Ferro & Vinho

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Penso no escuro, onde nada vejo, longe dos santos e criminosos, longe do que me ensina a experiência, longe dos ímpetos de heroísmos e vícios, apenas para que eu possa ver claramente além das situações mais complicadas.

Há vezes que me odeio pela insistência, entretanto, aprendi que a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior, assim, insisto no que é preciso, afinal, fazer-nos a nós mesmos é a tarefa, não?

Diminuir-me para que os outros se sintam grandes é inadequado. Apagar a minha luz não fará com que os outros brilhem mais. O sol é para todos e se o aquecimento das hipóteses. Tudo existe e deve ser considerado. É fundamental reconhecer os erros que cometo e me desculpar por eles, mas é raso se desculpar em todos os momentos apenas para evitar o conflito. O orgulho é importante quando não é venenoso. Os perdões são gestos imensos, quando sinceros. Quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas.

Por vezes penso que nasci do avesso, cresci ao contrário e me guiei por incertos instintos cósmicos. Era velho na infância e me sinto rejuvenescer com o decorrer dos tantos anos perdidos. Só me encontro quando perco completamente o sentido. Seria eu uma criatura interplanetária perdida na Terra? Foi em uma manhã de março que vim ao mundo para lidar, dia após dia, com despedidas. Nunca me esqueço de que um dia partirei também.

Tudo em mim é muito por pouco tempo, mas me percebo expandir de maneira extravagante, ilimitada, lépida. Preencho espaços improváveis. Quase tudo me interessa, ainda que seja apenas por alguns dias ou meses e noto que a prolixidade dos meus sentidos contradiz minhas atitudes sucintas e diretas. Subo em uma árvore para contemplar o horizonte e não há respostas ou perguntas, apenas cores. Fito o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto o dever urgente de alimentar a minha alma. Posso desapontar desconhecidos, entretanto, avanço passo-a-passo em direção a mim, encontrando o que sou e significo.

Mudo devagar e de forma contínua por compreender que a repetição reforça a missão. Não envergo fácil e nem me desdobro para atender expectativas alheias. Sou fantástico. Sou desapontador. Sou. Encaro o meu objetivo e me sinto transbordar. Minhas hesitações desaparecem e minhas compreensões se estreitam em um sentido mais claro. Já não me perco entre as estrelas, mas amo os planetas e a lua; já não me desoriento buscando nos aviões e pilotos o meu propósito de vida. A vida em si é o meu propósito e me sinto grato por perceber. Não entendo nada de gráficos e sou demasiado humano para os números frios. Desconheço as melhores estratégias de venda, quiçá por ainda não ter fixado meus valores ou por acreditar piamente que não tenho preço. Sou ferro e vinho, inflexível e seco e me deparo com a realidade de que nunca serei suave. Às vezes posso ser aprazível e inebriante, mas isso não impede, vez ou outra, uma ressaca no dia seguinte. Relaxo os ombros e sorrio. Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia e eu me exijo, sem me arrepender.

Não tente me entender.

