Terça-feira morna

O lusco-fusco deste fim de tarde atinge minha pele pálida. O sol se recolhe e o temor cresce nesta noite sem luar. Fecho as janelas e respiro fundo, tentando apagar a sensação incômoda que me sobressalta. O cão, leal, fita-me carinhosamente com seus olhos de jabuticaba. O gato, bicolor, recolhe suas patas e deita ao lado do meu braço direito, cobrindo a distância que pode, sem me atrapalhar. Antes que a ausência da gata se faça sentida, observo-a surgir na porta do escritório e me analisar com uma seriedade misteriosa e complacente, antes de subitamente começar a lamber os próprios pelos em uma higienização longa e demorada. Tudo no cão e nos gatos é absolutamente natural. Estranho-me ao me deparar com a minha imagem letárgica, absorvendo a invernia deste início de novembro. A estreia do penúltimo mês do ano me deixa reflexivo e meus pensamentos percorrem vielas escuras e perigosas. Nos filmes e na vida, não há razão que justifique a insensatez de adentrar um beco de penumbra onde sombras de bichos se misturam e se confundem com fantasmas de pessoas, entretanto, para provar a minha espontaneidade e livre arbítrio através de uma atitude de pura estupidez, eu me flagro caminhando em frente.


Revolvo-me para dentro, interiorizando-me, internalizando-me, buscando no cerne qualquer coisa com uma pitada de magia, qualquer coisa que me faça deixar de pensar, qualquer solução para voltar a sentir e agir estritamente por instinto. Se todo o sofrer é individual, por que eu me comovo com as dores que não sinto? Se isso não é tristeza, será que secretamente minto? Os mecanismos e as mecanicidades engessam as ações e a sociedade se torna previsível, robótica. As academias de musculação estão cada vez mais lotadas, não pela preservação da saúde, mas por uma espécie de estímulo ao senso coletivo de estética. Todos nós devemos ter os abdomes tonificados e os músculos fortes. A flacidez apavora tanto os cidadãos modernos quanto a fome assola os miseráveis. Tudo que é fruto de um senso coletivo gerado através da indução premeditada me apavora. Resumimo-nos ao que nunca fomos. Os titereiros balanças suas cordas e as pessoas correspondem aos comandos. Absorvem doutrinas inteiras em um minuto e depois abrem suas cabeças ao fanatismo, sem compreender que é um caminho sem volta. Marionetes robustas, violentas e manipuláveis. Ajoelham-se para falsos deuses. Espalham notícias, antes mesmo de as lerem. Tornaram-se os robôs revolucionários, não pensantes, convencidos pelo primeiro vídeo editado que recebem. São liderados por qualquer um que entoe um grito populista e falsamente revolucionário. Pensam-se vitoriosos, mas o que acontece é justamente o contrário. O surgimento dessas novas estéticas, dos novos sensos comuns, dessa necessidade estrita de concordância, envenena pouco a pouco a minha alma. Se não formos iguais, não servimos. Quando suas ações não visam o lucro, quando suas ambições não são puramente monetárias, quando a astronomia da tua existência não engloba e engole o tempo inteiro o que ditamos como Sucesso, outras palavras ardilosas e ásperas como Fracasso entram traiçoeiramente como a brisa gélida pelas frestas da janela. Um dia eles foram outras coisas, mas já não se lembram de quem era. Aprendi que qualquer um que esqueça o passado se torna desprotegido quanto ao futuro. Talvez seja por aprender tanto que diminuí a frequência com que canto e vejo meu coração mais duro.


A alma não pode se tornar empedernida. Os conhecimentos que absorvemos com calma, creio que de alguma forma os levamos para outras vidas. Não é possível que isso seja tudo. A estética grita e cala o conteúdo. Tento falar, mas estou mudo. Será que é mais uma derrota amarga para processar? Não admito que isso seja o fim. Por vezes, sinto que a vida vai acabar, mas ainda tenho tantos sonhos em mim.


O peso das responsabilidades mundanas me sobrecarrega. A crueldade que não pude herdar de nenhum parente distante, esse ímpeto de bondade constante é o que me cega. Não posso admitir ser uno, se sempre me torno outra coisa. Mudo o tempo inteiro e abro a minha cabeça para mais, sem me imbecilizar. A religião de não ter religiões, eu, indivisível e puro, oscilante, falível, confio no meu próprio coração. O maior prazer mora ainda dentro da ilusão. Salto no abismo da inconsciência alvejando me tornar ainda mais puro, ansiando por agir de acordo com todos os estímulos que necessito para satisfazer a alma exigente. Mereço mais e sei, entretanto, acocoro-me no canto perto da privada e vomito, lúcido, sistemas, teorias e teoremas inteiros. Reviso mentalmente livros que nunca foram escritos e me sinto perto da morte e perto do divino. Penso-me grande, mas tenho todas as idades que tive e a gente só sobrevive se guarda em si um pouco de menino. Será que prezo em demasia a criança que fui? Desde a infância amo o vermelho e hoje noto que perdi meu reflexo diante do espelho. O vampiro envelhecido que não envelhece, a cabeça que não se expande, o antigo desejo de existir longe. O primitivo anseio de beber sangue. Ó, escuridão sombria, esconda-me hoje, esconda-me até o domingo, proteja-me quando nada mais puderes servir de escudo, projeta-se e fala quando eu me fizer mudo. Cavaleiro das mil noites trajado em seu manto rubro. Que valentia o faz enfrentar a morte sorrindo? Vituperado prossegue sem sorte com a memória de quando o mundo era lindo. Era lindo por que o era ou por que havia quem amar? Assim como o inferno, o paraíso também não é um lugar. Verifiquei a necessidade dos outros para ser profundamente triste ou imensamente feliz.


Tudo envelhece e um dia voltarei ao pó. Tudo arrefece e no fim se anda só. A vontade de não ter vontades, os suspiros cansados no meio do expediente, o meio expediente da vida, que pode ter acontecido a qualquer momento. Eu sozinho e sem saber como seguir e me orientar. A minha memória em outra cidade. O coração no lugar certo. A alma papeando com divindades em outras cronologias e distantes desertos. Eu tentando aprender algo para que. Tentando ouvir mais e se. Preocupando-me com os outros, mas sem receber essa preocupação de volta. Todos os desejos alheios foram realizados com leveza e facilidade, exceto os meus próprios. Tudo foi conseguido pelos opróbrios. Eu, quase corajoso o suficiente para ser digno, desdobrando-me e desbravando tudo, ficando quando todo o resto vai saindo, eu sofro solitário, sem ter ao menos meu próprio tempo para sofrer. Luto para fazer valer cada momento e mesmo quando tento e venço, é difícil sentir como se eu não tivesse acabado de perder.

Obrigação insistente.

Tenho vivido como se a vida não passasse de uma obrigação insistente, um constante cálculo de penhores, como se tivesse nascido devendo e por uma espécie de premonição, por um instinto divino, virasse a cabeça para trás e reconhecesse uma boa parte de mim que não reconheço completamente, mas enxergo como o exímio vendedor da loja de perfumes que vi apenas uma vez e que por saber vender e sorrir, gravou-se na tela de minha memória. Por vezes fito a tela e tenho a nítida sensação de que a vejo em todos os dias de minha vida, como um filho apegado à mãe, que cresce se escondendo atrás de suas pernas, seguro na proteção materna, na lembrança pontual do sorriso reconfortante. Em outras ocasiões, franzo o cenho e me flagro arisco, vulnerável, defectível e humano, assim, minto que me lembro do semblante do vendedor, entretanto, a imagem é confusa, distorcida e vaga, como se as faces de todos os vendedores do Universo formassem uma amálgama que atordoa a minha alma. Perco-me do fio que me conecta a mim, esqueço-me, atraso-me e perco os horários. Os começos todos soam como fins. Sou um e simultaneamente vários.


