Depois não tenho certezas.

Acordo antes e respiro

A mulher que amo

dorme ao meu lado e sorrio

Sempre fui gentil com as pessoas

Com as que odeio e com as que não gosto

e mais ainda com as que amo

Observo-a e me basto

Amar é olhar com cuidado e

Cuidar dos outros sempre foi

a única coisa que soube fazer desde cedo

Frequentemente alguém me dizia

Perto de ti não ouso sentir medo

Por vezes fui fatalista, mas vivi

tentando fazer a diferença

Creio que a felicidade destes dias

seja apenas consequência

Observo-a a dormir e sorrio

Este retrato no coração me acalma

Até quando ainda não a conhecia

sinto que a imagem já me acalmava

Toda esta leveza e poesia esteve

desde antes fixado em minha alma

O pé esquerdo dói e manco

Pisei em algo pontudo

Ainda assim, nesta manhã canto,

Porque a alegria traduz meu conteúdo

E me basto com a alegria de hoje

ainda que saiba que todas as horas seguintes

Trazem surpresas

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas

Levanto e faço o café

A mulher que amo continua dormindo

O cachorro que amo continua dormindo

A gata que amo continua dormindo

O gato que amo me seguiu até o escritório

Apenas para dormir mais perto de mim

Sou feliz e completo agora

Absorvo da vida toda a sutileza

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas.

Artista.

As coisas começam e acabam

Nunca duvide do que encontra

no rabo da palavra

Solidão e borboleta amarela

Anteontem extraiu do coração

Uma autodestruição das mais belas

Pintou uma obra de arte

A tinta seu próprio sangue

Por não se duvidar artista

Teve uma severa hemorragia e morreu

A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso

Junto com um bilhete e um último aviso:

Digam que ele nunca se arrependeu

Einmal ist keinmal.

Receita.

Prepare

Oito ovos mexidos

Saboreie um pedaço

de chocolate amargo

Beba três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Agora é só apreciar meio litro de café

para se manter em pé durante o dia

Se for domingo ou feriado

Finalize aquele livro do Dostoievski

Junte o que há no seu porão

Rascunhe uma crônica ou poesia

Se não for domingo e nem feriado

Vá para o trabalho e cuide bem

de todos aqueles números

Até os trabalhos mínimos importam

Evite pisar nos insetos e matar os besouros

Até as vidas menores importam

Ouse se conhecer e olhe para si e para dentro

Prepare uma mochila com um lanche caseiro

Dirija até o Shopping China e compre

Meia dúzia de coisas que você não precisa

Lembre-se também de levar chocolate amargo

O suco de limão caro compensa mais no mercado

Vagueie pela cidade nas noites e sente sozinho em um bar

Não saia correndo se uma estranha se sentar contigo

Ela precisou de coragem para ir até você

Agora você precisa de coragem para ficar

Portanto, sorria, mesmo que ela não seja tão legal assim

Ainda que você saiba que prefere ir para casa sozinho hoje

Se quer coisas novas na sua vida, deve permitir que elas entrem

Se o seu velho mundo está balançado

Entre discretamente em um novo e recomece

Nenhuma maldade ou bondade perdura para sempre

Passeie pela cidade aos domingos de manhã

Contemple o que há de natureza e o que há de natural

Esteja atento aos que se atrevem a te criticar e te elogiar

Há críticas justas e elogios insinceros, portanto, abra os olhos

É perigoso acreditar em tudo o que dizem sobre você

Essa paisagem com gosto e cheiro de paraíso

Muitas vezes é uma armadilha

Pode sair dela completamente afetado

Volte para a casa

A solidão te ensinou muitas coisas

mas é hora de adotar um gato

Sozinho não irei conseguir

Sozinho amadureci bastante,

Entretanto, não venci o mundo

Agora como mais um pedaço de chocolate

Peço um lanche completo na hamburgueria

com adicional de ovos

Bebo o suco de limão (aquele mais caro)

Assisto um seriado promissor ou um anime novo

Hoje o meu time de futebol não joga

Se for sábado, cuidado, há noites de duzentas horas

Sento e escrevo no papel

Vou até o escritório

Sento e escrevo no computador

Malho por duas horas e nem é início de madrugada

Sinto um tesão absurdo, porém não desejo ver ninguém

Bato uma punheta e ainda nem é madrugada

Meus pensamentos não se esclarecem e continuo acordado

Meus pensamentos não me esclarecem e continuo acordado

Escrevo mais um texto triste sobre amores

como histórias de fantasmas

Só alguns viram, mas todo mundo fala sobre

Do terceiro andar olho pela sacada larga

e vejo a rua deserta e a fábrica de tratores

Ligo o ar-condicionado do escritório

Ligo o ar-condicionado do quarto

Ligo Lord Huron na televisão grande

e danço desajeitadamente

Quando voltar para a minha cidade

Serei o peixe valorizado no mercado

Isso não interessa

Quando voltar para a minha cidade

Receberei o calor dos meus amigos e minha família

E choro de madrugada

Hoje é sábado (ou sexta)

E de amanhã não passa

Vou adotar um gato e escrever um conto

sobre um amor que foi e não é mais

E vou rezar, embora não acredite em Deus

Eu acredito mesmo é no suco de limão mais caro

e naquele pedaço mágico de chocolate amargo

Vou até a minha geladeira e repito a receita,

Embora tenha comido lanche horas antes

Preparo

Oito ovos mexidos

Saboreio dois pedaços

de chocolate amargo

Bebo três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Já sinto o cheiro do café

e vou beber um litro inteiro

Esta noite vou tirar de mim

Tudo o que é falso

E vou encarar o meu eu verdadeiro

Não é bem que os ovos e o chocolate e o limão

tornem-me imensamente satisfeito, entretanto,

Esses alimentos me situam e me basto no entendimento

Neste momento a vida precisa ser desse jeito.

