nunca pareceu tão gelada e, rogo, baixinho, para que me entenda quando eu falar e, discreto, movo um objeto e mudo de lugar o sofá. Sento-me então como se a posição da poltrona fizesse a diferença neste deserto ermo qual vivo e sobrevivo e aguardo na resposta certa a calma de que tanto preciso. Abismo. Quando você encara a imensidão do abismo, a imensidão do abismo te encara de volta. Tento não me inflamar pelas reações erradas, você vê, você pensa que eu penso muitos nos livros e eu penso que é melhor do que pensar na TV, mas achamos tantas coisas dos outros que acabamos com o melhor tipo de particularidade que existe na solidão da existência contínua, forçamo-nos ao poema e ao encaixe falso de uma rima e, alguém por aí ri de mim nesta madrugada sem fim e eu me sinto plácido, distancie-se de mim nestas horas escuras, meu paladar talvez esteja ácido e um cuspe seria capaz de corroer a pele mais dura, eu digo e repito, distancie-se de mim em minhas horas mais escuras, pois o verdadeiro bom é aquele que sabe a potencialidade que possui para fazer o mal e o nega, é aquele que nunca turva visão e nunca se cega, ainda que o mundo real como se apresenta nos remova toda motivação de sermos quem somos e de querer seguir em frente, não com rara frequência, a vida é cansativa e tudo o que a gente precisa às vezes é um pouco mais de paciência. Ei, seu tolo, você pode correr, mas não pode escapar e nem pode se salvar, é que todo mundo é vítima do amor e do ódio e da dor e da tristeza e mesmo os mais pomposos se ajoelham, sim, querida, eu vi sua bela face narcisa se ajoelhar em face de uma figura patética e mirrada apenas pelo amor puro, mas você tão cheia de si e repleta de beleza, veja, você estava de joelhos e de quatro por alguém quase invisível, eu sei, é complicado, nós chamamos um pouco da atenção pra nós, nós amamos melhores quando estamos sós e há uma mania que persiste em anular a própria personalidade em prol de alguém, não tremo, diante da dor subitamente me pego sereno, distante eu a vejo, de longe eu aceno e a dor dói e algumas coisas só são sentidas no estado mais sublime do Feliz ou do Triste e ignorei todas minhas notas pessoais e foquei em tudo o que existe. Eu, em mim, por mim, tentando escancarar minhas covardias e viver uma vida de coragem, tentando me embrenhar na mata só para provar meu instinto selvagem e me ver sangrando como alguém que também é capaz de fazer sangrar, de estar cônscio do momento certo ou errado de me afastar e ser proibido de tomar café, pois a audição de repente corre risco e a taxa de cafeína no sangue zera, mas nunca para esse maldito chuvisco e me arrisco de novo, bebo o cafezinho, pois talvez a vida só valha a pena se for assim. Insisto no que me faz, ainda que sutilmente, a continuar, viver feliz assim.

E me importo com todos
e quase ninguém se importa comigo.

Devo ter uma estrela no lugar do coração
e todo meu brilho deve ter sido engolido.

E me importo com todos
até nos dias de nuvens cinzentas.

E se projeta o meu corpo como escudo
de tudo o que considero uma atitude violenta.

E me importo com todos
Consciente de que isso não é saudável.

E sigo em frente, inconsequente,
Ainda que cada dia menos afável.

No próximo poente tão quente
Talvez o cenário seja mais favorável.

E me importo com todos,
mesmo que ninguém se importe comigo
ou com minhas estúpidas raízes.

É a sina de quem é feito de fogo
Ser esquecido e sobreviver
repleto de cicatrizes.

E eu tentei avisar que não é preciso esperar até os setenta anos para nos tornarmos sábios. E tentei avisar que a vida é agora e que não vale a pena apostarmos no que é claramente plágio. Ágil, eu acenei indicando a minha despedida. Fracasso, mas me pertenço e faço o que faço com a minha cabeça erguida.

Go then. There are other worlds than these.

E o meu coração hoje feliz segue sempre por um triz.
E a minha alma dança inspirada.
E o meu coração hoje feliz segue por um triz.
E a minha essência engrandece calada.
E o meu coração hoje feliz segue.
E eu que não sei dançar danço.
E o meu coração hoje é feliz.
E feliz eu finalmente canto.

Por mim.

E pelos outros.

Nunca meu tanto poderá ser tão pouco.

Com carinho e amor,

Daniel Rosa Possari.

Trabalho

Canto
desconhecendo a composição
Componho
desconhecendo a métrica
Pediram-me por um padrão
A contramão do instinto poeta
Querem me fazer de vilão
só por ter julgado a ideia tétrica
Não aceitei o trabalho
Descrevo-me, escrevo-me,
Sei do meu potencial
Quem sabe um dia você
Verá meu rosto na sua TV
Em um longo e chato comercial?
Não sei, mas não me regro
Não me fecho em contradições
Enraiveço-me quando me sinto cego
Outra vez me ergo rei das solidões
Conheço senhoras e ando por sertões
Desta vida conheço as veredas
Corro, ainda que
não me sinta apressado
Quando acordo meus
olhos fitam a escuridão
Encarcerados em um mundo
que chamo de passado
A vida é em frente
nem adianta temer
Melhor confiar no que se sente
E apostar na improvável chance
de vencer.

