Um final.

Vaguei como uma sombra
pelas ruas mal iluminadas da cidade
Vesti um casaco preto para saber
ensombrar quem aparecesse
Meu tamanho até assusta,
Quem nota minha forma robusta
geralmente não se mete comigo
Há quem sabe o que busca,
Paga o preço que custa
para se ver longe do perigo
Honestamente eu não ligo
Ainda assim ando arisco
Aos pais e padres não peço bença
Descobri que só se vive pelo risco
e se omitir é apressar a sentença
Outro vulto surge do lado de lá da rua
De cá sei que não se vale de qualquer medo
Queria ser valente como essa gente
que anuncia todos os segredos
Ouço um zumbido estranho e
uma voz perdida no espaço
Minha audição me alerta
e escuto também o barulho dos passos
As luzes piscam e a noite é sem lua
Meus pelos se eriçam, porém
minhas pernas não recuam
A escuridão envolve eu e o desconhecido
A alma distorce a face numa expressão cruel e crua
O corpo se retesa quando se lembra da última mulher nua
Aproximando-se com passos firmes e cautelosos,
quase como a outra pessoa que se movimenta no breu
Todos os meus instintos selvagens e corajosos
enfraquecem diante do brilho novo que nasceu
A lâmina prateada cintila em uma dança
O amor é a morte do dever
e a faca a morte da esperança
Queria pedir para a alma obscura que me poupasse
Que me deixasse viver só mais uma semana
Devaneei como Pessoa e gritei para Wilde
TU ESTAVA ERRADO
A gente nem sempre destrói o que mais ama
Julgo ver um sorriso ou
será só a face do paraíso que me chama?
Ora, rio-me, sentindo-me louco
Tento dizer algo, mas me noto rouco
O outro é apenas um e não uma gangue
Aproxime-se agora, vil vagabundo
Prova o gosto do meu sangue
E ergue os braços, pois no jornal dirão:
aquele lá morreu lutando
E o sal dos meus olhos vai se misturar
com meus outros pingos vermelhos
O assassino provará um gole, cairá
e me verá no reflexo do espelho
Descobrirá depois o que eu já sei
Os fantasmas existem e estão por perto
Tenho certeza que não os imaginei
Estavam comigo nos mais solitários desertos
Os abutres se aproximam para se alimentarem
Venham, venham, aglomerem
Minha carne será o seu delicioso banquete
Quando não restar o que comerem,
tornar-me-ei uma estrela e ascenderei aos céus
na velocidade explosiva de um foguete
Olhem, vejam, é o menino viciado em mar,
Aquele apostador azarado que amava o jogo,
Lembra de quando ele ousou a abraçar
uma estrela cadente e protegeu um demônio do fogo?
Ora, a vida passa velozmente, lá vou eu,
cinzas, madeiras, pó e o que ficou do que ainda sentem
São essas coisas efêmeras que nos eternizam?
Corra, pegue uma caneta permanente,
crave nossa amizade em uma árvore milenar!
Avance os corredores proibidos do shopping e piche
“nós fomos feitos para durar”
Antes que tudo se acabe numa piada
Antes que a lâmina bela manche a madrugada
Quem poderia adivinhar esses tantos fins?
Olhe para frente, para trás, recorda-te agora
do primeiro alimento ardido
Fite meus olhos e me diga sem demora
qual o paradeiro de tantos anos perdidos
Que Deus tenha pena da próxima cena,
Que o Diabo não vexe meu poema
Que meu inimigo oscile e trema
enquanto eu tento sobreviver
Eu sei, Criador vil, este mundo é oscilação
Vomitei mil horas para merecer minha redenção
Olha, estúpido, obrigado por este presente,
jogaste-me neste planeta maravilhoso e decadente
Faço eu a diferença para alguém?
Mais um passo, sombras dançam no escuro
Pisco e me vejo observando a cidade esquecida
meus olhos ágeis e curiosos buscando respostas
Eu nunca sei qual é a próxima saída,
mas sigo fazendo minhas apostas
Veja, Lanterneiro, olha, rapaz,
para o jeans que veste ou para a distância, a queda
Olha como mesmo pequenas e longínquas,
são repletas de brilhos aquelas janelas
Olha bem, menino, teu sonho é o teu destino
Você tem sensibilidade e é capaz de vê-las
Aproxime-se das luzes fracas
Tente reacendê-las
Refulgir talvez seja a única missão
Ergo os braços para a última batalha
Orgulhoso do meu valente coração
Os anjos e os deuses me esqueceram aqui
O diabo e os demônios menores não vieram assistir
Sem público, um tanto melhor,
há quem viva para impressionar os outros
Meu sorriso se torna largo e agora acho
que meu algoz me toma por louco
Vivi muito e o que é real nunca parece pouco
Venha, covarde, você despertou em mim
essa vontade de brigar e morrer
Não recua, agora é tarde,
em algumas horas outro dia vai nascer
Urge em mim a vontade de vencer e
num frenesi avanço primeiro
A impulsividade é a vantagem do carneiro
Rolamos pelo chão agressivamente
Desfiro socos e vejo um de seus dentes voar
Ele me acerta e me percebo a sangrar
A ira me personifica e me vejo tomado pela adrenalina
Meu casaco preto agora deve estar vermelho
No silêncio ouço o grasnar dos corvos
O anúncio é o da minha morte?
Que fortuna, que sorte, eu até vejo a manchete
Homem é morto pouco antes das sete
Onde estavam os policiais e os transeuntes?
Onde estavam os heróis trajados?
Um homem morreu e
ninguém pareceu ter se importado
Um cristal esverdeado surge no céu e sonho
Assombro praias com dunas e areias brancas e canto
Revisito meus milagres e absurdos e me pego aos prantos
Neste desfecho me convenço de que não há santos
As luzes, o pó do universo, a areia de estrelas,
No fim de tudo este era o meu único segredo
A única magia que aprendi a conjurar
eram palavras que moravam nas pontas de meus dedos
Ora, vejam, a gente realmente nasce e morre sozinho?
Cresce, envelhece, erra e se possível acerta,
mas não enverga, ferro, não suaviza, vinho,
Não desvia os olhos, olha para a imensidão,
ousa crer nas ficções quais acredito,
Passe pelos portões em brasas,
abra suas asas e verá o mundo mais bonito
Permita-se descansar, mas nunca se esqueça
A estagnação é o fim antes do fim
Agora limpa as roupas e levante,
Expande-te para as terras distantes,
Recorda-te que eu desejava existir longe
Que toda minha prolixidade sonhava em ser sucinta
Que toda minha alma era feita de tinta
Que o Universo todo surgia da ponta da velha caneta
Que a morte é o caminho seguinte
 e que vai me achar sempre que abrir algumas gavetas
Eu vou antes, sem me esquecer, estou em tudo,
Por favor, saiba ver, não seja tão tonta
Eu falava sem parar e agora jazo mudo,
mas noutro mundo a gente se reencontra.  

