O apartamento.

Há um pedaço grande e indefinido
que penso me pertencer, sem certezas,
Ele, que também sou eu, faz exigências
Exige horas solitárias para o processo criativo
Já eu exijo meu café quente para me sentir vivo
Há horas em que as exigências se mesclam
e não sei qual voz fala mais alto e quem escuto
Se o pedaço solto também é meu, afirmo, a outra voz é minha
devo hesitar em seguir as minhas próprias sugestões?
Não sei se nesta manhã confio muito em mim
Subo as escadas e estou no terceiro andar
Viro as chaves e entro no meu apartamento
Ninguém me espera e respiro fundo
É um apartamento espaçoso para uma pessoa
Ganho dinheiro o suficiente, mas não há nada
Um barulho me distrai e ando até a sacada
É a primeira vez em mais de setenta dias
que posso contemplar uma manhã
Meus olhos vislumbram tratores e
me dou conta do tamanho como algo novo
Meu coração se enche de tristeza
Observo homens carregando caixas
Operando empilhadeiras e tratores
Raramente rindo acima da confusão
dos sons altos das máquinas pesadas
Não há mulheres entre os trabalhadores e
ainda assim os homens são mais felizes que eu
Falta-me qualquer luz mínima para findar o breu
Olho para dentro e penso no tanto que já me aconteceu
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Não há mulheres na minha vida, tampouco há amor, sexo e esperança
Há o apartamento no qual moro e existo solitário
Aqui passo minhas pouquíssimas horas fora do trabalho
O bolso cheio, às vezes, coloca-me um sorriso no rosto,

entretanto, ando até a sacada e observo os tratores
Não tenho amores, amizades, carinho, sexo ou respeito,
Não sinto o ódio ou o descaso ou as distrações
É como se a cidade estivesse abandonada ou
tivesse optado por me rejeitar desde o princípio
Tudo o que tenho é este apartamento silencioso
e o suco de limão mais caro do mercado
Bebo o suco de uma só vez e calculo
quantos centavos vale cada gole
É a vingança da minha vida de solidão
Não entendo, mas sei que preciso passar por isso
No futuro passarei por coisas piores e a dor de hoje
me moldará para os desafios inexplicáveis de amanhã
Todo mundo morre no final, eu me ouvi dizer,
É preciso tomar cuidado com a linha que traduz vencer
Respiro fundo e sinto uma brisa gélida
Fecho os olhos e vejo paisagens lindas e lúgubres
através de janelas que nunca pude ver
Sinto como se estivesse ficando louco,

mas há os tratores e a pizzaria na esquina
A realidade é pesada e o barulho me situa
Há um pedaço grande e indefinido,
que penso me pertencer, sem certezas,
A escuridão que assola a minha vida hoje
não chega perto da que eu sentirei um dia,
entretanto, lido sozinho com a cidade alaranjada
Repleta de coelhos brancos e ofensas no trânsito,
Vislumbro um bebê no meu colo
em algum lugar perto de lugar nenhum
Sonho diurno com a vespertina carioca,
Sou o único que capta o momento
em que um camaleão troca de cores
A vil adaptação quando não é feita apenas
por motivos de sobrevivência
Pisco os olhos e descubro o que acontece
após um assalto mal planejado
Olho de frente para uma mentira
que não faz o menor sentido
Conto coisas que canto e canto coisas que conto
As palavras me abraçam nesta desértica solidão laranja
O céu rosa subitamente acinzenta e a tempestade
me convence de que haverá alegrias e tristezas aos montes
Preciso ser feliz e triste para aprender melhor
A vida será ridiculamente mais difícil no futuro, entretanto,
Lá adiante não ando mais sozinho
O apartamento não é mais meu último conforto
O trabalho com números não é o único caminho.

Divagações Prolixas

Àquela época, juro, não havia como entregar mais do que eu já entregava. Não me entenda mal, eu não era dado a perversões, não era particularmente viciado em coisa alguma e me sobrava a disposição juvenil para o labor que só transborda nos realmente jovens e espirituosos. Eu era, hoje vejo, ainda ingênuo. Alimentava minhas crenças na possibilidade de crescer na empresa em que trabalhava e acreditava fervorosamente na meritocracia, assim, não me importava em me matar de trabalhar, na verdade, até desejava trabalhar até a exaustão, mesmo que minhas mãos estivessem trêmulas ao final do expediente e meus olhos avermelhados. Não era como os japoneses que trabalhavam até quinze horas por dia, entretanto, com uma personalidade obstinada, firme como o aço, eu dificilmente me dobrava para o cansaço ou qualquer outra coisa. Se eu era capaz de lidar com a exaustão era sinal de que estava tudo bem. Meus esforços resultariam inevitavelmente em uma carreira bela e sólida.

Quando se quer trabalhar, porém e, surgem centenas de obstáculos entre você e o objetivo, há de se respirar sem pressa e recuperar a confiança. Mantenha a calma e contenha o entusiasmo. É preciso fazer um esforço hercúleo em não se esforçar. A primeira vez que me vi defronte ao dilema senti um torpor crescente, pois as informações pareciam e ainda me parecem antagônicas. Como absorver uma informação que soa como uma brincadeira? Você pode estar chocado, entretanto, eu falo a verdade sobre isso de se esforçar em não se esforçar. É mais ou menos como a expressão se fechar em concha, mesmo que não guarde pérolas. Há ambientes em que há um empenho notável em não levar qualquer tipo de conhecimento além. Tudo pede discrição? Tudo. Sabemos o que sabemos e ninguém nos ensinou, logo, também não me sinto obrigado a fazer o mesmo já que nunca o fizeram por mim. Bem, há duas maneiras claras de fazer a leitura da situação: lendo-a ou evitando lê-la. Só os banais se desgastam sem a necessidade.

