Dor no peito.

Madruga para ver o mar
Espera encontrar respostas
Quando ouve uma voz a sussurrar
no ouvido sobre uma antiga aposta

Oração insistente de marinheiro
Cada noite mais calejado e sofrido
Nunca hesita o velho timoneiro
Coração mais resistente que o vidro

Sua sorte é a descoberta da nova terra
Seu espírito livre nunca se encerra
Para tudo nessa vida se dá um jeito

Esteve em tantos lugares
E só nos mais selvagens mares
É que alivia sua eterna dor no peito.

Nunca mais saia de perto.

Pudera neste ínterim lúcido compreender
A diferença sutil dos diversos amores
Quisera neste íntegro ser surpreender
com o perfume adocicado das flores

Lumia repentinamente milhares
que jazem esquecidos na escuridão
Teus gestos simples são espetaculares
Tua presença fora de imaginação

Teu corpo me leva ao delírio
Teus olhos são o meu colírio
Personificação perfeita do meu desejo

Nunca mais saia de perto
Sem você o errado é certo
Cobre-me infinitamente de infinitos beijos.

Era uma vez.

Tantas horas tardias na madrugada
Cravam em minha pele o flagelo
Tantas doçuras agora tão amargas
Transformam fogo imortal em puro gelo 

Sinto uma espécie de autopiedade
Seguida pela raiva que advém da pena
Na memória o eterno gosto da saudade
Minha língua provando tuas lindas pernas

Tantos afagos e tantos beijos
Tantas noites de incessantes desejos
O que nunca se pode esquecer 

Gestos discretos e atitudes simplórias
O que houve e se tornou história
Quando era uma vez eu e você.

Milagre

Surge como uma espécie única
Criatura rara que prova a existência divina
Comoção alegre, objetiva e insuspeita
Personificação de um milagre
formado por mil lágrimas
Aparece como quem estreia
em uma peça teatral gigantesca
Não treme, não hesita, não se perde
Uma estrela cadente com pernas e olhos
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Suas decisões são sempre puras,
ainda que tenha tomado algumas ruins
Destas feitas choro, lágrimas e violência
Aposta na resistência e com paciência sobrevive
Continua firme, pôr do sol púrpura,
Raposa lépida, selvagem e imprevisível
Ergue a cabeça, flor do asfalto,
pois você desabrochou bela na feiura do mundo
Venceu todos os obstáculos e andou nas brasas
sem sequer ter notado que eram tão quentes
As noites de chuva querem banhar seu corpo
e escorrer por sua pele lisa
Os ecos de memória clamam por você
Chamam exclusivamente seu nome
Continua firme, anja sensual
Lusco-fusco tardio em plena meia-noite,
Ergue a cabeça, sereia cósmica
Flutua pelo Espaço Sideral como se fosse o seu Mar,
pois você é maior que todos os oceanos somados
Inunda-se pela coragem solar do pensamento reto,
Signifique sua vida fitando o rosto de sua alma
Acalme-se e busque não compreender o que não precisa
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Sinta o que tiver de sentir e saiba
Essa dor é imensa e não há onde caiba,
porém você se expande e se aprimora e evolui
Cada dia mais ampla poderá então comportar tudo
Abarca em abraços ternos novos mundos
Continua firme, fantasma feliz
Sua prole ainda chega para alegrar o Universo
Ergue a cabeça, rainha do tabuleiro de xadrez,
Não esquece que metáforas jamais são esquecidas
e que certas coisas desafiam a lógica definida
Cuida da tua saúde e tinge vidas alheias
com essa capacidade singular de amar
Lembra do Sangue que flui em suas veias
E nunca deixa de lutar
Borboleta lendária que chega da floresta,
Segue tua jornada completamente leve
Muitos por aí te carregaram e ainda te carregam
O que você obviamente não percebe
Continua lumiando o breu profundo
de quem se sente absolutamente sozinho
Nos eventos mais iracundos, isola-se,
e se permite sofrer também baixinho
Ergue a cabeça, milagre ancestral
Você é a prova de que existe um sentido
profundamente oculto na Beleza e na Dor
Milagre das mil lágrimas que nasceu neste mundo
para provar a improbabilidade do Amor.


