O apartamento.

Há um pedaço grande e indefinido
que penso me pertencer, sem certezas,
Ele, que também sou eu, faz exigências
Exige horas solitárias para o processo criativo
Já eu exijo meu café quente para me sentir vivo
Há horas em que as exigências se mesclam
e não sei qual voz fala mais alto e quem escuto
Se o pedaço solto também é meu, afirmo, a outra voz é minha
devo hesitar em seguir as minhas próprias sugestões?
Não sei se nesta manhã confio muito em mim
Subo as escadas e estou no terceiro andar
Viro as chaves e entro no meu apartamento
Ninguém me espera e respiro fundo
É um apartamento espaçoso para uma pessoa
Ganho dinheiro o suficiente, mas não há nada
Um barulho me distrai e ando até a sacada
É a primeira vez em mais de setenta dias
que posso contemplar uma manhã
Meus olhos vislumbram tratores e
me dou conta do tamanho como algo novo
Meu coração se enche de tristeza
Observo homens carregando caixas
Operando empilhadeiras e tratores
Raramente rindo acima da confusão
dos sons altos das máquinas pesadas
Não há mulheres entre os trabalhadores e
ainda assim os homens são mais felizes que eu
Falta-me qualquer luz mínima para findar o breu
Olho para dentro e penso no tanto que já me aconteceu
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Não há mulheres na minha vida, tampouco há amor, sexo e esperança
Há o apartamento no qual moro e existo solitário
Aqui passo minhas pouquíssimas horas fora do trabalho
O bolso cheio, às vezes, coloca-me um sorriso no rosto,

entretanto, ando até a sacada e observo os tratores
Não tenho amores, amizades, carinho, sexo ou respeito,
Não sinto o ódio ou o descaso ou as distrações
É como se a cidade estivesse abandonada ou
tivesse optado por me rejeitar desde o princípio
Tudo o que tenho é este apartamento silencioso
e o suco de limão mais caro do mercado
Bebo o suco de uma só vez e calculo
quantos centavos vale cada gole
É a vingança da minha vida de solidão
Não entendo, mas sei que preciso passar por isso
No futuro passarei por coisas piores e a dor de hoje
me moldará para os desafios inexplicáveis de amanhã
Todo mundo morre no final, eu me ouvi dizer,
É preciso tomar cuidado com a linha que traduz vencer
Respiro fundo e sinto uma brisa gélida
Fecho os olhos e vejo paisagens lindas e lúgubres
através de janelas que nunca pude ver
Sinto como se estivesse ficando louco,

mas há os tratores e a pizzaria na esquina
A realidade é pesada e o barulho me situa
Há um pedaço grande e indefinido,
que penso me pertencer, sem certezas,
A escuridão que assola a minha vida hoje
não chega perto da que eu sentirei um dia,
entretanto, lido sozinho com a cidade alaranjada
Repleta de coelhos brancos e ofensas no trânsito,
Vislumbro um bebê no meu colo
em algum lugar perto de lugar nenhum
Sonho diurno com a vespertina carioca,
Sou o único que capta o momento
em que um camaleão troca de cores
A vil adaptação quando não é feita apenas
por motivos de sobrevivência
Pisco os olhos e descubro o que acontece
após um assalto mal planejado
Olho de frente para uma mentira
que não faz o menor sentido
Conto coisas que canto e canto coisas que conto
As palavras me abraçam nesta desértica solidão laranja
O céu rosa subitamente acinzenta e a tempestade
me convence de que haverá alegrias e tristezas aos montes
Preciso ser feliz e triste para aprender melhor
A vida será ridiculamente mais difícil no futuro, entretanto,
Lá adiante não ando mais sozinho
O apartamento não é mais meu último conforto
O trabalho com números não é o único caminho.

Divagações Prolixas

Àquela época, juro, não havia como entregar mais do que eu já entregava. Não me entenda mal, eu não era dado a perversões, não era particularmente viciado em coisa alguma e me sobrava a disposição juvenil para o labor que só transborda nos realmente jovens e espirituosos. Eu era, hoje vejo, ainda ingênuo. Alimentava minhas crenças na possibilidade de crescer na empresa em que trabalhava e acreditava fervorosamente na meritocracia, assim, não me importava em me matar de trabalhar, na verdade, até desejava trabalhar até a exaustão, mesmo que minhas mãos estivessem trêmulas ao final do expediente e meus olhos avermelhados. Não era como os japoneses que trabalhavam até quinze horas por dia, entretanto, com uma personalidade obstinada, firme como o aço, eu dificilmente me dobrava para o cansaço ou qualquer outra coisa. Se eu era capaz de lidar com a exaustão era sinal de que estava tudo bem. Meus esforços resultariam inevitavelmente em uma carreira bela e sólida.

Quando se quer trabalhar, porém e, surgem centenas de obstáculos entre você e o objetivo, há de se respirar sem pressa e recuperar a confiança. Mantenha a calma e contenha o entusiasmo. É preciso fazer um esforço hercúleo em não se esforçar. A primeira vez que me vi defronte ao dilema senti um torpor crescente, pois as informações pareciam e ainda me parecem antagônicas. Como absorver uma informação que soa como uma brincadeira? Você pode estar chocado, entretanto, eu falo a verdade sobre isso de se esforçar em não se esforçar. É mais ou menos como a expressão se fechar em concha, mesmo que não guarde pérolas. Há ambientes em que há um empenho notável em não levar qualquer tipo de conhecimento além. Tudo pede discrição? Tudo. Sabemos o que sabemos e ninguém nos ensinou, logo, também não me sinto obrigado a fazer o mesmo já que nunca o fizeram por mim. Bem, há duas maneiras claras de fazer a leitura da situação: lendo-a ou evitando lê-la. Só os banais se desgastam sem a necessidade.

Àquela época, juro, fechava os olhos da minha intuição para evitar o pior que antecipava dos outros. Nestes tempos de isolamento, é mais fácil se esquecer de si mesmo. Sente saudade de quem costumava ser no mês passado? Sente o peso das culpas do extenso mês de fevereiro? Sente o cheiro da maresia e o aroma de vida nova da cabeça do seu sobrinho? Por quanto tempo vale a pena ser o que é? O que você faria para se adaptar e se sentir um pouco melhor a respeito de si mesmo? Proteja-se, rápido, seja com a sua afiada argúcia intelectual ou com seu notável porte físico. Ninguém transporá suas armaduras e você estará certo em se sentir seguro, desde que nunca perguntem. Você reconhece os facilmente impressionáveis por também ser assim, certo? Não ter um rumo para onde seguir é a personificação da jornada de solidão no deserto. Toda a atenção do mundo não te faz sentir mais esperto. Falhar consigo mesmo não é uma possibilidade. Você sequer existe quando não há estímulo e atenção dos outros.

Agora estenda os raciocínios e vá além. Desabroche no asfalto, quebre o silêncio com um grito, erga os punhos e não se deixe abater tão facilmente. Respire fundo e aguente firme. A jornada quase nunca é simples. A vida exige de nós um pouco de jogo de cintura e há quem confunda um rebolado discreto com um curso profissional de dança. Não devemos nos esticar distâncias impressionantes e difíceis de calcular apenas para tentar impressionar os outros. O que resta de nós quando abrimos mão de nós? Os preços, altos ou baixos, geralmente são pagos. Os fins, dizem, justificam os meios. Qual é a sua opinião sobre fins e meios? Sinto um arrepio e não sei se é devido ao pensamento perigoso ou ao café ruim do meio de uma tarde de trabalho. Sorrio e temo pelo dia em que puxarão o meu tapete. Deveria viver objetivando deslumbrar as pessoas? Conheço meios para ser o centro das atenções, portanto, deveria colocar uma melancia na cabeça e fazer com que tudo seja sobre mim o tempo todo? Sou desprezado e detestado por pessoas viciadas em impressionismos baratos. Não me esforço para dobrá-los ou convencê-los. Eles, por sua vez, irritam-me de vez em quando e me tiram do sério. Respiro e me recomponho. Não preciso tornar relevante quem não o é. Calo o meu lado intelectual, privo o planeta da minha existência, sou o que resta de mim em mim, sem plateia, sem aplausos, sem assovios ou tomates. Penso antes de abrir a boca e por vezes a fecho sem nada dizer. Os sonhos inadequados, se eu os tivesse, não os compartilharia como quem percorre trilhas secretas, sorrateiro, deixando pedaços de pele e de presença. O que será que querem? O que eu diria se não tenho o que dizer? Será que deveria forjar opiniões aprazíveis para me encaixar e ser adorado pelas pessoas? Todo mundo gosta tanto de quem tem a fala fácil e a adaptação rápida. Todo mundo gosta tanto de amar quem é completamente desconhecido. Algo dentro de mim pede para sair e reflito que isso talvez não agrade meu público, conscientizo-me de que isso tudo talvez amargure o meu grande espetáculo. Dou de ombros. Quando o que urge dentro pede para existir fora, respiro fundo e aliviado, solto o ar do meu peito.

Não devemos calar a nossa voz interior apenas para encontrar um tom que agrade a multidão. Não devemos nos apagar do que somos para nos apegar ao que não somos porque queremos desesperadamente pertencer. Apego-me muitas vezes ao que não sou para continuar não o sendo. Os prêmios pelas melhores atuações são excepcionais, mas os troféus fictícios não podem ser ostentados na estante. Na galeria dos troféus de mim, só me orgulho de quando consigo me manter “Eu” em face do horror reproduzido pelo mundo. Estou consciente de que sou capaz de reproduzir Beleza e Horror. Opto, na maior parte do tempo, pela difícil tarefa de valorizar o Belo através da exaltação das discretas coisas frágeis.

Os erros são, na verdade, tão legítimos quanto os acertos. Àquela época, juro, exprimia da vida todo o suco que ela podia me entregar. Os erros aconteciam aos montes, mas os acertos ocorriam em frequência ainda maior. Veja, não é como se eu não estivesse tentando ir para algum lugar, entretanto, os nossos alvos internos são, geralmente, invisíveis aos olhos dos outros. Nos aprazemos em tornar defectíveis os que jazem longe e nos apressamos em aperfeiçoar os que estão perto o bastante ao ponto de parecerem figuras místicas. Franzimos o cenho, cruzamos nossos braços e, não raramente, atacamos quem ataca nossas pessoas amadas. Somos o escudo que se levanta e ampara as flechas, mesmo quando os disparos são realmente merecidos. Alguém já te defendeu quando você estava errado? Como isso faz você se sentir?