Àquela época, juro, fechava os olhos da minha intuição para evitar o pior que antecipava dos outros. Nestes tempos de isolamento, é mais fácil se esquecer de si mesmo. Sente saudade de quem costumava ser no mês passado? Sente o peso das culpas do extenso mês de fevereiro? Sente o cheiro da maresia e o aroma de vida nova da cabeça do seu sobrinho? Por quanto tempo vale a pena ser o que é? O que você faria para se adaptar e se sentir um pouco melhor a respeito de si mesmo? Proteja-se, rápido, seja com a sua afiada argúcia intelectual ou com seu notável porte físico. Ninguém transporá suas armaduras e você estará certo em se sentir seguro, desde que nunca perguntem. Você reconhece os facilmente impressionáveis por também ser assim, certo? Não ter um rumo para onde seguir é a personificação da jornada de solidão no deserto. Toda a atenção do mundo não te faz sentir mais esperto. Falhar consigo mesmo não é uma possibilidade. Você sequer existe quando não há estímulo e atenção dos outros.

Agora estenda os raciocínios e vá além. Desabroche no asfalto, quebre o silêncio com um grito, erga os punhos e não se deixe abater tão facilmente. Respire fundo e aguente firme. A jornada quase nunca é simples. A vida exige de nós um pouco de jogo de cintura e há quem confunda um rebolado discreto com um curso profissional de dança. Não devemos nos esticar distâncias impressionantes e difíceis de calcular apenas para tentar impressionar os outros. O que resta de nós quando abrimos mão de nós? Os preços, altos ou baixos, geralmente são pagos. Os fins, dizem, justificam os meios. Qual é a sua opinião sobre fins e meios? Sinto um arrepio e não sei se é devido ao pensamento perigoso ou ao café ruim do meio de uma tarde de trabalho. Sorrio e temo pelo dia em que puxarão o meu tapete. Deveria viver objetivando deslumbrar as pessoas? Conheço meios para ser o centro das atenções, portanto, deveria colocar uma melancia na cabeça e fazer com que tudo seja sobre mim o tempo todo? Sou desprezado e detestado por pessoas viciadas em impressionismos baratos. Não me esforço para dobrá-los ou convencê-los. Eles, por sua vez, irritam-me de vez em quando e me tiram do sério. Respiro e me recomponho. Não preciso tornar relevante quem não o é. Calo o meu lado intelectual, privo o planeta da minha existência, sou o que resta de mim em mim, sem plateia, sem aplausos, sem assovios ou tomates. Penso antes de abrir a boca e por vezes a fecho sem nada dizer. Os sonhos inadequados, se eu os tivesse, não os compartilharia como quem percorre trilhas secretas, sorrateiro, deixando pedaços de pele e de presença. O que será que querem? O que eu diria se não tenho o que dizer? Será que deveria forjar opiniões aprazíveis para me encaixar e ser adorado pelas pessoas? Todo mundo gosta tanto de quem tem a fala fácil e a adaptação rápida. Todo mundo gosta tanto de amar quem é completamente desconhecido. Algo dentro de mim pede para sair e reflito que isso talvez não agrade meu público, conscientizo-me de que isso tudo talvez amargure o meu grande espetáculo. Dou de ombros. Quando o que urge dentro pede para existir fora, respiro fundo e aliviado, solto o ar do meu peito.

Não devemos calar a nossa voz interior apenas para encontrar um tom que agrade a multidão. Não devemos nos apagar do que somos para nos apegar ao que não somos porque queremos desesperadamente pertencer. Apego-me muitas vezes ao que não sou para continuar não o sendo. Os prêmios pelas melhores atuações são excepcionais, mas os troféus fictícios não podem ser ostentados na estante. Na galeria dos troféus de mim, só me orgulho de quando consigo me manter “Eu” em face do horror reproduzido pelo mundo. Estou consciente de que sou capaz de reproduzir Beleza e Horror. Opto, na maior parte do tempo, pela difícil tarefa de valorizar o Belo através da exaltação das discretas coisas frágeis.

Os erros são, na verdade, tão legítimos quanto os acertos. Àquela época, juro, exprimia da vida todo o suco que ela podia me entregar. Os erros aconteciam aos montes, mas os acertos ocorriam em frequência ainda maior. Veja, não é como se eu não estivesse tentando ir para algum lugar, entretanto, os nossos alvos internos são, geralmente, invisíveis aos olhos dos outros. Nos aprazemos em tornar defectíveis os que jazem longe e nos apressamos em aperfeiçoar os que estão perto o bastante ao ponto de parecerem figuras místicas. Franzimos o cenho, cruzamos nossos braços e, não raramente, atacamos quem ataca nossas pessoas amadas. Somos o escudo que se levanta e ampara as flechas, mesmo quando os disparos são realmente merecidos. Alguém já te defendeu quando você estava errado? Como isso faz você se sentir?

Por vezes sinto como se meu cérebro fosse pifar e me lanço outra vez em esforços hercúleos, homéricos ou qualquer coisa assim, sobre lendas que nunca me fizeram a menor diferença, apenas para pensar menos e me acalmar. Quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas e quem se apequena para se encaixar pode muito bem ser esmagado, mesmo que sem querer. A vida é linda e feroz. Minha expansividade baila com um sorriso brincalhão de júbilo na face quando me percebo convicto a respeito de uma opinião que posteriormente se configura completamente verdadeira em um tempo-espaço futuro. Não sei o que falo, o que calo, mas aos poucos compreendo que Deus mora no escuro. Não só na escuridão qual temo, bem como no sol que cega meus olhos. Deus é um amigo que esquenta e esfria e tenho que me esforçar para ser um filho pertinente. Tento me acostumar com quem não me exige costumes falsos. Pertenço a quem não me obriga ou me estimula a me disfarçar e a quem me aceita exatamente como eu sou. Olho-me e me reconheço confuso. Quantas divagações espirituais e divinas para alguém que quase nunca reza. A minha fé, porém, subsiste nas coisas certas. Quando falho com o que considero correto, falho comigo, fecho-me e me envergonho. Volto outra vez a escutar gritos assombrosos, miados fantasmagóricos e os calafrios agora são mais assustadores. Meus pelos se eriçam e me vejo pronto para o combate. Espécie de fera arisca, sou feito de amor, mas o meu coração de guerreiro bate. Estou de joelhos, mas me levanto cambaleante. Luto quando é preciso lutar. Faria sangrar pelo que é certo. Faria sangrar pelas pessoas que amo. Banharia meu corpo em vilezas, desde que feitas de certezas, ainda que a maioria do mundo considerasse um engano. O tempo todo nos conduzem por um processo estreito qual nos empurra para um pensamento de massa. Tudo se polariza e você deve escolher um dos lados. De que lado você está?