Cutuco minhas feridas com a teimosia de uma criança que arranca a casca do machucado recém cicatrizado e observo o sangue escorrer preguiçosamente. Entristeço e sorrio, como se tivesse a vivência de um Deus esquecido que permaneceu sozinho neste planeta silencioso por éons, como se tivesse vislumbrado o Aleph, visto os sóis da Galáxia, antes que me deixassem com apenas uma estrela imensa de calor. Nestes dias, busco em mim a satisfação própria e por não encontrar ou, por me julgar demasiadamente hipócrita ou frágil, recolho-me para dentro como uma tartaruga voltando ao casco, revolvendo para os confins do porão de mim, buscando a própria Via-Láctea cardíaca da minha alma. Lá e em Imaginações, devo encontrar a Redenção que procuro pelos crimes que nunca cometi. Lá e Além, devo compreender o que hoje para mim se escapa na simplicidade sem misticismos. Confio a minha vida a alguém que não deveria e sofro. Desconfio e descredibilizo a minha existência num ato de covardia fúnebre e me vejo tiritando, amedrontado por quem nunca ousaria me ferir. A distância entre a eternidade, o nunca e a primeira vez é curta. Os acertos reverberam. Os erros também.


Humanizo-me e não choro. Abro a gaveta da cozinha e pego uma faca. Brinco com o cabo da faca em meus dedos, leve na consciência pontiaguda de que um movimento errado pode me fazer sangrar. Pisco e me lembro então da casca arrancada, com uma espécie de ironia argêntea. Qualquer um que arranque uma pele morta não é acusado por sua negligência ou afobação, entretanto, alguém que brinca com uma faca e deverá ser interpretado erroneamente. Checo o interior da geladeira com uma desculpa para me livrar dos meus pensamentos mais torpes. Encontrar algo que não se procura traz uma fonte de alegria inesperada. Sobrevivo soporífero nas rotinas diurnas e nas madrugas, triplico a intensidade da minha rotina em sonhos sonâmbulos. Morri em uma queda de elevador triangular. Fui coroado imperador onírico em qualquer século antes de Cristo. Vivi numa realidade em que não havia deuses e que não havia a mera ideia de deificar normalidades. O comum era raro e tudo era extremamente comum. Olhei as coisas pela primeira vez e chorei, como quem corta uma cebola e sente a súbita ardência nas órbitas oculares. Corri até a janela e todas as paisagens eram imensas e deslumbrantes.


Cri, até deixar de crer. Sonhei, até verificar meus sonhos esfacelados pela pungência da realidade desconexa. Eu, que mereço, nunca terei. Os que não merecem, em regra, se cumprem e conseguem exatamente o que pretendem, assim, deveria apenas consumir este mundo de coisas frágeis e lentas ao invés de me comover por suas misérias. As tragédias são individuais e intransferíveis, mas qualquer um que viva a própria vida com as mãos no volante e, vez ou outra, ouse lançar uma olhadela para o retrovisor que revela as outras vidas, pode acabar batendo o carro. A feiura da realidade mancha a tela branca de nossa consciência oportunista.


Há inúmeras crianças e adultos e velhos espalhados pelo planeta, quase nus, sentindo a fome dilacerante. O que sobreviveu de suas consciências é mais atroz que a fome e são obrigados a engolir um pedaço jogado de pão, como quem engole todas as vidas que houveram antes dessa, como quem é obrigado a admitir que não possui nenhuma memória de dignidade e deve comer os restos que encontra no chão, exatamente como fazem os pombos. Aqueles vultos são escombros, pedaços de homens e mulheres que se perderam ao longo do caminho. Há quem dê de ombros e refute “nascemos e morremos sozinhos”. Há quem encontre saídas e mude a própria sorte. Há quem só sofra durante a vida sem nunca pensar na morte, pois se sentem antecipadamente mortos. Tudo é aterrorizante para quem vive com medo. O sofrimento é constante para quem se sufoca com inúmeros segredos. Refém das projeções d’alma, comovo-me, enraiveço-me defronte ao mais simples caso de adultério. Tenho sobrevivido sendo quem sou, entretanto, não compreendo ainda meus próprios mistérios. Fito sério o meu rosto no espelho e envelheço devagar. Sinto-me exposto e a contragosto, estou mais perto de algum lugar. Que paisagem é essa que me aguarda, ainda não sei. Se nunca morri por um capricho dos Administradores, se mantenho o meu emprego de Daniel enquanto a alma veste este corpo imperfeito, por que me preocupo com o futuro, se ele não existe? Que é que molha o meu copo de chope e faz minha alegria ser triste?


Nasci para não me cumprir e a expectativa pesa meu corpo. Teso, sinto meus olhos fixos nos retrovisores. Minhas mãos estão firmes no volante, porém falho em retomar o campo de visão da estrada. Sinto como se uma colisão fosse inevitável, entretanto, o carro segue adiante sem danos severos. Os meus planos já não acontecem como eu espero. Olho-me, curioso, seco, duro. Observo quem está de fora e foge das análises individuais em uma tentativa infantil de tentar se evitar. Ninguém corre mais rápido que os problemas e por isso é fácil notar que todas as tragédias estão sempre ao nosso alcance. O passado, inútil como nostalgia e fundamental como lembrete, avizinha-se constantemente do atual, do pensamento de hoje e constato que quem se firma no presente e somente no presente é consequentemente mais feliz. Que ideia vaga e ultrapassada é esta da realidade. Pisco e vejo centenas de vidas ocorrendo diferentes, apenas por uma decisão caprichosa de virar a esquerda instintivamente e não para a direita. Vejo o Universo rugindo cenários e mais cenários, incalculavelmente drásticos e felizes e tristes e caóticos e diferentes. Fixo-me na realidade sem chorar pelas milhões de vidas que nunca vivi, entretanto, espio pelo buraco no muro, pela fresta da janela que alguém deixou aberta de maneira descuidada logo antes de um dia de tempestade e encaro inúmeras outras realidades alheias. Julgo entender como aquelas pessoas, tão sólidas, íntimas e confortavelmente confiáveis na minha intuição poderiam me trair e sofro oniricamente por todas as traições que já sofri em outros cenários, por meio de outros sonhos e gestos, que por vezes se igualam a qualquer realidade atravessada que fira o ego. Sobre o olhar da consciência, preferia me manter cego, mas enxergo os detalhes paisagísticos de um aceno distante, de um sorriso febril, de uma vingança muda de uma traição que nunca houve e me calo, repousando a minha quantidade avassaladora de pensamentos em Lugar Nenhum. Sento no sofá e vejo o cachorro andando pela casa, assim como os gatos, assim como um garoto tímido de cabelos pretos e lisos e que sonhava em usar um topete, assim como um velho escritor lúgubre e quase satisfeito, não concretizando a satisfação própria por não escrever e finais e sim novos epílogos, por insistir em escrever novos capítulos, por adoçar a vida através de chocolates amargos. Tudo desfila diante dos meus olhos, o que foi e o que fui, o que nunca recuperei e sorrio exultante, como se triunfasse secretamente sobre a vida, que é particular e barulhenta.


O que sabem de mim, ninguém o sabe. O que sei de mim, não o sei. Coroado por vilanias e crimes, nunca fui rei de nada. Em sonhos diurnos fui tudo e fiz tudo. Senti frio, prazer, fome, vergonha, calor, orgulho e até felicidade. Vivi como se a vida significasse algo e posso jurar que vi os Administradores zombeteiros gargalhando da minha pequenez, com a convicção de que por um capricho sem esforço poderiam se livrar de mim. Quiçá a realidade seja apenas uma ilusão e todas essas crenças concretas não passem de coisas corriqueiras.


Interlúdio. O gato deita no meu colo e me fita carinhosamente. Olha dentro de meus olhos com um amor tão profundo e verdadeiro que, por instantes, creio na ilusão estéril de minha bondade. Isso não é útil e tampouco verdadeiro. Ninguém é puramente bom ou ruim, entretanto, o felino deita um olhar longo e repleto de amor, confiando sua frágil existência e todas as suas sete vidas a mim. A melancolia preenche o quarto somente nos espaços não ocupados pelos gatos e pelo cão. O vento ululante sopra qualquer nota de triunfo e sorrio conformado. Volto ao dia de ontem e celebro silencioso a vitória da Democracia, rezando, sem religiões, para que este país polarizado se una, para que se pense mais do bem coletivo do que no individual, para que se preze o que é justo acima daquilo que desejamos solitariamente. Os fanatismos todos me exaurem, assim, ao olhar minha imagem corcunda e cansada no espelho, percebo que o que é alheio tem em si o potencial de vituperar a minha saúde e sanidade. Não são mais do que soldados de uma causa desconhecida. São, eu me vejo solitário numa terra perdida. Prezo pelas luzes nas janelas acesas e pelas pessoas que se movem em seus quartos, em suas restrições, em suas liberdades. Ninguém se importa com o que deveria se importar. Tudo me foge e estremeço novamente, entretanto, é preciso confiar em dias melhores. Respiro fundo e vejo claramente, por um instante sacro, a imagem célere do Paraíso. O alívio necessário encontro na profusão dos meus sorrisos favoritos.