Não tente me entender
se nem a mim, eu mesmo faço sentido
Não tente, se poupe, se economize,
Sou repleto de contradições
Sou insano e imprevisível quando
abandono todas as minhas convicções
Sacralizo minhas profanidades
Vi-me velho, satisfeito e distante
Vislumbrei meu futuro numa alucinação
de uma noite de dores lancinantes
Prostraram-se de joelhos e se sentiram humilhados
No torpor só soube que não humilhei ninguém
Estava febril sem estar doente
Rosno e expulso para longe
os que nunca recuperam a compostura
Eu erro bastante e me recupero
Uma vez mergulhei em olhos hipnóticos
nunca soube se realmente voltei
A Existência é uma piada e tantos
de nós não possuem senso de humor
Engulo Galáxias no café da manhã
com os cereais e as frutas e o iogurte
Tudo isso me parece inevitável
Jogaram uma bomba no meu colo
e esperaram que eu explodisse
Ainda estou aqui, vocês notam?
Bebo meu café fumegante
Afasto para longe de mim, eu mesmo,
com todas aquelas velhas quinquilharias
Quem foi que disse que acumulador de restos
sempre esconde alguma poesia?
Talvez eu tenha me livrado de tudo
Talvez espero que se livrem de mim  
Se você acha que eu me importo
provavelmente você está certo,
mas meus interesses não subsistem
Nada em mim é tão duradouro assim,
Exceto aquela velhas promessas
bem como todas as chaves que encontro
Um dia abrirei todas as portas,
 apenas para escapar por uma janela
Como nos tempos da juventude
onde o meu único prazer era inovar
nos jeitos de fugir das aulas
Até hoje, de quando em quando,
pego-me em reflexões profundas
Do que é que eu tanto fugia?
Não tento me entender e por isso
espero que você não tente adivinhar
porque acelero quando tudo se acalma
Vocês buscam satisfação, desejo e sexo
Eu busco o rosto de minha alma
A satisfação, o desejo, o sexo,
isso tudo já busquei um dia também
Nessas tantas buscas por sabe se lá o quê,
eu, enfim, me percebi refém
Sem revólveres apontados para a minha cabeça
Apenas idólatras patéticos sussurrando
“Cresça, cresça, cresça”
Foi então que cresci,
mas quem ata altura ao tamanho
Quem se propõe a aventuras só pensando nos ganhos
Não sabe nada do que deveria saber
E mesmo eu, na dureza da lida, ainda me valho
de saber que não devemos ir tão longe assim
Cansei de tentar entendê-los
Por isso reforço o primeiro pedido
Não tente me entender
Homens dormem, morrem e nascem
Um dia nasci, hoje mesmo dormi,
sei que eventualmente vou morrer
Você tentou me perscrutar ontem,
Volte dois passos, amarre seus sapatos
Faça arames com os cadarços
E vá foder
Não tente me entender,
O saber é inútil
Os esforços são vãos
Sobreviver é a tarefa do fútil
Distraído por uma única canção
que fala sobre barcos e navegantes
Minhas costas doem e a minha nuca
prova que os meus limites são fracos
Quero ser a camisa que entorta o varal,
mas seco demasiadamente rápido e me torno leve
Flutuo pelas ruas como um floco de neve
Conheço um artesão culinário com cabelos cor de areia
Ele não tenta me entender
Observo uma mulher mística
que muda de aparência a cada nova manhã
Ela não tenta me entender
Eles são quem são e se bastam,
Eu sou quem eu sou e me basto,
ainda que em alguns dias eu queira ser outra pessoa
Raramente sinto que enxergo na visão dos outros
E vejo silhuetas fantasmas que dançam
Eu dançarei com você até o fim da próxima música
Fico por último para não deixar ninguém para trás
Ainda que eu não me importe com isso
de vida, morte, amor e sorte
A memória é um tesouro
Conheço-me o bastante para saber
Teria dinheiro sobrando se nunca tivesse
largado o antigo trabalho
Que vida medíocre e opulenta me esperaria?
Conheço-me o bastante para não conhecer
Entro e saio de dietas e quando rezo,
nas noites raras em que falo com o Criador,
peço até pelo bem daqueles que detesto,
Talvez nem o Criador tente me entender
Eu sou simples o bastante para não valer a pena
Complexo para não compensar o tempo de estudos
Quando o resto do mundo fala, eu me torno mudo
Não quero opinar sobre coisas que não sei
nem amar coisas que não amo
Quero descobrir o nome de minha alma
quando solto meu corpo no oceano
E volto salgado
Tudo muda o tempo todo
Os dias parecidos nunca são iguais
Alguns novos começos se parecem tanto
com os velhos finais
Cuidado com as assombrações
Cuidado com o sentir dos sentidos
Desejaram a minha morte por ser prolixo
Por mim, hoje, apenas hoje,
Espero que o mundo se esqueça de mim
Quero existir no limbo
Profano, sagrado, magro, mago, sozinho
Quero existir na noite infinita de outubro
quando o frio chegar, eu subo o edredom e me cubro
Não tenho tempo para o que não quero ter
Você não me verá agindo como um palhaço de circo
Nem beijando a boca de qualquer pessoa
apenas para fingir que eu sou parecido com vocês
Apenas para fingir que eu sou suficientemente legal
Que se fodam os atores, bem como eu já me fodi
Maldito dia que o Inferno se apossou do meu Paraíso
na amada casa da Rua Ipacaraí
Criaturas nascem, criaturas morrem,
mas eu não queria que ninguém se afogasse
Não, eu não queria nada mesmo disso
E ninguém pode me entender
Por favor, não admitirei tentativas
A taça de vinho chegou muito tarde
e eu vomitei muito cedo
Algo no meu peito ainda arde,
mas sei que não sinto mais medo
Eu cheguei muito tarde
e até hoje não consigo transbordar
Não tente me entender
Não tente me achar
Não tente
Não respire ou
apenas respire e revolva para o interno
que nunca aguentou tinta
Olho-me como um perito e como um estranho
O que existe no fundo de meus olhos castanhos?
Escrevo textos razoáveis
Outro dia desses me especializei
em sentimentos alheios e escrevi sobre os venezuelanos
Fui pago para isso e mereci o dinheiro
Os venezuelanos merecem o destino?
Esqueça a empatia e pense em sobrevivência
e então quando for forte o bastante
Poderá se debruçar em outros papéis
Não tente me entender,
embora eu talvez já tenha tentado
fazer isso por você
Não por amor, mas por algo sublime
pelo próximo verso na ponta da dor
Por qualquer coisa que rime
Por ser prolixo da cabeça aos pés
Não cruze os limites,
Sim, apesar das aparências e dessa loucura,
viver sem regras internas e preceitos
é cometer suicídio emocional e intelectual
Tente compreender, aceite a liberdade,
até por não ser algo que te convém,
mas não confunda liberdade com permissão
Podemos fazer tudo, mas não devemos
Você ainda está tentando me entender?
Bobagem, você foi longe demais por mim
Vire a página, eu nasci para ser e não para me explicar
Eu nasci para fazer e até hoje pude amar
Não tente me entender
Como você espera se aproximar de qualquer
entendimento sobre os outros se
ainda se apavora com a solidão?
Eu vou te explicar, mas você não vai entender
A solidão é sal
E rochas
E crustáceos
A solidão é um resto de lixo
na praia que ninguém nunca
se voluntariou a recolher 
Como espera entender?
Preparei um café quente e chorei
Bebi o litro e meio que fiz
Nada aconteceu
Sem tremores
Sem amores
Sem sombras
Sem ilusões
Sem pensamentos
Sem corações
Sem coragem
Sem instinto
Sem selvageria
Sem demonstrações
Sem invernos
Sem infernos
Sem verões
Sem batidas na porta
Sem ligações
Sem tudo
porque tudo
é nada
Os dias acontecem
e nós todos acontecemos também
Não há prêmios e temporadas
Apenas dias amassados em cima de dias
Vidas como sonhos bons ou ruins
Esperanças e desilusões
Assim cada risada profunda
é um mergulho em água termais
Cada desejo compartilhado
é uma meta de vida que se cumpriu
ainda que essa meta seja simples
Ainda que se trate apenas sobre
comer pipoca no final da tarde de uma quarta-feira
Os atletas entram em campo para vencer
Nós acordamos porque precisamos acordar
Dormimos porque precisamos dormir
A natureza não pode ser vil,
pois mesmo os mais diferentes ainda são parecidos
Escarro no chão ao pensar que tenho algo em mim
semelhante aos meus piores inimigos
A natureza não pode ser vil,
mas os humanos podem
A razão superior não deve se sobrepor a razão inferior
As marés mudam conforme as fases da lua
Utiliza-se tudo para não defrontarmos o nada
Nascemos e corremos, embora não exista linha de chegada
Não tente se entender ou me entender
Inocentes morreram afogados
Vaidosos subiram em pedestais e aceitaram
atenção como um gesto de amor
O que já beberam para se mostrarem intocáveis?
Os narcisos não são melhores
Só se observam por mais tempo
Não tente me entender,
Anteontem eu me cansei de mim,
Exausto das minhas teorias e cálculos,
Enojado com meus planos de marketing,
Amanhã eu me renovo e recomeço
se porventura não me afogar em mim,
Eternidades se despedaçam,
Os heróis do povo me rechaçam,
E assim sei que estou no caminho certo
Nem são, nem santo
Nunca pouco,
Mesmo assim nem tanto
Amigo dos loucos
Repleto de encantos
Invisíveis
Não aceito que me digam quem sou
Como saberiam se nem eu sei?
Esqueço meus problemas
e durmo como um rei
Meu cachorro jaz perto de mim
Minha gata me cuida da sacada
Não há linha de chegada,
mas aprendi a amar a minha estrada
Não tente me entender,
Eu talvez seja tão banal como você,
mas meus crimes não são imperdoáveis
Ainda que o dano conte como dano
e nem tudo seja reparável
Amo quem merece o meu amor
Amo quem não merece também
Às vezes me vejo no Japão ou na Nova Zelândia
Às vezes me vejo ainda mais além
Interplanetário
Gatuno fugidio das sombras
Sombra fugida de ladrões
Cobri-me com um sobretudo e saí
para conhecer a Verdade
Tudo está em toda parte
e minhas partes se espalharam pela cidade
Não desejo que me procure, mas espero que me encontre
E assim saberemos que o Destino existe
Há coisas que vão e não voltam
Há o que existe e não aceita o abandono
Há melancias congeladas e bananas apodrecendo
Há cerveja, barulho, cachaça e água
Há o que existe e o que inventei
E penso às vezes que inventei tudo o que existe
Será que não criei todos vocês como minhas ficções
apenas para os dias em que o silêncio me incomodasse?
Será que vocês não fariam tudo o que eu pedisse
se eu chegasse mesmo a pedir?
Será que não os criei para que eu
tivesse como me impedir nas madrugadas de trevas?
Será que eu não existo desde o início das Eras?
Será que não estou sentado de pernas cruzas
em um trono ou afagando a mim,
eu mesmo, que não faço sentido,
num cafuné em meus próprios cabelos?
Às vezes me esqueço que minhas mãos
são realmente minhas e meus dedos finos
de pianista, nunca acharam seu instrumento
O vidro antes era areia
Eu antes era nada
Vim do deserto de Lugar Nenhum
Vide Noir
Esb Mub Sein
Frases, palavras, letras,
Água, fogo, planetas,
Pulei muros impossíveis
apenas porque quis
Beijei todos os animais
que encontrei pelo caminho
Sou um especialista em carinhos
Se me perguntam a razão disso tudo
Honestamente não sei responder
O vidro antes era areia
Posso ser pontiagudo também
Você não me entende, mas somos afiados
Capazes de ferir e sermos feridos
Eu me percebo distante e fútil
Quero tomar mais café e rezo
para que não tenha mais orações
Há desejos incomunicáveis e comunicações improváveis,
mas não há sequer um pensamento proibido
Os olhos são a janela da alma?
A minha alma precisa dos óculos e do vidro
Vocês talvez sejam mais estranhos do que eu
principalmente por tentarem me entender
O reflexo me agrada e me enoja
Pequenos progressos também me importam
Os espelhos pararam de quebrar em mim
Supostamente todo o meu azar se foi para sempre
Assim meus olhos correm
para a próxima cena
O tinteiro molha a ponta da pena
A minha loucura é um poema
da sanidade que nunca tive
Se amo objetos e insetos,
é claro que posso amar vocês
Não me oscilo tanto assim
Se nem eu me preciso,
quem é que vai precisar de mim?
Tatuei o meu corpo e me senti belo
Os trapezistas equilibram nas mãos
o peso exagerado deste mundo
Não podem nunca escorregar
Todos prendem a respiração
Ninguém me entende
Decido não aparar a barba
Pareço abandonado, mas não
Pareço embriagado, mas estou são
O time faz um gol e todos vibram
Estou buscando compreender
o que vocês todos se tornaram para mim
Estou buscando entender
que entender é inútil
Guardo inutilidades e cesso minhas buscas
Não, eu não tento descobrir ou saber
Queria que não se demorassem em tentar me entender
A dor dói quando dói e eu mesmo não faço sentido
Aconteço do avesso e às vezes sou feliz na tristeza,
Melancólico nos interlúdios de felicidade
Se acalme e tenha paciência
O tempo é um conceito
Eu não
Queria que chovesse hoje,
mas não aprendi a fazer chuva
Persisto seco, neste desterro,
neste caminho desértico de secura
Cautela com as mentiras que contam
Certas coisas sempre duram
Certas pessoas me dão a confiança
de sentir que posso fazer o que quiser
Assim, eu sinto que talvez não tenha
inventado tudo isso afinal
A vida e a morte não fazem sentido,
mas eu também não faço e sorrio
Sinto a brisa abafada em um início de tarde quente
E continuo sorrindo
Talvez eu não tenha inventado tudo
e isso me preenche de alívio
Não me entendo e continuo a sorrir
A ficção de meus pensamentos e atos
não forjou a probabilidade do que é real a mim
A Existência afasta os cálculos
E ainda que eu seja exato demais para ser humano,
sou exageradamente humano para ser exato,
Tudo bem, eu vejo que também falho
Posso querer coisas extravagantes
Posso querer coisas patéticas
Posso me tornar extravagante
Posso me tornar patético
Posso ser simples e incrível
Posso alcançar o impossível
e torná-lo possível, assim, meus pelos se eriçam
Sinto-me emocionado com uma estrela cadente
Seguro-a perto do meu coração
Tornamo-nos uma coisa só
Cadente, estrela, eu, fogo, areia
Uma peça única delicada como o vidro
Mobília singular no canto da casa
Criatura que voa sem ter asas
Os milagres existem e eu me emociono
Lágrimas salgadas escorrem dos meus olhos
Sinto o gosto do Mar e
da Alma na ponta da língua
Você desistiu de tentar me entender
acha que sou grandiloquente, mas pelas palavras
fica claro que cultuo tudo o que é frágil e pequeno
Talvez você tenha inventado tudo
O que sei é que eu não inventei nada
e tampouco me entendo.

