Terça-feira morna

O lusco-fusco deste fim de tarde atinge minha pele pálida. O sol se recolhe e o temor cresce nesta noite sem luar. Fecho as janelas e respiro fundo, tentando apagar a sensação incômoda que me sobressalta. O cão, leal, fita-me carinhosamente com seus olhos de jabuticaba. O gato, bicolor, recolhe suas patas e deita ao lado do meu braço direito, cobrindo a distância que pode, sem me atrapalhar. Antes que a ausência da gata se faça sentida, observo-a surgir na porta do escritório e me analisar com uma seriedade misteriosa e complacente, antes de subitamente começar a lamber os próprios pelos em uma higienização longa e demorada. Tudo no cão e nos gatos é absolutamente natural. Estranho-me ao me deparar com a minha imagem letárgica, absorvendo a invernia deste início de novembro. A estreia do penúltimo mês do ano me deixa reflexivo e meus pensamentos percorrem vielas escuras e perigosas. Nos filmes e na vida, não há razão que justifique a insensatez de adentrar um beco de penumbra onde sombras de bichos se misturam e se confundem com fantasmas de pessoas, entretanto, para provar a minha espontaneidade e livre arbítrio através de uma atitude de pura estupidez, eu me flagro caminhando em frente.


Revolvo-me para dentro, interiorizando-me, internalizando-me, buscando no cerne qualquer coisa com uma pitada de magia, qualquer coisa que me faça deixar de pensar, qualquer solução para voltar a sentir e agir estritamente por instinto. Se todo o sofrer é individual, por que eu me comovo com as dores que não sinto? Se isso não é tristeza, será que secretamente minto? Os mecanismos e as mecanicidades engessam as ações e a sociedade se torna previsível, robótica. As academias de musculação estão cada vez mais lotadas, não pela preservação da saúde, mas por uma espécie de estímulo ao senso coletivo de estética. Todos nós devemos ter os abdomes tonificados e os músculos fortes. A flacidez apavora tanto os cidadãos modernos quanto a fome assola os miseráveis. Tudo que é fruto de um senso coletivo gerado através da indução premeditada me apavora. Resumimo-nos ao que nunca fomos. Os titereiros balanças suas cordas e as pessoas correspondem aos comandos. Absorvem doutrinas inteiras em um minuto e depois abrem suas cabeças ao fanatismo, sem compreender que é um caminho sem volta. Marionetes robustas, violentas e manipuláveis. Ajoelham-se para falsos deuses. Espalham notícias, antes mesmo de as lerem. Tornaram-se os robôs revolucionários, não pensantes, convencidos pelo primeiro vídeo editado que recebem. São liderados por qualquer um que entoe um grito populista e falsamente revolucionário. Pensam-se vitoriosos, mas o que acontece é justamente o contrário. O surgimento dessas novas estéticas, dos novos sensos comuns, dessa necessidade estrita de concordância, envenena pouco a pouco a minha alma. Se não formos iguais, não servimos. Quando suas ações não visam o lucro, quando suas ambições não são puramente monetárias, quando a astronomia da tua existência não engloba e engole o tempo inteiro o que ditamos como Sucesso, outras palavras ardilosas e ásperas como Fracasso entram traiçoeiramente como a brisa gélida pelas frestas da janela. Um dia eles foram outras coisas, mas já não se lembram de quem era. Aprendi que qualquer um que esqueça o passado se torna desprotegido quanto ao futuro. Talvez seja por aprender tanto que diminuí a frequência com que canto e vejo meu coração mais duro.


A alma não pode se tornar empedernida. Os conhecimentos que absorvemos com calma, creio que de alguma forma os levamos para outras vidas. Não é possível que isso seja tudo. A estética grita e cala o conteúdo. Tento falar, mas estou mudo. Será que é mais uma derrota amarga para processar? Não admito que isso seja o fim. Por vezes, sinto que a vida vai acabar, mas ainda tenho tantos sonhos em mim.


O peso das responsabilidades mundanas me sobrecarrega. A crueldade que não pude herdar de nenhum parente distante, esse ímpeto de bondade constante é o que me cega. Não posso admitir ser uno, se sempre me torno outra coisa. Mudo o tempo inteiro e abro a minha cabeça para mais, sem me imbecilizar. A religião de não ter religiões, eu, indivisível e puro, oscilante, falível, confio no meu próprio coração. O maior prazer mora ainda dentro da ilusão. Salto no abismo da inconsciência alvejando me tornar ainda mais puro, ansiando por agir de acordo com todos os estímulos que necessito para satisfazer a alma exigente. Mereço mais e sei, entretanto, acocoro-me no canto perto da privada e vomito, lúcido, sistemas, teorias e teoremas inteiros. Reviso mentalmente livros que nunca foram escritos e me sinto perto da morte e perto do divino. Penso-me grande, mas tenho todas as idades que tive e a gente só sobrevive se guarda em si um pouco de menino. Será que prezo em demasia a criança que fui? Desde a infância amo o vermelho e hoje noto que perdi meu reflexo diante do espelho. O vampiro envelhecido que não envelhece, a cabeça que não se expande, o antigo desejo de existir longe. O primitivo anseio de beber sangue. Ó, escuridão sombria, esconda-me hoje, esconda-me até o domingo, proteja-me quando nada mais puderes servir de escudo, projeta-se e fala quando eu me fizer mudo. Cavaleiro das mil noites trajado em seu manto rubro. Que valentia o faz enfrentar a morte sorrindo? Vituperado prossegue sem sorte com a memória de quando o mundo era lindo. Era lindo por que o era ou por que havia quem amar? Assim como o inferno, o paraíso também não é um lugar. Verifiquei a necessidade dos outros para ser profundamente triste ou imensamente feliz.


