O meu silêncio não te pertence

     O meu silêncio não te pertence. É engraçado que, às vezes, mesmo o constante correr das horas não é suficiente para findar ilusões. Fantasmas do passado surgem exigindo espólios de aventuras que já não lhes pertencem. Os amores se acabaram antes da metade do último inverno. Quem foi que disse que o amor pode acabar? Eu não sei, Kim, mas eles acabam e disso tenho certeza. Vaguei por um bom tempo com a minha excelente companhia. Caminhei lado a lado comigo e me conheci como poucos ousam se conhecer. É mais fácil fazer diferente, você nota, certo? A dissimulação é o caminho mais fácil para se apoiar em coisas inexistentes para criar pretextos reais. Só quem admite o medo possui a chance de prevalecer em coragem. Na infância chorei até que minhas lágrimas secassem, eu cheguei a contar? Absorto no meu próprio mundo, eu me sentia amedrontado por tudo o que era alheio. Os meus heróis da televisão eram chamados de falsos pelo povo adulto, mas àquela época já havia desenvolvido o bom hábito de confiar nos meus instintos. Um dia a coragem passou pela tela e hoje a carrego no braço como lembrete para não ser covarde. Sinto medo e amedrontado sigo na direção das coisas que me apavoram. Há dias que brilho como o sol, mas em regra sou como uma esponja que absorve a sujeira dos outros. Aos domingos preciso dar um jeito de espremer toda essa podridão para longe. Posso cair, mas não ficar deitado.

     O meu silêncio não te pertence e é meio estranho que você não saiba. Não sei como isso ainda te surpreende, mas a tela e a moldura não se encaixam. Talvez eu seja pequeno para sua nova versão ou você que seja reduzida para o meu tamanho. Talvez nem uma coisa e nem outra, mas apenas estranhos. Agora somos como obras de arte abstratas e absolutamente diferentes. Nunca mais compartilharemos museus e agora os meus sonhos são apenas meus. Digo isso, embora saiba, os meus objetivos sempre estiveram apenas comigo desde o princípio. A vida muda, vê? Um novo encontro ocorre e o que decorre dali é impossível de prever. Um beijo bom ou ruim, uma surpresa de uma primeira noite sem fim, primeiro encontro que foi chamado de quarto, uma derrota na sinuca, uma massagem na nuca ou qualquer coisa que valha. O trabalho espera no início da próxima manhã. Sei o que faço e conheço minhas tão certeiras razões. Não sou mais um tolo menino avulso e perdido no desértico reino dos corações. Eu tenho ousado mergulhar em oceanos profundos em busca das coisas quais tenho procurado. Vai julgar os meus caminhos e dizer que o que tenho feito é errado?

     O dia de ontem foi menos emocionante do que será o dia de amanhã. Posso querer apenas o que quero querer? Não. Resolvi o que tinha que resolver. Li e consertei detalhes. Tive que ir até o Banco do Brasil e depois até a Caixa Econômica. Paguei uma conta e cheguei em casa antes do anoitecer. Era a hora certa para algo, mas não soube dizer. Cuidei um pouco da bagunça externa, mas ainda havia coisas que me preocupavam por dentro. Não sei se sei como resolver, mas sabia exatamente do que eu precisava. Uma boa conversa e a dose adequada de quietude. O meu silêncio não te pertence e é bastante improvável que isso mude. Quem é que alimenta essa mania idiota de se distanciar e mudar e não estar disposto e nem disponível e ainda acreditar de verdade que tudo pode e deve se manter exatamente como foi? Impossível. O ontem é material fundamental de memória, mas é apenas fragmento de história. Os atentos bem sabem que os dias jamais se repetem, embora possam parecer ligeiramente iguais. O cachorro ronca e eu também sou tomado pelo sono. A gata corre pela casa protegendo o lar daquilo que não se pode ver. Os meus pequenos silêncios se fundem e formam uma amálgama. É uma espécie de silêncio perfeito qual não pode ser quebrado. Se houvesse música talvez existisse um otimismo certeiro. O que sobra para quem insiste em ser verdadeiro? A mesma coisa para quem insiste em ser falso. Nossas convicções e oscilações vivem em perseguições, sombras eternas em nossos encalços. Você pode lidar com os resultados das suas escolhas?

     A madrugada de amanhã será tão sufocante quanto esta. Insone resolvo arriscar palavras neste blog e não sei direito se sei o que quero dizer, mas talvez eu só deseje reafirmar que o meu silêncio é exclusivamente meu e se antes pensava diferente, eu quero dizer que o meu silêncio e tampouco o meu barulho não são mais seus. Os amores morreram há meses! Você não viu quantas vezes os reveses apareceram tão de perto? E ninguém se reveza para reservar um tempo com a sua tristeza. Dane-se. Oscar Wilde estava absolutamente certo? A gente sempre destrói aquilo que mais ama? Dia mais ou menos, 2020, em dezembro ou mesmo nessa semana. E aí a gente se retorce no que já se findou e chama de amor, pois somos assim deprimentes. A oportunidade veio e passou e você aí se fazendo de estrela de cinema. Veja, bem, honestamente nada disso importa mais. O que quer que aconteça simplesmente deve acontecer. Dispenso tudo com um dar de ombros e me reergo da pilha metafórica de escombros para novas etapas. Não vou mais alimentar esse monstro que me mata. Senti pelo tempo que foi necessário até não sentir mais. Agora tanto faz. Vou para a próxima fase. Algumas coisas já fugiram do controle e outras ainda fugirão. Farei o meu melhor agora e com todo o coração. Nos próximos dias não irei me preocupar constantemente em vencer ou perder. A decisão tomada chega sempre em boa hora, há outras pessoas no mundo lá fora… O meu silêncio e barulho me pertencem. Hoje eu escolho viver.      

