Inventado para outras coisas.

Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
Olho lento e existo longe
Quando não tento
Encontro-me no horizonte
Paisagens sem encerramento
A personificação do cansaço
Um astronauta vaga à esmo
seguindo planetas como seus mesmos
Recriando seu tempo-espaço
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
A maioria delas furiosamente delicadas
Aprendi muito novo o valor do nada
Há muito que se consegue com a ponta da espada
Há segredos ocultos no rabo da palavra
Astronomia do sonhador que sempre fui
A vida de escritórios que nunca amei
Tudo se dilui entre os mistérios que inventei
Livros tortos, quadros, sapos e corujas
Edredons, fantasmas, fadas e roupas sujas
Constelações ancestrais e carneiros
Minha coragem e tudo que é verdadeiro
Fui sempre sozinho por ousar ser inteiro
Sem me encaixar nas molduras
constantemente me julgam mais jovem
Não entreguei a minha alma ao retrato
jamais me atreveria ao destino de Dorian
A juventude e a beleza compartilham um fim
Ambas acabam diferente dos sonhos que existem em mim
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
A dureza férrea e a secura do vinho
Meu jeito sério subitamente se abre em sorrisos
Sou aquele vago oceano no fim do caminho
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
Danço no escuro do meu apartamento
Ao som de Lord Huron vão meus movimentos
Conto os carros que passam com dificuldade
É perigoso esquecer de ligar os faróis quando a noite cai
É corajoso permanecer quando o resto se vai
Sombras fúteis lavam louças
na metade da madrugada por bajulação
Venderam-se por coisa tão pouca
e se rastejam suplicando atenção
Fui inventado para outras coisas
Está claro para quem me olha
Fito nostálgico o sol do fim de tarde
Quando o crepúsculo me escapa
Sinto que algo no meu peito arde
Para não dizerem que não falei das coisas frágeis
e do tanto de verde que há na natureza
Para não dizerem que não lhes contei
que depois da Dor se encontra Beleza
Para não dizerem que eu não tinha flores
até no meu nome do meio
Para não dizerem que só pisava no freio
Amei tudo o que pude e o que não pude amar
Prometi me esquecer no futuro para me resguardar
da infantilidade inútil da vingança
Quando tudo se acaba sobrevive a esperança
Somos todos eternamente crianças
Considerações finais deste solilóquio
A solidão não me fere e preciso ser cauteloso
Já fui viciado na melancolia profunda
Olho devagar e vejo com calma
Por vezes antevejo até os desejos da alma
Só que tudo que sei sobre os outros
Quase nunca sei sobre mim
Não tenho opiniões e apenas instintos
Estou preso em meus próprios labirintos
Tentando encontrar alguma coisa que nem sei
Tentando me chamar pelo meu primeiro nome
Tentando enxergar insistentemente o rosto
que eu tinha antes da criação do Universo
Rabisco mais um verso e me desconcentro de tudo
Durmo tarde e devoro outros mundos
Estou aqui, mas estou por toda a parte
Está claro para quem realmente me olha
Fui inventado para outras coisas.  

Menino doce.

CRÔNICA DE DOMINGO.

Destas tantas coisas que a gente pensa em um domingo. Destes tantos olhares, ingênuos e enviesados, dos cenhos franzidos desde a infância até os caprichos excessivos. Franzo igualmente o cenho, mesmo adulto, não muito diferente do meu sobrinho que ergue suas sobrancelhas em reprovação. Muito mais espalhafatoso do que ele, persisto de cenho franzido e mostro a dureza através do meu olhar, tudo isso como o disfarce para o menino doce que eu era quando tinha a idade dele e que ainda sou, confesso envergonhadamente. Hoje conjecturo ideias extravagantes e penso que a doçura dos meus gestos deva se fazer cada vez mais secreta. Quantas intenções cabem nos instantes mais ligeiros, nos passos mais lépidos e em como ajo em relação a tudo? Sinto-me como se fosse condenado a nunca ser por inteiro, por só se oferecerem metades a mim.  

Penso todas as minhas dores e traumas e medos e as visualizo ao longe. Desfilo em seguida pela avenida dos meus machucados e cicatrizes e vejo a minha alma inquieta e voraz em uma ansiedade crescente por se cumprir em definitivo, mesmo antevendo que não há nada que seja definitivo no âmago. Nada sacia a alma. Na passarela dos meus maiores vexames versões distintas de quem já fui me aplaudem e me apedrejam e sigo avançando sem titubear enquanto piso nas poças formadas pelo sangue que derramei. Não consigo agradar nem a mim. Como poderia sonhar em agradar os outros? Se nem meus desejos simplórios se cumprem, como posso sonhar em cumprir o que é alheio?