Tudo envelhece e um dia voltarei ao pó. Tudo arrefece e no fim se anda só. A vontade de não ter vontades, os suspiros cansados no meio do expediente, o meio expediente da vida, que pode ter acontecido a qualquer momento. Eu sozinho e sem saber como seguir e me orientar. A minha memória em outra cidade. O coração no lugar certo. A alma papeando com divindades em outras cronologias e distantes desertos. Eu tentando aprender algo para que. Tentando ouvir mais e se. Preocupando-me com os outros, mas sem receber essa preocupação de volta. Todos os desejos alheios foram realizados com leveza e facilidade, exceto os meus próprios. Tudo foi conseguido pelos opróbrios. Eu, quase corajoso o suficiente para ser digno, desdobrando-me e desbravando tudo, ficando quando todo o resto vai saindo, eu sofro solitário, sem ter ao menos meu próprio tempo para sofrer. Luto para fazer valer cada momento e mesmo quando tento e venço, é difícil sentir como se eu não tivesse acabado de perder.

Obrigação insistente.

Tenho vivido como se a vida não passasse de uma obrigação insistente, um constante cálculo de penhores, como se tivesse nascido devendo e por uma espécie de premonição, por um instinto divino, virasse a cabeça para trás e reconhecesse uma boa parte de mim que não reconheço completamente, mas enxergo como o exímio vendedor da loja de perfumes que vi apenas uma vez e que por saber vender e sorrir, gravou-se na tela de minha memória. Por vezes fito a tela e tenho a nítida sensação de que a vejo em todos os dias de minha vida, como um filho apegado à mãe, que cresce se escondendo atrás de suas pernas, seguro na proteção materna, na lembrança pontual do sorriso reconfortante. Em outras ocasiões, franzo o cenho e me flagro arisco, vulnerável, defectível e humano, assim, minto que me lembro do semblante do vendedor, entretanto, a imagem é confusa, distorcida e vaga, como se as faces de todos os vendedores do Universo formassem uma amálgama que atordoa a minha alma. Perco-me do fio que me conecta a mim, esqueço-me, atraso-me e perco os horários. Os começos todos soam como fins. Sou um e simultaneamente vários.


Cutuco minhas feridas com a teimosia de uma criança que arranca a casca do machucado recém cicatrizado e observo o sangue escorrer preguiçosamente. Entristeço e sorrio, como se tivesse a vivência de um Deus esquecido que permaneceu sozinho neste planeta silencioso por éons, como se tivesse vislumbrado o Aleph, visto os sóis da Galáxia, antes que me deixassem com apenas uma estrela imensa de calor. Nestes dias, busco em mim a satisfação própria e por não encontrar ou, por me julgar demasiadamente hipócrita ou frágil, recolho-me para dentro como uma tartaruga voltando ao casco, revolvendo para os confins do porão de mim, buscando a própria Via-Láctea cardíaca da minha alma. Lá e em Imaginações, devo encontrar a Redenção que procuro pelos crimes que nunca cometi. Lá e Além, devo compreender o que hoje para mim se escapa na simplicidade sem misticismos. Confio a minha vida a alguém que não deveria e sofro. Desconfio e descredibilizo a minha existência num ato de covardia fúnebre e me vejo tiritando, amedrontado por quem nunca ousaria me ferir. A distância entre a eternidade, o nunca e a primeira vez é curta. Os acertos reverberam. Os erros também.


Humanizo-me e não choro. Abro a gaveta da cozinha e pego uma faca. Brinco com o cabo da faca em meus dedos, leve na consciência pontiaguda de que um movimento errado pode me fazer sangrar. Pisco e me lembro então da casca arrancada, com uma espécie de ironia argêntea. Qualquer um que arranque uma pele morta não é acusado por sua negligência ou afobação, entretanto, alguém que brinca com uma faca e deverá ser interpretado erroneamente. Checo o interior da geladeira com uma desculpa para me livrar dos meus pensamentos mais torpes. Encontrar algo que não se procura traz uma fonte de alegria inesperada. Sobrevivo soporífero nas rotinas diurnas e nas madrugas, triplico a intensidade da minha rotina em sonhos sonâmbulos. Morri em uma queda de elevador triangular. Fui coroado imperador onírico em qualquer século antes de Cristo. Vivi numa realidade em que não havia deuses e que não havia a mera ideia de deificar normalidades. O comum era raro e tudo era extremamente comum. Olhei as coisas pela primeira vez e chorei, como quem corta uma cebola e sente a súbita ardência nas órbitas oculares. Corri até a janela e todas as paisagens eram imensas e deslumbrantes.