É preciso, eu juro, empreender um esforço sobrenatural para não escolher. Não é fácil apontar os erros dos outros enquanto reconhece os seus próprios. Não é fácil parar de amar ídolos fracos e falsos só porque um dia lumiaram os nossos olhos. A vida é o caminho que escolhemos e os milhares que deixamos para trás. Quem sabe fôssemos mais felizes, quem sabe tivéssemos sucumbido diante das trevas do Universo, quem sabe a solidão nos fortalecesse ou nos matasse de vez. Quem sabe o que teria acontecido se eu não tivesse entregado todas as moedas ao mendigo ou doasse meu casaco ou cortasse o papo do coreano. Carrego a lanterna como a prova de algo que não sei o que provar, mas sempre sorrio com a lembrança do presente. Quem sabe a lanterna do coreano me faça me sentir mais lanterneiro, como o menino naquele avião ou quem sabe eu precise me alimentar de coragens alheias para fortalecer a minha própria. Quem sabe esse Vide Noir cresça, diminua e cresça outra vez. Quem sabe abrir mão de alguns casacos tenha me garantido eternamente aquecido. Quase fui engolido, mas saí do fundo do poço. Quase pelo mundo fui esquecido e ninguém se recordaria do meu nome no meio dos destroços. É estranho não tentar e crescer. As pessoas dizem e nunca cumprem o que prometem fazer. Sei de memória de pelo menos dez pessoas que juraram ler meu livro. Elas, na verdade, estão mais interessadas em quaisquer futilidades nas rotinas ou nos feriados e domingos. Talvez todo mundo minta que se importa. Talvez a solidão outra vez me bata à porta. Talvez o meu destino seja ser triste, entretanto, luto ferrenhamente contra o destino. Se tenho força para me levantar posso então mudar o meu destino?

Sigo, trêmulo, oco, repleto, opaco, cego, confiante, hesitante, claudicante, alegre, triste, entusiasmado, pelas centenas de estradas da vida. Talvez devesse escrever mais doze contos sobre realidades tão comumente esquecidas. As mesmas pessoas que então juraram me ler, por sua vez, jurariam de novo e novamente não leriam. O que nos resta quando nada interessa e tudo soa como uma péssima poesia? Rimo, faço anagramas, sigo, sorrio menos, deveria sorrir mais, Anna diz, meu avô dizia, meus avós diziam, meu pai dizia. Dani, seu sorriso é tão lindo, por favor, sorria mais, mas não posso deixar de ver o que vejo e há coisas de mais espalhadas pela cidade e os outdoors foram removidos e eu não sinto saudades, mas os outros parecem o tempo inteiro quererem voltar ao cerne de uma vida sem expectativas. Sairemos todas as noites e que nossas vidas sejam esquecidas. Noctívagos de olhos espertos espreitam a escuridão e eu sei que já fui um deles. Distrações não me distraem e eu choro. Distrações não me distraem e me permito respirar. Os cochilos são sagrados, mas às vezes Deus me furta o sono e compartilho um silêncio de roncos baixos com a mulher que amo. Melhor seria apagar, mas permanecer acordado também é precioso. Tenho medo de não a ver roncar mais. Tenho medo dos medos. Secretamente encaro meus maiores desesperos.

Lá vou eu, como um navio, desbravar o mar em uma noite de tempestade, livre do medo de soçobrar. Nem a criatura mais forte diminui a potência das marés. Eu talvez morra essa noite ou essa tarde porque meus entendimentos falharam em ser entendidos por todos, inclusive, por mim. Vencemos todas as vezes que apostamos em nossas individualidades. Fracassamos toda vez que nos disfarçamos. Ser pequeno não serve ao mundo e, respiro-me, saio de mim, para encarar essas tantas adversidades. Talvez eu perca a minha vida, mas quero observar o sono da mulher que amo e deixar que meus braços lhe confiram uma sensação de segurança. Talvez eu perca a minha vida, mas um dia vou matar o dia de trabalho para passar uma manhã inteira com o meu cachorro e a minha gata. Talvez eu perca a minha vida, mas estarei onde tenho que estar, prostrado, eu, dono de mim, convicto de não estar convicto, mas sem me vestir de outra pessoa para impressionar. Lá vou eu, na escuridão de Deus, amar a vida que nem sempre me ama de volta. Lá vou eu, outra vez me importando com quem nem sempre comigo se importa. Ao redor do buraco tudo é beira, sorrio, encaro o abismo e ele me encara de volta. Não tenho medo de altura e ergo a minha cabeça e sorrio. Os sonhos foram feitos para serem sonhados. Alguns se realizarão e outros não. Será que há alento para os que fracassam? Canções novas agitam o meu peito e sinto que podem brotar, a qualquer momento, novos contos para que eu possa cantar. Se um dia eu me perder de tudo por decidir mergulhar bem fundo, você me ajuda a voltar?

Acordo no meio da noite e ando pelo apartamento sem acender as luzes. A cidade silenciosa existe sem mim e a fito pela sacada. A escuridão é o lugar de Deus, portanto, não acendo as luzes. Permito-me, aos poucos, a me acostumar. A brisa gélida trespassa meu corpo na madrugada e sinto meus instintos de criatura noctívaga. Existo, sei que sim, sorrio, pois Deus vai cuidar de mim. Todos somos filhos do mesmo. Sorrio por não ser meramente religioso. Sei que tenho grandes sonhos e a vida não pode acabar mal. A morte é o destino que une a humanidade, assim, convenço-me de que, cedo ou tarde, iremos nos encontrar em outros planos. Não sei o quanto valho, mas a vida é só uma, até onde eu sei e creio honestamente que não é saudável desperdiçar meu tempo sendo quem eu não sou. O que me oferecem em troca de atuação é audiência e não amor. Sorrio e meus olhos enxergam cada vez melhor. A escuridão começa a ficar clara ao meu redor. Nem todos os dias são bons, mas tudo vai ficar bem. O incenso queima e o calor do fogo me confirma: ser o que se é ainda nos levará além.  

