Há amor depois do amor?

     Meu único amor, eu tenho te esperado por tanto tempo. Por onde é que você anda? Soube meias notícias sobre você, meias verdades apenas, mas custei a acreditar nos boatos. Por onde erra você? Jaz no sono eterno ou eternamente se perdeu no vento? O porta-retratos com a velha foto ficou exposto por algum tempo na sala vazia, mas muitos começaram a achar estranho que eu ainda a ostentasse, mesmo tendo a perdido. Depois veio outra mulher em um porta-retratos novo. Nunca a vi, mas ela se parece com uma menina de cabelo colorido, então, deixei ela na sala para colorir minha imaginação. Todos que antes se incomodavam com a foto antiga, perguntam agora quem é a nova. Sorrio. Uma modelo qualquer de algum lugar qualquer. E o que aconteceu com a antiga? Ora, eu sou descuidado. Em um equívoco legítimo, alguns dirão que eu a perdi mesmo, mas importa tanto assim o meio se o fim é igual? Que seja a perda então. E se eu dissesse que mesmo com a perda, eu ainda ganhei? Há uma parte que será, até o dia de nossas mortes ao menos, eternamente minha, eu sei. Entendo sua partida, pois “o amor não enche barriga” e apontar o dedo por deduções é algo mais comum do que se imagina, mas quem é que diria? Quando me tornei certo de que você não voltava, a insuportável invernia no meu coração piorou e eu só rezei para melhorar. Rezava para quê ou para quem? Não sei dizer, mas cada uma das raras lágrimas que derramei escancarou minhas fraquezas. Choro é fuga. Que razão há no mundo para um homem de sonhos profundos se lhe tiram o que mais ama? Que razão não há para tudo ignorar e viver isolado vestindo o mesmo pijama? Fuga no sono, queda dramática, cama. Infelizmente até em meus sonhos, onde sento em um vistoso trono, você me chama. Por que faz tanta questão de me possuir se nunca mais foi capaz de me desejar?


     O fim da vida é a morte e hoje pouco ou nada me interessa devanear sobre o que há depois. De que importa, afinal? Eu só gostaria de saber se há amor depois do amor, pois com a última batida pesada da porta, imediatamente soube que meus sorrisos não seriam os mesmos. Há ilusões de paraíso para meros vagabundos à esmo? Meus medos me consumiram. Hoje é sábado, 9h10, mas estou em um escritório. Nos meus sonhos mais antigos isto é como comparecer ao meu próprio velório. Lancei eu mesmo a flechada que perfurou a minha armadura. Fadado a viver em batalha, constatação de uma gama de falhas, uma voz que ecoa: A vida é dura. Já não penso mais sobre o amor, pois se há esperança de perseverar nele, esta esperança apenas é alimentada nos momentos em que é impossível raciocinar. A lógica é inimiga do sentimento. Se pensar com clareza pode concluir que nenhuma ou todas as suas atitudes foram capazes de influenciar alguém. Adianta disparar a arma quando a vida tomou reféns? Que há por de trás do ódio senão a candura? As faces de escárnio, todas secas, horripilantes, lançam olhares mortificados para os que ainda se preocupam. Quanto tempo nós temos? O que é que fazemos aqui?


     O não pensar nos faz livres e o pensar nos faz prisioneiros, por tal, digo que é mais feliz aquele que nunca aprendeu a raciocinar. Aquele que não sabe que o mundo é gigantesco, não sente falta de conhecer sua imensidão, pois o resumo em que vive o basta para se satisfazer e ser feliz. Quem é louco de querer ser apenas feliz? Aquele que pensa, age ou não, mas inevitavelmente se compunge pelas façanhas realizadas ou por aquelas que deixa de realizar. Aquele que não pensa, porém, age e a extensão de seus porquês se encerra na própria razão que o levou a agir. Furtei um pão, pois senti fome. Se não fui preso, fui feliz. Se fui preso, não fui ladrão bom o suficiente. Era preciso fazê-lo e aqui se encerra a existência da questão. Não há razão para questionar se é moralmente correto tomar o pão; foi necessário. Há amor para os tolos? Sim! Principalmente para os tolos, mas sigo em minha racionalidade banal ao me perguntar: há amor depois do amor?


     Alguns que me leem me acham inteligente. Outros me tomam por um tolo infantil. Estou amadurecendo ainda e sou qualquer coisa entre criança e adulto; entre o divino e o cético; entre o pueril e o razoável. Se me consideram imbecil, provavelmente estão certos. Se captaram em minhas palavras algum vislumbre genial, pode até ser que ele também exista. A felicidade é para quem sabe agir esquecendo-se de pensar ou para quem sabe olhar para o que possui, sabendo que possuir é mera ilusão. Talvez a palavra ilusão sintetize a ideia errada, pois possuir é ainda menos. Na realidade, nós não possuímos, em regra, nem a nós mesmos e somos condicionados a fazer coisas que muitas vezes não queremos exclusivamente por uma vontade que nos leva ao que desejaríamos que fosse. Possuir é expectativa longínqua de ilusão. Tudo que não existe em ação e solidez é mais real para quem raciocina. A imaginação é importante, pois é nela que se firmam todas as nossas teses e se continuamos a acordar no dia seguinte e no dia depois, é, apenas pelo fato de que em um lugar dentro de nós, existe uma fé cega em nossas próprias capacidades. Antes de Deus ou da ideia de Deus ou de qualquer ideia que não o envolva, a realidade nos guia para uma fé cega em nós mesmos e quanto mais arrogante somos em pensamento menos altruístas (verdadeiramente) tendemos a ser em nossas atitudes. Há humildade só no agir simples. A bondade na simplicidade é geralmente discreta. Desconfie dos que fazem barulho por qualquer coisa. Afaste-se dos que sentenciam à morte quem cometeu qualquer erro frugal. Se puder, seja humilde, peça desculpas, mas evite se humilhar. Não devemos baixar a cabeça, pois não somos servos de Rainhas ou Reis. Acaso não possa ser humilde, seja coisa nenhuma. Ainda que cada indivíduo seja a meditação contemplativa da memória do que um dia foi, o que ele é agora é apenas expectativa do que o que imagina ser.