Tenho vivido como se a vida não passasse de uma obrigação insistente, um constante cálculo de penhores. Juntei dinheiro o bastante, mas agora não me lembro do nome do vendedor, não, eu tentei de tudo e não me recordo de sua face, de sua voz ou de seu tom de pele, não, nem mesmo das informações mais básicas. Suspiro.

O avião decola e muitos dormem. Talvez eu seja um deles, sempre dormindo, sentindo a pressão nos ouvidos até não escutar direito e ficar incomodado ou desmaiar em um sono profundo, raro e absolutamente silencioso. O avião decola e julgo que durmo, julgo que nunca acordo, porque todos os voos decolam e aterrissam e eu, mesmo tolo, creio que todos os voos são um só, ainda que todas as jornadas sejam diferentes. Afivelo os meus cintos e me reforço na prudência. Nunca hei de me concretizar. Os sonhos passam entre as nuvens. Não consigo fazê-los acontecer. Letras e ideias flutuam em percepções gênias, como milagres científicos sobrenaturais fabricados pelo meu cérebro, mas pisco meus olhos e todas as ideias voam para fora. Será que o sonho vale mais que a vida? Será que projetar a vida é sabotar o sonho? Nada jamais me convenceu de que a realidade é real, exceto os fracassos. Queria, por merecimento, apenas sentir que me entregarão pela boa vontade tudo o que mereço. Gargalho da minha ingenuidade. Só os suficientemente ousados e vis se concretizam e disso já sei. Ouço o choro do filho que ainda terei e o aninho em meus braços, prometendo para ele segurança e carinho, mesmo que isso esteja distante do meu controle. Não controlo nada. Talvez tenha morrido na estrada, na BR-163, muito antes do bloqueio patético dos caminhoneiros, muito bem pagos. Pisco e estou de volta ao avião. A aeromoça me oferece uma refeição leve. Peço os lanches, tanto o salgado quanto o doce, bebo o café, a água e depois durmo. Tenho a sensação de que nunca mais vou acordar. Tenho vivido como se a vida não passasse de uma obrigação insistente. Tenho a sensação de que nunca vi verdadeiramente. Deita e dorme, garoto, você fez muito e eu sei que parece pouco, mas você pode permanecer contente.


O peso ou a leveza, eu ainda me pergunto frequentemente. O importante é enxergar e propagar a Beleza. Este é único motivo legítimo para seguir em frente.

Verdades Inconvenientes

Só posso confiar em meus dedos
Subitamente eles escancaram verdades
das quais eu não ouso desconfiar

A psicologia nada serve
para quem vive na teia da aranha
A naturalidade que se exprime com leveza
é absolutamente enganadora

Alonga-se e dá um sorriso triste
O mestre titereiro puxa as cordas
A bailarina come, mergulha,
luta, dorme e até sonha, mas
nunca resiste e nunca dança

Teu corpo repousa longe da violência física, porém
finge não saber que a alma é vituperada todos os dias

Kiwi, morango, segredos batidos, cítricos
Tudo o que não se pode ter certeza
Abóboras zombeteiras no Halloween
Teias de mentira entre as de verdade
Isso tudo favorece a confusão dos ingênuos

Gêmeos caminham antagônicos
O mau contra o bom e os dois supérfluos
Um inseto com grandes antenas pousa na janela

Só posso confiar em meus dedos
Meus olhos captam imagens, vislumbres, estéticas,
Meus dedos desnudam vilezas, crimes, pecados
A voz hesita na mensagem e no tom
Os dedos, cruéis, são convictos

A coragem de ser covarde assumido
O coração mais resistente que o vidro
Tudo estilhaçado e espalhado pelo chão
Minhas vísceras, minha pele, minhas mãos

O sal dos olhos toca a ponta da língua
Estou comovido com um relâmpago na estrada
A BR-163, o Hospital Miguel Couto,
Tudo de novo e outra vez até estar morto
Tento gritar, mas já estou rouco

Sinto-me aliviado por conseguir usar os dedos
Estou pronto para revelar minha alma e meus segredos
Começo admitindo que sou um homem repleto de medos

Sacralidades profanadas em qualquer noite de quinta
O interno não aguenta mesmo tinta
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Só os tolos acreditam em velhas e novas esperanças?

Não há sequer um conselho que me disse que presta
Ninguém estampa a alma na própria testa
Não te falaram? Paris não é uma festa

Lá se vai o sol em outro fim de tarde
O que há de perder não tem onde guarde
A invernia me dominou, mas meu peito ainda arde

Morangos mofados, frutas podres, crises de identidade,
Homônimos perdidos e esquecidos pela cidade

Eu sei que muita gente não vale o que come,
mas você esperava que eu deixasse alguém passando fome?

Pinheiros, árvores redondas, garotos e garagens,
Circos, cachorros correndo na chuva, bichos selvagens,
A bola oito, o fim do jogo, o ressurgimento, o que importa,

Está morrendo afundando em uma espécie de senso comum
Está deificando um ser humano ridículo e se apequenando

Olha, sorri para as flores, canta para os amores,
Aposta corrida na rua e personifica o vexame
O estresse só aumenta e tenho medo do derrame

Sinto que posso morrer jovem e assim se lembrariam
da minha cafonice eternamente juvenil, mas diriam
eis ali um homem que sabia

Quando alguém quebrasse o silêncio fúnebre
perguntando sob a minha lápide sobre que diabos eu sabia
Quiçá surgisse alguém com certa intimidade e contasse:

Ele sabia sobre Tudo, sobre o Mundo, desde cedo,
mesmo assim ele quase nunca dizia, só antevia,
porque a verdade só se revelava nas pontas dos dedos
Meu espectro vazio talvez esboçasse um sorriso
Será que meu espírito merece o paraíso?

Olha, que tudo passa rápido e o hoje logo vira ontem e
A vida é para quem sabe viver e buscar o prazer
Olha, eu sei que falando assim, parece a ti que fiquei louco,
Sou um homem com muito, mas transpareço pouco

A estética que me importa é invertida
Aprendi há tempos o Nome da Vida

Todos precisam tanto de mim
Sou eu que as coloco de volta nelas mesmas
Ah! Sou eu que as faço enxergar suas belezas!
Ah! Sou eu que encerro, reato, sorrio, xingo, amo, odeio!
Ah! Parece-me que precisam de mim com uma espécie de sobrecarga
Acordo cedo e como chocolates e evito que a vida seja amarga

Tentei explicar à minha mãe e à minha namorada,
Olha, eu às vezes preciso ficar sozinho e me conectar
com as partes distantes de mim das quais me esqueço
Se coloquem no meu lugar, eu agradeço,

Obrigado, de nada, companhia, solidão, best-sellers,
Futebol, tartarugas, corujas, a escuridão e o medo,
A tua luz salvou a minha vida e este é outro segredo

Não tenho confiado em minhas percepções, entretanto,
acredito cegamente nas revelações dos dedos

Faça silêncio, por favor, há alguém dormindo
O choro de um novo menino vem surgindo
Vamos juntos agora, sigam-me os bons,
Tenho sido um grande líder, mas não admitem
Habitualmente querem andar atrás de mim,
mas aperto os seus braços e digo: andem ao meu lado!

Ouça-me capitão, tritão, um dia serei lembrado
Falo tanto que muitas vezes não sei o que dizer
Flagrei-me aos prantos até o amanhecer

Estou me tornando arisco outra vez
Meu coração de bicho de rua vê os faróis
Acordo suado entre os meus lençóis

A ampulheta jaz ao meu lado e a areia escorre
A minha memória enfraquece e ninguém me socorre
Tudo bem, todos precisam de mim
Meu instinto heroico sonha com uma morte bonita

Rio das mortes idiotas e isso não aceito
Rio da minha lorota: – como se eu controlasse o jeito

Gargalho e o som retumbante da minha risada
se parece com o relâmpago da estrada naquela vez que chorei

Do tudo vamos ao nada, mas nasci para ser rei

Olho para minhas excentricidades e me acho incrível e patético,
A realidade é que amo meu tipo de senso estético

Sonhei que era atropelado, mas acordei aliviado
Não havia sido vítima fatal do maior de meus medos
Sorri, sem entender meu próprio mistério, feliz e sério:
O importante é que eu ainda podia usar meus dedos

As maiores verdades são inconvenientes
Ninguém se importa tanto assim com a gente
Cada um se concentra apenas no que sente

Adivinhei a vida, mas o segredo dela me escapou
Tenho uma impressão frágil de que Deus me abandonou.

