Coração nômade

Faço tudo o que posso, mas
Insisto que não me chame de lar
Um dia ainda acordo e de repente
Abandono este lugar
Meu coração nômade
Sabe realmente amar,
mas ele não pode ser casa
Ainda que haja brasa
para os dias frios
Ainda que preencha
habilmente espaços vazios
Ainda que te defenda
de tantos inimigos
Ainda que surpreenda
com desejos correspondidos
Este coração nunca será
um lar para você
Se alimenta esse ideal
É melhor tentar me esquecer
Sou o melhor de todos e
o pior deles também
Estou te avisando sobre os riscos
Te quero, mas não como refém
Estaremos juntos
Permaneceremos juntos
Nunca vou desaparecer do mundo
Porém, este vagabundo arisco
tem o coração mutante
Tudo que é bom hoje
Será diferente adiante
Muito melhor ou pior
Quem é que pode dizer?
Por isso não me faça lar
Repentinamente posso mudar
Eu só queria te fazer entender.

Medusa

Chega e ordena
que eu tire minha blusa
Olhar que me condena
Medusa
Não te amo
Ainda que seja

minha musa
Não é engano
A gente se usa
Tento assimilar a informação, mas
seu jeito de falar é pura tentação
Hesito e me convenço de uma mentira
Quero me amenizar e decido ir embora
Não sou igual a todo mundo
Tento me convencer de que
homem como eu já não se fabrica
Aos pés dela, porém,

somos todos vagabundos
Vítimas dum olhar que petrifica

Nunca posso resistir
Quando a voz dela me chama
Até tentei fugir, mas

cá estou na cama
Ela vai dizer o

que quero ouvir
Fingir que me ama
Foderemos a noite inteira
Escuridão que inflama

Uma noite boa

Já estava quase dormindo quando ela disse, ei, eu achei aqui na internet, achou o que, perguntei, essas coisas bobas, ela disse e de olhos fechados vi o sorriso, que coisas bobas, posso falar mesmo, ela perguntou, eu disse sim, claro, fale sobre essas coisas bobas. Ok, se você pudesse levar alguém para jantar quem seria, vivo ou morto, indaguei, acho melhor levar alguém vivo, é, os mortos não sentem fome, eu concordo, quem levaria, Hayao Miyazaki, japonês, ela pergunta, sim, é japonês e você, não sou japonesa, bem humorada é, sou, quem levaria, pergunto, Will Smith, ela responde. Penso em chocá-la com meu brilhantismo de conhecimentos diversificados. Sabia que a filha dele chama Willa e o filho Jade porque ele é Jada e a esposa Will, não, ele Will e a esposa Jada e aí usaram os próprios nomes para nomear os filhos. Ela ri, ri bastante e o mundo se torna mais leve. Suspiro sentindo algo parecido com a última felicidade palpável. É, talvez seja felicidade, penso. Sabia ou não sabia, eu digo, do que você está falando, pergunta ela enquanto ainda gargalha, eu não sei direito, respondo, peço perdão então, perdoado, próxima pergunta, o que é um dia perfeito pra você, um que chova e esteja frio e eu possa beber bastante café com intervalos para cochilar com a pessoa que eu gosto, nós somos parecidos, ela diz, você e eu, sim, viu, vi, mas eu sou mais alto, sim, viu, vi. Veja a previsão do tempo, mas vou ter que fechar a página das perguntas, deixa pra depois, a previsão ou as perguntas, a previsão e o dia perfeito, próxima pergunta agora, manda, quando foi a última vez que você cantou para alguém? Eu cantei Frejat bêbado uma vez para a outra, faz tempo, ela pergunta com curiosidade sem parecer incomodada, faz muito tempo, respondo, ela me observa, eu sei mesmo ainda de olhos fechados, mas e você, eu cantei uma romântica do Cazuza para o outro e até gravaram um vídeo meu, jura, juro, um dia me mostra, eu não canto bem, não ligo, tudo bem, eu mostro. Agora algo pelo qual se sente grato, liberdade e você, independência. Mudaria algo na maneira como foi criado? Pediria para que meus pais me incentivassem ao hábito de ler livros. Aprendi depois de bem velho e você, pergunto, eu não mudaria, ela diz e emenda, ei, você dormiu, ela me pergunta e se aproxima para me dar um beijo na boca, ei, ela diz de novo e se debruça em mim sem roupas. Você está acordado, decreta, não tenho certeza, mas acho que sim, ela ri, seu idiota, aguenta firme, ainda faltam muitas perguntas, pergunte, que horas são, isso está no teste, não, confere no celular, duas e quarenta e sete, que horas você precisa acordar mesmo, seis e meia, posso parar, ela diz, eu sei que não pode, ela ri, eu também. Como você se sente sobre o relacionamento com sua mãe, eu primeiro, ela se antecipa, tivemos nossas brigas, não é fácil, mas hoje nos entendemos e você? Não conheci sua mãe ainda, você é um idiota, eu sou, responda, eu me sinto feliz e orgulhoso, somos bons amigos, afinal. Algo que você gosta em mim, eu gosto do som da sua risada, do jeito que você mergulha em mim quando me olha e de como você é irrefreável e pergunta inoportunamente, idiota, diz ela rindo, abraça-me e parece desistir do questionário, mas não sei. Meus olhos pesados cedem ao sono, durmo, sem sonhos, sem nem desconfiar do que é que ela gosta em mim.