     Assim, por ora, encerro em mim todas as questões existenciais essenciais tanto como as francamente patéticas. A chance de que os cruéis, os pernósticos, os ascetas e os desmedidos sejam felizes é absurdamente maior do que a chance de felicidade dos ingênuos e dos coerentes. A ausência de culpabilidade, o não remorso, faz com que a arrogância predominante da alma se eleve. Elevado, supostamente há leveza no ser, mas não o há, porém, para os que se martirizam por erros que nunca cometeram. A própria expectativa de liberdade geralmente é uma artimanha ilusória para com a verdadeira liberdade. Somos prisioneiros da suposição do que poderíamos ou deveríamos ser.  Associamo-nos à pessoas degradantes para nos impedirmos do privilégio de pensar. Juntamo-nos aos réprobos, pois queremos evitar a solidão. Que sentido há em viver? Há sentido em qualquer coisa? Tornar o sonho real faz com que se perca a possibilidade do sonhar, mas, creio, embora sem forçar expectativas demasiadas, que realizar o sonho nos torna complacentes. Se é importante ser bom ninguém jamais soube dizer. Do mesmo modo ainda não tenho a resposta para a pergunta que me fez escrever e pensar inutilmente em tudo isso. Há amor depois do amor? Há lealdade em um mundo de oportunistas? Para o que se vive é o mesmo para o que se morre? A palavra futuro é ridícula. Tudo que é, obviamente, é agora. Erro-me por medo de não ter errado o bastante, pois deveria ter dito algumas coisas que não disse. Ainda assim, quando tive a oportunidade de dizer, falei muito em silêncio, mas quando tentei me expressar com a voz, disse tanto e ainda assim nada transmiti. Como são curiosos os caminhos, vê? Forçaram-me a estar aqui neste sábado. Lancei um débito errado e esqueci de dar o desconto de um centavo. Na segunda-feira cedo, eu vou perder mais trinta minutos da minha vida por isso, mas o que serão trinta minutos quando já estou fadado a perder nove horas? Desejo o tempo livre que tinha. Desejo ser um pouco mais do que fui e um pouco menos do que sou. Não penso para depois. Não passo para depois. Sou o que sou e sou agora. Apenas isso importa, mas que há de acontecer?


     Não há justiça no mundo. A ordem é uma palavra inventada para frear o eterno caos que passa por cima de tudo. Por dentro, quase todos, vi com meus próprios olhos e senti com minha própria carne, são selvagens. Parte de mim também compartilha dessa animalesca selvageria, mas sou um desses coitados infelizes que se presta a pensar além do próprio umbigo. Constatei sem derramar lágrimas que só há felicidade destinada a mim em sonhos. O mais belo deles se resume em um homem recostado em uma árvore lendo um livro; uma mulher cochila está deitada nas coxas dele. Uma menina, um menino e um cachorro correm ali perto, exultantes, ninguém saberia dizer o porquê. Respiro longamente e sou toda aquela cena. Se sou o homem, sou feliz. Se sou a mulher, a filha, o filho ou até mesmo o cachorro, sou igualmente feliz. Se sou a árvore que observa aquele instante, viverei mais por conta disso. Se sou o sol que faz suar as crianças, sorrio, mas cedo espaço à chuva, pois creio que ainda aqui cabe um arco-íris nesta utopia. Sonha-se acordado, vive-se dormindo. Não há rumo novo. Não há alegria nova. Felicidade é ser e ser é existir sem expectativa e sem pensar. Os outros decidem muito sobre nós; eles não importam. Decido-me hoje sobre alguns velhos desejos matreiros que ainda matutam em meu coração. Quero fazer uma viagem para fora do país, pois não quero entender completamente as línguas que falarão comigo. Que seja uma aventura. Quero descobrir o que há depois do mar, para onde os dragões verdes partem e onde dormem os corações partidos. Quero descobrir se há morte após a vida ou se até isso é ilusão. Quero desenrolar meu próprio ser, eu mesmo me saber, entender meu coração. Quero descobrir se há como viver desperto, além dos sonhos e se há amor depois do amor. Talvez nada disso te faça sentido, raramente sinto o sentido, mas ainda assim, é uma jornada longa e dura para que eu a faça sozinho. Quem sabe alguns se juntem a mim antes, durante ou ao final do caminho? Tanto faz. O pouco que sei é insignificante, sigo inconstante, chutando para longe os mais belos diamantes. Quero sonhar acordado, não pensar nos dilemas morais, fazer algo pela existência, mas me aflijo ao pensar, há como acreditar neste mundo que vive por aparências? Não sei. Partirei em breve. Se quiser ir comigo, será bem-vindo. Prometo que será leve, mas não sei se será lindo. Desconheço o destino ainda, mas chegaremos aos lugares que pretendemos. Saiba que está convidado a ser parte da minha tripulação. Tudo bem se ainda tiver medo, nós vamos nos superar. Coragem não é ausência de medo e por de trás um mundo de segredos quem sabe eu ainda possa amar.

Uma espécie de limbo tenta me engolir por mais uma semana,
mas ele se engana se acha que esse espaço vazio me fará desacreditar…
Se há amor depois do amor? Eu me pergunto e me respondo: claro que há. 

Gabriel Medina

     Dois anos e meio às vezes me soam como dois dias. Tenho tentado fazer a diferença enquanto o tempo é meu aliado, pois jamais me esqueço de que um dia será meu único inimigo. 

     Eu morava em outro apartamento e já nem sei se foi o antepenúltimo ou ainda antes disso. Eu me mudei seis vezes, mas à época, creio que ainda estivesse na quarta. Chegava cansado do meu trabalho, qual faço também enorme confusão sobre qual era, pois troquei de empregos várias vezes nos últimos anos. Largava-me na sala, apenas para fazer nada ou qualquer coisa não tão importante assim. Até que o interfone tocava.

     Não havia dúvidas de que era o porteiro. Tudo começou em um dia como outro qualquer. Desculpa, mas você por acaso não pode arrumar a televisão do senhor Medina? Eu aceitei, é claro, se na vida você não puder tentar arrumar uma televisão, o que é que você pode? 

     Acontece que o senhor Medina sempre perdia a batalha contra a televisão e quando eu não podia ajudá-lo, quem o ajudava era o meu irmão Caio. Quando o Caio não podia, era eu. Vai lá. É a sua vez de ajudar o Medina. Em uma espécie de rodízio silencioso e sem reclamações, nós nos revezávamos para ajudá-lo.