O café da madrugada

Aproxima-se no seu próprio ritmo
Sabe que está tudo bem assim
Pega a xícara e sorve um gole de café
Primeiro é noite e ele está sozinho
Na manhã seguinte ele continua sozinho
Na terceira noite chove muito forte
e ele sente uma imensa vontade de chorar
Bebe lentamente o seu café e não se esquece de o apreciar
É a primeira vez que odeia um feriado prolongado
Será que ele sempre esteve isolado assim
solitário na existência obrigatória e inútil dos dias?
Será que em sua vida inteira fez morada na fragilidade
escancarada de um castelo de cartas?
Será que sua miopia dos olhos era acompanhada
por uma espécie de cegueira total dos sentidos?
Será que a cafeína é sua única aliada?
Os pensamentos sombrios o atraem e depois o traem
A insegurança o domina e ele reconhece que
talvez apenas dessa vez fosse adequado,
Que palavra maldita, imunda e trágica, mas
talvez fosse adequado dividir o apartamento
Ali ele ganha dinheiro, mas não há ninguém
Quase não há com o que gastar o dinheiro também
Os idiotas todos dirão que ele poderá guardar
Dirão que poderá atravessar a fronteira quando quiser
Ele ri, pois sabe identificar um idiota de longe
Há coisas simplesmente inalcançáveis e
ele faz flexões incansavelmente até que se canse
Depois de mil flexões ele então bebe suco de limão
Não qualquer suco de limão, mas aquele mais caro
da prateleira alta no mercado e que quase
anuncia sua exclusividade para os que são ricos
Ele não se sente afortunado, pelo contrário,
Uma sombra cresce de maneira irrefreável
mesmo quando não há luz para que ela se propague
Há coisas simplesmente inalcançáveis, ele repete,
Concentrado agora deseja que sua alma se expanda
E assombre a noite dos miseráveis que estão
espalhados por aí bebendo, fodendo e se divertindo
Todos estão entregues e não se importam
Entregam seus corpos por pura distração
Seguem um desejo viciado e compulsivo e alheio
Pessoas encaradas como oportunidades e
uma espécie de conforto no conformismo
Na reflexão irrefletida do toque, do beijo, do sexo
Um no outro e outro no um e tudo isso
para inebriar o pesadelo que representa a solidão
A solidão é a única opção daquele homem naquela madrugada
Ele nem tem a chance de ser compulsivo ou impulsivo
Ele nem tem a chance de ser irrefletido ou irresponsável
E se tivesse será que trairia a si mesmo por reflexo?
É tarde da madrugada e ele segue absolutamente sozinho
Olha para as chaves do carro e está consciente
Não há nada para ele nas ruas alagadas e esburacadas
Aproxima-se da chave, segura-a, é o seu carro
O carro que comprou com o esforço do seu trabalho e dinheiro
Aqui, enfim, ele vê o sentido real do dinheiro como coisa certa interna
No restante do tempo são apenas cédulas, papéis impressos, o que se gasta
pelo consenso secular e tácito de que deveríamos estipular valores
Ninguém está errado e ninguém está certo,
Ele sabe que a solidão é a verdadeira mestra e assim como na escola
os únicos bons alunos são os que possuem a disposição de ouvir o professor
Ele nunca foi dos melhores alunos, porém escuta
Absorve lições no silêncio externo que extenua
o concerto desorganizado e barulhento que internaliza
Ele não se observa nos espelhos do apartamento, mas se nota
A profusão de suas comoções se extingue
Agora todos os caminhos o levam para um
Seu carro, seu apartamento, seu café, sua solidão
Vedado, cego, está enclausurado no fundo do poço
Ele segura o segredo ancestral do Universo
Ainda que em idade seja apenas mais um moço
Há dois grupos de pessoas que existem
Os que estão acordados e vivos e felizes
E os que estão dormindo com ou sem sonhos
Ele não pertence a grupos e não é lembrado
Está acordado em um ponto onde a realidade oscila
Não alterna, é ele mesmo, continua esquecido, sofre,
É caro, ele repete, mas paga o preço, até quando?
É caro, ele insiste e diz de novo,
Até quando resisto e faço com as
circunstâncias meu próprio jogo?
De repente nas profundezas do âmago
ele sente algo estranho e profundo e se divide
A alma é tão expansiva que pode ser fragmentada,
embora seja de conhecimento geral que isso não é saudável
Ele chove junto com a chuva e olha para a sacada