Cri, até deixar de crer. Sonhei, até verificar meus sonhos esfacelados pela pungência da realidade desconexa. Eu, que mereço, nunca terei. Os que não merecem, em regra, se cumprem e conseguem exatamente o que pretendem, assim, deveria apenas consumir este mundo de coisas frágeis e lentas ao invés de me comover por suas misérias. As tragédias são individuais e intransferíveis, mas qualquer um que viva a própria vida com as mãos no volante e, vez ou outra, ouse lançar uma olhadela para o retrovisor que revela as outras vidas, pode acabar batendo o carro. A feiura da realidade mancha a tela branca de nossa consciência oportunista.


Há inúmeras crianças e adultos e velhos espalhados pelo planeta, quase nus, sentindo a fome dilacerante. O que sobreviveu de suas consciências é mais atroz que a fome e são obrigados a engolir um pedaço jogado de pão, como quem engole todas as vidas que houveram antes dessa, como quem é obrigado a admitir que não possui nenhuma memória de dignidade e deve comer os restos que encontra no chão, exatamente como fazem os pombos. Aqueles vultos são escombros, pedaços de homens e mulheres que se perderam ao longo do caminho. Há quem dê de ombros e refute “nascemos e morremos sozinhos”. Há quem encontre saídas e mude a própria sorte. Há quem só sofra durante a vida sem nunca pensar na morte, pois se sentem antecipadamente mortos. Tudo é aterrorizante para quem vive com medo. O sofrimento é constante para quem se sufoca com inúmeros segredos. Refém das projeções d’alma, comovo-me, enraiveço-me defronte ao mais simples caso de adultério. Tenho sobrevivido sendo quem sou, entretanto, não compreendo ainda meus próprios mistérios. Fito sério o meu rosto no espelho e envelheço devagar. Sinto-me exposto e a contragosto, estou mais perto de algum lugar. Que paisagem é essa que me aguarda, ainda não sei. Se nunca morri por um capricho dos Administradores, se mantenho o meu emprego de Daniel enquanto a alma veste este corpo imperfeito, por que me preocupo com o futuro, se ele não existe? Que é que molha o meu copo de chope e faz minha alegria ser triste?


Nasci para não me cumprir e a expectativa pesa meu corpo. Teso, sinto meus olhos fixos nos retrovisores. Minhas mãos estão firmes no volante, porém falho em retomar o campo de visão da estrada. Sinto como se uma colisão fosse inevitável, entretanto, o carro segue adiante sem danos severos. Os meus planos já não acontecem como eu espero. Olho-me, curioso, seco, duro. Observo quem está de fora e foge das análises individuais em uma tentativa infantil de tentar se evitar. Ninguém corre mais rápido que os problemas e por isso é fácil notar que todas as tragédias estão sempre ao nosso alcance. O passado, inútil como nostalgia e fundamental como lembrete, avizinha-se constantemente do atual, do pensamento de hoje e constato que quem se firma no presente e somente no presente é consequentemente mais feliz. Que ideia vaga e ultrapassada é esta da realidade. Pisco e vejo centenas de vidas ocorrendo diferentes, apenas por uma decisão caprichosa de virar a esquerda instintivamente e não para a direita. Vejo o Universo rugindo cenários e mais cenários, incalculavelmente drásticos e felizes e tristes e caóticos e diferentes. Fixo-me na realidade sem chorar pelas milhões de vidas que nunca vivi, entretanto, espio pelo buraco no muro, pela fresta da janela que alguém deixou aberta de maneira descuidada logo antes de um dia de tempestade e encaro inúmeras outras realidades alheias. Julgo entender como aquelas pessoas, tão sólidas, íntimas e confortavelmente confiáveis na minha intuição poderiam me trair e sofro oniricamente por todas as traições que já sofri em outros cenários, por meio de outros sonhos e gestos, que por vezes se igualam a qualquer realidade atravessada que fira o ego. Sobre o olhar da consciência, preferia me manter cego, mas enxergo os detalhes paisagísticos de um aceno distante, de um sorriso febril, de uma vingança muda de uma traição que nunca houve e me calo, repousando a minha quantidade avassaladora de pensamentos em Lugar Nenhum. Sento no sofá e vejo o cachorro andando pela casa, assim como os gatos, assim como um garoto tímido de cabelos pretos e lisos e que sonhava em usar um topete, assim como um velho escritor lúgubre e quase satisfeito, não concretizando a satisfação própria por não escrever e finais e sim novos epílogos, por insistir em escrever novos capítulos, por adoçar a vida através de chocolates amargos. Tudo desfila diante dos meus olhos, o que foi e o que fui, o que nunca recuperei e sorrio exultante, como se triunfasse secretamente sobre a vida, que é particular e barulhenta.


O que sabem de mim, ninguém o sabe. O que sei de mim, não o sei. Coroado por vilanias e crimes, nunca fui rei de nada. Em sonhos diurnos fui tudo e fiz tudo. Senti frio, prazer, fome, vergonha, calor, orgulho e até felicidade. Vivi como se a vida significasse algo e posso jurar que vi os Administradores zombeteiros gargalhando da minha pequenez, com a convicção de que por um capricho sem esforço poderiam se livrar de mim. Quiçá a realidade seja apenas uma ilusão e todas essas crenças concretas não passem de coisas corriqueiras.