Por vezes sinto como se meu cérebro fosse pifar e me lanço outra vez em esforços hercúleos, homéricos ou qualquer coisa assim, sobre lendas que nunca me fizeram a menor diferença, apenas para pensar menos e me acalmar. Quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas e quem se apequena para se encaixar pode muito bem ser esmagado, mesmo que sem querer. A vida é linda e feroz. Minha expansividade baila com um sorriso brincalhão de júbilo na face quando me percebo convicto a respeito de uma opinião que posteriormente se configura completamente verdadeira em um tempo-espaço futuro. Não sei o que falo, o que calo, mas aos poucos compreendo que Deus mora no escuro. Não só na escuridão qual temo, bem como no sol que cega meus olhos. Deus é um amigo que esquenta e esfria e tenho que me esforçar para ser um filho pertinente. Tento me acostumar com quem não me exige costumes falsos. Pertenço a quem não me obriga ou me estimula a me disfarçar e a quem me aceita exatamente como eu sou. Olho-me e me reconheço confuso. Quantas divagações espirituais e divinas para alguém que quase nunca reza. A minha fé, porém, subsiste nas coisas certas. Quando falho com o que considero correto, falho comigo, fecho-me e me envergonho. Volto outra vez a escutar gritos assombrosos, miados fantasmagóricos e os calafrios agora são mais assustadores. Meus pelos se eriçam e me vejo pronto para o combate. Espécie de fera arisca, sou feito de amor, mas o meu coração de guerreiro bate. Estou de joelhos, mas me levanto cambaleante. Luto quando é preciso lutar. Faria sangrar pelo que é certo. Faria sangrar pelas pessoas que amo. Banharia meu corpo em vilezas, desde que feitas de certezas, ainda que a maioria do mundo considerasse um engano. O tempo todo nos conduzem por um processo estreito qual nos empurra para um pensamento de massa. Tudo se polariza e você deve escolher um dos lados. De que lado você está?

É preciso, eu juro, empreender um esforço sobrenatural para não escolher. Não é fácil apontar os erros dos outros enquanto reconhece os seus próprios. Não é fácil parar de amar ídolos fracos e falsos só porque um dia lumiaram os nossos olhos. A vida é o caminho que escolhemos e os milhares que deixamos para trás. Quem sabe fôssemos mais felizes, quem sabe tivéssemos sucumbido diante das trevas do Universo, quem sabe a solidão nos fortalecesse ou nos matasse de vez. Quem sabe o que teria acontecido se eu não tivesse entregado todas as moedas ao mendigo ou doasse meu casaco ou cortasse o papo do coreano. Carrego a lanterna como a prova de algo que não sei o que provar, mas sempre sorrio com a lembrança do presente. Quem sabe a lanterna do coreano me faça me sentir mais lanterneiro, como o menino naquele avião ou quem sabe eu precise me alimentar de coragens alheias para fortalecer a minha própria. Quem sabe esse Vide Noir cresça, diminua e cresça outra vez. Quem sabe abrir mão de alguns casacos tenha me garantido eternamente aquecido. Quase fui engolido, mas saí do fundo do poço. Quase pelo mundo fui esquecido e ninguém se recordaria do meu nome no meio dos destroços. É estranho não tentar e crescer. As pessoas dizem e nunca cumprem o que prometem fazer. Sei de memória de pelo menos dez pessoas que juraram ler meu livro. Elas, na verdade, estão mais interessadas em quaisquer futilidades nas rotinas ou nos feriados e domingos. Talvez todo mundo minta que se importa. Talvez a solidão outra vez me bata à porta. Talvez o meu destino seja ser triste, entretanto, luto ferrenhamente contra o destino. Se tenho força para me levantar posso então mudar o meu destino?

Sigo, trêmulo, oco, repleto, opaco, cego, confiante, hesitante, claudicante, alegre, triste, entusiasmado, pelas centenas de estradas da vida. Talvez devesse escrever mais doze contos sobre realidades tão comumente esquecidas. As mesmas pessoas que então juraram me ler, por sua vez, jurariam de novo e novamente não leriam. O que nos resta quando nada interessa e tudo soa como uma péssima poesia? Rimo, faço anagramas, sigo, sorrio menos, deveria sorrir mais, Anna diz, meu avô dizia, meus avós diziam, meu pai dizia. Dani, seu sorriso é tão lindo, por favor, sorria mais, mas não posso deixar de ver o que vejo e há coisas de mais espalhadas pela cidade e os outdoors foram removidos e eu não sinto saudades, mas os outros parecem o tempo inteiro quererem voltar ao cerne de uma vida sem expectativas. Sairemos todas as noites e que nossas vidas sejam esquecidas. Noctívagos de olhos espertos espreitam a escuridão e eu sei que já fui um deles. Distrações não me distraem e eu choro. Distrações não me distraem e me permito respirar. Os cochilos são sagrados, mas às vezes Deus me furta o sono e compartilho um silêncio de roncos baixos com a mulher que amo. Melhor seria apagar, mas permanecer acordado também é precioso. Tenho medo de não a ver roncar mais. Tenho medo dos medos. Secretamente encaro meus maiores desesperos.

Lá vou eu, como um navio, desbravar o mar em uma noite de tempestade, livre do medo de soçobrar. Nem a criatura mais forte diminui a potência das marés. Eu talvez morra essa noite ou essa tarde porque meus entendimentos falharam em ser entendidos por todos, inclusive, por mim. Vencemos todas as vezes que apostamos em nossas individualidades. Fracassamos toda vez que nos disfarçamos. Ser pequeno não serve ao mundo e, respiro-me, saio de mim, para encarar essas tantas adversidades. Talvez eu perca a minha vida, mas quero observar o sono da mulher que amo e deixar que meus braços lhe confiram uma sensação de segurança. Talvez eu perca a minha vida, mas um dia vou matar o dia de trabalho para passar uma manhã inteira com o meu cachorro e a minha gata. Talvez eu perca a minha vida, mas estarei onde tenho que estar, prostrado, eu, dono de mim, convicto de não estar convicto, mas sem me vestir de outra pessoa para impressionar. Lá vou eu, na escuridão de Deus, amar a vida que nem sempre me ama de volta. Lá vou eu, outra vez me importando com quem nem sempre comigo se importa. Ao redor do buraco tudo é beira, sorrio, encaro o abismo e ele me encara de volta. Não tenho medo de altura e ergo a minha cabeça e sorrio. Os sonhos foram feitos para serem sonhados. Alguns se realizarão e outros não. Será que há alento para os que fracassam? Canções novas agitam o meu peito e sinto que podem brotar, a qualquer momento, novos contos para que eu possa cantar. Se um dia eu me perder de tudo por decidir mergulhar bem fundo, você me ajuda a voltar?

Acordo no meio da noite e ando pelo apartamento sem acender as luzes. A cidade silenciosa existe sem mim e a fito pela sacada. A escuridão é o lugar de Deus, portanto, não acendo as luzes. Permito-me, aos poucos, a me acostumar. A brisa gélida trespassa meu corpo na madrugada e sinto meus instintos de criatura noctívaga. Existo, sei que sim, sorrio, pois Deus vai cuidar de mim. Todos somos filhos do mesmo. Sorrio por não ser meramente religioso. Sei que tenho grandes sonhos e a vida não pode acabar mal. A morte é o destino que une a humanidade, assim, convenço-me de que, cedo ou tarde, iremos nos encontrar em outros planos. Não sei o quanto valho, mas a vida é só uma, até onde eu sei e creio honestamente que não é saudável desperdiçar meu tempo sendo quem eu não sou. O que me oferecem em troca de atuação é audiência e não amor. Sorrio e meus olhos enxergam cada vez melhor. A escuridão começa a ficar clara ao meu redor. Nem todos os dias são bons, mas tudo vai ficar bem. O incenso queima e o calor do fogo me confirma: ser o que se é ainda nos levará além.  

Não sei onde chegarei, juro, mas caminho em uma direção previamente estabelecida, sem imitar os outros e nem seguir milhares de trilhas. A minha personalidade não se confunde com a dos outros e sinto um alívio. Não há como entregar mais do que eu já entrego. Não me entenda mal, eu não sou dado a perversões e continuo não sendo particularmente viciado em coisa alguma. Não divido meus hábitos, mas divido a minha jornada com quem nunca solta a minha mão. Há quem pense que os dragões são todos ferozes e que as raposas são todas matreiras, entretanto, as sutilezas das feras são de uma leitura mais lenta e atenta. A disposição que me sobra não me transborda, mas é direcionada para o destino certo. Eu era, hoje vejo, ainda ingênuo e sinto um estranho orgulho da minha ingenuidade. Cuido como ninguém das pessoas que me cercam. Nunca me esqueço dos meus acertos e dos meus erros. Há muito o que errar, mas muito mais o que acertar daqui para frente. Tudo é como é, mas permaneço forte enquanto andar lado a lado com pessoas que me reforçam na essência. Quanto aos que exigirem que eu seja qualquer outra coisa, balanço a cabeça em negativa e tenho paciência. Um dia quem sabe eu possa fazer alguma diferença.

Coisas Pequenas

O inferno é apenas a mais violenta das metáforas. Fecho os olhos e me vejo nos fiordes, ainda que nunca tenha estado lá. Sinto que a minha alma pertence aos locais inabitados e gelados, ainda que a minha presença seja sempre tão expansiva e quente.

O inferno é a mais agressiva das metáforas. Nossos temores, sejam infundados ou não, trazem terror ao cotidiano e preenchem a mente, ainda que não exista razão consciente e real para que permaneçam nela. Revivemos automatismos e procuramos o sofrimento. O inferno não existe nos outros e sim em nós mesmos.

Fiz de mim o que não soube. Há coisas que ainda não digo por não estar preparado para dizer ou por não ter a convicção de que aconteceram. Será que devaneei acordado com pesadelos quase táteis? Inventei o que me atormentou? O que era real parecia sonho e imaginei coisas que eram mais palpáveis que a realidade que eu tocava. Vi o rosto do amor em um mergulho na imaterialidade de mim e chorei, perdendo-me pela primeira vez em décadas. Sorumbático avancei, mesmo que minhas pernas estivessem trêmulas e que o medo fosse sufocante. As trevas se aproximam para todos e não há como evitar. É preciso sobreviver.

Sei que continuar é uma necessidade e estou cansado de ver meu suor pingar vermelho. Sei que, vez ou outra, não me reconheci quando defronte ao espelho. Devo lutar pelas recompensas, ainda que eu já as mereça. Vejo-me abandonado e com a barba bagunçada e espessa. Fito meu rosto cada vez mais magro. Quando todas as portas se fecham, eu outra vez me ergo e me abro. Mostro ao mundo um pouco mais. Tento com um pouco mais de força. Arrisco com um pouco mais de coragem, pois a vida é uma estrada que se pega e milhares que se deixam. Despenco no chão, mas me levanto e caio de novo para me perceber capaz de levantar outra vez. Se perdi tudo é sinal de que não tenho mais nada a perder.