Carneiro.

Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.

Retrato da Infância.

O retrato de minha infância feliz
está colocado na mesa de cabeceira da minha memória
Quando se cresce há tantos empecilhos para ser feliz
Há tanto que se pesa antes de chamarmos algo de felicidade
que todos os que tiveram uma infância boa como a minha
revolvem em si mesmos, como máquinas do tempo,
pela nostalgia de uma época em que era fácil aproveitar a vida
O quadro que vejo, do passado colorido e dolorido,
está emoldurado na primeira parede do meu coração
Mesmo quando eu optava pela solidão
Era pequeno, como as crianças costumam ser
e me orgulhava das minhas banalidades,
como as crianças costumam se orgulhar
Nunca imaginava àqueles tempos que eu cresceria
e me tornaria uma pessoa tão difícil e alta
Antes, infante, observava todos os bichos
sem imaginar que um dia haveria em mim tanta falta
Envelhecer é silencioso
Raramente, percebemo-nos envelhecer
é que meu coração ainda carrega as mesmas coisas que eu tinha
naquele momento distante em que eu acabara de nascer
Exceto pelas ausências que aprendi a acumular
E o vazio escuro, inseguro, que tenta me sugar
Já íntimo, nomeei-o como Vide Noir
Outro gênio já diria
Viver é perigoso
e só aproveitamos a vida sem medo
Quantos de nós não temos vergonha
de nossos pequenos segredos
mesmo após eles serem revelados?
As manchas deveriam ensinar para o futuro
e não afetar o presente que logo será passado
Tenho todas as idades porque a idade é uma mentira
A única verdade é que cada um tem uma cronologia
Sofremos, ainda que esteja claro para ver
Tudo o que nasce deve um dia morrer
Anteontem vendi minhas duas coleções de DVD
porque precisava de dinheiro para comprar roupas novas
Comprei um carro, mesmo que dirigir não me apraza,
porque preciso da facilidade da locomoção para ser prático
Preciso ser prático para evitar ser infeliz
É assim que as coisas funcionam e o mundo funciona
e há tantos cuidados que devemos tomar para não sermos engolidos
Aquele velho amigo inimigo se aproxima e o ouço sussurrar
Vide, vide, vide noir
Despenco no precipício de mim e no mais fundo
do meu ser enxergo novos horizontes
Por vezes tudo soa vago, mas vou existir longe
Volto aos tempos em que corria pelos parquinhos
Tinha medo de me machucar e chorava com facilidade
Deitava na pedra do quintal e seguia os insetos, sem machucá-los
Depois inventava um império robótico capaz de coexistir com eles
Os humanos não tinham humanidade o suficiente
para poupar vidas pequenas
E algo me dizia que toda vida valia a pena
Sentia um tosco orgulho em ser excelente nos videogames
Eu era feito de brilho e barulho, mas permanecia discreto e silente
Tudo em mim era muito e com frequência divagava
mesmo muito novo sentia que algo sempre faltava
E era seguido de perto por meus irmãos e meus amigos
Estava sempre acompanhado, até quando corria para o perigo
E cresci bem, intranquilo e forte
Ano a ano melhorei a minha saúde e a minha sorte
Espero conseguir cumprir meus sonhos antes da morte
A puerilidade que ainda carrego hoje reflete
a criança livre que tentei ser ontem
Tentar geralmente basta
E a gente sempre se gasta
tentando fazer mais do que pode
exagerando numa ilusão de necessidades
Acumulando uma lista imensa de vaidades
Desfilando nossa arrogância por toda a cidade
E aquela ingenuidade distraída que tínhamos
Aquela pureza do passado
Isso quase me deixou nestes dias
Envergonhado
Até que percebi que sou o mesmo
Andando a esmo
Cumprindo todas as minhas promessas
Tento me lembrar que não é preciso ter tanta pressa
E se no passado fiz apenas o que pude
A explicação é de que não poderia antes ir além
Um dia tudo passa, relaxa,
a gente vai ficar bem
Mude quando estiver preparado
e nunca se esqueça
Importa menos o ritmo
Importa mais o rumo
Há tantos novos algoritmos que entre eles
Sumo
Reapareço quase compreendendo
qual é o meu lugar
Não tenho a forma de uma estrela,
mas vivo sempre a brilhar
Assim, nunca mais ousei ser imbecil
e me envergonhar de quem eu sou
Até minhas partes mais erradas vibram por amor
Os anos perdidos estão emoldurados
na segunda parede do meu coração
Quando o futuro se tornar passado
Vou colocar alguns móveis de lado
e arrumar a decoração.