Interlúdio. O gato deita no meu colo e me fita carinhosamente. Olha dentro de meus olhos com um amor tão profundo e verdadeiro que, por instantes, creio na ilusão estéril de minha bondade. Isso não é útil e tampouco verdadeiro. Ninguém é puramente bom ou ruim, entretanto, o felino deita um olhar longo e repleto de amor, confiando sua frágil existência e todas as suas sete vidas a mim. A melancolia preenche o quarto somente nos espaços não ocupados pelos gatos e pelo cão. O vento ululante sopra qualquer nota de triunfo e sorrio conformado. Volto ao dia de ontem e celebro silencioso a vitória da Democracia, rezando, sem religiões, para que este país polarizado se una, para que se pense mais do bem coletivo do que no individual, para que se preze o que é justo acima daquilo que desejamos solitariamente. Os fanatismos todos me exaurem, assim, ao olhar minha imagem corcunda e cansada no espelho, percebo que o que é alheio tem em si o potencial de vituperar a minha saúde e sanidade. Não são mais do que soldados de uma causa desconhecida. São, eu me vejo solitário numa terra perdida. Prezo pelas luzes nas janelas acesas e pelas pessoas que se movem em seus quartos, em suas restrições, em suas liberdades. Ninguém se importa com o que deveria se importar. Tudo me foge e estremeço novamente, entretanto, é preciso confiar em dias melhores. Respiro fundo e vejo claramente, por um instante sacro, a imagem célere do Paraíso. O alívio necessário encontro na profusão dos meus sorrisos favoritos.


Tenho vivido como se a vida não passasse de uma obrigação insistente, um constante cálculo de penhores. Juntei dinheiro o bastante, mas agora não me lembro do nome do vendedor, não, eu tentei de tudo e não me recordo de sua face, de sua voz ou de seu tom de pele, não, nem mesmo das informações mais básicas. Suspiro.

O avião decola e muitos dormem. Talvez eu seja um deles, sempre dormindo, sentindo a pressão nos ouvidos até não escutar direito e ficar incomodado ou desmaiar em um sono profundo, raro e absolutamente silencioso. O avião decola e julgo que durmo, julgo que nunca acordo, porque todos os voos decolam e aterrissam e eu, mesmo tolo, creio que todos os voos são um só, ainda que todas as jornadas sejam diferentes. Afivelo os meus cintos e me reforço na prudência. Nunca hei de me concretizar. Os sonhos passam entre as nuvens. Não consigo fazê-los acontecer. Letras e ideias flutuam em percepções gênias, como milagres científicos sobrenaturais fabricados pelo meu cérebro, mas pisco meus olhos e todas as ideias voam para fora. Será que o sonho vale mais que a vida? Será que projetar a vida é sabotar o sonho? Nada jamais me convenceu de que a realidade é real, exceto os fracassos. Queria, por merecimento, apenas sentir que me entregarão pela boa vontade tudo o que mereço. Gargalho da minha ingenuidade. Só os suficientemente ousados e vis se concretizam e disso já sei. Ouço o choro do filho que ainda terei e o aninho em meus braços, prometendo para ele segurança e carinho, mesmo que isso esteja distante do meu controle. Não controlo nada. Talvez tenha morrido na estrada, na BR-163, muito antes do bloqueio patético dos caminhoneiros, muito bem pagos. Pisco e estou de volta ao avião. A aeromoça me oferece uma refeição leve. Peço os lanches, tanto o salgado quanto o doce, bebo o café, a água e depois durmo. Tenho a sensação de que nunca mais vou acordar. Tenho vivido como se a vida não passasse de uma obrigação insistente. Tenho a sensação de que nunca vi verdadeiramente. Deita e dorme, garoto, você fez muito e eu sei que parece pouco, mas você pode permanecer contente.


O peso ou a leveza, eu ainda me pergunto frequentemente. O importante é enxergar e propagar a Beleza. Este é único motivo legítimo para seguir em frente.

Verdades Inconvenientes

Só posso confiar em meus dedos
Subitamente eles escancaram verdades
das quais eu não ouso desconfiar

A psicologia nada serve
para quem vive na teia da aranha
A naturalidade que se exprime com leveza
é absolutamente enganadora

Alonga-se e dá um sorriso triste
O mestre titereiro puxa as cordas
A bailarina come, mergulha,
luta, dorme e até sonha, mas
nunca resiste e nunca dança

Teu corpo repousa longe da violência física, porém
finge não saber que a alma é vituperada todos os dias

Kiwi, morango, segredos batidos, cítricos
Tudo o que não se pode ter certeza
Abóboras zombeteiras no Halloween
Teias de mentira entre as de verdade
Isso tudo favorece a confusão dos ingênuos

Gêmeos caminham antagônicos
O mau contra o bom e os dois supérfluos
Um inseto com grandes antenas pousa na janela

Só posso confiar em meus dedos
Meus olhos captam imagens, vislumbres, estéticas,
Meus dedos desnudam vilezas, crimes, pecados
A voz hesita na mensagem e no tom
Os dedos, cruéis, são convictos

A coragem de ser covarde assumido
O coração mais resistente que o vidro
Tudo estilhaçado e espalhado pelo chão
Minhas vísceras, minha pele, minhas mãos

O sal dos olhos toca a ponta da língua
Estou comovido com um relâmpago na estrada
A BR-163, o Hospital Miguel Couto,
Tudo de novo e outra vez até estar morto
Tento gritar, mas já estou rouco

Sinto-me aliviado por conseguir usar os dedos
Estou pronto para revelar minha alma e meus segredos
Começo admitindo que sou um homem repleto de medos

Sacralidades profanadas em qualquer noite de quinta
O interno não aguenta mesmo tinta
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Só os tolos acreditam em velhas e novas esperanças?