Eu me cansei de mim.

Às vezes me canso de ser quem eu sou, mas me vejo preso em mim, como se a vida me zombasse em um dar de ombros. A vida, entretanto, nem é corpórea, portanto, como poderia ter ombros? Rio de mim, pensando que quase a vida toda tenho sido o mesmo, dentro da minha cabeça, distante deste pesado e coercivo mundo real. Distancio-me da realidade e de quem erra irrefreavelmente. Quero acertar mais. Quero errar mais. Quero o que nem sei, mas não costumo me repetir. Sou inédito nos detalhes, mas nunca aprendi a dizer a palavra certa na hora certa. Será que aprenderei? Queria antecipar a língua dos anjos, conjurar magias benévolas e simplesmente fazer com que os sérios pudessem sorrir. Sinto-me estranho. Faço o que me parece ser a coisa certa e deixo o orgulho de lado. É necessário se desculpar quando se percebe errado. Flocos de neve nunca caíram diante de mim, assim, a neve é tão irreal quanto os amanhãs que nunca aconteceram. O segredo para se ter dias agradáveis é pensar perto e existir longe. O agrimensor mede a extensão das terras. Quem mede a extensão dos homens?

Ainda ontem eu era criança e encontrava todos os tesouros que nunca procurei. Os insetos eram meus amigos silenciosos e a poeira subia como nuvens diante dos meus óculos. Os gatos de rua me observavam enquanto eu via o que só eles também viam. Os cães deitavam para receber o meu afago, pois sempre fui um grande entendedor de carinhos. Nem todos me viam, mas eu via todos. Nem todos sabiam o meu nome, mas eu memorizava todos os que conseguia. Coletava tudo o que encontrava pelo caminho, alimentando secretamente a esperança de utilizar uma chave perdida que encontrei no chão para abrir uma porta ou um baú. O que pensava ter, eu vejo hoje que não me pertencia e muito do que eu era, eu nem sabia ser. O charme dos que nunca foram charmosos, as mentiras boas, espetáculos de sombras e luzes, ligações telefônicas, duras verdades, vozes ofegantes, trotes, patas sujas de lama, juventude, o segredo dos ônibus noturnos, vácuos emocionais, discussões acaloradas, conversas mornas, vazios, ausências, as fases da lua, corujas, andarilhos perdidos e sinceros, o coração puro para os equívocos honestos e as coisas que exalavam o perfume do abandono. Tudo isso sempre existiu no retrovisor de mim, nunca abandonado, nunca sozinho, sempre sozinho, arredio, carinhoso, evasivo, difícil, muito sorridente, muito sério, singular, expansivo, discreto, por anos e anos sem me encontrar com uma alma parecida. Eventualmente, no futuro, eu encontraria algumas, mas enquanto se espera sempre se demora e a rotina pode ser tortuosa no constante correr das horas.