Descupinização

A descupinização é fundamental, pois milhares de casas já desmoronaram tendo como únicos culpados os malditos cupins. E os linguistas, preocupados com os cupins, logo trataram de inventar uma palavra que nunca poderia sonhar em ser bela na estética, apenas para evidenciar pela feiura a inevitável vilania dos isópteros. Não se atente ao detalhe errado. Aqui tenho a tendência de perseguir os cupins e sobre os sonhos das palavras discorrerei em outra oportunidade. O que explicaria o ódio dos linguistas aos cupins? Experiências e traumas pessoais? O que traduziria a relação entre gente e cupim? São apenas insetos, eu lhes diria, entretanto, há uma crença popular e verdadeira de que devemos conter o número dos cupins e devo admitir a realidade desta assertiva, mesmo que o povo se apraza costumeiramente de comprar uma fantasia bem induzida. Acredito que exista um medo secreto compartilhado pela humanidade de ser subjugada pelos cupins ou pelas baratas ou pelos ratos, roedores estes que certamente são mais inteligentes que quaisquer insetos. As formigas que também estão espalhadas pelo globo terrestre e que não são íntimas ao frio, são fortes candidatas, mesmo com suas formas minúsculas, a nos destronarem, assim, a humanidade promove o extermínio de tudo o que pode e não é raro descobrirmos que promovemos a extinção de novos seres.

Imagino como seria a mim, subjugador dos animais e dos insetos, se uma criatura gigante surgisse e me obrigasse a viver de outra maneira. Devaneio sobre o que eu faria se um gigante me erguesse na palma de suas mãozorras e me dissesse, “filho, terei de te matar, mas é para o seu próprio bem, lembra de quando exterminou o cupim por causa que ele comia as madeiras da casa, bom, eu sei que sim e você, Daniel, está comendo as partes boas deste mundo inteiro, você e os seus colegas humanos fazem muito barulho, fazem sexo de qualquer jeito, queimam coisas demasiadas, acumulam lixo e certamente existem em uma quantidade excessiva, assim, te matarei pelo amor e pelo respeito que sinto à sua espécie, como um gesto supremo e superior que resume toda a nobreza de meu coração valoroso”. Sem alternativas, eu teria que concordar, sem mais argúcia argumentativa na fala, sem sequer uma tentativa desesperada de sobrevivência, veja, os cupins nunca suplicaram diante da descupinização e eu nunca vi uma barata que dissesse “poupe minha vida”, elas, dignas, apesar do esgoto distante e sujo de onde surgiram, possuem um brio invejável e não suplicam, mesmo quando são alvos das chacotas felinas. Não hesitam e nem clamam por misericórdia, nem mesmo quando desmembradas pelos gatos.

Dos humanos que se enraivecem diante dos cupins, destacam-se os arquitetos, que não podem aceitar que outros também projetem edificações belas e os engenheiros, que creem que seus capacetes são coroas, invejam a instintividade dos cupins, sem ter a menor consciência sobre eles, indagando-se se eles fazem contas e se utilizam fórmulas matemáticas para erguerem suas estruturas ou não. Para nós tudo é disponível e talvez este seja o segredo desmistificado por trás de desvalorizarmos tanto a tudo. O louva-deus morre depois que copula e por isso ele também louva o sexo, praticando-o com a certeza da não repetição, entregando-se ao orgasmo e à morte simultaneamente. Quem fode convicto da morte só pode foder bem. Pressão? Claro que não. Se a morte é a última consequência, o sexo que antecede a morte é apenas uma despedida e quisera eu saber quando vou morrer para nunca fazer sexo de qualquer jeito.

O que pretendo com este relato não é convencer a humanidade de suas incomodas manias segregadoras ou coibir os atos hostis que nós e os nossos colegas mais ou menos humanos praticam. Ouça e escute o que falo ou apenas leia, para que entenda o que eu digo, sem inventar falso sentido nas minhas ações. A única intenção que tenho aqui é que você anote o telefone do homem da descupinização, pois é preciso exterminar os cupins a qualquer custo. Se porventura se configurar a necessidade, se a ameaça for urgente, chame imediatamente o responsável pela desratização e se as baratas fofoqueiras lhe encheram a paciência, adote um gato ou ligue para o desbaratador ou um dedetizador de primeira. O desempregado é, sobretudo, um desocupado e se cada alma se dedicasse ao lixo reciclável ou ao extermínio dos cupins, quiçá encontraríamos pessoas melhores, munidas de um sentimento puro e tolo de orgulho e talvez nem houvesse desemprego e cupins no mundo.

Suspiro e penso na descupinização, enquanto rezo para que não existam tantos desumanizadores (exterminadores de humanos) no futuro e que não me cacem pelas ruas por individualmente ser responsável por uma existência coletiva excessiva. Os agrimensores, os testadores de motéis, os limpadores dos lutadores de sumô, os que possuem profissões raras ou feias, incutidas sutilmente por uma deformidade perniciosa promovida pelos linguistas através das palavras que definem essas descrições e explicações, esses de profissões estranhas também importam, mas quanto mais o dia avança, o sol cai e o mundo gira. O sol some aqui e aparece do outro lado do planeta. Todos começam a entrar em um estado de sonolência e eu me percebo lúcido. Sinto uma tendência a culpar os cupins pelas minhas mazelas, reparo que até os nomes deles compartilham as letras da culpa, malditos cupins culpados, cupins cultos e invertebrados, estúpidos e culpados, cupins miseráveis por todas as minhas falhas. Respiro e sinto uma paz serena adentrar subitamente o meu coração.

A prova de que Deus existe é a DESCUPINIZAÇÃO.

Rumo.