Induzir-se propositadamente a uma letargia de sentidos é uma atitude perigosa. Fechar os olhos para os próprios anseios e desejos e encarar a vida somente pela perspectiva alheia é correr o risco de matar a própria personalidade. Podemos estar enganados sobre tudo e essa consciência é simultaneamente libertadora e assustadora. Nossos amigos podem nos trair. Nossa família pode nos machucar. Nós podemos estar terrivelmente enganados a respeito de nossas certezas mais profundas. Nós podemos nos tornar antagonistas. Não somos maus ou bons. Todo vidro se quebra. Não há exceção para a regra. Somos frágeis e podemos nos despedaçar no chão, pontiagudos. Podemos fazer sangrar pessoas inocentes. Machucamos e somos machucados. Independentemente do desfecho, não somos anjos ou demônios. Nós somos apenas o que somos.

Acumulamos, assim, diversos equívocos e queremos o que queremos no momento exato em que queremos. A realidade me choca. Sobrevivo aos novos dias com a recordação de que tudo se finda. Lembrar da morte reforça o sentido da existência e torna nossa jornada mais linda. Não é errado ter suas balanças, mas tente ser coerente sempre que usá-las. Não feche os olhos para quando as pessoas que você ama fizerem coisas pesadas. Todos somos capazes de tudo. Valorize quem por mais vezes desconsidera a forma e exalta o conteúdo.

Nem tudo é dito, mas tudo é demonstrado. Coisas menores devem imediatamente serem deixadas de lado. Não aceite tudo e não se faça mudo. Não adianta fingir que a vida não é cheia de problemas. Aquele que não sabe perdoar apenas conheceu coisas pequenas. Supere essa quantidade enorme de desconfortos. Você pode tudo desde que ainda não esteja morto.

O paraíso é apenas a mais confortável das metáforas. Fecho os olhos e me vejo nos fiordes, ainda que nunca tenha estado lá. Sinto que a minha alma transborda cada vez mais através de minhas atitudes, mas precisei errar muito para começar a acertar. Senti como se estivesse por um fio, mas através de epifanias me encontrei. O frio que senti nos climas mais quentes foi a maior prova de que me enganei.

O paraíso é apenas a mais confortável das metáforas. Ele também não existe em um lugar mágico e etéreo ou nos outros e sim dentro de nós mesmos. É comum que cada pessoa almeje um lugar tranquilo no qual possa repousar. A vida costuma ser tão dura que, às vezes, a gente só pensa em se deitar. Desta forma, procure valorizar quem aparece na sua memória quando você percorre suas estradas para locais seguros. Pense mais em construir pontes e menos em erguer novos muros.

Respeite seus limites e cresça um pouco a cada novo dia. Os seus erros não te definem, assim, arrisque-se com novas tentativas. Mostre a sua fibra e o tamanho da sua coragem, principalmente quando o mundo provocar todos os seus medos e reproduzir essa imensidão de horror. Quando a maldade de derrubar, lembre-se de que você pode se levantar, sorria e revide com amor.

Um escritor não se perde da escrita.

Um escritor não se perde da escrita. As palavras se deitam atrás de planuras e ficam temporariamente inacessíveis. A capacidade de contar histórias, a beleza narrada nas peculiaridades e mínimos detalhes, a poesia extraída como uma fruta espremida até o limite e a delícia do suco… isso tudo sempre persiste.

Há esta espécie de sono metamorfoseado em outra coisa assustadora, crescente, ensombrecida. O escritor não sente letargia e nem vontade de dormir, mas assim como quando em sono profundo, ele fecha os olhos e a alma divaga para longe e é preciso tomar muito cuidado. O Vazio representa a ruína de tudo.

Vivo a vida, às vezes, no limiar da realidade e desfruto o prazer supremo ao mesmo tempo em que me puno com a dor eterna. A sensação é livre de vícios, mas estar livre de vícios se parece tanto com um vício que a ambivalência da liberdade nos guia para caminhos tortos e estranhos. O que você faria se não tivesse a obrigação de fazer coisa alguma? No que você pensaria se não influenciassem no seu pensar? Tudo é lícito ou há proibições sensatas? Veja como descascamos nossas camadas e nos aproximamos da nossa essência. Veja quantas normalidades se tornaram estranhas e quantas estranhezas se tornaram normais e ainda assim, é preciso ter paciência.  

Um escritor não se perde da escrita. Ele é capaz de reviver memórias antigas e fixá-las com os dedos no tempo presente. Quando isso é feito e os olhos salgam enquanto os dedos sangram, é sinal de que essas memórias passadas ainda estão vivas e o que foi ainda é e há muito o que dizer sobre o que não foi dito e agora tudo escorre. É preciso correr atrás do que faz o coração acelerar. É preciso insistir no amor. Quando o mesmo processo é feito e os dedos apenas queimam, verifica-se a prova de que os incômodos já não são tão urgentes assim.

Todos têm sonhos, assim como eu, quase todos pretendem realizá-los, bem como também pretendo, mas nem todos chegarão até eles. Devo me entristecer pela hipótese de nunca me concluir em longas conjecturas hipotéticas? Sei que não devo. Tenho a oportunidade de celebrar alegrias inéditas que nunca planejei. Entristeci pelas coisas que não pude mudar e pelas coisas que mudaram enquanto eu mudava. O que realmente existe e fica perto do nosso controle? Para um escritor, você supõe, que são as palavras? O escritor nunca se perde da escrita, mas às vezes se perde de si mesmo e sumir de si mesmo é tropeçar no fundo do poço. A queda brusca, violenta, deixa-nos completamente machucados. Tentações, perigos e ecos de morte surgem como sussurros insistentes. Apavorados, convivemos com o medo de ceder. Quando a mente não pensa, a voz não sai, o escritor secretamente alimenta a esperança de que os dedos gritem o pedido desesperado de socorro e nem sempre é assim que acontece. Por vezes apenas sufocamos enquanto o resto do mundo nos esquece.

Um escritor não se perde da escrita. Está por conta do ofício obrigado sempre a se escrever, descrever, transcrever. Não é preciso caneta, papel, teclado ou computador. Os dedos seguem o ofício de criar textos e organizar palavras, mesmo de olhos fechados, mesmo na inconsciência ou na consistência do amor. Grandes inícios em parágrafos bem estruturados e finais trágicos em histórias surpreendentes. Não, um escritor não se perde da escrita, mas a escrita pode exercer sua função de ocupar distâncias e preencher lacunas. O escritor aprende e ensina através dos tantos textos. Percebe que, embora encontre neles sua própria voz, o desenvolvimento nem sempre é o mesmo. O escritor evolui conforme lê mais, entende mais e se atreve mais. É preciso mergulhar profundamente em mares selvagens e se defrontar com monstros lendários e esquecidos. O escritor é aquele que sabe que todo inimigo pode ser vencido, embora não compense acumular inimizades ao longo da vida.

Porque a vida deveria ser mais feliz, redonda, mas os problemas que nos cercam por muitas vezes não são solucionáveis e temos o hábito sombrio de complicar tudo o que é simples. As tragédias mundanas não se equiparam com tragédias individuais, pois dimensionamos as coisas com os nossos próprios sentimentos e não com o coração do mundo. Respiramos com nossos próprios pulmões e só nós perdemos e recuperamos o controle de situações pessoais. Somos pequenos e consequentemente nossas angústias não podem ser tão expansivas quanto nossos sonhos. Esquecemo-nos que temos a capacidade para existir ao longe, ecoar nossas vozes e risos ao som de fundo do planeta, como pequenas caixas de som, propagando uma mensagem auspiciosa, que reverbera. Temos o potencial para ser a beleza que renasce junto com a primavera. Merecemos muito mais do que uma vida de sacrifícios diários por salários baixos. Merecemos abraçar nosso protagonismo e viver esse heroísmo que já estava escrito nos astros.

O escritor é aquele que sabe que saber muito vale tanto quanto saber nada. É aquele que possui a consciência de que vidas se gastam, amigos se afastam e tudo muda em uma curva na próxima estrada. Há qualquer coisa californiana no meu coração, ainda que eu nunca tenha chegado perto da Califórnia. Há qualquer coisa noctívaga, ainda que eu tenha nascido perto do meio-dia. Transbordo a minha sensibilidade na demonstração absoluta da minha sinceridade e sou retaliado com a precisão certeira de um costureiro hábil. A agulha entra e sai em pequenas incisões e o trabalho, lento e bem feito, não deixa nenhuma ranhura na costura já pronta. Lançam o manto e me cobrem. Percebo-me na escuridão e sinto as pancadas. Observo, absorvo e aprendo, mas no escuro não me defendo. A cabeça de muita gente funciona de um jeito pequeno. Pudera eu ser mais sereno, mas sou como posso no momento em que posso e sinto nos meus ossos essa sensação como um dever. Faço o que for preciso, consciente de que algumas vezes vou perder. O escritor é aquele que sabe que nem sempre poderá se proteger, mas é também aquele que aprende que nem sempre vale a pena atacar. A lei da vida é que tudo muda sempre de lugar.

Respiração profunda em um interlúdio que faço em mim, assim como Tomas se perguntou, eu também me pergunto, tem que ser assim? Pego-me de cócoras afagando a gata e o cachorro. Nenhum ouvido escutou os meus pedidos de socorro. Aprendi e desaprendi, caí e me levantei, sofrendo com influencias sutis, próprias ou alheias, distraído com um ou outro perfume distante, devaneando com memórias distintas ou lastros falsos, seduzido por ritmos confusos em uma canção perfeita, induzido por algo que não vejo, mas que me empurra e me conduz, que me aproxima e me afasta, mesmo em uma simples caminhada, do meu próprio caminho. Aprendi que a gente só se aprende quando ousa existir sozinho, mas que a solidão demasiada é uma doença sem cura. Quem muito se afasta se desacostuma com a ternura. Quem muito se distrai se esquece das responsabilidades dessa vida tantas vezes dura. Nada pode ser tão leve. Nada pode ser tão pesado. Nos encontraremos em um lugar onde não há escuridão e podemos deixar o passado de lado, sem nunca o esquecer. O esquecimento é o primeiro passo para jamais nos aprendermos.

O escritor é aquele que existe atemporal. Um dia eu vou, todos vão, mas talvez meus textos fiquem espalhados em portais da internet e a vida de alguém se valha outra vez em algo profundamente místico que eu disse sem a intenção de dizer e não me lembro. A grande obscuridade dos verdadeiros milagres é que eles acontecem o tempo todo, mas somos incapazes de notá-los. Talvez eu já tenha escrito algo suficientemente poderoso para mudar uma vida e isso baste absolutamente, mas talvez seja tão insubstancial na minha visão que eu enxergue meus textos como um acúmulo de palavras torpes para aliviar meu coração pesado com a responsabilidade crescente de melhorar as coisas.