O que acontece a seguir

     Quero um gole de álcool, por favor, digo, tentando manter a dignidade no tom de voz. A mentira ganha vida com o copo cheio de cerveja e nem tenho tempo para confessar que só desejava mesmo uma xícara de café. Sou um bom mentiroso, embora tenha o péssimo hábito de dizer a verdade. Qualquer um verdadeiro o bastante percebe a vulnerabilidade que se coloca por ser sincero. Agora você me desagrada e é o bastante. Este é o ponto de não retorno, , eu digo, se deseja tanto assim ir. Não é preciso sentir asco da humanidade e nem pena dos que sofrem. É o balanço natural. Aos tristes, paciência, pois a felicidade ainda rondará teus dias. Aos felizes, percepção. A felicidade é fugaz, pois é justamente por isso que se faz mister aproveitá-la. Ser feliz desconhecendo a noção da própria alegria fará com que procure o que já está vivendo. Faço parte dos descuidados lúgubres neste instante. Vejo placas sinalizando para que eu tenha cuidado. Ignoro-as. Sei que vou me ferir. Ignoro-me. Abro minimamente o que minha mente eloquente esteve revirando sem qualquer cuidado.      

      É irônico o quanto se desconhece o conhecido. Memoriza-se todas as falhas e manias; risos e costumes; a aversão por poesia e até os ritos de ciúme. Chega-se então, veja bem, em um ponto estranho e sólido. Naturalmente, você remói uma frase: “eu sei o que acontece a seguir”. Era divertido fazer adivinhas sobre relacionamentos fugazes ou motivações, quando não era o seu próprio em questão. Por brincar tanto, você realmente pressupõe que sabe o que acontece agora. Em regra, aceita a consequência do fato, ainda que este seja desagradável e degradante. Permanece, pois diz a si mesmo que é a última vez, mas seu corpo estremece e você toma nota da repulsa. A mentira ingênua não pode ser aceita, por tal qual é expulsa. No fundo você sabe muito bem que nada vai mudar. Mas você é cabeça dura e insiste em insistir. Vai até além do seu limite, mas qual a razão? Ego? Amor? Medo? Você segue pela voz que fala enquanto você cala seus mais obscuros segredos?    

Um dia, não diferente de qualquer outro, durante a primavera ou mesmo no verão, você saberá o que acontece em seguida. É uma manhã nublada e fria após uma noite de chuva violenta. Eis que uma gelidez inesperada te ataca e te acomete. Penetra-lhe os ossos e faz morada, como se fosse parte do seu sangue. Você não se esquece. Trouxeram-lhe um roteiro novo e previram suas possíveis reações, pois também te conhecem. O jogo não é jogado exclusivamente por você. Eles sabiam o que aconteceria a seguir. Supuseram que a minha resposta seria “Implore meu amor, pois então fique, por favor”, mas é um lamento tardio após uma agressão direta. O costumeiro já está distante e nem somos capazes de nos ofender de forma reta, como fazíamos antes. Não agirei como um pedante, prometo, nem por um instante. Isso está em minhas novas metas.     

      Eis que me descubro noutra manhã de outubro. Os meses silenciaram vozes quais eram tão agradáveis. Os ventos afastaram preguiçosos sorrisos afáveis. Vejo-me e internamente noto que a minha algidez compete com o Alasca. Aguento tinta, digo. Aguento tinta, resmungo. Aguento tinta, desafio. Aguento tinta, seu filho da puta, desabafo. Estou mais maduro, mas às vezes me faço surdo às centenas de intrometidos que querem opinar, pois refuto suas opiniões. Amanhã ainda não sei, mas me basto hoje. Não quero ser sensato, pois tenho sido assim a minha vida inteira, vê? Então se recolha com teus míseros fatos. Tua reclamação cabe numa algibeira. As nuvens mudaram de lugar. Também as manias, os hábitos, exceto teu jeito de se fazer fortaleza. Há agora um desejo constante de atingir o cume, mesmo ao longe vejo sua inenarrável beleza, mas há ausência do seu característico lume. Está vestida toda em resquícios de tristeza. O que se pode fazer?

      A culpa foi toda minha. Não. A culpa foi toda sua. Toda. Outra mentira. Talvez a culpa tenha sido toda nossa. Eu faria os cafés pelas manhãs, mas e daí? Não há príncipes heróis e nem princesas heroínas. Somos todos força fraca? Eu fiz os cafés, mas isso não me exime. Isso não me exalta. De quem é a culpa, afinal? É possível identificar o transgressor? Quem poderia dizer quem fez o disparo que matou o amor? Eu não sou capaz de dar nome ao vilão. Nunca fui bom em elegê-los, ainda que meus punhos se ergam até hoje para enfrentá-los. O que é que se conclui nessa história? Nada. Há tanta gente que está com o futuro no passado. Isso é mais melancólico do que deprimente. Rio com gosto diante do que meus pensamentos encerram. A vida é em frente. Tomado pelo sono, enfim, vejo. É tão óbvio tudo o que não vem a seguir. Sorrio. Quase não acontece, mas eu adoro errar minhas previsões.

O Lanterneiro

Sucede que o rapaz tinha cidade de origem e tinha enorme orgulho dela, porém, a emoção transbordava de seus olhos negros como a noite. Sua pele era amorenada e seus cabelos compridos. Na cabeça um boné velho que outrora deveria ter sido laranja, mas agora parecia bege, o acessório marcado pelo desgaste do uso assim como a insistência do sol marca a pele. O rapaz, como você pode imaginar, também tinha nome, mas gostava mesmo é de ser conhecido pelo ofício! Sou lanterneiro, dizia ele, de onde venho sou o melhor no que faço. Como tu chama o lanterneiro pros teus lados? Bate-chapa? Funileiro? Lanterninha? Consertador? Conserteiro? Faz tudo? Bicador?