Nada na cidade se move, exceto a água
Ele não escuta nem a própria respiração
Indaga-se subitamente se morreu e acorda em um susto
mesmo reconhecendo que nunca tivesse dormido
Um raio cai e ele não recua nem mesmo um milímetro
Sempre teve admiração e medo de raios
Será que está mesmo vivo?
Subitamente senta de pernas cruzadas
Em seguida se levanta e vai preparar mais café
Sabe que precisa adotar um gato ou vai morrer
Entende que um dia deve morrer, mas espera morrer velho
Sabe que o cão sente a sua falta e o sentimento é recíproco
Possui o coração justo e não trouxe o amigo na mudança
Ele precisa de muita atenção para viver feliz e o homem
jamais teria mais de duas horas por dia para dividir com o bicho
Ele está mais feliz lá longe na outra cidade
Os homens podem se acostumar com a infelicidade
O rapaz trabalhador é miserável em todos os aspectos
O amor também se foi outrora e ele não acredita em distrações
Provavelmente mandaria embora uma bela mulher
ainda que ela batesse desesperada em sua porta clamando por sexo
Gargalha subitamente como um maníaco e pensa sobre absurdos
Isso nunca acontece e nem nunca vai acontecer
Está cronologicamente equivocado
Vai acontecer por meados de janeiro
No futuro alguém vai pegar um ônibus
para passar o final de semana com ele
Vai entregar tudo, mas esperando algo em troca
Ele avisou antes que não barganha sentimentos
Vá embora, eu não posso te dar o que você quer
A frase dura será dita, ele é compelido a ser sincero,
O futuro nem existe ainda e ele ri
Isso nunca acontece e nem vai acontecer,
mas acontecerá mais de uma vez
Ele estava preparado para a eternidade
Vai até a sacada e grita e xinga alto
Talvez nunca mais possa falar com uma mulher
Tampouco acredita que possa amá-las,
ainda que saiba que está disposto a ser honesto
Ninguém é sincero, mas ele seguirá assim
O homem que matou o charme
Sabe que é desajeitado, confuso e não entende nada de flerte
Essas coisas se aprendem?
Não acredita muito em aprendizado
Crê que pessoas possam aprender idiomas,
mas não crê que pessoas possam se aprimorar
Podem? Não, isso não é sobre outras pessoas
É apenas sobre ele mesmo que agora senta no sofá
Quantas malditas horas cabem em apenas uma madrugada?
Outra noite de solidão profunda e vazio existencial
ou será que ainda é a mesma?
Não interessa realmente quando não há aliados
Ele quer se sentir dono de si,
Quer se ver no controle da vida ao menos uma vez,
mas reconhece que talvez ninguém seja dono
de absolutamente porra nenhuma
E se soubesse o que quer o que saberia?
Abre uma lata de cerveja, bebe tudo de uma vez,
Amassa a lata e a coloca no lixo reciclável
Talvez tudo seja inútil, mas é melhor separar o lixo
Separa então o lixo como quem separa a si mesmo
Recorda-se por um instante de um bar e de gente
Recorda-se de sorrisos e de uma mulher tão concentrada
no próprio celular que parecia forçar a invisibilidade na vida
Ela falha como todo mundo costuma falhar, pois meses depois
na solidão daquele apartamento um homem revive a memória
E lembra dos olhos tão vidrados na tela
Ele anda pelo apartamento e paga as contas em dia
É uma delícia morar sozinho
É um pesadelo morar sozinho
Esquenta a água e cozinha cinco ovos
Come os cinco ovos, bebe mais uma cerveja
e tenta se lembrar se já praticou exercícios físicos hoje
Não está se sentindo disposto para ler
Pega o celular e pensa em enviar mensagens
É quando se recorda de que ninguém liga se está vivo ou morto
O importante é que está ganhando dinheiro
Ele se conforta com o pensamento dos outros
Como são estúpidos os raciocínios dos que nem se conhecem
e ainda acreditam que possam aconselhar sobre a vida alheia
Presunção, arrogância, intolerância de gente que se odeia
e às vezes nem percebe, pois há quantias suficientes
para comprar uma distração um pouco mais duradoura
O homem ri, mas sem achar graça
Faltam os outros, mas não falta ele mesmo
Está se descobrindo mais e mais
De repente um desejo cresce
inesperado e repentino
Decide bater uma punheta
Leva seu próprio tempo nisso
Só quem se masturba decide
fazer as coisas de modo rápido ou demorado
Se alguém batesse em sua porta ele não abriria