Desastre clássico.

Desastre clássico
que faço da vida
Essa profusão
de encontros
Estes olhos
cansados e tontos
Chocam-se com impulsos
violentos e mansos
Solidão esquecida
Desastre natural
Falso desinteresse
prolixo e crescente
Tudo se revela sempre
Tudo se rebela
até o que não se entende
Luzes urbanas
Pôr do sol praiano
Gaivotas e pombas ciganas
Por quanto serão o que são
enquanto eu as chamo
Ouço o meu nome
observo de soslaio  
Por onde me esvaio
quando me derramo?
Por onde desmaio
quando sinto fome?
Por onde existo
quando o mundo
então some?
Para onde choro
se sei que secou o pranto
Para onde sigo e me demoro
quando já não sou tanto?
Não me sinto tão pronto
Troca equivalente
Verdades dissidentes
Consegui sorrir hoje
Tudo está abandonado
Certamente eu também
Andarilho distraído
Olhar canino enternecido
Invento mundos
Invernos mudos
Adesivos velhos
com colas duradouras
Na janela marca a tela
a poética da garoa
Azul e preto
Uma memória
de fevereiro
A lua no céu noturno
com a estética
de um queijo
Buquê de flores
Surpresas
O tempo
dos amores
A morte
das certezas
A apoteose
das dores
Barcos frágeis
em tempestades
Aviões bimotores
Peculiaridades
Arco-íris sem cores
Desastre clássico
de um homem salgado
Entrei no mar e
o tornei mais doce
Por quanto será
assim se o que existe em mim
fosse apenas o que fosse?
Desastre ilusório
das minhas impressões
Este caos é retórico
no reino dos corações
Cato pedaços que acho
meus e dos outros
O escape não
faz sentido
Esta rouquidão
representa pouco
Gole de café
Preguiça esticada
Acreditar no Tempo
é uma cilada
Acreditar no Tempo
é ter fé que tudo se acalma
Desgraça cósmica
Desastre clássico
Filósofos miseráveis
Corruptores endinheirados
Seres humanos vendáveis
Desastre clássico e inevitável
Sinto-me como
um lixo descartável
Horizonte plúmbeo
neste crepúsculo
Quanto mais a noite cai
Mais eu me busco
O cinza então
vira púrpura
Eu não viro
coisa nenhuma
Continuo sendo
criatura que sonda
Sente o que sente
Fantasma que assombra
E segue em frente
Fera que rosna
Cansado e exausto
Expiaria os pecados
Nunca pela confissão
para qualquer padre
Sempre como um fardo
Tudo isso e me mudo
Noutro alvorecer
Revelo a forma e o conteúdo
Farei tudo por prazer
Nunca me centrei
Talvez eu nem o saiba
um dia fazer
O universo político
ainda acontece
Domingo fatídico
que amanhã se esquece
Eu sigo prolixo
O resto se entorpece
De escolhas alheias
que não lhe acometem
Lume lunar
que hoje não vem
Fume o que fumar
não ficará bem
Cafés quentes e
bolos de laranja
Sente o que sente
e ainda se arranja
Chuta uma árvore
e colhe novos frutos
Sente o que sente
desespero mudo
Fantasma das dunas
O velho e o mar
Significo o que digo
Instinto solar
Não sei mais se devo
falar o que quero dizer
Todo mundo pensa que me ergo
apenas para ofender
E de dentro surge algo
que eu não sei nem explicar
O sol some
por completo
A tempestade
me torna discreto
Penso o que penso
sem hesitar