     Um cachorro idoso nos recebia, ornando com o casal de idosos do terceiro andar. Às vezes ele fedia como quem pisava no próprio mijo, mas o que se pode fazer? Os cães envelhecem também. Geralmente ele latia bastante e ainda bem, pois é preciso proteger os donos da casa. Que o meu cachorro envelheça juntamente com suas manias! 

     A esposa do senhor Medina nunca me disse seu nome, mas sempre agradecia toda vez que eu arrumava a televisão. Sorridente e meio constrangida, ela dizia: agradece o menino, Gabriel. Agradece o menino. 

     Algumas vezes eles apertavam o input quando queriam desligar a TV. Outras vezes desligavam o sinal da NET. E quando eu arrumava, o Medina me olhava desconfiado, como se eu estivesse trapaceando e sempre me perguntava: o que foi que você fez? Como você arrumou? Eu explicava com calma, mesmo sabendo que ele se esqueceria .Havia certa ironia em saber que sabia mais sobre o velho Medina do que sobre seu homônimo surfista. 

     Nossas visitas eram tão frequentes que ele perguntava de vez em quando: você é o Caio? Você é aquele menino lá de cima? Você é o Daniel? E o porteiro sempre que interfonava dizia que ele pediu para chamar o Caio ou o Daniel ou o menino lá do nono andar. 

     Gabriel Medina sempre se vestia com calças sociais e sapatos marrons. Nunca o vi descalço ou usando chinelos e é impossível imaginar alguém mais avesso ao surf. A imagem do velho de bermudas era impossível. Será que eu serei um velho que usa bermudas? Ele também tinha um cabelo branco ligeiramente arrepiado, mas bem penteado com gel, como quem preserva a vaidade de maneira ritualística. Eu não sabia como sabia, mas era ele quem se penteava, como alguém que sabe valorizar um dos poucos hábitos de antigos tempos.

     Mudei de casa mais algumas vezes e por algumas outras tantas vezes me compadeci de como deve ter sido penoso para o senhor Gabriel Medina o nosso sumiço. Será que isso é verdade ou ajudar um velho era alento para um rapaz quebradiço? 

     Sinto pesar-me o fardo de ter um coração. Tenho pensamentos grandiloquentes, mas há uma bagunça intermitente, interna e sem muita comoção. O senhor Medina com certeza encontrou rápido alguém para arrumar a sua televisão. Só espero que ele não assista canais de surf.

Eu preciso de uma carteira nova.

     Eu preciso de uma carteira nova. Eu preciso de uma carteira nova e não compro, não pela falta do dinheiro, mas sim pela falta de convicção na afirmação de que eu realmente preciso do que preciso. Eu preciso do que acho que preciso? Não sou consumista e nem extremista e quase nunca me deixo ser tomado por minhas futilidades. O que acontece é que a carteira atual está remendada em três pontos diferentes. O único ponto positivo é que ainda consigo guardar meus cartões com bastante segurança. Ela costumava ser preta à época que a comprei, porém, agora é de um marrom desbotado, cor de vida desgastada, forma de sombra exausta, rosto de passagem do tempo. Quem é que vê esses anos que voam?

     Às vezes tudo o que fazia sentir ou fazia sentido perde, você talvez tenha notado, subitamente a singularidade. Compreensões nos fogem no momento exato da explicação, pois ainda que algo se derrame inexplicável, temos a mania persistente de teimar em enxergar quando nossos olhos se desacostumam a ver o que é preciso. Não queremos a bula e nem manuais, não temos tempo, dê-me apenas o remédio. Os detalhes, sim, como eu sempre digo, essas coisas frágeis e rápidas e até mesmo perigosas, essas coisas nos definem mais do que todo o resto. Essas coisas frágeis, sim, são absurdamente fortes na essência. O vidro quebrado ergue suas pontas para ferir, mostra que ainda pode te fazer sangrar. O ovo quebra fácil, mas suporta como poucos a pressão, o calor. E você nessa mania de inferioridade canta aos quatro cantos da cidade que não existe amor. Você acha que não o merece.

     No que é que você pensa quando sabe que ninguém pensa em você? Quem você não finge que é, quando sabe que ninguém vai saber? Os perfumes perderam o cheiro ou eu mesmo bloqueei minhas narinas? Não, eu preciso me acalmar. Tudo flutua por dentro, mas eu me sinto centrado. Vejo aqui e ali o que se vê com os olhos que se ganha da natureza e agradeço pelo privilégio de notar coisa ou outra. O Universo foi cruel comigo, mas com a minha idade já possuo maturidade para tolerar. Quando tudo ocorre errado, quando a vida gira ao contrário, eu me inverto e estou no lugar.

     Qual lugar, perguntariam, se existissem pessoas por perto com dúvidas, não sei ainda, eu responderia e sairia para a cozinha preparar um café. Leio Leminski, Poe, Solano, Martin, Exupéry e Saramago, um pouco de tudo na mesma tarde, antecipo aqui meu estrago, corpo largo estirado no deserto, consciência que lateja e arde. Levanto-me, como quem possui uma agilidade sobrenatural adormecida. Continuo, aqui e ali cicatrizado, sorriso largo, como se nunca antes houvesse feridas. Que é que se leva, perguntaram-me, desta vida?

     Eu gostaria que levássemos pelo menos nossas memórias. Queria que o Real Folk Blues tocasse no meu coração antes de uma evidente tragédia e que o telefone tocasse, sim, eu gostaria da excitação que antecede uma ligação, mas apenas se fosse para minguar a falsa paz que antecede a guerra. Reclamam de quem vive com a cabeça no ar, mas ninguém aprecia a terra. E as pessoas odeiam cada vez mais a ligação, pois a fala imediata reflete a necessidade de uma resposta urgente. Por mensagens e áudios gravados a gente disfarça o que sente. E o que levar desta vida, volto-me, notando que me perdi em pensamentos. E eu honestamente também gostaria de levar embora o meu cão. Ele dorme e acorda habitando o espaço mais próximo do meu coração.

     Perdi-me de novo e ontem mesmo a chaleira do ovo quase explodiu. Onde é que ando com a cabeça, se ela parece no mesmo lugar de sempre, mas já não a domino? Que é que se sente quando por dentro quente, a invernia transborda pela pele gelada do exausto menino? Quem sou eu que não sou poeta, mas rimo?