Estão tentando me matar

Estão tentando me matar
E ouço os aplausos ensurdecedores
que me congratulam por meus fracassos
Sorrio quase satisfeito, mas antevejo
com uma espécie de premonição
Estão realmente tentando me matar

Como quem acompanha a multidão
eu me aplaudo levemente, atrevido,
Não sou digno deste espetáculo, eu sei,
mas é extremamente educado aplaudir
Ainda sou furiosamente delicado
Ainda sou inevitavelmente triste
Ainda tenho a mesma idade
de quando pisei aqui pela primeira vez

Sou ridiculamente humano e sinto
um asco inevitável por mim mesmo
Sinto medos e refreio minha expansividade
Estou faminto e reconheço que não é justo
engolir o Universo inteiro como vingança

A sombra que meus sonhos projetam é alta
Se eu partir agora, quem sentiria minha falta?

Ridículo, patético, imbecis brochas
Fechados em suas solidões mecânicas
Perdidos em realidades virtuais viciantes
Eu bem que me venderia para habitar
outro planeta que não este
Ainda não me cansei dos animais,
mas essa gente me irrita em excesso

Tudo parece fora do lugar, mas vejo
um bem-te-vi e meu coração se acalma

Tenho a incrível capacidade de fazer
com que todos os outros se sintam bem
Quem me prioriza tanto assim?
Sei que posso elevar o astral do ambiente,
como diziam os mais antigos e velhos
E me flagro ridículo por reconhecer
Que viveria eternamente infeliz se soubesse
que o resto das pessoas caminha feliz
Altruísmo de esquina barato e raso
Felicidade comprada na conveniência
Amendoins oferecidos em voos nacionais

O apresentador toca um dos meus ombros
e aponta para o telão com o microfone
Desperto de algum sonho lúcido
Ouço novamente sonoros aplausos
A rede de televisão encontrou muitas pessoas
que agora contam dezenas de histórias minhas
Localizo entre eles alguns impostores
Todo este palco é falso
A única verdade que reconheço é a primeira:
Estão tentando me matar

Perco-me na profusão de cores
Olha, que tudo isso evidencia minhas dores
e choro por saber que se pagar o preço
Jamais erguerei a cabeça outra vez
Jamais serei um conquistador

Estão tentando me matar
Eu bem que queria dirigir pelas estradas,
entretanto, todos me exaurem com solicitações vãs,
A rotina dos escritórios é um suicídio diário
e devo me odiar para aceitar a morte cotidiana

Calma, filhinho, olha para o teu rabo, Espanha, Madrid,
Respira fundo, não chora, não foi nada, Holanda, Estados Unidos,
Ouça minha canção de ninar e jamais esmoreça
A vida é dura, garoto, mas não para todos
Há amigos que, na realidade, são lobos,
Há seriedades que se parecem com um jogo
É para teu bem e também para o bem dos outros
Quando foi que menti para você?
Eu e o Presidente da República falamos a verdade
Enfraquecemos a nossa inteligência e ostentamos a vaidade
É para teu bem e para o bem da cidade,
para o bem do Estado e até do País
Eu como o herói nacional perdido em
um sonho solitário na velha torre de Paris
Veja, Paris não é uma festa, acorde, porra,
Quando é que você não se sentiu sozinho?
Estão tentando me matar

O meu erro não pode ser consertado facilmente
Seu erro foi mais caro, mas você nem mesmo sente

Vista um casaco e se proteja do frio
Vista uma máscara e se disfarce do mundo
Todos sorriem febrilmente e anseiam pela minha morte
Estão tentando me matar, mas isso não posso permitir
Meu destino pode não ser de muita sorte, porém insisto em sorrir
Contrario os inúteis obstinados em suas ignorâncias
Sou inconstante imperfeito e me emociono
com o clarão de um relâmpago que vejo pela janela
Ninguém sabe o que sinto e nem se importa
Ninguém sabe o que minto ou omito
nem as tantas tramas que meus ombros suportam
Odeio a responsabilidade e ainda assim
Enxergam-me como uma figura responsável
Profundo asco por quem me promoveu
no emprego que eu tanto odiava
Jurei que partiria, mas minhas pernas ficavam
Quando tentei voar, congelei com a mira da arma
Eu tinha razão o tempo inteiro:
Estão tentando me matar

Não sou recompensado devidamente por
Um estranho ganhou muita mais que eu e
Vomito minhas tramas falhas
Derramo lágrimas salgadas

Queria te dizer, meu bem,
que ainda vejo uma réstia da sua luz
Isso é o que me conduz,
mesmo que tenha me sentido mal
Você cai no chão e sinto que não consigo erguê-la,
Tudo bem, meu bem, é assim que funciona,
mas um dia seguiremos as estrelas

Olha, diretamente para a minha cegueira,
Diz-me que não vale a pena odiar essa cidade
já que de um jeito ou de outro ela foi sempre nossa

Confessa-me envergonhadamente no lusco-fusco
que errou muito e errou grave e me deixe furioso,
só para observar minha ira esvair com o vento

Peça meus desejos mais abjetos e os escute, refute,
Fita-me como um anjo mau e perdido que mesmo ferido
Ousou tentar fazer o bem, ainda que tanta gente quisesse
mesmo arrancar suas belas e longas asas
Não voa longe anjo ou pássaro cercado por pessoas rasas
De uma nuvem distante admiro milhares de casas

Não deixe que tudo acabe em brasas, veja,
Tua crise de asma é o abandono de Deus
Minha crise de mim é o autoabandono final,
mas me recupero por querer acreditar na tal da balança
Sou ridículo e nunca perco a esperança

Corro para resgatar todos os meus amigos,
mas meus gritos reverberaram pelo bairro na última madrugada
E ninguém aparece em meu socorro
Uma sombra para na porta do meu quarto
Avisa que é hoje que eu morro


Não, eu não posso aceitar
Esta festa toda sem gente e eu
Não escrevi crônicas suficientes
e nem falei do trapezista

Não, eu não posso aceitar,
É cedo, volte depois de amanhã
É cedo, volte em cinquenta anos, no mínimo,
Eu não posso aceitar este destino

Amei muito as histórias que nunca vivi
e amei muito menos que o suficiente os amores reais

Machuca muito quando vejo as pessoas
colocarem a venda nos próprios olhos
Ninguém se preocupa comigo
Ninguém se preocupa com nada
Estou me desfazendo aos poucos e voltando
Meus gritos se tornaram roucos e estou definhando
Estão tentando me matar e estão quase conseguindo

Para chegar ao céu é preciso ir ao inferno?
Ser simples é o que nos faz eternos?
Não, eternidades se despedaçam
Tudo se despedaça e sobreviver
é se matar todos os dias, sem morrer

Sinto uma ânsia de vômito de outras vidas
Ajoelho-me e rezo para um deus que me ignora
Só queria poder fazer com o meu tempo
exatamente o que eu quisesse fazer
Choro mais uma vez e antecipo o meu fim
Que tragédia é carregar os sonhos e responsabilidades
do mundo todo dentro de mim
Tudo isso anda tão pesado
Há alguém para dividir o fardo?
A vida era mais simples quando eu me decidia
rolando sempre um dado

Ei, se porventura eu me for, lembre de mim com amor
Como um pedaço antigo daquela tua memória de ternura
Desfaz-te das suas armaduras e me acredita

Te vejo chorar e também choro e a única cura
Encontro-a frágil em teu reconfortante abraço
Tudo bem, meu bem, compartilhamos o cansaço

Se conseguirem me matar,
você ainda pode me amar,
ainda que em outro tempo espaço

Inventado para outras coisas.

Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
Olho lento e existo longe
Quando não tento
Encontro-me no horizonte
Paisagens sem encerramento
A personificação do cansaço
Um astronauta vaga à esmo
seguindo planetas como seus mesmos
Recriando seu tempo-espaço
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
A maioria delas furiosamente delicadas
Aprendi muito novo o valor do nada
Há muito que se consegue com a ponta da espada
Há segredos ocultos no rabo da palavra
Astronomia do sonhador que sempre fui
A vida de escritórios que nunca amei
Tudo se dilui entre os mistérios que inventei
Livros tortos, quadros, sapos e corujas
Edredons, fantasmas, fadas e roupas sujas
Constelações ancestrais e carneiros
Minha coragem e tudo que é verdadeiro
Fui sempre sozinho por ousar ser inteiro
Sem me encaixar nas molduras
constantemente me julgam mais jovem
Não entreguei a minha alma ao retrato
jamais me atreveria ao destino de Dorian
A juventude e a beleza compartilham um fim
Ambas acabam diferente dos sonhos que existem em mim
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
A dureza férrea e a secura do vinho
Meu jeito sério subitamente se abre em sorrisos
Sou aquele vago oceano no fim do caminho
Está claro para quem me olha
Fui inventado para outras coisas
Danço no escuro do meu apartamento
Ao som de Lord Huron vão meus movimentos
Conto os carros que passam com dificuldade
É perigoso esquecer de ligar os faróis quando a noite cai
É corajoso permanecer quando o resto se vai
Sombras fúteis lavam louças
na metade da madrugada por bajulação
Venderam-se por coisa tão pouca
e se rastejam suplicando atenção
Fui inventado para outras coisas
Está claro para quem me olha
Fito nostálgico o sol do fim de tarde
Quando o crepúsculo me escapa
Sinto que algo no meu peito arde
Para não dizerem que não falei das coisas frágeis
e do tanto de verde que há na natureza
Para não dizerem que não lhes contei
que depois da Dor se encontra Beleza
Para não dizerem que eu não tinha flores
até no meu nome do meio
Para não dizerem que só pisava no freio
Amei tudo o que pude e o que não pude amar
Prometi me esquecer no futuro para me resguardar
da infantilidade inútil da vingança
Quando tudo se acaba sobrevive a esperança
Somos todos eternamente crianças
Considerações finais deste solilóquio
A solidão não me fere e preciso ser cauteloso
Já fui viciado na melancolia profunda
Olho devagar e vejo com calma
Por vezes antevejo até os desejos da alma
Só que tudo que sei sobre os outros
Quase nunca sei sobre mim
Não tenho opiniões e apenas instintos
Estou preso em meus próprios labirintos
Tentando encontrar alguma coisa que nem sei
Tentando me chamar pelo meu primeiro nome
Tentando enxergar insistentemente o rosto
que eu tinha antes da criação do Universo
Rabisco mais um verso e me desconcentro de tudo
Durmo tarde e devoro outros mundos
Estou aqui, mas estou por toda a parte
Está claro para quem realmente me olha
Fui inventado para outras coisas.  

Queria ser gente grande

4 de março de 2002.


A escola era chata, mas mamãe dizia que algum dia mais pra frente seria importante eu ter ido na escola e ter assistido minhas aulas mais irritantes. Eu não acreditava. Se isso de estudar era mesmo uma coisa legal, por quê os adultos não estudavam? A maioria dos dias eram bons e descíamos para tomar o café da manhã juntos, nós quatro. Papai e eu chegávamos na sala antes e eu ficava desenhando, lado a lado com ele, que lia o jornal. Era o nosso momento juntos por mais que não estivéssemos fazendo a mesma coisa. Era melhor esperar minha irmã na sala do que no carro. Cecília descia atrasada, era três anos mais velha do que eu e já tinha onze. Papai dizia que a vaidade deveria ser uma coisa mais importante aos adultos e eu concordava, mesmo sem saber o que ele queria dizer. Eu tinha uma opinião, não, eu tinha uma ideia. Acho que Cecília achava que era gente grande, todo mundo diz que menina amadurece mais rápido, é engraçado, isso de gente amadurecer igual fruta, mamãe dizia às vezes que a banana estava madura demais, isso quando a banana estava preta, quase podre. Será que as pessoas apodrecem por ficarem maduras demais? Acho que ninguém joga as pessoas no lixo por ficarem muito maduras. Amo papai e amo mamãe e por mais que agora a Cecília se ache mais adulta e grande e seja impaciente de vez em quando, eu ainda gosto dela e vejo ela do tamanho certo, ela é muito pequena, mesmo três anos e dois meses mais velha. Quando não quero ir na aula, eu vou ao banheiro perto da sala, tranco a porta e começo a girar muito até ficar tonto. A cabeça gira também e quando saio pareço mal. Mamãe diz que fico pálido, mas não sei o que isso quer dizer. Não fico doente de verdade, eu acho. Se fico doente por girar, pelo menos eu sei que passa logo. Essa manhã não saí da cama por causa do frio e mamãe trouxe chocolate quente para mim. Era assim sempre que estava frio. Ela fazia um carinho no meu cabelo e dizia: não se acostuma, eu estou trazendo só por causa que está um gelo lá fora. Não tinha gelo lá fora, gelo era de colocar na bebida, mas estava realmente frio e fui para a escola com casacos e luvas. Eu não gostava do frio porque encolhia o meu piupiu e eu não gostava da brincadeira dos meninos de sair correndo e abaixar os shorts dos outros. Eu não gostava que ninguém me olhasse pelado e ficava vermelho. Tinha medo dos meninos que brigavam e tentava ficar longe dos meninos que abaixavam a calça de outros meninos, mas eles eram rápidos e muitas vezes me pegavam. Será que só o meu piupiu fica menor no frio? Os meninos um dia foram com uma régua para o banheiro, era a brincadeira do dia, medir o tamanho do pinto e eu fiquei arrasado. Todos eles voltavam felizes e falavam que tinham 27cm, 23cm e teve até um menino baixo que disse que tinha mais de 35cm. Eu olhei bem para o meu e arrumei a régua e contei 9 cm. Quase chegava no 10, mas não chegava e aquilo me deixou muito triste. Eu não sei para que serve o pinto, só para fazer xixi, mas se todos os meninos ficaram felizes porque o deles é grande, eu acho que devia de ficar feliz também. Tem hora que eu queria ser mais maduro feito frutas ou meninas, para não ligar para o tamanho do meu piupiu. De vez em quando ele fica duro e muda de tamanho, cresce bastante mesmo, só que não vou contar isso pra ninguém. Será que tenho doença ou defeito? A professora Rosinha é legal, mas as coisas que ela conta para as crianças nem sempre são legais. Um dia ela inventou que quando a gente morre vira comida de minhoca. Acho que ela nunca viu uma minhoca. O coitado do bichinho é pequenininho, eu peguei uma régua para medir a minhoca do jardim e ela tinha menos de 3cm. Aposto que não existe um piupiu tão pequeno assim. Mamãe fala que a escola é importante, mas será que ouvir a profe falando que minhoca come gente importa para gente quando? Eu não entendo. O dia passa rápido fora da escola e brinco sozinho de tarde. Tem sempre gente na casa, mas não para brincar comigo. A casa é grande e cabe muita gente. Não me importo em brincar sozinho, eu penso em muitas coisas e não me sinto triste. Os robôs e heróis e bichos brigam pela paz no mundo. Eu não sei explicar, mas nas minhas lutas os robôs nunca vencem. Prefiro que a vitória seja dos bichos pequenos ou das pessoas e quero a paz para todos. Sinto que o meu coração é pequeno, mas nele cabe muita coisa. De vez em quando eu sinto um negócio esquisito, como se o vento tentasse me contar algum segredo, mas toda pessoa sabe que o vento não fala, ele só sopra e então eu não conto pra ninguém, mas presto atenção. Se um dia o vento me falar algo importante, eu vou ouvir. O dia está ficando mais escuro e isso significa que a noite tá chegando. Hoje tenho aula de natação. Odeio essas aulas, mas papai diz que nadar faz bem para a saúde e que o meu corpo vai ficar diferente. Eu não sei o que tem de errado com o meu corpo, mas ele é pequeno, só que toda criança é pequena. Odeio natação. A professora Cláudia manda a gente dar oito voltas, ir e voltar e eu sempre fico em último. Acho que eu sou muito lento e que meu piupiu é muito pequeno. Queria ficar em primeiro e nadar rápido na piscina. Queria ler jornal e não ir para escola. Queria ser gente grande.