Está pelado e confuso
Não sabe em que momento tirou suas roupas
Lava as mãos e fita seu rosto cansado no espelho do banheiro
O seu corpo é bonito e conseguiria alguma atenção se o utilizasse
Nunca enviou fotos pelado e nunca as recebeu
Nem tenta se convencer de que isso é vulgar porque não o é
As fotos podem significar tantas coisas, mas raramente vulgaridade
Ele não deixa sua falta de oportunidade viciar uma impressão
de uma vida que nunca teve apenas porque não pôde ter
Nunca enviaria fotos pelado, pelo menos nunca de maneira repentina,
porém por algum instinto ancestral crê que algum dia irá receber
E a mulher então lhe dirá
Me desculpe, eu mandei essa foto por engano,
não conte para ninguém, por favor
”,
E ele não contará, mas se lembrará da foto
O homem ri novamente e já parece embriagado, mas não está
A lucidez que acompanha a sua sobriedade é um castigo
Nem todas as coisas são para todo mundo
Nem tudo que existe está disponível para todas as pessoas
Há os vaidosos e inteligentes e eles também se ajoelham
Odeiam ter que admitir, mas são escravos à sua própria maneira
Há os que erram e se desculpam, há os que erram e não se desculpam
e até os imbecis idólatras de espelhos que só sabem venerar o reflexo
Narcisistas empoderados, grosseiros e insuficientes 
Há toda a vida e toda a esperança
Há desesperança pura e caos
Há quem tenha sido esquecido em vida e lembrado em morte
Há tristeza profunda e duradoura, felicidade fugaz e sorte
Há os que fazem o que querem com quem querem
Há os que fingem a indolência e permitem
que os outros façam o que bem entenderem
Aceitam o papel de utilidade em uma espécie de resignação
crendo que na vida é melhor ter uma função do que nenhuma
Aceitam os trocados, não importa o valor metafórico pago,
Estão escancarados à venda ou para serem levados de graça
Não ficaram sozinhos o bastante e não se perceberam
Não possuem senso de valor individual e acreditam
que o amor e a felicidade que possuem seja
diretamente condicionado ao que merecem
Eles não fazem ideia do que merecem
O homem solitário se divide outra vez e se perde em suas partes
Um resquício de empatia o impele a explicar sobre o amor
que todos realmente merecem
Uma réstia de empáfia faz com que uma frase flutue
“Que se fodam os outros. Os outros não importam”
Ele quebra seus pedaços em pedaços menores
Talvez na manhã seguinte, se é que haverá manhã seguinte
ele tome xícaras de café forte e recolha seus próprios cacos
O amanhã não interessa por ora
Ele bebe mais duas cervejas e se indaga sobre capacidades
Às vezes o sexo será lento e seguirá uma rota sutil
É preciso saber exatamente o que fazer
Às vezes será agressivo, forte, animalesco
Uma vez se perguntará o que está fazendo ali
e se interromperá propositadamente no meio do ato
porque não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo
Há vitórias com gosto de fracasso
E há fracassos não tão amargos assim
Todo ser humano é capaz de ser fenomenal e patético
Ele já havia cumprido ambas as funções antes e cumpriria depois
Veja, ele tenta observar a parte externa de outra maneira
Troca a vista da sacada pela janela
e uma janela por outra janela
Faz isso como quem quer se convencer
de que a vida inteira muda se a perspectiva é distinta
O amor é medido sem medidas e ainda
é descartado quando sua utilidade se encerra?
Sonho febril e primaveril de infinitos
que sobrevivem aos anos e guerras
Não há insetos nessa noite de chuva
Talvez a aranha que mora em um canto esquecido
ainda esteja lá esperando pelos insetos também
Talvez estivesse fazendo companhia desde o começo
Talvez a solidão fosse apenas sua ilusão
Tudo é ilusório?
Ainda não se encontrou com os Fundadores
A chuva continua chovendo
Ele pega a caderneta e lê alguns versos horrorosos
O único consolo é de que realmente foram escritos por ele
Agora escreve uma frase que não lhe diz coisa alguma e a lê
Com que verdade falo sobre mim se nem me escuto?
Irrita-se com a confusão e prolixidade de seu raciocínio
Quem é você agora enquanto a vida explode mundo afora?
Equiparam-se aos réprobos estes solitários das madrugadas
que só podem ser um, mas são simultaneamente vários