     E minhas olheiras agora marcam e eu não era cansado assim. E outrora como Pessoa tive todos os sonhos do mundo em mim. Os óbvios olham e dizem “você parece cansado“. E meus músculos murcham e eu nunca ficava três dias seguidos sem me exercitar. E as pernas tremem de quando em quando, mas caminho. Agora eu não correria nem que pudesse. Logo mais desconhecidos acenam, notam sua presença, conforme você agora se esquece. Os olhos avermelhados, o suor, o instinto, você vê, cansado de ser sobrepujado por razões inferiores, exausto de ser cercado pelas mesmas cores. Apostando, uma vez por ano, todo tipo de plano em novos amores. Que é que se faz com o que resta das dores?

     Na era da ascensão financeira, eu juro, eles dizem que amor é pura bobeira. Talvez eles estejam parcialmente certos, pois eu ainda não os refutei com incontestáveis provas. Eu aqui, madrugada adentro, evitando todo o esquecimento, recordo-me de que preciso de uma carteira nova. E tenho feito o meu melhor e isso, eu digo e repito, é bom o bastante. O que importa é não permanecer o mesmo de antes, porém, uma espécie de energia má e assassina tenta me derrubar. Tenho feito o meu melhor, mas um dia todos vão me deixar?

     Suspiro profundo, eco da alma, pele marcada pelo corte. Quando todos saem, evita-se a morte. Sozinho, imundo, mas com a mente calma, você se sente em falta ou se sente com sorte? Sente-se aqui, por favor, bem pertinho, bem do meu lado. Narre-me sua história.

    E as ondas quebram, eu sigo inteiro.
    E no mar em tormenta, eu me torno timoneiro.
    E no olho do furacão,
    eu entrei em um balão,
    em busca do que é Verdadeiro.
    Podemos desperdiçar tantas flechas ou
    o tiro deve ser certeiro?

    Perco-me, acho-me, conforme a madrugada segue. O filme qual eu estava gostando agora está pausado e neste momento sou o deus que decide se essa história termina ou não. Encontro-me e perdoo o que passou. Minha alma já não passeia em cidades fantasmas com a memória do que ressonava como amor. Eu talvez já saiba de tudo, pois imaginei de modo tão real que pude sentir. Vivi tantas vidas em ficção, que, às vezes em realidade me sinto com um pé na cova. Eu tanto divaguei e descobri que me derramei em palavras exageradas, quando só queria mesmo uma carteira nova.

Sonho dos Esquecidos – Parte 1 – Maura.

     Maura observava a televisão e somente a televisão. Ouvia ecos de vozes que, ela juraria se ainda pudesse falar, soavam simultaneamente próximos e distantes.

Mãe.

Ela não entende mais.

Mãe.

Ela está aqui, mas não está.

Mãe.

O pai se foi há anos. É coisa de…

Família é assim mesmo.

Ela deu azar. O Alzheimer é genético.

Sim.

Mãe, a senhora quer alguma coisa?

Mãe, a senhora está com frio?

Mãe?

     As palavras passavam pela memória de Maura como se estivessem passeando apressadas em um shopping com a urgência de evitar a cobrança do ticket do estacionamento. Elas seguiam trôpegas, como se estivessem embriagadas, para os recônditos da cada vez mais inconsciente consciência de Maura. Ela ainda se lembrava de coisa ou outra, sabia diferenciar os seis filhos pelos sons das vozes e pelos ritmos das falas. Não se esquecia de que havia dois que jamais a visitavam, um deles homem e a outra uma mulher, mas como é que ela poderia reclamar na atual conjectura? Não tinha voz. Maura suspirava, mas seus pulmões eram tão fracos que os filhos não distinguiam uma arfada de ar simples de uma respiração prolongada. A velha senhora estava totalmente entregue, ainda assim, era obrigada a escutar os resmungos de quem dividia o ambiente com ela.

Ele foi embora, Paula. Descobriu sobre os meus dois casos. É, eu sei que você é uma santa e nunca faz nada errado, mas eu fiz.

Engraçado. Eu achei que ele fosse um bundão incorrigível.

Eu não sei o que eu achei.

Você vai sentir a falta dele agora, irmã, mas ele não vai sentir a sua. Quer água, mãe?

Por que você defende ele? Eu sou a sua irmã!

Você é a pessoa que errou. Fosse você mesma a mamãe ou o papai, que Deus o tenha, eu ainda falaria sobre o seu erro.

Por que você é tão má comigo?

A minha honestidade te fere? Você foi ruim com as pessoas por anos. Parece que nunca aprende.

     Maura nem se recordava de como a alimentavam, mas já não fazia tanta diferença. A vida era uma tragédia sem importância agora que ela era a extensão do cômodo, apenas uma nova parte envelhecida da mobília. Quando se lembrava de sentir e via, enxergava com atenção tudo ao redor, porém, mantinha-se imóvel. Os gestos que era capaz de fazer com a cabeça fugiam à compreensão dos filhos. Ninguém entendia o vagaroso menear de seu pescoço. Os olhares cheios de significados eram respondidos com frases confortáveis, repletas de pena na intenção e na réplica falada. Maura se sentia velha para isso e seus lábios formaram por um instante seu antigo e discreto sorriso juvenil, afinal, ela estava realmente velha para qualquer coisa. Suspirou outra vez. Maura se recordava de que uma ou outra vez os filhos haviam conversado sobre a infância compartilhada e as melhores refeições que mamãe preparava. Uma ou outra vez discorreram sobre memórias felizes. Uma ou outra vez o mundo real, qual ela já não tinha mais certeza da realidade, voltava a ser palatável para quem se acostumou a sentir o gosto de coisas ruins ou a não sentir qualquer gosto sequer.

Água.

Mãe?

Mamãe? A senhora aceita água?

Acho que ela já ficou surda.

Por que perguntamos se ela aceita água? Ela não responde mais.

Precisamos conversar com ela para estimulá-la.

Estimulá-la com qual finalidade?

Que horror! Você parece tão fria!  

Seja racional. Ela parece ouvir algo?

Ela pode ser surda, mas definitivamente não é cega.

E como você sabe?

Olha o jeito que ela assiste a televisão.

É.

É o quê?

Parece que ela presta atenção.

Pobre, mamãe.

Se você diz que sente essa compaixão deveria aparecer mais vezes.