Qualquer verso vago

Olha-me como se não me enxergasse e obstinado insisto,
Sou como me descrevi naqueles anos perdidos
Uma espécie de homem que assassinou o charme
fadado a ter gestos e palavras bruscas
Sou extravagante quase o tempo inteiro,
exceto quando meus dedos se colocam a adivinhar

Nestas raras ocasiões entre no lusco-fusco de mim
Entardeço sutilmente e transbordo a minha doçura secreta
Ofereço flores a quem encontro nas ruas e corro
para que nunca se recordem da minha identidade
Ajudo um idoso a subir vagarosamente no ônibus e
desacelero o meu ritmo na faixa de pedestres
A vontade de me vingar do mundo, vez ou outra, sossega
Pratico bondades em segredo, pois a consciência é cega
Secretamente, mal me digo e quando me sinto horripilante
Permaneço isolado quase sozinho em meu quarto
Meus dois gatos e meu cachorro deitam ao meu redor
Assim desisto de punir a humanidade
Da misantropia regresso para a pena
Choro e me solidarizo com cada cena

A minha fúria se torna obsoleta e sorrio ao observar
o meu novo rosto de cada dia
Envelheço e um dia serei vagaroso
Minhas mãos, entretanto, confessam tudo
Narram meus milagres e meus pecados vexatórios
antes mesmo que eu respire fundo

Estou em Dourados aguardando o ônibus
Estou em Londrina aguardando o ônibus
Estou em Guarulhos aguardando o avião
Estou no Allianz Parque aguardando o gol
Estou olhando a caixa de entrada dos meus e-mails
esperando ansiosamente por uma resposta
Apreciaria que me recusassem ou que me aceitassem,
mas ninguém se presta a ler os meus originais
Estou em Campo Grande aguardando o elevador
Estou no trabalho aguardando o fim de tarde
Estou nas férias ansiando pela minha casa
Estou na minha casa ansiando pelas minhas férias
Tudo é vago quase se não fosse nada

Inúmeros imbecis se consideram gente grande
como se ser grande representasse o mérito máximo
Se soubessem como a grandeza geralmente é minúscula
aprenderiam a se orgulhar do que trouxeram daquela criança
que um dia certamente foram

Tudo é vago quase como se não fosse nada
Estou na fila esperando a vacina
Estou na fila esperando a montanha-russa
Estou na fila esperando a enfermeira me chamar
Olha-me como se me soubesse, mas não sabe
A grande realidade é que nem eu mesmo me sei
Tenho a complexa convicção da dúvida

Meus joelhos encontram subitamente o piso
Eu me machuco, mas sigo com um ligeiro sorriso
A vida acontece devagar na segunda-feira
e todo tipo de prazer é efêmero
Tudo é possível e está ao alcance e eu
continuo sendo o homem que matou o charme
Há muitas coisas que eu conseguiria, se as quisesse mais,
entretanto, realizar-me é extinguir as realizações
Cumprir-se é se matar e covardemente admito que desejo
Vida

Preencho os espaços vazios com cores
Espalho a nova nota dos velhos amores
Transformei em força minhas antigas dores

Estou na fila esperando o amanhã e
hoje apenas o nada

Desisto de tentar controlar qualquer coisa
Avanço sem rumo e sem ritmo para frente
Tudo soa igual, mas sinto que é diferente

Eu continuo, trôpego, cambaleante, feliz, sério,
Sigo torpe, inconstante e cheio de mistérios

Tenho em mim tudo o que qualquer um é capaz de ter
Tenho em mim tudo o que ninguém é capaz de imitar

Tenho em mim a vaga lembrança do rosto que eu tinha
antes do começo de tudo

Vim de muito longe e hoje sou feliz e quase realizado
cercado por todas as pessoas que mais amo

Olho-me e me vejo ao horizonte
Um dia ainda hei de existir longe

Subitamente sempre chega o nosso fim
Quando o último sono da vida chegar
espero que a morte me abrace docemente
Levando-me de volta para o lugar do qual vim.

Menino doce.

CRÔNICA DE DOMINGO.

Destas tantas coisas que a gente pensa em um domingo. Destes tantos olhares, ingênuos e enviesados, dos cenhos franzidos desde a infância até os caprichos excessivos. Franzo igualmente o cenho, mesmo adulto, não muito diferente do meu sobrinho que ergue suas sobrancelhas em reprovação. Muito mais espalhafatoso do que ele, persisto de cenho franzido e mostro a dureza através do meu olhar, tudo isso como o disfarce para o menino doce que eu era quando tinha a idade dele e que ainda sou, confesso envergonhadamente. Hoje conjecturo ideias extravagantes e penso que a doçura dos meus gestos deva se fazer cada vez mais secreta. Quantas intenções cabem nos instantes mais ligeiros, nos passos mais lépidos e em como ajo em relação a tudo? Sinto-me como se fosse condenado a nunca ser por inteiro, por só se oferecerem metades a mim.  

Penso todas as minhas dores e traumas e medos e as visualizo ao longe. Desfilo em seguida pela avenida dos meus machucados e cicatrizes e vejo a minha alma inquieta e voraz em uma ansiedade crescente por se cumprir em definitivo, mesmo antevendo que não há nada que seja definitivo no âmago. Nada sacia a alma. Na passarela dos meus maiores vexames versões distintas de quem já fui me aplaudem e me apedrejam e sigo avançando sem titubear enquanto piso nas poças formadas pelo sangue que derramei. Não consigo agradar nem a mim. Como poderia sonhar em agradar os outros? Se nem meus desejos simplórios se cumprem, como posso sonhar em cumprir o que é alheio?

Tudo é absurdo e aguentamos esses tantos absurdos com uma tolerância insistente, como quem suporta os abraços ou os monólogos melífluos de um bêbado irritante. Há verdades convenientes demais para que eu não desconfie delas e se tudo converge para uma direção, eu tenho o hábito terrível de observar todas as outras. Não concordo com os outros e geralmente discordo mais veementemente das minhas próprias opiniões. Não é verdade que eu seja senhor de mim só por gastar metade do meu dinheiro em contas ou por morar sozinho ou por respeitar meus limites ou por antever que deveria me expandir na busca por solucionar a angústia do meu ser. Não, não me admito frio, embora tenha congelado nos últimos meses diante de revezes que pareciam irreversíveis e de notícias avassaladoras que me deitaram ao chão e expandiram o buraco fundo que há no meu peito há décadas, sim, desde muito antes de entender o que era o Vazio Escuro, eu o sentia, como se fosse um fantasma de Morte preso perpetuamente em minha Vida. Merecemos nossas sentenças? Tenho a consciência perfeita de que as grandes lições que aprendi ao observar as coisas frágeis aos meus sete anos de idade são das mais importantes que presenciei até hoje. Compreender a paciência com que a aranha tece a teia e como um pássaro sobrevoa o mesmo pedaço do céu por longos minutos enquanto calcula se consegue mergulhar para se alimentar, tudo isso é breve, calmo e raro. Respiro como se cada respiração pudesse representar um pequeno pedaço do paraíso, ainda que eu desacredite de todas as religiões, mesmo não sendo ateu ou asceta. O paraíso são os outros. O inferno também. Quem não se conhece minimamente não pode reclamar se eventualmente se reconhecer como refém de alguém. Quase toda pessoa que identifica nossas fraquezas, utiliza-se delas. Quantas vezes no desespero fecharam suas portas e você teve que escapar pelas janelas? Apenas para sobreviver…

Fecho os olhos na tentativa de buscar uma noite imperturbável de sono, mas sonho sem parar e a maioria dos sonhos traz maus agouros e me pergunto o que tanto faço para me conduzir por estradas metafísicas das quais tenho tanto medo. Talvez no fundo eu seja corajoso em segredo. Talvez eu mereça essa enormidade de pesadelos. Todas as traições que sofro em cenários metafísicos, todas as vezes que fui assassinado, todas as ocasiões que me cuspiram e me colocaram de joelhos, tudo o que eu merecia e nunca tive, tudo o que os outros nunca mereceram e tiveram, todas essas incoerências que me fazem duvidar se. Sinto que o Universo é muito grande e algum dia alguém haverá de me explicar as razões das emoções, pois emoções puras são sempre desarrazoadas e toda essa displicência silenciosa e a falsa amizade nos rompimentos súbitos de amores e amizades, apenas por praticidade nos afogam, forçando-nos a engolir litros e mais litros de uma amálgama de inúmeras mágoas.