Pergunta-se sobre quem ele é e responde sem hesitar
Alguém com dinheiro e que pode tomar o suco de limão caro
A raiva cresce irrefreável, o instinto de violência se amplia
Se tudo fosse vão e sem sentido,
se não houvesse continuação após essa vida e tudo fosse
simplesmente simples e frívolo e irrelevante
você acha que agiria diferente?
Você não é diferente
Escreve no papel para tentar se convencer e falha
Sente-se completamente diferente 
Como não seria diferente se ele lida com a solidão
enquanto os outros optam pela distração?
Todo mundo se arrepende posteriormente
de tanta coisa que disse ou fez
Ele se pergunta se algum dia chegará a sua vez
Acende um incenso e liga uma música para meditar
Bebe mais uma cerveja e se sente zonzo
A meditação definitivamente está funcionando,
ainda que a chuva atrapalhe com seus ruídos essa música
que nunca mais vai parar de tocar
Percebe em seguida que é a música que atrapalha a chuva
Desliga a música, mas sente que ela continuará tocando
Aquele instante lúcido e nauseabundo parece eterno
Reflete sobre a música que atrapalhou a chuva
Outra vez inverte perspectivas e assume hipóteses
Tenta entender os outros que se parecem com ele, mas não o são
Vai até a geladeira e come metade de uma barra de chocolate
Encontra a sua verdade nos cafés e nos chocolates
Repara no beiral da janela, ainda sem insetos
As gotículas de água, porém, insistem em invadir pela janela
Na insistência ganham, mas é uma vitória quase insignificante
O homem joga um pano no chão perto da janela e controla a situação
Abre a despensa e olha para o que comprou com desinteresse
Antes de abrir o armário sabia que não queria nada
Ainda assim decidiu abrir aquelas minúsculas portas
Escapa-lhe o sentido da inutilidade do próprio gesto
que por antecipação sabia ser completamente inútil
Não é incoerente com suas crenças
Não procura desculpas para quem é
Não inventa dramas para sua dor, embora
sua dor seja uma epopeia dramática e sufocante
Desejarão amá-lo, mas dificilmente o alcançarão
Talvez seja ele a escolher quem pode cuidar do seu coração
Não é um homem fácil, mas é mais fácil que os outros
Entrega na coerência e na sinceridade sua alma
todos os dias no mesmo horário, no lusco-fusco,
Às vezes sua expansividade o torna brusco, mas
ele só reza para os santos em que realmente acredita
E só prega na geladeira regras e sugestões
que sabe ter a capacidade de cumprir
Franze o cenho e range os dentes para os que se repetem
O arrependimento deles é geralmente falso
e assim forçam os erros que tanto cometem
Entra em um frenesi na madrugada e se sente quente
A noite lá fora é gelada e instantes antes seus dedos doíam
Pensa em soluções, mas há quem não queira solucionar coisa alguma
Todos entram na mesma mira
Ninguém comete o mesmo erro de maneira mais leve
por conta de uma intimidade maior ou de um lanço sanguíneo
Avalia seu próprio extremismo e pensa se é realmente extremo
Respira fundo e recupera um ar mais calmo e sereno
Bebe uma cerveja e sente um arrepio que acompanha o temor
Odiará os hipócritas até o dia em que se tornará um
Se tornará um? Ele chora, pois parece inevitável
Nunca conheceu alguém que não fosse hipócrita,
mas pelo menos não fará parte dos que são assim no cotidiano
Ninguém sente seu drama e ninguém o entende
Ele se expurga passando por todos os processos
Nunca pega atalhos e nunca evita a dor
Se sente machucado e sozinho na madrugada
sabe que precisa sobreviver o quanto for
Talvez amanhã tenha alguma companhia,
Talvez amanhã respondam suas mensagens ou
ele mesmo resolva conversar com quem optou ignorar
Ele respira fundo e ergue a voz para dizer
“Eu sei que vou conseguir”
Há milhões de coisas que passam por sua mente
A luta livre armada, o futebol, os animes,
Os hobbits, anões, elfos e os filmes Ghibli,
As dezenas e centenas de filmes e mangás,
As pessoas, os lugares, os bares
A Nova Zelândia, os japoneses e o Japão
Será que um dia começará a fazer aulas?
Será que se comunicará e viajará?
Será que poderia ser professor, escritor ou filologista?
Será que com tantos ímpetos de heroísmo
pudesse se converter em um vigarista?
Ele pensa em mais coisas que não pensam nele
Os insetos que hoje não tentaram invadir o apartamento
talvez voltem amanhã
O filho não sabe se quer ter, mas sabe que seria
o pai mais espetacular de todos os tempos
Não opina sobre sua vontade de nascer neste mundo odioso
Repleto de desgraças e desigualdades e com vislumbres,
Apenas vislumbres de uma alegria duradoura
Ele sabe que a tristeza se ajeita em qualquer lar,
mas a felicidade requer muitos pressupostos
Mas ele leria histórias para sua criança dormir bem
E ensinaria que os filósofos todos parecem prolixos,
mas que possuem lições importantes a ensinar
E que ele não pode e nem deve ignorá-los,
Mesmo os que são entediantes no Ensino Fundamental
Ele desliga a cafeteira e vai até o quarto
Liga um filme para ninguém assistir
Conta para todo mundo que perdeu o medo do escuro,
mas sempre dorme com a televisão ligada
E daí?
Cambada de filhos da puta
Murmura, mesmo sem se entender
O café da madrugada acabou e a cerveja também
Ele olha para a sacada e depois analisa
o espaço do apartamento
Reconhece que poderia ter pelo menos três gatos
Há muito espaço para ser sozinho
Ele é expansivo, mas confia no que dizem sobre os gatos
Eles gostam do próprio espaço
O próprio homem se sente um pouco felino
Precisa adotar um gato ou vai morrer nas rodovias
Olha para a cama de casal e sabe que terá que dormir sozinho
E dormirá se juntando ao grupo dos que estão dormindo,
pois não pode se distrair
Será que em sonhos terá a paz que merece?
Reza para que outra vez volte a ter companhia, mas
roga para que seja alguém que lhe dê espaço
Não é um dragão personificado, mas não divide seus hábitos
Espirra e lava o nariz e olha para a cama de novo
A oração foi em vão porque ele não acredita em Deus
Acredita em camas de casal para solteiros e na solidão
Acredita em atalhos, fugas e distrações
Acredita no chocolate, na cerveja e no café
Acredita ser capaz de não se contradizer e
de não tornar mentiras óbvias sua própria religião
Acredita nas batidas do próprio coração
Sente-se solitário, mas ao mesmo tempo bem
Isso de querer ser exatamente o que se é
Ainda vai o levar além
Ele não faz ideia do quanto vai sofrer
e tampouco desconfia do quanto vai evoluir
Derruba seu corpo no sofá e se esquece da TV
até que, enfim, consegue dormir
Quando acorda de manhã com uma
leve dor de cabeça sabe que tudo ficará bem
Segue no seu próprio ritmo até a cafeteira
Pega a xícara e sorve um gole de café.