Ligeiramente sem graça, o sujeito de camiseta preta pediu para que o adolescente com trejeitos de homem feito explicasse sobre a sua função e se calou sobre o ofício do lanterninha. Não queria confundir o jovem falando sobre cinemas. O lanterneiro inflou de orgulho antes de contar. Fabrico lanternas, meu senhor, e lá dizem que sou o rei das lanternas. Também conserto e troco os faróis dos carros. É o que faço pra viver. O patrão diz que tenho sorte de trabalhar com ele, eu também acho, que nem todo mundo paga R$ 600,00 prum menino, mas que ele que é bom e reconhece meu trabalho, paga o que eu valho. Costumo de ficar de 7 até 13 horas por dia lá na empresa do patrão, mas não têm problema. O patrão é quase um pai pra eu. O pai, por outro lado, sumiu no mundo quando eu era criança e a mãe não parece que gosta muito de mim. Diz que desde que eu nasci ela ficou feia. Será que a gente pode ter culpa na feiura do outro, meu senhor? Falo da feiura que mora pra dentro e da feiura que a gente acaba de notar no espelho quando têm uma pereba na cara ou o cabelo não fica do jeito que a gente gosta. O lanterneiro respirou e pareceu suavemente distante, a tristeza marcando suas olheiras arroxeadas, a reflexão tão profunda aparentemente não compatível com um rapaz tão novo e tão simples. Pago a conta da casa e trabalho. Fiz escolinha até os catorze anos e é por isso que sou um tanto esperto. Dá pra ver que eu era o melhor da turma? Sei somar e diminuir. Sei até multiplicar o básico. Pareço esperto, meu senhor?

Então, lanterneiro, eu pude mesmo notar que você é um rapaz esperto, mas isso não explica você ao meu lado aqui neste avião. O moço sorriu e foi tomado por um certo constrangimento. O homem com roupas simples tinha o cuidado de desviar os olhos do garoto lanterneiro, que às vezes parecia revolver para dentro, como quem respirava em si para se permitir continuar. Nessa vida a gente num quer saber só de ser o melhor em lanternagem, não é, meu senhor? Visivelmente embaraçado pelo pronome de tratamento, o ouvinte finalmente interferiu. O meu nome é Roberto, meu caro lanterneiro. Ainda que eu possa continuar te chamando como preferires, eu insisto que me diga o seu nome. O lanterneiro pareceu alegre e surpreso, um sorriso jovial e amarelado brotou repentinamente, mas logo se recompôs em sua postura resguardada e tímida. O sorriso morreu, mas a lucidez do rapaz era digna de espanto. Pois eu sou Amaro José Gonçalves Rosa, sen… É. Seu Roberto. O lanterneiro estava encabulado, ainda assim, ofereceu a mão para um cumprimento e Roberto a apertou com energia. Agora continue sua história, rapaz.

É que até o mais simples dos homens sonha com uma moça pra se ajuntar, né? Ninguém quer ser sozinho e qualquer bobão sabe que a solidão dói. É aí que mora o meu coração, Seu Roberto. Eu conheci minha namorada faz quatro anos, mas nunca vi ela de perto. Roberto pareceu visivelmente incomodado e já pensou nas inúmeras hipóteses de golpe que o pobre lanterneiro poderia ter caído, mas o jovem riu com tanto gosto que ele relaxou. Fica calmo, senhor Roberto. Roberto. A gente já se viu por câmera, entende? Essas coisas da internet. A gente se conheceu no Face e fala sempre. Já fiz aquelas chamadas de vídeo com a mãe dela também. A gente até jogava um joguinho junto. Ela é de verdade, afirmou como quem já estava acostumado a explicar a situação constrangedora. Então você está indo se encontrar com sua namorada? O rapaz sorriu largamente. Sim, eu até tô atrasado, mas dessa vez vai dar certo. O pai dela tá precisando de um lanterneiro. Ela diz que não aguenta mais de saudade e que precisa de mim e que quer se ajuntar logo. Eu também quero ela sabe. Ela é diferente, sabe, muita gente não sabe, eu mesmo não sei se sei, mas ela me acalma. Às vezes a vida é corrida por demais e é bom ligar a câmera e ver ela. Até posso ficar de vergonha quando encontrar com ela porque sou inexperiente na vida, mas quero ver ela, senhor. Quero dar um abraço apertado nela e um beijo, disse e corou como se a revelação do beijo fosse incriminadora.

Roberto decidiu que era melhor não perguntar sobre como ele havia conhecido sua paixão, mas não pôde segurar sua curiosidade. Já deu errado antes? O lanterneiro sentiu a alegria minguar, porém, não pareceu abalado. Era extremamente esperançoso, apesar do nervosismo, no que o futuro lhe reservava após o voo. Primeira vez que eu comprei passagem, eu comprei errado. O homem do cyber falou que eu comprei num site falso. Gastei todas minhas economias, R$ 1.500,00, mas era um site falso. Aí tive que juntar o dinheiro de novo. Levou meses. Aí não fui apressado duas vezes e tô aqui. Roberto sorriu e tocou no ombro do rapaz. Aqui está você. Cruzando o país por amor. O sorriso singelo do lanterneiro fez Roberto continuar. Vai dar tudo certo, rapaz. Você decerto desconfia que por aí vão te chamar de louco, mas eu admiro sua coragem. O lanterneiro, apesar de esperto, não pareceu entender o comentário. Como assim? Roberto explicou: acho que isso que você está fazendo é muito bonito. Realmente bonito. E quem revolveu para dentro pensando na própria vida foi o doutor Roberto.