Não há sequer um conselho que me disse que presta
Ninguém estampa a alma na própria testa
Não te falaram? Paris não é uma festa

Lá se vai o sol em outro fim de tarde
O que há de perder não tem onde guarde
A invernia me dominou, mas meu peito ainda arde

Morangos mofados, frutas podres, crises de identidade,
Homônimos perdidos e esquecidos pela cidade

Eu sei que muita gente não vale o que come,
mas você esperava que eu deixasse alguém passando fome?

Pinheiros, árvores redondas, garotos e garagens,
Circos, cachorros correndo na chuva, bichos selvagens,
A bola oito, o fim do jogo, o ressurgimento, o que importa,

Está morrendo afundando em uma espécie de senso comum
Está deificando um ser humano ridículo e se apequenando

Olha, sorri para as flores, canta para os amores,
Aposta corrida na rua e personifica o vexame
O estresse só aumenta e tenho medo do derrame

Sinto que posso morrer jovem e assim se lembrariam
da minha cafonice eternamente juvenil, mas diriam
eis ali um homem que sabia

Quando alguém quebrasse o silêncio fúnebre
perguntando sob a minha lápide sobre que diabos eu sabia
Quiçá surgisse alguém com certa intimidade e contasse:

Ele sabia sobre Tudo, sobre o Mundo, desde cedo,
mesmo assim ele quase nunca dizia, só antevia,
porque a verdade só se revelava nas pontas dos dedos
Meu espectro vazio talvez esboçasse um sorriso
Será que meu espírito merece o paraíso?

Olha, que tudo passa rápido e o hoje logo vira ontem e
A vida é para quem sabe viver e buscar o prazer
Olha, eu sei que falando assim, parece a ti que fiquei louco,
Sou um homem com muito, mas transpareço pouco

A estética que me importa é invertida
Aprendi há tempos o Nome da Vida

Todos precisam tanto de mim
Sou eu que as coloco de volta nelas mesmas
Ah! Sou eu que as faço enxergar suas belezas!
Ah! Sou eu que encerro, reato, sorrio, xingo, amo, odeio!
Ah! Parece-me que precisam de mim com uma espécie de sobrecarga
Acordo cedo e como chocolates e evito que a vida seja amarga

Tentei explicar à minha mãe e à minha namorada,
Olha, eu às vezes preciso ficar sozinho e me conectar
com as partes distantes de mim das quais me esqueço
Se coloquem no meu lugar, eu agradeço,

Obrigado, de nada, companhia, solidão, best-sellers,
Futebol, tartarugas, corujas, a escuridão e o medo,
A tua luz salvou a minha vida e este é outro segredo

Não tenho confiado em minhas percepções, entretanto,
acredito cegamente nas revelações dos dedos

Faça silêncio, por favor, há alguém dormindo
O choro de um novo menino vem surgindo
Vamos juntos agora, sigam-me os bons,
Tenho sido um grande líder, mas não admitem
Habitualmente querem andar atrás de mim,
mas aperto os seus braços e digo: andem ao meu lado!

Ouça-me capitão, tritão, um dia serei lembrado
Falo tanto que muitas vezes não sei o que dizer
Flagrei-me aos prantos até o amanhecer

Estou me tornando arisco outra vez
Meu coração de bicho de rua vê os faróis
Acordo suado entre os meus lençóis

A ampulheta jaz ao meu lado e a areia escorre
A minha memória enfraquece e ninguém me socorre
Tudo bem, todos precisam de mim
Meu instinto heroico sonha com uma morte bonita

Rio das mortes idiotas e isso não aceito
Rio da minha lorota: – como se eu controlasse o jeito

Gargalho e o som retumbante da minha risada
se parece com o relâmpago da estrada naquela vez que chorei

Do tudo vamos ao nada, mas nasci para ser rei

Olho para minhas excentricidades e me acho incrível e patético,
A realidade é que amo meu tipo de senso estético

Sonhei que era atropelado, mas acordei aliviado
Não havia sido vítima fatal do maior de meus medos
Sorri, sem entender meu próprio mistério, feliz e sério:
O importante é que eu ainda podia usar meus dedos

As maiores verdades são inconvenientes
Ninguém se importa tanto assim com a gente
Cada um se concentra apenas no que sente

Adivinhei a vida, mas o segredo dela me escapou
Tenho uma impressão frágil de que Deus me abandonou.

Inventado para outras coisas.

Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
Olho lento e existo longe
Quando não tento
Encontro-me no horizonte
Paisagens sem encerramento
A personificação do cansaço
Um astronauta vaga à esmo
seguindo planetas como seus mesmos
Recriando seu tempo-espaço
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
A maioria delas furiosamente delicadas
Aprendi muito novo o valor do nada
Há muito que se consegue com a ponta da espada
Há segredos ocultos no rabo da palavra
Astronomia do sonhador que sempre fui
A vida de escritórios que nunca amei
Tudo se dilui entre os mistérios que inventei
Livros tortos, quadros, sapos e corujas
Edredons, fantasmas, fadas e roupas sujas
Constelações ancestrais e carneiros
Minha coragem e tudo que é verdadeiro
Fui sempre sozinho por ousar ser inteiro
Sem me encaixar nas molduras
constantemente me julgam mais jovem
Não entreguei a minha alma ao retrato
jamais me atreveria ao destino de Dorian
A juventude e a beleza compartilham um fim
Ambas acabam diferente dos sonhos que existem em mim
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
A dureza férrea e a secura do vinho
Meu jeito sério subitamente se abre em sorrisos
Sou aquele vago oceano no fim do caminho
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
Danço no escuro do meu apartamento
Ao som de Lord Huron vão meus movimentos
Conto os carros que passam com dificuldade
É perigoso esquecer de ligar os faróis quando a noite cai
É corajoso permanecer quando o resto se vai
Sombras fúteis lavam louças
na metade da madrugada por bajulação
Venderam-se por coisa tão pouca
e se rastejam suplicando atenção
Fui inventado para outras coisas
Está claro para quem me olha
Fito nostálgico o sol do fim de tarde
Quando o crepúsculo me escapa
Sinto que algo no meu peito arde
Para não dizerem que não falei das coisas frágeis
e do tanto de verde que há na natureza
Para não dizerem que não lhes contei
que depois da Dor se encontra Beleza
Para não dizerem que eu não tinha flores
até no meu nome do meio
Para não dizerem que só pisava no freio
Amei tudo o que pude e o que não pude amar
Prometi me esquecer no futuro para me resguardar
da infantilidade inútil da vingança
Quando tudo se acaba sobrevive a esperança
Somos todos eternamente crianças
Considerações finais deste solilóquio
A solidão não me fere e preciso ser cauteloso
Já fui viciado na melancolia profunda
Olho devagar e vejo com calma
Por vezes antevejo até os desejos da alma
Só que tudo que sei sobre os outros
Quase nunca sei sobre mim
Não tenho opiniões e apenas instintos
Estou preso em meus próprios labirintos
Tentando encontrar alguma coisa que nem sei
Tentando me chamar pelo meu primeiro nome
Tentando enxergar insistentemente o rosto
que eu tinha antes da criação do Universo
Rabisco mais um verso e me desconcentro de tudo
Durmo tarde e devoro outros mundos
Estou aqui, mas estou por toda a parte
Está claro para quem realmente me olha
Fui inventado para outras coisas.  

Artista.

As coisas começam e acabam

Nunca duvide do que encontra

no rabo da palavra

Solidão e borboleta amarela

Anteontem extraiu do coração

Uma autodestruição das mais belas

Pintou uma obra de arte

A tinta seu próprio sangue

Por não se duvidar artista

Teve uma severa hemorragia e morreu

A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso

Junto com um bilhete e um último aviso:

Digam que ele nunca se arrependeu

Einmal ist keinmal.

Carneiro.

Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.

O cruel destino da autoidolatria eterna.

Meu sangue pinga pelo apartamento
Tinge o piso todo de vermelho
Congelam-se meus movimentos
Em face do que vejo diante do espelho

Escrevo no papel na intenção de me libertar
Ouço risinhos e cochichos aos montes
Nesta terra quase ninguém sabe o seu lugar
E eu, mesmo sozinho, vou existir longe

Distingo os tipos de sorrisos
Reconheço centenas de Narcisos
O cruel destino da autoidolatria eterna

Os bajuladores estão sempre serenos
Se fodem, se beijam e trocam venenos
Bebem com o mesmo deleite o suco, a cerveja e o esperma

Descupinização

A descupinização é fundamental, pois milhares de casas já desmoronaram tendo como únicos culpados os malditos cupins. E os linguistas, preocupados com os cupins, logo trataram de inventar uma palavra que nunca poderia sonhar em ser bela na estética, apenas para evidenciar pela feiura a inevitável vilania dos isópteros. Não se atente ao detalhe errado. Aqui tenho a tendência de perseguir os cupins e sobre os sonhos das palavras discorrerei em outra oportunidade. O que explicaria o ódio dos linguistas aos cupins? Experiências e traumas pessoais? O que traduziria a relação entre gente e cupim? São apenas insetos, eu lhes diria, entretanto, há uma crença popular e verdadeira de que devemos conter o número dos cupins e devo admitir a realidade desta assertiva, mesmo que o povo se apraza costumeiramente de comprar uma fantasia bem induzida. Acredito que exista um medo secreto compartilhado pela humanidade de ser subjugada pelos cupins ou pelas baratas ou pelos ratos, roedores estes que certamente são mais inteligentes que quaisquer insetos. As formigas que também estão espalhadas pelo globo terrestre e que não são íntimas ao frio, são fortes candidatas, mesmo com suas formas minúsculas, a nos destronarem, assim, a humanidade promove o extermínio de tudo o que pode e não é raro descobrirmos que promovemos a extinção de novos seres.