Não sei onde chegarei, juro, mas caminho em uma direção previamente estabelecida, sem imitar os outros e nem seguir milhares de trilhas. A minha personalidade não se confunde com a dos outros e sinto um alívio. Não há como entregar mais do que eu já entrego. Não me entenda mal, eu não sou dado a perversões e continuo não sendo particularmente viciado em coisa alguma. Não divido meus hábitos, mas divido a minha jornada com quem nunca solta a minha mão. Há quem pense que os dragões são todos ferozes e que as raposas são todas matreiras, entretanto, as sutilezas das feras são de uma leitura mais lenta e atenta. A disposição que me sobra não me transborda, mas é direcionada para o destino certo. Eu era, hoje vejo, ainda ingênuo e sinto um estranho orgulho da minha ingenuidade. Cuido como ninguém das pessoas que me cercam. Nunca me esqueço dos meus acertos e dos meus erros. Há muito o que errar, mas muito mais o que acertar daqui para frente. Tudo é como é, mas permaneço forte enquanto andar lado a lado com pessoas que me reforçam na essência. Quanto aos que exigirem que eu seja qualquer outra coisa, balanço a cabeça em negativa e tenho paciência. Um dia quem sabe eu possa fazer alguma diferença.

Os amigos.

“A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa nem medir o que se diz”. George Eliot.

Parte 3 – Os Amigos.

As crianças talvez saibam mais que os adultos sobre os rótulos e me recordo de inúmeras crises de ciúmes que os meus amigos costumavam ter na hora de ostentar suas amizades como verdadeiros troféus. Seria tão errado ter essa espécie de ímpeto possessivo? Tive grandes amigos ao longo da vida, alguns inigualáveis, todos certamente singulares. Sei que decepcionei alguns, mas também fui enxovalhado e até traído por vários. Alguns me colocaram nos melhores lugares para os voos incríveis que fazemos ao longo da vida e outros me fizeram conhecer o sabor de uma traição que chega de um lugar completamente inesperado. Afastei-me de uns e outros algumas vezes por mudanças de cidade, de rotinas, de estilos de vida, mas fica a calmaria do coração bem resolvido, seguro, quando me invade a consciência de que sempre aproveitei o melhor do meu tempo ao lado de quem andava comigo. Gastaria horas escrevendo um pouco sobre cada amigo, mas hoje venho aqui para falar apenas de dois.

O Gabri é um cara quieto para quem não o conhece, mas é muito bem-humorado. As nossas piadas e referências internas nos fazem ficar horas e horas brincando e rindo. Eu, ele e o Luís brigamos em um momento do ano passado por uma coisa estúpida e nos afastamos. É estranho se ver em um nível de intimidade tão grande com as pessoas ao ponto de sentir o peso da ausência delas se arrastar pela rotina. Lembrei-me inúmeras vezes das mesas de RPG, do dia que nos conhecemos e de como pude sempre contar com o Gabriel desde o instante em que era certo que podia chamá-lo de amigo. Quando reatamos a amizade e nos retomamos, o alívio que eu senti foi imenso e foi como se nunca tivéssemos nos distanciado. Certas pessoas percorrem atalhos. Ele ainda voltou em grande estilo antes do meu aniversário e trouxe para minha mãe e para o Luís a ideia de fazer o vídeo, qual ele também editou com Ghibli e Mumford (o homem me conhece muito bem). A briga feia, a resolução, a amizade que não se apaga do dia pra noite, faz com que eu me lembre de uma das minhas cenas favoritas dos meus animes de infância. No final de Digimon 1, o Taichi aguarda pelo Matt, mesmo que os dois tivessem tido uma briga feia, para enfrentar o Piedmon, o mais perigoso dos Mestres das Trevas. Quando o Matt chega, emocionado, diz “eu vim por você, amigo” ao que o Tai responde “eu sabia que você viria”. O Gabri nem sempre é delicado, mas sabe o valor de uma amizade e aprendi que ele sempre estará aqui por mim.

Discorrer sobre o Luís é uma missão ainda mais difícil, mas já me gastei centenas de vezes para tentar convencer os outros de que este cara é um em um milhão. Os outros, na verdade, realmente não importam, mas marco essas palavras, pois realmente quero que ele não se esqueça. Brinco que tive que trazer de fora um melhor amigo, pois não foi fácil a minha jornada até encontrar alguém que me entendesse e dividisse tanto a jornada humana como a jornada de escrita comigo. Dessas tantas coincidências ou predestinações, é sempre saudável lembrar que foi o próprio Gabri que nos uniu pela primeira vez e desde então somos inseparáveis, até mesmo quando nos separamos. O Luís sempre esteve e ainda está comigo desde o primeiro dia de nossa amizade e isso é raro. Suas qualidades falam sempre mais alto que seus defeitos e gosto de destacar o quanto o admiro e o acho corajoso, alegre, leal, paciente e companheiro. Ele também é o cara que nunca passa a mão na minha cabeça e sou grato por ter alguém assim na minha vida. Muitas vezes se confunde o querer bem com o querer pelo outro e o Luís nunca quis fazer as minhas escolhas por mim, pelo contrário. Ele sempre me ajudou a me manter localizado em mim para que eu pudesse ser sempre eu mesmo e me responsabilizasse pelas minhas próprias ações. Ele é o tipo de cara que sobe descalço junto com você em uma escadaria gigantesca e nem reclama das queimaduras nos pés. Ele se inflama com as injustiças, admitindo que às vezes até mesmo ele pode causá-las. Ele é o cara que não se preocupa em tirar as fotos mais bizarras juntos comigo e que pulou dentro do barco, logo depois de mim. Ele é o cara que não pegou a Marina Ruy Barbosa. Ele é o cara que corre para pegar o último ônibus da noite, mesmo que esteja exausto, para ir até a sua casa quando desconfia que você não está bem e recentemente foi o cara que veio morar comigo por quatro dias, quando eu não tinha forças para lidar sozinho com as dores da culpa e do luto.