Poesia é nada e também é tudo

Poesia é nada e também é tudo 
É exposição do corpo sem alma 
Da forma sem conteúdo 

Ao mesmo tempo é isso junto,
avesso e também separado 
A poesia falha em fazer sentido 
por ser apenas expressão natural 
Poesia é sorriso de um amigo 
Jantar na noite de natal 
Poesia é esperteza ligeira 

de quem sabe valorizar o que têm 
É a delicadeza da pureza 
Canto dos pássaros
Barulho de trem
É silêncio ensurdecedor que fere
Gota de orvalho evaporando na pele

Poesia é palavra apoteótica forte
Capaz de falar sobre morte 
Esvanecer todos os medos seus 
É vislumbre de sorte 
Poder para você
ser seu próprio Deus

Poesia é tatuagem feita sem precisar significado
para significar

Poesia é arte abstrata,
profunda ou rasa 

Tela em branco
Quadro fora de lugar 

Poesia é o jeito
que você me olha toda vez que me encontra

É o jeito que você ri
quando eu te chamo de tonta

É qualquer coisa bela,
mas também vulgar 

É cinza, é aquarela,
É qualquer jeito de amar.

Poesia em Trânsito – Dirigi meu carro branco

Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Em um tempo você não sabe quando
Num universo nem eu sei onde 
As vias eram de mãos quádruplas, mas
os faróis amarelados de meu carro eram as únicas luzes na escuridão 
Onde estavam os motoristas e passageiros?
Onde estavam os determinados caminhoneiros?
Dirigi e escutei algumas novas e velhas músicas
Algumas você sabe quais, porém, outras nunca conheceu
Você duvida, mas eu posso ser surpreendente 
Vá se ferrar, eu penso e
concluo que o pensamento é errado
Alimento-me com amendoins torrados 
e algumas memórias que me ferem 
Não deveria ter exagerado, pois
os dois alimentos irritam a minha pele
Coço o meu cabelo e continuo 
com meus olhos vidrados na pista
Você não vem hoje, meu bem
Você me fez ontem, refém, 
Desista, pare, faça o retorno, 

Os sinais estão todos espalhados 
Um relâmpago ilumina o céu 
Eu sempre quente me mantenho morno
Choro e gargalho, pois vejo além, 
Choro de novo sem nem me entender
Transformo ouro em frases no papel
Eu disse que vejo além, notou?
Não preciso das suas migalhas de amor
Não como um dia eu precisei
As coisas mudaram, exceto o meu carro
Quem sabe em outros tempos?
Soube que eu gostei de outras duas?
Você amou um, mas e daí? 
Sou ainda o seu rapaz da rua com o nome de motel?
As secretárias dos médicos fazem caretas 
E em voz alta entoam seus revezes 
Eu me mudei de casa sete vezes 
Aprendi o sotaque dos ingleses 
Troquei de pele até que a carne antes macia
fosse então dura como uma couraça
Tudo que antes existia: fumaça
Por meados da virada do ano
Eu vou te deixar para sempre
Sou ainda o que fui um dia?
Sim, sou, sou sim, sei que sou
Em algum tempo sei lá quando
Em algum lugar sei lá onde
Até o dia em que não serei mais 
Esse dia é hoje e foi ontem
Provavelmente agora 
Certamente nunca