Imagino como seria a mim, subjugador dos animais e dos insetos, se uma criatura gigante surgisse e me obrigasse a viver de outra maneira. Devaneio sobre o que eu faria se um gigante me erguesse na palma de suas mãozorras e me dissesse, “filho, terei de te matar, mas é para o seu próprio bem, lembra de quando exterminou o cupim por causa que ele comia as madeiras da casa, bom, eu sei que sim e você, Daniel, está comendo as partes boas deste mundo inteiro, você e os seus colegas humanos fazem muito barulho, fazem sexo de qualquer jeito, queimam coisas demasiadas, acumulam lixo e certamente existem em uma quantidade excessiva, assim, te matarei pelo amor e pelo respeito que sinto à sua espécie, como um gesto supremo e superior que resume toda a nobreza de meu coração valoroso”. Sem alternativas, eu teria que concordar, sem mais argúcia argumentativa na fala, sem sequer uma tentativa desesperada de sobrevivência, veja, os cupins nunca suplicaram diante da descupinização e eu nunca vi uma barata que dissesse “poupe minha vida”, elas, dignas, apesar do esgoto distante e sujo de onde surgiram, possuem um brio invejável e não suplicam, mesmo quando são alvos das chacotas felinas. Não hesitam e nem clamam por misericórdia, nem mesmo quando desmembradas pelos gatos.

Dos humanos que se enraivecem diante dos cupins, destacam-se os arquitetos, que não podem aceitar que outros também projetem edificações belas e os engenheiros, que creem que seus capacetes são coroas, invejam a instintividade dos cupins, sem ter a menor consciência sobre eles, indagando-se se eles fazem contas e se utilizam fórmulas matemáticas para erguerem suas estruturas ou não. Para nós tudo é disponível e talvez este seja o segredo desmistificado por trás de desvalorizarmos tanto a tudo. O louva-deus morre depois que copula e por isso ele também louva o sexo, praticando-o com a certeza da não repetição, entregando-se ao orgasmo e à morte simultaneamente. Quem fode convicto da morte só pode foder bem. Pressão? Claro que não. Se a morte é a última consequência, o sexo que antecede a morte é apenas uma despedida e quisera eu saber quando vou morrer para nunca fazer sexo de qualquer jeito.

O que pretendo com este relato não é convencer a humanidade de suas incomodas manias segregadoras ou coibir os atos hostis que nós e os nossos colegas mais ou menos humanos praticam. Ouça e escute o que falo ou apenas leia, para que entenda o que eu digo, sem inventar falso sentido nas minhas ações. A única intenção que tenho aqui é que você anote o telefone do homem da descupinização, pois é preciso exterminar os cupins a qualquer custo. Se porventura se configurar a necessidade, se a ameaça for urgente, chame imediatamente o responsável pela desratização e se as baratas fofoqueiras lhe encheram a paciência, adote um gato ou ligue para o desbaratador ou um dedetizador de primeira. O desempregado é, sobretudo, um desocupado e se cada alma se dedicasse ao lixo reciclável ou ao extermínio dos cupins, quiçá encontraríamos pessoas melhores, munidas de um sentimento puro e tolo de orgulho e talvez nem houvesse desemprego e cupins no mundo.

Suspiro e penso na descupinização, enquanto rezo para que não existam tantos desumanizadores (exterminadores de humanos) no futuro e que não me cacem pelas ruas por individualmente ser responsável por uma existência coletiva excessiva. Os agrimensores, os testadores de motéis, os limpadores dos lutadores de sumô, os que possuem profissões raras ou feias, incutidas sutilmente por uma deformidade perniciosa promovida pelos linguistas através das palavras que definem essas descrições e explicações, esses de profissões estranhas também importam, mas quanto mais o dia avança, o sol cai e o mundo gira. O sol some aqui e aparece do outro lado do planeta. Todos começam a entrar em um estado de sonolência e eu me percebo lúcido. Sinto uma tendência a culpar os cupins pelas minhas mazelas, reparo que até os nomes deles compartilham as letras da culpa, malditos cupins culpados, cupins cultos e invertebrados, estúpidos e culpados, cupins miseráveis por todas as minhas falhas. Respiro e sinto uma paz serena adentrar subitamente o meu coração.

A prova de que Deus existe é a DESCUPINIZAÇÃO.

Rumo.