Se o que faço é bonito, não sei mesmo, seu Roberto, mas é que a gente se apetece de fazer o que gosta e precisa de fazer, né? E bonita mesmo é ela, seu Roberto. Minhas mãos tão suando, ocê tá vendo, mas é tudo junto. Sair de Sergipe e ir pra cidade grande, voar de avião, medo de não chegar lá. Roberto suspirou e se viu novamente na necessidade de encorajar o rapaz. Havia algo no lanterneiro que o fazia lembrar dele mesmo, exceto pelo fato de que nunca havia sido tão corajoso assim. Roberto se lembrou dos tempos em que tinha fobia em falar com outras pessoas, mas um amigo seu sempre lhe dizia: tudo o que conscientemente negar aos outros, é punição ou bênção para você mesmo. Quando alguém entra em um avião, cheio de medo, preocupado com a vida ou com a morte e precisa apenas ouvir a voz de um desconhecido para ficar bem, não é dever moral do ouvinte ser também falante? Vou chegar em Guarulhos junto com você, senhor José, o lanterneiro. Eu preciso correr para o avião que me leva até minha cidade, mas posso te guiar até o caminho. Você vai chegar no seu destino. Vai encontrar sua namorada. Vai poder ser lanterneiro outra vez.

O lanterneiro sempre falava sem pensar, mas desta vez guardou o pensamento. Sabia que era lanterneiro mesmo sem a lanternagem, como o jardineiro é jardineiro mesmo sem o jardim. Ele vai continuar olhando para as flores e plantas, vai continuar pensando em cuidar, continuar tendo o cuidado necessário para o que precisa de cuidado. Sentia-se bobo, mas pensava em consertar coisas antes de dormir. O restante do voo foi curto e José reconheceu a sorte de ter Roberto sentado ao lado. O homem o ouviu durante todo o percurso e ainda o encorajou. Era tão bom ver alguém diferente dele próprio e das pessoas de sua terra que ele se sentia aliviado. Ninguém sabia como seria a seguir, pois nem Deus e nem o Diabo ensinavam sobre como tudo é diferente quando a gente sai de perto de algo que é tão confortável. Cá que mereço uma vida melhor pra mim, seu Roberto. É por isso que saí de lá.

José se despediu de Roberto com outro aperto de mão. Este voltaria a pensar no lanterneiro inúmeras vezes, mas o primeiro só se lembraria da fala tranquila do homem no avião, esquecendo-se pouco depois de seu nome. O lanterneiro desceu do avião e foi guiado por uma atendente da companhia aérea até o próximo avião. Ainda tinha que pegar um trem e depois um ônibus na rodoviária, mas estava cada vez mais encorajado. Sentia como se a felicidade fosse a única consequência de tamanho risco. Meu povo não se esconde e nem eu. E é que eu amo ela e o jeito toda que ela é comigo. Se deixei minha terra é pra ser feliz. Se lá na minha cidade fosse feliz acho que não existia motivo pra sair, né, disse em uma conversa com ele mesmo. O antigo patrão dizia que falar sozinho fazia bem para a mente e o lanterneiro confiava completamente no patrão. O homem fazia tão bem pra ele, um mero menino trabalhador, que deu uma barra de chocolate grande e um abraço rápido antes do lanterneiro se despedir. Vai ser difícil achar alguém tão competente e com o custo benefício tão bom quanto o seu, meu guri. Boa sorte. Se tudo der errado lá pra sua nova vida, eu te recontrato por metade do salário. José acreditou que era muita bondade do patrão e agradeceu, totalmente enrubescido.

Sucede que o rapaz chegou até a cidade que queria e encontrou a namorada que nunca havia namorado até então. Cortou o cabelo e trocou o boné bege por um chapéu de caubói. O rapaz ainda chamava José, que nessa vida ninguém muda de verdade o nome que recebe, mas não havia Diabo ou Deus que o persuadia do contrário: ainda preferia ser conhecido como um lanterneiro ou até como O Lanterneiro.

Sobre o futuro e o destino dele, não é incumbência do narrador revelar, assim, suponho que cada leitor conclua o que bem entender sobre a pureza e a ingenuidade do rapaz. Certamente há quem creia que o lanterneiro José se deu mal na vida, entretanto, outros vão escolher acreditar que ele foi o lanterneiro mais famoso da nova cidade e viveu uma vida boa e simples até seus últimos dias. Quem saberá dizer se ele teve filhos? Quem algum dia saberá se viveu feliz ou triste? Só uma coisa era certa sobre aquele adolescente que se formava cada vez mais homem e que um dia virou homem tão seguro de si que ninguém sequer imaginava que um dia ele havia sido adolescente. Ele nunca se arrependia e sempre tinha a coragem de seguir os desejos do seu coração. Resolvi que era necessário relatar resumidamente a história de um rapaz que entendia tudo sobre luz e que jamais teve medo da escuridão.

Meio, começo ou fim

Que se resuma o ano em resumos inúteis de que nada valem aos outros! É tempo de falar sozinho, sim, ainda que digam que não há benefícios nos monólogos, eu sei que dirão isso e sei ainda que eles estão errados.

Inúmeras vezes fui acometido por uma espécie de tristeza deforme, maliciosa, que se aproximava de um jeito suspeito, espreitando o meu espírito. Nunca soube dizer de onde vinha meu reflexo melancólico, mas talvez fosse o costume errado de se acostumar com menos do que a gente merece por pensar também que merece pouco. Quem é cônscio do próprio valor e lúcido sobre a própria vida nota com clareza que é preciso se afastar de algumas pessoas e que talvez novidades sejam a necessidade urgente do coração.

Essa tristeza tão idealizada chegava a ser fática. Eu a pintava em um quadro enorme qual chamava de Motivos. Eu amplificava meus contratempos, transformava vislumbres de dores em fantasmas realmente assustadores, até o dia que cansei de inventar mais medos e decidi ter coragem para enfrentar o desconhecido. Os amigos mais próximos deste ano não sabem o quanto foi difícil antes deles, mas eu cresci muito.

Perdido de tudo o que era Vida e despropositado de toda razão que tracei para a minha própria consciência, eu resolvi que seria completamente eu. Sem atuações ou personagens, sem medo das faltas e dos excessos, sem a preocupação de ser bem visto ou quisto por quem quer que me cercasse. Era a hora, enfim, de ser por mim.