Tudo é absurdo e aguentamos esses tantos absurdos com uma tolerância insistente, como quem suporta os abraços ou os monólogos melífluos de um bêbado irritante. Há verdades convenientes demais para que eu não desconfie delas e se tudo converge para uma direção, eu tenho o hábito terrível de observar todas as outras. Não concordo com os outros e geralmente discordo mais veementemente das minhas próprias opiniões. Não é verdade que eu seja senhor de mim só por gastar metade do meu dinheiro em contas ou por morar sozinho ou por respeitar meus limites ou por antever que deveria me expandir na busca por solucionar a angústia do meu ser. Não, não me admito frio, embora tenha congelado nos últimos meses diante de revezes que pareciam irreversíveis e de notícias avassaladoras que me deitaram ao chão e expandiram o buraco fundo que há no meu peito há décadas, sim, desde muito antes de entender o que era o Vazio Escuro, eu o sentia, como se fosse um fantasma de Morte preso perpetuamente em minha Vida. Merecemos nossas sentenças? Tenho a consciência perfeita de que as grandes lições que aprendi ao observar as coisas frágeis aos meus sete anos de idade são das mais importantes que presenciei até hoje. Compreender a paciência com que a aranha tece a teia e como um pássaro sobrevoa o mesmo pedaço do céu por longos minutos enquanto calcula se consegue mergulhar para se alimentar, tudo isso é breve, calmo e raro. Respiro como se cada respiração pudesse representar um pequeno pedaço do paraíso, ainda que eu desacredite de todas as religiões, mesmo não sendo ateu ou asceta. O paraíso são os outros. O inferno também. Quem não se conhece minimamente não pode reclamar se eventualmente se reconhecer como refém de alguém. Quase toda pessoa que identifica nossas fraquezas, utiliza-se delas. Quantas vezes no desespero fecharam suas portas e você teve que escapar pelas janelas? Apenas para sobreviver…

Fecho os olhos na tentativa de buscar uma noite imperturbável de sono, mas sonho sem parar e a maioria dos sonhos traz maus agouros e me pergunto o que tanto faço para me conduzir por estradas metafísicas das quais tenho tanto medo. Talvez no fundo eu seja corajoso em segredo. Talvez eu mereça essa enormidade de pesadelos. Todas as traições que sofro em cenários metafísicos, todas as vezes que fui assassinado, todas as ocasiões que me cuspiram e me colocaram de joelhos, tudo o que eu merecia e nunca tive, tudo o que os outros nunca mereceram e tiveram, todas essas incoerências que me fazem duvidar se. Sinto que o Universo é muito grande e algum dia alguém haverá de me explicar as razões das emoções, pois emoções puras são sempre desarrazoadas e toda essa displicência silenciosa e a falsa amizade nos rompimentos súbitos de amores e amizades, apenas por praticidade nos afogam, forçando-nos a engolir litros e mais litros de uma amálgama de inúmeras mágoas.

Sinto vontade de se me insistir, sem ter a convicção de que eu mesmo valho a pena. Tento sorrir, mesmo nos dias que não crio novas ficções ou poemas e tudo me dói, como um peso no peito, como qualquer grampeador que é repousado em cima de uma folha de papel apenas para evitar que ela não voe e assim permaneço sem voar, por um detalhe que me foi imposto. Será que as primeiras árvores sonharam em voar? Creio que sim, se perscrutavam os caminhos inconstantes das folhas ao vento. Será que imaginaram que poderiam ser algo tão diferente do que aquilo que eram por natureza? Penso nas contrapartes de tudo e em como isso tudo pode ser belo e perigoso. O poder aliado com a estupidez é fatal. Verifica-se aqui o potencial para estupidificar a população e criar uma massa de pessoas não pensantes e há quem já pense que há diversos pensamentos que sejam proibidos. Nada é proibido em nossas mentes. É preciso ser sensível se quiser ver o que ninguém ousa ver, mas muita sensibilidade machuca e por vezes me pego sem ar por enxergar um mundo excessivamente sombrio e talvez me doa admitir que as coisas sejam exatamente assim. Por isso, acredito que nos piores dias, é preciso sobreviver com muita destreza. Só vencemos quando enxergamos que após a Dor há um tanto imensurável de Beleza e assim, sem facilidades, começamos a ver uma realidade que talvez se equipare com a ficção. Talvez nos dias de trevas, eu possa crer na luz do meu coração, entretanto, confesso-me vil com um instinto que nunca se cumpriu: há vezes em que queria me vingar do mundo e ser vilão. Se um dia acordasse mau, fatal e me guiasse apenas por um instinto louco de destruição. Será que na ira eu encontraria alguma comoção?