Nossos dragões

Os olhos de Tristan encaravam a criatura gigantesca, mas só instantes depois pôde se permitir a acreditar no que via. Um dragão maior do que uma montanha prostrava-se diante do cavaleiro. Os olhos de Tristan marejaram, e os pelos de seu corpo inteiro se eriçaram. O seu avô, Tristan I, havia dito que em uma de suas centenas travessias pelo Oásis de Freoni, vislumbrara a beleza e o terror de um dragão. 

Você não vai acreditar, briguento, mas o bicho era maior que tudo o que você já viu. Maior do que um grifo, maior do que um sapo-rei, e maior até do que os muros da capital das luzes. Eu estava com Samir, Beltenker, Himmurd, que Amon Rá os tenha, e Grass. Só Grass e eu estamos vivos nos dias atuais, ou, pelo menos foi o que me contaram. Beltenker faleceu há 15 anos, Samir na década passada, e Himmurd ano retrasado. E não tenho notícias de Grass desde o velório de Himmurd. 

Tristan esperava pacientemente que os rodeios da história de seu avô terminassem para que ele continuasse a descrição do dragão. Seu pai lhe ensinara que os velhos, apesar de lentos na fala, sempre tinham algo sábio a ensinar, mesmo quando não pretendiam que seu ouvinte aprendesse.

Feroz, briguento. O dragão parecia feroz, mesmo dormindo. Estava descansando a cabeça dentro do pequeno lago que havia no oásis, e protegendo seu próprio corpo com a cauda. A cauda, briguento, era tão longa a ponto de conseguir protegê-lo em trezentos e sessenta graus. Só conseguiriam atacar o dragão pelo alto, mas quem seria suficientemente louco para atacar uma criatura gutural e temível? Eu não, e nem meus companheiros cavaleiros. Grass era o único mago da pequena companhia e se demonstrou ainda menos curioso do que nós. O velho abafou a vontade de rir e continuou o monólogo.

Não façam barulho. A audição de um dragão é mil vezes melhor do que a de um humano, e eles podem ouvir os pensamentos turbulentos também. Não o encarem muito. Sua pele esconde olhos que observam ao seu redor enquanto os olhos da face descansam. Não respirem muito forte perto dele. A respiração de um dragão puxa muito ar. Se ele sentir que mais alguém está puxando o ar, nós podemos estar encrencados”. É claro que nós cavaleiros seguramos a gargalhada. Sabíamos que os magos eram sábios, mas nós conhecíamos também um homem apavorado. Grass agia de uma maneira excessivamente sistemática.

O velho divagou por mais um instante parecendo rememorar com pesar o seu passado que nunca mais retornaria. De repente seus olhos faiscaram com a lembrança. 

Gigantesco! Ficamos a observá-lo por uma hora ou quatro, quem sabe dizer? Sabíamos que presenciávamos algo mágico e não ousamos nos mexer. O dragão se revirou, e sem tomar conhecimento de que era observado, ou, sem se importar com isso, sentou-se por um instante antes de voar. Sua pele era negra e reluzente, e parecia que toda a extensão de seu corpo era pesada e resistente como placas de aço. Abriu a boca em um longo bocejo, e vi dentes que seriam capazes de destruir metade de um castelo em uma mordida. Seus olhos eram púrpuros e incandescentes, e por um milésimo de segundo estiveram em nossa direção. Prendemos a respiração, paralisados, como quem aceita que a morte em uma circunstância tão singular não é tão ruim, mas também como quem sabe não ter como reagir. O dragão não nos deu importância. A nossa vida não o interessava e deve ter imaginado, com razão, que cinco coisinhas não ajudariam a saciar sua fome. Bateu suas gigantescas asas e voou. Samir foi arremessado dez metros ao longe pela lufada de ar, e nós só não tivemos o mesmo destino porque nos agarramos firmemente em árvores. Ah, briguento… Quase ninguém acredita nessa história, e ninguém se importa mais. Os que viveram para ver já não estão mais entre nós, e a nova geração só bebe e engorda. A paixão pela aventura morreu. Você acredita no seu velho?

Tristan deixou as lágrimas escorrerem por seu rosto. Na época em que escutara a história havia acreditado plenamente em seu avô, mas com o passar dos anos e o aperfeiçoamento no ofício de cavaleiro de Prontera, aprendera a distinguir os animais dos monstros e os monstros dos mitos. Um dragão não passava de… Verdade!  

Os dragões eram mesmo reais. Este que estava defronte a ele não era o mesmo que seu avô vira quase um século antes, mas era, sem sombra de dúvidas, um dragão. Grande como uma montanha, e com uma pele vermelha e incandescente que lembrava um vulcão. Tristan estava desnorteado demais para encontrar palavras para descrever o que observava.

Espero que me perdoe, velho. Cresci e passei a achar que todas as histórias infantis eram criadas para impressionar crianças. Ah! Eu estava tão errado, mas agora já não importa. Em algum lugar do outro mundo iremos nos encontrar, e falaremos sobre nossos dragões! Neste outro mundo é que decidiremos qual foi o mais majestoso e terrível! Descanse em paz, meu bom velho. – De repente Tristan estava cansado. Sentia o peso de suas quarenta e uma primaveras sobre os ombros. – O seu briguento ainda não tem filhos, e nem é um rei tão importante ou imponente quanto deveria ser. Como venceremos essa guerra, meu velho? Como mudarei o destino? – Tristan suspirou. – Não tenho as respostas que gostaria, mas saiba que o seu briguento vai até o final com isso. Pela linhagem dos reis, pela população, e por Prontera! Por nossos dragões não imaginados também…

Tristan sentou-se e ficou a observar minuciosamente a criatura. Sentia em suas entranhas que jamais teria outra oportunidade de contemplar uma lenda viva. Admirou a beleza do dragão até ser lentamente arrebatado para um sono profundo e sem sonhos. Dormiu com tranquilidade pela última vez antes da guerra que se aproximava.

Este conto é do ano de 2017 e utilizei o cenário do jogo Ragnarok como fundo para minha história. Criei-o como um exercício de escrita e acabei me afeiçoando ao texto, pois me fez lembrar de momentos distantes e irrecuperáveis que vivi com meus próprios avós.

Cigana

Um Pequeno Pirata

May 1952: Dancer Carmen Amaya performs her interpretation of a traditional Spanish gypsy dance. Original Publication: Picture Post – 5853 – Spanish Atom – pub. 1952 (Photo by Roger Wood)

A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça natural

Carlos drummond de andrade

Era a vez da quarta dançarina. Ana seria a sexta. O próximo bailado começaria concomitantemente ao silêncio da plateia, que após o ultimo, fora atingida num arroubo de assobios e palmas. Ao apagar a luz do palco, os assistentes apressavam-se da direita, carregando o cortinado e arranjando o décor pra próxima estrela, enquanto o entusiasmo dos presentes se esfarelava aos cochichos.
Os bastidores escondiam-se atrás da caixa da cena e desembocavam nas laterais do anfiteatro. Lá estavam elas, todas numa tal inocência e graciosidade, que enchiam os olhos de encanto, e ai dum curioso desapaixonado que ali adentrasse. Maquiavam-se e…

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Metáfora

     Muito bem, vou começar. Não, na verdade, nada bem aqui. Nada bem comigo. Como eu poderia falar dela e me sentir bem? Parece piada que eu tenha dito algo assim, mas vou tentar organizar as ideias na minha cabeça antes que elas pareçam mais ridículas do que em qualquer outra cabeça ou lugar. Esqueça isso também. É preciso me expor completamente e ser ridículo é só uma condição básica para o que acontecer a seguir se tornar crível, portanto, para que minhas palavras tenham a mínima credibilidade, eu vou dizê-las em voz alta diante do espelho. Prometi a metáfora, muito bem, mas não é como se eu fosse capaz de metaforizar alguém como ela. Alguém que sabe sorrir com os olhos e abrilhantar uma noite escura com apenas um vislumbre. Nela há promessas de coisas que o mundo nunca viu. Sei, sei bem o quanto isso é brega, mas o que perco que já não perdi antes? Embaralho-me em mim. Juro que meus próprios pensamentos voam em círculos contrários e se chocam e se misturam e se confundem… Eu não sei o que acontece depois. Eu sei que algumas mulheres já roubaram a minha voz quando pretendi dizer algo agradável ou suficientemente inteligente. Meus pensamentos, de repente, eram mais vagos do que uma folha de papel inteiramente em branco. O que ocorre, porém, é que com ela, as palavras nunca me fugiram. Elas bailavam na minha frente como se eu estivesse dentro de um mundo perfeito. Entende? É claro que não. Como alguém entenderia?

      Vou supor que ela nunca leia este rascunho e me certificar, ao menos, mentalmente, que ela nunca escute isso quando eu falar. Engraçado que eu a vi apenas uma vez e foi quase uma década antes, mas não era como se eu me lembrasse. Será que foi desatenção minha ou será que a vi somente em sonhos e inventei tudo isso? Quando criança vivia absorto em mim, preocupado apenas com minhas fantasias. O tempo passou, mas eu não passei. Quando mulheres assim, olhavam-me, bem, eu corava e desviava os olhos. O irônico é que me tornei hoje alguém capaz de suster o olhar de volta e coincidentemente nos reconhecemos tantos anos depois.

      Naquele dia eu já havia concluído que ela era absolutamente incrível e sua presença era calorosa e expansiva, ao que, qualquer pessoa gelada, seja por analogia ou por nascença, pode presumir e antecipar o degelo das próprias emoções. Sei que neste instante soo absolutamente imbecil, mas é impossível fazer isso e transmitir a mensagem sendo racional. Eu nunca perdi meus pensamentos na presença dela e meu coração, por incrível que pareça, torna-se cada vez mais e mais feliz conforme nos encontramos. É como se a cada novo encontro, eu pudesse captar um novo detalhe. Guardo esse romantismo infantil para os tempos em que se fizer necessário em minha velhice senil, mas, por favor, digo a mim, nunca se esqueça de nunca dizer isso a ela. Você sabe que ela merece ouvir algo que nunca disseram, mas seria como tentar acariciar um gato de rua. Os felinos são, por natureza, fugidios e ariscos. É preciso saber como manter alguém como ela por perto. Eu que sou bastante tolo e inadequado nas minhas adequações, eu me aproximo dela só quando minha mente termina de formular complexas equações. Como não afastá-la? Ainda assim não há matemática que baste, mas isso deveria me impedir de tentar? As estrelas são, por natureza, inalcançáveis, mas será que ela vai rir se eu disser que a gente precisa lutar pelo que sente? Seria vexatório tentar derrubar uma estrela com uma pedra apenas para torná-la cadente?

Desta forma garantiria meu pedido. Onde é que eu estava com a cabeça quando confessei que você era como uma metáfora aos meus sentidos?

      O carnaval te vestiu bem. Não. Você vestiu bem o carnaval. Dentre todas aquelas pessoas, você parecia ser a única especial. Certamente brilhava de um jeito diferente. Cintilava de um jeito que fazia com que meus olhos não conseguissem permanecer completamente abertos. Você era o carnaval e o carnaval só era o que era por sua causa. Isso. Isso se aproxima um pouco do que eu gostaria de falar. Você realmente estava no carnaval naquela noite de lua? Talvez eu tenha apenas imaginado, mas me recordo do que preciso. Apoteose solar no tempo-espaço do seu sorriso. Eu me senti afundar em um oceano que sequer existia. Quais mistérios será que residem em seus beijos? Quais são as chances de que sumam de mim, sem que eu os mate, esses tantos desejos? E se eu te dissesse que diante da sua presença à época, ninguém se importaria com a fuga de Helena para Troia? E se eu dissesse que heróis e vilões não notaram a mais brilhante das joias? E se eu dissesse que o mestre Oscar Wilde se engana? E se eu dissesse que ele errou quando disse que a gente sempre destrói o que mais ama? E se eu forçasse o inglês nas minhas palavras e nós brincássemos de seek and hide? E se still in english fôssemos news Bonnie & Clyde? Tudo bem, não vou exagerar, não vou falar sobre Romeu ou Julieta, mas presumo que toda lagarta que a veja voar, em seguida, deseja logo se tornar uma incrível borboleta. Seria bom poder te acompanhar no seu mundo, voar junto, ainda que só de vez em quando. Duvido que… Não sei ainda se me faço entendido. Você entenderia se eu dissesse novamente que você é como o sol? Entenderia se dissesse que você seria minha Sophie se eu fosse o mago Howl? Vou tentar, enfim, pela última vez. Eis a situação… Você percorreu atalhos até o meu coração. Sempre que eu a vejo, indago se sou eu o meu próprio algoz. Poeta que perde a rima pelo desejo; homem falante que perde a voz. Noutra noite de carnaval me cedeu brilho, pois o sol não se preocupa em se dividir. Como um trem desgovernado descarrilho toda vez que a observo sorrir. Você é mais vasta que a imensidão do céu azul. Dona de si sempre se basta: it’s all about you. Perdi a metáfora e a fala… Perdi meu rumo e tudo o que almejo. Quando a loucura sobe, a boca cala. Lamento que nunca com o gosto do seu beijo. Sei que novamente esmurro pontas de facas, mas o que posso fazer? É melhor ser ridículo e falar do que dormir sem ter dito o que pensei em dizer. L’amour est un chien du diable, mais c’est mieux être mordu! Acho que concordo com o trecho acima referido. O amor é um cão dos diabos, mas eu prefiro ser mordido. 

      Essa foi a loucura mais brega que eu já disse na minha vida.
Você me pediu a sua metáfora. Espero que não esteja arrependida.

      Novamente surto. Sussurro que amo vultos, embora saiba que são apenas sombras pálidas de coisas inexistentes. Amo, na verdade, a palidez da alma de quem não tenta ser mais do que sente. Amo ainda que meu amor seja criação de minha própria mente. É duro vagar solitário em mundo que se faz quase sempre indiferente. 

Café e chuva na Paris do meu coração

Anteontem choveu longamente na cidade qual moro. O resultado foi catastrófico. Tudo o que se vislumbrava, principalmente das ruas próximas ao extenso córrego, estava alagado. A água pode ser cruel, ainda que seja invariavelmente mais suave que o fogo. Os noticiários da televisão anunciavam prejuízos severos para a prefeitura municipal. Um homem exageradamente gordo, repleto de dobras e dono de um bigode espesso e grisalho, comunicou que o prefeito havia tomado medidas com caráter de urgência, pois sabia a necessidade de agir com rapidez. Observei o desenrolar da grande confusão e não pude deixar de rir, pois o funcionário do prefeito, instruído, simplesmente era proibido de atuar de outro jeito. Suas palavras haviam sido cuidadosamente escolhidas por terceiros. O fato era que todos estavam deixando a água rolar, o que suponho que não seja muito recomendável nos casos de enchentes. Por que deixar a água rolar quando ainda há maneiras de agir? Por que assistir estático quando pode fazer a diferença e interferir? A chuva continua hoje, mas os amantes das tempestades logo se decepcionarão. Eles ainda não sabem que no dia seguinte o sol enxotará as nuvens e brilhará esplêndido como no ápice do verão. O céu parece zangado e carregado, mas eu me tranco no porão. Não vai chover, exceto nas cidades repletas de excentricidades tão ricamente adornadas em meu coração.

Acordei em minha cama no começo da tarde de ontem. Tive dois sonhos sexuais e suponho que tenha os sonhado por não ter feito sexo recentemente. O primeiro sexo soou adequado e o segundo foi excelente, mas as companheiras agora esquecidas, eram, de alguma forma indizível, apenas estranhas que não deveriam estar onde estavam. Ainda assim gostaria de lembrar dos rostos assim como jurei me recordar de seus gostos, antes que o paladar se perdesse no mundo de fora. Sonhos lúcidos de melhores horas!

Levantei-me e tentei adivinhar o dia sem sair da escuridão. Claridade exagerada, pensei. O sol ardia forte fora da casa, mas ainda chovia dentro de mim. Olhe… Veja, eu jurava que tinha fechado todas as janelas, mas a sala está molhada. Eu tive a impressão errada de que ontem era um daqueles dias quais suamos ainda que estejamos parados. Será que a confusão se deu por ter me afogado? Agradeci quando o vento gelado invadiu a casa, mas resmunguei em desconforto por pisar com os pés quentes no chão frio. O choque é o que nos desperta e mantém alerta. Sigo a vida com boas e novas lembranças, mas é estranho me lembrar de tudo o que houve. Há arrependimentos, porém, eu sinto realmente tudo o que fiz. Estremeço. Será que imaginei aquelas ruas antigas? Será que aquelas paisagens espetaculares foram inventadas ou jazem esquecidas? Será que modelo a minha raiva, meu desespero, meu medo e saboto o meu jeito de ser feliz? Será que há alguém verdadeiramente lúcido que saiba o que diz? A luz solar esquenta tudo lá fora. Desafio-a sendo a invernia. Abro os olhos e observo o giro de alguns discos de vinis. Ainda estou escorado em um balcão aguardando o meu macchiato depois de ter tomado dois cafés italianos em uma tarde chuvosa em Paris. Neva lá fora e a neve é mais real do que o passado, o presente e o futuro. Apostarão sobre a minha permanência mesmo com a minha humilhação.

Enfim, o novo dia, tão inevitável quanto singular. O frio retornou. É melhor aproveitá-lo. Tudo se parece e nada se repete. É melhor aproveitá-lo. Vi em uma rua aqui perto de casa mendigos embriagados lutando pela guarda de um cachorro, mas não estou falando sobre batalhas em tribunais. Eles gritavam furiosamente. Dedos em riste, testas enrugadas, cuspideiras embutidas nas falas. Saio de perto, mas não sem antes sentir pena do cachorro. É melhor sentir algo.

Faz um frio do caralho, mas eles não se importam. O clima é apenas uma minúscula rusga no meio de um mundo impreciso de detalhes sórdidos. Desço a escadaria após ter visitado a basílica de Sacré Coeur. Os vendedores idiotas chegam empurrando chaveiros e pedindo dez euros, mas empurro suas mãos com a mesma agressividade com que eles me empurram quinquilharias. Fitam-me com raiva e me xingam em francês. Eu bem que gostaria de saber como xingá-los em francês, mas só teço elogios em meu próprio idioma sobre as mães deles. Caminho sem parar e passeio pela Champs-Élysées, mas como estou ali sem estar ali, ela não me parece muito diferente da rua dos ricos que visitei em São Paulo. O desinteresse me choca. A minha sonolência em mim me assusta. As mulheres da cidade das luzes são bonitas, mas nesta visita não captam minha atenção. Volto para o hostel diretamente para o meu quarto. Agora novamente estou fora dos lugares que me trazem incômodo. Ausento-me e volto em um ou dez anos. Vou ao nordeste do Brasil, antes de seguir para os Estados Unidos. De lá sigo (de volta) para a Europa e não consigo pegar um avião para o Japão.

Sinto uma raiva crescente no meu peito. Está ainda longe de mim este país que eu tanto aproveitaria. Lembro-me de que meu pai prometeu as passagens da lua de mel para o Japão, mas não há companheira e pela primeira vez não me deixo levar pelo desespero. Tudo bem, eu não tenho mais medo. Dane-se a lua e o mel. A minha prolongada ausência seguiu e não houve quem me procurasse. Puerilmente achei que estampariam meu rosto no jornal, mas o mundo seguiu exatamente igual. Neste momento tive a minha epifania e finalmente entendi. Eu quero mais é que os oportunistas e pessimistas e intrometidos se fodam. Sigam suas vidas. Como ainda é gratuito, por favor, não encham o meu saco. Peço ainda para que não tentem me alcançar, pois saí para jantar. Finalizo minha refeição sozinho e saio a esmo na cidade das luzes. Nas ruas certas sempre há iluminação. Ouço as batidas do meu coração. Ninguém nota este homem. Ninguém nota a camiseta com a grande ilustração de um demônio de fogo chamdo Cálcifer. Acreditam que a minha tatuagem solar é um símbolo maia da fertilidade. Não sei o que faço comigo, mas queria sacudi-los (às vezes). A conclusão é que a liberdade não traz necessariamente a felicidade, ainda que me permita fazer o que sempre quis. Fechei meu guarda-chuva e adentrei outra cafeteria numa noite nublada em Paris. Sentei-me solitário e esperei a minha bebida quente. Um gole de café é o que preciso para seguir em frente. Esqueci-me de como me apaixonar, mas fito a elegante porta de madeira com a ansiedade de um menino. Quem sabe aqui ou num bar lotado, na (no) Paraíba ou em Volgogrado, no trânsito fodido ou num flerte mal flertado, entre, enfim, alguém que mude o meu destino?

O problema é que a maioria sabe o que procura. Sou vasto, mas não tenho tantas posses. Confesso hoje não segurar muito em minhas mãos. Se você quiser correr o risco e entrar, prometo que a única coisa que não vai faltar são as xícaras de cafés quentes nos dias de chuva, sejam eles de riso ou de tensão. Talvez você escolha ficar, pois é confortável este lar qual chamei de Paris do meu coração. As noites são excessivamente longas. Os sonhos são desnecessariamente interrompidos quando o corpo termina de descansar. É difícil, mas é assim que as coisas são. Até que mude as gotas d’água e a cafeína são minhas únicas companheiras neste antro de solidão.