O processo não foi fácil. Em todos os novos começos eu sofri. Parece exagero, mas é assim que eu me sentia. Alguns notavam a dor que me tornava charmoso, excessivamente denso para o ambiente. A maioria me deixava para lá, mas uma ou outra pessoa se demorava em mim, como quem quer saber o que faz um homem ser assim tão soturno. Eu nunca falhava em ser educado, mas definitivamente faltava leveza. Assim, nos começos dos começos eu sempre me embriagava. Tocavam o meu braço e o meu embaraço era perceptível. Calava pelo medo de dizer o indizível. Respirava a vida entre intervalos, sentindo o meu cansaço, eu demorei a entender que todo mundo é potencialmente incrível.

Errei por aí. Não havia motivos para ser tão racional ou apegado, mas eu continuava sendo. Li tantos livros e pessoas que conheci um jeito de aprendê-las. Eu sempre tive real interesse no que me diziam, pois quem é que fala sem desejar ser escutado? Eu, ainda que fosse em cada situação pura essência, falhava em ser compreendido. Não me alcançavam no meu raro sono e nem me paravam antes que eu já estivesse em outro ponto. Quis, vez ou outra, que os pontos fossem finais e eu pudesse me fazer pausas para descansos, mas ninguém sabia como me ler. A minha prolixidade de ser e de sentir só pedia um pouco de calmaria, mas o meu desespero era uma composição que ninguém sabia. Andarilho vagando pelas ruas sem esperança, eu percebia que não havia quem me alcançasse. Sussurrava para que me segurassem firme, pois eu começaria a correr. Não corria para deixar algo para trás, mas desejava arduamente que alguém pudesse sincronizar com o meu ritmo.

A canção era estranha demais. Minhas certezas anteontem eram tão fictícias quanto meus romances escritos. A música do meu coração, o diário bem relatado dos meus dias, o ímpeto escuro que me faz querer adormecer em pleno dia, tudo isso agora é ineficaz comigo. Levantei-me luz solar, abrilhantando o que havia ao redor e por automatismo outros brilharam ao me perceber. Eu não era metade de mim quando encontrei os meus novos amigos. Havia sozinho colado meus pedaços e me encontrado com o meu Eu verdadeiro. Qual é a diferença?

A cronologia do relato pouco importa, mas a tônica da vida que tanto corria era que eu não abria ou fechava portas. Até que fechei. Encerrei o poder que outras pessoas tinham sobre mim, pois notei que merecia me merecer melhor do que aceitava me ver. A vida é curta, relógios nunca param e a gente deve de aprender a viver. Não é preciso ser matemático para saber que o tempo é curto. A vida é curta, relógios nunca param e precisamos viver, crescer e escolher.

Demasiadamente humano para ser exato. Pontualmente exato para ser humano. O que fazia que eu tivesse vontade de ser quem eu sou? Aceitei tudo o que havia acontecido na minha vida. Perdoei quase tudo, menos a covardia propositada e direcionada. Chega o tempo em que a injustiça perde a relevância. Se me perdoaram pelos meus erros, eu não sei, mas fiz o melhor que pude me desculpando com sinceridade. É impossível ser grande sem humildade e qualquer um que faça confusão é realmente estúpido.

Quando o sol da minha pessoa anuncia o lusco-fusco, a promessa da escuridão que chega com a noite afugenta todos. Não há mais ninguém na multidão. Queria chamá-los de covardes, mas não sinto que é certo. Viver é uma jornada solitária no deserto?

Deixei minha ausência crescer quando algumas distâncias facultativas se tornaram obrigatórias. Pessoas são substituídas de vez em quando e o pretexto é o velho mecanismo da inevitabilidade das ações. Contradições são vistas e sentidas. Até onde você é fiel ao que acredita? Você finge que vive o que sente ou realmente se dedica?

Nas vésperas da conclusão do ano, eu me sinto velho com o quanto vivi e aprendi. Dorian Gray e Lorde Henry estavam errados, pois há outras maneiras de aprender que não a experiência, embora a experiência seja indubitavelmente o melhor dos caminhos. Aprendi principalmente sobre pessoas e sobre o que elas podem fazer. Não deixei que a amargura alheia me tirasse a doçura. Não deixei que a crueldade me fizesse mau. Ainda assim, eu endureci. Quando me vi cercado e tomado por incertezas, não sabia se meu corpo aguentaria as pancadas seguintes, mas me prostrei como o líder da minha vida e a linha de frente no campo de batalha. Aguardei pela derrota.

A surpresa, porém, é que sem armaduras eu era realmente mais leve. Pude lutar minhas lutas, mas pude fazer incontáveis outras coisas. Sorri mais. Por onde quer que eu fosse, eu tinha a liberdade nos meus movimentos. Conheci pelo menos quinze pessoas que quero que permaneçam por perto. Fiz pelo menos cinco excelentes amigos e em três deles confio minha vida.

Quando perdi o sentido em sentir, eu me vi melhor. Corri por aí, gritei, beijei, abracei, chorei e me vi livre de todo perigo. Quem estava por perto sempre queria andar comigo. Que maravilha é compartilhar a estrada com gente que gosta de você. Eu me perdi no começo, encontrei-me no meio, e o fim é histórias para décadas futuras, mas tudo bem se eu me perder. Nunca estabeleci nas metas da minha vida o sonho de ter tantas pessoas com as quais pudesse contar e aqui estão elas. Se eu soubesse o quanto minha vida melhoraria, eu talvez pudesse ter sonhado isso pra mim.

Instinto crepuscular que me domina e cresce. Um dia a gente recebe o que merece? Se a vida é pra valer, por que a gente se porta como se fosse um teste?