Que coisas? Ora, todas as coisas! Desde pequeno devaneio com um planeta sem maldades, porém a pungência da maldade é tão expansiva quanto à da bondade. Meu melhor amigo está certo quando diz que a noção da nossa malícia e potencial para fazer vilezas define a nossa postura principal de vida. Isso não quer dizer que não possamos errar, que não sejamos “maus” de quando em quando, muito menos que os nossos erros nos definem, mas significa que temos que olhar para a nossa vida como se ela fosse simultaneamente séria e cômica. Pender muito para um lado só é se desprender da noção de realidade e absorver-se todos os dias em um cotidiano imaginário é uma armadilha perigosa. Mergulhar em um devaneio sem fim faz com que percamos o fio que nos liga ao que existe.

Os perigos são reais, ainda que não soem como promessas de periculosidade. Há quem prefira viver em cenários hipotéticos e falsos, há quem ignore os males do mundo, os presidentes estúpidos, os vírus letais. Sei que faço de mim o que preciso, às vezes para viver, às vezes para sobreviver, porém não arrisco quem eu amo no meio do processo. Nem o cuidado absoluto garante qualquer tipo de sucesso. Nem mesmo mortes garantem o nosso apreço para com a vida. Toda vida passa e em algum momento é esquecida. Sinto-me como uma pilha estourada, vazando, viscosa. Sinto que, às vezes, só a substituição pode me salvar, mas não me substituo e assim a vida continua. Ajoelho-me e rezo por tudo o que firo e por tudo o que me fere. Oro pelos mortos, mas principalmente pelos vivos, pois por eles não há muitos que velem. Respiro profundamente e olho a vida. Vejo detalhes mínimos e inspiro e solto os meus desconfortos. A minha sensibilidade é aguçada, entretanto, creio de maneira retilínea que poucos fariam por mim o que eu faria por eles. Há maneiras de se preservar ou o único tipo de autopreservação é pela exposição completa?

A alma exposta representa nossa liberdade cantada. Alegro-me por coisas que sinto e por coisas que não sei dizer. Passo o café antes do lusco-fusco, sento-me e, enfim, permito-me relaxar. O relógio marca 17:37h e tenho compromissos, porém ainda não consigo cessar de escrever. O escritor é aquele que nunca se perde da escrita e que detesta veementemente se interromper antes do derradeiro final. Não, a vida não exige finais espetaculares, apenas finais bem escritos, histórias bem vividas, amores verdadeiramente amados. Eu recuo e me disponho a viver outros sonhos e correr por tudo o que sempre quis. Certa feita fiz pouco caso sobre ser feliz. Bobagem! A felicidade é tão importante quanto continuar sobrevivendo e da glamourização dos sacrifícios não pode advir nenhuma espécie de bondade ou resultado positivo. A felicidade é o melhor combustível para se sentir vivo!

Um escritor não se perde da escrita, mas muitas vezes nela ele se acha. Encontra-se consigo mesmo e as peças repentinamente se encaixam. As lembranças, as aventuras, os sorrisos, os perfumes, os momentos, tudo isso fica e permanece, mesmo quando a gente parece se esquecer. Esta tarde, tão quente quanto o restante do dia, morre devagar na promessa de uma noite mais fresca. Somos fugazes como o conceito de dia e nos deixamos morrer a cada sono para renascermos ou somos constantes e empedernidos, montanhas resistentes contra as adversidades? Deveríamos apostar mais nas coisas mais importantes que temos em nossas vidas.

Um escritor não se perda da escrita. Palavras se acumulam em linhas e mais linhas de quem tem a necessidade de rasgar o peito para abrir toda a realidade dolorida. Dolorida e colorida, pois onde há dor, há promessas da verdadeira beleza e do amor. Nenhum prêmio chega sem merecimento e ensinamentos obtidos através da dor nos ensinam por muito mais tempo. Crescemos, envelhecemos, sem nunca nos abandonar. O capitão permanece no navio até o dia que ele afundar.

Não sei que efeito novo a vida velha produz em mim, mas sei que me sinto apto a sentir coisas novas. Sei que o verdadeiro amor suporta toda e qualquer tipo de prova. Sei que sei pouco, mas fiquei rouco de tanto gritar minhas verdades. Outro dia desses sorri ao ver minhas frases em outdoors pela minha cidade. Sou a camisa pesada no varal, resistindo contra o vento violento. Tenho o peso das milhões de partes pelas quais sou formado e olho no olho de cada uma delas. Evoluo devagar. Converso com pessoas para entender mais sobre pessoas e busco uma compreensão profunda do que se faz pela sensação única de que deve ser feito. Vejo a espontaneidade. Vejo a malícia. Aproximo-me. Afasto-me. Torno-me mais inteligente, arguto, capaz, mas uma sonolência de ações se apodera de mim. Não quero me tornar inconsciente através de um processo intelectual e consciente que me faça permitir tudo. Não quero aceitar adaptar todos os meus comportamentos e me tornar alguém completamente novo através de uma hipnose dos sentidos. Tanta gente especula e só eu sei o que acontece comigo.

Um escritor não se perde da escrita. Escrever resume tudo o que ele acredita. Dia após dia, os escritores seguem batendo nas teclas e expondo suas opiniões e sentimentos, suas verdades e seus momentos, ansiando para que tudo isso baste. Tornar-me-ei frio? É preciso seguir em frente com coragem e brio. Um escritor é o arco e também a flecha. Lançado ao ar, ele sobre, desce, acerta e se conecta. Ele pode traduzir sentimentos, sensações, como poucos podem fazer. Quer alcançar o que raramente se alcança. Os cantos que conto traduzem diariamente minhas diversas mensagens de esperança.

A respiração cessa. Escuto um som distante. São os passos que se aproximavam no passado e com toda a sutileza do mundo se aproximam novamente. Como senti falta desse jeito de andar. Os saudosistas felizes sempre estarão com o coração cheio, mesmo que vazios de presenças físicas. Lacunas são preenchidas ou não, há tentativas válidas e esforços em vão. A força deste milagre faz com que eu me sinta exposto. Celebro-me por existir completo, mesmo que não me considerem completamente são. Transbordo o tanto de coisas boas que carrego no coração.

Deito na relva e observo as estrelas na escuridão profusa do céu noturno. Recordo-me de quando uma estrela singular surgiu no portão de casa. Não acreditava na força do Universo até ser forçado a crer em magia das estrelas. Antecipei-me ao que viria, sem saber direito o que de algum jeito eu já sabia. A sensação de amor é inigualável e os que vislumbram dessa sorte, precisam saber aproveitá-la. Não se vive mais de uma vez, assim, não há como verificar acertos e erros, exceto pelo próprio limite consciente. Esticar a consciência infinitamente para comportar tudo e transformar sua narrativa própria em um grito de liberdade, parece-me oportuno e instável. Qualquer um pode se convencer de que não há erros e de que tudo é válido. Isso torna realmente tudo válido?

Um escritor é aquele que se perde e se encontra nos próprios delírios. É por natureza um acumulador de martírios. Acumula-se também experiências e através delas nos moldamos. Temos a capacidade de nos transformar com o passar dos anos. Nota-se pelos textos e pelas experiências que é preciso continuar se expandindo. O mundo é quase sempre o mesmo, mas às vezes parece mais lindo. É quando os olhos, sempre distraídos, interrompem-se para cuidar das coisas frágeis. Nossos instintos geralmente fugazes nos tornam apressados, não ágeis.

Um escritor não se perde da escrita. Escreve para lembrar, escreve para esquecer, escreve para se manter afiado e levar ao longe a compreensão de que é possível seguir. O escritor é aquele que faz uma leitura aproximada do que ainda está por vir. Analisa-se o mundo e tudo o que acontece com a passagem dos anos. Como aceitar que o tempo perdido não foi um grande engano? Aprendemos exatamente o que deveríamos, ou seja, não há atrasos e nem antecipações. Como sobreviver sem carinhos e aglomerações? Há quem tenha perdido pessoas próximas sobrevivendo com frustrações e enormes lacunas. Sinto falta da presença do meu irmão, do cheiro do meu sobrinho e da praia das dunas. Ainda assim, celebro-me. Desta vez estou localizado em mim e isso é motivo de alegria. Não há segredos, mas calei meus medos ao me dedicar mais e começar a viver um dia de cada vez. O meu melhor me basta hoje e se não bastar aos outros, bem, eu posso lidar e conviver com isso.

Que me pungem essas ausências distantes? Tenho desenvolvido a minha ingenuidade corajosa. Tenho sentido que a Vida e a Morte vão me colocar à prova. Por vezes sou excessivamente severo, especialmente comigo. Funciono na base da lei do crime e castigo. Creio que tudo o que vai, volta, mas isso nunca me consternou. Antes acreditar de novo na vida, eu sei que vou ter que abrir minhas feridas e permitir entrar mais amor. O que devo fazer quando não sei bem o que fazer? Pedir conselhos aos mais estúpidos que eu? Entrar em uma reclusão prolixa de sentidos e ações? Será que os que se fingem cegos realmente protegerão nossos interesses?

Um escritor é aquele que não se perde da escrita. Os dedos procuram as teclas, mas há coisas mais especiais do que os textos. Quando minhas mãos se encontram com outras mãos, sinto que a vida não é mais um vagar a esmo. O coração acelera em novos ritos de ciúmes. Em um jantar à luz de velas estou a me render pela fragrância de um tipo específico de perfume. Tudo se cala quando o mundo deixa de existir ao redor. Pode ser só por algumas horas, mas a vida se torna muito melhor.

Um escritor não se perde da escrita. Escrevo por necessidade, por prazer, para não perder a doçura, para não perder o amargor. O ato da escrita é representado apenas pela escrita e tudo significa, mesmo quando não significa nada. Sinto que preciso de um tradutor de mim em mim. A minha língua-espada hoje se defende, mas pouco ataca. Há que se procurar estes meios termos ermos.

Confesso que por longos meses temi e me explicar sobre temores é demasiado prolixo. Lidei com tantos fantasmas, eu admito, ao ponto de recear me tornar um. O que garante que não somos o que não queremos ser?