Envelheci mais pela experiência e pelos grandes diálogos do que pelo decorrer do tempo. Ninguém sabe para onde foram os anos passados. O descaso é uma bênção e uma maldição. Eu hoje não sei o que procuro, mas analiso com paciência tudo o que encontro. Ontem mesmo borboletas saíram de dentro do armário. Percebi pelo evento que, vez ou outra, nada faz sentido. Há tanta ficção no meio destas coisas concretas que desconfio da realidade e me sinto perdido. Tudo hoje me parece possível e rio outra vez de minhas futilidades. Oscilo como os gênios e os preguiçosos, cônscio de que sou absolutamente comum. Suspiros duradouros nos interlúdios que faço em mim. Será que tenho feito o meu melhor? O otimismo, de quando em quando, exaure-me. A minha inteligência, de quando em quando, aborrece-me. Quando tudo decorre de acordo com minhas previsões, noto-me furioso. Particularmente me acho patético e incrível quando tropeço ou bato meus ombros nos lugares de sempre. É como se o meu cérebro se desligasse para uma realidade óbvia, assim, meu desastre se torna um fator novo e sinto uma raiva latente e real da minha memória, apenas por não ter conseguido antecipar a dor. Como trombo nos mesmos objetos se eles estão no mesmo lugar?

Às vezes me canso de ser quem eu sou, mas por estar preso em mim, não luto para me tornar alheio. Essas tantas camuflagens me parecem deploráveis e esses tantos disfarces atiçam o meu lado sombrio. O cansaço de todas as hipóteses, os inutensílios que acumulo pelo caminho, as fragilidades que me fazem sensível, as sombras que nos perseguem, tudo o que é diante de tudo o que poderia ser e do que nunca será. Tudo isso me cansa e me pune, assim, repleto dessa exaustão mental, noto minhas lágrimas escorrendo outra vez. Não desvie teus olhos dos meus, acaso me perceba chorando. Eu aprendi a não ter vergonha de derramar o meu sal. Somos mais que as partes que nos formam e, vez ou outra, talvez você também se canse de ser quem é, apenas pela falta de um tipo específico de descanso. Aceite-se, ame-se, perdoe-se e, enfim, erga-se. Eu aprendi que de olhos postos no chão, deixamos de enxergar a vida que acontece.

Às vezes me canso de ser quem eu sou, mas na maior parte do tempo ando de peito estufado, satisfeito por ter me aceitado defectível e inconstante, imprevisível, atento, viciado em cafeína e em detalhes. Decifro-me até me tornar outra vez um novo mistério. Sou o que sou e me amo, entretanto, percebo que posso mudar nos gestos mínimos e me tornar ainda melhor. Não me iludo com facilidade. Observo a vida com paciência e absorvo o máximo que consigo. A tendência é que amanhã eu seja alguém parecido com quem sou hoje, mas quem sabe o que serei daqui a uma década? Quem sabe o que posso alcançar? Tento ter calma. A vida é marcante por ser real, mesmo que a ficção se misture com o cotidiano. Devo lutar pelos meus sonhos, pelas vontades que são apenas minhas e lutar por um mundo melhor, não porque isso seja intrínseco a nós como seres humanos, mas que seja uma necessidade de sobrevivência da minha parte. Já fui vil, já errei feio, porém me noto acertando na maior parte do tempo. Procuro ainda pelo rosto que tinha antes da criação do Universo, mas não abalo o meu sono com as tantas respostas que ainda não tenho. Busco os meus objetivos grandiloquentes, ainda que muitos os achem impossíveis. Avanço com meu ímpeto juvenil no rumo do que me proponho. O agrimensor mede a extensão da terra, mas ninguém mede a extensão dos sonhos.

Cicatrizes de uma vida sofrida.

Longa e escura noite
Solitária segue a mulher
Pronta para o açoite
Seja o que Deus quiser
Dividida entre dois mundos
Não sabe para qual olhar
Reflexos iracundos a
transportam para nenhum lugar
Limbo, passagem e a alma
Desguarnecida
Findo, selvagem, a calma
foi esquecida
Outra vez a noite escura
Lança o cobertor em nós
Nem tudo que é belo perdura
Fecha os olhos para não ver o algoz
Que chega sorrateiro
sabendo exatamente o que quer
Seus desejos são traiçoeiros
Pretende usurpar a mulher
A protagonista se levanta
Luta contra o ímpeto
de que não adianta
Enfrentar alguém
muito mais forte
Ri e depois canta
Ninguém quer o seu bem
Esta é sua mísera sorte
A noite vira madrugada
A mulher reza e se aquece
só com a raiva que sente
Tudo é péssimo agora,
mas um dia será diferente
Existe mundo lá fora
que justifique seguir em frente?
O amor quando veio era falso
A atenção quando veio era oportuna
Arrasta-se pela casa com os pés descalços
Sonha a felicidade, mas sua realidade é a bruma
Eles sempre se afastam, porém, antes a punição
Seu corpo é um saco de pancadas
Sua história de pura humilhação
Ergue a cabeça de algum jeito
Esta mulher de força extrema
Recorda-se de tudo o que lhe foi feito,
mas refuta que sintam pena
Ninguém é perfeito, mas ela
nunca se perde da cena
Quem explica esse efeito?
Coisa trágica de cinema
Do sofrimento muitos nascem
e nele tantos se perdem da lida
A minha heroína sustenta na face
As cicatrizes de uma vida sofrida
Viveu pela liberdade
e seu conto foi escrito em dor
Escreveram em sua lápide
“Representa a luta por onde for”
Hoje cantam pela cidade
seus gritos de luta como história
de amor. 

Não é tarde demais

Não é tarde demais, pelo menos não ainda. A lei da vida é a mudança, mas não é errado desejar que algumas coisas não mudem, percebe? Você precisa crescer e idade ou tamanho nada influenciam no que quero dizer com crescimento. Você passa quase todo o seu tempo acompanhado e se esqueceu de quem é por nunca ficar sozinho. A solidão é ambivalente. Ela tem a capacidade de nos ancorar na dor profunda das coisas que tínhamos e perdemos, mas simultaneamente tem o poder de nos ensinar o caminho de volta para quem realmente somos.

E se essas respostas não forem agradáveis? E se não pudermos amar quem realmente somos? E se nos envergonharmos dos nossos defeitos, passados e até mesmo dos mais puros e belos impulsos afetivos?