Certamente diferente…

Estes são os sentimentos que transcendem o tempo, veja, outrora eu estava ali a todo o momento até que não mais precisasse de mim. Sua frivolidade me entretinha enquanto eu tentava me distrair do seu desamor, sim, eu percebia pela maneira como o clima mudava do quente para o frio quando você chegava e aquela invernia não ornava com o sol que derretia tudo, contraste, era isso o que eu sentia conforme notava a sua tentativa de me antagonizar, você precisava de um bode expiatório, um alvo, alguém que se encaixasse na mira e não repelisse a flecha, assim, sólido e são, eu fui atingido. O sangue pingou no chão e disso nunca me esqueço. Há finais que são apenas começos.

Ora, os dados rolaram e subitamente notei a reviravolta no jogo, olho devagar e reparo na sua obliquidade melancólica na virada para o ano novo. Bem, é preciso se comprometer, prometer e mudar, veja, tudo só muda se você se empenhar e felizmente, apoio-me em mim o bastante para entender que há muito o que não entendo. Fecho os olhos, respiro fundo, espero, aprendo. Por vezes ainda sou tomado por uma ira ancestral, como se o mistério secreto que me compõe urgisse por sair em meu frenesi, porém me revolto para dentro, em silêncio, contendo meu asco, exatamente como uma tartaruga e entro no meu casco, retornando até o momento em que nasci. É engraçado parar e pensar. Outrora quando vim ao mundo eu sabia apenas chorar. Que é mesmo que suponho? Será que a minha vida não passa de um sonho? Há coisas que não aceitam o abandono. Prefiro manter meus hábitos e insistir no ferro e no vinho. Há coisas que só absorvemos quando nos percebemos absolutamente sozinhos. Seus velhos fantasmas até tentaram, mas não me assustaram. Suas provocações me despertaram. Personifiquei-me no menino do coração congelado?

Acordado, enfermo, febril, lúcido, louco, qualquer coisa parecida com o que quase é, você quase me toca quando sobe a maré, chame meu nome, grita, por favor, não some e eu sorrirei, místico, fútil, ancestral, patético, preguiçoso, humano. Confundi gotas d’água com pingos de sangue enquanto me arrastava por um terreno desértico. Onde todos estavam quando não me via? Trinta e nova e meio, quarenta, dia doze, dia sete, aniversário, nove, dois, trinta, um, meu eu especial, fracasso, cansaço, noite de natal. Heróis, vândalos, quem sabe a diferença? O albatroz salvou a minha vida, partiu cedo, sua sentença. Nunca senti tanto orgulho do meu coração, saltei do trapézio, repleto de medo, sem asas e me restou confiar. Alguém precisa me segurar. Cadeira de prata, amizades ingratas, vômito, imperfeição, choro de joelhos, quebrei dois espelhos, catorze anos de azar. O tempo passou e agora é tempo de levantar, então, levanta-te rapaz, você é o que você faz, exija mais, tome da vida o que te pertence, erga a cabeça agora, sem demora, vence. Meu melhor estado é o melancólico, acólito, febril. Meu fardo é sentir um mundo que nunca me sentiu. Faço um desenho feio, grotesco e rio de uma hiena que ri de mim. Sou a mim ridículo, mas não sou pedante. Às vezes me desperdiço, entretanto, sou o mestre das inutilidades e dos instantes.

Ando, desando, avante! Boêmio, vadio, errante. Oscilo, terreno, aéreo, sereno, repleto de mistérios. Não há maneira de não me ser. Tentei de tudo e falhei. Constato, sério, que tenho uma infinidade de motivos para surtar, respiro, mentecapto, viro a chave, mudo tudo de lugar. Sinto orgulho dos meus vexames, sussurro ou calo meus atos grandes, cônscio de que somos todos do mesmo tamanho. Perco-me de mim, perco-me de tudo e na voz eloquente julgo ouvir um grito mudo, qualquer coisa que me transmita algum tipo de esperança. Deus se apresenta e diz que todos podemos luzir, exatamente como as crianças. Percebo-me sorrindo e sigo em frente. A vida parece igual, mas eu certamente estou diferente.

Sozinho no Bar

Não soube o que fazer quando fiquei sozinho na mesa daquele bar. Eu sabia, claro que eu sabia, em alguns instantes meus amigos reapareceriam e encerrariam minha solidão, entretanto, reconheci-me em maus lençóis quando tentei narrar meu desespero. Os meus motivos? Ora, percebe-me pálido diante deste discurso? Há certas coisas que não se explicam e o meu desespero me furtou a voz e a vez. Quando os costumes antigos dão lugar aos novos ou ainda pior, quando não há novos costumes e tudo o que chega é inédito, muito se agita por dentro com a liberdade de tudo o que é imprevisível e vem de fora. Não faço sentido então? Eu estava convicto de que meus amigos voltariam, mas quando um minuto soa como uma hora e o coração se acelera, peguei-me apertando meus dedos e querendo apressar a vida que nunca se apressa.