Assim, por essas palavras sucintas do meu coração prolixo, eu espero que cada um de vocês absorva um pouquinho da imagem que sustento de vocês e saibam sempre que são esplendorosos aos meus olhos. Eu os admiro, eu os quero bem, eu celebro suas vitórias e sou mais triste quando vocês não estão bem. Obrigado por serem exatamente como são. Obrigado pela amizade mais sincera que eu poderia pedir. Eu amo muito vocês!

Aos outros que ousarem ler este texto, peço apenas para que se lembrem de que os números não são tão importantes assim. Se você conseguir um ou dois amigos como são os meus, eu espero que os valorize sempre e reconheça a sorte que você tem.

Os números realmente não são importantes, mas reconheço o privilégio de ter quase quinze pessoas que gostem muito de mim pelo que eu sou, sem tirar qualquer defeito e sem disfarçar qualquer qualidade. Admito a raridade que é me sentir bem por ser bem cercado, sem ter medo das pessoas, que outrora na minha vida já me foram muito assustadoras. Agradeço o milagre de ter pessoas que se compadecem da minha tristeza e celebram os meus sucessos e alegrias. Hoje falei só do Luís e do Gabriel, protagonistas recentes na minha vida e também pessoas que me resgataram nesses dias dolorosos que passei em fevereiro e março, mas eu nunca me esqueço de quem divide as jornadas e compartilha os caminhos comigo. Eu amo muito TODOS os meus amigos e, embora alguns possam ficar enciumados como as crianças citadas no início do texto, eu só quero dizer que vocês não foram e nunca serão esquecidos. Vocês são extremamente importantes. Fiquem bem!

Véspera

            Amanhã é meu aniversário e outra vez não haverá celebração. Consterno-me com isso? Se devo reconhecer algo é que o meu aniversário do ano passado foi excelente, apesar dos pesares. Dois mil e vinte foi um ano de altos e baixos, mesmo com a morte de milhares. Eu realmente gostaria que o cenário fosse mais auspicioso e que toda felicidade não me parecesse tão distante assim. Quando o caos do mundo faz um barulho ensurdecedor, você consegue se manter reto e discreto com a memória do amor? Quando tanta gente fala, você se cala e escolhe o que é melhor para você ou fecha os olhos numa jornada hedonista que visa só o prazer? Os outros sabem pouco e pensam saber tudo. Sei que estive perdido e solitário por tantas noites que, às vezes, eu sinto que definhei sozinho em uma madrugada de janeiro e fui esquecido para sempre. Sinto que minha mente de ficcionista, expansiva e dominante, criou novos mundos para que eu pudesse existir, pois mesmo derrotado eu nunca fui o tipo de pessoa que desistia de algo tão precioso como a vida. Por onde andei? Alguém realmente me procurava?

            No início do ano, eu estive presente no hospital no dia do nascimento do meu sobrinho e sempre me sentirei privilegiado por essa oportunidade. Tantas caminhadas na praia das dunas e como consequência apenas sol e alegria nenhuma. Minto. Estar próximo do meu irmão me trazia felicidade e poder abraçar ele e seu filho no dia 04/01/2021 vai ser sempre das maiores coisas frágeis que pude contemplar na vida. É estranho, mas tento me agarrar nestes pequenos milagres para seguir adiante com coragem e não pensar na gigantesca onda que quase me afogou. Fui empurrado até o fundo do oceano por essas coisas horrendas e tudo o que eu sentia na boca era o gosto de água salgada. Lembro-me da nossa primeira despedida, depois de dias, depois de tantos jogos compartilhados e risadas e açaís e sorrisos… ainda meses antes da chega do pequeno Rodrigo. Os rituais lentos de Matheus, os meus gestos rápidos, a cumplicidade de quem se importa em se lembrar ressaltando a importância de não se esquecer no meio do processo. Eu te amo como você é, mas você pode ser melhor, eu disse para ele e absorvi meu próprio conselho. Eu sei que me agrada, mas não sou viciado na imagem que se reflete quando olho no espelho. Fosse eu viciado na própria imagem, tentaria viciar os outros nela também e assim adquiriria coisas por atalhos. O hedonismo me diz que devo desfrutar de todos os prazeres, ignorando todo o resto, se o posso. Sou esta figura narcisa retratada por Wilde a mais de um século? Matheus então zomba de quem precisa tanto da própria imagem. “Não é você que me diz, Dani, que quem só olha para fora nunca enxerga o que existe dentro? Temos defeitos, irmão, mas podemos mais”. Sempre pudemos. Choro ao me lembrar de como alguém esquecido como ele foi capaz de gravar minhas palavras. A ilusão é o primeiro dos prazeres e muita gente se contenta com as mais baratas. Detesto essas ambições tão rasas. Volto na questão. Poderia eu ser retratado por Oscar Wilde?

            A resposta negativa me fez suspirar longamente. Não sou e nunca serei escravo da voz alheia, mesmo que reconheça o poder do privilégio. Todos fitam sua imagem e você tira vantagem destes tantos ébrios. O sorriso pernicioso percorre atalhos e você se pega em um ponto complexo, ainda que simplório. O que pensaria ao fitar seu corpo no próprio velório? Você encara a velha confusão entre quem se perde nas definições de liberdade. Até mesmo os mais livres se pegam, de quando em quando, contemplando seus dilemas morais. Vivi, chorei, acertei e até me emocionei. O que é que faço de mim quando me reconheço? O que eu me represento se nem eu mesmo me obedeço? Fiz de mim o que não soube? Amo-me o suficiente, mas por vezes desejei ser qualquer um que não fosse eu. Busco estradas para locais seguros, mas piso em armadilhas óbvias e me machuco. Os réprobos me salvam, mas querem compensação. Sinto que os compenso, mas será que realmente os compenso? A realidade dói quando sei que mereço coisas boas e elas se afastam. A vida inteira parece um teste de matemática e não tenho minhas professoras para me tranquilizarem sobre os números. Quando o mundo se apaga, vozes traiçoeiras nos empurram. Às vezes os mais próximos nos afundam. Parto para o ataque e me reteso. Não acredito em Deus, mas às vezes rezo. Posso mesmo carregar todo este peso? Admito que tropecei muito e até me perdi de mim. Será que tudo tinha mesmo que ser assim?