Respire fundo e se acalme, pois a boa notícia é que você pode mudar. A lei da vida é a mudança, você ainda se lembra? Comece de novo, de preferência do zero e lide com as partes mais difíceis. Ensinamentos que acompanham experiências dolorosas geralmente são mais marcantes e valorosos. Não permita que tudo seja em vão. Não repita os seus erros e não se acomode com os seus acertos. A vida acontece no presente e você precisa continuar tentando acertar.

Aprenda a dizer não para os seus amigos, para a sua família e principalmente para seus próprios instintos. Temos a rara capacidade de raciocinar, assim, por favor, conjecture suas ações e tente ser gentil sempre. Que tal se você sorrir mais? Você alegrará, no mínimo, a vida de quem ama te ver feliz.

Dê um basta nas obstinações desnecessárias. Chega de socar a ponta da faca. Já não viu o suficiente do teu próprio sangue? Não se vicie na tristeza. Deixe para trás o que já te deixou. Apegue-se às coisas boas. Não insista no seu orgulho, raiva ou desespero. Você pode mais do que isso. Queira mais do que isso. Seja paciente, mas não desista. As mudanças verdadeiras levam tempo. Continue de cabeça erguida, nunca pise nos outros e a vida vai mudar.

Não é tarde demais, pelo menos não ainda.

A Casa da Rua Sem Saída.

É uma situação de perspectivas, vocês vejam, vocês que me importam, como nós podemos notar, o copo está meio cheio ou meio vazio, assim, escolho acreditar que há o suficiente para não ficar com sede. Bem, ainda tenho água para beber e é o que importa, certo?

Leiam com paciência, não deixem que minhas palavras escapem e signifiquem menos ou mais do que pretendi que elas significassem. Se eventualmente se perderem no que intenciono traduzir, recomecem, por favor e procurem nas menores coisas os maiores resultados. Engatinhem, se porventura, se esqueceram de como andar e segurem a minha mão, como eu costumava fazer, quase sempre que era dominado pelo meu feroz medo da escuridão e atravessava o corredor pequeno madrugada adentro, orando para não ser engolido por qualquer monstro.

Quero deixar claro que as palavras a seguir são destinadas a quem sabe tanto quanto eu que saber o que se sabe não garante absolutamente nada. Eu sei, por exemplo, que nasci junto com a Casa da Rua Sem Saída. Os nossos acabamentos foram quase simultâneos e, antes de completar um ano de idade, eu chegava no colo da minha mãe a um lugar onde eu seria absolutamente feliz. Na verdade, eu seria absolutamente tudo e simultaneamente seria nada, completamente vulnerável, eufórico, despreparado para a complexidade bela e devastadora de uma vida que bagunça a nós todos. Isso tudo ocorreu quando o meu coração ainda era pequenininho e não abarcava mundos, quando eu ainda cabia no colo de minha mãe, quando ela melodiosamente cantava uma música da qual também me lembro na voz de minha avó falecida.

“Mãezinha do céu, eu não sei rezar, eu só sei dizer, quero te amar, azul é o teu manto, branco é o teu véu, mãezinha, eu quero te ver lá no céu”.

Sorrio triste ou choro com uma felicidade que não me cabe e que não se explica. Tenho, vez ou outra, a impressão de que nasci invertido. A casa ainda é bela, repleta de carga do que um dia foi e de esperanças pelo que um dia ainda será. Na piscininha onde costumávamos travar infindáveis batalhas com os primos ou amigos, uma tragédia recente estilhaçou o meu coração e já não posso me lembrar da alegria sem me inundar pela culpa. As tragédias, sejam grandes ou pequenas, sejam detentoras de tomates ou de miados estridentes e famintos, ocupam um espaço indefinido no peito. Gostaria de poder ser um pouco mais, mas quando me perguntam um pouco mais o que, admito que não sei o que dizer. O que eu queria era ir um pouco além, existir longe e encarar os recomeços como um renascimento, assim, talvez eu fosse capaz de enfiar o dedo mais fundo nessas feridas ainda abertas, mas para ser sincero ainda não consigo. A Casa, minha testemunha, sabe como ninguém o que passei naquela noite e como conheci uma face nova do desespero.

Talvez tudo isso seja tão marcante apenas por ser real, mas lá atrás, antes dos grandes acertos e erros, quando o que importava era diferente e nós éramos diferentes, eu penso que talvez já houvesse o suficiente de nós em nós para nos guiarmos por um caminho bom, decente e quiçá a bondade seja o suficiente na maioria das vezes e na maioria dos caminhos. Lá no passado, antes de nós sermos quem nos tornamos, fomos outras pessoas, outras coisas com as mesmas almas, com rostos parecidos, imberbes, sem as marcas inexoráveis da passagem do tempo. A casa, imponente e bela, eu, recém-nascido e chorão. Nós, novos no mundo, mais novos ainda para o mundo, exatamente antes de absorvermos tudo o que absorvemos. Se porventura resolvermos sopesar os danos da vida com as bênçãos, nós provavelmente nos encontraremos em uma situação de desvantagem, pois um amigo meu está certo em dizer que uma tristeza se equipara a três alegrias. É mais fácil cair do que levantar, entretanto, há que se ter essa complicada fibra moral e acreditar nas improbabilidades. Penso eu, às vezes, que devo isso aos meus pais, veja, eles me permitiram criar formigas, sentir amor pelas aranhas e assistir os animes desde os meus sete anos de idade. A minha imaginação crescia sem fronteiras e o meu coração se embelezava com toda a sutileza extravagante dos clichês de coragem.

Há instantes que duram eternidades e estou convencido de que vivi dezenas de eternidades na Casa da Rua Sem Saída. As tantas memórias com os meus pais, com os amigos, com a casa, que ainda hoje parece me abraçar, como se a minha família me abraçasse simultaneamente. Só a casa é capaz de fazer quatro soarem como cinco. Só a casa é capaz de estender a quantidade exata de abraços calorosos em mim. O colo de mãe, que nem sempre está disponível e o afago do pai, quase sempre mais distante. Na casa, porém, há ainda o melhor de nós em nós, quando não éramos provavelmente tão bons ou vividos assim. Sinto como se me soltasse em um colchão confortável e estivesse prestes a adormecer em segurança. Enternecido pela energia que a Egrégora me transmite, sinto como se eu fosse sublime e tudo subitamente parece encaixado e correto, mesmo as partes curvilíneas, mesmo quando a vida entortou.

Bom, vocês sabem, desde pequeno eu era esquisito e funcionava de dentro para fora. Não era lá muito comunicativo e até os onze anos de idade ficava enrubescido e tinha vontade de sair correndo toda vez que uma menina falava comigo. Toda vez que um menino me pressionava, eu tinha vontade de chorar, não sabia nada sobre ferocidade ou valentia, sobre medo, sobre luzes e sombras. Ainda assim, é esquisito, mas eu juro que é verdade, eu sabia que jamais perderia o meu tempo tentando ser alguém que eu não era. Lá pelos quinze, eu me lembro de ter deitado no quintal e sofrido pelo que eu achava ser amor, quando a puerilidade ainda fazia de mim o homem mais ingênuo que havia na cidade.