Pelo menos eu me importo de verdade em aparecer.

Eu sei bem como se importa…

Sua rata egoísta!

Sua porca interesseira!

     Sobre uma coisa, porém, as filhas estavam certas: ela gostava de mergulhar profundamente na televisão.     

    Foi em uma terça-feira do mês de janeiro, não que Maura fosse se lembrar da data, mas havia assistido a televisão por volta de oito horas consecutivas. Os filhos não estavam presentes, mas ela também não deu pela ausência deles. A enfermeira que ficava na casa algumas vezes na semana falava em voz alta com seu namorado na sala ao lado. Suas conversas eróticas seriam facilmente escutadas se houvesse mais alguém por perto, mas ela acreditava piamente que a senhora Maura havia passado para a outra vida, deixando só o corpo, uma sombra vaga que fica e habita, mesmo quando todo o resto insiste, implora, para ser deixado para trás. A indiferença era a única característica que marcava a velha senhora. Sentia como se toda a indignação de evitar conflitos e situações dignas de asco fosse apenas um privilégio da juventude. Respirou profundamente, mas ainda que alguém estivesse por perto, não teria notado a diferença entre a leveza e o peso. A enfermeira seguia na chamada.

Cale a boca, seu idiota. Ela está vegetativa! Só a carcaça envelhecida fica ali o dia inteiro. Sim, eu sei o que estou falando. Você pode relaxar. Eu vou…

O que você vai fazer comigo?

Você não dá conta.

Cala a boca.

Eu já disse que a velha é surda.

Se eu ligar a televisão ela fica parecendo um bebê.

Você pode aparecer hoje?

Ela dorme no sofá. A gente usa a cama grande.

    A enfermeira estava parcialmente equivocada sobre a morte precoce da senhora. Maura se sentia tão bem quanto uma mulher de noventa e quatro anos podia se sentir. No começo, quando perdeu os movimentos, irritava-se com a incapacidade de trocar o canal da televisão, mas aprendeu a gostar de tudo o que estava passando, inclusive dos esportes. Naquela noite especificamente, ela juraria se pudesse falar, sentia-se completamente confortável com a programação. Na televisão A Sociedade dos Poetas Mortos havia encerrado para, em seguida, começar a sessão da madrugada com O Exterminador do Futuro. Depois de envelhecer, quando se percebeu incapaz de se expressar, Maura se reconheceu como uma grande fã do famoso ator Arnold Schwarzenegger. Talvez lhe faltasse versatilidade na interpretação, admitia, porém, adorava um brutamontes com cara de maluco que era capaz de explodir tudo. Estreitou os olhos para prestar melhor atenção no filme e sentiu o cansaço lhe pesar. Não era tarefa fácil ser uma velha que vivia para assistir TV. Maura fechou os seus olhos, sem nunca saber se os abriria no dia seguinte. Havia inúmeros relatos de pessoas que morriam durante o sono, ela não estava livre da ameaça da morte nem durante o repouso. Os lábios se abriram discretamente em um sorriso fraco, que desapareceu em instantes. Ela honestamente já não se importava em viver ou morrer. Cada novo dia era quase igual ao anterior, só os filmes eram diferentes. Quando fechou os olhos naquela noite, Maura nem desconfiava do que a esperava quando despertasse. Tudo seria diferente na próxima vez em que abrisse seus olhos.

O meu silêncio não te pertence

     O meu silêncio não te pertence. É engraçado que, às vezes, mesmo o constante correr das horas não é suficiente para findar ilusões. Fantasmas do passado surgem exigindo espólios de aventuras que já não lhes pertencem. Os amores se acabaram antes da metade do último inverno. Quem foi que disse que o amor pode acabar? Eu não sei, Kim, mas eles acabam e disso tenho certeza. Vaguei por um bom tempo com a minha excelente companhia. Caminhei lado a lado comigo e me conheci como poucos ousam se conhecer. É mais fácil fazer diferente, você nota, certo? A dissimulação é o caminho mais fácil para se apoiar em coisas inexistentes para criar pretextos reais. Só quem admite o medo possui a chance de prevalecer em coragem. Na infância chorei até que minhas lágrimas secassem, eu cheguei a contar? Absorto no meu próprio mundo, eu me sentia amedrontado por tudo o que era alheio. Os meus heróis da televisão eram chamados de falsos pelo povo adulto, mas àquela época já havia desenvolvido o bom hábito de confiar nos meus instintos. Um dia a coragem passou pela tela e hoje a carrego no braço como lembrete para não ser covarde. Sinto medo e amedrontado sigo na direção das coisas que me apavoram. Há dias que brilho como o sol, mas em regra sou como uma esponja que absorve a sujeira dos outros. Aos domingos preciso dar um jeito de espremer toda essa podridão para longe. Posso cair, mas não ficar deitado.

     O meu silêncio não te pertence e é meio estranho que você não saiba. Não sei como isso ainda te surpreende, mas a tela e a moldura não se encaixam. Talvez eu seja pequeno para sua nova versão ou você que seja reduzida para o meu tamanho. Talvez nem uma coisa e nem outra, mas apenas estranhos. Agora somos como obras de arte abstratas e absolutamente diferentes. Nunca mais compartilharemos museus e agora os meus sonhos são apenas meus. Digo isso, embora saiba, os meus objetivos sempre estiveram apenas comigo desde o princípio. A vida muda, vê? Um novo encontro ocorre e o que decorre dali é impossível de prever. Um beijo bom ou ruim, uma surpresa de uma primeira noite sem fim, primeiro encontro que foi chamado de quarto, uma derrota na sinuca, uma massagem na nuca ou qualquer coisa que valha. O trabalho espera no início da próxima manhã. Sei o que faço e conheço minhas tão certeiras razões. Não sou mais um tolo menino avulso e perdido no desértico reino dos corações. Eu tenho ousado mergulhar em oceanos profundos em busca das coisas quais tenho procurado. Vai julgar os meus caminhos e dizer que o que tenho feito é errado?