Sinto saudade da estrada
Meus olhos castanhos escuros
chegavam nas boates e bares sempre procurando
Observava cada rachadura nos muros
enquanto a vida ia passando
Só me deparava com mentiras
espalhadas pela cidade
E eu que estava sempre na mira
Sabia que nas estradas havia
a única e esquecida verdade
Estar lúcido e sóbrio
prestes a desistir ou a admitir
É o consolo dos loucos,
Os que enxergam um pedaço da verdade são poucos
A consciência requer inevitabilidade
Quando podemos morrer a qualquer momento
somos honestos com a vida
Odeio ter a capacidade de ler as entrelinhas
Uma vez quase morri nas estradas,
E ainda assim sinto falta
das mãos no volante
E da necessidade de contar apenas
com meus reflexos para sobreviver
Qualquer caminhão ou ônibus
surgia como um monstro pesado
E eu, encolhido em meu carro branco,
antes de comprar um carro preto,
Sabia que não poderia ficar desatento
A vida é este detalhe discreto
E se dormimos na hora errada
somos esmagados como insetos
Há diversas plantações dos dois lados
e há bois e vacas e carneiros espalhados
Há também pombas que pulam no para-choque
e me pergunto se as aves se suicidam
As nuvens cinzas escolhem locais específicos para chover
E eu sinto falta do menino que eu era
antes da última primavera do mundo
Um jovem que acreditava em cartomantes,
dados viciados e na influência das marés
É estranho absorver a verdade
que o asfalto transmite
A máquina do tempo já foi inventada
É o cérebro quando estamos concentrados
em chegar em algum lugar
Qualquer lugar
Assim eu voltava brevemente
A minha prolixidade de sentidos
por vezes me fazia ficar calado
Essa prolixidade se fazia sucinta nos anos perdidos
nos quais sentia que nunca fui amado
E eu, grande mago da solidão,
carregava o charme de não ter charme,
O ar misterioso de quem não tem mistério,
O sono insistente em tudo o que me envolvia
contrastava com meu interesse imenso
em tudo o que me era alheio
E faziam filas para ter uma migalha da minha atenção
E eu olhava desinteressado e quase triste para o Vide Noir
sabendo que ninguém conhecia o buraco negro em mim
Aquela lacuna enorme que carregava tanta Dor e Beleza
sugava todas as minhas energias
Como restava algo em mim capaz
de encantar alguém?
E minhas vontades passavam
a 120km/h e eu sabia que tinha visto
muito mais do que o suficiente
E que nunca viveria o suficiente para
realizar todos os meus sonhos e desejos
Todo mundo é um, mas alguns
são um enquanto são dois ou três
Tenho me dedicado tanto
que por vezes me encontro aos prantos
quando um relâmpago lumia o breu da noite
Emociono-me diante da Beleza e sinto a sorte
de ser um homem que nunca sentiu inveja
Dirigir na estrada é
um ato contínuo de meditação
Se você tiver bons ouvidos
escutará o motor como seu coração
Os batimentos cardíacos unidos
Os radares querendo ditar limites
Os sonolentos nos tirando o ar
E os suspiros breves no peito
quando evitamos colisões e acidentes
E a consciência de que muitos outros
não conseguiram evitá-los
Viver é perigoso
Viver é raro
Viver é necessário
Se um dia tiver dúvidas sobre a vida
recomendo que dirija nas estradas
E se depare com a realidade
As mentiras, as cidades, os córregos,
os sinais de trânsito, o consumo, o dinheiro,
Isso tudo força a miopia na verdade
e deixamos de enxergar o que realmente importa
Abra as portas e janelas e veja
Ligue os faróis e encare os percursos
A vida é procurar e nunca encontrar
um rumo.

Lacuna

A lacuna da ausência aumenta
E reconheço que, até eu mesmo, falto-me
Assim, por consciência da inconsequência,
Entrego-me aos menores prazeres
Ando nu pela casa e me fito no espelho
Não tenho vergonha nem orgulho do que vejo
Nesta vida tenho sido sempre o mesmo
Pudera me entregar ao instinto ébrio
e ousar não me ser por algumas horas
Há tanta coisa que consigo com
o corpo e a mente que tenho agora
Ainda assim não quero o que posso ter
e só posso querer o que nunca hei de alcançar
A lacuna da ausência aumenta
E reconheço que agora preciso de uma cerveja
Assim, pela consciência de realizar um prazer individual
caminho decididamente até a geladeira
Sou um vexame para os outros poetas
por ser relativamente organizado
Um poeta de verdade não teria achado
tão facilmente aquilo que procura
Abro a minha cerveja preta e a bebo
e faço das goladas consecutivas
uma tradução malfeita de mim
A minha docilidade é amarga,
mas é tão fácil se acostumar comigo
que todos insistem em me querer por perto
Por não ser esperto, eu nunca consigo evitar
essa gente toda que se aproxima
Tento fugir, mas parece que é a minha sina
Há abraços e beijos em cada esquina
E eu, que por vezes reconheço que preciso ficar só,
estou quase sempre acompanhado e meu coração
é mais um balde derramado
Até a minha alma escancara minhas vontades,
entretanto, não há empatia que os faça quererem realizar-me,
Por apenas quererem-me sem realização ou ideais e propósitos
Por não quererem a mim ou de mim o que eu quero
Por se decepcionarem com o que eu mesmo espero
Todo mundo pensa que tem um conselho para tudo
e essa sabedoria falsa é uma súplica de nossas vaidades
E essa nostalgia de vontades não realizadas
Não nos fará mais realizados por fora e nem por dentro
É possível sentir orgulho dos outros, porém
o que não realizamos não realizamos
E a realização alheia não nos fará realizados
A lacuna da ausência aumenta e já não sei
Se um dia deixarei de sentir falta dos tempos de menino
Onde eu era desatento, distraído e desatino,
mas opulentamente livre como um antigo rei.

Até logo!

