Eu não fui…

Eu não fui daquelas crianças que corriam descalças no asfalto, como se as pedras lhes fossem alheias aos pés. Eu gostaria de ter sido, mas não fui. Eu me machucava com facilidade, recolhia-me para o meu mundo e me permitia desaparecer dentro de mim. Eu me buscava, mesmo muito antes de saber que existia uma possibilidade de me encontrar.

Eu acontecia invariavelmente de dentro para fora e controlava meus pensamentos na mesma medida. Esse processo ocorria até que a minha imaginação se forçasse além do que existia da racionalidade geralmente permitida. As pessoas não me entendiam e nem compreendiam como eu vivia longe, ainda que estivesse perto, ainda que parecesse tão próximo. Eu habitava o meu mundo e rezava para que os vislumbres de heroísmo que explodiam em minha alma um dia se forçassem diante da minha covardia externa.

Eu até caí de joelhos duas ou três vezes na rua, mas o exterior mundano nunca me soou confortável e eu vivia apavorado. Eu amava minha casa e meus videogames, a minha reclusão e o meu canto, era ali onde eu existia sozinho e sozinho criava companhias. Soube desde novo apreciar o que havia de especial em mim, assim, eu corria atrasado para buscar o que todos buscavam, mas me antecipei na rara busca do autoconhecimento.

Atrasei-me na vida. Longe das ruas, eu cresci no meu próprio tempo, observava as estrelas e a lua, bem como a vida que acontecia a todo o momento. Demorei para ver a primeira mulher nua e por essas e outras sempre me chamaram de lento. Costumava me adiantar até o dia que briguei com o tempo. Argumentava sobre a minha vida em solilóquios otimistas. Erguia o punho para combater os vigaristas. Ainda fraco, eu ostentava ao alto o meu coração. Sabia que um dia abriria mão de tudo pela minha missão.

Se o sofrimento significa a vida, eu escolho sofrer em solidão e encontrar meu próprio significado. Se conheço a verdade do que me é Certo, eu não posso me permitir escolher o Errado. Veja, eu sei bem o que acontece comigo, mas preciso tentar me explicar. Meu coração nômade anseia pela data qual ele vai se reencontrar. Até lá, eu dificilmente estabeleço morada e tudo o que chamo de casa realmente me conforta. Preciso escrever os novos livros e cruzar novas portas. Preciso ser quem eu não fui para evitar qualquer impulso pedante. Preciso ser quem eu fui para nunca mais ser o mesmo de antes. Nesta jornada pela busca do meu rosto verdadeiro, eu preciso me encontrar. Sofra se tiver de sofrer. Sangre se tiver de sangrar.

Porque lá no fundo a dor é uma velha conhecida. Ela me abraça e repousa em minha alma, apenas levemente adormecida. Desde criança deixo que a dor faça o seu papel. Desde pequeno atraso pontualmente ou me antecipo em dias invertidos. Se eu ainda soubesse explicar o que acontece comigo…

Abstração

A representação da vida como coisa real geralmente nos escapa.

Localizo-me no meu quarto e sinto o suor escorrendo pelas minhas costas e pelo meu antebraço. Anoiteceu outra vez e me pergunto sobre o que seria da minha vida acaso não houvessem novas noites. Poderia eu seguir tranquilamente em um mundo que só comporta o lume ou necessito da escuridão e da densidade noturna para certificar de que sigo cônscio e no controle de minhas próprias ações?

Tragédia mundana qual me sinto destinado. Posso acertar minhas próprias ações ou estou fadado a dar errado?

Vejo-os, principalmente quando não me vejo. Vejo-me, apenas quando deixo de ver o restante do mundo. Observo-os e me sinto arrefecer. Não me observo e sinto a minha ausência. Escrevo para diminuir a distância entre quem sou e quem sinto que deveria ser? Que é que deveria fazer para me aproximar mais de quem está tão distante? Existe drama qual devo me render que faça minha vida simplória mais elegante?

O silêncio devastador é interrompido pelo ronco incessante do motor do ar-condicionado. A gata preta desfila atravessando o espaço curto da mesa. Segue o seu rumo com passos delicados, repletos de requinte e, sem se encostar em nada, deita no meu travesseiro e só mexe eventualmente suas atentas orelhas.

O sono dos felinos, as sinas e destinos, os instantes de descansos breves e seculares, a inevitabilidade, a boa utilização do tempo, a individualidade, os lugares, tudo me torna mais leve e tudo também me torna mais pesado. Não divido meus fardos e nem os meus hábitos. Sei que preciso da solidão para sobreviver.

Abstraio-me do Universo e de tudo o que compõe a Vida e me sinto integrar o ambiente. Dura apenas um vislumbre de segundo, um intervalo tão fugaz, que nem o sinto na pele, mas é essa capacidade de me ver longe do mundo que me faz nutrir amor verdadeiro pelo verdadeiro Mundo.

Indago-me sobre Vida e Morte e sobre as próximas vidas que hão de existir após nossas próximas mortes. Haverá espaço e tempo para que tudo seja vivido e aproveitado? Haverá tempo hábil para que possamos realizar os sonhos que sonhamos? Haverá outras versões das nossas mesmas personalidades? Poderei deitar meu julgamento completamente subjetivo sobre a minha maneira de enxergar a existência? Outra vez me perco de mim. Enxergo todas as pessoas, menos a minha. Enxergo todas as dores, exceto a minha. Enxergo a felicidade dos mais próximos e não a minha. Que é que deveria eu fazer para me livrar deste insistente estado soporífero? Estou destinado a sofrer por um mundo que me ignora?

Príncipe diurno e deslocado de melhores horas. Sonhei-me regente em um mundo qual tudo era visto de dentro para fora. Vomitei os segredos da existência. Mergulhei no gélido oceano e me transformei em uma lontra comedora de ouriços-do-mar.

Acordo-me no mundo real, se é que faz sentido distinguir o território dos sonhos do território cotidiano. Sou o Senhor do Lago e devo fazer o que bem entender. Visto meu protagonismo como um super-herói veste sua roupa especial. Trago em mim todo o tipo de esperança vã e estúpida que me faz acreditar que posso modificar severamente os amanhãs. Onde estará meu futuro se me falho em modificar o presente?

Falho de novo e de novo. Sinto uma raiva que dura pouco. Sinto uma tristeza que persiste. A alegria pode ser disfarçada, mas não o sofrimento. Penso sobre as coisas que não posso tolerar e quase me pego chorando. Agradeço ao Acaso Divino que me fez estar com tanto sono.

Lá de longe me vejo e aceno. Estou defronte para as janelas límpidas com vistas enfumaçadas de uma fábrica que expele nuvens de fumaça branca, mas me sinto sereno. Lá de longe me vejo e não há engano. Há qualquer lugar qual sou novo filho do mar e desta vez sei que me amo. Lá de longe me vejo no clima impossivelmente gelado e distante. Talvez uma parte minha congele, mas eu sei que não volto o mesmo de antes. Lá de longe me vejo falando em japonês com os japoneses. Talvez eu me embriague em Tóquio enquanto canto meus maiores reveses.

Lá de longe me vejo acompanhado.

Lá de longe me vejo sozinho.

Lá de longe me vejo.

Lá vou eu outra vez.

Lá vou eu agora.

Lá vou eu outro dia.

Lá vou em uma nova velha vida.

Partícula irreal e incompreensível. Falhei na vida e no devaneio de minhas hipóteses. Falhei na imaginação e no sonho. Dormi acordado e vivi dormindo. Nunca encontrei o que me fosse agradável como qualquer tipo de resposta. Surgem mais perguntas e outra vez me vejo. Não há mais ninguém. Deixo de me ver e a vida inteira brilha e surgem mais uma vez as coisas todas que faltam.

O sono é o meu único Deus e rezo para que durma rápido. Divido-me entre a ânsia de sonhar e a vontade apressada de me lembrar detalhadamente dos sonhos. Pudesse eu me compreender nas partes quais não me compreendo e tudo poderia ser diferente. O que fiz de mim se calei quando deveria ter dito? O que ainda faço de mim se falhei em fazer deste um mundo mais bonito? O que fui falar quando não tinha mais o que dizer?

Amo como posso e sigo em frente. Sou como sou agora, mas talvez um dia escolha ser diferente. Que me julguem com ferocidade! Que me julguem com um caráter férreo e que eu seja alvejado! Que eu sofra com os dramas e dores do mundo! Um dia eu ainda melhoro! Um dia eu ainda mudo…

Andarilho cósmico,

Interplanetário,

Eu vi a escada de saída da Terra,
Eu também senti o cheiro de flores e ervas

Eu sei que há circunstâncias de melhorias e que eu não quero e nem posso morrer de um jeito estúpido ou banal. Não aqui. Talvez com essas pessoas. Talvez longe delas.

Quero falar outras línguas e admirar outros sotaques.

Quero que todos vejam na minha representação externa toda a capacidade estética e interna da minha alma. Quero a explosão do mundo em absoluta calma.

Hoje nenhum pedaço do planeta foi feito pra mim.

Um dia.

Ferro, vinho, romantismo, sono compartilhado e lucidez. Não sei quando, mas ainda chega minha vez. Até lá me valho dos inutensílios que encontro ao longo dos dias mais longos para continuar bem.

Isso de querer ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além.

Gastando palavras até que os dedos doam para confrontar qualquer resquício de vaidade. O sono me chama e em sonhos quero ficar face a face com a única Verdade.

Boa noite.

Você vai sentir esse peso

– Você vai sentir esse peso.

O conselho soava despropositado, tosco, fora de hora, longe do nexo, ainda assim, os ombros agora carregavam uma bagagem que não havia anteriormente. Por quê? Não sabia dizer. A gente é tudo aquilo que pode? A gente é aquilo que nunca mente?

– Que é esse peso? – Pergunto e me deparo com o silêncio em resposta. O conselheiro se foi.

Contrariado, ergo-me e bebo um copo de água gelada. Até nas noites o clima quente atrapalha. Se pudesse escolher, eu hoje tomaria uma garrafa de vinho tinto. Se eu pudesse me entender, beberia tudo sozinho. A gente é aquilo que nunca mente e o que pesa internamente antes do novo dia ter amanhecido? A sinceridade é o melhor caminho para não sair ferido?

A noite ainda é longa, porém, reconheço-me distante da excitante luz solar. Reconheço-me com estranheza, mas sigo inconsciente sobre a minha beleza. O brilho fraco das estrelas é a única coisa que me impede de (me) apagar. Venço o estado soporífero. Escuto vozes, velozes, pessoas correndo, fazendo barulho, frenesi louco, ebriedade costumeira, cruzam a madrugada, todos atravessam, arriscando-se, morrendo porque desejam viver. Se eu pudesse recuperar tudo aquilo que havia perdido. Se eu ainda tivesse as chaves para voltar para a orgia de meu sofrido mundo proibido. Se as coisas simplesmente não doessem como doem.

– Você vai sentir esse peso e conhecer essa dor.

A dor não se evita. Acendo uma vela e fito a chama acesa. Este momento é meu, embora nada mais me pertença. A luz bruxuleante queima a cera e toda a minha esperança ingênua se projeta na sombra. Não sei explicar, mas falta algo lúcido e próximo, possível e real, algo esquecido e deixado de lado pela prece de horas sombrias. Não posso ser o foco, entretanto, desejo ser a fogueira que queima através do tempo-espaço, o fogo que nunca apaga e que ilumina caminhos. Jogam-me água. Os que se importam logo desistem e os que apenas não ligam o suficiente se utilizam das situações. Sinto o peso de me sentir solitário em uma existência compartilhada por bilhões.

– Você vai sentir esse peso. Vive no mesmo mundo que eles. Carrega o inevitável fardo de compartilhar seus êxitos e revezes.

Penso nos outros que ousaram ter coragem em épocas mais sombrias e continuaram lançando-se em horizontes densos e escuros, engolidos por violentas tempestades, resistindo, sobrevivendo, minuto a minuto, entre a vida e a morte. Ansiando pelo futuro e contando apenas com a sorte. Sobreviviam pelo ofício, pela recompensa ou pelos que os esperavam? Penso nos que pensaram além de si mesmos, nestes raríssimos que deixaram o egoísmo de lado e se preocuparam primeiramente com a missão do que com os louvores individuais. Penso ainda que nenhum pensamento é único e a repetição é a única tendência infinita na existência, pelo menos enquanto existirmos. Vai desistir da sua vida como se ela não se importasse? Fortaleça-se!

– Você vai sentir esse peso e vai decidir. Chegará o momento em que vai entender se vai se erguer ou se vai sucumbir.

As dúvidas serão incontáveis, o conselheiro avisou, mas se a missão deve ser cumprida é porque talvez exista algo maior do que o próprio amor? Quiçá para uns, certamente não para outros. Silêncio do conselheiro compartilhado por aquele que foi aconselhado. Se existe algo maior, ele sente que deve descobrir e resgatar. Conclui descuidadamente com uma frase de efeito: aquele que sacrifica a felicidade individual para que o mergulho nos aprendizados seja intenso e lúcido o bastante será recompensado e nas profundezas de nossos próprios lagos, enfim, poderá achar suas próprias respostas, acaso não seja assim tão raso. Risca um S.O.S na areia e pensa em quantos pedidos de socorro foram feitos nos areais, céus e mares. Quantos pediram ajuda e morreram antes dos heróis chegarem?

– Você vai sentir esse peso, garoto.

Disse-me, entretanto, certamente sem notar que doze fios de cabelos grisalhos despontavam em minha cabeça. Sou contra comemorar novos aniversários para que eu nunca mais envelheça. A idade atual se esvai, assim como a chama da vela, sim, ela ainda queima e sobrevive diante de outra aurora, defronte a outra despedida. Regente da madrugada, príncipe de melhores horas, ele se levanta poderoso e aproveita o breve momento de reinar. Sabe que eventualmente vai padecer. Está cônscio da possibilidade de falhar. Dragão das manhãs, réprobo do crepúsculo, quase sempre me senti fora do lugar. Segui sentindo na pele todo o mundo que nunca me sentiu, notando e abraçando quem não faz questão de se importar. Sofro a angústia inevitável de ser quem eu fui e choro. Às vezes a comoção abarca o Universo e às vezes resumo a felicidade em um verso solitário que escrevo quando estou sozinho. Às vezes a vida o fustiga e o frustra. Às vezes é melhor continuar na busca. As fatalidades exteriores não existem? Qual é o verdadeiro sentido que nos guia?

Sinto o peso do que não vejo e ainda vive em mim. E sinto os desejos que tenho desde que nasci. E sinto o ensejo do caminho que escolhi. Eu vou carregar esse peso. Verei de perto situações degradantes, cafajestes, trastes, viciados e bajuladores. Superarei o medo e não vou me acovardar. Vou ver a maldição do mundo e me recordar dela em uma lembrança olfativa e adocicada que me causará ânsias de vômito. E vou observar o caótico cenário político e diversos documentários e crises e fins de mundo tão terríveis e chocantes quanto à continuidade da vida. A alma agora se embriaga, mas a essência antes perdida, parece-me, enfim, encontrada. Ninguém vive nesse mundo longe dos perigos. Podemos evitar e chamamos de inevitável. Desvios de rotas são imperdoáveis. Choro melhor quando choro sozinho.

Dirijo meu carro e os olhos marejados tornam as luzes de faróis parecidas com as estrelas. Ofereço um breve aceno tentando entretê-las. É uma metáfora literal, mas vejo a vida conforme atravesso uma nova porta. Alguém situado lá em cima me nota? Retorno-me ao ponto de não retorno, ignorando a placa da proibição. Cada olho enxerga uma realidade diferente. Há tantas realidades assim? O que você seria sem as pessoas que você conheceu? Eu perdi a minha pedra de signo e o meu dado de vinte faces. Nunca mais me encontrei. Nunca mais encontrei os objetos. Aguento o dia árido. Vou sobreviver hoje mesmo tendo sentido o peso. Vou entender que a minha felicidade depende do que faço de mim e, assim, farei algo. O protagonismo, a vela, o fogo, a vida, o jogo, o que sufoca e o que nos torna leves, as responsabilidades e quem decidimos ser, o gosto podre de fracasso, a inebriante sensação de vencer. Muss es sein? Es muß sein! Tomas não tinha certeza. Quanta certeza cada indivíduo pode ter? As mortes de todos os antecessores e parentes queridos, as vidas inúteis de tanta gente que se machuca sem nunca ter merecido, as traições, as angústias, eu quero carregar esse peso. O inferno, a luxúria, a oportunidade não é menos do que o que vejo. Perito em enfrentar os problemas, eu me ergui fora de lugar. Não existe moldura qual eu possa me encaixar?

E o cansaço de alma que me persegue avisa que espera por uma chance de me sobrepujar e me vencer. Sinto-me triste, exausto, cansado e indefeso. Ainda assim, eu vou me levantar e lutar. Eu decidi carregar esse peso.

E o conselheiro sorriu com sinceridade em resposta. Sussurrou sua confissão:
– Essa sempre foi a minha aposta. Confia no teu coração.

E as luzes piscam para àqueles que sempre estão com os olhos acesos nas janelas amarelas das cidades. Não importa a carga, ele quer carregar o peso. Essa é a sua única verdade.

Antecessores

Aos novos desafiantes se apresentam geralmente os velhos desafios. Quase todos se deparam com grandes problemáticas, dramas, questionamentos intelectuais, morais, emocionais e, creio que talvez se demorar em uma espécie de meditação nesta mutação de busca por um ponto de equilíbrio seja um grande desafio, entretanto, é provavelmente um daqueles passos gigantes que damos nas caminhas fundamentais.

Erro frases, erro palavras, perco-me do que torna meu texto nexual, sim, às vezes me perco e às vezes perco além da minha própria pessoa. Olho de fora como se fosse mesmo impossível me reconhecer por dentro. Há algo de errado? Não, não existe algo definido e por silogismos não me defino também. Acertei quando tive convicção dos meus equívocos e me peguei falhando quando estava presunçoso sobre o que não podia ser diferente do que eu imaginava. Sempre pode. Quantos antecessores quebraram a cara antes? Quantos tantos almejaram escrever livros e falharam? Quantos tantos almejaram escrever e sucederam? O resultado final importa?

É pelo que sintetiza a paixão e exulta o amor. É a coragem de viver e dar um novo passo, fazer algo realmente único e especial. Se nunca consegui, só nunca consegui até hoje e tenho uma vida como oportunidade.

Os outros realmente influenciam na extensão do meu sentimento?

Não deve ser assim. Temos pessoas que nos empurram e que nos puxam, mas dependendo da sua perspectiva, você pode enxergá-las de maneira invertida. Entregaria tudo por algo? Desistiria de tudo por um sonho? Morreria, antes da hora, acaso precisasse para que os seus ideais alcançassem após a morte algo que nunca alcançariam em vida? Quantos fizeram o mais difícil? Quantos hesitaram e falharam? Quantos hesitaram e venceram a hesitação? Como agiram aqueles tantos que estiveram por aqui antes? Quem é capaz de enxergar suas tantas nuances? Quem um dia vai ser capaz de determinar o seu alcance? Vá e vá longe.

A tremedeira nas mãos e nas pernas não é um sinal de desistência.

Quando me pego trêmulo pela ansiedade dos novos desafios, eu geralmente sorrio. É o que me coloca de volta em mim. Quando o meu coração se acelera e eu fico ofegante, eu sussurro para mim, para que essas batidas, esse tumdum tumdum apenas continue, para que eu possa continuar vivo. Quero viver e ter a consciência de que não tenho apenas sobrevivido. Quero ver o que sonho nas noites pelos dias estar cumprido. E realizar minhas coisas e viver minhas histórias, pois os contos nascem dos nossos corações estrelas. A última ambição do sonhador é uma recompensa que nunca poderá obtê-la?

Ainda assim, eu sonho do meu quarto. Destes meus tantos devaneios que cruzam essas incontáveis madrugadas nunca estou farto. Imagino-me, refaço-me, torno-me mais forte para conquistar meus objetivos. Talvez o mundo todo ainda se demore em olhar para o meu sorriso.

Na contracapa de um livro, numa revista conceitual ou até mesmo na televisão. Se aquele tumdum tumdum continuar, quem sabe onde vou parar, quem sabe o que vai ser do meu coração? Só que ele é forte e pressinto que vou sobreviver. Olho e creio que vejo, pergunto-me, quantos tantos aguentaram antes de você?

Tumdum-tumdum-tumdum. O mundo aguarda minha próxima investida.

Tumdum-tumdum-tumdum. Ainda tarda para a minha despedida.

Tumdum-tumdum-tumdum. Coragem. Abandone tudo o que te prende. É tempo de se arriscar.

Tumdum-tumdum-tumdum.

É a tradução do coração.

Você ainda pode continuar.

Siga em frente até o dia em que falhar.

4h30

Entre os vivos
Eu era o mais morto
Entre os direitos
Eu era o mais torto
Póstumo será o próximo relato
A ficção soa distante,
embora também seja fato
E eu me vejo em lugares distantes
Defronte aos opulentos pórticos
Mera partícula do Universo infinito
E tão real quanto meu sonho
Entre os mortos
Eu era o mais vivo
Entre os decididos
Eu era o mais indeciso
Mas caminhava com a segurança
sutil de quem aprendeu a aprender
Conhecer o mundo e suas pessoas
virou partina da rotina e meu lazer
Talvez cantem canções sobre minh’alma
Talvez os trovões todos
se transmutem em calma
Quando eu passar
Talvez flores desabrochadas voltem
e precisem nascer de novo
Talvez nesta era de trevas
Eu apresente meu jogo
E sem coroas, eu reine
Lado a lado com milhares
de vivos realmente vivos
Para que um dia eu avance
para o lado dos mortos
que realmente não voltarão
Esta meia vida perturbadora
É cheia de nós dos quais a gente se esquece
E numa súplica constrangedora
a gente fecha os olhos e agradece
Mesmo sem saber direito o que é digno de gratidão
E lança outra prece para que a luz diurna
espante os males da escuridão
O Eu Real enfrenta
O Eu ideal
Eu me encontro
Sorrio e choro ou
choro e aí sorrio
Arrepio
Morro se for preciso
mas me vivo
Morro se for preciso
mas canto
Morro se for preciso
mas luto
Escrevo o que sou
Escrevo o que são
E para onde vou
Escrevo com a tinta do coração
E molho a pena ou renovo a tinta
da caneta com o meu próprio sangue
Dedico-me, até ser dominado pela preguiça
Continuo e meus pelos se eriçam
O mais vivo entre os mortos
O mais morto entre os vivos
O meio termo que nunca se equilibra
A faca de um gume só que corta e fere
O sangue derramado e a sombra de perigo
A luz solar e o calor para oferecer ao mundo abrigo
A insensatez do amor verdadeiro
Partícula real, porém desconhecida
Uma canção não inventada
que vale a pena ser cantada
Mesmo nas despedidas
Vou e fico ou
fico mesmo quando vou
A sombra do que sintetizo
Qualquer coisa sutil
como amor
Escrevo e talvez leiam
sobre o mais vivo entre os mortos
E sobre o mais mortos entre os vivos
Escrevo porque as palavras representam o que sou
Escrevo porque é tudo o que eu preciso
Talvez cantem canções sobre…

Quem é o culpado?

Uma sombra gigante paira na sua vida. Você já não sabe dizer se merece o que achava que merecia. Aceita o que considera proporcional, como se existisse uma espécie de quantia exata que se preenche do que se quer precisar. O próximo passo é diminuir de tamanho para caber apertado na vida de pessoas que nem fazem tanta questão da sua presença. Por quê? Você gostava do seu antigo jeito, mas teve que mudar. Sem que percebesse havia se tornado outro. Guardou alguns segredos pesados e acabou envenenando a própria alma. Por quê? Não há química, mas há cuidado. Qual foi a última vez que alguém te notou? Você sente que deve ficar, ainda que parte sua diga para ir. Por quê? Porque a vida era demasiadamente triste quando você caminhava só e qualquer coisa é melhor que coisa nenhuma.

Agora você possui companheiros, mas vai relutar em admitir que alguns deles talvez não te façam tão bem assim. Você é um acumulador de distrações que te impedem de chegar até você mesmo. Está acostumado a se evitar. Você não é religioso e agora se pergunta o que vai acontecer. Ninguém sabe, mas você se convenceu de que não merece muito mais. Você sempre bradou que a escuridão não o amedrontava, mas veja você acocorado aí no canto. Reparou que você é o dono da sombra que te apavora? A improbabilidade te assusta quase tanto quanto a probabilidade. Você sente medo, mas não sabe explicá-lo. Coisas dão errado e a culpa precisa ser de alguém. Quem é o culpado? Você se perde em questões triviais e só deseja a luz do sol, mas outra vez o medo bate na sua porta. O que está acontecendo?

Você acha que as coisas se repetem e se vitimiza ou pelo menos se força numa fragilidade inexistente. Você conscientemente veste o manto mais confortável. Há uma frase na camiseta que diz “Não é minha culpa” e você não se lembra, mas você mesmo a escreveu. É coincidência que certas situações se repitam? Será que elas vão continuar se repetindo até que você aprenda?

Agora você se torna arredio. Não se basta e entra num transe silencioso, tentativa boba de se tornar distante e alheio. É que de tanto receber hostilidade acreditou que tinha o direito de começar a apontar o dedo para os outros. De tanto ser vítima da covardia dos outros, você se tornou um covarde nas suas ações. Conseguiu ver? Você se encontra diante do espelho e nem se reconhece. Agora se lembra com melancolia da sua verdadeira face. Você abraça o torpor e se maquia para se enquadrar nos padrões sociais. Você mudou e talvez tenha regredido. Você se viu sozinho contra o restante do mundo, assim, tudo bem ter sucumbido? Qual momento da jornada foi o marco da sua mudança? Você desistiu das suas lutas? Você se tornou alguém pior? De quem é a culpa?

Liberte-se dos seus medos. Se forçar pequeno é um desserviço ao mundo. Entenda que não há solidariedade na complacência. Nós todos possuímos o potencial para sermos incríveis, então, não tema a sua própria capacidade. Você pode ser o que quiser. A sombra que te engoliu noite passada é quase irrelevante se comparada ao sol que você mesmo representa. Já reparou nas suas qualidades, apenas para variar um pouco? Já se olhou hoje com olhos alheios? Não ligue tanto para o que os outros falam e preste mais atenção no que você pensa e nota. Chega de culpar os outros pelas suas insuficiências. Vença o seu maior medo. Você é feito de luz e pode sozinho iluminar o mundo inteiro. Cuidado com a sua arrogância. A grandeza verdadeira é qualidade dos humildes. Orgulhe-se do que o torna único. Tenha cuidado com quem joga com seus sentimentos e pensamentos. Saiba se desculpar sempre que errar. Abrace, beije, sorria, chore, mas continue firme nos seus propósitos. Viva sua vida! Somos todos diferentes, mas absolutamente adequados. Você pode fazer novos amigos e manter os velhos. Você pode se tornar mais inteligente, mais forte, mais preparado. Tudo é possível. Pare de dizer por aí que você é fraco. Faça o seu melhor. Você pode alcançar todos os seus sonhos. Tenha coragem!

Cigana

Um Pequeno Pirata

May 1952: Dancer Carmen Amaya performs her interpretation of a traditional Spanish gypsy dance. Original Publication: Picture Post – 5853 – Spanish Atom – pub. 1952 (Photo by Roger Wood)

A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça natural

Carlos drummond de andrade

Era a vez da quarta dançarina. Ana seria a sexta. O próximo bailado começaria concomitantemente ao silêncio da plateia, que após o ultimo, fora atingida num arroubo de assobios e palmas. Ao apagar a luz do palco, os assistentes apressavam-se da direita, carregando o cortinado e arranjando o décor pra próxima estrela, enquanto o entusiasmo dos presentes se esfarelava aos cochichos.
Os bastidores escondiam-se atrás da caixa da cena e desembocavam nas laterais do anfiteatro. Lá estavam elas, todas numa tal inocência e graciosidade, que enchiam os olhos de encanto, e ai dum curioso desapaixonado que ali adentrasse. Maquiavam-se e…

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