O que me levava aos picos de ansiedade sendo que todos, sem exceção, sabiam o quanto eu aprendi a ser calmo? Essas inconstâncias, instabilidades, todas essas letras e palavras que soam como impossíveis, inviáveis, bom, eu vejo que elas me ajudaram a ter clareza de que há apenas um acúmulo de dramas em nossas vidas e essas nossas tragédias, veja, sempre tão particulares, agulham nossa pele o tempo todo.

Os amigos ainda não voltaram, o garçom pergunta se aceito mais um chopp e sinalizo que sim com a cabeça. Essas novas rotinas ainda me surpreendem e abaixo a minha máscara cuidadosamente para dar uma golada revigorante. Esse primeiro gole parece o primeiro ou o último gole de toda a minha vida e renovo a respiração no alívio que se sucede. É a solidão que me faz ficar tão tenso?

Não. Ainda me lembro com clareza da solidão. Vinte, trinta ou cinquenta dias sem ver um rosto qual desejava mesmo ver, bom, eu ainda me lembro. Recordo-me de como as representações estéticas tão comuns repentinamente se esvaíram e os símbolos trazidos pelas imagens passaram a existir como fantasmas dos próprios símbolos, sem imagens. A distância do amor, a distância da amizade, tudo isso dói, assim, convencia-me de que tinha que seguir em frente, mesmo ferido.

Lembro-me de que a presença do silêncio era tão aterrorizante, que eu sentia, mesmo sem estar enlouquecendo, que eu podia tocá-lo. A chuva era mais molhada, os trovões eram urros raivosos e cada tempestade soava como o fim do mundo. Eu dirigia na chuva ou tomava a chuva na própria pele e sentia cada gota me flechando, uma a uma. Essas resoluções úmidas são estranhas, veja, é que a gente envelhece todo dia, claro e, embora por dentro não se sinta, quem está de fora sempre repara. O que os anos fizeram com a gente?

Nada. Os anos, na verdade, nunca fazem nada com a gente e a percepção do que fazemos com os anos é muitas vezes sombria. Ainda assim, vale a pena, certo? Escrever e tentar, continuar escrevendo, carregando no peito puerilidades incontáveis e a esperança quase desesperançada de que algumas coisas valem a pena e de que escrever sobre o amor pode mudar o mundo.

Rio de minhas ideias, pois a experiência transforma muitas vezes a esperança em bom humor. Ainda assim, rindo da própria piada que faço de mim, secretamente creio nela. Os amigos agora retornam e estão sorridentes e parecem cheios de novidades para contar. Este meu pequeno devaneio tive quando fiquei de escanteio, procurando a solução para o mistério da vida na mesa de um bar.

Eterno Contador das Horas

Eterno contador das horas
Descobri em qual Tempo te encontrar
O céu plúmbeo anuncia o que sente agora
Você apenas deseja se afastar
Até que possa se recuperar de si mesma
Quanta ingenuidade no seu afago
Cicatrizes abertas mostram o estrago
Seu corpo é um eco da destruição
Abertamente anunciam pela cidade
Fugiu na madrugada sua sanidade
O boato lhe traz humilhação
Você…
Você não superou
Encaro seu semblante, sério
Infante, reajo ao vitupério
Você não parece se importar
Os olhos marejados desfazem o mistério
Está viva e perdida em um cemitério
Vítima de um escandaloso adultério
Não sabe ainda como recomeçar
A noite quase se encerrando, sem lua,
Você se recorda enquanto olha para a rua
Tão vazia quanto a sua própria emoção
Diz que não sente nada, mas lágrimas escorrem
Denunciam sua mais secreta emoção
Você adormece, mas nem em sonho se esquece
Acorda em um sorumbático arrepio
Ajeita os cobertores e se aquece, porém,
Tudo ainda soa absurdamente frio
As pequenas conversas que lhe salvavam
subitamente emudeceram
Os carinhos que raríssimas mãos lhe destinaram
agora de ti esqueceram
Os dedos que um dia te amaram
afagam outros cabelos
Teu vexame frívolo é mais gelado que tua presença
Neste mundo onde vive para se disfarçar
Teu castigo é a solidão desta sentença
Nunca mais podendo se revelar
Estrela opaca morta pela saudade do brilho
Trem de carga, sem vagões, fora dos trilhos
Diga-me agora para onde foram os anos perdidos
Sonhe pela madrugada gélida e sem fim
Segure na borda do mundo com as unhas
e durma em paz, vaga-lume quebrado
Ergue-te, mulher arrelienta
A noite acabou
A manhã seguinte começa e termina cinzenta
para quem se perde na desmedida do amor
Sua parte obscura a torna violenta
Externa-se, enfim, toda a sua dor
Repentinamente epifania
Desmistifica-se o que não compreendia
O que machucava antes agora a incentiva
O sofrimento também é um sinal
de que ainda está viva
Então sobreviva, viva e sorria
Quem sabe quantas surpresas
há em um novo dia?

Metade do Caminho

            Se eu correr de trás para frente, será que eventualmente esbarraria na sua antiga versão na metade do caminho?

            Você era atenciosa, antes de se tornar mais atenciosa, mas parecia preocupada, sempre preocupada com alguma coisa que eu não sabia dizer. Era impossível te antever naquela época. Eu vim de outro lugar, de outro endereço, mas o céu era o mesmo e o tempo também. Percebe como precisamos dos acasos? Ainda assim é estranho saber que sequer teríamos trocado correspondências, acaso meus olhos escuros não a tivessem visto. Se um detalhe fosse diferente, você nunca teria entrado na minha vida e então quem eu seria hoje?