Tudo é vago e quase estúpido. Um estranho invade o meu espaço em um bar e me ofende e há tantas pessoas que posteriormente irão defender a atitude dele. Nenhuma resposta justifica as defesas. A síndrome do advogado, todos correndo para uma ocasião para tentar fazer parte de algo qual não fazem parte. Querem a justiça, sem se exporem diante do desconforto, como quem quer um prêmio, sem lutar por merecê-lo. Queremos os espólios, mas não queremos erguer a espada, nem mesmo para defender as pessoas que tanto nos defenderam outrora. Somos impecavelmente injustos e incoerentes e essas tantas inconstâncias se impregnam em nossas atitudes mais constantes e tentamos ser suavemente melhores, como quem entende que o mundo já viu o suficiente de dor e como quem percebe, sem epifanias, que um abraço longo e um pedido de desculpas rápido pode significar tanto quanto não parece. Vez ou outra o perdão chega tardio, sem evitar a confusão, entretanto, clareando o caminho para dias mais bonitos. Palavras ditas sem floreios, um gesto sincero, são coisas quais eu teimosamente ainda acredito.

Assim, vejo-os o tempo inteiro e muitas vezes quando me atiram, busco não sair do caminho da bala. A minha vida foi sempre no limite e eu me sinto próximo ao fio da navalha, mas sobrevivo a mais uma batalha e me reergo enérgico, com o meu coração doente, mas ainda pulsante, com a certeza de que nada de bom do que eu faço garante algo bom a seguir, ainda assim, este é o meu único jeito de agir. Ergo a minha cabeça e meus olhos encontram o sol e posteriormente uma profusão insana de cores. Talvez eu deva acreditar nos amanhãs, mesmo com a morte de tantos amores. Talvez abandone o resto da minha parte sã e ostente orgulhoso minhas tantas dores. Quando olho para o sofrimento contínuo, parece-me que não há Deus, pois se Deus houvesse haveria de ter nos resgatado muito antes. Não é possível que sofrer seja uma constante. Já busquei refúgio no sono para fugir da realidade que me feriu. Por vezes sinto que tento sentir um mundo que nunca me sentiu. Por aí espalham que é curto o meu pavio e que eu aprecio estar dentro de uma confusão. Ouço uma estúpida em sua interminável provocação. Há meses que estou no Inverno. Nunca mais haverá verão? Caminho, não pelas vielas de Campo Grande, mas pelos campos grandes da minha alma. Pavimentei minhas trilhas e construí os degraus da escada que ainda estou subindo vagarosamente. Grito em voz alta os meus maiores vexames e sinto uma raiva fervorosa. Talvez esta crônica seja uma tentativa de. Nada.

Bem, entre tantas verdades, pode ser que existam mentiras e, vez ou outras, não há problemas, desde que as mentiras que criamos através dos contos e ficções e histórias, possam se estender e alcançar uma compreensão ainda maior da realidade. Há verdades que cessam verdades e essas verdades não interessam. Se é preciso acreditar em divindades, que acreditem. Se é preciso louvar os erros para eivar os acertos, que louvem. Se é preciso falharem para que aprendam a amar, que falhem, mas que quando a autocomiseração acabar, por favor, que amem. Os pesadelos, os monstros, os inimigos, os fantasmas, tudo isso existe e as nossas ficções não os tornam mais ou menos reais, porém somos os heróis e heroínas de nossas próprias jornadas e mesmo em cenários imaginários ou sonhados, notamos uma necessidade de triunfarmos. Quero nunca mais morrer em sonhos, mesmo aceitando que um dia vou morrer na vida real, ainda não sabendo distinguir a diferença crassa entre uma realidade e outra. O sono do dia seguinte nos levará para outras realidades e me pergunto se me deixarão ter a mesma substância que faz de mim quem eu penso que sou. Se algum dia me concederão o privilégio de.

Quando olho para o abismo, sinto que o abismo me olha de volta e o desespero que se infunde nos outros é algo que me conforta. Posso olhar para o precipício por anos sem nenhuma tentação em saltar para dentro. Quero outras coisas que. Preciso de outras coisas que. Significar a vida é solucionar o mistério das inutilidades?

Escrevo-me, como se pudesse me resumir, como se pudesse me curar das antigas doenças da alma. Sinto que trago isso de outras vidas. Sinto que não há memórias boas ou más esquecidas. Tudo que foi é uma lembrança vaga em algum campo interno e extrassensorial. Toda a tristeza se apaga diante da farta mesa na véspera do Natal.

Há dias em que eu só queria me sentir especial. Há dias que.

Exagero no café, na água, no tempo em que passo no escritório. Exagero na quantidade de vezes que vomito, na quantidade de vezes que insisto, na qualidade das vezes que.

Torço para que o Palmeiras vença para que a semana seja melhor.

Torço para que não chova e para que eu jogue vôlei e derrame um pouquinho de suor.

Rezo para que não me quebrem outras vezes. Tenho bancado o forte, mas na verdade tenho sorte. Pessoas se despedaçam tão facilmente e é tão difícil reconstruir, praticar a remontagem e eu sou péssimo em quebra-cabeças e.

Abro a porta para a escuridão e sinto a dor doer. Preciso abraçar minhas partes malignas e amá-las, mas não amo. Se dissesse que já as aceito estaria me afundando em autoengano.

Só os ébrios de espírito despertam na madrugada para lavar a louça alheia ou tirar o lixo do vizinho. Os réprobos, como eu, revolvem para dentro de si mesmos e permanecem sozinhos.

Brindo uma cerveja preta com meus dois gatos e meu cachorro me observando, às 2h35, enquanto escuto Lord Huron. Bailo com os fantasmas e sei que.

Deus nos abandonou e todo o meu futuro depende do que eu fizer. Gargalho por me sentir desesperado e enclausurado, cônscio das minhas capacidades, ensombrado por uma melancolia profunda que me persegue desde o primeiro choro no hospital.

Minha mãe dizia e ainda diz ao mundo que eu sou especial e eu.

Escrevo livros querendo acreditar que um dia conseguirei publicá-los, mas em verdade, em segredo, eu me omito. Bem no fundo acredito que meus sonhos são distantes e que eu nunca vou cumpri-los.

Ainda assim me escrevo, como se essa fosse a última confissão de que eu.

E de que eu.

E ainda de que.

“O mundo é para quem nasce para conquistá-lo e não para quem sonha que pode fazê-lo, ainda que tenha razão”. Rio de Pessoa e depois de minha pessoa e uma sombra fútil e petulante me chacoalha e grita comigo:

– Não se ria!

Dou de ombros, entre tantos escombros e respondo aos sussurros.

– Um dia.

Quem sabe uma criança correndo pela rua ensolarada me faça acreditar que.

Quem sabe os filhos que nunca tive estejam clamando pelos contos que escrevi ou pelos que ainda escreverei e.

Quem sabe se tudo que ainda não sei signifique que todo mundo nasce para ser rei e essa visão axadrezada da vida tenha me feito peão de meus próprios sonhos e qualquer instinto de rebeldia seja ainda bem-vindo.

Quem sabe tudo faça sentido, mas não neste mês de agosto e muito menos neste domingo. Os meus demônios não foram vencidos, mas neste fim de dia me pego com fome e sorrindo.

Nos restaurantes que ainda não conheci na Ásia.

Nas pontes que ainda não cruzei na Europa.

Nas línguas que ainda nunca falei antes.

Nos castelos em que nunca fui príncipe ou rei.

O copo de água meio cheio também está meio vazio e eu, meio vazio, certamente estou meio cheio.

Nos bosques selvagens.

Na sutileza felina ou na lealdade dos cães.

Na casa solitária como o meu coração no meio de uma ilha perdida.

No meu carro preto ou branco que percorre estradas e engole o sol.

Em tudo o que há em mim parecido com o inconstante mago Howl.

Pensando e sentindo, afinal, percebo-me normal, nada especial, mas sei que ontem, hoje ou amanhã, fosse como fosse…

Serei sempre aquele menino doce.

Depois não tenho certezas.

Acordo antes e respiro

A mulher que amo

dorme ao meu lado e sorrio

Sempre fui gentil com as pessoas

Com as que odeio e com as que não gosto

e mais ainda com as que amo

Observo-a e me basto

Amar é olhar com cuidado e

Cuidar dos outros sempre foi

a única coisa que soube fazer desde cedo

Frequentemente alguém me dizia

Perto de ti não ouso sentir medo

Por vezes fui fatalista, mas vivi

tentando fazer a diferença

Creio que a felicidade destes dias

seja apenas consequência

Observo-a a dormir e sorrio

Este retrato no coração me acalma

Até quando ainda não a conhecia

sinto que a imagem já me acalmava

Toda esta leveza e poesia esteve

desde antes fixado em minha alma

O pé esquerdo dói e manco

Pisei em algo pontudo

Ainda assim, nesta manhã canto,

Porque a alegria traduz meu conteúdo

E me basto com a alegria de hoje

ainda que saiba que todas as horas seguintes

Trazem surpresas

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas

Levanto e faço o café

A mulher que amo continua dormindo

O cachorro que amo continua dormindo

A gata que amo continua dormindo

O gato que amo me seguiu até o escritório

Apenas para dormir mais perto de mim

Sou feliz e completo agora

Absorvo da vida toda a sutileza

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas.

Artista.

As coisas começam e acabam

Nunca duvide do que encontra

no rabo da palavra

Solidão e borboleta amarela

Anteontem extraiu do coração

Uma autodestruição das mais belas

Pintou uma obra de arte

A tinta seu próprio sangue

Por não se duvidar artista

Teve uma severa hemorragia e morreu

A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso

Junto com um bilhete e um último aviso:

Digam que ele nunca se arrependeu

Einmal ist keinmal.

Receita.

Prepare

Oito ovos mexidos

Saboreie um pedaço

de chocolate amargo

Beba três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Agora é só apreciar meio litro de café

para se manter em pé durante o dia

Se for domingo ou feriado

Finalize aquele livro do Dostoievski

Junte o que há no seu porão

Rascunhe uma crônica ou poesia

Se não for domingo e nem feriado

Vá para o trabalho e cuide bem

de todos aqueles números

Até os trabalhos mínimos importam

Evite pisar nos insetos e matar os besouros

Até as vidas menores importam

Ouse se conhecer e olhe para si e para dentro

Prepare uma mochila com um lanche caseiro

Dirija até o Shopping China e compre

Meia dúzia de coisas que você não precisa

Lembre-se também de levar chocolate amargo

O suco de limão caro compensa mais no mercado

Vagueie pela cidade nas noites e sente sozinho em um bar

Não saia correndo se uma estranha se sentar contigo

Ela precisou de coragem para ir até você

Agora você precisa de coragem para ficar

Portanto, sorria, mesmo que ela não seja tão legal assim

Ainda que você saiba que prefere ir para casa sozinho hoje

Se quer coisas novas na sua vida, deve permitir que elas entrem

Se o seu velho mundo está balançado

Entre discretamente em um novo e recomece

Nenhuma maldade ou bondade perdura para sempre

Passeie pela cidade aos domingos de manhã

Contemple o que há de natureza e o que há de natural

Esteja atento aos que se atrevem a te criticar e te elogiar

Há críticas justas e elogios insinceros, portanto, abra os olhos

É perigoso acreditar em tudo o que dizem sobre você

Essa paisagem com gosto e cheiro de paraíso

Muitas vezes é uma armadilha

Pode sair dela completamente afetado

Volte para a casa

A solidão te ensinou muitas coisas

mas é hora de adotar um gato

Sozinho não irei conseguir

Sozinho amadureci bastante,

Entretanto, não venci o mundo

Agora como mais um pedaço de chocolate

Peço um lanche completo na hamburgueria

com adicional de ovos

Bebo o suco de limão (aquele mais caro)

Assisto um seriado promissor ou um anime novo

Hoje o meu time de futebol não joga

Se for sábado, cuidado, há noites de duzentas horas

Sento e escrevo no papel

Vou até o escritório

Sento e escrevo no computador

Malho por duas horas e nem é início de madrugada

Sinto um tesão absurdo, porém não desejo ver ninguém

Bato uma punheta e ainda nem é madrugada

Meus pensamentos não se esclarecem e continuo acordado

Meus pensamentos não me esclarecem e continuo acordado

Escrevo mais um texto triste sobre amores

como histórias de fantasmas

Só alguns viram, mas todo mundo fala sobre

Do terceiro andar olho pela sacada larga

e vejo a rua deserta e a fábrica de tratores

Ligo o ar-condicionado do escritório

Ligo o ar-condicionado do quarto

Ligo Lord Huron na televisão grande

e danço desajeitadamente

Quando voltar para a minha cidade

Serei o peixe valorizado no mercado

Isso não interessa

Quando voltar para a minha cidade

Receberei o calor dos meus amigos e minha família

E choro de madrugada

Hoje é sábado (ou sexta)

E de amanhã não passa

Vou adotar um gato e escrever um conto

sobre um amor que foi e não é mais

E vou rezar, embora não acredite em Deus

Eu acredito mesmo é no suco de limão mais caro

e naquele pedaço mágico de chocolate amargo

Vou até a minha geladeira e repito a receita,

Embora tenha comido lanche horas antes

Preparo

Oito ovos mexidos

Saboreio dois pedaços

de chocolate amargo

Bebo três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Já sinto o cheiro do café

e vou beber um litro inteiro

Esta noite vou tirar de mim

Tudo o que é falso

E vou encarar o meu eu verdadeiro

Não é bem que os ovos e o chocolate e o limão

tornem-me imensamente satisfeito, entretanto,

Esses alimentos me situam e me basto no entendimento

Neste momento a vida precisa ser desse jeito.

Carneiro.

Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.

O cruel destino da autoidolatria eterna.

Meu sangue pinga pelo apartamento
Tinge o piso todo de vermelho
Congelam-se meus movimentos
Em face do que vejo diante do espelho

Escrevo no papel na intenção de me libertar
Ouço risinhos e cochichos aos montes
Nesta terra quase ninguém sabe o seu lugar
E eu, mesmo sozinho, vou existir longe

Distingo os tipos de sorrisos
Reconheço centenas de Narcisos
O cruel destino da autoidolatria eterna

Os bajuladores estão sempre serenos
Se fodem, se beijam e trocam venenos
Bebem com o mesmo deleite o suco, a cerveja e o esperma

Descupinização

A descupinização é fundamental, pois milhares de casas já desmoronaram tendo como únicos culpados os malditos cupins. E os linguistas, preocupados com os cupins, logo trataram de inventar uma palavra que nunca poderia sonhar em ser bela na estética, apenas para evidenciar pela feiura a inevitável vilania dos isópteros. Não se atente ao detalhe errado. Aqui tenho a tendência de perseguir os cupins e sobre os sonhos das palavras discorrerei em outra oportunidade. O que explicaria o ódio dos linguistas aos cupins? Experiências e traumas pessoais? O que traduziria a relação entre gente e cupim? São apenas insetos, eu lhes diria, entretanto, há uma crença popular e verdadeira de que devemos conter o número dos cupins e devo admitir a realidade desta assertiva, mesmo que o povo se apraza costumeiramente de comprar uma fantasia bem induzida. Acredito que exista um medo secreto compartilhado pela humanidade de ser subjugada pelos cupins ou pelas baratas ou pelos ratos, roedores estes que certamente são mais inteligentes que quaisquer insetos. As formigas que também estão espalhadas pelo globo terrestre e que não são íntimas ao frio, são fortes candidatas, mesmo com suas formas minúsculas, a nos destronarem, assim, a humanidade promove o extermínio de tudo o que pode e não é raro descobrirmos que promovemos a extinção de novos seres.

Imagino como seria a mim, subjugador dos animais e dos insetos, se uma criatura gigante surgisse e me obrigasse a viver de outra maneira. Devaneio sobre o que eu faria se um gigante me erguesse na palma de suas mãozorras e me dissesse, “filho, terei de te matar, mas é para o seu próprio bem, lembra de quando exterminou o cupim por causa que ele comia as madeiras da casa, bom, eu sei que sim e você, Daniel, está comendo as partes boas deste mundo inteiro, você e os seus colegas humanos fazem muito barulho, fazem sexo de qualquer jeito, queimam coisas demasiadas, acumulam lixo e certamente existem em uma quantidade excessiva, assim, te matarei pelo amor e pelo respeito que sinto à sua espécie, como um gesto supremo e superior que resume toda a nobreza de meu coração valoroso”. Sem alternativas, eu teria que concordar, sem mais argúcia argumentativa na fala, sem sequer uma tentativa desesperada de sobrevivência, veja, os cupins nunca suplicaram diante da descupinização e eu nunca vi uma barata que dissesse “poupe minha vida”, elas, dignas, apesar do esgoto distante e sujo de onde surgiram, possuem um brio invejável e não suplicam, mesmo quando são alvos das chacotas felinas. Não hesitam e nem clamam por misericórdia, nem mesmo quando desmembradas pelos gatos.

Dos humanos que se enraivecem diante dos cupins, destacam-se os arquitetos, que não podem aceitar que outros também projetem edificações belas e os engenheiros, que creem que seus capacetes são coroas, invejam a instintividade dos cupins, sem ter a menor consciência sobre eles, indagando-se se eles fazem contas e se utilizam fórmulas matemáticas para erguerem suas estruturas ou não. Para nós tudo é disponível e talvez este seja o segredo desmistificado por trás de desvalorizarmos tanto a tudo. O louva-deus morre depois que copula e por isso ele também louva o sexo, praticando-o com a certeza da não repetição, entregando-se ao orgasmo e à morte simultaneamente. Quem fode convicto da morte só pode foder bem. Pressão? Claro que não. Se a morte é a última consequência, o sexo que antecede a morte é apenas uma despedida e quisera eu saber quando vou morrer para nunca fazer sexo de qualquer jeito.

O que pretendo com este relato não é convencer a humanidade de suas incomodas manias segregadoras ou coibir os atos hostis que nós e os nossos colegas mais ou menos humanos praticam. Ouça e escute o que falo ou apenas leia, para que entenda o que eu digo, sem inventar falso sentido nas minhas ações. A única intenção que tenho aqui é que você anote o telefone do homem da descupinização, pois é preciso exterminar os cupins a qualquer custo. Se porventura se configurar a necessidade, se a ameaça for urgente, chame imediatamente o responsável pela desratização e se as baratas fofoqueiras lhe encheram a paciência, adote um gato ou ligue para o desbaratador ou um dedetizador de primeira. O desempregado é, sobretudo, um desocupado e se cada alma se dedicasse ao lixo reciclável ou ao extermínio dos cupins, quiçá encontraríamos pessoas melhores, munidas de um sentimento puro e tolo de orgulho e talvez nem houvesse desemprego e cupins no mundo.

Suspiro e penso na descupinização, enquanto rezo para que não existam tantos desumanizadores (exterminadores de humanos) no futuro e que não me cacem pelas ruas por individualmente ser responsável por uma existência coletiva excessiva. Os agrimensores, os testadores de motéis, os limpadores dos lutadores de sumô, os que possuem profissões raras ou feias, incutidas sutilmente por uma deformidade perniciosa promovida pelos linguistas através das palavras que definem essas descrições e explicações, esses de profissões estranhas também importam, mas quanto mais o dia avança, o sol cai e o mundo gira. O sol some aqui e aparece do outro lado do planeta. Todos começam a entrar em um estado de sonolência e eu me percebo lúcido. Sinto uma tendência a culpar os cupins pelas minhas mazelas, reparo que até os nomes deles compartilham as letras da culpa, malditos cupins culpados, cupins cultos e invertebrados, estúpidos e culpados, cupins miseráveis por todas as minhas falhas. Respiro e sinto uma paz serena adentrar subitamente o meu coração.

A prova de que Deus existe é a DESCUPINIZAÇÃO.

Rumo.