Pena, penso, apenso,
lápis, tinta e lugar
Lacuna imensa
Quero me afastar
Sozinho pretendo
me erguer e lutar
Samurai dos anos
Dialeto do povo
Seguro algo
secreto e novo
Antecipo o pesadelo
Desastre clássico
Não é que eu tenha medo
Só estou sorumbático
Conchas, praias, pombas,
Chuvas, assaltantes, padarias,
Pão quente, máscaras, surtos,
Pandemia, xícara, Inglaterra,
O Condado e o Japão em outras Eras
Carvalho milenar e um antigo gosto
Prosseguir é estar exposto
Existir é conhecer seu rosto
E eu continuo procurando
a face que eu tinha antes
da criação deste Universo
E me perco e me acho
na somatória dos versos
Não faço sentido e
nem preciso fazer
O que está perdido
Ainda vai aparecer
No meu caminho
Vislumbro instantes
completamente felinos
Durmo quando acordado
Vivo melhor dormindo
Infelizmente porém
Durmo apenas três horas
Outro dia estive bem
Príncipe de ontem
Fracasso de agora
Hoje estou aquém
Como tudo demora
Como muda o clima
Estou em Campo Grande
com a cabeça em Curitiba
São Paulo fura a fila
e grita o meu nome
Aqui entre nós
será só mais um homem
Sorrio e me distraio
com tudo o que acho
Quero ler aquele livro
Caprichos e relaxos
Tento ser mais vil
E continuar sereno
Minha bondade não serviu
neste mundo tão ameno
Desastre clássico
que sempre perdura
Mouses neons, pastas térmicas,
réprobos, colegas que morrem jovens,
Caixas de sons, budas, elefantes,
Chaves e pokémons e portas,
Corujas, sapos e amuletos,
Bairro da Liberdade,
cadela grande e preta,
Imaginações impossíveis
e a beleza das hipóteses
Desastre clássico
Suspiro ácido
Estrelas fixas
Constelações prolixas
Estrelas soltas
Meteoros
Rios e bares
Arrepios lunares
Santos dos mares
E eu sozinho
Este é o caminho
Esta é a missão
Toda a aposta em mim
mesmo sem cartas nas mãos
Toda a aposta em mim
Mesmo que tudo dê errado
Feiticeiras, bruxos, amores resolutos,
E o furto do Rei Diabo
O que cresce como um susto
sem nenhum suspeito
Grita aos que se fingem surdos
Não há outros jeitos
E assim vou
Como posso
Como consigo
Como devo
E não me martirizo
Deuses e demônios me observam
Como se eu fosse entretenimento
Os aeroportos perderam o charme
As pessoas perderam o encanto
Os infames seguem em vantagem
Os benfeitores nem tanto
Desastre clássico
de um futuro perfeito
Curo o que furo no escuro
faço agora do meu jeito
Sem controle de danos
Eu preciso saber se existo
Mergulho de cabeça nos planos
ou para sempre desisto
Gatas pretas, cachorros de duas cores,
chocolates amargos, malas sucintas,
Jogadores antigos e aposentados,
Raposas, panteras e a televisão
A guerra que sempre habita meu coração
Desastre clássico e o que existe dentro
Quero viver para ver além do fingimento
Borboletas com olhos nas asas
Cometas que acendem meus olhos
E me colocam em brasas
Tudo o que significa
sem nunca significar
Sigo o instinto do que sinto
Um dia me realizo
Um dia me sinto no lugar
Desastre clássico
da existência
Eu só queria ser alguém
com mais paciência.