A cautela nos auxilia nos direcionamentos. Por vezes sobrepujamos nossas próprias ações com atitudes desconexas de nós, completamente sem sentido. Há, porém, raros momentos de vislumbres magnânimos, celestiais e aqui existimos como seres sublimes. Somos punidos por nossos equívocos, mas comemoramos devidamente nossos acertos? Realizamo-nos com coerência? Sustentamos a convicção de que por muitas vezes já atingimos certos ideais que vislumbramos? Somos o que podemos ser e temos as características mais nobres que buscamos, entretanto, sem a validação externa, diminuímo-nos, ofuscamo-nos, apavorados com a nossa própria capacidade de brilhar. Tornei-me arisco quando verifiquei a quantidade de aproximações por interesse. Resolvi, porém, os outros não poderiam ser motivo para me desanimar. Aos outros o que é dos outros e a mim o que é meu. Respiro fundo e sorrio. Desejar a felicidade alheia é um dos instintos mais puros e nobres da alma e noto que não sinto ódio nem de quem me odeia.

A vida é um pasto verde que de repente se incendeia, como no quadro em chamas da fazenda na sala da casa dos meus avós, obra de arte que fez nascer a primeira poesia escrita em mim. Estranhos acasos da vida. Encontrei minhas salvações perto da última saída. Tudo acontece de um jeito surpreende e me inflo de coragem para tentar acertar. Aposto alto, mas sinto que estou completamente alinhado com tudo. Ando devagar, mas sei o que quero e o que preciso. Quando tudo me pune, não fujo, enfrento e se não estou pronto para enfrentar agora, sei que eu estarei em breve. Resisto, incertamente intrigado, certamente contente. Falhei como um mestre em falhar, mas reergui quando fiz um tratado de paz com meus problemas: resolverei um por vez. Não posso controlar o que esperam de mim, mas posso cumprir com o que eu mesmo espero.

Um escritor não se perde da escrita. Medos que não sinto me fazem insone. Sinto medo de um dia sentir medo da fome. Há um garoto em um porta-retratos ao lado do teclado qual agora digito. A confiança é um prato que se come frio, é uma frase que eu inventei e o menino gelado ouviu, mas será que nela acredito? Nenhuma conexão rápida me soa natural. Outra vez o que parecia uma brisa fez na minha vida um vendaval. Deixou-me em destroços e assim me tornei desconfiado. Há acertos que parecem feitos para dar errado.

Há outros lampejos de uma felicidade que chega em uma vida além. A vontade insistente de um beijo do qual não se pode mais viver sem. E subitamente vejo sonhos coloridos nos olhos vidrados dos peixes mortos. Fito os espaços brancos a serem preenchidos com a oração dos nossos corpos. Desejo preenchê-las. Quem disse que uma coruja não pode se apaixonar por uma raposa ou por uma estrela?

Sinto medo e amedrontado sigo na direção das coisas que me apavoram. Um escritor não se perde da escrita.

Há dias que brilho como o sol, mas em regra sou como uma esponja que absorve a sujeira dos outros. Um escritor não se perde da escrita.

Quando chove muito e o céu chora por mim, quando o sol queima minha pela apenas para me fazer arder, quando tropeço em um obstáculo que eu inventei, eu me lembro de que um escritor não se perde da escrita.

Assim, sigo firme e escrevo. Quando tudo me pune e sofro com milhares de ataques, eu fecho meus olhos brevemente e me recordo de que um escritor não se perde da escrita. Independente do sente, ele se adapta, é um mestre em seguir em frente e luta por tudo aquilo que acredita.

Sensações.

            Acabo de percorrer o caminho de volta do Bairro da Liberdade. Todos alertam sobre os perigos de São Paulo e eu não relaxo, mas admito que a sensação é ambígua enquanto carrego minhas sacolas pelos metrôs e pelas ruas. Tenho a impressão de que é como trancar toda a casa antes de dormir e, ainda assim, ser surpreendido por um bandido que sai de dentro do meu guarda-roupas. Verifico os armários antes de me deitar, apenas para me sentir ainda mais seguro e durmo com a televisão ligada para evitar a escuridão. Essas sensações antigas retornam junto com os meus tantos pesadelos.

            Notei, ligeiramente abismado, que chamei a cidade de São Paulo de casa. Poderia uma cidade tão agitada servir para alguém tranquilo como eu? Deixo essas questões ridículas e precipitadas para outro momento. Tenho o péssimo costume de deixar toda sorte de coisas para depois e devo me encontrar com a cidade no meu próprio tempo.

Voltei do passeio e trouxe alguns bonecos dos animes que mais gosto, quatro camisetas, bem como três pôsteres que vão se transformar em lindos quadros. Minhas aquisições são positivas e me sinto renovado e feliz pelo passeio. Ninguém me incomoda na ida e nem na volta. Talvez seja por conta da minha altura ou pelo fato de que forço meus músculos e não abro mão de minha carranca irritadiça. É possível que comprem a ilusão de raiva quando olham para a expressão dura de meu rosto, porém desabrocho meus melhores sorrisos assim que me encontro com pessoas. Intuitivamente sei que é muito importante continuar a ser gentil.

A vida vai esquisita e encontro novas maneiras de ganhar dinheiro. Nenhuma delas até hoje me fez feliz. Chego no apartamento e meu irmão está dormindo às 19h00. Nenhum de nós sabe que em um ano e meio ele vai ter um emprego qual ama e menos ainda desconfiamos que ele será pai. Neste instante agradeço o privilégio de desfrutar das coisas presentes. O computador está livre e posso escrever um texto.

Honestamente não me lembro exatamente do que aconteceu depois. Nesta época, tudo detinha a minha atenção na cidade de São Paulo. De quando em quando me levantava animado e passava o dia todo caminhando por ruas extensas e entrando em lojas com cheiros peculiares e tamanhos improváveis. Noutros eu empenhava esforços homéricos para convencer meu irmão a sair comigo e, vez ou outra, era recompensado com sua companhia. Em algumas manhãs e tardes vaguei a esmo, sem medo do perigo, procurando um lugar pacífico para tomar um café e ler um livro. Numa dessas incursões até ganhei uma pedra do meu signo e uma profecia de uma velha esquisita que previu meu sucesso, o que não foi assustador, mas achei de bom tom da parte de uma excelente vendedora. Houve noites quais saí em primeiros encontros na Padaria Palmeiras e olhei pela primeira vez em olhos azuis como o oceano.

Quem diria que meus olhos castanhos se reconheceriam naquela imensidão azulada e profunda. É que carregar uma dor no peito transforma nosso jeito de se mover e até os nossos olhares e acontece que duas dores distintas podem se encontrar como semelhantes, ainda que sejam completamente diferentes na forma. Eu não apostei em nada mais do que a minha própria gentileza e descobriria muito depois só uma pessoa que me fizesse apostar tudo outra vez. De toda forma, estávamos sentados na mesa estreita, meus joelhos batiam em tudo e nos olhávamos. Trocamos nossas histórias, nossas primeiras impressões e onde dois opostos se encontraram como semelhantes surgiu uma fagulha que resultou em uma explosão. Ela havia sido largada pelo noivo semanas antes do casamento e partiria dentro de dois dias, sozinha, para a lua de mel na Austrália. Eu ainda meditava sobre o meu desamor e meu sofrimento no último semestre e me questionava a respeito da durabilidade das relações. Em outros cantos do país outras pessoas passavam por traumas maiores e descontavam em distrações diferentes ou se alegravam por coisas mais discretas e eram felizes por gestos mínimos. Eu não poderia antecipar o que interligaria o meu destino ao de outros.

A vida vai como vai e é inevitavelmente estranha. Creio que na realidade perfeita desta mulher de olhos azuis, ela se casa com o homem com o qual passou anos juntos e vive uma lua de mel incrível e repleta de passeios. Ela certamente não esperava passar a véspera da viagem com um cara que conheceu na noite anterior. Eu certamente não esperava ser o cara da noite anterior e nem esperava estar sentado no sofá do apartamento em São Paulo assistindo Baki na metade do mês de abril. Ainda sem sair do sofá me peguei imaginando a mulher da noite passada descendo sozinha em solo australiano. Um sorriso espontâneo surgiu em meu rosto e naquela noite tomei a vida por inevitável, mas ri de minha própria tolice pela improbabilidade do avião ter chego tão rapidamente em um país tão distante.   

Ainda assim, eu reconheço que tenho falado muito de pessoas, principalmente das outras e, muito provavelmente, discorrido pouquíssimas vezes em retrospectiva pessoal, intransferível, individual. Estive tentando me evitar? Não tenho certeza, nunca fui de fugas, mas suponho que todos sejamos capazes de contradições.

Volto a falar de destinos que se entrelaçam e felicidades inéditas, como as que vivi no meio do agitado ano de dois mil e dezenove e do esquisito ano de dois mil e vinte. Coisas importantes se renovaram dentro de mim e me tornei alguém melhor. Amei e fui feliz como nunca imaginei. Oscilei mais do que pretendia, entretanto, vejo que fui forte como pude, pelo menos na maioria das vezes. Pilotos franceses subitamente me abriram os olhos e não pude deixar de ver o que por tanto tempo evitei.

O mistério do êxito não é tão misterioso assim. Para fazer o que poucos fizeram é preciso fazer o que poucos fizeram. Sorrio com a afirmação boba e estremeço. Os aviões decolam incessantemente e vejo suas luzes fracas iluminando discretamente o ambiente do céu noturno pelo qual passam. Jazo dentro de um deles, ainda que seja sempre incerto o momento, mas me vejo partindo no meio do breu, insistindo sempre em luzes, veja só, essas luzes que brecam a escuridão aterrorizante, essas luzes que nos salvam a todo instante, essas luzes que me seguem e que me preenchem, essas luzes quais me tornam luz também. Diversas sensações sambam alegremente dentro de mim. Sinto que preciso acender as luzes apagadas, trocar lâmpadas, mostrar o caminho. Aqui hoje assim não posso. Aqui hoje assim não consigo.

Tenho a sensação atemporal de que a minha solidão pode me matar, entretanto, simultaneamente vejo que apenas sozinho sou capaz de parar de me esconder das tantas responsabilidades que tenho para com minhas capacidades. Sei sobre o meu tamanho e tenho que ficar longe de casa, seja lá o que me faça sentir em casa, para atingir meus limites e cumprir com meus objetivos. Até onde sei, tenho esta vida para sentir orgulho de minhas capacidades e me derramar neste mundo tão vil, violento e frágil. Confesso que posso ser exatamente como o Universo se parece aos meus olhos e choro.