Engatinhei por aqueles degraus, subi e desci, aprendi coisas que jamais imaginei que pudesse aprender. Convivi de perto com situações insanas e vi pessoas que admirei assumindo temporariamente horrendas faces de monstros. Os danos provocados danificaram a casa, bem como me danificaram, mas nossas estruturas sólidas e firmes permitiram que nós pudéssemos continuar, apesar das rachaduras. Eventualmente essas cicatrizes na pele, essas marcas na Casa, não seriam mais do que memórias, não seriam menos do que fragmentos de uma totalidade inabalável. O conhecimento nos molda, as experiências nos fazem oscilar e pisei na areia movediça da vida para me sentir afundar vagarosamente enquanto pensava se algum dia seria alguém.

Bem, vocês vejam, vocês que me importam, como todos nós crescemos. Ainda em um passado qual eu não me preocupava com o futuro, eu me recordo do meu pai me colocando diante do espelho. “Filho, nunca se envergonhe de quem você é. Eu tenho orgulho de você e sei que você pode alcançar os sonhos que você quiser. Sonhe, filho e se esforce para alcançar o que pretende alcançar e se possível, filho, não repita os meus erros. Torne-se alguém melhor do que o seu pai”. Eu tenho tentado, pai, você vê? Vivemos as alegrias advindas dos sucessos financeiros, as dores de uma conturbada falência e os tumultos que nos fizeram sobreviver nesse piso escorregadio e gelado que ficou sob nossos pés por um tempo que parecia sem fim. Nós contemplamos juntos e de muito perto o Amor maior, bem como a Dor. Tudo muda, sim, era uma realidade qual eu me acostumava vagarosamente, mais ou menos na medida em que eu não cabia mais na cadeirinha de madeira que meu avô havia construído para mim e para os meus irmãos. Agora jogávamos videogames sentados no chão, na cama ou em outras cadeiras. Absorver a concepção da mutabilidade das coisas era uma tarefa complicada para uma criança. Por que não se pode apenas ser feliz para sempre? Ainda assim, eu envelhecia e sei que vocês também. Quando agora me perguntava novamente se seria alguém, eu me pegava sorrindo, pois havia sempre sido um sujeito singular, repleto de manias e maneirismos, de introspecção e extroversão, de alegrias e tristezas. Ainda que nem sempre eu tenha notado, eu cresci vivendo a vida. Ainda que nem sempre tenha me dado valor, eu já era alguém.

Bom, vocês que me importam talvez saibam, há um certo metodismo na minha melancolia e sou incapaz de ser completamente feliz na maior parte do tempo. Conjecturo cenários incontáveis de histórias que nunca aconteceram e me pego perdido entre ficção e realidade, justamente por entender que ficção e realidade não se separam e que a fantasia muitas vezes oferece prêmios mais recompensadores. A fantasia, a ficção, a magia, todos esses elementos reais permeiam a realidade como uma sombra irreal, mas embora exista um tabu em afirmar que coisas assim existem, eu secretamente sei que elas existem. Deixo este conhecimento adquirido entrar por fendas e a luz do sol entra pela menor das frestas de uma janela projetando uma sombra gigantesca. É difícil não deixar a tristeza entrar, veja, ela escorre como água pelas mãos, mas a alegria canta mais alto e o eco da felicidade é mais duradouro. Lá atrás, quando ainda havia dias em que nos sentíamos invencíveis, eu me lembro de ter escutado uma incontida crise de riso da minha mãe em uma noite de chuva. Talvez eu ame tanto a chuva por, ainda que raramente, escutar o som da gargalhada dela atravessar minha memória. Você percebe como gostamos do som da sua risada, mãe?

Vocês que me importam sabem que a lealdade é necessária e que as maneiras como amizades começam, mais até do que as maneiras como amizades terminam, podem ser controversas. Digam-me, meus irmãos, para onde foram os anos perdidos, digam-me, por favor, quem é que realizou os sonhos pretendidos. Quais de nós se revoltaram com Deus? Quais de nós poderíamos ter feito coisas melhores? Indubitavelmente todos, ainda que vocês discordem. Agora me digam em que áreas investem seus amores e lhes direi sobre o meu coração já não tão pequeno. Conversemos sobre nossas maiores dores em um ritmo calmo e sereno. Digam-me agora para quais deuses vocês rezam, se ainda rezam e, por favor, sejam quem são, puros de coração e com a mente direta. Nunca sabemos quais os ventos que nos carregam. Vocês se recordam de como nós éramos completamente opostos, mas estivemos unidos sempre uns pelos outros? Não sou tão chorão quanto costumava ser e certamente vocês não são tão bravos ou birrentos. Gosto de pensar que ainda estamos melhorando. Agora não dividimos o nosso tempo juntos apenas jogando Super Smash Bros no N64. Agora escolhemos como aproveitar o tempo que temos por entendermos que os dias voam e que tudo é temporário. Nada de fidalguice ou nobreza, mas que nas dificuldades sejamos sempre um por todos e todos por um. Que nos piores dias possamos erguer um escudo para amparar as flechas que chegam de fora, mas que nos nossos piores erros possamos sermos os primeiros a repreender uns aos outros, pois a dureza também é necessária com quem mais amamos.

Tudo isso é complicado, embora seja simples e é extremamente difícil, embora nunca tenha existido algo mais fácil. Da mesma janela que subiu uma barata gigante e fedorenta, eu vi os fogos do ano novo, antes daquele ano se tornar velho e depois ultrapassado. Da janela que via apenas telhas e telhados, eu aprendi ainda mais sobre magia. Nem todas as explosões são prejudiciais.

Na mesma cozinha qual abri uma lata de leite condensado com uma katana, eu, meus irmãos e minha mãe, batalhamos ferozmente contra um pequenino ratinho invasor.

No mesmo quarto onde houve tanto amor, presenciei o sentimento inverso e contemplei incrédulo quando os gritos de raiva reverberaram mais do que os risos descontraídos. Ergui-me com a valentia validada, pela primeira vez na vida, não por acreditar que a violência poderia ser o caminho para chegar em algum lugar, mas por acreditar que só eu poderia parar a fúria de outrem. A marca na madeira alerta que tudo poderia ter sido muito pior do que foi.

No mesmo lugar onde houve tanta vida, presenciei inúmeras mortes.