Tanto fez, tanto faz.

Tanto fez, tanto faz
A beleza é relativa
Menos às vezes é mais
O que é belo também se finda

Por quês e por quais
Síntese profética de sina
Transformo tudo em sinais
ou simplesmente em rimas

Cresci bem e cresci forte
Porém ainda temo o escuro
Por onde passo faço minha sorte
Sentimos falta do seu barulho

Ouvi isso mais de uma vez
A insistência das palavras
Tanto faz, tanto fez
Mas o silêncio dessa casa

É que quando você some
Tudo parece esperar por você
O cachorro faz greve de fome
A gata chega a adoecer

É que mesmo quando você sai
Nem tudo você leva
O que fica nos distrai
No sapato a velha pedra

É que a vida agora me chama
para bem longe daqui
Vou atrás do que a alma clama
É o que devo a mim

Tanto fez, tanto faz
É hora de partir
Desta vez não volto atrás
É tempo de luzir.

Tanto faz, tanto fez
Adiante com o cansaço
Era uma vez minha existência
no meu próprio tempo-espaço.

Diário de Bordo

Livro na sala
Eu no sofá
Arrumei minha mala
Não volto pra lá
Quem sabe o que sente
Leva na bagagem
O que acontece com a gente
Não é de passagem
Sorriso de comissária
Seja muito bem-vindo
A alma ordinária
clama pelo Destino
Eu e você vivos
em outra estação
Sigo pensativo
na poltrona do avião
Teu rosto
na memória
Teu gosto
velha história
Fito na janela
Luzes fortes da cidade
A vida é triste e bela
Viverei com saudades
Tudo vai como deve
Eu vou também
Ainda volto a ser leve
E sigo além
Diário de bordo
O fim é o começo
Esqueça logo de mim,
mas eu não te esqueço.

Ventania interna

Ventania interna
Como coloco para dormir
essas minhas feras?

Venta muito aqui dentro
São profusas minhas frases
O que estava ao lado foi ao centro
O que era certo virou quase

A ventania continua
Dentro e fora do meu corpo
Sou soprado pela rua
Sobrevivo meio morto

A árvore é verdejante
E eu sou todo falho
Queria ser mais constante
Quebro fácil como um galho

Neste ínterim de mau agouro
Recupero uma réstia de lucidez
Entrego todos os meus tesouros
Ainda chega minha vez

Arrastado pelo asfalto
A liberdade de uma folha
Por onde passo grito alto
Vivo fora de qualquer bolha

Ventania interna
Voltarei a dormir
no fim da primavera


A última noite

A última noite chegou e eu não te encontrei
Quando você apareceu você era menos você
A última quinzena de sofrimento não foi fácil
Suponho que tenhamos nos transformado
Ainda assim entrei em choque quando te procurei

Que fim teve a mulher que amei?
A última noite chegou e eu não te encontrei
Não havia carinho, amor ou atenção
Estava sozinho com a minha dor
Revisitando tudo o que conseguia
Espelhos, desejos, tudo custa caro,
Camas, terraços, beijos e o sexo no carro
A última noite chegou e eu não te encontrei
Ouvi sua voz falando alguma bobagem
e não admiti que você fosse ela
Não por se fazer coisa frágil
Sim por quase desistir de tudo
Independente da queda
Eu sempre te falei que há
muitas belezas neste mundo
A última noite chegou e eu não te encontrei
Pouca coisa mudou, mas eu mudei e sei
Sou o piloto que gargalha do desafio
minutos antes de chorar rios pela despedida
O segredo é não criar expectativas
A última noite chegou e eu não te encontrei
Refiz rotas mentalmente e abracei o meu sufoco
Não deixe esse tanto virar apenas um pouco
Respeite-se e erga sua voz aos que se fingem surdos
Mostre a beleza da sua forma e do seu conteúdo
Apenas viva extremamente bem
Incenso fosse música e você sabe
Querer ser quem é vai nos levar Além
A última noite chegou e eu não te encontrei
A última noite chegou e eu chorei
E escrevia enlouquecido por horas apenas
para ter a certeza de que não iria enlouquecer
Todo o resto parece me inventar
Espero que você não me deixe apodrecer
Daqui sigo agora completo e sozinho
Não é exatamente reto, mas é o meu caminho
A última noite chegou e eu não te encontrei
Espero que você possa apenas se recordar
das coisas boas que eu também me lembrei
A última noite chegou e a chuva parou,
mas o frio seguiu me congelando
Eu preciso me arriscar para sentir
que meu coração não está parando
A última noite chegou e eu não encontrei você
A última noite chegou e você não me encontrou
A última noite é qualquer coisa que antecede a manhã seguinte
Não viva por migalhas ou e nunca se faça pedinte
Divirta-se e coloque no rosto milhares de sorrisos
Temos amanhãs por alguns bons motivos.