     O dia de ontem foi menos emocionante do que será o dia de amanhã. Posso querer apenas o que quero querer? Não. Resolvi o que tinha que resolver. Li e consertei detalhes. Tive que ir até o Banco do Brasil e depois até a Caixa Econômica. Paguei uma conta e cheguei em casa antes do anoitecer. Era a hora certa para algo, mas não soube dizer. Cuidei um pouco da bagunça externa, mas ainda havia coisas que me preocupavam por dentro. Não sei se sei como resolver, mas sabia exatamente do que eu precisava. Uma boa conversa e a dose adequada de quietude. O meu silêncio não te pertence e é bastante improvável que isso mude. Quem é que alimenta essa mania idiota de se distanciar e mudar e não estar disposto e nem disponível e ainda acreditar de verdade que tudo pode e deve se manter exatamente como foi? Impossível. O ontem é material fundamental de memória, mas é apenas fragmento de história. Os atentos bem sabem que os dias jamais se repetem, embora possam parecer ligeiramente iguais. O cachorro ronca e eu também sou tomado pelo sono. A gata corre pela casa protegendo o lar daquilo que não se pode ver. Os meus pequenos silêncios se fundem e formam uma amálgama. É uma espécie de silêncio perfeito qual não pode ser quebrado. Se houvesse música talvez existisse um otimismo certeiro. O que sobra para quem insiste em ser verdadeiro? A mesma coisa para quem insiste em ser falso. Nossas convicções e oscilações vivem em perseguições, sombras eternas em nossos encalços. Você pode lidar com os resultados das suas escolhas?

     A madrugada de amanhã será tão sufocante quanto esta. Insone resolvo arriscar palavras neste blog e não sei direito se sei o que quero dizer, mas talvez eu só deseje reafirmar que o meu silêncio é exclusivamente meu e se antes pensava diferente, eu quero dizer que o meu silêncio e tampouco o meu barulho não são mais seus. Os amores morreram há meses! Você não viu quantas vezes os reveses apareceram tão de perto? E ninguém se reveza para reservar um tempo com a sua tristeza. Dane-se. Oscar Wilde estava absolutamente certo? A gente sempre destrói aquilo que mais ama? Dia mais ou menos, 2020, em dezembro ou mesmo nessa semana. E aí a gente se retorce no que já se findou e chama de amor, pois somos assim deprimentes. A oportunidade veio e passou e você aí se fazendo de estrela de cinema. Veja, bem, honestamente nada disso importa mais. O que quer que aconteça simplesmente deve acontecer. Dispenso tudo com um dar de ombros e me reergo da pilha metafórica de escombros para novas etapas. Não vou mais alimentar esse monstro que me mata. Senti pelo tempo que foi necessário até não sentir mais. Agora tanto faz. Vou para a próxima fase. Algumas coisas já fugiram do controle e outras ainda fugirão. Farei o meu melhor agora e com todo o coração. Nos próximos dias não irei me preocupar constantemente em vencer ou perder. A decisão tomada chega sempre em boa hora, há outras pessoas no mundo lá fora… O meu silêncio e barulho me pertencem. Hoje eu escolho viver.      

O que acontece a seguir

     Quero um gole de álcool, por favor, digo, tentando manter a dignidade no tom de voz. A mentira ganha vida com o copo cheio de cerveja e nem tenho tempo para confessar que só desejava mesmo uma xícara de café. Sou um bom mentiroso, embora tenha o péssimo hábito de dizer a verdade. Qualquer um verdadeiro o bastante percebe a vulnerabilidade que se coloca por ser sincero. Agora você me desagrada e é o bastante. Este é o ponto de não retorno, , eu digo, se deseja tanto assim ir. Não é preciso sentir asco da humanidade e nem pena dos que sofrem. É o balanço natural. Aos tristes, paciência, pois a felicidade ainda rondará teus dias. Aos felizes, percepção. A felicidade é fugaz, pois é justamente por isso que se faz mister aproveitá-la. Ser feliz desconhecendo a noção da própria alegria fará com que procure o que já está vivendo. Faço parte dos descuidados lúgubres neste instante. Vejo placas sinalizando para que eu tenha cuidado. Ignoro-as. Sei que vou me ferir. Ignoro-me. Abro minimamente o que minha mente eloquente esteve revirando sem qualquer cuidado.      

      É irônico o quanto se desconhece o conhecido. Memoriza-se todas as falhas e manias; risos e costumes; a aversão por poesia e até os ritos de ciúme. Chega-se então, veja bem, em um ponto estranho e sólido. Naturalmente, você remói uma frase: “eu sei o que acontece a seguir”. Era divertido fazer adivinhas sobre relacionamentos fugazes ou motivações, quando não era o seu próprio em questão. Por brincar tanto, você realmente pressupõe que sabe o que acontece agora. Em regra, aceita a consequência do fato, ainda que este seja desagradável e degradante. Permanece, pois diz a si mesmo que é a última vez, mas seu corpo estremece e você toma nota da repulsa. A mentira ingênua não pode ser aceita, por tal qual é expulsa. No fundo você sabe muito bem que nada vai mudar. Mas você é cabeça dura e insiste em insistir. Vai até além do seu limite, mas qual a razão? Ego? Amor? Medo? Você segue pela voz que fala enquanto você cala seus mais obscuros segredos?    

Um dia, não diferente de qualquer outro, durante a primavera ou mesmo no verão, você saberá o que acontece em seguida. É uma manhã nublada e fria após uma noite de chuva violenta. Eis que uma gelidez inesperada te ataca e te acomete. Penetra-lhe os ossos e faz morada, como se fosse parte do seu sangue. Você não se esquece. Trouxeram-lhe um roteiro novo e previram suas possíveis reações, pois também te conhecem. O jogo não é jogado exclusivamente por você. Eles sabiam o que aconteceria a seguir. Supuseram que a minha resposta seria “Implore meu amor, pois então fique, por favor”, mas é um lamento tardio após uma agressão direta. O costumeiro já está distante e nem somos capazes de nos ofender de forma reta, como fazíamos antes. Não agirei como um pedante, prometo, nem por um instante. Isso está em minhas novas metas.     

      Eis que me descubro noutra manhã de outubro. Os meses silenciaram vozes quais eram tão agradáveis. Os ventos afastaram preguiçosos sorrisos afáveis. Vejo-me e internamente noto que a minha algidez compete com o Alasca. Aguento tinta, digo. Aguento tinta, resmungo. Aguento tinta, desafio. Aguento tinta, seu filho da puta, desabafo. Estou mais maduro, mas às vezes me faço surdo às centenas de intrometidos que querem opinar, pois refuto suas opiniões. Amanhã ainda não sei, mas me basto hoje. Não quero ser sensato, pois tenho sido assim a minha vida inteira, vê? Então se recolha com teus míseros fatos. Tua reclamação cabe numa algibeira. As nuvens mudaram de lugar. Também as manias, os hábitos, exceto teu jeito de se fazer fortaleza. Há agora um desejo constante de atingir o cume, mesmo ao longe vejo sua inenarrável beleza, mas há ausência do seu característico lume. Está vestida toda em resquícios de tristeza. O que se pode fazer?