Percebo-me e me sinto vazio
Quantas bocas preciso beijar até que passe esse frio?
Eu me tornei quem eu não era
A invernia com maquiagem de primavera 
O pacifista intelectual que sempre pondera
Quando deveria partir para a ação
Ainda assim sou a presença que ninguém espera
Quando atiçado me transformo em fera 
Bicho solto com instinto louco de destruição
Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Pisei no acelerador e me senti ágil, mas paguei caro no pedágio para voltar
ao tempo na velocidade estável de 122km/h 
Certas lembranças eram como aquaplanagem
para os pneus do meu carro 
Outras com gosto de esperança
Faziam com que eu me atolasse
Cada vez mais fundo no barro
Metáforas desmedidas e esforços tão tortos 
São necessárias as partidas para enterrarmos os espaços mortos
Você não veio ontem, meu bem
Não vem hoje também
E eu não peguei os sinais da pista, sabe?
É a sina de quem possui bons olhos 
Perde-se a ingenuidade e a candura
Perde-se o carinho e deforma-se a figura 
Perde-se coisas que nunca imaginou apenas para
poder ganhar o que poucos poderiam ousar
Olha, quem vem chegando ao fim da esquina
É o pedaço quebrado ao peito apontado 
Denomina-se sina 
Os sinais trocam as cores
Na letargia e cegueira da vida
Você ainda não trocou seus amores 
Você personifica flores
que já estão murchas e mortas
A felicidade está distante em outros países ou
você só finca os pés no chão como se fossem raízes? 
Talvez seja a sina de quem sabe ler os sinais
Dar de ombros em um falso tanto faz 
Sinalizar que ao final é tudo sobre sina 
E que as sinas não impedem sequer um sinal 
Tampouco nos impedem das mais trágicas rimas 
A noite caiu dentro de mim e não há lua
Dirigi meu carro branco por uma estrada escura
Dirigi meu carro branco fingindo estar a sua procura
As estrelas refulgiam alegremente no céu ou 
seriam apenas postes disfarçando minha esperança?
Que se dane!
O que importa é a luminosidade 
Ao longe vejo luzes de apartamentos numa cidade
Temperança, repito, soturno 
Aos poucos perdia o meu medo da morte 
Na estrada (eu) desempenhava o meu papel 
O som do carro anunciava a minha sorte 
Dirigi meu carro branco por instantes seculares
Dirigi meu carro branco e atropelei segredos milenares
Apaguei os últimos resquícios seus em minha memória 
Eu estou tão feliz, triste e aliviado, pois
com você ao lado jamais poderia iniciar outra história 
Sou mais do que as partes que me formaram
É tempo de novos inícios já, certo?
Dirigi meu carro branco por novos caminhos 
Assumindo completamente o risco de me perder (e tudo bem)
Ainda dirigia e pelo retrovisor me vi sorrir 
Lembrei do conselho do gato de Lewis Carrol 
Para quem não sabe para onde vai
Não importa qual direção seguir 
Desde que não volte,
acrescentei baixinho 
Acelerei e cruzei a madrugada
Dirigindo o meu carro branco e sentido a alma gelada 
Divagando por inéditas e perigosas estradas 
Pela primeira vez em muito tempo
Satisfeito completamente 
Completamente sozinho.

Leve

Aparece e sorri
Sou feliz e leve, mas sou
Além do que era
Mais do que se espera
Primavera antecipada
Sorri e desaparece
Vê-me agora
E me esquece
Fui tudo
Sou nada

Nada que valha a pena
Que é que isso quer dizer?
Sorri na Vila Madalena
E também antes de nascer
E na estação da Sé
E entrando no estádio
Sorrio para quem me acena
Renovo minha fé
É um novo estágio

E devo viver
Abraço mais

Ando mais
Testo minhas pernas
Sorrio mais e cativo mais
Não há quem não se renda

Sou árvore avulsa no meio da plantação
ou tulipa perdida no centro urbano
Sou também a lágrima que
salga ainda mais o oceano
Se me perseguem, que me persigam,
Se me amam, que me amem,
Se querem me forçar o peso,
eu contra-ataco com a leveza
É fundamental, porém, valorizar a luta
A repetição reforça o poder da conduta
A grama bem cortada cheira bem
O matagal alto assusta
São a mesma coisa
Em leveza agora vejo
a beleza pura
Sem sentir medo
Ando firmemente
Torno-me insubstancial
Qualquer resto de poeira estelar
Flutuo e me refaço
Em outros tempos
e outros espaços
Sempre que parto
é para nunca voltar
Não pertenço a ninguém
Ainda assim

o mundo todo
É o meu lugar
.

Crônica Pregressa #2

Gole de amor

Há uma frequente subvalorização em estar sozinho.

Antes de tudo, deixe-me ser bem claro sobre o que eu quero dizer. Torço para que você tenha pelo menos cinco bons amigos e que estes sejam tão preocupados com você que refutem o próprio ego.  Espero que respeitem suficientemente a sua solidão para entendê-la, mas que jamais se façam de cegos. Honestamente torço para que não se esqueçam de que você também precisa de companhia. Que esses cinco possam te alcançar, ainda nos momentos em que você pareça impossivelmente distante. Que estes cinco, ao menos eles, possam definitivamente arrancar o mais difícil dos sorrisos quando o mundo se apresentar estranhamente cruel, maldoso ou inexoravelmente injusto.  

