Depois não tenho certezas.

Acordo antes e respiro

A mulher que amo

dorme ao meu lado e sorrio

Sempre fui gentil com as pessoas

Com as que odeio e com as que não gosto

e mais ainda com as que amo

Observo-a e me basto

Amar é olhar com cuidado e

Cuidar dos outros sempre foi

a única coisa que soube fazer desde cedo

Frequentemente alguém me dizia

Perto de ti não ouso sentir medo

Por vezes fui fatalista, mas vivi

tentando fazer a diferença

Creio que a felicidade destes dias

seja apenas consequência

Observo-a a dormir e sorrio

Este retrato no coração me acalma

Até quando ainda não a conhecia

sinto que a imagem já me acalmava

Toda esta leveza e poesia esteve

desde antes fixado em minha alma

O pé esquerdo dói e manco

Pisei em algo pontudo

Ainda assim, nesta manhã canto,

Porque a alegria traduz meu conteúdo

E me basto com a alegria de hoje

ainda que saiba que todas as horas seguintes

Trazem surpresas

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas

Levanto e faço o café

A mulher que amo continua dormindo

O cachorro que amo continua dormindo

A gata que amo continua dormindo

O gato que amo me seguiu até o escritório

Apenas para dormir mais perto de mim

Sou feliz e completo agora

Absorvo da vida toda a sutileza

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas.

Artista.

As coisas começam e acabam

Nunca duvide do que encontra

no rabo da palavra

Solidão e borboleta amarela

Anteontem extraiu do coração

Uma autodestruição das mais belas

Pintou uma obra de arte

A tinta seu próprio sangue

Por não se duvidar artista

Teve uma severa hemorragia e morreu

A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso

Junto com um bilhete e um último aviso:

Digam que ele nunca se arrependeu

Einmal ist keinmal.

Receita.

Prepare

Oito ovos mexidos

Saboreie um pedaço

de chocolate amargo

Beba três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Agora é só apreciar meio litro de café

para se manter em pé durante o dia

Se for domingo ou feriado

Finalize aquele livro do Dostoievski

Junte o que há no seu porão

Rascunhe uma crônica ou poesia

Se não for domingo e nem feriado

Vá para o trabalho e cuide bem

de todos aqueles números

Até os trabalhos mínimos importam

Evite pisar nos insetos e matar os besouros

Até as vidas menores importam

Ouse se conhecer e olhe para si e para dentro

Prepare uma mochila com um lanche caseiro

Dirija até o Shopping China e compre

Meia dúzia de coisas que você não precisa

Lembre-se também de levar chocolate amargo

O suco de limão caro compensa mais no mercado

Vagueie pela cidade nas noites e sente sozinho em um bar

Não saia correndo se uma estranha se sentar contigo

Ela precisou de coragem para ir até você

Agora você precisa de coragem para ficar

Portanto, sorria, mesmo que ela não seja tão legal assim

Ainda que você saiba que prefere ir para casa sozinho hoje

Se quer coisas novas na sua vida, deve permitir que elas entrem

Se o seu velho mundo está balançado

Entre discretamente em um novo e recomece

Nenhuma maldade ou bondade perdura para sempre

Passeie pela cidade aos domingos de manhã

Contemple o que há de natureza e o que há de natural

Esteja atento aos que se atrevem a te criticar e te elogiar

Há críticas justas e elogios insinceros, portanto, abra os olhos

É perigoso acreditar em tudo o que dizem sobre você

Essa paisagem com gosto e cheiro de paraíso

Muitas vezes é uma armadilha

Pode sair dela completamente afetado

Volte para a casa

A solidão te ensinou muitas coisas

mas é hora de adotar um gato

Sozinho não irei conseguir

Sozinho amadureci bastante,

Entretanto, não venci o mundo

Agora como mais um pedaço de chocolate

Peço um lanche completo na hamburgueria

com adicional de ovos

Bebo o suco de limão (aquele mais caro)