      A culpa foi toda minha. Não. A culpa foi toda sua. Toda. Outra mentira. Talvez a culpa tenha sido toda nossa. Eu faria os cafés pelas manhãs, mas e daí? Não há príncipes heróis e nem princesas heroínas. Somos todos força fraca? Eu fiz os cafés, mas isso não me exime. Isso não me exalta. De quem é a culpa, afinal? É possível identificar o transgressor? Quem poderia dizer quem fez o disparo que matou o amor? Eu não sou capaz de dar nome ao vilão. Nunca fui bom em elegê-los, ainda que meus punhos se ergam até hoje para enfrentá-los. O que é que se conclui nessa história? Nada. Há tanta gente que está com o futuro no passado. Isso é mais melancólico do que deprimente. Rio com gosto diante do que meus pensamentos encerram. A vida é em frente. Tomado pelo sono, enfim, vejo. É tão óbvio tudo o que não vem a seguir. Sorrio. Quase não acontece, mas eu adoro errar minhas previsões.

O Lanterneiro

Sucede que o rapaz tinha cidade de origem e tinha enorme orgulho dela, porém, a emoção transbordava de seus olhos negros como a noite. Sua pele era amorenada e seus cabelos compridos. Na cabeça um boné velho que outrora deveria ter sido laranja, mas agora parecia bege, o acessório marcado pelo desgaste do uso assim como a insistência do sol marca a pele. O rapaz, como você pode imaginar, também tinha nome, mas gostava mesmo é de ser conhecido pelo ofício! Sou lanterneiro, dizia ele, de onde venho sou o melhor no que faço. Como tu chama o lanterneiro pros teus lados? Bate-chapa? Funileiro? Lanterninha? Consertador? Conserteiro? Faz tudo? Bicador?

Ligeiramente sem graça, o sujeito de camiseta preta pediu para que o adolescente com trejeitos de homem feito explicasse sobre a sua função e se calou sobre o ofício do lanterninha. Não queria confundir o jovem falando sobre cinemas. O lanterneiro inflou de orgulho antes de contar. Fabrico lanternas, meu senhor, e lá dizem que sou o rei das lanternas. Também conserto e troco os faróis dos carros. É o que faço pra viver. O patrão diz que tenho sorte de trabalhar com ele, eu também acho, que nem todo mundo paga R$ 600,00 prum menino, mas que ele que é bom e reconhece meu trabalho, paga o que eu valho. Costumo de ficar de 7 até 13 horas por dia lá na empresa do patrão, mas não têm problema. O patrão é quase um pai pra eu. O pai, por outro lado, sumiu no mundo quando eu era criança e a mãe não parece que gosta muito de mim. Diz que desde que eu nasci ela ficou feia. Será que a gente pode ter culpa na feiura do outro, meu senhor? Falo da feiura que mora pra dentro e da feiura que a gente acaba de notar no espelho quando têm uma pereba na cara ou o cabelo não fica do jeito que a gente gosta. O lanterneiro respirou e pareceu suavemente distante, a tristeza marcando suas olheiras arroxeadas, a reflexão tão profunda aparentemente não compatível com um rapaz tão novo e tão simples. Pago a conta da casa e trabalho. Fiz escolinha até os catorze anos e é por isso que sou um tanto esperto. Dá pra ver que eu era o melhor da turma? Sei somar e diminuir. Sei até multiplicar o básico. Pareço esperto, meu senhor?

Então, lanterneiro, eu pude mesmo notar que você é um rapaz esperto, mas isso não explica você ao meu lado aqui neste avião. O moço sorriu e foi tomado por um certo constrangimento. O homem com roupas simples tinha o cuidado de desviar os olhos do garoto lanterneiro, que às vezes parecia revolver para dentro, como quem respirava em si para se permitir continuar. Nessa vida a gente num quer saber só de ser o melhor em lanternagem, não é, meu senhor? Visivelmente embaraçado pelo pronome de tratamento, o ouvinte finalmente interferiu. O meu nome é Roberto, meu caro lanterneiro. Ainda que eu possa continuar te chamando como preferires, eu insisto que me diga o seu nome. O lanterneiro pareceu alegre e surpreso, um sorriso jovial e amarelado brotou repentinamente, mas logo se recompôs em sua postura resguardada e tímida. O sorriso morreu, mas a lucidez do rapaz era digna de espanto. Pois eu sou Amaro José Gonçalves Rosa, sen… É. Seu Roberto. O lanterneiro estava encabulado, ainda assim, ofereceu a mão para um cumprimento e Roberto a apertou com energia. Agora continue sua história, rapaz.

É que até o mais simples dos homens sonha com uma moça pra se ajuntar, né? Ninguém quer ser sozinho e qualquer bobão sabe que a solidão dói. É aí que mora o meu coração, Seu Roberto. Eu conheci minha namorada faz quatro anos, mas nunca vi ela de perto. Roberto pareceu visivelmente incomodado e já pensou nas inúmeras hipóteses de golpe que o pobre lanterneiro poderia ter caído, mas o jovem riu com tanto gosto que ele relaxou. Fica calmo, senhor Roberto. Roberto. A gente já se viu por câmera, entende? Essas coisas da internet. A gente se conheceu no Face e fala sempre. Já fiz aquelas chamadas de vídeo com a mãe dela também. A gente até jogava um joguinho junto. Ela é de verdade, afirmou como quem já estava acostumado a explicar a situação constrangedora. Então você está indo se encontrar com sua namorada? O rapaz sorriu largamente. Sim, eu até tô atrasado, mas dessa vez vai dar certo. O pai dela tá precisando de um lanterneiro. Ela diz que não aguenta mais de saudade e que precisa de mim e que quer se ajuntar logo. Eu também quero ela sabe. Ela é diferente, sabe, muita gente não sabe, eu mesmo não sei se sei, mas ela me acalma. Às vezes a vida é corrida por demais e é bom ligar a câmera e ver ela. Até posso ficar de vergonha quando encontrar com ela porque sou inexperiente na vida, mas quero ver ela, senhor. Quero dar um abraço apertado nela e um beijo, disse e corou como se a revelação do beijo fosse incriminadora.