Sinto saudade da estrada
Meus olhos castanhos escuros
chegavam nas boates e bares sempre procurando
Observava cada rachadura nos muros
enquanto a vida ia passando
Só me deparava com mentiras
espalhadas pela cidade
E eu que estava sempre na mira
Sabia que nas estradas havia
a única e esquecida verdade
Estar lúcido e sóbrio
prestes a desistir ou a admitir
É o consolo dos loucos,
Os que enxergam um pedaço da verdade são poucos
A consciência requer inevitabilidade
Quando podemos morrer a qualquer momento
somos honestos com a vida
Odeio ter a capacidade de ler as entrelinhas
Uma vez quase morri nas estradas,
E ainda assim sinto falta
das mãos no volante
E da necessidade de contar apenas
com meus reflexos para sobreviver
Qualquer caminhão ou ônibus
surgia como um monstro pesado
E eu, encolhido em meu carro branco,
antes de comprar um carro preto,
Sabia que não poderia ficar desatento
A vida é este detalhe discreto
E se dormimos na hora errada
somos esmagados como insetos
Há diversas plantações dos dois lados
e há bois e vacas e carneiros espalhados
Há também pombas que pulam no para-choque
e me pergunto se as aves se suicidam
As nuvens cinzas escolhem locais específicos para chover
E eu sinto falta do menino que eu era
antes da última primavera do mundo
Um jovem que acreditava em cartomantes,
dados viciados e na influência das marés
É estranho absorver a verdade
que o asfalto transmite
A máquina do tempo já foi inventada
É o cérebro quando estamos concentrados
em chegar em algum lugar
Qualquer lugar
Assim eu voltava brevemente
A minha prolixidade de sentidos
por vezes me fazia ficar calado
Essa prolixidade se fazia sucinta nos anos perdidos
nos quais sentia que nunca fui amado
E eu, grande mago da solidão,
carregava o charme de não ter charme,
O ar misterioso de quem não tem mistério,
O sono insistente em tudo o que me envolvia
contrastava com meu interesse imenso
em tudo o que me era alheio
E faziam filas para ter uma migalha da minha atenção
E eu olhava desinteressado e quase triste para o Vide Noir
sabendo que ninguém conhecia o buraco negro em mim
Aquela lacuna enorme que carregava tanta Dor e Beleza
sugava todas as minhas energias
Como restava algo em mim capaz
de encantar alguém?
E minhas vontades passavam
a 120km/h e eu sabia que tinha visto
muito mais do que o suficiente
E que nunca viveria o suficiente para
realizar todos os meus sonhos e desejos
Todo mundo é um, mas alguns
são um enquanto são dois ou três
Tenho me dedicado tanto
que por vezes me encontro aos prantos
quando um relâmpago lumia o breu da noite
Emociono-me diante da Beleza e sinto a sorte
de ser um homem que nunca sentiu inveja
Dirigir na estrada é
um ato contínuo de meditação
Se você tiver bons ouvidos
escutará o motor como seu coração
Os batimentos cardíacos unidos
Os radares querendo ditar limites
Os sonolentos nos tirando o ar
E os suspiros breves no peito
quando evitamos colisões e acidentes
E a consciência de que muitos outros
não conseguiram evitá-los
Viver é perigoso
Viver é raro
Viver é necessário
Se um dia tiver dúvidas sobre a vida
recomendo que dirija nas estradas
E se depare com a realidade
As mentiras, as cidades, os córregos,
os sinais de trânsito, o consumo, o dinheiro,
Isso tudo força a miopia na verdade
e deixamos de enxergar o que realmente importa
Abra as portas e janelas e veja
Ligue os faróis e encare os percursos
A vida é procurar e nunca encontrar
um rumo.

Lacuna

A lacuna da ausência aumenta
E reconheço que, até eu mesmo, falto-me
Assim, por consciência da inconsequência,
Entrego-me aos menores prazeres
Ando nu pela casa e me fito no espelho
Não tenho vergonha nem orgulho do que vejo
Nesta vida tenho sido sempre o mesmo
Pudera me entregar ao instinto ébrio
e ousar não me ser por algumas horas
Há tanta coisa que consigo com
o corpo e a mente que tenho agora
Ainda assim não quero o que posso ter
e só posso querer o que nunca hei de alcançar
A lacuna da ausência aumenta
E reconheço que agora preciso de uma cerveja
Assim, pela consciência de realizar um prazer individual
caminho decididamente até a geladeira
Sou um vexame para os outros poetas
por ser relativamente organizado
Um poeta de verdade não teria achado
tão facilmente aquilo que procura
Abro a minha cerveja preta e a bebo
e faço das goladas consecutivas
uma tradução malfeita de mim
A minha docilidade é amarga,
mas é tão fácil se acostumar comigo
que todos insistem em me querer por perto
Por não ser esperto, eu nunca consigo evitar
essa gente toda que se aproxima
Tento fugir, mas parece que é a minha sina
Há abraços e beijos em cada esquina
E eu, que por vezes reconheço que preciso ficar só,
estou quase sempre acompanhado e meu coração
é mais um balde derramado
Até a minha alma escancara minhas vontades,
entretanto, não há empatia que os faça quererem realizar-me,
Por apenas quererem-me sem realização ou ideais e propósitos
Por não quererem a mim ou de mim o que eu quero
Por se decepcionarem com o que eu mesmo espero
Todo mundo pensa que tem um conselho para tudo
e essa sabedoria falsa é uma súplica de nossas vaidades
E essa nostalgia de vontades não realizadas
Não nos fará mais realizados por fora e nem por dentro
É possível sentir orgulho dos outros, porém
o que não realizamos não realizamos
E a realização alheia não nos fará realizados
A lacuna da ausência aumenta e já não sei
Se um dia deixarei de sentir falta dos tempos de menino
Onde eu era desatento, distraído e desatino,
mas opulentamente livre como um antigo rei.