No meio desta cronologia maluca, eu me peguei desconhecendo as razões de fazer o que eu fazia. Vivi incontáveis madrugadas de silêncio violento. O tiquetaquear do relógio ribombante transforma meu coração em uma bomba relógio. Se eu explodir esta noite estarei completamente sozinho. Pelo menos meus destroços não machucarão nem mesmo meus vizinhos. Penso mesmo na saúde do vizinho de casa? Eu que sempre fui rei dos céus nunca mais pude abrir minhas asas. Estranho é deixar de pensar nos outros quando os outros sempre estiverem em primeiro lugar no meu coração. Sofri e quase me afundei. Nos meus instantes de força bruta e lucidez, eu nadava até a superfície e recuperava o ar. Algumas pessoas me puxavam de volta para me chutar para o fundo do mar. A solidão crescia no meu peito enternecido. Cada dia eu era mais cônscio da vileza do mundo e da quantidade de perigos. Endureci sem nem perceber. Senti a minha força expansiva de sonhar esmorecer. Talvez a vida não seja muito mais do que sofrer e fazer sofrer. Talvez devamos valorizar os que nos ensinam sobre Beleza e Dor.

Continuei a ver a vida, mas deixei de senti-la. Andava, mesmo que não sentisse minhas pernas. Comia mecanicamente, como alguém que se esquece de que nem todas as refeições carregam o mesmo aroma e sabor. Flutuava pelas noites e dias como uma sombra discreta de mim, eco distante da minha totalidade. Não sentia vergonha de coisa alguma. Não sentia orgulho de coisa alguma. Tornei-me fantasma. Deixei de escrever e senti que havia perdido tudo. Sabia, ainda que não trabalhasse para me evitar, que se me perdesse das palavras estaria desmaiado para com a verdadeira vida. Não tinha força para buscar tudo o que estava longe. O que me fazia continuar? Os milagres que eu já tinha visto ou os que eu esperava ver? O que me levava ao autoabandono?

Até hoje não sei identificar com precisão o momento em que eu me afastava dos caminhos que tanto amei, mas olho para minhas culpas e as enfrento, mesmo que elas ainda me assustem de quando em quando. Nunca clamei por atenção, mas há outras maneiras de gritar socorro. Só não sucumbi pela presença dos meus gatos e do meu cachorro. Só os medrosos podem agir com coragem. Só os valentes caminham para a escuridão quando o resto do mundo congela, mesmo com as pernas trêmulas.

Sou fogo que arde e minha luz iluminou, no mínimo, uma dezena de pessoas, mesmo quando me esqueci do meu valor. Oscilo, mas continuo em frente em nome do amor. A vida é difícil, mas ainda vou existir longe, brilharei no horizonte durante minha próxima cena. Serei sutil e profundo como um poema. Sei que muito errei e que de quase nada sei, mas viver sempre vale a pena.

A virada de fevereiro para março me trouxe de volta velhas novas esperanças e o sabor esquecido de uma felicidade real. Vivi noites de natal em pleno carnaval. Sofri e aprendi. Errei e me aprimorei. Sou o mesmo, mas sou alguém melhor. Sinto que quando olho, encaro o cerne de tudo e me sustento em temperança. Se tenho a oportunidade para mudar tudo com as minhas próprias forças, eu sei que um dia por vez vou perseguir o que sempre quis. Nunca mais nessa vida subestimo a oportunidade de ser feliz.

Sinto falta de muita gente, mas ando destemido e contente, agindo como um adulto, mas mantendo meu coração de menino. Não sei o que haverá pela frente, mas sinto segurança no coração e na mente para correr atrás do meu destino.

Fica agora comigo?

Fica agora comigo?
Traz teu corpo pra cá
Diz que é a minha chama
que não espera o final de semana
E que quer a minha cama hoje
Diz que adora o meu sorriso
Admite que quer ficar comigo
sem medo do tempo e pavor da demora
Mente que eu sou seu paraíso
E se permita atrasar até esquecer das horas
Fica hoje comigo e viajaremos para a lua
Dentro do meu carro vagando pela rua
Orbitando outras galáxias
Desmistificando ancestrais falácias
Abandonando tudo por um certo desejo
Diz que não pode esperar mais
Que amanhã tanto faz
E precisa imediatamente
do gosto do meu beijo
Ignore a gravidade e deixe a cidade
Em outros sistemas solares
voaremos juntos
Esmagaremos todos
os péssimos assuntos
Flutuando pelo espaço fora da Terra
Diz que quer dividir comigo sua paz
O resto todo tanto faz
Mas diz que por mim inicia guerras
Diz que eu sou louco de propor
a minha vida inteira
às 21h30 de uma segunda-feira
Ignore os maus pressentimentos e o medo
Sei que trabalhamos amanhã cedo
E talvez eu tenha enlouquecido
Quero te sussurrar meus segredos
Alegrar o seu tão previsível enredo
E se acordado não te encontrar
Espero pelo menos te achar
enquanto estiver dormindo.

Fome e Memória

Aproveitar esses mágicos instantes
Essa doçura com face de paraíso
Se nessa vida tudo fosse constante
optaria todo dia pelo teu sorriso

Trouxe-me tantas alegrias inesperadas
Fez-me voar alto para a imensidão
Fecho os olhos e nos vejo de mãos dadas
dentro da velha loja em destruição

Quero te beijar como se fosse o primeiro beijo
Te amar com toda a fome do meu desejo
Viver contigo por cento e dez eternidades

Quero ser no dia a dia assim risonho
Assustado acordo de um distante sonho
Chorando por velhas memórias e saudades

Sensações.