Todos os clichês também surgem de experiências e não há senão conselhos baseados nas coisas que vivemos. Há quem ache que o generalista ou o amplo é sempre absurdamente vago, mas é como se desconsiderassem a repetição das experiências. Você acredita que uma experiência perde valor por acontecer de maneira repetitiva? Acha que algo extremamente parecido invalida o que acontece depois? Toda experiência é nova. Você gasta sua inteligência na tentativa de arranjar provas e desgosta de quem é capaz de refutar essa versão de qualquer coisa representada tão inteligentemente por você. 

Veja, é preciso saber ser e estar sozinho. Ontem mesmo lá por volta das 18h15 fui dar uma volta e mais tarde peguei um cinema sozinho. Cheguei poucos minutos antes da sessão. Aguardei, vi o filme e saí. Eu estava vestindo uma bonita camiseta com uma dupla referência: O Pequeno Príncipe e o Senhor dos Anéis – Le Petit Hobbit. Sinto, porém, que dificilmente alguém me notaria. Dei de ombros como quem não liga tanto, mas ainda assim sei que preferia ser notado pela roupa. Há nisso algo de errado? Não encontrei rostos conhecidos no passeio e é bastante improvável que mesmo quem saiba meu nome pudesse entender minha camiseta. Existi ali por aproximadamente meia hora. Olhei com ternura e carinho para o mundo que acontecia. 

Andei pelo shopping sozinho. Resolvi que merecia comprar um café, um livro e um chocolate. A ordem que fiz a aquisição das coisas pouco importa, mas eu senti que me aproveitei. Olhei algumas pessoas nos olhos, contemplei a correria nos pés apressados de quem parece estar sempre atrasado e notei ainda a estranha e sem explicação calmaria que os apaixonados de mãos dadas sentem quando observam as vitrines das lojas. Há quem possa pagar pelas coisas caras e há quem sempre as vislumbrará, mas vejo que se unem silenciosamente na concordância que R$ 430,00 é muito dinheiro para uma blusa de seda com o desenho de um tigre. Bebês se divertiram e se irritaram sem qualquer motivo aparente, mas nos risos deles o universo se renovou. O que me leva a crer que eu também preciso de renovação? O que os bebês nos ensinam?

Meus sonhos são tão inflexíveis que às vezes duvido que a utilização da palavra sonho seja o termo correto qual deveria empregar. O que me faz crer que eu posso levar amor ao coração das pessoas? Que espécie de instinto absurdo me faz crer que sou capaz de tão grandioso feito se na maioria das vezes eu consigo falhar mesmo nas missões próprias e solitárias que possuo? Não sou um rio, mas rio, sinto-me mais leve e fluo. 

Quando não sonhamos, creio, alimentamo-nos de sonhos alheios para preencher a lacuna própria da existência que exige que se sonhe. Quem aceita existir sem ter para onde ir? Quem é que insiste em viver feliz em uma realidade tão pungente? Quem é que crê em um mundo no qual o Tempo parece tratar tudo como um jogo e que tudo o que te cerca está doente?

Honorável revelação do destino: o meu futuro são meus sonhos de menino. O gato disse que qualquer rumo serve para quem desconhece o caminho. Basta que continue andando e logo chega a hora da colheita. Nem tudo acaba como esperamos, mas certamente tudo se ajeita. 

Haverá um tempo em que os corações não poderão quebrar mais do que já estão quebrados. As lágrimas secarão e haverá pessoas esperando por você. Provavelmente serão poucas, mas elas estarão ali apenas por você. As tempestades vêm e vão. Você fica. Lembra da minha metáfora sobre tinta e coração? Você diz que não, mas eu sei que no fundo acredita. Os homens são tão pequenos e sabemos que haverá um tempo melhor a seguir. Quando a tempestade passa e as nuvens se vão, enfim, encontra-se uma o sol à luzir.      

Veja, eu sou um sujeito um tanto quanto criativo. Meus desejos práticos são coisas das quais eu sei que nem mesmo preciso. Mataram o amor, mas eu voltei a acreditar. Ainda que não sinta o mesmo, ele parece me cercar. Com uma espécie de preguiça ancestral que me obriga a ser hoje melhor do que ontem. O que é que sei dessa vida que nada sei? Ouro, prata e madeira significam a mesma coisa? Quais os metais mais valiosos? Quais os corações mais valorosos? Do que sou feito?      

Alguns estão desistindo. Diga para mim que você segue firme. Eu só preciso saber que você vai continuar.      

Outros de nós, pertencentes aos melhores, renderam-se antes da quinta noite de sofrimento e estão entregues ou partidos. Você é como eu. Somos diferentes. Nossos corações são feitos de material mais forte que o vidro.      

Ainda há quem fracassará e dará meia volta para causar tormenta infinita. Não os odeie. Se puder, entenda-os e seja sutil. O interno não aguenta tinta. O inverno torna a alma mais sucinta. Ninguém é tão grosseiro assim. O valor é relativo, mas pode acreditar em mim. Todos têm valor.      

Até a alma mais cansada, suplica perto do fim da estrada, por um mero gole de amor.