            É que eu costumava ser mais assim, voraz, ágil, expansivo e costumava parecer tão interessante para quem era de fora quanto me parecia desinteressante, por dentro, para mim. Os outros cultivavam um interesse sombrio em mim, uma admiração perplexa, algo sem nexo e eu inflava e crescia e tomava conta do que era meu. Por dentro eu continuava o mesmo, por vezes oco, por vezes seco e outras vezes era colorido o suficiente para tornar o mundo inteiro mais bonito, mas tudo isso era trancafiado para dentro, como se eu mesmo fosse um cofre, isolando essas particularidades, pois ninguém tinha o direito de saber sobre as coisas lindas que outrora havia guardado apenas para mim. As chaves para os meus paraísos e infernos eram minhas e por mais que me recusasse a ser outro, não permitia que os outros vissem tanto de mim. Não se confunda, eu nunca era superficial, não, eu apenas não era inteiro. Essas coisas internas, internalizadas por acaso, consolidam-se em nós, duras como o ferro, até que a gente possa mudar pelas próprias forças ou optar por não mudar. Fechamo-nos tantas vezes, pois a vida ensina que se nos abrirmos, seremos vítimas de um sofrimento terrível. Se uma porção do sofrimento que passei fosse removida de mim, eu não teria os olhos bons para coisas frágeis e quebradas, bons o bastante para reconhecer quem se parecia comigo, assim, creio que você nunca teria pisado na minha calçada e então quem eu seria hoje?

            É que antes eu andava por aí convencido de mim, berrando aos quatro cantos sobre quem eu era e tinha orgulho de ser, apesar das imperfeições, partes feias e equívocos. Deitava sozinho no quintal de casa e olhava para a lua, conjecturando em minha cabeça sobre caminhos, escolhas e sobre tudo o que ainda era desconhecido. Quantos milhares não olhavam para a mesma lua que eu? E a infância havia sido repleta de amigos, mesmo intercalada com inúmeros momentos de solidão nos quais eu observava insetos e ouvia os barulhos que o mundo fazia enquanto tentava entender o meu papel ali. Quantos milhares não procuravam os rostos de suas respectivas almas? Eu sentia como se o Universo inteiro me fosse familiar e como se eu fosse gigante e salgado, exatamente como o oceano, o que justificava o meu sal toda vez que eu chorava. A lua, imponente, por vezes se escondia demonstrando timidez ou era coberta por nuvens que passavam por ali. Não, as nuvens não sentem inveja da lua ou das estrelas, elas apenas precisam passar, como por vezes precisam chover e eu me chovia, lunático, estrelado, distante e satisfeito, refulgindo na escuridão da madrugada, imaginando que a lua, convicta de sua beleza, ria da minha mais pura admiração.

           Quantos não saíram para espiá-la nos céus e não encontraram nada? Eu me perguntava, solitário, sombrio, fechado em mim, se existia alguém capaz de mudar o meu destino. Ficava ali, triste, meu coração melancólico absorvendo as emoções do mundo todo. Se chorei nessas noites, eu peço perdão, chorava sem saber meus porquês, mas hoje vejo que antecipava toda a felicidade e a tristeza que eu ainda sentiria no futuro. Fazia perguntas para Deus, que me deixava no silêncio contemplativo de mim, eu mesmo estirado no chão como um tapete colocado para doação, sem serventia. Via-me avulso, pesado, saboreando a minha solidão e me perguntando no que eu seria bom e se as companhias futuras seriam melhores, até o momento qual a minha cachorrinha invadia a minha privacidade com muitas lambidas e eu me esquecia de ser profundo, prolixo, protelador, rindo da simplicidade maravilhosa do afeto de um animal. A vida vai estranha, mas nos focamos sempre no que aconteceu diferente do que queríamos, nas partes distintas e, esquecemo-nos de que compartilhamos terrenos comuns e de que outros, muito antes de nós, trilharam caminhos semelhantes.

            Você que me olha nos olhos, sabe me dizer se enfrentou ou evitou os perigos? Diga-me agora, milady, senhora, para onde foram todos os anos perdidos?

            É que estamos envelhecendo em uma velocidade assustadora, abrupta e o coração que acelera no peito é o mesmo daqueles tempos que antecederam o primeiro beijo na adolescência e o que é súbito ou pior, abrupto, indica que as palavras podem assustar tanto quanto as ações. E as minhas mãos suavam e não sabia sequer dizer uma palavra, até que aprendi muitas, até que erroneamente fui acusado de ter a consciência de sempre saber o que dizer e adivinhar pensamentos. A verdade é que eu nunca adivinhei nada, nem bênçãos, nem desgraças e era fechado, apenas por não saber como me abrir. Costumavam me perguntar se o gato havia comido a minha língua, até que disseram que a minha prolixidade objetiva era encantadora, ainda que no meu ponto de vista o prolixo seja incapaz de ser objetivo. As minhas mãos ainda suam, mas a minha língua-espada hoje me defende e me regozija, por todas as suas capacidades. Vê o quanto passamos para chegar até aqui? E os nossos tremores nunca pararam e nem creio que pararão, pois há aquela velha ansiedade pela vida que temos pela frente, vida de riscos e perigos, de tristezas e sorrisos, vida para viver. É que nós humanos somos uma coisa original, quase vulgar, seres repletos de instintos maus e nobres e, escondemos nossas vilezas horrendas por acharmos que o mundo nunca nos entenderia. Será que um dia alguém entenderá? Será que existe alguém que nunca se disfarçou?