Assisto um seriado promissor ou um anime novo

Hoje o meu time de futebol não joga

Se for sábado, cuidado, há noites de duzentas horas

Sento e escrevo no papel

Vou até o escritório

Sento e escrevo no computador

Malho por duas horas e nem é início de madrugada

Sinto um tesão absurdo, porém não desejo ver ninguém

Bato uma punheta e ainda nem é madrugada

Meus pensamentos não se esclarecem e continuo acordado

Meus pensamentos não me esclarecem e continuo acordado

Escrevo mais um texto triste sobre amores

como histórias de fantasmas

Só alguns viram, mas todo mundo fala sobre

Do terceiro andar olho pela sacada larga

e vejo a rua deserta e a fábrica de tratores

Ligo o ar-condicionado do escritório

Ligo o ar-condicionado do quarto

Ligo Lord Huron na televisão grande

e danço desajeitadamente

Quando voltar para a minha cidade

Serei o peixe valorizado no mercado

Isso não interessa

Quando voltar para a minha cidade

Receberei o calor dos meus amigos e minha família

E choro de madrugada

Hoje é sábado (ou sexta)

E de amanhã não passa

Vou adotar um gato e escrever um conto

sobre um amor que foi e não é mais

E vou rezar, embora não acredite em Deus

Eu acredito mesmo é no suco de limão mais caro

e naquele pedaço mágico de chocolate amargo

Vou até a minha geladeira e repito a receita,

Embora tenha comido lanche horas antes

Preparo

Oito ovos mexidos

Saboreio dois pedaços

de chocolate amargo

Bebo três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Já sinto o cheiro do café

e vou beber um litro inteiro

Esta noite vou tirar de mim

Tudo o que é falso

E vou encarar o meu eu verdadeiro

Não é bem que os ovos e o chocolate e o limão

tornem-me imensamente satisfeito, entretanto,

Esses alimentos me situam e me basto no entendimento

Neste momento a vida precisa ser desse jeito.

Carneiro.

Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.

Retrato da Infância.

O retrato de minha infância feliz
está colocado na mesa de cabeceira da minha memória
Quando se cresce há tantos empecilhos para ser feliz
Há tanto que se pesa antes de chamarmos algo de felicidade
que todos os que tiveram uma infância boa como a minha
revolvem em si mesmos, como máquinas do tempo,
pela nostalgia de uma época em que era fácil aproveitar a vida
O quadro que vejo, do passado colorido e dolorido,
está emoldurado na primeira parede do meu coração
Mesmo quando eu optava pela solidão
Era pequeno, como as crianças costumam ser
e me orgulhava das minhas banalidades,
como as crianças costumam se orgulhar
Nunca imaginava àqueles tempos que eu cresceria
e me tornaria uma pessoa tão difícil e alta
Antes, infante, observava todos os bichos
sem imaginar que um dia haveria em mim tanta falta
Envelhecer é silencioso
Raramente, percebemo-nos envelhecer
é que meu coração ainda carrega as mesmas coisas que eu tinha
naquele momento distante em que eu acabara de nascer
Exceto pelas ausências que aprendi a acumular
E o vazio escuro, inseguro, que tenta me sugar
Já íntimo, nomeei-o como Vide Noir
Outro gênio já diria
Viver é perigoso
e só aproveitamos a vida sem medo
Quantos de nós não temos vergonha
de nossos pequenos segredos
mesmo após eles serem revelados?
As manchas deveriam ensinar para o futuro
e não afetar o presente que logo será passado
Tenho todas as idades porque a idade é uma mentira
A única verdade é que cada um tem uma cronologia
Sofremos, ainda que esteja claro para ver
Tudo o que nasce deve um dia morrer
Anteontem vendi minhas duas coleções de DVD
porque precisava de dinheiro para comprar roupas novas
Comprei um carro, mesmo que dirigir não me apraza,
porque preciso da facilidade da locomoção para ser prático
Preciso ser prático para evitar ser infeliz
É assim que as coisas funcionam e o mundo funciona
e há tantos cuidados que devemos tomar para não sermos engolidos
Aquele velho amigo inimigo se aproxima e o ouço sussurrar
Vide, vide, vide noir
Despenco no precipício de mim e no mais fundo
do meu ser enxergo novos horizontes
Por vezes tudo soa vago, mas vou existir longe
Volto aos tempos em que corria pelos parquinhos
Tinha medo de me machucar e chorava com facilidade
Deitava na pedra do quintal e seguia os insetos, sem machucá-los
Depois inventava um império robótico capaz de coexistir com eles
Os humanos não tinham humanidade o suficiente
para poupar vidas pequenas
E algo me dizia que toda vida valia a pena
Sentia um tosco orgulho em ser excelente nos videogames
Eu era feito de brilho e barulho, mas permanecia discreto e silente
Tudo em mim era muito e com frequência divagava
mesmo muito novo sentia que algo sempre faltava
E era seguido de perto por meus irmãos e meus amigos
Estava sempre acompanhado, até quando corria para o perigo
E cresci bem, intranquilo e forte
Ano a ano melhorei a minha saúde e a minha sorte
Espero conseguir cumprir meus sonhos antes da morte
A puerilidade que ainda carrego hoje reflete
a criança livre que tentei ser ontem
Tentar geralmente basta
E a gente sempre se gasta
tentando fazer mais do que pode
exagerando numa ilusão de necessidades
Acumulando uma lista imensa de vaidades
Desfilando nossa arrogância por toda a cidade
E aquela ingenuidade distraída que tínhamos
Aquela pureza do passado
Isso quase me deixou nestes dias
Envergonhado
Até que percebi que sou o mesmo
Andando a esmo
Cumprindo todas as minhas promessas
Tento me lembrar que não é preciso ter tanta pressa
E se no passado fiz apenas o que pude
A explicação é de que não poderia antes ir além
Um dia tudo passa, relaxa,
a gente vai ficar bem
Mude quando estiver preparado
e nunca se esqueça
Importa menos o ritmo
Importa mais o rumo
Há tantos novos algoritmos que entre eles
Sumo
Reapareço quase compreendendo
qual é o meu lugar
Não tenho a forma de uma estrela,
mas vivo sempre a brilhar
Assim, nunca mais ousei ser imbecil
e me envergonhar de quem eu sou
Até minhas partes mais erradas vibram por amor
Os anos perdidos estão emoldurados
na segunda parede do meu coração
Quando o futuro se tornar passado
Vou colocar alguns móveis de lado
e arrumar a decoração.