            Acabo de percorrer o caminho de volta do Bairro da Liberdade. Todos alertam sobre os perigos de São Paulo e eu não relaxo, mas admito que a sensação é ambígua enquanto carrego minhas sacolas pelos metrôs e pelas ruas. Tenho a impressão de que é como trancar toda a casa antes de dormir e, ainda assim, ser surpreendido por um bandido que sai de dentro do meu guarda-roupas. Verifico os armários antes de me deitar, apenas para me sentir ainda mais seguro e durmo com a televisão ligada para evitar a escuridão. Essas sensações antigas retornam junto com os meus tantos pesadelos.

            Notei, ligeiramente abismado, que chamei a cidade de São Paulo de casa. Poderia uma cidade tão agitada servir para alguém tranquilo como eu? Deixo essas questões ridículas e precipitadas para outro momento. Tenho o péssimo costume de deixar toda sorte de coisas para depois e devo me encontrar com a cidade no meu próprio tempo.

Voltei do passeio e trouxe alguns bonecos dos animes que mais gosto, quatro camisetas, bem como três pôsteres que vão se transformar em lindos quadros. Minhas aquisições são positivas e me sinto renovado e feliz pelo passeio. Ninguém me incomoda na ida e nem na volta. Talvez seja por conta da minha altura ou pelo fato de que forço meus músculos e não abro mão de minha carranca irritadiça. É possível que comprem a ilusão de raiva quando olham para a expressão dura de meu rosto, porém desabrocho meus melhores sorrisos assim que me encontro com pessoas. Intuitivamente sei que é muito importante continuar a ser gentil.

A vida vai esquisita e encontro novas maneiras de ganhar dinheiro. Nenhuma delas até hoje me fez feliz. Chego no apartamento e meu irmão está dormindo às 19h00. Nenhum de nós sabe que em um ano e meio ele vai ter um emprego qual ama e menos ainda desconfiamos que ele será pai. Neste instante agradeço o privilégio de desfrutar das coisas presentes. O computador está livre e posso escrever um texto.

Honestamente não me lembro exatamente do que aconteceu depois. Nesta época, tudo detinha a minha atenção na cidade de São Paulo. De quando em quando me levantava animado e passava o dia todo caminhando por ruas extensas e entrando em lojas com cheiros peculiares e tamanhos improváveis. Noutros eu empenhava esforços homéricos para convencer meu irmão a sair comigo e, vez ou outra, era recompensado com sua companhia. Em algumas manhãs e tardes vaguei a esmo, sem medo do perigo, procurando um lugar pacífico para tomar um café e ler um livro. Numa dessas incursões até ganhei uma pedra do meu signo e uma profecia de uma velha esquisita que previu meu sucesso, o que não foi assustador, mas achei de bom tom da parte de uma excelente vendedora. Houve noites quais saí em primeiros encontros na Padaria Palmeiras e olhei pela primeira vez em olhos azuis como o oceano.

Quem diria que meus olhos castanhos se reconheceriam naquela imensidão azulada e profunda. É que carregar uma dor no peito transforma nosso jeito de se mover e até os nossos olhares e acontece que duas dores distintas podem se encontrar como semelhantes, ainda que sejam completamente diferentes na forma. Eu não apostei em nada mais do que a minha própria gentileza e descobriria muito depois só uma pessoa que me fizesse apostar tudo outra vez. De toda forma, estávamos sentados na mesa estreita, meus joelhos batiam em tudo e nos olhávamos. Trocamos nossas histórias, nossas primeiras impressões e onde dois opostos se encontraram como semelhantes surgiu uma fagulha que resultou em uma explosão. Ela havia sido largada pelo noivo semanas antes do casamento e partiria dentro de dois dias, sozinha, para a lua de mel na Austrália. Eu ainda meditava sobre o meu desamor e meu sofrimento no último semestre e me questionava a respeito da durabilidade das relações. Em outros cantos do país outras pessoas passavam por traumas maiores e descontavam em distrações diferentes ou se alegravam por coisas mais discretas e eram felizes por gestos mínimos. Eu não poderia antecipar o que interligaria o meu destino ao de outros.

A vida vai como vai e é inevitavelmente estranha. Creio que na realidade perfeita desta mulher de olhos azuis, ela se casa com o homem com o qual passou anos juntos e vive uma lua de mel incrível e repleta de passeios. Ela certamente não esperava passar a véspera da viagem com um cara que conheceu na noite anterior. Eu certamente não esperava ser o cara da noite anterior e nem esperava estar sentado no sofá do apartamento em São Paulo assistindo Baki na metade do mês de abril. Ainda sem sair do sofá me peguei imaginando a mulher da noite passada descendo sozinha em solo australiano. Um sorriso espontâneo surgiu em meu rosto e naquela noite tomei a vida por inevitável, mas ri de minha própria tolice pela improbabilidade do avião ter chego tão rapidamente em um país tão distante.   

Ainda assim, eu reconheço que tenho falado muito de pessoas, principalmente das outras e, muito provavelmente, discorrido pouquíssimas vezes em retrospectiva pessoal, intransferível, individual. Estive tentando me evitar? Não tenho certeza, nunca fui de fugas, mas suponho que todos sejamos capazes de contradições.

Volto a falar de destinos que se entrelaçam e felicidades inéditas, como as que vivi no meio do agitado ano de dois mil e dezenove e do esquisito ano de dois mil e vinte. Coisas importantes se renovaram dentro de mim e me tornei alguém melhor. Amei e fui feliz como nunca imaginei. Oscilei mais do que pretendia, entretanto, vejo que fui forte como pude, pelo menos na maioria das vezes. Pilotos franceses subitamente me abriram os olhos e não pude deixar de ver o que por tanto tempo evitei.