Sinto vontade de se me insistir, sem ter a convicção de que eu mesmo valho a pena. Tento sorrir, mesmo nos dias que não crio novas ficções ou poemas e tudo me dói, como um peso no peito, como qualquer grampeador que é repousado em cima de uma folha de papel apenas para evitar que ela não voe e assim permaneço sem voar, por um detalhe que me foi imposto. Será que as primeiras árvores sonharam em voar? Creio que sim, se perscrutavam os caminhos inconstantes das folhas ao vento. Será que imaginaram que poderiam ser algo tão diferente do que aquilo que eram por natureza? Penso nas contrapartes de tudo e em como isso tudo pode ser belo e perigoso. O poder aliado com a estupidez é fatal. Verifica-se aqui o potencial para estupidificar a população e criar uma massa de pessoas não pensantes e há quem já pense que há diversos pensamentos que sejam proibidos. Nada é proibido em nossas mentes. É preciso ser sensível se quiser ver o que ninguém ousa ver, mas muita sensibilidade machuca e por vezes me pego sem ar por enxergar um mundo excessivamente sombrio e talvez me doa admitir que as coisas sejam exatamente assim. Por isso, acredito que nos piores dias, é preciso sobreviver com muita destreza. Só vencemos quando enxergamos que após a Dor há um tanto imensurável de Beleza e assim, sem facilidades, começamos a ver uma realidade que talvez se equipare com a ficção. Talvez nos dias de trevas, eu possa crer na luz do meu coração, entretanto, confesso-me vil com um instinto que nunca se cumpriu: há vezes em que queria me vingar do mundo e ser vilão. Se um dia acordasse mau, fatal e me guiasse apenas por um instinto louco de destruição. Será que na ira eu encontraria alguma comoção?

Tudo é vago e quase estúpido. Um estranho invade o meu espaço em um bar e me ofende e há tantas pessoas que posteriormente irão defender a atitude dele. Nenhuma resposta justifica as defesas. A síndrome do advogado, todos correndo para uma ocasião para tentar fazer parte de algo qual não fazem parte. Querem a justiça, sem se exporem diante do desconforto, como quem quer um prêmio, sem lutar por merecê-lo. Queremos os espólios, mas não queremos erguer a espada, nem mesmo para defender as pessoas que tanto nos defenderam outrora. Somos impecavelmente injustos e incoerentes e essas tantas inconstâncias se impregnam em nossas atitudes mais constantes e tentamos ser suavemente melhores, como quem entende que o mundo já viu o suficiente de dor e como quem percebe, sem epifanias, que um abraço longo e um pedido de desculpas rápido pode significar tanto quanto não parece. Vez ou outra o perdão chega tardio, sem evitar a confusão, entretanto, clareando o caminho para dias mais bonitos. Palavras ditas sem floreios, um gesto sincero, são coisas quais eu teimosamente ainda acredito.

Assim, vejo-os o tempo inteiro e muitas vezes quando me atiram, busco não sair do caminho da bala. A minha vida foi sempre no limite e eu me sinto próximo ao fio da navalha, mas sobrevivo a mais uma batalha e me reergo enérgico, com o meu coração doente, mas ainda pulsante, com a certeza de que nada de bom do que eu faço garante algo bom a seguir, ainda assim, este é o meu único jeito de agir. Ergo a minha cabeça e meus olhos encontram o sol e posteriormente uma profusão insana de cores. Talvez eu deva acreditar nos amanhãs, mesmo com a morte de tantos amores. Talvez abandone o resto da minha parte sã e ostente orgulhoso minhas tantas dores. Quando olho para o sofrimento contínuo, parece-me que não há Deus, pois se Deus houvesse haveria de ter nos resgatado muito antes. Não é possível que sofrer seja uma constante. Já busquei refúgio no sono para fugir da realidade que me feriu. Por vezes sinto que tento sentir um mundo que nunca me sentiu. Por aí espalham que é curto o meu pavio e que eu aprecio estar dentro de uma confusão. Ouço uma estúpida em sua interminável provocação. Há meses que estou no Inverno. Nunca mais haverá verão? Caminho, não pelas vielas de Campo Grande, mas pelos campos grandes da minha alma. Pavimentei minhas trilhas e construí os degraus da escada que ainda estou subindo vagarosamente. Grito em voz alta os meus maiores vexames e sinto uma raiva fervorosa. Talvez esta crônica seja uma tentativa de. Nada.

Bem, entre tantas verdades, pode ser que existam mentiras e, vez ou outras, não há problemas, desde que as mentiras que criamos através dos contos e ficções e histórias, possam se estender e alcançar uma compreensão ainda maior da realidade. Há verdades que cessam verdades e essas verdades não interessam. Se é preciso acreditar em divindades, que acreditem. Se é preciso louvar os erros para eivar os acertos, que louvem. Se é preciso falharem para que aprendam a amar, que falhem, mas que quando a autocomiseração acabar, por favor, que amem. Os pesadelos, os monstros, os inimigos, os fantasmas, tudo isso existe e as nossas ficções não os tornam mais ou menos reais, porém somos os heróis e heroínas de nossas próprias jornadas e mesmo em cenários imaginários ou sonhados, notamos uma necessidade de triunfarmos. Quero nunca mais morrer em sonhos, mesmo aceitando que um dia vou morrer na vida real, ainda não sabendo distinguir a diferença crassa entre uma realidade e outra. O sono do dia seguinte nos levará para outras realidades e me pergunto se me deixarão ter a mesma substância que faz de mim quem eu penso que sou. Se algum dia me concederão o privilégio de.

Quando olho para o abismo, sinto que o abismo me olha de volta e o desespero que se infunde nos outros é algo que me conforta. Posso olhar para o precipício por anos sem nenhuma tentação em saltar para dentro. Quero outras coisas que. Preciso de outras coisas que. Significar a vida é solucionar o mistério das inutilidades?

Escrevo-me, como se pudesse me resumir, como se pudesse me curar das antigas doenças da alma. Sinto que trago isso de outras vidas. Sinto que não há memórias boas ou más esquecidas. Tudo que foi é uma lembrança vaga em algum campo interno e extrassensorial. Toda a tristeza se apaga diante da farta mesa na véspera do Natal.

Há dias em que eu só queria me sentir especial. Há dias que.

Exagero no café, na água, no tempo em que passo no escritório. Exagero na quantidade de vezes que vomito, na quantidade de vezes que insisto, na qualidade das vezes que.

Torço para que o Palmeiras vença para que a semana seja melhor.

Torço para que não chova e para que eu jogue vôlei e derrame um pouquinho de suor.

Rezo para que não me quebrem outras vezes. Tenho bancado o forte, mas na verdade tenho sorte. Pessoas se despedaçam tão facilmente e é tão difícil reconstruir, praticar a remontagem e eu sou péssimo em quebra-cabeças e.

Abro a porta para a escuridão e sinto a dor doer. Preciso abraçar minhas partes malignas e amá-las, mas não amo. Se dissesse que já as aceito estaria me afundando em autoengano.

Só os ébrios de espírito despertam na madrugada para lavar a louça alheia ou tirar o lixo do vizinho. Os réprobos, como eu, revolvem para dentro de si mesmos e permanecem sozinhos.

Brindo uma cerveja preta com meus dois gatos e meu cachorro me observando, às 2h35, enquanto escuto Lord Huron. Bailo com os fantasmas e sei que.

Deus nos abandonou e todo o meu futuro depende do que eu fizer. Gargalho por me sentir desesperado e enclausurado, cônscio das minhas capacidades, ensombrado por uma melancolia profunda que me persegue desde o primeiro choro no hospital.

Minha mãe dizia e ainda diz ao mundo que eu sou especial e eu.

Escrevo livros querendo acreditar que um dia conseguirei publicá-los, mas em verdade, em segredo, eu me omito. Bem no fundo acredito que meus sonhos são distantes e que eu nunca vou cumpri-los.