            Toda vez que eu chegava em um lugar, eu sentia como se estivesse na antiga Sala Grande, um velho cômodo da casa de infância, quase absolutamente inútil até a semana passada quando diversos amigos jogaram Beerpong e me pego pensando na importância das cervejas e dos amigos e dos espaços vazios. Eu me perguntava se a sala era mesmo grande ou eu e meus irmãos éramos demasiados pequenos e se os espaços não preenchidos parecem maiores do que realmente são. Tudo me estranhava quando eu não era estranho para tudo. Eu me pegava febril, quente, refletindo, ansioso e acuado, cheio de medos. Revolvia para dentro, angustiado por não poder brilhar para o mundo. Mesmo quando o trem descarrilava, eu sorria, ainda que triste. Há nessa vida quem só ame ferrovias, você sabia? Mesmo quando tudo parecia desconexo, eu insistia. Há quem nessa vida sempre insista, você imagina? Tive excelentes ideias, mas nenhuma delas bastava. Por vezes me via igual ao menino que tinha uma estrela no lugar do coração, entretanto, meus batimentos cardíacos se aceleravam e me revelavam tão comum quanto qualquer outro. A única diferença é que eu insistia em ser quem eu era, nunca emprestando sequer um traço das personalidades alheias, assim, por vezes, de tanto ser peixe fora d’água, quase morri asfixiado longe do oceano.

            Nunca soei a mim bom o bastante, embora sempre tenha me gostado, fora da casinha ou da caixa, um esquisito, uma peça solta de um quebra-cabeças que ninguém jamais soube montar, eu mesmo o mais distante disso. E meus afagos e afetos, bem como minhas obtusidades, cresceram e mudaram de rumo até que eu abraçasse algo para a minha vida e chamasse de destino. É que a gente não pode ignorar os casacos e as baratas douradas e todo o resto que nos trouxe até aqui. Não podemos fingir que ontem, por pouco, quase não fomos nós mesmos em nada e alimentamos um monstro viciado em absorver escuridões e temores. Ontem um olhar atravessado seguido de um gesto extravagante foram capazes de nos estremecer. Dormi mal, tiritando de frio, por não sentir o seu calor. Não entendi muito do que deveria e o que entendi não era o que me parecia. Nossas embarcações estremeceram, nós oscilamos e ficamos à deriva no mar. Você sentiu também, não foi? Quando subimos de volta, estávamos em canoas separadas, barcos frágeis e, isso tudo nos leva a perguntar o que estamos perseguindo quando mergulhamos em partes rasas ou procurando defeitos com lupas. Quando dois mundos se encontram, há inevitavelmente catástrofes e eucatástrofes notáveis.

            Se acalme agora, não é sobre certo ou errado, não é sobre eu e você, temos melhorado, você percebe? E não somos mais tão teimosos, obtusos, não batemos cabeça tanto por bobeira, não estamos distribuindo socos nas pontas das facas e esperando não sangrar, como costumávamos fazer lá atrás. E o nosso carinho cresce, um pelo outro, bem como cresce o amor, aquele verdadeiro, aquele que anos antes, pensávamos que seríamos incapazes de sentir outra vez. E me esqueço do mundo no chão da sala, com o giro do ventilador, assistindo qualquer coisa quase interessante que nos distraia, mas que sirva como pretexto para que estejamos nos braços um do outro mais uma vez. Somos divertidos e chatos, sucintos e prolixos, obscenos e sagrados, simétricos na assimetria. Eu estou remando até você, você vê? Até que possamos estar novamente em um barco só.

            É estranho que a Sala Grande tenha levado quase três décadas para receber alegria e, eu mesmo, tão nostálgico e melancólico por natureza, acreditei, apesar de tantos pesares, que não merecia ser feliz. Quando me olharam como se eu não me fosse, enraiveci-me, pois, as minhas roupas só cabiam em mim, assim, chorei abertamente e em segredo, pela confusão que fizeram de mim. Nem tudo é o que parece e o que me pareceu foi assustador, bem como os outros sustos que te fiz tomar e de alguma forma, as bruxas que celebraram o dilúvio na semana anterior nos amaldiçoaram na semana seguinte e você sabe, tão bem quanto eu, que todos esses mitos e ficções são reais.

            Caímos e nos levantamos. O respeito não pode acabar, assim, tentamos de novo e de novo e outra vez, enquanto houver amor. Fomos atacados pelas bruxas, pelos fantasmas, assombrados por figuras que se pareciam conosco e não eram, porque nunca poderiam ser. Somos melhores. Somos maiores que essas lendas. Quem não aprendeu a perdoar só aprendeu coisas pequenas. Se eu correr de trás para frente, eu te encontrarei na metade do caminho? Diga que me ama, bem como eu tenho te amado, desde antes do nosso nascimento aqui neste planeta. Diga que quer permanecer mais cinco minutos ao meu lado, apenas porque a minha presença te traz segurança. Diga que vai ter paciência e que vai me ensinar todos os tipos de dança, ainda que eu não saiba dançar. Sacuda o meu corpo e me desperte para que possamos contemplar o nascimento do sol. Aconchegue-se na sala enquanto assistimos outro jogo de futebol.

            Se eu correr de trás para frente, será que o meu eu do passado se orgulharia do meu eu do presente? Perdido nas cronologias que faço em imaginação, utilizando-me de um número surreal de silogismos para sustentar minhas poucas convicções, percebo-me olhando para o lugar qual estou pela primeira vez e sorrio. A vida é bela, vale a pena e todos os percalços que nos trouxeram aqui nos fizeram quem somos. Sinto que devo ser grato por tudo, pelos erros, pelos acertos, por quem acertou e errou comigo também. Envelheço a cada dia que passa e a vida ganha cada vez mais graça enquanto você anda ao meu lado. Se isso soa tão certo, é impossível estar errado.

           Se eu correr para você hoje, antes que a noite vire dia, você me receberá com aquele seu sorriso que me traz tanta alegria?

Crônica de Três Domingos


Sento para organizar as ideias pela primeira vez nos últimos três domingos, mesmo que hoje seja terça-feira. Penso nas tantas despedidas que ocorreram durante a vida e sorrio, satisfeito e melancólico, por saber que mais adiante serei feliz. Hoje não consigo.

O fluxo da vida inclui apresentações e despedidas e, embora conhecer alguém envolva inevitavelmente um terreno incerto, há algo de maravilhoso e mágico que surge em mim toda vez que algo assim acontece. As despedidas são dolorosas e as marcas das pessoas que chegam e vão permanecem pelos anos seguintes como registros do que vivemos, expostos em nossos semblantes.