            Essas sensações antigas retornam junto com meus pesadelos e me defendo em um estado inconsciente. Quando me percebo em pé com os punhos cerrados, flagro-me em um medo descontrolado da morte e um apego feroz pela vida, assim, convenço-me de que continuar vivendo é uma questão de necessidade e que todo esse papo que faz voltas e mais voltas faz algum sentido. Essas sensações antigas retornam, mas quando o mar da escuridão tenta me engolir e me tornar melancólico ou sorumbático, eu sorrio com os olhos na direção qual seguirei. Tenho a sensação de que sou uma luz forte, dessas que cegam momentaneamente nossas visões, em um mundo escuro e esquecido. O meu jeito de existir é continuar convivendo com as sensações e tomando o cuidado para não queimar subitamente. Quem sabe um dia exista mais claridade que escuridão. Quem sabe um dia eu dormirei sem a televisão ligada. Quem é que sabe?

            Um dia…

Monólogo para um ouvinte calado

            Sonho que sou o inventor deste mundo e faço uma mistura questionável das conclusões que obtenho antes de acordar. Quando acordo, sinto-me estranho e o peso da realidade destoa do que me é costumeiro. Que se pesa mais no decorrer dos dias?

            Há este ponto confuso onde me vejo Perfeito e Imperfeito e a contraposição de ideias que me parecem impossíveis em coexistência certamente coexistem. Como alego ser Feliz e Triste? Como vou do Tudo ao Nada? Como penso apenas nos outros ou apenas em mim? Como admito ter encontrado a satisfação suprema e necessitar abrir mão disso por compreender, seja precipitado ou não, que o regozijo da calmaria me afasta de um Propósito tão grandiloquente? Você está me acompanhando aqui, senhor?

            Esqueço os propósitos, as missões e os anseios por coisas que julgo serem boas e, faço-me terreno, humano e mortal, como fingia não saber que sempre fui. Experimento a vituperação e o sabor amargo de uma realidade que não me é comum. Sofro por julgar que o sofrimento é a conclusão mais real da vida. Outra vez deito meus pensamentos para o Bem e o que é Bom, exatamente para essas coisas livres de vícios ou falsas virtudes. É possível alcançar isso senão em pensamentos? Que é que vejo quando fecho os olhos e não há mais o que ver?

            Que se convençam do que podem, eu me convenço da dureza das coisas e me puno com o que julgo errado. Se ajo errado, certo ou incerto, castigo-me por tempo indeterminado. Minhas punições podem durar eras quando eu sou o carrasco, mas tenho aprendido a perdoar rápido os outros. Deveria? Não há coisa que se deva nessa vida, há? Não sei. Creio que em situações de dúvida apostar no instinto seja a melhor opção. Ensaio uma despedida antecipada, mas em breve vou me despedir definitivamente. E daí se eu nunca mais voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem é que pode se preocupar realmente comigo?

            Não, estes não são os caminhos, embora seja difícil ver com clareza. O hedonismo é tão cego quanto a religião. Que prazeres recompensam uma vida sem recompensas? Que realidades compensam uma vida hipoteticamente sublime? Há necessidade de desejar algo assim tão distante e distinto? Compensaria optar pela Abstração?

Neste ínterim de insanidade, mergulha-se o peito num mundo-fundo vazio e me afogo em coisa nenhuma. Meus questionamentos não mudam. E daí se eu nunca voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem vai pular no oceano gélido para me resgatar se eu estiver afundando?

            Qual subjetividade humana te satisfaz, senhor? Qual te faz mais completo? A simplicidade? O entendimento limitado nos permite fixar raízes mais fundas em nossas relações interpessoais? A amálgama que faço de diversificados assuntos me assusta. Creio que parte de mim já tenha enlouquecido. Perdi meu senso de objetividade? Não sorrio e nem choro. Estático olho pela janela e vejo telhas, telhados e árvores. O céu vai mudando de cor e prevejo que a noite será incalculavelmente longa. Já esteve preso em uma dessas, senhor? Noites que duram meses ou até anos?

O que há para enxergar quando cai a noite? A luz da lua, o brilho das estrelas e as nuvens cinzas nas noites mais claras? Os olhos se acostumam com o céu noturno e me pego sentado perto da piscina que está esvaziada pela metade. Não é um caso de copo meio cheio, meio vazio. A piscina pela metade não faz sentido, entretanto, é a piscina que eu tenho na casa qual vivo. Se hoje a piscina é lar de novos seres, assim seja, brindamos às realidades quais podemos suportar! E se não pudermos suportar? Reticências, suspense, continuação sem continuidade. E daí se eu deitar na pedra e dormir? E daí se eu não acordar? E daí se eu nunca mais voltar?

            Não sei, confesso sempre ter me sentido bastante distanciado da sensação de inveja, mas olha-me, eu às vezes queria ter resoluções mais simples, exatamente como o senhor. As nuvens são nuvens, o céu é o céu e os animais precisam dos potes de ração cheios ou morrerão de fome. Os aviões são apenas aviões e tudo é apenas o que é, bem como, certamente por seus olhos certeiros, eu sou apenas o que sou. Se me perguntasse, porém, quem eu sou ou como sou, como poderia eu me explicar? Percebe a diferença de nossas maiores diferenças? Queria ver simples, ser simples, desejar simples. Queria ser sintetizado. Recente, te juro, senti Amor maiúsculo e quanto mais eu sentia, menos eu era quem eu era, pois não fui quem eu precisava ser antes de me encontrar com isso. Há hora errada para essas coisas todas? Amor maiúsculo cessa de sentir? Desta vez parece-me impossível. Perco-me nesta divagação confusa? Se eu te perguntasse quem você é, você riria e responderia “apenas eu”, resumindo a falta de necessidade da prolixidade em uma pergunta tão direta e boba. Desanuvio a mente e volto para a pergunta que me fiz agorinha. Há horas erradas?

            Se há hora errada, eu nunca me errei, mas ainda vou, pois todos se equivocam grande ou pequeno, estreito ou largo, ao longo da vida. Você sabe melhor do que eu, senhor, nossas estradas são apenas estradas, mais ou menos esburacadas, com mais ou menos acidentes, que importa? Fases feias que vão e vêm, vômito, vergonha, asco, raiva, tristeza, miséria, mas e daí? Alguns se erram jovens, outros velhos e ainda há os que erram jovens e também velhos. São estradas esburacadas e acidentadas simplesmente. Nota o poder da dualidade que há nelas? Abre-se a janela e a vida se significa em uma brisa dentro de um carro em alta velocidade. Perde-se do reflexo de motorista e a vida se encerra em uma batida violenta. A dualidade de tudo me apavora. Qualquer um pode me destruir. Eu posso destruir qualquer um. Ter consciência do poder é perigoso. Talvez a falta de consciência seja ainda mais aguda e fatal.  

Meu relato soa tão confuso, senhor, estranho que você ainda não tenha me pedido pausas, mas se está me compreendendo, vejo-me na obrigação de seguir. Prometo maneirar com meus tantos silogismos. Lágrimas? Gotículas repentinamente escorrem por meus olhos. É, sim, o sal do mar que habita os oceanos de nossa humanidade. Que é que há? Choro por não conseguir aplicar o descaso no descaso e sinto a minha prolixidade sentimental envenenar minha alma e minhas futuras escolhas. E daí se eu furar todas as minhas bolhas? E daí se eu optar pelo desconforto? E daí se vivo, eu às vezes sinto, como se estivesse morto? E daí se eu me machucar? E daí se eu partir e não voltar?

Venho dizendo em alta voz uma frase estranha, ouça bem, digo que todo mundo sangra igual, você também consegue perceber, senhor? Assim não se importe com o quanto me venho trôpego, o quanto pareço retalhado, faz-se necessário essa dureza de espírito e essa frigidez de não mudança para alcançar certas coisas tão incertas assim. Caí e quebrei. Agora, por ora, é a minha vez de ser um caco quebrado pontiagudo e pronto a ferir. Afaste-se, senhor, pois eu não te invejo, mas se me der escolha de prontidão, verá que eu te machuco sim. Não é o momento, senhor, mantenha-se longe, eu posso te fazer sangrar.

            Queria ver simples, eu disse, desejar simples, eu também disse, mas quando Deus ou eu mesmo, que inventei o mundo, vi-me diante desta hipótese, recusei-a. Explica-se aos outros o que nem completamente se entende para si? A vida se interrompe enquanto observo a gata se divertir preguiçosamente na janela. Ela não precisa de ninguém, mas busca ficar perto de mim, quando eu estou em casa. O companheirismo velado vale tanto quanto o barulhento, senhor? Dividir a estrada é possível, mesmo quieto, mesmo de tão longe? Nem todos os companheiros fazem alarde?

            Senhor, eu lhe disse antes, inveja não é a palavra certa, escute, você vê um avião e vê apenas um avião. Eu vejo a máquina terrível e majestosa que transporta pessoas ao redor do globo. Senhor, você dentro do avião apenas cochila sabendo que vai acordar no seu destino! Eu? Eu nem sei se o avião chegará e toda vez que me pego pensando em destinos finais, vejo-me em seguida em conjecturas sobre acasos, vidas e mortes. Você não olha para a janela, senhor e eu agora confesso que observo àquelas tantas cidades em miniaturas e àquelas luzes tão distantes que enchem meu peito de algo que não sei o que. Você sabe, senhor?

Eu inventei o mundo e queria contar um pouco sobre as coisas que descobri sobre todo o resto. Eu inventei o mundo ou será que apenas sonhei isso? Minha alma quiçá possui o mesmo tamanho da egrégora deste planeta? Perdi-me de novo, senhor, suplico que me desculpe. Confesso não me recordar mais da diferença entre sonho e realidade e nem do que realmente é e do que realmente não é. Esta dicotomia entre planos astrais e reais, este valor subjetivo qual etiquetamos a alma, tudo isso soa tão vago como os que imploram por clemência.

            Em termos gerais, escolho um caminho de sofrimento individual.

            Os começos, certo? Estou a começar pelas estranhas maneiras que agimos ou deixamos de agir, pelas manifestações tão absurdas e incoerentes e certeiras.

            É que essas coisas belas estão por aí e existem, olha, eu sinto que poderia falar sobre pelo menos uma delas o dia inteiro, veja, não é sobre conquistas, fracassos, dor, mira? É sobre ser e apenas ser, nesta tortuosidade má e insana que a gente carrega de vez em quando para com a visão do mundo, eu não me entendo, quando criei o mundo eu ainda era jovem e não percebi a desnecessidade de imprimir maldade nele? Entende sobre a maldade, senhor? Só sendo mal que se entende ela?

            Eu criei o mundo e fui derrotado pela melhor impressão que já encontrei. Soa hoje esquisito me ouvir falar disso? Escute bem, pois é com duas orelhas e dois olhos que mandei fazer essa gente toda e assim de carece de ter que confiar mais no que escuta e no que vê e é bom, realmente bom a gente tomar cuidado com o que fala, veja, outra noite tu também vais perceber que língua corta tanto quanto espada e minha mãe me falava isso sobre duas orelhas e dois olhos e agora já não sei qual de nós dois inventou essa confusão caótica de existência.

            Ainda está me escutando, senhor? Sustento a impressão certeira de que escutou pouco ou nada, mas tudo bem. Gente simples escuta pela metade ou nem escuta e sabe ser feliz com menos da metade que escuta e com menos da metade de coisas que todo mundo sonha em ter.

            Senhor, eu te juro, não é inveja que isso chama, não, nutro honesta admiração por ti e por toda essa sua maneira de ser, prática, obsequiosa, elegante, sim, senhor, todo homem simples é mais elegante e, veja, você não consegue ver as coisas como eu vejo e nem eu como você vê e deve ser bom nunca ter sonhado que inventou o mundo e nunca nem ter saído do quintal de casa e não passado frio muito longe daqui, meu caríssimo senhor e bem, eu não sei, mas você deve saber… Está farto deste monólogo, senhor? Pois percebi que é um ouvinte calado e fala pouco com a boca e muito com expressões, não estou certo? Seus olhos são comunicativos e me admiro com essa capacidade de transmitir ideias sem dizê-las. Eu não sei se sei o que sei, mas respeito a sua sabedoria, senhor e você deve saber muito mais que eu…

            Gente simples se basta exatamente com a vida que vive, mesmo que ocorram vários pormenores ao longo dela.

            Gente complicada igual eu, senhor, está sempre tentando mais, buscando fazer melhor, arriscando tudo… mesmo sem ter a certeza do que significa tudo, mesmo sem ter a certeza que esse tanto de riscos vale a pena.

            Você acha que vale, senhor?

Problemática

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática.

Uma criatura hedionda, sinistra, completamente vil, fita-me no escuro. Não sei dizer se ela é maligna, pois o tipo de tortura que me impõe é apenas verbal. Sussurra nomes antigos e evoca meus fracassos e traumas. O sorriso matreiro brinca em sua face e, às vezes, eu posso jurar que ela é uma espécie de contraparte minha, meu doppelgänger ou qualquer coisa que o valha. Quando estou muito ansioso a criatura parece adquirir mais poder, assim, devaneio com o meu reflexo no espelho do banheiro, penso que ele me lança olhadelas malignas e provocadoras, suponho que ele vá me puxar para dentro e sugar a minha vida e minha alma. Este vazio escuro me cerca e me consome, zomba das minhas decisões e chama o meu nome, eu reconheço a voz distinta e distante, é estranho, mas eu sei que essa noite alguém vai tentar me afogar.

Sobrevivo um pouco mais, eu aprendi a nadar há anos, quando ainda não passava de uma criança chorona. Recordo-me das aulas de natação nas quais eu era o único aluno que não trapaceava nas idas e voltas que a professora exigia. Todos tinham uma vontade urgente em anunciarem a tarefa como finalizada. A criatura alta ainda me fita e eu me torno soturno. Sinto o peso de milhões de dores que deveriam ser alheias e carrego o cansaço desta vida e de outras. Sou equiparado aos réprobos e ninguém me defende. Sou chamado de patético e ninguém me entende. Uma força medonha e invisível se insinua e eu recuo dois passos. A criatura continua prostrada perto da cama. Se há um Diabo, ele dança diante de meus olhos. Se este é o Deus único, certamente ele não é bondoso. Se abro os olhos não vejo nada na escuridão. Se fecho os olhos sinto meu corpo todo tiritar e os meus gritos são sufocados. Emudeço e sinto medo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me afundar.

Sob meus pés lama ou uma espécie de areia movediça, entretanto, passo ante passo, eu sigo firmemente e não me deixo ser sugado e nem provocado pelo que me atiça. Escrevo versos e conquisto minutos valiosos. Desejo viver. Perto dos finais cada segundo conta o dobro. Agora parece que minha vida significa algo, pelo menos por um instante. Escrevo para criar um interlúdio entre a realidade e o medo. Ouço perguntas milenares e impulsos solares me respondem que ainda é muito cedo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar acabar comigo.

Brilho raro na escuridão. Memórias de pessoas que me inspiram e iluminam meu caminho ressurgem. Queimo como o sol e o relógio marca meia-noite, eu sei, ergo-me em improbabilidades tão certeiras que dificilmente me creem. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me destruir e desconfio de quem seja.

Fito a criatura e me fito também, recito Incenso fosse Música, “isso de querer ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”. Pisco meus olhos e seco o choro. Outra crise de ansiedade e me concentro no que existe ao redor e escuto o ronco do cachorro. Não serei vencido tão facilmente por coisas assim. Como posso parar se ainda existem todos os sonhos do mundo em mim? A poetisa estava certa, o nosso maior medo não é o de sermos inadequados e sim o de sermos poderosos além da conta. Eu sei que essa noite a minha contraparte tentará me convencer de que eu não sou capaz de fazer coisas quais tenho certeza de que sou capaz. Intuo que o negrume da madrugada soará assustador, porém como um vaga-lume vou piscar e lumiar discretamente. Afastarei o breu para quem quer apenas seguir em frente.

Brilho raro na escuridão da existência para quem com paciência busca o seu lugar. A absoluta consciência de quem sabe que precisa se encontrar. Coragem e insistência para quem nasceu para iluminar.

Toda noite sofro com a mesma problemática, mas me descobri capaz de resolvê-la. Agora quando fecho meus olhos só me recordo do inigualável brilho das estrelas.

Eu sei que essa noite alguém vai tentar destruir a minha vida e sei também que vai falhar. Eu sei que muitos falarão sobre minhas ações, mas ninguém vai ser direto e me perguntar. Eu sei que já avisei quem me interessa que não sou feito de aço. Anunciei que ontem mesmo quase tive um colapso.

Eu sei que muita gente sabe de muita coisa e eu não sei de nada. Sei que parece fácil, mas será longa essa madrugada. A criatura vil voltará e sentirei a apoteose de meu abandono. A criatura violenta voltará buscando sangue e será difícil permanecer por uma hora em meu sono.

Toda noite sofro com a mesma problemática, porém aprendi a esperá-la com calma. Uma boa dose de meditação, instantes lúcidos de orgulho do próprio coração e a insistência no que alimenta minha alma.

Eu sei que essa noite alguém tentará me matar, mas eu não vou morrer. Sei que tudo se repetirá, mas eu só preciso aguentar um dia por vez.

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática. Um dia isso passa…

Ninguém nunca antes…

E qualquer um apontaria o meu exagero latente, mas a verdade é que eu acordei lá pelas cinco e fiquei sentado contando os minutos para que o tempo passasse.

Você me disse uma vez que ninguém nunca antes, nunca desse jeito e era cedo, bastante cedo e o início daquela noite era como o início de nossas vidas e de eras que pareciam se anunciar com a nossa (re) união, mas era realmente cedo, quase como constatei que era cedo hoje ao abrir os olhos pela manhã e notar que você não estava por perto, mas não estava tão longe, pois eu fechei os olhos e pude me lembrar, nunca desse jeito, você me olhava meio cética, meio qualquer coisa incrédula, ninguém nunca antes, nunca desse jeito e eu ri alto, é que eu sabia que não era uma provocação e sim uma confissão sincera, mas eu continuava sorrindo e você não antecipava como eu poderia ser bom com minhas certezas, uma vez que elas quase sempre saltam diante dos meus olhos sem qualquer réstia de explicação racional.

Essas coisas todas talvez se expliquem, eu sei mesmo, uma vez não conta, eu tenho repetido isso por acreditar realmente na ideia e no fundo acredito também que os alemães estão certos e que tudo precisa ser exatamente assim, mas de quando em quando me bate uma vontade de ser ligeiramente egoísta e me transportar para esse amparo de espaço seguro que eu encontrava nos seus braços. A delicadeza da sua presença era capaz de torná-la a mais sutil das almas, mas nunca invisível, bom, você dizia também que não eram muitas pessoas que tinham te enxergado, mas me abusando do que se parece um clichê, eu confesso que sinto uma necessidade ansiosa de falar, bem, qualquer um que não perceba essa diferença talvez realmente não mereça sua presença. O que eu acho é só uma opinião extravagante de uma impressão que cresceu em mim e ainda cresce. Você agora se olha do jeito certo, não é?

E as perguntas não param e eu tentei responder o que eu podia, mas acontece é que certas coisas são demasiadamente certeiras e me notei com essa espécie de instinto distante e perfeccionista, eu não estava na direção certa, embora pudesse mesmo enxergar o caminho. Eu me debruço e não desperdiço meus gestos e falo qualquer coisa sobre matar o vínculo, bom, eu só quero que você fique bem, eu não tenho impulsos assassinos, eu não quero matar nada, mas sempre sigo em frente, mesmo quando a tristeza preenche meus espaços vazios e me torno a pessoa menos ensolarada desta galáxia. O que me dói é que eu ainda sorrio toda vez que me lembro de você com aquela sua antiga relutância cética, ninguém antes, ninguém nunca antes, nunca desse jeito e era cedo e eu sorria, pois sabia que só havia uma unidade minha solta, embora tenham visto alguém parecido na Califórnia, sim, dizem que a Califórnia é ensolarada o bastante até para almas chuvosas, eu rio e penso no meu clone californiano, mas eu estava comentando que sou fabricação única e sei que só há uma de você também, ninguém antes também, nunca antes também e me regozijei pelos momentos que transformaram a hesitação em surpresa.

Sabe, eu ainda não saí do sofá e os minutos são apenas minutos, mas quase os chamei de inimigos e isso não faz sentido. Sinto que uma desgraça vai recair em mim se eu não me levantar, você provavelmente riria, mas talvez o sofá engula meu corpo ou um meteoro chegue pela sacada ampla e coloque um fim nisso tudo. Se tudo fosse se findar hoje, eu me lembraria de você na última chuva de meteoros e abriria os meus braços como quem literalmente abraça o fim antes de me tornar poeira cósmica. Continuo nesta insistente alimentação tóxica de ideias, eu pensei que o meu avião fosse cair, que o meu ônibus fosse tombar e a única coisa que quase ocorreu foi um assalto, mas afinal não fui assaltado e só o frio e a chuva parecem insistir no meu pessimismo, pois considerando a sequência de tudo, percebo-me com sorte.

Pode ser minha tendência dramática, mas se eu continuar por aqui sinto que uma desgraça acontecerá e sinto uma vontade breve de fugir de mim e correr para a minha casa e sentar confortavelmente no meu sofá que nunca engoliu ninguém. Os meus bichinhos certamente estão me esperando e eu sinto a falta deles, será que eles meditam sobre o meu retorno? Estou me perdendo do ponto aqui, eu vim te dizer que decidi certo e que você faz falta e que não há motivo para ter esse gosto terrível de derrota na ponta da minha língua, não, eu não sei a razão de me sentir tão triste, pois ninguém nunca antes, nunca desse jeito e ainda é tão cedo e eu nem fiz o café da manhã e minha barriga dói, bom, eu não fui drástico e senti dores no corpo acordando lá pelas quatro e meia e tomei um Tandrilax e acordei sem estar travado, porém com a barriga extremamente dolorida. O que eu provavelmente quero dizer é que quando sinto e agora sinto, eu sei que não consigo me explicar e que minhas explicações mais aproximadas apenas são explicações aproximadas.

Não há alternativas e eu me peguei pensando em tantas coisas diferentes e, bom, eu te disse também que não é sobre não ter medo e sim sobre enfrentá-lo, mas eu não escondo de ninguém que o escuro de quando em quando me apavora e nas noites de silêncio violento ainda durmo com a televisão ligada, mas não tenho televisão no apartamento em Cabo Frio, como você faz, eu presumo que você me perguntaria, bom, eu dou um jeito, eu sou bom em dar um jeito, é coisa de brasileiro, você também vai dar um jeito, quando há televisão a gente assiste filmes repetidos e quando não há televisão também, uma vez não conta, tudo bem se repetir, mas é que ninguém nunca antes, nunca desse jeito e, bom, o que encontro é quase o suficiente para me deixar gago, mas tenho sorrido uma ou duas vezes por dia e passei duas semanas no limbo e agora estou de volta, é, I’m back from the deads e sorrio, aquele velho sorriso que quebra a hesitação e surge ligeiro e rápido e a barriga ainda dói, mas vou tomar um café e rio de novo, pois a minha pronúncia de dad e dead é idêntica e me imagino voltando de uma reunião de pais.

Sabe que essa história de que ninguém nunca antes mexeu comigo e passei horas tentando aceitar o fato de que nunca desse jeito e ainda é cedo, mas sinto que vou receber uma onda de ódio e vou ser vítima de uma retaliação silenciosa, não, eu sei que você sabe, há duas maneiras de encarar, a primeira é de que não há vítimas a segunda é de que todos somos vítimas e agora estamos caminhando em desertos diferentes e ainda é cedo, eu sei, você sabe, é o que importa, afinal. Agora tudo muda e tudo bem, incenso fosse música, Leminski está certo, querer ser o que se é ainda vai nos levar além e que a vida siga como deve seguir, um dia por vez, um sorriso por vez, um machucado por vez, um sangramento, uma batalha, um amor, mas que ninguém tire a ideia e a admiração sincera que um nutriu pelo outro. Bom, é que todo mundo adora lamber migalhas e tanta gente não sabe o que é uma devoção completa e inteira e recíproca e, bem, eu usei a porta da frente e fiz tudo como senti que deveria fazer, eu sei, tudo é assustador e o mundo já foi difícil pra nós, antes de nos pensarmos juntos, essas coisas tão horripilantes que você sofreu e quase meia década que eu passei vomitando em quase todos os finais de semana e agora estamos aqui, não sabemos nada direito, nada cem por cento, mas o que é existe e basta para seguirmos tentando e, sabe, eu reconheço que não tenho tentado meu melhor, mas eu tenho tentado tentar e isso deveria bastar, não, ninguém nunca antes, nunca é desse jeito e me pergunto se meu clone californiano já fez o café da manhã e preciso fazer esses ovos mexidos na frigideira nova e, bom, eu espero que meu estômago melhore e que o seu esteja bem também, certo, nós ficaremos bem, eu aqui, você aí, os outros onde quer que estejam e sou brevemente feliz, pois entendo que você entende e que ainda vai me olhar nos olhos quando esse furacão todo passar.

Sabe, eu torci para que o sofá me engolisse e para que o sol aparecesse, mas ainda é cedo, bastante cedo e não sei bem o que faço acordado. Ainda assim, uma lembrança de não ter lembranças me coloca um sorriso fugaz no semblante e pela primeira vez em muitos dias sou grato por estar vivo.

E qualquer um apontaria o meu exagero latente, mas a verdade é que eu acordei lá pelas cinco e fiquei sentado contando os minutos para que o tempo passasse…

Simplicidade

Meu irmão mais novo acredita em uma vida mais simples. Eu sempre o observo com certa desconfiança e tento compreender. Tudo pode ser assim tão prático?

Agora observo seu pragmatismo, sua lentidão. Ele dorme quase o dobro do número de horas que eu, mas é no gesto dele de preparar o tabaco para o fumo que me vejo mais distanciado dele. Somos diferentes e estamos distantes e não, o que prenuncia nossa distância não é o fumo e sim a paciência com que ele se prepara para fumar. Eu costumava saber levar tudo no ritmo certo. Quando foi que me perdi?

Eu o chamo para ir até a padaria e ele não quer. Eu digo para ele lavar a louça, pois vou para o quarto dia seguido e é a vez dele. A resposta dele é um dar de ombros com a frase pronta… Já vou.

E eventualmente ele vai, mas não .

Se alguns mosquitos aparecerem, ele pode de repente se sentir mais motivado. Se baratas surgirem no piso da cozinha, ele provavelmente intuirá que há algo sujo e estará coberto de razão. Se fosse receber uma visita especial talvez até limpasse a casa, mas ninguém aparecerá. Os mosquitos ele pode espantar com o repelente; as baratas ele esmaga impiedosamente. Está convicto de que a vida dele vai seguir independentemente do que aconteça.

Bebo um copo de água, mas não finjo prazer no gesto de sorver o líquido. Sei que tenho sido demasiado dramático e prolixo. Estou consciente de que me estendo muito e de que a vida seria mais simples se eu controlasse meus pensamentos.

Desde a infância meu irmão me observa e me admira e me enxerga como uma pessoa muito inteligente, mas olho e penso se a vida não é mais que essa simplicidade com ares de abstração, se é apenas um descuido cuidadoso em direção aos erros mais confortáveis ou ao alheamento completo. Não consigo me convencer e nem sei se quero.

Tanta gente tenta me convencer sobre tantas coisas todos os dias e sinto o peso deste mundo em mim. Sinto a intensidade da exaustão. Não quero preparar meu tabaco e tampouco desejo fumar, mas hoje vou tomar um banho demorado, beber uma cerveja gelada e pedir o lanche vegetariano pela sexta vez neste período em Cabo Frio, apenas porque tenho dinheiro para desfrutar destes prazeres simples e sinto que mereço esse conforto.

Provavelmente vou lavar a louça, retirar o lixo e arrumar a casa, afinal, não é preciso imitar tudo o que admiro em outra pessoa. Ainda assim, os discretos gestos de quem é tão calmo que parece não se importar com nada me ensinam uma grande lição.

E enquanto ele não pensa em muitas coisas, eu penso em tudo. Atinjo a exaustão mental, mas ele é o único de nós que dormirá tranquilo por incontáveis horas. Sorrio e me sinto mais tranquilo.

Pelo menos tomo um café a mais todos os dias e desfruto dos passeios matinais pela praia. Sei que isso é um privilégio só de quem acorda bem cedo, mesmo que seja para quase ser assaltado.

Blues

Escuto uma batida lá no fundo da minha alma. É uma canção antiga e essa espécie de ritmo ancestral percorre túneis secretos até o meu âmago.

Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir. É que eu queria dizer um tanto de coisas, mas sinto que qualquer sombra de palavra vai piorar tudo. Eu sei que o meu jeito não convencional é um pouco complicado e eu deveria estar escrevendo sobre os venezuelanos, entretanto, aqui estou.

O que estou fazendo? Não sei exatamente, mas espero estar decidindo certo. A vida é meio estranha e a gente se desvia dos caminhos geralmente, sabe? Eu só quero não me desviar dos meus.

A cabeça se distrai facilmente com qualquer outra coisa que me leve longe de onde realmente sinto que devo estar. Você cresceu dentro de mim em uma velocidade estupenda e precisa se lembrar disso. O estômago anda mal, eu acho que bebi um litro e meio de café hoje e devo vomitar.

Sinto falta e me sinto fraco nessa ausência dolorida qual não posso controlar. Uma canção antiga reverbera em mim.

Creio que escolhi certo, mas que diferença faz? Na falsa balança não há qualquer vislumbre ou sensação de equilíbrio e, bem, eu sou equiparado com os réprobos e sofro uma retaliação silenciosa. Mereço? Que importa aos outros? Será que em segredo você me desgraça também?

Passo meus dias em casa e me sinto estático. Não me movo e nem sinto vontade de me mover. Sou resgatado por sorrisos breves em episódios de The Office, mas honestamente é a única alegria que sinto.

Escuto uma batida lá no fundo da minha alma. Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.

A verdadeira tristeza é uma falta de ar constante. Eu sinto como se não pudesse aguentar até amanhã de manhã. Encontrarei o meu fim neste solilóquio, nesta noite relativamente gelada? Sinto a dor da ausência e a presença tão calorosa que se insinuava quase como o próprio sol está distante. Meu mundo quente sofre um baque com a queda da temperatura. A canção que toca no fundo é conhecida. Este velho blues rasga o meu coração.

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir.

Escrevi uma carta e depois outra e, enfim, mais uma. O que tanto escrevo eu já não sei mais. Queria conseguir transparecer a convicção que existe por essa espécie de intuição certeira. Falho.

Por quanto tempo estarei assim?

Não me sinto preso e nem liberto. Tampouco sou burro, mas existo longe de me sentir esperto. Os que têm para quem se confessar forçam o erro sem hesitação. E o que faço eu que não conto com a anuência de mais ninguém para me sentir realmente bem ou realmente mal?

Não há quem me abençoe para os dias seguintes e nem quem me ofereça redenção pelos pecados que não cometi. A única coisa imperdoável é a incoerência quando ela é absolutamente hipócrita. Não está tudo bem.

Mas tudo vai ficar, eu sei, pois ainda não escrevi sobre a Venezuela e sigo noite adentro para finalizar trabalhos que deveria ter feito na última tarde. Não estou atrasado, apenas um pouco deslocado do horário normal de funcionamento das coisas.

Que é que há comigo que sempre funciono no meu próprio tempo?

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir, pois queria saber como você está, mas não posso perguntar. Tenho recebido este tratamento gélido e distante de quem costumava fingir que se importava.

Ninguém se importa.

Sigo como posso e até onde posso. Não posso fazer menos por mim do que estou fazendo agora. Talvez eu não esteja fazendo o meu melhor, mas estou realmente tentando tentar.

Redundante?
Necessário.
Ridículo?
Possivelmente.
Prolixo?
Inevitavelmente.

Escuto a mesma batida lá no fundo de minha alma. Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.