Não há complementos ou cerejas do bolo, mas há quem saiba viver bem. Quando se sobe a escada para lugares novos pela primeira vez, você nunca sabe o que vai achar, mas ainda que imagine a obviedade que está por surgir, é certo de que também falhará no perfeccionismo da descrição da coisa real. O que acontece é sempre mais significativo. Qual é o tamanho do medo que você sente de deixar novidades nascerem?

Perto do fim do que nunca vai terminar, eu me perco entre meios e inícios. Vejo pouco do que não importa e me sinto preparado para escrever novas histórias. Atenho-me aos fatos. Sigo no meu bloqueio criativo, mas por este ano sou absurdamente grato.

Exatas

Porque você sempre pensava que sabia o que eu pensava, mas não é como se algum dia tivesse passado perto.

Eu, por outro lado, acreditava também que entendia como você se sentia, bom, pelo menos enquanto ainda sentia, até que deixou de sentir.

Olha, você enumerou os tantos problemas e os transformou em matemática simples, mas cruzou os braços quando me disse, não, eu não entendo a matemática e não sei fazer contas.

Quem discute com a racionalidade? Agi como um idiota, pois tentei te ensinar equações quando você não queria se debruçar em soluções lógicas e dizia, não, não adianta, eu já disse que não sei fazer contas. Não tenho respostas.

Quando minha ausência cresceu, ora, por necessidade de crescer quando a distância passou a ser obrigatória e não eventual, você me substituiu.

Antes pensava que ser trocado assim era o mais triste dos fardos, porém, hoje vejo que você nem sabe o que usa para colar o buraco que deixei. Não, não me perdi, mas confesso, usei muitas coisas e certamente não me orgulho da maioria delas.

Ainda assim a dor que realmente doeu foi a de ver seus braços não cruzados. Você, sempre tão péssima em matemática, enfim, raciocinou de maneira absolutamente lógica no pretexto para matar sua carência e solidão.

Pendurou-se em algo ou na ideia de algo, para que não fosse obrigada a crescer de uma vez só. Fez o que disse que não faria, mas e daí? Funcionou. Os fins justificam os meios.

Não, não foi isso que eu fiz, sim, eu estava carente, não, não foi por carência, sim, é, não, é que talvez você não entenda, cada um de um jeito, eu sei. Você sempre enrola, não, eu não queria que você fosse tão enrolado, sim, quis dizer não, mas nem tanto, eu não queria mudar o seu jeito.

Sinto que envelheci, mas, sim, por aqui continuo bem. Não admito mais, não, você sempre me preteriu. Meus animais não são da sua conta e nem a minha família. Você pode deixar o fingimento para depois, sim, exatamente como fazia comigo.

Esqueceu que sou melhor para identificar mentiras do que para contá-las? Assim, admito, você me tirou do sério duas vezes com relatos falsos. Na primeira chorei. Na segunda gargalhei.

As discussões com os amigos continuam, não, nem todas vão terminar bem. Os problemas no trabalho se multiplicam, mas você é forte e os resolve, ainda que canse. Tudo pesa. A loucura nunca acaba, mas você já sabia. Você inventou uma fuga.

O que supus leve de repente pesou uma tonelada. É melhor soltar nossas amarras e flutuar por aí ou abraçar as responsabilidades do mundo e nunca sair do chão?

Ontem eu quis te mandar uma mensagem. Hoje foi sua vez. Bloqueei seu número, você sabe bem que mereceu. Falou sobre futuro como se ficcionista fosse, e, bem sabemos, eu sou o homem das fantasias por aqui.

Não, desta vez não dá para ser diferente, não, não vou desbloquear, não, não vamos conversar, sim, deve ser drama, não, não seremos amigos. Você não entende sobre amizades. Chega de ilusões baratas.

Lá vou eu ao banco. A fila está enorme. Você trabalha e se mantém fiel ao que chama de compromissos. Todos eles. Absolutamente racional até na irracionalidade. Infantil e boba, irreconhecivelmente exata.

Lá vai você continuar crescendo do seu jeito e vou me orgulhar em breve pelos seus avanços, mas não vou me permitir acompanhá-los.

O mundo vai mudando conforme a gente muda. Tá olhando tudo?

A minha cegueira da vista cresce. Os meus ímpetos são ainda mais honestos. A parte minha que tanto foi sua, assim, de repente, não é mais. Liberdade.

Condenarão minha prolixidade sentimental, eu sei, vejo e noto, assim como condenam minha prolixidade textual. Para que me estender?Bem, eu não sei, mas é que precisa ser do meu jeito e ninguém pode opinar. Perdi umas tantas coisas, mas sou mais meu. Conheço e entendo o meu lugar. Ao que ficou para trás digo adeus.