Por vezes nos esqueceremos, claro, nem todo mundo é marcante e tampouco a memória é perfeita. Outras vezes ficarão retidas em nossa recordação os perfumes, os jeitos, os lumes, os cabelos e contaremos aos outros algo simples como se fosse uma história inacreditável. Um ponto de semelhança basta para que possamos sorrir juntos e nesse ponto tudo muda e se transforma.

As coisas bonitas, eu ouvi dizer, elas deixam um vazio imenso quando se findam, bem como a brisa gélida que refresca o meu corpo no instante que o trespassa, apenas para que eu murmure em seguida sobre como odeio dias quentes. É irônico, pois não existe alguém tão solar quanto eu. As coisas bonitas, eu pensei recolhido em minha própria solidão, são como vaga-lumes que surgem em uma noite morna e nos fazem acreditar que há valor no brilho, pois mesmo um ponto pequeno e cintilante pode romper a escuridão.

Milhares de cenários povoam meus pensamentos. Reflito que buscamos o que buscamos e isso é o que nos torna incríveis. Ninguém de fora pode saciar as nossas vontades internas e independentes, ainda que seja mais divertido e confortável caminhar lado a lado com quem se acostumou a nos conhecer bem. Geralmente não nos sabemos. Quem de fora nos saberá?

O que se ganha, você aprende, também se perde e nesta vida não há garantias. O sentido é discreto ou até mesmo invisível e por vezes tudo soa vago, como se fôssemos vítimas da inevitabilidade da vida. Suas certezas desmoronam e com os olhos cheios d’água, você vê que amizades destinadas a durarem esmorecem; amores eternos murcham; histórias de dificuldade revelam heróis improváveis e valorosos. As quedas feias nos definem. Tornamo-nos mais vis ou belos ao nos reerguermos.

Nem toda ilusão é estéril, você aprende, é necessário estimular um pouco da imaginação para sobreviver com qualidade de vida. Você geralmente se esquecerá de valorizar tudo o que lhe importa, até que tenha passado.

Nesta tarde, porém, eu me peguei alternando olhares entre halteres e nuvens, perdido entre cuidar do meu corpo e viajar pelos céus. Pensei nos mortos, que já partiram, mas permaneceram nos recônditos secretos de mim. No meu coração há uma lareira diante da qual se reúnem, riem e conversam, transbordando ternura. Pensei nos vivos e no sofrimento de viver, quando os corpos se deterioram, os desejos murcham e a memória falha. Vencer é entortar aos murros a ponta da faca?

Permita-se retornar ao que te feriu e ao que te fez feliz. Se aprender a voltar, certamente saberá como prosseguir. A influência de outras pessoas é capaz de nos mudar, mas é preciso tomar cuidar para não desejar ser outro. O que somos na essência é o que revigora a alma. Estremeço por inteiro e me percebo com os pelos eriçados quando ao longe ouço ecoar no meu peito uma velha canção. Envelheço e me percebo estático. Ainda ontem era primavera no meu coração.

Tenho muito o que aprender e me lembro de quem costumava ser. Fui tantos que hoje já não me sei. Amo as versões antigas, mas sou o meu Eu adequado para este momento. Ajo com velocidade, mas a solução vem de dentro. Tento organizar as ideias e falho. Sinto-me perdido, mas nunca distanciado do amor. Estava entristecido até o momento em que ganhei uma flor.

Um dia atingirei todos os meus sonhos e refulgirei entre as estrelas. Hoje ainda não consigo. Melhor descansar neste final de terça-feira com cara de domingo.

Rotação

Acordo e busco na geladeira
algo para saciar a fome
Ouço uma risada zombeteira
Esse vazio ainda não tem nome
Que ilusão se alimenta por acreditar
que pode se saciar subitamente nas madrugadas?
A vida é ou muito simples ou muito complicada
Tenho dificuldades de compreender as caretas
que são expressivas e claras na representação de si mesmas
O que poderia ser mais claro do que a pureza?
As dores no trapézio voltaram e eu me preocupo
por não ser um habilidoso trapezista
A minha nuca quase travou de dor
Hoje sinto um pavor absurdo de hospitais
pressentindo que um dia de lá não mais voltarei
Às vezes vejo gente que soa como se desejasse outra vida
Eu não consigo existir tão longe assim da minha
Rotação
É que quando tudo dorme
Eu acordo ouvindo gritos e sirenes
Esperando que a minha dor se transforme
Que meus vazios se tornem silentes
Eu tenho olhado para as coisas e visto
a sutileza vil de quem se disfarça
Um toque desnecessário a mais na perna
Uma imaginação mais longilínea e distante
Um gesto despretensioso cheio de pretensão 
Uma qualquer coisa aqui que não se pareça com isso
Sonhei que nós fazíamos sexo naquele banheiro
Confessou com uma espontaneidade ingênua, risonha,
Passei a língua nos dentes e fitei a cena
Tudo muda incrivelmente rápido
Apenas eu não consigo sair de minha
Rotação
Outros teriam prêmios que eu nunca terei
Quiçá eu pudesse me fragmentar de acordo
com quem faz parte dos meus dias?
Às vezes vejo gente que soa como se desejasse outra vida
Eu não consigo existir tão longe assim da minha
Rotação
E as coisas modernas e degradantes
Eu as detesto e as afasto
Sou um pequeno perdido entre gigantes,
entretanto, por vezes me basto
E sigo um caminho singular
Único
Ninguém imita minhas marcas no asfalto
Há quem me considere teimoso ou estúpido
Percebi, porém, que eu mesmo não me falto
Por tentar me aproximar e criar e crer em magias
Por ir além para tentar
Gargalho quando tentam me dissuadir
de coisas triviais e supostamente insignificantes
Vocifero quando me tratam como se eu fosse um inseto
Mostro os dentes quando me traduzem pedante
Desanimo quando me confundem
Eu tenho tentado ser claro durante a minha vida toda
E tenho falhado
Eu tenho tentado acertar e
meus dardos nunca acertam os alvos
Talvez essas coisas confusas nos doam
e nos estremeçam
Uma dor aguda na ponta do peito
Uma forte pressão na cabeça,
Talvez eu devesse fazer diferente,
mas insisto no meu jeito
Luto para melhorar, mas convivo com os fracassos
Faço o que posso, mas não sou feito de aço
As ilusões não são saudáveis, mas algumas
nos ajudam a permanecermos vivos
Alguns defeitos são o alicerce de nossa estrutura
e até deles precisamos para sorrirmos
Em uma festa comum, eu sou o mais incomum
E os assuntos verdadeiros e artificiais
Plásticos e gentis e desestimulantes,
como frutas falsas no centro da sala
Fazem-me pensar em coisas que não sei
Isso tudo dói e sufoca
E os gestos súbitos a mais
entram para uma inconsciência consciente
Absorvo tudo o que vejo e observo
Quando os sentidos se esvaem
Eu me fecho e me preservo
É uma resposta automática, defesa robótica
para o meu eu exageradamente humano
É que lido com esse terror
desde os meus primeiros anos
Passava noites em claro olhando vultos
Os brinquedos nas estantes eram sombrios
Ganhavam vidas e suas formas se assomavam
Uma sombra engolindo a outra
E virando coisa alheia qualquer
O vazio sempre brincou comigo
Provocação barata e sedutora
Algum dia você irá cair
Talvez faça um gesto a mais
Talvez aceite mais dos outros em você
do que você está acostumado a deixar
Talvez um dia deseje ser outro e viver outra vida
como frequentemente sente que os outros desejam
Tantos deles querem existir longe da própria
Rotação
Eu, rodo e me rodo, giro, sem cair no chão
Giro como um girassol, amarelo,
E personifico um violento furacão
Ainda assim insisto na minha própria versão
Quando tudo o que é alheio se sobrepõe ao que é meu
recordo do apanhador no campo do centeio
E da vida triste que ele viveu
Alinhar os desejos não é perder os próprios
Sonhar é viver
Agir é se perder em vida
Reinei tudo nos sonhos
Todas as vidas foram minhas
Cumpri com todas as minhas vontades
Atingi todas as minhas metas
Do jeito mais torto eu me tornei
um fruto do poema em linha reta
Aos poucos todos se enraiveciam com meus gestos,
mas não eram os gestos que haviam mudado
Dialoguei tanto com Deus que nos tornamos amigos
Recebi o seu emprego por uma semana
com a condição que estabeleci de continuar na minha
Rotação
Deus riu alto de mim, mas não tirou satisfação
A confiança é um prato que se come frio
Você verá o rosto da tua alma quando
conhecer a profundidade do seu vazio
Um toque a mais na perna
pode parecer mais sutil que um olhar
A frieza é algo que nos consterna
Há coisas que tardamos para mudar  
Tive medo de mim quando o escuro me atingiu
Tive medo de tudo quando seu sorriso sumiu
E o jeito com que me olhava todos os dias
mudou severamente
Por um instante de segundo
Tive medo do quem estava em minha frente
Às vezes me flagro vil
em imaginação
Neste mundo pueril, entretanto,
tenho sentido orgulho do meu coração
E tenho me antecipado quase sempre
E não atolado quase nunca
E pagado minhas contas
E não sentido tantas tonturas
Em mim eu vejo quem sou e vejo os outros rostos
vivazes ou mordazes,
Em mim eu vejo os outros e sinto
devagar a dor que eles também sentiram
Farto-me dos camaleões e me pergunto quantos
não seriam mais adaptáveis com a oportunidade ideal
Cuspo no chão para espantar o azar
Choro ao ver um relâmpago clarear o céu
Um dia brilharei fulminante e desaparecerei
Distinto e distante em mim
com a nobreza de um verdadeiro rei
Sem escapatórias e ébrio, oscilante,
Preso em parafuso na minha própria
Rotação
Tenho sentido muito medo
Quase tudo eriça meus pelos
Por muitas vezes eu sinto que me ofusco
para não atingir outra
Rotação
E bebo meus cafés como se significassem
desejando beber outros cafés
E esses gestos pequenos e significativos
Por noites e dias, de quando em quando, serão esquecidos
A gata preta dorme próxima dos meus dedos
e é pela ponta deles que se contam os segredos
E é pela insistência deles que se enfrentam os medos
E é pelos impulsos afetivos ou reativos
que mostramos nossa coragem
Muito é esquecido e muito é lembrado
Nada é definitivo
até ser definitivamente encerrado
Tenho sentido falta de ser um fracasso ambulante
Irresponsável, sem contas, sem pampas, sem tantas ou tantos,
Frequentador de botecos e escritor de qualquer coisa
Na minha antiga memória esquecida
Eu era irrelevante ao mundo, mas existia na minha
Rotação
E quando eu saía sempre alguém dizia
“Você faz falta”
E quando eu me ausentava alguém gritava
“Que silêncio nessa casa”
E quando em brigava, furioso, alguém sussurrava
“Esse aí é bem bravo”
E eu sorria sabendo que tudo era verdade
naquela minha ancestral
Rotação
Os gestos simples significam muito
Não queremos que nos peçam o que não devem
Queremos que nos entregam o que não querem entregar
Há um misticismo em colocar as peças no lugar
E os quebra-cabeças, difíceis, complexos, longos,
Ainda me deixam anuviado e completamente zonzo
Tenho vivido mais aventuras que Dom Quixote,
Tenho tratado queimaduras profundas como simples cortes
Quando me enxergam erguido
geralmente se encolhem
Ainda assim quase implodi quando ouvi
alguém depreciar outrem por conta de simples poemas
Subitamente uma vontade de desistir
se assomou aos meus tantos problemas
Que males a língua viperina traz
e nos entrega?
Viver é sobreviver na selva?
Revolvi-me para dentro de mim
Mergulhei mais fundo
O oceano é cheio de mistérios e eu também
Querer ser o que sou vai me levar além?
A água ficava mais gelada e eu
não aceitava o desânimo
Mergulhei mais fundo e percebi que morreria
sem ar
Melancolia é sentir que estar certo
é existir fora de lugar
Sinto-me desprezado e isso dói,
mas é melhor do que me sentir e me saber desprezível
Tudo é encarado como uma obrigação séria
Já não sei se me sei
Estar atento é rasgar minhas entranhas
Será que necessito mesmo dessa atenção total?
Revolvido em mim, eu abri os olhos
No lusco-fusco da existência
Vi meu corpo boiar pela correnteza
de um rio dourado
Contemplei corpos afogados
Tudo soa vago como se a vida não fosse assim
Ainda lembro dos tempos em que tinha
todos os sonhos do mundo em mim
Como ir adiante sem fraquejar?
Como ser constante se só posso me falhar?
Vivi sempre no preto e no branco
Desinteressado ou em encanto
Hoje me percebo completamente cinza
quando faces conhecidas me olham com náusea
Eu as carbonizo
E me visto de cinza dançando em destruição
O caos não é meu maior inimigo
Eu sou este algoz de minhas próprias capacidades
Sinto que falta o ímpeto
para o livro que me tornará celebridade
Falta ainda a chance para os meus romances,
mas tenho me anulado de todas as formas possíveis
Por vezes sei que tenho tempo de sobra
e sempre o desperdiço
Amaldiçoo-me, por não conseguir sair
de minhas próprias rotações
Sou o mesmo em cada uma das estações
E bebo café preto e sem açúcar
para me encontrar, enfim,
Quem sabe, amargo, desperto,
eu não saiba a resposta para um fim
E nos escritórios alheios os amantes
se deliciam com os corpos e prazeres carnais
Queremos acreditar nessas tantas diferenças,
mas a maioria destes tolos são iguais
E me inundo no desgosto da ingratidão
Dos maus amigos, das más pessoas, dos viciados em cenas,
Quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas,
Entretanto, o orgulho, deve existir e te manter de pé,
Como o rabo de um gato que continua balançando,
mesmo quando ele já está dormindo
É preciso se defender quando há tantos murros vindo,
As pedras desmoronam e quase me cobrem
Sei que estou vivo, mas este dia tem gosto de morte
Suspiro cansado, errado, imaginando quantos erros cometi hoje
E continuo na minha própria
Rotação
Interplanetário avanço,
Conto os planetas e estrelas na minha
Rotação
Distraio-me tentando entretê-las
Nunca me canso
Ainda bem que sigo meu coração
Levanto-me,
Deito-me,
Aperta o meu peito essa
Rotação
No espaço vejo a constelação de leão
Um velho blues que anuncia
Rotas antigas de separação
Destas pessoas de agora
Nunca vou me separar
Exceto quando chegar a hora
da morte nos levar
Choro até tarde e meus olhos ardem
tenho tantas coisas boas na vida
Odeio quando me confundem
Espero não odiar a minha partida
Escrevo romances para não morrer antes
E entre cozinheiros e ratos,
Entre poetas, reis e magos,
Há o melhor do que já existiu um dia em mim,
Penso em mapas antigos e crio criaturas,
Talvez em outro mundo eu escreva em eternidades
este amor que sinto e nunca acaba
Essas apostas que faço
Tornam-me gélido como o aço,
mas por você eu sei que insisto
Que nada nos dilacere e nos pare e que sempre
a gente se veja
Cada um na sua própria
Rotação
Girando suficientemente juntos
para sentirmos os ritmos de outro coração
Fazendo com que exista sentido
em uma canção sem som
Distraio-me quando o sono se aproxima
Perco-me de mais de meia dúzia de rimas,
Ainda assim fico com os punhos erguidos,
Estou completamente pronto para me defender
Rabo de gato distraído, eu às vezes me sinto perdido,
mas rezo para um dia vencer
Todos me abandonaram por alguns dias inteiros
e no futuro de longe no passado me vejo
Alheio numa casa grande repleta de solidão
Tudo bem, homem, erros são cometidos
Vão empedernir no teu valente peito
Continue na tua rotação,
Sinta orgulho do seu coração,
Ainda que nunca possa ser perfeito
Tenho sentido que os outros
não podem mais suportar serem quem são
Eu continuo devagar, perdido,
encontrado e esquecido na minha
Rotação.