Coração Mecânico

Três ônibus estacionam lado a lado e os observo como se a vida fosse uma corrida. Sei bem que, na realidade, não correrão. A função exclusiva de um ônibus é a de transportar passageiros, bem como a função exclusiva de um escritor é escrever. Penso em lonjuras, como se me fosse ônibus, como se não me desafiasse além do que me programaram para fazer, entretanto, percebo-me e reconheço em minhas frustrações que não posso ser ônibus, quiçá no máximo o motorista, isso se me aventurar a tirar a licença que necessito para dirigir veículos grandes e pesados. A realidade me choca com uma obviedade qual já deveria ter assimilado e a cronologia de minha vida me surpreende com essa réstia de ingenuidade nos pensamentos. A única coisa comum entre nós é que um dia pararemos de funcionar.


Se por ossos do ofício ou projeção funcional das partes mecânicas, decreta-se que a missão de um ônibus é tão somente a de transportar pessoas, assim, a maioria dos ônibus se cumpre. Nascem e quebram (morrem) antes que se possa fazer diferença, porém o ônibus depende do motorista e o motorista que se perde da principal atribuição do ofício subitamente deixa de pensar no transporte das vidas humanas e começa a pensar em velocidade. Esquecem-se em um piscar de olhos que a direção é certamente mais importante que a velocidade. Se acelerar mais chegarei mais rapidamente ao meu destino, assim, o homem ou a mulher que segura o volante e pisa no acelerador, arrisca-se a desvirtuar o propósito original do ônibus. Se deixo de escrever, arrisco-me a me perder do meu propósito original e vejo as minhas motivações subitamente desmotivarem e toda minha animosidade repentinamente arrefece. Se não escrevo tudo ou a vida ou a morte ou minhas ficções, que sobra de mim? Se um ônibus não transporta, que é que sobra do ônibus? Peças, apenas peças para revenda, peças para descarte, peças para o ferro-velho e assim ocorre ao meu ser também, cansado e completamente humano, enfim, só sobrarão minha carne, meus ossos e meu tão valioso instinto cardíaco, isso, claro, antes do descarte final.