Sinto saudade da estrada
Meus olhos castanhos escuros
chegavam nas boates e bares sempre procurando
Observava cada rachadura nos muros
enquanto a vida ia passando
Só me deparava com mentiras
espalhadas pela cidade
E eu que estava sempre na mira
Sabia que nas estradas havia
a única e esquecida verdade
Estar lúcido e sóbrio
prestes a desistir ou a admitir
É o consolo dos loucos,
Os que enxergam um pedaço da verdade são poucos
A consciência requer inevitabilidade
Quando podemos morrer a qualquer momento
somos honestos com a vida
Odeio ter a capacidade de ler as entrelinhas
Uma vez quase morri nas estradas,
E ainda assim sinto falta
das mãos no volante
E da necessidade de contar apenas
com meus reflexos para sobreviver
Qualquer caminhão ou ônibus
surgia como um monstro pesado
E eu, encolhido em meu carro branco,
antes de comprar um carro preto,
Sabia que não poderia ficar desatento
A vida é este detalhe discreto
E se dormimos na hora errada
somos esmagados como insetos
Há diversas plantações dos dois lados
e há bois e vacas e carneiros espalhados
Há também pombas que pulam no para-choque
e me pergunto se as aves se suicidam
As nuvens cinzas escolhem locais específicos para chover
E eu sinto falta do menino que eu era
antes da última primavera do mundo
Um jovem que acreditava em cartomantes,
dados viciados e na influência das marés
É estranho absorver a verdade
que o asfalto transmite
A máquina do tempo já foi inventada
É o cérebro quando estamos concentrados
em chegar em algum lugar
Qualquer lugar
Assim eu voltava brevemente
A minha prolixidade de sentidos
por vezes me fazia ficar calado
Essa prolixidade se fazia sucinta nos anos perdidos
nos quais sentia que nunca fui amado
E eu, grande mago da solidão,
carregava o charme de não ter charme,
O ar misterioso de quem não tem mistério,
O sono insistente em tudo o que me envolvia
contrastava com meu interesse imenso
em tudo o que me era alheio
E faziam filas para ter uma migalha da minha atenção
E eu olhava desinteressado e quase triste para o Vide Noir
sabendo que ninguém conhecia o buraco negro em mim
Aquela lacuna enorme que carregava tanta Dor e Beleza
sugava todas as minhas energias
Como restava algo em mim capaz
de encantar alguém?
E minhas vontades passavam
a 120km/h e eu sabia que tinha visto
muito mais do que o suficiente
E que nunca viveria o suficiente para
realizar todos os meus sonhos e desejos
Todo mundo é um, mas alguns
são um enquanto são dois ou três
Tenho me dedicado tanto
que por vezes me encontro aos prantos
quando um relâmpago lumia o breu da noite
Emociono-me diante da Beleza e sinto a sorte
de ser um homem que nunca sentiu inveja
Dirigir na estrada é
um ato contínuo de meditação
Se você tiver bons ouvidos
escutará o motor como seu coração
Os batimentos cardíacos unidos
Os radares querendo ditar limites
Os sonolentos nos tirando o ar
E os suspiros breves no peito
quando evitamos colisões e acidentes
E a consciência de que muitos outros
não conseguiram evitá-los
Viver é perigoso
Viver é raro
Viver é necessário
Se um dia tiver dúvidas sobre a vida
recomendo que dirija nas estradas
E se depare com a realidade
As mentiras, as cidades, os córregos,
os sinais de trânsito, o consumo, o dinheiro,
Isso tudo força a miopia na verdade
e deixamos de enxergar o que realmente importa
Abra as portas e janelas e veja
Ligue os faróis e encare os percursos
A vida é procurar e nunca encontrar
um rumo.

Lacuna

A lacuna da ausência aumenta
E reconheço que, até eu mesmo, falto-me
Assim, por consciência da inconsequência,
Entrego-me aos menores prazeres
Ando nu pela casa e me fito no espelho
Não tenho vergonha nem orgulho do que vejo
Nesta vida tenho sido sempre o mesmo
Pudera me entregar ao instinto ébrio
e ousar não me ser por algumas horas
Há tanta coisa que consigo com
o corpo e a mente que tenho agora
Ainda assim não quero o que posso ter
e só posso querer o que nunca hei de alcançar
A lacuna da ausência aumenta
E reconheço que agora preciso de uma cerveja
Assim, pela consciência de realizar um prazer individual
caminho decididamente até a geladeira
Sou um vexame para os outros poetas
por ser relativamente organizado
Um poeta de verdade não teria achado
tão facilmente aquilo que procura
Abro a minha cerveja preta e a bebo
e faço das goladas consecutivas
uma tradução malfeita de mim
A minha docilidade é amarga,
mas é tão fácil se acostumar comigo
que todos insistem em me querer por perto
Por não ser esperto, eu nunca consigo evitar
essa gente toda que se aproxima
Tento fugir, mas parece que é a minha sina
Há abraços e beijos em cada esquina
E eu, que por vezes reconheço que preciso ficar só,
estou quase sempre acompanhado e meu coração
é mais um balde derramado
Até a minha alma escancara minhas vontades,
entretanto, não há empatia que os faça quererem realizar-me,
Por apenas quererem-me sem realização ou ideais e propósitos
Por não quererem a mim ou de mim o que eu quero
Por se decepcionarem com o que eu mesmo espero
Todo mundo pensa que tem um conselho para tudo
e essa sabedoria falsa é uma súplica de nossas vaidades
E essa nostalgia de vontades não realizadas
Não nos fará mais realizados por fora e nem por dentro
É possível sentir orgulho dos outros, porém
o que não realizamos não realizamos
E a realização alheia não nos fará realizados
A lacuna da ausência aumenta e já não sei
Se um dia deixarei de sentir falta dos tempos de menino
Onde eu era desatento, distraído e desatino,
mas opulentamente livre como um antigo rei.