Prelúdio de um assalto

O corpo de Miguel estava inerte no sofá e sua respiração era tão lenta que era quase impossível dizer se estava vivo ou morto. O cinzeiro estava cheio de bitucas de cigarro e o piso acarpetado também. Mu acreditou que apenas a sorte do desgraçado havia impedido com que o apartamento queimasse, pois o parceiro sempre se drogava e perdia a noção das coisas quando estava frustrado. Tendo por base o cheiro de bebidas baratas e prostitutas, Miguel havia estado bastante decepcionado. Juca estava sentado com a coluna completamente torta. A boca aberta liberava um ar fétido e Mu teve vontade de arrebentar a boca do idiota com socos.        
Escutem aqui, seus merdas! Nós não somos sócios? Que diabos vocês estão fazendo nesse apartamento de merda? Não me recordo bem, mas parece o cheiro do rabo da sua mãe, Juca. O outro retardado está vivo?!
Ele fodeu tudo outra vez, cara. É sempre assim… – Comentou Juca sem qualquer emoção na fala. 
Você nos botou nessa, Ferraz. Agora estamos fodidos assim… – O único homem sóbrio no quarto desferiu um soco violento em Juca.        
Vou te relembrar das regras, seu drogado de merda. Nunca me chame de Murilo ou de Ferraz. Vocês, palermas, possuem o péssimo hábito de serem uns fracassados do caralho, mas não me envolvam nas suas burrices. – Disse com a face transformada em um esgar odioso.        
– Tanto faz, cara. Tanto faz… – Seu tom era exageradamente despreocupado e tranquilo. Agia como se nem tivesse sido atingido. – Ele desobedeceu seu plano. – Indicou com a cabeça. – Por que não o soca também? – Mu sentiu a raiva crescer. Talvez fosse melhor mesmo se livrar de idiotas como aqueles, mas não tinha associados competentes para o próximo assalto. Miguel e Juca não eram tão ruins, porém, eram especialmente fracos com as drogas. O primeiro era viciado em cocaína e Juca usava de tudo um pouco, mas estava conseguindo se controlar nos últimos meses. A fúria de Murilo era grande. Não perdoaria a incompetência.        
Quanto tempo até que o Miguel deixe esse estado vegetativo? – Perguntou ligeiramente irritado. – Quanto tempo até que você possa ser útil? – Juca ergueu calmamente os olhos e os susteve com tranquilidade na direção de Mu. Não havia raiva e nem incômodo.        
Eu só preciso de um banho, cara. Aquele ali acho que não sai do lugar. Talvez um chute na barriga ajude, entende? Acorda com um sustinho básico e vomita o que precisar, mas aí a gente levanta e vai. Se você achar mesmo que a gente precisa dele…        
Você sabe como são os meus alvos, Juca. Precisamos de três e eu não conheço mais ninguém apto.        
Tá de sacanagem comigo, chefe? Olha, cara, numa boa, minha mãe aleijada é mais útil que esse fodido. Eu conheço um cara que pode ajudar a gente. O apelido dele é Aborto e você imagina a razão. O maluco nasceu do avesso. É mais feio que enrabar a irmã no natal, saca? Tão feio que ele assusta as pessoas com a cara dele mais do que aquelas suas máscaras de esquiador. – Mu odiava contar com o apoio de desconhecidos, mas deteve o olhar minuciosamente em Miguel. Ainda não sabia se o sujeito estava vivo ou morto.       
– Ligue para esse filho da puta. Pouco me interessa se ele é bonito ou feio. Precisamos de mais um. – Disse e seguiu para o banheiro. Gritou antes de empurrar a porta com violência. – Você toma banho depois que eu mijar.         – Cuidado com o cavalo de Troia, cara. –  Disse e pegou seu telefone para discar o número de Aborto. A chamada estava em espera. Juca era preguiçoso, mas não incompetente. Sabia desde o dia anterior que Miguel jamais conseguiria e ele mesmo havia antecipado a grande oportunidade para o colega de infância apelidado de Aborto. Mu já estava mijando quando viu e sentiu a podridão da maior cagada de toda sua vida.        
PORRA! – Berrou furioso, mas continuou a mijar em cima dos monstruosos pedaços de merda. Eram tão grandes que cobriam a água. – CARALHO! DE QUE CU ARROMBADO SAIU ISSO? VAI SE FUDER, FILHO DA PUTA.        
Cara, eu estou no telefone com o Aborto. Se você tá tão pistola é a hora de colocar o Miguelito pra desentupir essa porcaria. Eu vou tomar meu banho prendendo a respiração. – Parou de falar com Mu por um instante. – Alô? Fala, meu bem abortado. Como é que está essa minha placenta?        
Puta que me pariu. – Resmungou Mu antes de decidir que era melhor se calar, pois o cheiro horrível estava agora em sua língua e em suas narinas. Fechou a tampa e saiu sem lavar as mãos. Olhou com um ódio crescente para Miguel que seguia deitado. Mu ainda não sabia dizer se ele estava dormindo ou morto, porém, já não interessava. – Melhor que esteja morto, arrombado filho da puta.        
Certo, cara. É isso. Mu é o melhor do ramo, nunca errou. Vamos ganhar um cash alto, coisa supimpa mesmo, saca? Depois você pode fechar a zona e passar suas DST’s para quantas putas quiser. Se quiser comer cu de macho também não é da minha conta, Aborto, só não me enfia no meio desses seus rolos. Sabe que eu ainda quero me casar na igreja? – Mu esperava agora com mais paciência do que antes. Juca deu um esboço de sorriso pela primeira vez. – Você é um filhinho de uma putinha, cara. Eu ainda vou casar na igreja com uma mina firmeza, saca? Uma que tenha todos os dentes na boca e que vai parir o Juquinha. A gente não precisa ter essa vida de fodido, precisa?        
Não. – Sussurrou Mu com pensamentos irritadiços e distantes. Recordou-se da vida boa que tinha antes de mergulhar nos crimes, mas jamais voltaria. Os grandes assaltos eram uma espécie de talento natural. Se sou bom nesse ofício, eu preciso continuar, certo? Eu dou sentido para o emprego dos policiais filhos da puta. 
– Que se foda, seu abortado. O Juquinha vai ter uma boa vida, cara. Vai estudar em colégio grão fino e vai fazer três refeições por dia. Vai até comer pão com… – Pensou e olhou para Mu. – Como chama aquele doce lá que todo mundo gosta? Aquele marrom.       
Nutella.        
Isso. Vai até comer pão com nutella nos domingos, sacou? Isso eu garanto, cara. Chega desse papo. Ainda não tenho a morena então vamo ao que interessa. Vamos passar aí. – Tapou o fone e olhou para Mu. – Que horas vamos lá?        
Passamos em meia hora. Ele não precisa de nada. Estou com as armas, as máscaras e o plano.        
Meia hora, cu sujo. Passamos aí em meia hora. Não se atrase. Meu patrão preza pela excelência e não quero que ele tenha a sensação de que eu troquei um ladrão de merda por outro. Ok. Até já.        
Eu te espero lá no carro. Nove minutos, no máximo. Você tem certeza que esse Aborto é alguém em quem podemos confiar?       
Relaxa, cara. O maluco estudou comigo na quarta-série. É mais burro que uma porta com os números, mas assalta desde os doze anos. Nunca foi pego pelos homem, tá ligado? Conheço a peça. Se o seu plano…               
Você sabe que eu não falho. – Cortou com aspereza. – Seis minutos. Mu deu mais uma olhada para Miguel ainda imóvel no sofá. – Se esse merda não morreu ainda, eu quero que você me lembre de matarmos ele na volta. Arrombado viciado de merda. Já não bastasse atrapalhar quase sempre, ainda entope a privada… – Resmungou e bateu a porta ao sair apressado rumo ao carro. Juca sorriu genuinamente e esfregou as mãos andando vagarosamente até o banheiro.        
Nunca falhou até hoje, burguês filho da puta. – Chegou perto de Miguel e o analisou. – Seu merda. Nunca entendi sua lealdade por esse porra do Ferraz. Viadinho chupador de cacete. – Disse e cuspiu no homem deitado. – Deu conta de se arrebentar sozinho, mas depois disso foi fácil te tornar completamente incapaz. Vou sair pra esse roubo, mas não volto. Boa morte, cara. Minhas últimas palavras pra você? Sua lealdade te ferrou, seu arrombado. Parabéns por ter nascido como gente e morrido como uma anta. A gente se vê no inferno. – Cuspiu de novo e seguiu para o banheiro lavar apenas os sovacos e o pau. Era da opinião que deveria estar cheirosinho quando encontrasse aquela que seria a mãe do Juquinha. 