Que é a vida, não sei ainda e tenho a incômoda desconfiança de que nunca a saberei. A vida se aprende? A realidade nos aprende ou nos ensina? A ambivalência do decorrer fático de nossas narrativas trágicas e pessoais, os medos, os segredos, as considerações que foram excessivas em momentos irrelevantes e a maneira como te tornaram invisível quando você mais precisava receber um abraço ou ver um sorriso. É tudo tão estranho e soa quase como se fosse vago e a pungência desta única vida abre a minha pele e oro para que as cicatrizes sejam lembranças positivas em outras perspectivas futuras. Quero em outras cronologias sentir alívio e orgulho pelo que hoje me causa dor. Posso sonhar mesmo adulto, ainda que tivessem me dito e ensinado o oposto. Nada fez com que eu me adequasse um por cento ao gosto dos outros. Aprendi a amar minhas estranhezas, sem certezas, tudo que é frágil revela beleza. Diante das injustiças, eu me oponho. Descobri que por mais grandiloquentes que meus sonhos e propósitos sejam, a realidade não me aprende e eu, frívolo e banal, devo me acostumar com a realidade que me é oferecida. Fuga em sonhos lúcidos e intermináveis. Sou obrigado a imaginar um mundo melhor e tentar me forçar diante da realidade que dificilmente é palatável e raramente plausível. Discordo de muitas coisas e me forço a buscar outras melhores. A vida é o agora, mas também o dia seguinte. O que faço se hoje me sinto um tanto quanto pedinte?


Ninguém tem certeza e é preciso que você saiba. Nunca tente se encaixar onde não caiba. Viva sem se esquecer de que um dia você vai morrer, pois você vai. Nada que seja apenas pelos outros vai te engrandecer. Tentar ser sempre melhor, apenas para nós, é o que nos aproxima de vencer e quando falo em vitória, você bem sabe que não estou falando de glória e nem de qualquer idiotice que os vituperadores propagam por esta cidade. O que a gente comemora são todas as diversas formas de felicidade…

Um dos três ônibus parte e seja lá para qual parte ele se dirige, é provável que chegue antes que os outros a uma nova cidade. Se os dois ônibus que ainda estão parados pudessem sorrir, sorririam. As máquinas sabem que cumprir a função é mais importante do que aumentar a velocidade. Qualquer coração mecânico pensa primeiro na missão e abandona toda e qualquer vaidade.

Desacelero o ônibus para buscar os passageiros na oitava parada. Apenas um homem adentra o veículo. Percebo que aquele homem sou eu, bem como tenho convicção de que também sou o motorista. Eu lhe (me) pergunto para onde vou. Ele não sabe. Eu também não. Ainda assim encaramos a estrada em busca de respostas.

Despedida de Outono.

No antepenúltimo dia de outono
Sonhei que reinava esse mundo perdido
E mesmo confortável em meu opulento trono
Aquele eterno estado de sono
Não me fazia mais esclarecido
Mandava e desmandava
Tendo a humanidade sob meus pés
Nada na vida, porém, encantava
E sentia falta de navegar em altas marés
Minha inocência partiu com o último raio
Daquele céu ensolarado e gelado no fim de maio
Quado ainda distinguia as cores das tantas flores
No âmago oculto recusava a inevitável morte
No brilho dos olhos cintilava a minha sorte
Ao me deparar com a finitude de todos os amores
E me considerava privilegiado por saber
A gente nem sempre destrói o que mais ama
A única morte é esquecer
Por isso me forço nas eternas lembranças
Até mesmo das partes mais desconfortáveis
O que ainda me traz esperança
São as memórias de quando criança
Minhas preciosas coisas frágeis
Intuía que a vida era pelo risco
E meus pelos se eriçavam quando em desvantagem
A sociedade me fez amedrontado e arisco
Prevaleci com a minha alma selvagem
Ainda assim tiritava e me encolhia
Toda vez que o mundo se tornava escuro
Algo distante no meu peito doía
Será que um dia dormiria seguro?
Quem tem uma estrela no lugar do coração
Ainda há de perceber
Representa sozinho uma constelação
E o breu não deve temer
Levanta-se, filho, já vai começar
outra partida do seu time de futebol
Levanta-se, meu menino, é preciso lutar,
Você é poderoso como o mago Howl
Ergue e brilha, escreve teu destino
Você é tão quente quanto o próprio sol
Abdica do cetro e da coroa
Abandona a ilusão constante do paraíso
Todo sapo vive bem na lagoa
Felicidade é o próximo sorriso
Eu sei sobre o seu cansaço
Você está em diversos pedaços
Se entrega ao meu abraço e esquece esse aperto
Compartilha comigo esse tempo-espaço
Celebra este novo e firme laço
Você ainda tem conserto.