Ainda assim me escrevo, como se essa fosse a última confissão de que eu.

E de que eu.

E ainda de que.

“O mundo é para quem nasce para conquistá-lo e não para quem sonha que pode fazê-lo, ainda que tenha razão”. Rio de Pessoa e depois de minha pessoa e uma sombra fútil e petulante me chacoalha e grita comigo:

– Não se ria!

Dou de ombros, entre tantos escombros e respondo aos sussurros.

– Um dia.

Quem sabe uma criança correndo pela rua ensolarada me faça acreditar que.

Quem sabe os filhos que nunca tive estejam clamando pelos contos que escrevi ou pelos que ainda escreverei e.

Quem sabe se tudo que ainda não sei signifique que todo mundo nasce para ser rei e essa visão axadrezada da vida tenha me feito peão de meus próprios sonhos e qualquer instinto de rebeldia seja ainda bem-vindo.

Quem sabe tudo faça sentido, mas não neste mês de agosto e muito menos neste domingo. Os meus demônios não foram vencidos, mas neste fim de dia me pego com fome e sorrindo.

Nos restaurantes que ainda não conheci na Ásia.

Nas pontes que ainda não cruzei na Europa.

Nas línguas que ainda nunca falei antes.

Nos castelos em que nunca fui príncipe ou rei.

O copo de água meio cheio também está meio vazio e eu, meio vazio, certamente estou meio cheio.

Nos bosques selvagens.

Na sutileza felina ou na lealdade dos cães.

Na casa solitária como o meu coração no meio de uma ilha perdida.

No meu carro preto ou branco que percorre estradas e engole o sol.

Em tudo o que há em mim parecido com o inconstante mago Howl.

Pensando e sentindo, afinal, percebo-me normal, nada especial, mas sei que ontem, hoje ou amanhã, fosse como fosse…

Serei sempre aquele menino doce.

Inquietude Constante

Essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
O que tanto me impacienta aprendi a entender
Ainda assim quase nunca sei o que fazer
Toda minha comoção se assemelha com entulho
Nem do meu coração sinto mais tanto orgulho
Quando o mundo se aquieta escuto mais barulhos
Ensombra meu passado e me protege da invernia
Preciso desesperadamente do próximo dia
Antes de morrer eu ainda preciso ficar bem
Morreram os contos, os romances e as poesias
Até quando conseguirei ir além?
Anos antes prometi que fosse como fosse
Que de um jeito ou de outro minha vida seria doce
É irônico que hoje encontre na amargura
dos meus tantos goles de café
A minha única e improvável cura
O lembrete de que é preciso ter fé
Assim, oscilo e avanço, cambaleante
Às vezes me deifico por um instante
Imortal raro entre os homens
Transbordando naturalmente uma aura sobrenatural
Todos me olham como se eu não me fosse
Como é possível existir alguém tão doce?
Repentinamente sou arrastado e tomado pela ira
Que é que faço quando sou derrotado por mentiras?
Para ser sincero não faria diferença
se o que me deitasse ao chão fossem verdades
O preço da minha eterna sentença
é lidar com excentricidades
Essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
Tudo brilha fugaz e ouço clamores por calma
Essa raiva me traz um instinto mordaz
Nada nunca saciará a minha alma
Quiçá se rezar muito e tiver sorte
Eu me veja satisfeito com a bênção divina
na vida que há após a morte
Olho para o meu corpo e meus cortes
e fito seriamente as minhas cicatrizes
Será que um dia deixaremos de ser aprendizes?
Será que seremos outra vez felizes?
O coração, se pudesse pensar, pararia?
Os dedos, se pudessem parar, fariam poesia?
Olha que sou cinza azulado como estes dias
Sou como as manhãs de domingos e noites de quintas
Sou como os interlúdios que acontecem no almoço
Pareço eficaz e concreto, mas sou mero esboço
Essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
O palavreado que vitupera os próximos passos
Não passa de um suspiro profundo por tanto cansaço
Sou ferro e vinho, seco e tinto, mas há vezes que esfumaço
E a violência que imploramos aos outros
E as marcas que muitos de nós querem na pele
Isso tudo é muito, mas soa tão pouco
E por vezes me fere, mas se sou ferro e firo
Só preciso de uns minutos para ficar sozinho
Quando eu paro e reflito, não entre no meu caminho
Quantas intimidades minhas me pertencem?
Não é que as coisas mudaram e quase ninguém nota,
mas mesmo o que se repete nunca é igual
Às vezes queria não me perceber para me sentir
um diferente um pouquinho mais especial
A única constância são os panetones
nos mercados muito antes do Natal
E as dores físicas se ampliam e se forçam em mim
No hospital adormeci como um bebê sereno
Nada nunca é o que parece neste mundo tão ameno
As pombas feias se suicidam mais que os humanos
Os adoráveis golfinhos estupram por diversão
As crianças ingênuas viram adultos agressivos
Resolvem e revolvem traumas construindo outros traumas
Na base das lágrimas, da saliva e do sangue
É melhor entregar tudo e permanecer mudo
diante do que hoje será considerado vexame
E os cruéis seguem ostentando suas falsas conquistas
Riem alto de tudo o que você um dia entregou
Há tantos miseráveis que tentam acabar
com qualquer luz mínima de amor
Os cruéis, escancarados ou não, correm
como baratas que se alegram de encontrar o chorume  
A única coisa que anotei no topo da minha lista
“Não seja escravo escracho aos tantos costumes”
O nariz não respira bem, mas tento sentir os perfumes
O aroma do café traz de volta um tipo específico de cura
Nesta madrugada dormirei sem minhas tantas armaduras
Que os monstros dos pesadelos não me atormentem
Hoje quem tentar me ferir me fará sangrar
Que os monstros diurnos não me tentem
Posso cair, mas desta vez os farei pagar
Que os monstros vespertinos não me matem
Nestas últimas tardes só preciso me esquecer
Que até o cachorro mais dócil também late
porque anseia constantemente por viver
Abro os olhos e não me vejo, até o espelho
Abro os olhos e pela feiura que sinto, enfeio
Recordo-me da época que só o que era alheio podia me enfear
O que era belo hoje parece uma mancha
que eu não sou capaz de tirar
Ainda sinto que sigo sendo o mesmo,
Ferro e tinto, vinho refinado e seco
E essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
Tudo bem, meu querido Daniel, hoje o mundo acaba,
mas você já viveu outros invernos e sabe que o fim é uma cilada
Olha para aquela criança amiga do silêncio que costumava ser
Até as pequenas vidas dos insetos haverão de valer
Tudo bem, meu querido Daniel, hoje o mundo acaba,
É preciso continuar dirigindo e perseguindo o por do sol
que sempre haverá no fim da estrada
É como no futebol em que um jogo só termina
quando ele finalmente acaba
O fim do mundo desaparece e a gente renasce
no passo seguinte da jornada
E daí que a alma não possa ser saciada?
Eu só espero que a vida seja doce
e um pouco menos gelada.

Depois não tenho certezas.

Acordo antes e respiro

A mulher que amo

dorme ao meu lado e sorrio

Sempre fui gentil com as pessoas

Com as que odeio e com as que não gosto

e mais ainda com as que amo

Observo-a e me basto

Amar é olhar com cuidado e

Cuidar dos outros sempre foi

a única coisa que soube fazer desde cedo

Frequentemente alguém me dizia

Perto de ti não ouso sentir medo

Por vezes fui fatalista, mas vivi

tentando fazer a diferença

Creio que a felicidade destes dias

seja apenas consequência

Observo-a a dormir e sorrio

Este retrato no coração me acalma

Até quando ainda não a conhecia

sinto que a imagem já me acalmava

Toda esta leveza e poesia esteve

desde antes fixado em minha alma

O pé esquerdo dói e manco

Pisei em algo pontudo

Ainda assim, nesta manhã canto,

Porque a alegria traduz meu conteúdo

E me basto com a alegria de hoje

ainda que saiba que todas as horas seguintes

Trazem surpresas

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas

Levanto e faço o café

A mulher que amo continua dormindo

O cachorro que amo continua dormindo

A gata que amo continua dormindo

O gato que amo me seguiu até o escritório

Apenas para dormir mais perto de mim

Sou feliz e completo agora

Absorvo da vida toda a sutileza

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas.