Quero existir longe.

Comece pelo fim
E faça do final a metade
do início
Encontro-me no
alto das coisas
no dia do solstício

Recite as sete palavras
Chama meu nome
Atenderei seu chamado

Ajoelha na beira do rio
Bebe a água da nascente
Responda as perguntas antigas
Cauteriza sangramentos abertos
Cuidado quando chamar de burro
um tipo distinto de sujeito esperto

Prostre-se como uma montanha
Desafie com os olhos ardentes
o mundo que te esqueceu
Nunca os esqueça como vingança

Ouça a voz do seu coração
Caminhe de volta até mim
Chamo teu nome
em um túnel escuro

Ouça a voz do meu coração
Caminho até você
Escuto o meu nome
em um túnel escuro

Encontro no breu
Dedos entrelaçados
Promessas novas

Corações distanciados
quando retomam o convívio
Esquecem cedo ou tarde
o que havia os separado
Nota final de alívio

Para que algo cresça
Regue suas plantas
Avenca, salgueiro, girassol,
Pequenas e grandes esperanças

Recebo teu abraço
Solto meu corpo na relva
Seu perfume supera o das flores
É mais fácil sobreviver na selva
do que encarar uma vida sem amores

Termino pela metade
Te vejo neste túnel sombrio
Ainda que não a perceba com os olhos

Estremeço com o som do silêncio
A sua respiração me salva
Como sobrevivi tanto tempo
rodeado por fantasmas?

Mergulho fundo no escuro
O bigodudo realizador de sonhos
está estilhaçado no chão

Medito sobre a morte sentado
no porão de mim mesmo

Medito sobre a vida sentado
na solidão sensorial da memória

Quero existir no Alto das coisas
Como se o paraíso fosse ser Longe e ver Longe
Pergunto-me sobre o que você quer

Quero gargalhar alto do que não se entende
na sala de cinema em um mundo sem pandemia

Quero me perdoar pelos equívocos e pelo luto
Rir sem amargura do que não se conserta
Quero ter orgulho da consciência óbvia
de que todo mundo erra

Fecho portas e fecho janelas
Não aguento mais sentir frio

Quero existir longe e no alto das coisas
tapar com o sol da minha essência
essas milhares de vozes no Vazio.

Coisas Pequenas

O inferno é apenas a mais violenta das metáforas. Fecho os olhos e me vejo nos fiordes, ainda que nunca tenha estado lá. Sinto que a minha alma pertence aos locais inabitados e gelados, ainda que a minha presença seja sempre tão expansiva e quente.

O inferno é a mais agressiva das metáforas. Nossos temores, sejam infundados ou não, trazem terror ao cotidiano e preenchem a mente, ainda que não exista razão consciente e real para que permaneçam nela. Revivemos automatismos e procuramos o sofrimento. O inferno não existe nos outros e sim em nós mesmos.

Fiz de mim o que não soube. Há coisas que ainda não digo por não estar preparado para dizer ou por não ter a convicção de que aconteceram. Será que devaneei acordado com pesadelos quase táteis? Inventei o que me atormentou? O que era real parecia sonho e imaginei coisas que eram mais palpáveis que a realidade que eu tocava. Vi o rosto do amor em um mergulho na imaterialidade de mim e chorei, perdendo-me pela primeira vez em décadas. Sorumbático avancei, mesmo que minhas pernas estivessem trêmulas e que o medo fosse sufocante. As trevas se aproximam para todos e não há como evitar. É preciso sobreviver.

Sei que continuar é uma necessidade e estou cansado de ver meu suor pingar vermelho. Sei que, vez ou outra, não me reconheci quando defronte ao espelho. Devo lutar pelas recompensas, ainda que eu já as mereça. Vejo-me abandonado e com a barba bagunçada e espessa. Fito meu rosto cada vez mais magro. Quando todas as portas se fecham, eu outra vez me ergo e me abro. Mostro ao mundo um pouco mais. Tento com um pouco mais de força. Arrisco com um pouco mais de coragem, pois a vida é uma estrada que se pega e milhares que se deixam. Despenco no chão, mas me levanto e caio de novo para me perceber capaz de levantar outra vez. Se perdi tudo é sinal de que não tenho mais nada a perder.

Induzir-se propositadamente a uma letargia de sentidos é uma atitude perigosa. Fechar os olhos para os próprios anseios e desejos e encarar a vida somente pela perspectiva alheia é correr o risco de matar a própria personalidade. Podemos estar enganados sobre tudo e essa consciência é simultaneamente libertadora e assustadora. Nossos amigos podem nos trair. Nossa família pode nos machucar. Nós podemos estar terrivelmente enganados a respeito de nossas certezas mais profundas. Nós podemos nos tornar antagonistas. Não somos maus ou bons. Todo vidro se quebra. Não há exceção para a regra. Somos frágeis e podemos nos despedaçar no chão, pontiagudos. Podemos fazer sangrar pessoas inocentes. Machucamos e somos machucados. Independentemente do desfecho, não somos anjos ou demônios. Nós somos apenas o que somos.

Acumulamos, assim, diversos equívocos e queremos o que queremos no momento exato em que queremos. A realidade me choca. Sobrevivo aos novos dias com a recordação de que tudo se finda. Lembrar da morte reforça o sentido da existência e torna nossa jornada mais linda. Não é errado ter suas balanças, mas tente ser coerente sempre que usá-las. Não feche os olhos para quando as pessoas que você ama fizerem coisas pesadas. Todos somos capazes de tudo. Valorize quem por mais vezes desconsidera a forma e exalta o conteúdo.

Nem tudo é dito, mas tudo é demonstrado. Coisas menores devem imediatamente serem deixadas de lado. Não aceite tudo e não se faça mudo. Não adianta fingir que a vida não é cheia de problemas. Aquele que não sabe perdoar apenas conheceu coisas pequenas. Supere essa quantidade enorme de desconfortos. Você pode tudo desde que ainda não esteja morto.

O paraíso é apenas a mais confortável das metáforas. Fecho os olhos e me vejo nos fiordes, ainda que nunca tenha estado lá. Sinto que a minha alma transborda cada vez mais através de minhas atitudes, mas precisei errar muito para começar a acertar. Senti como se estivesse por um fio, mas através de epifanias me encontrei. O frio que senti nos climas mais quentes foi a maior prova de que me enganei.

O paraíso é apenas a mais confortável das metáforas. Ele também não existe em um lugar mágico e etéreo ou nos outros e sim dentro de nós mesmos. É comum que cada pessoa almeje um lugar tranquilo no qual possa repousar. A vida costuma ser tão dura que, às vezes, a gente só pensa em se deitar. Desta forma, procure valorizar quem aparece na sua memória quando você percorre suas estradas para locais seguros. Pense mais em construir pontes e menos em erguer novos muros.

Respeite seus limites e cresça um pouco a cada novo dia. Os seus erros não te definem, assim, arrisque-se com novas tentativas. Mostre a sua fibra e o tamanho da sua coragem, principalmente quando o mundo provocar todos os seus medos e reproduzir essa imensidão de horror. Quando a maldade de derrubar, lembre-se de que você pode se levantar, sorria e revide com amor.

Um escritor não se perde da escrita.

Um escritor não se perde da escrita. As palavras se deitam atrás de planuras e ficam temporariamente inacessíveis. A capacidade de contar histórias, a beleza narrada nas peculiaridades e mínimos detalhes, a poesia extraída como uma fruta espremida até o limite e a delícia do suco… isso tudo sempre persiste.

Há esta espécie de sono metamorfoseado em outra coisa assustadora, crescente, ensombrecida. O escritor não sente letargia e nem vontade de dormir, mas assim como quando em sono profundo, ele fecha os olhos e a alma divaga para longe e é preciso tomar muito cuidado. O Vazio representa a ruína de tudo.

Vivo a vida, às vezes, no limiar da realidade e desfruto o prazer supremo ao mesmo tempo em que me puno com a dor eterna. A sensação é livre de vícios, mas estar livre de vícios se parece tanto com um vício que a ambivalência da liberdade nos guia para caminhos tortos e estranhos. O que você faria se não tivesse a obrigação de fazer coisa alguma? No que você pensaria se não influenciassem no seu pensar? Tudo é lícito ou há proibições sensatas? Veja como descascamos nossas camadas e nos aproximamos da nossa essência. Veja quantas normalidades se tornaram estranhas e quantas estranhezas se tornaram normais e ainda assim, é preciso ter paciência.  

Um escritor não se perde da escrita. Ele é capaz de reviver memórias antigas e fixá-las com os dedos no tempo presente. Quando isso é feito e os olhos salgam enquanto os dedos sangram, é sinal de que essas memórias passadas ainda estão vivas e o que foi ainda é e há muito o que dizer sobre o que não foi dito e agora tudo escorre. É preciso correr atrás do que faz o coração acelerar. É preciso insistir no amor. Quando o mesmo processo é feito e os dedos apenas queimam, verifica-se a prova de que os incômodos já não são tão urgentes assim.

Todos têm sonhos, assim como eu, quase todos pretendem realizá-los, bem como também pretendo, mas nem todos chegarão até eles. Devo me entristecer pela hipótese de nunca me concluir em longas conjecturas hipotéticas? Sei que não devo. Tenho a oportunidade de celebrar alegrias inéditas que nunca planejei. Entristeci pelas coisas que não pude mudar e pelas coisas que mudaram enquanto eu mudava. O que realmente existe e fica perto do nosso controle? Para um escritor, você supõe, que são as palavras? O escritor nunca se perde da escrita, mas às vezes se perde de si mesmo e sumir de si mesmo é tropeçar no fundo do poço. A queda brusca, violenta, deixa-nos completamente machucados. Tentações, perigos e ecos de morte surgem como sussurros insistentes. Apavorados, convivemos com o medo de ceder. Quando a mente não pensa, a voz não sai, o escritor secretamente alimenta a esperança de que os dedos gritem o pedido desesperado de socorro e nem sempre é assim que acontece. Por vezes apenas sufocamos enquanto o resto do mundo nos esquece.

Um escritor não se perde da escrita. Está por conta do ofício obrigado sempre a se escrever, descrever, transcrever. Não é preciso caneta, papel, teclado ou computador. Os dedos seguem o ofício de criar textos e organizar palavras, mesmo de olhos fechados, mesmo na inconsciência ou na consistência do amor. Grandes inícios em parágrafos bem estruturados e finais trágicos em histórias surpreendentes. Não, um escritor não se perde da escrita, mas a escrita pode exercer sua função de ocupar distâncias e preencher lacunas. O escritor aprende e ensina através dos tantos textos. Percebe que, embora encontre neles sua própria voz, o desenvolvimento nem sempre é o mesmo. O escritor evolui conforme lê mais, entende mais e se atreve mais. É preciso mergulhar profundamente em mares selvagens e se defrontar com monstros lendários e esquecidos. O escritor é aquele que sabe que todo inimigo pode ser vencido, embora não compense acumular inimizades ao longo da vida.

Porque a vida deveria ser mais feliz, redonda, mas os problemas que nos cercam por muitas vezes não são solucionáveis e temos o hábito sombrio de complicar tudo o que é simples. As tragédias mundanas não se equiparam com tragédias individuais, pois dimensionamos as coisas com os nossos próprios sentimentos e não com o coração do mundo. Respiramos com nossos próprios pulmões e só nós perdemos e recuperamos o controle de situações pessoais. Somos pequenos e consequentemente nossas angústias não podem ser tão expansivas quanto nossos sonhos. Esquecemo-nos que temos a capacidade para existir ao longe, ecoar nossas vozes e risos ao som de fundo do planeta, como pequenas caixas de som, propagando uma mensagem auspiciosa, que reverbera. Temos o potencial para ser a beleza que renasce junto com a primavera. Merecemos muito mais do que uma vida de sacrifícios diários por salários baixos. Merecemos abraçar nosso protagonismo e viver esse heroísmo que já estava escrito nos astros.

O escritor é aquele que sabe que saber muito vale tanto quanto saber nada. É aquele que possui a consciência de que vidas se gastam, amigos se afastam e tudo muda em uma curva na próxima estrada. Há qualquer coisa californiana no meu coração, ainda que eu nunca tenha chegado perto da Califórnia. Há qualquer coisa noctívaga, ainda que eu tenha nascido perto do meio-dia. Transbordo a minha sensibilidade na demonstração absoluta da minha sinceridade e sou retaliado com a precisão certeira de um costureiro hábil. A agulha entra e sai em pequenas incisões e o trabalho, lento e bem feito, não deixa nenhuma ranhura na costura já pronta. Lançam o manto e me cobrem. Percebo-me na escuridão e sinto as pancadas. Observo, absorvo e aprendo, mas no escuro não me defendo. A cabeça de muita gente funciona de um jeito pequeno. Pudera eu ser mais sereno, mas sou como posso no momento em que posso e sinto nos meus ossos essa sensação como um dever. Faço o que for preciso, consciente de que algumas vezes vou perder. O escritor é aquele que sabe que nem sempre poderá se proteger, mas é também aquele que aprende que nem sempre vale a pena atacar. A lei da vida é que tudo muda sempre de lugar.

Respiração profunda em um interlúdio que faço em mim, assim como Tomas se perguntou, eu também me pergunto, tem que ser assim? Pego-me de cócoras afagando a gata e o cachorro. Nenhum ouvido escutou os meus pedidos de socorro. Aprendi e desaprendi, caí e me levantei, sofrendo com influencias sutis, próprias ou alheias, distraído com um ou outro perfume distante, devaneando com memórias distintas ou lastros falsos, seduzido por ritmos confusos em uma canção perfeita, induzido por algo que não vejo, mas que me empurra e me conduz, que me aproxima e me afasta, mesmo em uma simples caminhada, do meu próprio caminho. Aprendi que a gente só se aprende quando ousa existir sozinho, mas que a solidão demasiada é uma doença sem cura. Quem muito se afasta se desacostuma com a ternura. Quem muito se distrai se esquece das responsabilidades dessa vida tantas vezes dura. Nada pode ser tão leve. Nada pode ser tão pesado. Nos encontraremos em um lugar onde não há escuridão e podemos deixar o passado de lado, sem nunca o esquecer. O esquecimento é o primeiro passo para jamais nos aprendermos.

O escritor é aquele que existe atemporal. Um dia eu vou, todos vão, mas talvez meus textos fiquem espalhados em portais da internet e a vida de alguém se valha outra vez em algo profundamente místico que eu disse sem a intenção de dizer e não me lembro. A grande obscuridade dos verdadeiros milagres é que eles acontecem o tempo todo, mas somos incapazes de notá-los. Talvez eu já tenha escrito algo suficientemente poderoso para mudar uma vida e isso baste absolutamente, mas talvez seja tão insubstancial na minha visão que eu enxergue meus textos como um acúmulo de palavras torpes para aliviar meu coração pesado com a responsabilidade crescente de melhorar as coisas.

Que coisas? Ora, todas as coisas! Desde pequeno devaneio com um planeta sem maldades, porém a pungência da maldade é tão expansiva quanto à da bondade. Meu melhor amigo está certo quando diz que a noção da nossa malícia e potencial para fazer vilezas define a nossa postura principal de vida. Isso não quer dizer que não possamos errar, que não sejamos “maus” de quando em quando, muito menos que os nossos erros nos definem, mas significa que temos que olhar para a nossa vida como se ela fosse simultaneamente séria e cômica. Pender muito para um lado só é se desprender da noção de realidade e absorver-se todos os dias em um cotidiano imaginário é uma armadilha perigosa. Mergulhar em um devaneio sem fim faz com que percamos o fio que nos liga ao que existe.

Os perigos são reais, ainda que não soem como promessas de periculosidade. Há quem prefira viver em cenários hipotéticos e falsos, há quem ignore os males do mundo, os presidentes estúpidos, os vírus letais. Sei que faço de mim o que preciso, às vezes para viver, às vezes para sobreviver, porém não arrisco quem eu amo no meio do processo. Nem o cuidado absoluto garante qualquer tipo de sucesso. Nem mesmo mortes garantem o nosso apreço para com a vida. Toda vida passa e em algum momento é esquecida. Sinto-me como uma pilha estourada, vazando, viscosa. Sinto que, às vezes, só a substituição pode me salvar, mas não me substituo e assim a vida continua. Ajoelho-me e rezo por tudo o que firo e por tudo o que me fere. Oro pelos mortos, mas principalmente pelos vivos, pois por eles não há muitos que velem. Respiro profundamente e olho a vida. Vejo detalhes mínimos e inspiro e solto os meus desconfortos. A minha sensibilidade é aguçada, entretanto, creio de maneira retilínea que poucos fariam por mim o que eu faria por eles. Há maneiras de se preservar ou o único tipo de autopreservação é pela exposição completa?

A alma exposta representa nossa liberdade cantada. Alegro-me por coisas que sinto e por coisas que não sei dizer. Passo o café antes do lusco-fusco, sento-me e, enfim, permito-me relaxar. O relógio marca 17:37h e tenho compromissos, porém ainda não consigo cessar de escrever. O escritor é aquele que nunca se perde da escrita e que detesta veementemente se interromper antes do derradeiro final. Não, a vida não exige finais espetaculares, apenas finais bem escritos, histórias bem vividas, amores verdadeiramente amados. Eu recuo e me disponho a viver outros sonhos e correr por tudo o que sempre quis. Certa feita fiz pouco caso sobre ser feliz. Bobagem! A felicidade é tão importante quanto continuar sobrevivendo e da glamourização dos sacrifícios não pode advir nenhuma espécie de bondade ou resultado positivo. A felicidade é o melhor combustível para se sentir vivo!

Um escritor não se perde da escrita, mas muitas vezes nela ele se acha. Encontra-se consigo mesmo e as peças repentinamente se encaixam. As lembranças, as aventuras, os sorrisos, os perfumes, os momentos, tudo isso fica e permanece, mesmo quando a gente parece se esquecer. Esta tarde, tão quente quanto o restante do dia, morre devagar na promessa de uma noite mais fresca. Somos fugazes como o conceito de dia e nos deixamos morrer a cada sono para renascermos ou somos constantes e empedernidos, montanhas resistentes contra as adversidades? Deveríamos apostar mais nas coisas mais importantes que temos em nossas vidas.

Um escritor não se perda da escrita. Palavras se acumulam em linhas e mais linhas de quem tem a necessidade de rasgar o peito para abrir toda a realidade dolorida. Dolorida e colorida, pois onde há dor, há promessas da verdadeira beleza e do amor. Nenhum prêmio chega sem merecimento e ensinamentos obtidos através da dor nos ensinam por muito mais tempo. Crescemos, envelhecemos, sem nunca nos abandonar. O capitão permanece no navio até o dia que ele afundar.

Não sei que efeito novo a vida velha produz em mim, mas sei que me sinto apto a sentir coisas novas. Sei que o verdadeiro amor suporta toda e qualquer tipo de prova. Sei que sei pouco, mas fiquei rouco de tanto gritar minhas verdades. Outro dia desses sorri ao ver minhas frases em outdoors pela minha cidade. Sou a camisa pesada no varal, resistindo contra o vento violento. Tenho o peso das milhões de partes pelas quais sou formado e olho no olho de cada uma delas. Evoluo devagar. Converso com pessoas para entender mais sobre pessoas e busco uma compreensão profunda do que se faz pela sensação única de que deve ser feito. Vejo a espontaneidade. Vejo a malícia. Aproximo-me. Afasto-me. Torno-me mais inteligente, arguto, capaz, mas uma sonolência de ações se apodera de mim. Não quero me tornar inconsciente através de um processo intelectual e consciente que me faça permitir tudo. Não quero aceitar adaptar todos os meus comportamentos e me tornar alguém completamente novo através de uma hipnose dos sentidos. Tanta gente especula e só eu sei o que acontece comigo.

Um escritor não se perde da escrita. Escrever resume tudo o que ele acredita. Dia após dia, os escritores seguem batendo nas teclas e expondo suas opiniões e sentimentos, suas verdades e seus momentos, ansiando para que tudo isso baste. Tornar-me-ei frio? É preciso seguir em frente com coragem e brio. Um escritor é o arco e também a flecha. Lançado ao ar, ele sobre, desce, acerta e se conecta. Ele pode traduzir sentimentos, sensações, como poucos podem fazer. Quer alcançar o que raramente se alcança. Os cantos que conto traduzem diariamente minhas diversas mensagens de esperança.

A respiração cessa. Escuto um som distante. São os passos que se aproximavam no passado e com toda a sutileza do mundo se aproximam novamente. Como senti falta desse jeito de andar. Os saudosistas felizes sempre estarão com o coração cheio, mesmo que vazios de presenças físicas. Lacunas são preenchidas ou não, há tentativas válidas e esforços em vão. A força deste milagre faz com que eu me sinta exposto. Celebro-me por existir completo, mesmo que não me considerem completamente são. Transbordo o tanto de coisas boas que carrego no coração.

Deito na relva e observo as estrelas na escuridão profusa do céu noturno. Recordo-me de quando uma estrela singular surgiu no portão de casa. Não acreditava na força do Universo até ser forçado a crer em magia das estrelas. Antecipei-me ao que viria, sem saber direito o que de algum jeito eu já sabia. A sensação de amor é inigualável e os que vislumbram dessa sorte, precisam saber aproveitá-la. Não se vive mais de uma vez, assim, não há como verificar acertos e erros, exceto pelo próprio limite consciente. Esticar a consciência infinitamente para comportar tudo e transformar sua narrativa própria em um grito de liberdade, parece-me oportuno e instável. Qualquer um pode se convencer de que não há erros e de que tudo é válido. Isso torna realmente tudo válido?

Um escritor é aquele que se perde e se encontra nos próprios delírios. É por natureza um acumulador de martírios. Acumula-se também experiências e através delas nos moldamos. Temos a capacidade de nos transformar com o passar dos anos. Nota-se pelos textos e pelas experiências que é preciso continuar se expandindo. O mundo é quase sempre o mesmo, mas às vezes parece mais lindo. É quando os olhos, sempre distraídos, interrompem-se para cuidar das coisas frágeis. Nossos instintos geralmente fugazes nos tornam apressados, não ágeis.

Um escritor não se perde da escrita. Escreve para lembrar, escreve para esquecer, escreve para se manter afiado e levar ao longe a compreensão de que é possível seguir. O escritor é aquele que faz uma leitura aproximada do que ainda está por vir. Analisa-se o mundo e tudo o que acontece com a passagem dos anos. Como aceitar que o tempo perdido não foi um grande engano? Aprendemos exatamente o que deveríamos, ou seja, não há atrasos e nem antecipações. Como sobreviver sem carinhos e aglomerações? Há quem tenha perdido pessoas próximas sobrevivendo com frustrações e enormes lacunas. Sinto falta da presença do meu irmão, do cheiro do meu sobrinho e da praia das dunas. Ainda assim, celebro-me. Desta vez estou localizado em mim e isso é motivo de alegria. Não há segredos, mas calei meus medos ao me dedicar mais e começar a viver um dia de cada vez. O meu melhor me basta hoje e se não bastar aos outros, bem, eu posso lidar e conviver com isso.

Que me pungem essas ausências distantes? Tenho desenvolvido a minha ingenuidade corajosa. Tenho sentido que a Vida e a Morte vão me colocar à prova. Por vezes sou excessivamente severo, especialmente comigo. Funciono na base da lei do crime e castigo. Creio que tudo o que vai, volta, mas isso nunca me consternou. Antes acreditar de novo na vida, eu sei que vou ter que abrir minhas feridas e permitir entrar mais amor. O que devo fazer quando não sei bem o que fazer? Pedir conselhos aos mais estúpidos que eu? Entrar em uma reclusão prolixa de sentidos e ações? Será que os que se fingem cegos realmente protegerão nossos interesses?

Um escritor é aquele que não se perde da escrita. Os dedos procuram as teclas, mas há coisas mais especiais do que os textos. Quando minhas mãos se encontram com outras mãos, sinto que a vida não é mais um vagar a esmo. O coração acelera em novos ritos de ciúmes. Em um jantar à luz de velas estou a me render pela fragrância de um tipo específico de perfume. Tudo se cala quando o mundo deixa de existir ao redor. Pode ser só por algumas horas, mas a vida se torna muito melhor.

Um escritor não se perde da escrita. Escrevo por necessidade, por prazer, para não perder a doçura, para não perder o amargor. O ato da escrita é representado apenas pela escrita e tudo significa, mesmo quando não significa nada. Sinto que preciso de um tradutor de mim em mim. A minha língua-espada hoje se defende, mas pouco ataca. Há que se procurar estes meios termos ermos.

Confesso que por longos meses temi e me explicar sobre temores é demasiado prolixo. Lidei com tantos fantasmas, eu admito, ao ponto de recear me tornar um. O que garante que não somos o que não queremos ser?

A cautela nos auxilia nos direcionamentos. Por vezes sobrepujamos nossas próprias ações com atitudes desconexas de nós, completamente sem sentido. Há, porém, raros momentos de vislumbres magnânimos, celestiais e aqui existimos como seres sublimes. Somos punidos por nossos equívocos, mas comemoramos devidamente nossos acertos? Realizamo-nos com coerência? Sustentamos a convicção de que por muitas vezes já atingimos certos ideais que vislumbramos? Somos o que podemos ser e temos as características mais nobres que buscamos, entretanto, sem a validação externa, diminuímo-nos, ofuscamo-nos, apavorados com a nossa própria capacidade de brilhar. Tornei-me arisco quando verifiquei a quantidade de aproximações por interesse. Resolvi, porém, os outros não poderiam ser motivo para me desanimar. Aos outros o que é dos outros e a mim o que é meu. Respiro fundo e sorrio. Desejar a felicidade alheia é um dos instintos mais puros e nobres da alma e noto que não sinto ódio nem de quem me odeia.

A vida é um pasto verde que de repente se incendeia, como no quadro em chamas da fazenda na sala da casa dos meus avós, obra de arte que fez nascer a primeira poesia escrita em mim. Estranhos acasos da vida. Encontrei minhas salvações perto da última saída. Tudo acontece de um jeito surpreende e me inflo de coragem para tentar acertar. Aposto alto, mas sinto que estou completamente alinhado com tudo. Ando devagar, mas sei o que quero e o que preciso. Quando tudo me pune, não fujo, enfrento e se não estou pronto para enfrentar agora, sei que eu estarei em breve. Resisto, incertamente intrigado, certamente contente. Falhei como um mestre em falhar, mas reergui quando fiz um tratado de paz com meus problemas: resolverei um por vez. Não posso controlar o que esperam de mim, mas posso cumprir com o que eu mesmo espero.

Um escritor não se perde da escrita. Medos que não sinto me fazem insone. Sinto medo de um dia sentir medo da fome. Há um garoto em um porta-retratos ao lado do teclado qual agora digito. A confiança é um prato que se come frio, é uma frase que eu inventei e o menino gelado ouviu, mas será que nela acredito? Nenhuma conexão rápida me soa natural. Outra vez o que parecia uma brisa fez na minha vida um vendaval. Deixou-me em destroços e assim me tornei desconfiado. Há acertos que parecem feitos para dar errado.

Há outros lampejos de uma felicidade que chega em uma vida além. A vontade insistente de um beijo do qual não se pode mais viver sem. E subitamente vejo sonhos coloridos nos olhos vidrados dos peixes mortos. Fito os espaços brancos a serem preenchidos com a oração dos nossos corpos. Desejo preenchê-las. Quem disse que uma coruja não pode se apaixonar por uma raposa ou por uma estrela?

Sinto medo e amedrontado sigo na direção das coisas que me apavoram. Um escritor não se perde da escrita.

Há dias que brilho como o sol, mas em regra sou como uma esponja que absorve a sujeira dos outros. Um escritor não se perde da escrita.

Quando chove muito e o céu chora por mim, quando o sol queima minha pela apenas para me fazer arder, quando tropeço em um obstáculo que eu inventei, eu me lembro de que um escritor não se perde da escrita.

Assim, sigo firme e escrevo. Quando tudo me pune e sofro com milhares de ataques, eu fecho meus olhos brevemente e me recordo de que um escritor não se perde da escrita. Independente do sente, ele se adapta, é um mestre em seguir em frente e luta por tudo aquilo que acredita.

Água Salgada

Improvável filho
de uma força invisível
que não faz questão de ficar
Eterno andarilho
Incansável
Anda e anda e anda
Percorre os trilhos e sabe
Nunca vai voltar
Aprendeu
Catástrofes nos engolem
e temos sorte se esbarramos
em alguém que nos devolva
na boca o gosto da Vida
Lágrimas escorrem de meus olhos
sinto o sal na ponta da língua
Carregamos o oceano no âmago
O mundo se perdeu
Escuto e ouço centenas se repetirem
O mundo se perdeu, mas eu não
Sou acometido por náuseas e vertigens
Não vou vomitar
O fim é só um começo deturpado
Derrotamos o que supomos
fadado a dar errado?
Silêncio, ronco do cachorro,
estrelas urbanas nas calçadas,
carros em alta velocidade,
batida, semáforos, acidentes
Vale a pena sentir o que se sente?
O instinto da coragem te ergue
É preciso seguir em frente
Filho do mar se aproxima
sente a areia nos pés
Filho do mar, não existe sina
Ganhamos e perdemos
apostando na nossa fé
Fecho os olhos e
a areia me afunda
Estou enlouquecendo ou
tudo está acabando?
Sinto muito pelos erros que cometi
A minha vida passou voando
Por anos tive tantas certezas
Tento desfazer meus enganos
As nuvens anunciam a tempestade
Relâmpagos fazem brilhar o céu
É noite já e estou sozinho na praia
Fecho meus olhos e apago, mas
não sei dizer se estou dormindo
Na grande solidão do término do mundo
No ocaso mais tenebroso e escuro
Eu estava luzindo
Uma grande onda chega
Afogando tudo
Cada sentimento
Cada memória
com água salgada
Grito o seu nome e você não escuta
Será que grita o meu também?
Nossa prole também não nos ouve
Os corpos são lançados
em diversas direções
Na língua o forte gosto do sal
Nós nunca nos lembramos
Nós nunca existimos
Nós somos apenas
água salgada.

Fica agora comigo?

Fica agora comigo?
Traz teu corpo pra cá
Diz que é a minha chama
que não espera o final de semana
E que quer a minha cama hoje
Diz que adora o meu sorriso
Admite que quer ficar comigo
sem medo do tempo e pavor da demora
Mente que eu sou seu paraíso
E se permita atrasar até esquecer das horas
Fica hoje comigo e viajaremos para a lua
Dentro do meu carro vagando pela rua
Orbitando outras galáxias
Desmistificando ancestrais falácias
Abandonando tudo por um certo desejo
Diz que não pode esperar mais
Que amanhã tanto faz
E precisa imediatamente
do gosto do meu beijo
Ignore a gravidade e deixe a cidade
Em outros sistemas solares
voaremos juntos
Esmagaremos todos
os péssimos assuntos
Flutuando pelo espaço fora da Terra
Diz que quer dividir comigo sua paz
O resto todo tanto faz
Mas diz que por mim inicia guerras
Diz que eu sou louco de propor
a minha vida inteira
às 21h30 de uma segunda-feira
Ignore os maus pressentimentos e o medo
Sei que trabalhamos amanhã cedo
E talvez eu tenha enlouquecido
Quero te sussurrar meus segredos
Alegrar o seu tão previsível enredo
E se acordado não te encontrar
Espero pelo menos te achar
enquanto estiver dormindo.

Fome e Memória

Aproveitar esses mágicos instantes
Essa doçura com face de paraíso
Se nessa vida tudo fosse constante
optaria todo dia pelo teu sorriso

Trouxe-me tantas alegrias inesperadas
Fez-me voar alto para a imensidão
Fecho os olhos e nos vejo de mãos dadas
dentro da velha loja em destruição

Quero te beijar como se fosse o primeiro beijo
Te amar com toda a fome do meu desejo
Viver contigo por cento e dez eternidades

Quero ser no dia a dia assim risonho
Assustado acordo de um distante sonho
Chorando por velhas memórias e saudades

Sensações.

            Acabo de percorrer o caminho de volta do Bairro da Liberdade. Todos alertam sobre os perigos de São Paulo e eu não relaxo, mas admito que a sensação é ambígua enquanto carrego minhas sacolas pelos metrôs e pelas ruas. Tenho a impressão de que é como trancar toda a casa antes de dormir e, ainda assim, ser surpreendido por um bandido que sai de dentro do meu guarda-roupas. Verifico os armários antes de me deitar, apenas para me sentir ainda mais seguro e durmo com a televisão ligada para evitar a escuridão. Essas sensações antigas retornam junto com os meus tantos pesadelos.

            Notei, ligeiramente abismado, que chamei a cidade de São Paulo de casa. Poderia uma cidade tão agitada servir para alguém tranquilo como eu? Deixo essas questões ridículas e precipitadas para outro momento. Tenho o péssimo costume de deixar toda sorte de coisas para depois e devo me encontrar com a cidade no meu próprio tempo.

Voltei do passeio e trouxe alguns bonecos dos animes que mais gosto, quatro camisetas, bem como três pôsteres que vão se transformar em lindos quadros. Minhas aquisições são positivas e me sinto renovado e feliz pelo passeio. Ninguém me incomoda na ida e nem na volta. Talvez seja por conta da minha altura ou pelo fato de que forço meus músculos e não abro mão de minha carranca irritadiça. É possível que comprem a ilusão de raiva quando olham para a expressão dura de meu rosto, porém desabrocho meus melhores sorrisos assim que me encontro com pessoas. Intuitivamente sei que é muito importante continuar a ser gentil.

A vida vai esquisita e encontro novas maneiras de ganhar dinheiro. Nenhuma delas até hoje me fez feliz. Chego no apartamento e meu irmão está dormindo às 19h00. Nenhum de nós sabe que em um ano e meio ele vai ter um emprego qual ama e menos ainda desconfiamos que ele será pai. Neste instante agradeço o privilégio de desfrutar das coisas presentes. O computador está livre e posso escrever um texto.

Honestamente não me lembro exatamente do que aconteceu depois. Nesta época, tudo detinha a minha atenção na cidade de São Paulo. De quando em quando me levantava animado e passava o dia todo caminhando por ruas extensas e entrando em lojas com cheiros peculiares e tamanhos improváveis. Noutros eu empenhava esforços homéricos para convencer meu irmão a sair comigo e, vez ou outra, era recompensado com sua companhia. Em algumas manhãs e tardes vaguei a esmo, sem medo do perigo, procurando um lugar pacífico para tomar um café e ler um livro. Numa dessas incursões até ganhei uma pedra do meu signo e uma profecia de uma velha esquisita que previu meu sucesso, o que não foi assustador, mas achei de bom tom da parte de uma excelente vendedora. Houve noites quais saí em primeiros encontros na Padaria Palmeiras e olhei pela primeira vez em olhos azuis como o oceano.

Quem diria que meus olhos castanhos se reconheceriam naquela imensidão azulada e profunda. É que carregar uma dor no peito transforma nosso jeito de se mover e até os nossos olhares e acontece que duas dores distintas podem se encontrar como semelhantes, ainda que sejam completamente diferentes na forma. Eu não apostei em nada mais do que a minha própria gentileza e descobriria muito depois só uma pessoa que me fizesse apostar tudo outra vez. De toda forma, estávamos sentados na mesa estreita, meus joelhos batiam em tudo e nos olhávamos. Trocamos nossas histórias, nossas primeiras impressões e onde dois opostos se encontraram como semelhantes surgiu uma fagulha que resultou em uma explosão. Ela havia sido largada pelo noivo semanas antes do casamento e partiria dentro de dois dias, sozinha, para a lua de mel na Austrália. Eu ainda meditava sobre o meu desamor e meu sofrimento no último semestre e me questionava a respeito da durabilidade das relações. Em outros cantos do país outras pessoas passavam por traumas maiores e descontavam em distrações diferentes ou se alegravam por coisas mais discretas e eram felizes por gestos mínimos. Eu não poderia antecipar o que interligaria o meu destino ao de outros.

A vida vai como vai e é inevitavelmente estranha. Creio que na realidade perfeita desta mulher de olhos azuis, ela se casa com o homem com o qual passou anos juntos e vive uma lua de mel incrível e repleta de passeios. Ela certamente não esperava passar a véspera da viagem com um cara que conheceu na noite anterior. Eu certamente não esperava ser o cara da noite anterior e nem esperava estar sentado no sofá do apartamento em São Paulo assistindo Baki na metade do mês de abril. Ainda sem sair do sofá me peguei imaginando a mulher da noite passada descendo sozinha em solo australiano. Um sorriso espontâneo surgiu em meu rosto e naquela noite tomei a vida por inevitável, mas ri de minha própria tolice pela improbabilidade do avião ter chego tão rapidamente em um país tão distante.   

Ainda assim, eu reconheço que tenho falado muito de pessoas, principalmente das outras e, muito provavelmente, discorrido pouquíssimas vezes em retrospectiva pessoal, intransferível, individual. Estive tentando me evitar? Não tenho certeza, nunca fui de fugas, mas suponho que todos sejamos capazes de contradições.

Volto a falar de destinos que se entrelaçam e felicidades inéditas, como as que vivi no meio do agitado ano de dois mil e dezenove e do esquisito ano de dois mil e vinte. Coisas importantes se renovaram dentro de mim e me tornei alguém melhor. Amei e fui feliz como nunca imaginei. Oscilei mais do que pretendia, entretanto, vejo que fui forte como pude, pelo menos na maioria das vezes. Pilotos franceses subitamente me abriram os olhos e não pude deixar de ver o que por tanto tempo evitei.

O mistério do êxito não é tão misterioso assim. Para fazer o que poucos fizeram é preciso fazer o que poucos fizeram. Sorrio com a afirmação boba e estremeço. Os aviões decolam incessantemente e vejo suas luzes fracas iluminando discretamente o ambiente do céu noturno pelo qual passam. Jazo dentro de um deles, ainda que seja sempre incerto o momento, mas me vejo partindo no meio do breu, insistindo sempre em luzes, veja só, essas luzes que brecam a escuridão aterrorizante, essas luzes que nos salvam a todo instante, essas luzes que me seguem e que me preenchem, essas luzes quais me tornam luz também. Diversas sensações sambam alegremente dentro de mim. Sinto que preciso acender as luzes apagadas, trocar lâmpadas, mostrar o caminho. Aqui hoje assim não posso. Aqui hoje assim não consigo.

Tenho a sensação atemporal de que a minha solidão pode me matar, entretanto, simultaneamente vejo que apenas sozinho sou capaz de parar de me esconder das tantas responsabilidades que tenho para com minhas capacidades. Sei sobre o meu tamanho e tenho que ficar longe de casa, seja lá o que me faça sentir em casa, para atingir meus limites e cumprir com meus objetivos. Até onde sei, tenho esta vida para sentir orgulho de minhas capacidades e me derramar neste mundo tão vil, violento e frágil. Confesso que posso ser exatamente como o Universo se parece aos meus olhos e choro.

            Essas sensações antigas retornam junto com meus pesadelos e me defendo em um estado inconsciente. Quando me percebo em pé com os punhos cerrados, flagro-me em um medo descontrolado da morte e um apego feroz pela vida, assim, convenço-me de que continuar vivendo é uma questão de necessidade e que todo esse papo que faz voltas e mais voltas faz algum sentido. Essas sensações antigas retornam, mas quando o mar da escuridão tenta me engolir e me tornar melancólico ou sorumbático, eu sorrio com os olhos na direção qual seguirei. Tenho a sensação de que sou uma luz forte, dessas que cegam momentaneamente nossas visões, em um mundo escuro e esquecido. O meu jeito de existir é continuar convivendo com as sensações e tomando o cuidado para não queimar subitamente. Quem sabe um dia exista mais claridade que escuridão. Quem sabe um dia eu dormirei sem a televisão ligada. Quem é que sabe?

            Um dia…

Aos que acharem meu corpo.

Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido
Tentei até o último instante

Diga que certas vezes me apavorei
Até errei o meu caminho
Algumas vezes iludido pensei
que faria tudo melhor sozinho

Diga aos médicos legistas
que fui um homem de poucos medos
Peça para que sejam detalhistas
e cuidadosos com meus segredos

Diga que nunca consegui me recompor
E que nunca mais pude ser quem fui
A sombra de uma versão melhor
certas vezes ainda me possui

Diga aos que acharem o meu corpo
que não permaneçam em luto por mim
Se estou estirado e morto
é porque tinha que acabar assim

Diga aos que acharem o meu corpo
que eu sempre maldisse os descuidados
Que notava a vituperação provinda do porco
ainda que ele jurasse ser meu aliado

Diga que eu vi a argêntea adaga
antes de ser tingida por meu sangue rubro
O golpe traiçoeiro de uma amiga espada
nunca pode ser parado por um escudo

Diga que eu sofri pela latência da dor,
E admita que não gemi por sequer um momento
Narre que humilhado despenquei de joelhos
no vazio imenso do silêncio violento

Diga que parti com certa humanidade
Carregando sentimentos estranhos
Confesse que deixei esta vida com dignidade
Sustentada por meu férreo olhar castanho

Peça para que não lamentem
nossas tantas manhãs e tardes de café
Diga para apostarem no que sentem
E que tenham sempre aquela velha fé

Diga para acreditarem nas próprias forças
como eu um dia acreditei

Diga que minha alma flutua por eternidades
Ensombrando a existência de quem ainda existe
Diga que aparecerei na velha cidade
quando o coração ecoar demasiado triste

Diga que eu fui para nunca mais voltar
Fantasma errante e viajante sempre fora de lugar

Diga aos que acharem o meu corpo
Que ele já não é mais meu
Que tudo que um dia tive
Jamais me pertenceu

Diga aos que acharem meu corpo
para que queimem meus restos
ou me arremessem em uma vala

Peça que desliguem todos os dias
a televisão que fica na sala
Diga para os que jazem funestos
que nenhum morto fala

Diga que foi por um triz
Mas que fui muito feliz
Antes de abraçar o Nada

Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido

Tentei até o último instante
Ser melhor do que antes
Não foi o bastante
Esforços inúteis,
ainda que válidos

Diga para que sigam em frente
Que eu apenas fui primeiro
Sigam como se nada tivesse acontecido

Depois da morte há outro continente
Não há razão para o desespero
E eu reverei todos os meus amigos

Diga aos que acharem o meu corpo
não há nada que devam dizer
Neste mundo imprevisível e louco
só lhes resta continuar a viver.

Chão gelado.

Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Abra os braços para a memória doce

As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer

Dedica teu amor aos que te cercam
Supera tua história de trauma, querida
Liberta-se na imaginação e depois na vida

Não se esquece de que o Tempo é o único algoz
Entretanto viva momento por momento
Essa vida que vivemos passa veloz
Passam até os grandes arrependimentos

Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Desliza os dedos pela aspereza

As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer

Não se esquece de quem te inflama
E por ti arde em desejos
Revira tua vida e tua cama
Clama sempre por teus beijos

Deita-te no chão gelado de pedra
Se esta vida é o teu lugar
A resposta é sempre uma sentença
Tudo bem se você então mudar

Deita-te no chão gelado de pedra
Observa as várias cores da torre de sempre
Acredita no infinito contando estrelas

Lembra-te que tudo um dia se encerra                    
Até a torre de sempre um dia some
bem como todas as certezas

E a Dor surge como um fio de escuridão
no meio de tantas lembranças felizes
Siga em frente com orgulho do coração
que sobrevive com tantas cicatrizes

Antes que tudo isso se acabe
Deita-te no chão gelado de pedra
E nunca se esqueça
As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer.

Dor no peito.

Madruga para ver o mar
Espera encontrar respostas
Quando ouve uma voz a sussurrar
no ouvido sobre uma antiga aposta

Oração insistente de marinheiro
Cada noite mais calejado e sofrido
Nunca hesita o velho timoneiro
Coração mais resistente que o vidro

Sua sorte é a descoberta da nova terra
Seu espírito livre nunca se encerra
Para tudo nessa vida se dá um jeito

Esteve em tantos lugares
E só nos mais selvagens mares
É que alivia sua eterna dor no peito.