É que é assim mesmo, senhor, como na mais simples das rimas: a gente nasce, cresce e logo a vida termina. É uma linha fina. Eu queria voltar no tempo e te pedir “me ensina”, conta bem devagar, por favor, a sua história. Deixe suas lembranças vivas através das minhas memórias e eu sei que nós ficaremos bem.

Antes de ir, volta só um instante e fica mais um pouco. Ri com sua família inteira de novo. Atrasa uns minutos para o trabalho e aproveita esse breve espaço no fim do almoço. Escuta os sons dos seus filhos, noras, genros e netos. Você percebeu faz tempo que todo esse barulho e a casa cheia significam apenas afeto. Hoje eu também sei.

Sei o que ninguém me ensinou, vô e sei que é natural ainda sentir alguns medos. Sei que os almoços nos sábados nunca mais serão os mesmos. Sem chances de erro ou segredos, hoje vejo além dos espelhos. Todos nós somos únicos, ainda que no meio de tantos. Revive o berro que me assustou quando celebrou aquele último gol do Santos.

Dói, mas é assim que a vida é desde que o Universo foi feito, desde que o planeta existe. Vou insistir e ter fé, mas por um tempo minha alegria será triste. Queria que soubesse, vô, eu luto sempre e muito por tudo o que é certo. Melhorei com o tempo e até me tornei esperto, mas o senhor foi o único que conheci na vida que mereceu um tipo distinto de adjetivo. Você é o único que contemplei de perto e pude chamar de altivo. Derramo pelas minhas palavras tudo o que há no meu coração. Você sempre será alvo do meu amor e da minha admiração.

Aceita um colo, pega toda essa dor e simplesmente esqueça. Agora me puxa para perto e acaricia minha cabeça. Sete, porque é um número auspicioso e cinco estrelas não são o suficiente. Após o Cruzeiro do Sul há mais estrelas, vá em busca de obtê-las e conheça constelações diferentes. Alastre-se, expanda, ousa continuar crescendo depois da morte, conquistando os horizontes. Se eu também tiver sorte um dia vou existir longe.

Descanse, meu velho, não precisa mais trabalhar. Você deixou um cenário positivo para que possamos continuar. Obrigado por ter repetido a lição de John Donne e ter me ensinado que “Nenhum homem é uma ilha”. Obrigado pelo aprendizado de amar e valorizar a família. Uma das grandes injustiças poéticas da vida é que a bondade e o amor que recebemos, por vezes, só podemos passar aos próximos. Não tenho como ser melhor neto agora, é tarde demais, mas buscarei ser um melhor irmão, um melhor filho, um melhor sobrinho, um melhor namorado e um melhor amigo. Como a vida é cheia de nuances, eu já posso buscar ser um excelente tio para o meu sobrinho e eventualmente, mais para frente, pretendo ser o melhor pai do mundo para os meus filhos.

Olho para trás e vejo com clareza a minha juventude, mas o tempo passa e exige que tudo mude. O que traz valor a vida é a finitude. Tudo bem, eu sei que a vida acaba e por isso só chorarei para limpar a minha alma. Se pudesse escolher, eu talvez ainda estivesse brincando com a terra nos buracos que você cavava para mim na fazenda. Eu quase me esqueci, mas há tanta gente que se lembra. Há uma distância entre o que foi e o que é, mas me fortaleço na consciência de que nada é permanente. Tudo foi bom outrora, mas rezo para que seja melhor lá na frente. A vida será muito diferente. As páginas viram e outros continuam contando uma história que parece exclusiva e individual, mas na verdade, do começo ao fim é compartilhada. Viemos e voltaremos ao nada.

Obrigado por tudo, meu avô. Obrigado por ter nos ajudado a prosperar, daqui para frente, sigo por mim e por toda essa gente, com todo o meu amor. Nas fotos, eu vou sempre viajar do futuro para o passado para te encontrar. Obrigado por tudo. Te amo para sempre e mais um dia! De sexta-feira em diante, hoje mais do que nunca no que seria o seu aniversário de 76 anos, quero que saiba que carrego comigo um orgulho imenso de ser seu neto e a certeza que essa despedida é acompanhada de uma promessa de reencontro. É um adeus, sim, mas só por enquanto. Agora você vai dançar, sambar e cantar em qualquer lugar, gastar toda sua voz com o trem das onze. Um dia a gente se encontra, mesmo que ainda esteja um pouco distante. Feliz aniversário, vô! Que você esteja bem e satisfeito onde quer que esteja!

Com amor,
seu neto Daniel.

Véspera Vespertina

Meu coração se assemelha ao motor de um veículo zero. Bate, sem oscilar, um número exato de batimentos cardíacos por minuto. Se investigasse os números só me depararia com um resultado aproximado, longe da exatidão cirúrgica. A consciência de não ter plena consciência me exulta. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer qualquer coisa. A imprevisibilidade ainda é, por ora, parte do meu reflexo humano. Estou confessadamente cheio de humanidades! O sangue circula em minhas veias e funciono, pelo menos na medida do possível e sei que o coração bate. As nuvens passam pelo céu azul claro e sei que um dia não haverá mais céu ou nuvens para mim. Nasci para morrer e me perco em longas e eventuais conjecturas. Os animais me encaram com seus olhos fundos e grandes, antevendo secretamente todo o mistério da existência. O amor que recebo é de outra dimensão. Neste plano ainda não aprendi a amar além do limite e talvez nunca aprenda. Minhas emoções se sobressaltam e choro sozinho no carro ao me deparar com um relâmpago numa noite silenciosa. Quase buzino em protesto contra os deuses, mas ouço apenas sons urbanos e dirijo.