O mistério do êxito não é tão misterioso assim. Para fazer o que poucos fizeram é preciso fazer o que poucos fizeram. Sorrio com a afirmação boba e estremeço. Os aviões decolam incessantemente e vejo suas luzes fracas iluminando discretamente o ambiente do céu noturno pelo qual passam. Jazo dentro de um deles, ainda que seja sempre incerto o momento, mas me vejo partindo no meio do breu, insistindo sempre em luzes, veja só, essas luzes que brecam a escuridão aterrorizante, essas luzes que nos salvam a todo instante, essas luzes que me seguem e que me preenchem, essas luzes quais me tornam luz também. Diversas sensações sambam alegremente dentro de mim. Sinto que preciso acender as luzes apagadas, trocar lâmpadas, mostrar o caminho. Aqui hoje assim não posso. Aqui hoje assim não consigo.

Tenho a sensação atemporal de que a minha solidão pode me matar, entretanto, simultaneamente vejo que apenas sozinho sou capaz de parar de me esconder das tantas responsabilidades que tenho para com minhas capacidades. Sei sobre o meu tamanho e tenho que ficar longe de casa, seja lá o que me faça sentir em casa, para atingir meus limites e cumprir com meus objetivos. Até onde sei, tenho esta vida para sentir orgulho de minhas capacidades e me derramar neste mundo tão vil, violento e frágil. Confesso que posso ser exatamente como o Universo se parece aos meus olhos e choro.

            Essas sensações antigas retornam junto com meus pesadelos e me defendo em um estado inconsciente. Quando me percebo em pé com os punhos cerrados, flagro-me em um medo descontrolado da morte e um apego feroz pela vida, assim, convenço-me de que continuar vivendo é uma questão de necessidade e que todo esse papo que faz voltas e mais voltas faz algum sentido. Essas sensações antigas retornam, mas quando o mar da escuridão tenta me engolir e me tornar melancólico ou sorumbático, eu sorrio com os olhos na direção qual seguirei. Tenho a sensação de que sou uma luz forte, dessas que cegam momentaneamente nossas visões, em um mundo escuro e esquecido. O meu jeito de existir é continuar convivendo com as sensações e tomando o cuidado para não queimar subitamente. Quem sabe um dia exista mais claridade que escuridão. Quem sabe um dia eu dormirei sem a televisão ligada. Quem é que sabe?

            Um dia…

Aos que acharem meu corpo.

Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido
Tentei até o último instante

Diga que certas vezes me apavorei
Até errei o meu caminho
Algumas vezes iludido pensei
que faria tudo melhor sozinho

Diga aos médicos legistas
que fui um homem de poucos medos
Peça para que sejam detalhistas
e cuidadosos com meus segredos

Diga que nunca consegui me recompor
E que nunca mais pude ser quem fui
A sombra de uma versão melhor
certas vezes ainda me possui

Diga aos que acharem o meu corpo
que não permaneçam em luto por mim
Se estou estirado e morto
é porque tinha que acabar assim

Diga aos que acharem o meu corpo
que eu sempre maldisse os descuidados
Que notava a vituperação provinda do porco
ainda que ele jurasse ser meu aliado

Diga que eu vi a argêntea adaga
antes de ser tingida por meu sangue rubro
O golpe traiçoeiro de uma amiga espada
nunca pode ser parado por um escudo

Diga que eu sofri pela latência da dor,
E admita que não gemi por sequer um momento
Narre que humilhado despenquei de joelhos
no vazio imenso do silêncio violento

Diga que parti com certa humanidade
Carregando sentimentos estranhos
Confesse que deixei esta vida com dignidade
Sustentada por meu férreo olhar castanho

Peça para que não lamentem
nossas tantas manhãs e tardes de café
Diga para apostarem no que sentem
E que tenham sempre aquela velha fé

Diga para acreditarem nas próprias forças
como eu um dia acreditei

Diga que minha alma flutua por eternidades
Ensombrando a existência de quem ainda existe
Diga que aparecerei na velha cidade
quando o coração ecoar demasiado triste

Diga que eu fui para nunca mais voltar
Fantasma errante e viajante sempre fora de lugar

Diga aos que acharem o meu corpo
Que ele já não é mais meu
Que tudo que um dia tive
Jamais me pertenceu

Diga aos que acharem meu corpo
para que queimem meus restos
ou me arremessem em uma vala

Peça que desliguem todos os dias
a televisão que fica na sala
Diga para os que jazem funestos
que nenhum morto fala

Diga que foi por um triz
Mas que fui muito feliz
Antes de abraçar o Nada

Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido

Tentei até o último instante
Ser melhor do que antes
Não foi o bastante
Esforços inúteis,
ainda que válidos

Diga para que sigam em frente
Que eu apenas fui primeiro
Sigam como se nada tivesse acontecido

Depois da morte há outro continente
Não há razão para o desespero
E eu reverei todos os meus amigos

Diga aos que acharem o meu corpo
não há nada que devam dizer
Neste mundo imprevisível e louco
só lhes resta continuar a viver.

Dor no peito.

Madruga para ver o mar
Espera encontrar respostas
Quando ouve uma voz a sussurrar
no ouvido sobre uma antiga aposta

Oração insistente de marinheiro
Cada noite mais calejado e sofrido
Nunca hesita o velho timoneiro
Coração mais resistente que o vidro

Sua sorte é a descoberta da nova terra
Seu espírito livre nunca se encerra
Para tudo nessa vida se dá um jeito

Esteve em tantos lugares
E só nos mais selvagens mares
É que alivia sua eterna dor no peito.

Nunca mais saia de perto.

Pudera neste ínterim lúcido compreender
A diferença sutil dos diversos amores
Quisera neste íntegro ser surpreender
com o perfume adocicado das flores

Lumia repentinamente milhares
que jazem esquecidos na escuridão
Teus gestos simples são espetaculares
Tua presença fora de imaginação

Teu corpo me leva ao delírio
Teus olhos são o meu colírio
Personificação perfeita do meu desejo

Nunca mais saia de perto
Sem você o errado é certo
Cobre-me infinitamente de infinitos beijos.