Se a vida é de nuances, vejam, essa casa grande, espaçosa, representa todas elas. A Alegria e a Tristeza, a Paz e a Guerra, o Silêncio e o Barulho, a Velocidade e a Lentidão. Tudo o que havia na Vida existia naquela casa e, mesmo quando a casa já não era a mesma e eu havia me transformado, ainda era possível encontrar essas coisas presentes lá, como os fantasmas que conhecemos tão bem. As almas penadas nunca são tão assustadoras quando são nossas amigas. As aparições cotidianas de memórias inadequadas chegam apenas para partir. Agora nós sabemos que somos mais fortes.

É uma situação de perspectivas, vocês vejam, vocês que mais me importam. Encham o peito e não olhem para trás, pois vai ser mais difícil do que antes, é cada vez mais difícil, cada dia estamos mais distantes. Dizer adeus para a Casa da Rua Sem Saída, a despedida definitiva, representa o fim de um ciclo. É como fechar a porta para uma parte antiga de nós, uma parte que por tanto tempo simplificou o que havia de mais bonito no planeta. Tudo está, enfim, no lugar certo. O futuro é valioso e sabemos que temos que continuar caminhando.

Creio que a minha prolixidade complique o simples, mas o que tenho tentado dizer é que sentirei saudades da Casa da Rua Sem Saída, dos campeonatos de videogame, das lutas na piscina, do gol a gol, dos jogos do Palmeiras, da família reunida, das centenas de amigos, dos bichos correndo pelas escadas e que, bem, esse acúmulo de memórias delicadas, essas coisas frágeis e infinitas, todas elas permanecerão gigantescas no meu coração. De volta na rua onde nós começamos, eu ressalto que só tenho tentado dizer obrigado e estranhamente o meu agradecimento não é só para as pessoas que fomos e pelas memórias que tivemos. Aqui me reconheço agradecendo a uma casa por ter sido ter sido o ponto de partida do nosso Amor e uma parte incrível da nossa jornada.

A Casa da Rua Sem Saída fica e, embora a rua seja sem saída para a casa, não é sem saída para os antigos moradores delas, assim, o que resta é respirar fundo e tentar começar novas etapas, consciente de que o que foi jamais será outra vez e de que há partes inéditas e lindas para serem vividas nos próximos capítulos da existência. Que as próximas casas sejam abençoadas para nós e que possamos sentir o mesmo sabor de Lar que um dia tivemos na Casa da Rua Sem Saída. Que toda pessoa nesta Terra tenha o privilégio de um dia ser feliz como nós já fomos e como intuitivamente sei que voltaremos a ser.

Eu nunca parti.

Segure um trevo de quatro folhas
Adote um gato melindroso das ruas
Deite no chão de pedra no quintal
e me procure entre as estrelas
Você ainda reconhece o meu brilho
Você ainda se lembra do meu tom de voz
Então me chame pelo meu nome

Deite no sofá da sala e conte até noventa
Tome uma xícara cheia de café forte
que você mesma preparou
Procure-me pelos cantos da sua casa
ou da sua memória quase infalível
Todos eles mentiram
Eu nunca parti
Meus pedaços estão por toda a parte
Você ainda se lembra do meu tom de voz
Então me chame pelo meu nome

Baile com o meu fantasma
Faça de conta que aprendi a dançar
Intuitivamente você sabe que aprenderei
Afague seus animais com paciência
Observa a exuberância de tudo o que é verde
Procure conhecer a beleza do chão
Cuidado para não se tornar camaleão
Erga a cabeça quando o sentimento soar indizível
Nunca se esqueça de que já fez o impossível
Se o fardo for pesado, por favor, divida-o
Você ainda se lembra do meu tom de voz
Então me chame pelo meu nome 

Corra para dentro do bosque
Encontre-me, quando todos me esquecerem
Pergunte para a coruja mais esperta
Estarei perto da maior das árvores
Noctívago, discreto e tangível
Ainda que seus olhos não me vejam

Suba pela escada perigosa até o terraço
Mergulhe na memória do nosso eterno tempo-espaço
Ouça o meu canto desafinado afinar o seu coração
Desfaz-se o gélido inverno na quentura do verão
Sentirá então o calor que sempre emanou de mim
Talvez sinta o aroma do meu perfume favorito
Você ainda se lembra do meu tom de voz
Então me chame pelo meu nome e eu aparecerei

Se o impossível ancorar você na Dor
Recorde-se do que é a verdadeira Beleza
O seu lema sempre foi esse Amor
capaz de superar qualquer incerteza
Então se liberte e nunca mais exista para agradar
Você se pertence e é a mesma em qualquer lugar
Você aos poucos aprende a se admirar
Livre-se de suas roupas e ande sozinha pela casa
Fite-se no espelho e se contemple pelo que é
Agora dê meia volta ou uma volta inteira
como se sentisse o giro do planeta
Escute a minha voz tecendo um elogio
Todos eles mentiram
Eu nunca parti
Vire a ampulheta
Recomece a contagem do tempo
A areia, na verdade, nunca parou de cair
Inevitavelmente estamos envelhecendo
Diga-me para onde estamos partindo agora
Você ainda se lembra do jeito que sorrio
toda vez que você se permitia ser feliz por perto
Então me chame pelo meu nome

Nunca se esqueça de que você vale tanto
quanto as pessoas que admira
E que a grandeza só tem significado
quando de dentro para fora
Apimente suas refeições
Decida se crê ou não em dragões
Cheire alecrim, orégano e manjericão
Regue o cacto uma vez por semana
A gente nem sempre destrói o que mais ama
 
Sopre pó de canela na sacada
em uma manhã gelada de julho
Compre abacates, tomates e cebolas
Cozinhe algo se quiser cozinhar e se não quiser
Durma, assista televisão ou leia um livro
Pule ondas quando estiver na praia
Troque as conchas de lugar
Analise a rotina de uma gaivota
Cuidado com as queimaduras solares
Não se preocupe se tomar um pouco de chuva
Olha bem para o céu quando nascer um arco-íris
Você ainda se lembra das minhas cores
Você ainda se lembra do meu tom de voz
Então me chame pelo meu nome

Dê um sorriso largo sem pensar nos enganos
Veja quanta coisa acontece em um ano
Escreva um artigo de qualidade
Pensa de uma maneira inédita
Permita-se crescer onde ninguém observa

Ouse usar palavras extravagantes e existir longe
Utilize metáforas de sobrevivência
Perdoe os erros mais drásticos,
principalmente os que você cometeu
Aqueça seus pés e o seu coração
Chame seus grandes amigos pelos nomes
Agora convoque também o seu amor

Se porventura se perder,
Você ainda se lembra do meu tom de voz
Então me chame pelo nome e eu aparecerei
sussurrando palavras belas naquele velho tom amigo
Até quando meu corpo se deteriorar
Minha alma seguirá contigo.

O apartamento.