Chego em casa e tiro a roupa, como quem descarta os pensamentos e faço do sofá um cabideiro ou uma arara para pendurar vestimentas. Abandono também as hipóteses levianas. Se os cachorros e gatos conhecessem os mistérios da vida jamais seriam atropelados. Se as pombas soubessem os segredos do Universo, apenas comeriam pipoca perto da entrada do Fórum de Justiça da cidade, mas elas ousam ir além e morrem, ao comerem outras coisas ou após serem também fatalmente atropeladas. Estamos aqui para alguma coisa, mas nunca saberemos a razão, afirmo. O caminho mais fácil para a tranquilização do espírito é sufocar as hipóteses complexas e resumir a vida em simplicidades. Se nasci para morrer, como vou me manter motivado para desfrutar de minha vida? Percebo os outros muito mais do que gostaria. Fito segredos degradantes que jamais serão revelados. Revela-se em mim a mania de contar, que nunca me abandonou e sorrio por me escapar a quantidade de batimentos cardíacos, ainda que não escape o impulso de um meio gesto alheio, que significou o gesto inteiro; ainda que não me seja invisível qualquer coisa que aconteça na penumbra; ainda que eu durma relativamente acordado, por conhecer o mal que sofro em meus pesadelos horripilantes. Não procuro em vida expiar as tragédias que me acontecem no cotidiano e nem busco verdades além da uma Verdade. Sou amado, entretanto, há vezes que me sinto tão sozinho que ninguém chega perto de perfurar as esferas do meu isolamento. Devo ter a paciência de me manter calmo e frio, apesar da drástica loucura climática, para não confundirem a minha raiva serena com qualquer destempero frívolo e banal. Sou furiosamente delicado, mas confundir a minha cautela com fragilidade é pisar em uma zona além da qual estipulei a minha pacificidade. Se por bem ou por mal quiseram controlar a minha reação, eu direi a todos que se fodam, que se enfileirem um nos rabos dos outros, que se lambam ou se cuspam, que me chupem, que me procurem na esquina ou que pulem de um precipício.

Tenho o cuidado extremo de permanecer sóbrio e real e leal, mesmo quando me passam rasteiras e cerro os punhos e franzo uma das sobrancelhas enquanto escuto, pois ouvir continua sendo uma arte. Tenho soluções criativas que ninguém ouve, muitas vezes nem eu mesmo. Tenho evitado iniciar confusões, mas só se recordam de como batalho furiosamente uma vez inserido nelas. Não busco conflitos, mas reajo. Que assim lembrem então do meu barulho e que minhas vontades realizadas, apenas pela razão de que desejo as realizar, não sejam confundidas com qualquer vislumbre extravagante de um instinto hedonista. Recuso o hedonismo. Não é tudo pelo prazer, mas tenho o direito de pleitear o que suponho ser prazeroso uma vez que lido com a difícil missão diária de enveredar por subidas mais íngremes. Quero mais, sonho mais, subo mais, luto mais choro mais e até grito mais. Escalo uma montanha e do outro lado da colina há um desconhecido que me diz que eu não deveria estar ali. Após tanto tempo de escalada, resolvo fazer a única coisa que é simultaneamente sensível e sensata. Mostro-lhe o dedo do meio e calmamente digo que não há montanhas, nem vidas, nem separações. Se estiver atento perceberá que até mesmo metade das vontades que você julga serem suas, foram-lhe estimuladas por pessoas alheias ou pela sua falsa argúcia em observar errado. Digo isso a ele e mostro o outro dedo do meio. Percebendo-se apequenado diante de mim, observo-o fugir, sem argumentos para minhas falas, sem astúcia para o enfrentamento. Não o xingo, pois ele tem o direito de se resguardar silenciosamente em seu remorso acovardado.

Há pessoas que odeio e serão famosas e não as odiarei menos por isso. Há pessoas que amo e serão famosas e não as amarei menos por isso. As minhas opiniões não são afetadas por impressionismos de esquina e nem a minha atenção é comprada por qualquer debilitado chamariz patético e pedante. Os que mergulham na prostituição barata em nome de obter atenção e os que bajulam e se rastejam para buscar um lugar ao sol, por terem confundido um falso ídolo qualquer com um verdadeiro Astro cósmico, não sabem nada sobre iluminação e luz. A cidade continua a ser o que sempre foi e desconfio de que eu não sou mais quem quase sempre fui. Minhas mudanças estéticas são mais notáveis que minhas oscilações morais e intelectuais. Os batimentos cardíacos, agradeço a qualquer coisa que não vejo, ainda são impossíveis de contar com precisão. Conto as mentiras, as falhas, os acertos, o salário, os amigos, os falsos amigos, os psicólogos, os psicanalistas, os médicos, os jogadores de futebol, os coqueiros do outro lado da rua, mas ainda não conto os meus próprios batimentos. A imprevisibilidade ainda não é estéril em mim, entretanto, vejo-me cercado e cada vez menos humano. Velhos restaurantes que por anos foram imponentes, repentinamente estão falidos. Como posso eu, repleto de tantas humanidades, ser infalível? Falho com e sem classe, arrependo-me de coisas que fiz e de coisas que não fiz, de murros que não dei na hora exata. Os ossos se consolidam, mas os remorsos nos perseguem e algumas vezes nos matam. O grande júbilo quando o cansaço me alcança é manter a convicção de que ainda há a morte. Que sorte, digo baixo, que sorte, confesso aos prantos, que sorte, grito aos quatro cantos. Tudo começa e acaba e vilões e heróis, santos e pecadores, criminosos, apátridas e ingênuos se igualam com o nivelar final da inevitável condição humana: todos morremos. Não há um político corrupto que escape, não há um diretor de cinema engenhoso, uma advogada, um filho, uma mãe, um filho da mãe, um filho da puta, um animal, uma planta que escape. Tudo morre e tudo em mim retorna ao seu devido lugar. Repito, cansado e combalido, o que começa precisa acabar.

Sinto uma afta abaixo da língua e a pressiono com um punhado de sal e meu dedo anelar. A dor me faz sentir vivo e os meus pensamentos cessam. Não é preciso pressa. O mundo é grande e sempre haverá alguém acordado e alguém dormindo. Os relógios ajudam no controle, mas os ponteiros são mecanizados. A consciência de não ter plena consciência me exalta e me alegra. Toda beleza que interessa é vaga e cega. Nasci para morrer e me firmo nessa constatação. Meu coração sem contagem de batimentos parece descompassado, como um motor quebrado, mas me valho de um orgulho tosco e juvenil de ser quem eu sou hoje, ainda que não tenha a certeza de quem eu vá ser amanhã. Somos ingênuos e abobalhados diante do Tempo e fazemos ou deixamos de fazer apenas nestes pequenos lapsos nos quais nos enxergamos quase como seres Reais. Sem os lapsos epifânicos, sem essa convicção superior de necessidade, nada somos e tentamos disfarçar a notável indiferença que sentimos com propósitos e sonhos e desejos. A vida cinza do escritório se colore com a paisagem que vislumbro da janela. As árvores e máquinas jazem belas no pátio dos automóveis gigantes. Em outros sistemas, será que esses ônibus contam histórias sobre os humanos que os conduzem? Haverá alguém segurando este planeta gigante na palma da mão, como eu seguro uma bola de tênis? Sorrio como reflexo, sem sentir felicidade ou tristeza. Ainda sou o mesmo de sempre, na verdade e esta cidade vai mudando mais do que eu, tanto nos recônditos de seu âmago, como no sentido estético. A alma da cidade se expande. A egrégora formada pelo acúmulo de espíritos campo-grandenses vai além de uma Campo Grande. Novos prédios surgem e eles riem dos antigos, que dizem para as casas pequenas e os comércios locais que a juventude atual está drástica e mudada. As coisas eram melhores antigamente. Até os insetos estão abandonado a cidade para tocarem banjo em uma roda no pântano. Qualquer leigo midiático abandona a literatura por qualquer outro esporte mais prazeroso e fugaz.

Falo do que sei, sabendo que sei cada vez menos. Os mais sábios morreram e os mais estúpidos também e quando chegar a minha vez, eu sei que alcançarei todos os que se foram e que hoje estão distantes de mim. Não tenho vaidades cronológicas e assim, contento-me em viver só até a velhice, realizando-me ou não, porque o homem que deseja e realiza encontra o mesmo encerramento que o que não se realiza. Pretendo beber muito café e muita cerveja, pretendo foder pelos próximos trinta anos pelo menos quatro vezes por semana, escrever muitos textos, ainda que ninguém os leia e dizer sem hesitar em um instinto educado de polidez BOM DIA, para as pessoas que eu encontrar no elevador do condomínio. Os animais podem guardar segredos existencialistas, mas eu não sou capaz de guardar nada. A ambição de existir longe me frustra constantemente. O sucesso e o fracasso são vizinhos de frente. Um dia quando eu pedir café emprestado para o vizinho ou para a vizinha, quem sabe não me descubram. Imagino-me agora coberto e rio da inutilidade pueril do senso de humor. Tudo existe, mesmo sem que eu saiba para quê e saber que todas as pessoas pensam, mais ou menos a contagem aproximada de pensamentos que eu também penso, convence-me de que há demasiados pensadores. Queria emudecer na consciência apenas por algumas horas e me encarar nu, vazio e puro. Aceito o meu corpo e até da minha assimetria sou seguro, afinal, a carcaça é nada ou no máximo significa e traduz a roupagem de minha alma. Sinto-me só. Sinto-me e só. Queria externar minhas raivas e paixões, minhas partes esdrúxulas, minhas ironias e verdades, minhas razões, meus choros, meus prazeres, queria ser encarado como um livro escrito e publicado, mesmo que repleto de rasuras. Vou ao banheiro e mijo. Tenho mijado muito por beber seis litros de água por dia e penso na utilidade da água, não para os outros, mas para a minha funcionalidade biológica. Esses tantos silêncios são o que tornam a vida possível ou o que nos disfarça o suficiente para que sejamos encarados como toleráveis? Essa quietude quando a vida pede coragem nos ensina algo sobre os outros ou sobre nós mesmos? Essa angústia disfarçada, esse senso estético exaltado e murcho, destacado constantemente como se fosse a única qualidade a se espelhar, ensina algo, afinal? O fanatismo é indiscutivelmente além da conta, tanto que já vi pessoas disfarçando seus corações, suas paixões e até suas próprias identidades, tudo para saciar uma pressão social concreta. A pressão singular que assola quando ninguém vê, guia o fanático até uma confissão secreta, calada, escondida. Quase ninguém nota, mas eu tenho observado.

Não me entrego aos idiotas e nem me verão me submeter ao vulgar escancarado ou oculto. Àqueles que pensam que podem pensar sobre como os outros agem, não são só estúpidos como completamente egoístas. A vaidade narcisa passa longe de mim, mas tampouco me impressiono com narcisos. Acostumei-me com a constante presença deles ao longo da vida. Há uma mania de convencimento frágil, falsa, de se pensar muito mais do que se é. Idolatrar-se é se entregar ao vitupério próprio, individual e inescapável. Toda obsessão é boçal, sendo a obsessão consigo a mais banal delas. Deificar a aparência é optar sacrificar tudo o que não é aparente. Destacar apenas a estética é se ajoelhar diante de uma falsa beleza e não me ajoelho para amigos e nem para inimigos. Sim, há os amigos e há os inimigos também, você subestima, mas há pessoas na cidade que riem de você, ainda que não te conheçam, que torcem contra você, ainda que nunca tenham te visto, que invejam a sua vida, é claro, sem terem a consciência de que há ônus e bônus para todos. Você que me olha e não lê minhas palavras, zomba, gargalha e ainda acha que estou louco. Tudo o que todo mundo faz ainda é muito pouco. A tragédia não é ser leigo, é ser amoroso. O inferno, como disse Sartre, são os outros.

Já não posso tolerar quem age de maneiras irresponsáveis em relação a mim e me afasto, afastando-os também, por ter aprendido que a autopreservação como instinto é, por vezes, salvadora. Se não me salvasse, quem operaria heroísmos em minha vida? Se não me defendesse, quem desferiria um tapa tentando salvar a minha honra? Se não berrasse, quem conteria meus desesperos soltos no peito? Quem para me defender, quando o mundo é covarde na defesa e prefere se valer de uma fingida destreza para evitar o conflito? Quem é que sendo esperto escolhe o lado certo, sendo que o outro lado está sozinho? Quem é que vai se esquivar e falar que não há razão após o primeiro grito? A covardia, bem como artimanhas viperinas, é manjada e não sou ingênuo para me enganar facilmente. Tenho uma estrutura estética formidável e me agrado com a forma do meu nariz e a cor dos meus olhos, embora desejasse que cumprissem a função original para qual os tenho. Se os olhos enxergassem bem e se meu nariz respirasse melhor, eu talvez me sentisse satisfeito. O senso de estética externo é marcante e por isso engana a funcionalidade de tudo o que é interno e funciona com oscilações. Enganamos os outros, mas no fim, desconfio que jamais enganamos a nós mesmos. Comportamos monstruosidades, bem como operamos milagres. A existência é repleta de dualidade e nós somos todos ambivalentes.

Choro solitário, sem derramar lágrimas e me percebo percebendo. Não consigo ser simpático. A minha ira esbarra na minha doçura e meus contrastes me definem. Se posso ser mais? Talvez. Se quero ser mais? Não sei. Se sou o mesmo desde a infância? Provavelmente sim. Ainda me vejo menino no quintal de casa, sozinho, observando os brinquedos imóveis, que logo agitariam a minha manhã com a minha imaginação. Não preciso estimular minha criatividade, tampouco minhas convicções. Nossas certezas são mais certas que as certezas dos que julgamos ignorantes ou loucos? Há genialidades vomitadas diretamente no esgoto. Esvazio-me, mas continuo cheio, sem saberes acumulados. A única certeza que se crava em meu peito, como uma estaca fincada no coração sem batimentos de um vampiro, é de que um dia irei morrer, bem como todos os que não são eternos também morrerão. Tudo se despedaça. Tudo começa e acaba. Tudo acaba e começa.

Se o mistério da Vida fosse um quebra-cabeças, eu seria apenas uma peça. Rio da rima e me volto aos números. Preciso tomar café e mijar, não necessariamente nessa ordem. Que o Rio de Janeiro tenha compaixão de mim, gargalho no escritório de casa. A ira alheia envolta em fantasias de relações íntimas nunca cumpridas me coloca um sorriso no rosto. Um se matar por um amor não correspondido e este vivo, sobrevivente, não clama por gratidão e abandona o “amigo” na primeira oportunidade. É a batalha da bajulação contra a vaidade. Suporta-se tanta a humilhação só para andar de mãos dadas. Há mãos que são cheirosas e macias, mas não valem esse preço. Sorrio outra vez de meus desassossegos. Torço para que não invadam meu espaço pessoal mais uma vez. A violência não me apraz, mas tenho me cansado de ser calmo. Quero o silêncio a qualquer custo. Não me basto e todo novo dia ainda me busco. Já é possível revolver para dentro e me encarar sem sustos?

Quero chegar em casa e encarar os profundos olhares dos bichos, que me exigirão ternura e alimentos, sem explicações sobre mistérios não misteriosos da vida. Sorrio com expectativas, mesmo sabendo que a expectativa é uma forma de ilusão condicionada propositadamente por mim. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim e essa exatidão me faz rir. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer ainda qualquer coisa. A imprevisibilidade é, por ora, parte do meu reflexo de humanidade. Nesta véspera vespertina de mais um ano de vida, neste prelúdio alaranjado do meu aniversário, penso, como bilhões espalhados pelo mundo também pensam. Sonho infantil de um dia mostrar meus pensamentos e minhas iniciativas aos outros que também pensam. Sorrio outra vez, ainda que essa hipótese possa talvez nunca se concluir. O futuro é imprevisível, bem como as vontades que dançam no meu âmago. Tudo pode acontecer!

Tudo pode acontecer, mas nem tudo vai. A cada escolha que faço deixo milhões de outros destinos para trás.