Talentoso.

A estética de não precisar da estética me agrada e simultaneamente me sinto livre e aprisionado. Estar na distância curta da janela, das portas e saber que só posso sair quando puder sair, quando houver concluído minhas obrigações, isso me pesa o peito e me interrompe os sentidos. Não, na realidade, ainda que eu termine minhas obrigações, ainda que eu finde todos os compromissos pendentes em nome da empresa, eu só poderei sair quando o relógio superar às 17h00. Mal dou conta de respirar direito e sinto inveja do advogado que fuma no estacionamento para aliviar o estresse. Já não sei como não viver estressado. As empresas, sejam privadas, sejam públicas, zelam apenas por si mesmas e nós com nossas individualidades e necessidades básicas somos alvos de um descaso longilíneo e atemporal. Até as companhias e corporações mais cuidadosas secretamente não dão a mínima aos seus funcionários e olho pelas tantas janelas escuras sonhando com o vento gélido nos cabelos e com a ansiedade marcante de quem está prestes a embarcar em uma jornada.

Que será que sonham os caminhoneiros? Creio que seja mais fácil perguntar do que tentar os antecipar, entretanto, forço-me numa especulação presunçosa de me imaginar capaz de prever os sonhos alheios, ainda que saiba que este gesto mísero do meu esforço é insignificante. Ainda assim sonho que sonho seus sonhos como quem sabe que é preciso continuar sonhando a todo o momento, ainda que o estado soporífero invada o dia num horário péssimo. Tudo o que requer esforço se distancia das verdadeiras urgências do espírito e choro por me desagradar. A alma é uma criança mimada que se satisfaz apenas momentaneamente para logo em seguida querer uma nova travessura. Se nos olharmos profundamente, só veremos o fundo. O corpo possui inúmeras limitações, entretanto, o cérebro é irrefreável e a cabeça sempre pode aumentar de volume e comportar ideias novas. A alma é indefinível e indecifrável, porém, por vezes julgo que sei como lançar migalhas a mim e meu espírito diminui a urgência de consumir o mundo quando a minha fome é disfarçada. O hedonismo é funcional por algum tempo, mas não há desconto nos prazeres que nos faça evitar o Vide Noir por mais do que alguns anos. Nasci com uma estrela no lugar do coração e meus batimentos cardíacos são sincronizados com as constelações. Se tudo se apagar, certamente eu apagarei também. Quando este mundo cansar de me entediar, eu seguirei adiante para as novas galáxias, para as novas existências, para os campos mais verdes e flocos de neves mais brancos. Quando eu me cansar da vida e a vida se cansar de mim, partiremos por caminhos distintos, até nos reencontrarmos. Pergunto-me se a travessia é solitária ou se quem me ama ousará seguir comigo.