Roberto decidiu que era melhor não perguntar sobre como ele havia conhecido sua paixão, mas não pôde segurar sua curiosidade. Já deu errado antes? O lanterneiro sentiu a alegria minguar, porém, não pareceu abalado. Era extremamente esperançoso, apesar do nervosismo, no que o futuro lhe reservava após o voo. Primeira vez que eu comprei passagem, eu comprei errado. O homem do cyber falou que eu comprei num site falso. Gastei todas minhas economias, R$ 1.500,00, mas era um site falso. Aí tive que juntar o dinheiro de novo. Levou meses. Aí não fui apressado duas vezes e tô aqui. Roberto sorriu e tocou no ombro do rapaz. Aqui está você. Cruzando o país por amor. O sorriso singelo do lanterneiro fez Roberto continuar. Vai dar tudo certo, rapaz. Você decerto desconfia que por aí vão te chamar de louco, mas eu admiro sua coragem. O lanterneiro, apesar de esperto, não pareceu entender o comentário. Como assim? Roberto explicou: acho que isso que você está fazendo é muito bonito. Realmente bonito. E quem revolveu para dentro pensando na própria vida foi o doutor Roberto.

Se o que faço é bonito, não sei mesmo, seu Roberto, mas é que a gente se apetece de fazer o que gosta e precisa de fazer, né? E bonita mesmo é ela, seu Roberto. Minhas mãos tão suando, ocê tá vendo, mas é tudo junto. Sair de Sergipe e ir pra cidade grande, voar de avião, medo de não chegar lá. Roberto suspirou e se viu novamente na necessidade de encorajar o rapaz. Havia algo no lanterneiro que o fazia lembrar dele mesmo, exceto pelo fato de que nunca havia sido tão corajoso assim. Roberto se lembrou dos tempos em que tinha fobia em falar com outras pessoas, mas um amigo seu sempre lhe dizia: tudo o que conscientemente negar aos outros, é punição ou bênção para você mesmo. Quando alguém entra em um avião, cheio de medo, preocupado com a vida ou com a morte e precisa apenas ouvir a voz de um desconhecido para ficar bem, não é dever moral do ouvinte ser também falante? Vou chegar em Guarulhos junto com você, senhor José, o lanterneiro. Eu preciso correr para o avião que me leva até minha cidade, mas posso te guiar até o caminho. Você vai chegar no seu destino. Vai encontrar sua namorada. Vai poder ser lanterneiro outra vez.

O lanterneiro sempre falava sem pensar, mas desta vez guardou o pensamento. Sabia que era lanterneiro mesmo sem a lanternagem, como o jardineiro é jardineiro mesmo sem o jardim. Ele vai continuar olhando para as flores e plantas, vai continuar pensando em cuidar, continuar tendo o cuidado necessário para o que precisa de cuidado. Sentia-se bobo, mas pensava em consertar coisas antes de dormir. O restante do voo foi curto e José reconheceu a sorte de ter Roberto sentado ao lado. O homem o ouviu durante todo o percurso e ainda o encorajou. Era tão bom ver alguém diferente dele próprio e das pessoas de sua terra que ele se sentia aliviado. Ninguém sabia como seria a seguir, pois nem Deus e nem o Diabo ensinavam sobre como tudo é diferente quando a gente sai de perto de algo que é tão confortável. Cá que mereço uma vida melhor pra mim, seu Roberto. É por isso que saí de lá.

José se despediu de Roberto com outro aperto de mão. Este voltaria a pensar no lanterneiro inúmeras vezes, mas o primeiro só se lembraria da fala tranquila do homem no avião, esquecendo-se pouco depois de seu nome. O lanterneiro desceu do avião e foi guiado por uma atendente da companhia aérea até o próximo avião. Ainda tinha que pegar um trem e depois um ônibus na rodoviária, mas estava cada vez mais encorajado. Sentia como se a felicidade fosse a única consequência de tamanho risco. Meu povo não se esconde e nem eu. E é que eu amo ela e o jeito toda que ela é comigo. Se deixei minha terra é pra ser feliz. Se lá na minha cidade fosse feliz acho que não existia motivo pra sair, né, disse em uma conversa com ele mesmo. O antigo patrão dizia que falar sozinho fazia bem para a mente e o lanterneiro confiava completamente no patrão. O homem fazia tão bem pra ele, um mero menino trabalhador, que deu uma barra de chocolate grande e um abraço rápido antes do lanterneiro se despedir. Vai ser difícil achar alguém tão competente e com o custo benefício tão bom quanto o seu, meu guri. Boa sorte. Se tudo der errado lá pra sua nova vida, eu te recontrato por metade do salário. José acreditou que era muita bondade do patrão e agradeceu, totalmente enrubescido.

Sucede que o rapaz chegou até a cidade que queria e encontrou a namorada que nunca havia namorado até então. Cortou o cabelo e trocou o boné bege por um chapéu de caubói. O rapaz ainda chamava José, que nessa vida ninguém muda de verdade o nome que recebe, mas não havia Diabo ou Deus que o persuadia do contrário: ainda preferia ser conhecido como um lanterneiro ou até como O Lanterneiro.

Sobre o futuro e o destino dele, não é incumbência do narrador revelar, assim, suponho que cada leitor conclua o que bem entender sobre a pureza e a ingenuidade do rapaz. Certamente há quem creia que o lanterneiro José se deu mal na vida, entretanto, outros vão escolher acreditar que ele foi o lanterneiro mais famoso da nova cidade e viveu uma vida boa e simples até seus últimos dias. Quem saberá dizer se ele teve filhos? Quem algum dia saberá se viveu feliz ou triste? Só uma coisa era certa sobre aquele adolescente que se formava cada vez mais homem e que um dia virou homem tão seguro de si que ninguém sequer imaginava que um dia ele havia sido adolescente. Ele nunca se arrependia e sempre tinha a coragem de seguir os desejos do seu coração. Resolvi que era necessário relatar resumidamente a história de um rapaz que entendia tudo sobre luz e que jamais teve medo da escuridão.