Há um pedaço grande e indefinido
que penso me pertencer, sem certezas,
Ele, que também sou eu, faz exigências
Exige horas solitárias para o processo criativo
Já eu exijo meu café quente para me sentir vivo
Há horas em que as exigências se mesclam
e não sei qual voz fala mais alto e quem escuto
Se o pedaço solto também é meu, afirmo, a outra voz é minha
devo hesitar em seguir as minhas próprias sugestões?
Não sei se nesta manhã confio muito em mim
Subo as escadas e estou no terceiro andar
Viro as chaves e entro no meu apartamento
Ninguém me espera e respiro fundo
É um apartamento espaçoso para uma pessoa
Ganho dinheiro o suficiente, mas não há nada
Um barulho me distrai e ando até a sacada
É a primeira vez em mais de setenta dias
que posso contemplar uma manhã
Meus olhos vislumbram tratores e
me dou conta do tamanho como algo novo
Meu coração se enche de tristeza
Observo homens carregando caixas
Operando empilhadeiras e tratores
Raramente rindo acima da confusão
dos sons altos das máquinas pesadas
Não há mulheres entre os trabalhadores e
ainda assim os homens são mais felizes que eu
Falta-me qualquer luz mínima para findar o breu
Olho para dentro e penso no tanto que já me aconteceu
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Não há mulheres na minha vida, tampouco há amor, sexo e esperança
Há o apartamento no qual moro e existo solitário
Aqui passo minhas pouquíssimas horas fora do trabalho
O bolso cheio, às vezes, coloca-me um sorriso no rosto,

entretanto, ando até a sacada e observo os tratores
Não tenho amores, amizades, carinho, sexo ou respeito,
Não sinto o ódio ou o descaso ou as distrações
É como se a cidade estivesse abandonada ou
tivesse optado por me rejeitar desde o princípio
Tudo o que tenho é este apartamento silencioso
e o suco de limão mais caro do mercado
Bebo o suco de uma só vez e calculo
quantos centavos vale cada gole
É a vingança da minha vida de solidão
Não entendo, mas sei que preciso passar por isso
No futuro passarei por coisas piores e a dor de hoje
me moldará para os desafios inexplicáveis de amanhã
Todo mundo morre no final, eu me ouvi dizer,
É preciso tomar cuidado com a linha que traduz vencer
Respiro fundo e sinto uma brisa gélida
Fecho os olhos e vejo paisagens lindas e lúgubres
através de janelas que nunca pude ver
Sinto como se estivesse ficando louco,

mas há os tratores e a pizzaria na esquina
A realidade é pesada e o barulho me situa
Há um pedaço grande e indefinido,
que penso me pertencer, sem certezas,
A escuridão que assola a minha vida hoje
não chega perto da que eu sentirei um dia,
entretanto, lido sozinho com a cidade alaranjada
Repleta de coelhos brancos e ofensas no trânsito,
Vislumbro um bebê no meu colo
em algum lugar perto de lugar nenhum
Sonho diurno com a vespertina carioca,
Sou o único que capta o momento
em que um camaleão troca de cores
A vil adaptação quando não é feita apenas
por motivos de sobrevivência
Pisco os olhos e descubro o que acontece
após um assalto mal planejado
Olho de frente para uma mentira
que não faz o menor sentido
Conto coisas que canto e canto coisas que conto
As palavras me abraçam nesta desértica solidão laranja
O céu rosa subitamente acinzenta e a tempestade
me convence de que haverá alegrias e tristezas aos montes
Preciso ser feliz e triste para aprender melhor
A vida será ridiculamente mais difícil no futuro, entretanto,
Lá adiante não ando mais sozinho
O apartamento não é mais meu último conforto
O trabalho com números não é o único caminho.

Água Salgada

Improvável filho
de uma força invisível
que não faz questão de ficar
Eterno andarilho
Incansável
Anda e anda e anda
Percorre os trilhos e sabe
Nunca vai voltar
Aprendeu
Catástrofes nos engolem
e temos sorte se esbarramos
em alguém que nos devolva
na boca o gosto da Vida
Lágrimas escorrem de meus olhos
sinto o sal na ponta da língua
Carregamos o oceano no âmago
O mundo se perdeu
Escuto e ouço centenas se repetirem
O mundo se perdeu, mas eu não
Sou acometido por náuseas e vertigens
Não vou vomitar
O fim é só um começo deturpado
Derrotamos o que supomos
fadado a dar errado?
Silêncio, ronco do cachorro,
estrelas urbanas nas calçadas,
carros em alta velocidade,
batida, semáforos, acidentes
Vale a pena sentir o que se sente?
O instinto da coragem te ergue
É preciso seguir em frente
Filho do mar se aproxima
sente a areia nos pés
Filho do mar, não existe sina
Ganhamos e perdemos
apostando na nossa fé
Fecho os olhos e
a areia me afunda
Estou enlouquecendo ou
tudo está acabando?
Sinto muito pelos erros que cometi
A minha vida passou voando
Por anos tive tantas certezas
Tento desfazer meus enganos
As nuvens anunciam a tempestade
Relâmpagos fazem brilhar o céu
É noite já e estou sozinho na praia
Fecho meus olhos e apago, mas
não sei dizer se estou dormindo
Na grande solidão do término do mundo
No ocaso mais tenebroso e escuro
Eu estava luzindo
Uma grande onda chega
Afogando tudo
Cada sentimento
Cada memória
com água salgada
Grito o seu nome e você não escuta
Será que grita o meu também?
Nossa prole também não nos ouve
Os corpos são lançados
em diversas direções
Na língua o forte gosto do sal
Nós nunca nos lembramos
Nós nunca existimos
Nós somos apenas
água salgada.

Fica agora comigo?

Fica agora comigo?
Traz teu corpo pra cá
Diz que é a minha chama
que não espera o final de semana
E que quer a minha cama hoje
Diz que adora o meu sorriso
Admite que quer ficar comigo
sem medo do tempo e pavor da demora
Mente que eu sou seu paraíso
E se permita atrasar até esquecer das horas
Fica hoje comigo e viajaremos para a lua
Dentro do meu carro vagando pela rua
Orbitando outras galáxias
Desmistificando ancestrais falácias
Abandonando tudo por um certo desejo
Diz que não pode esperar mais
Que amanhã tanto faz
E precisa imediatamente
do gosto do meu beijo
Ignore a gravidade e deixe a cidade
Em outros sistemas solares
voaremos juntos
Esmagaremos todos
os péssimos assuntos
Flutuando pelo espaço fora da Terra
Diz que quer dividir comigo sua paz
O resto todo tanto faz
Mas diz que por mim inicia guerras
Diz que eu sou louco de propor
a minha vida inteira
às 21h30 de uma segunda-feira
Ignore os maus pressentimentos e o medo
Sei que trabalhamos amanhã cedo
E talvez eu tenha enlouquecido
Quero te sussurrar meus segredos
Alegrar o seu tão previsível enredo
E se acordado não te encontrar
Espero pelo menos te achar
enquanto estiver dormindo.