Interlúdio em mim após um suspiro alto. Atrás do vidro esverdeado eu me sento de frente para esta tela e do outro lado os caminhões passam e invejo os caminhoneiros, por controlarem máquinas, enquanto eu só sou auxiliado pela tecnologia a escrever mais um de meus textos banais e ridículos. Minhas rotinas são simplórias e de nada me adianta me antever gênio ou estúpido, porque ainda que gênio ou estúpido, não sou capaz de fugir da necessidade básica de frequentar os escritórios e viver essa rotina abençoadamente maldita. Se fosse estúpido o bastante talvez já fosse rico o bastante e se fosse realmente gênio, talvez encontrasse um modo de sobreviver sem me alimentar ou ir ao banheiro. Sinto pela primeira vez na vida a inveja e ela é quente, como meus dedos costumam ser, mas não me ataca, como meus dedos se habituaram a atacar. Percebo, sem choque, mas com certo desconforto, que ainda sou humano. Por vezes só queria que minhas mãos sentissem o volante e não que os meus dedos sentissem as teclas. Por vezes me sonho em estradas infinitas, como na rodovia de meus pesadelos e paraísos, a temível e majestosa BR-163. Quiçá ame a estrada apenas por ter sobrevivido e penso subitamente nos tantos que perderam suas vidas. Bebês que sobreviveram sem os pais, pais que sobreviveram sem os bebês, caminhões que amassaram carros como eu amasso uma lata de refrigerante ao pisar com força. Vidas que desaparecem. Tudo termina em nada e apenas as máquinas mais pesadas, vez ou outra, sobrevivem às colisões. O peso quase sempre vence a leveza. Quão certo sou das minhas certezas? O que guia nossas escolhas em direção ao futuro imprevisível? Será que um dia poderei folhear meus próprios livros?

Sem sombra de dúvidas, sem sobras, sem nenhuma alcunha alongada que não me pertença, por vezes queria que a vida fosse apenas escrever, até que subitamente me esqueço da escrita e vivo todo o resto da minha realidade, vida que na maior parte do tempo não me interessa. Vislumbro identidades, personas, sonhos, desejos secretos e temo os outros, provavelmente pela capacidade de se me refletirem. Se há neles tantas coisas malucas, se antevejo neles tantos desejos sombrios e maliciosos, quem disse que não há tantas coisas em mim também? Se não as acho, será que não olhei para dentro o bastante? Pelo medo dos outros aprendi a ter um temor ligeiramente sobrenatural a mim mesmo. Há medo por encararmos a finitude ou há medo por termos medo de nunca termos uma atitude? Que se prevalece após o esquecimento? O que não envaidece sobrevive além do tempo? Todos os meus esforços e horas de escritas foram resumidas em… talento. Como se meus dois mil e quinhentos textos fossem ocasionais, casuais, como se meus livros fossem escritos por alguma divindade, como se qualquer força oculta tivesse me empurrado para frente e eu, inerte e passivo, não tivesse o menor mérito sobre minhas conquistas. Olha, como aquele ali tem talento para a escrita… talento. Olha que o destino daquele um é ser escritor e Deus o olhou nos olhos dele e disse: – você sim, meu filho. Sem o talento e os gestos figurativos e falsos, sem as amizades verdadeiras e os surtos dos descompensados que não se admitem nunca errados, o que então me resta? Grito meu desespero no escuro. Será que algum dia dormirei seguro? Quanto mais tento ser dócil mais o mundo me obriga a ser duro.

Sobra-me o sangue quente nas veias e, vez ou outra, sinto-me mimado em meus caprichos. Há dias que sinto uma necessidade de isolamento, apenas por desejar que o mundo se faça segundo as minhas vontades. Se não me isolasse, lutaria para fazer com que todos me agradassem, entretanto, encontrei no instinto de isolamento uma fuga para minhas falhas mais humanas. Por ser cônscio do meu egoísmo, não me dou tantas asas e sou eu mesmo que me podo, quando no meio de um voo que me soa excessivamente extravagante. A vida está aí para ser conquistada e não me vejo distinto dos tantos que já fracassaram e se arrependeram. Insisto em ser real e isso me dói, por antever nos outros só a falsidade de não se serem. Insisto-me e me odeio, por não conseguir me fingir, assim, secretamente julgo que todas as minhas vontades quiçá irrealizáveis, fizessem a curva na metafísica e se ajoelhassem diante de mim. Por insistir, creio-me um pouco mais, como quem não ousa duvidar de si mesmo, por muito menos.

Como posso não crer em mim se nasci assim tão talentoso? Quanto tempo devo ficar em silêncio em um mundo permanentemente ruidoso?

Por fora todo mundo vê

Trinta anos e continuo furiosamente delicado como no auge da minha juventude!

Trinta anos e ainda aceito que tudo mude!