A morte das hipóteses

Recentemente fiquei preocupado. Primeiramente eu havia desistido de responder quaisquer que fossem as notificações no meu celular. Eu era um terreno logo após a chegada do meteoro. O meu rosto aviltava a destruição que eu sentia em minhas entranhas. Meus gestos mais simplistas eram, de um jeito ou de outro, dotados de extravagância. Personifiquei a catástrofe de viver. Colidi com o iceberg da minha vida. As pessoas no Titanic só notaram a colisão quando era tarde para evitá-la. Eu tracei a minha rota até a tragédia que se anunciava. Queria ver se meu corpo aguentava o impacto. Propositadamente fui de encontro ao que sabia ter força para me derrubar. Às vezes me surpreendo com a minha tolice. 

A vida é um caminhão em alta velocidade e você é um animal desavisado tentando atravessar a estrada em uma noite de chuva. Há coisas que talvez você possa fazer para não ser atropelado? Há como ser menos cego na perseguição dos objetivos? Há jeitos de viver sua vida de outro jeito? Há maneiras de fazer isso e ainda se sentir vivo? Provavelmente sim, mas você não quer fazer diferente. Não pode evitar o que nunca se mente e nem o pavor de não conseguir sentir o que não se sente. Será que vai mesmo se esquivar do instinto em buscar o outro lado? Será que vai tentar ainda que seja tão arriscado? Será que algum dia acha a felicidade por onde havia sequer imaginado? Só sei que evitei responder quem quer que fosse por quase uma semana. Escolhi a solidão. Meu pai reclamou comigo e achou até que eu estivesse bravo porque ele desmarcou o nosso almoço no sábado. Eu não estava bravo, mas ele achou que eu tivesse meus motivos. Ele tinha razão. 

Ausentei-me pelo prolongamento de uma ansiedade inédita que insistia em permanecer em mim. Não tenho o hábito de punir outros pelas minhas instabilidades. O que eu havia feito pra me sentir assim? Martelei esses pensamentos primeiro por dias, depois por semanas. Era eu o vilão principal em minha própria trama? Eu, ocaso impossível que ocorre na noite mais densa? Eu tão leve, mas de medidas tão intensas? Tão certo de que segui um caminho retilíneo, será que me perdi em vestígios deixados por outros? Será que meus esforços são magnificentes ou ainda são poucos? A hesitação me tira a energia. Como posso aguentar até o final do dia?

Queria ter feito Jornalismo. À época passei com uma das melhores notas para o curso na universidade federal aqui da cidade, mas optar pelo Direito era optar por meu primeiro emprego de verdade, por me manter perto de muitas pessoas quais eu não queria me afastar. E no mais… Jornalismo não dá dinheiro, todos diziam. Não pensava de maneira mecânica, mas quem é que não quer ter dinheiro? À época também eu não era assim tão lúcido e cônscio da minha própria pessoa e isso me fez pensar por muito tempo sobre como as coisas teriam sido diferentes. Eu provavelmente escreveria melhor desde antes, mas será que teria tido a epifania que me fez querer ser escritor? Será que meu sonho de profissão hoje seria ainda o meu amor? 

Uma vez não conta. Uma vez é nunca. Os erros que erramos são realmente erros? Se na vida não há ensaios, por que é que me olha de soslaio como se eu precisasse ter medo?

As hipóteses abandonadas se acumulam em centenas. As que deixamos para trás, porém, nunca valem a pena. É preciso crescer e se tornar mais maduro. Na insistência em imaginar que a vida que deixei para trás seria melhor que essa, eu quase me perdi definitivamente. A vida é como é e a gente não pode ter pressa. Lembranças que foram fundamentais hoje são indiferentes. Certamente foi significativo e agora não é mais. A vida muda e sou grato ao que ficou para trás. Não sei o que vai ser amanhã, entretanto, o que importa é que o amanhã exista. A repetição dos dias não têm vencido meu tédio, mas sigo querendo acreditar. Amanhã é só mais um dia, mas eu ainda encontrarei o meu lugar. As hipóteses antigas morrerão e cabe a você enterrá-las ou cremá-las. Se achar prudente jogue os restos ao mar, mas com ou sem ritual, assegure-se de que elas não te incomodarão mais. 

E assim, mesmo que distante, talvez quem sabe exista uma pessoa que ainda vá entender. Esse meu tão estranho jeito de amar. Essa impossível maneira de ser.