Trinta anos e ainda morro de orgulho das minhas tantas futilidades!

Trinta anos e depois de odiar, enfim, comecei a amar essa cidade.

Trinta anos e escapo aos estereótipos, sendo simultaneamente otaku, nerd dos livros, escritor, poeta e futebolista.

Trinta anos de fracassos e conquistas.

Trinta anos e sou o mesmo garoto sentado sozinho no fundo da casa, brincando com meus tantos bonecos, conjecturando cenários nos quais meus heróis pudessem salvar a humanidade. Trinta anos e ainda acredito que a humanidade tenha salvação…

Trinta anos e não tenho escolhas, senão confiar no meu coração.

Se me perguntarem os porquês, é claro, terei a humildade de dizer que não sei nada, mas já não tolero quem age de forma irresponsável comigo. Aprendi que há situações em que o silêncio é necessário, mas que em outras ele traduz perigo. Ficar quieto não nos faz mais ou menos amigos. Calar a voz na hora errada pode envenenar a alma e a linha é extremamente visível, exceto para quem se acostuma a ultrapassar a linha.

Se leva trinta anos para se convencer de que há razão até no raciocínio dos loucos e descobrirmos quem é o maior algoz. Se leva trinta anos para saber que em trinta anos ainda sabemos muito pouco e que as pessoas são misteriosas e que cabem galáxias inteiras dentro de cada um de nós.

Trinta anos para me fazer indivíduo completo e ainda ter que suprir as lacunas de mim mesmo. Trinta anos e ainda procuro o rosto que a minha alma tinha quando o universo foi feito.

Não disfarço mais angústia com indiferença e nem distraio a minha tristeza com os tantos detalhes coloridos que a vida coloca diante dos meus olhos. Bebo um gole de café e sofro, amargo e sóbrio, triste e depois feliz. Agora já não posso me afundar por trinta horas nos videogames e esquecer o resto. Meus olhos buscam tudo, até o que eu detesto.

Não tenho medo de parecer ridículo por ser quem eu sou. Vou sustentando o trabalho que tenho, a vida que tenho, os sonhos que tenho, sem que nada disso me pareça tolo ou inalcançável. Trinta anos e meus olhos ainda brilham quando há intenção pura. Meus dedos hoje extraem beleza em uma vida dura. Cura? Não, este D.R.P poesia só brinca com as palavras. Outrora elas nem eram assim tão afiadas e aqui me pego, revolvido inteiro para dentro. O que tenho de mais belo sempre veio de dentro.

Ao que se pese, trinta anos não me parecem mais do que trinta minutos e corro até todas as partes de mim, apenas para não me esquecer. Sou duro e tinto, ferro e vinho, mas minha alma é completa e sei que não vou permanecer. Não posso me desculpar pelas coisas que não fiz, mas posso deixá-las de lado e apenas ser feliz.

Gostaria hoje de agradecer a todos que nunca me permitiram caminhar sozinho. Quero agradecer a todos que pude chamar de amigos. Enfrento os perigos, até quando tudo parece perdido. É a finitude que dá valor a essa vida e aprendi a agir e a falar para não ter que me arrepender. Vou errar e acertar, mas vou continuar e aprender. Obrigado a qualquer força invisível que até hoje me manteve vivo.

Sou muito grato por existir. Mais trinta minutos, trinta horas, trinta anos ou até o dobro, celebrarei todo tempo que me for concedido viver e comemorarei até a sequência das próximas cenas. Espero que tudo neste mundo continue valendo a pena.

Por dentro ainda sou o mesmo, mas por fora todo mundo me vê diferente. Sorrio com a certeza de que tudo é impermanente. A alegria de vestir a mim mesmo como roupa de corpo me enche de uma vontade louca de fazer barulho. Ser quem se é por dentro, fora, faz vibrar no meu peito uma espécie de orgulho.

Trinta anos que não foram e nunca serão nada.

Trinta anos que foram e serão tudo.

Trinta anos, apenas números.

Trinta anos, simbolismos.

Trinta anos, ferro e vinho.

Envelheço e grito uma frase antiga da WWE, berrada em inglês.

Amanhã tudo termina e começa outra vez.

Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.