Idas e Vindas

Nas idas e vindas das tantas jornadas
Escutava teu sorriso romper a neblina espessa
As rodas do carro amassavam o asfalto
ou pelo menos é o que eu imaginava
Temendo nunca mais te ver,
eu me tornava o melhor dos motoristas
E vivia por reflexo de querer viver
Ninguém sabe de quantos acidentes fugi
Quando vencia a tempestade, a neblina e até a noite,
eu me sentia como um deus sem nome e esquecido
Os demônios assustadores eram apenas caminhões
e me apavorava a hipótese de ser esmagado como uma lata
Não gostaria de desaparecer junto com os faróis
Vencer a estrada era vencer a vida e assim
eu respirava o ar fresco das pequenas vitórias
Meus fantasmas me aplaudiam como se sobreviver importasse
E eu me alegrava pelo estrondoso som da celebração
Até chegar no meu apartamento silencioso
O silêncio possui diversas naturezas distintas
e de vez em quando é tão profundo que abriga outros silêncios
Os meus geralmente tinham três partes ou mais
Àquela época, eu me encontrava apenas comigo
e toda noite era potencialmente infinita
Soltava o meu corpo no sofá e fitava a TV desligada
Suspirava profundamente e me sentia vago
Quando cessaria a busca pelo rosto de minha alma?
Piscava os meus olhos e estava outra vez
vivendo a minha rotina de trabalho
O dinheiro faz falta, isso todos sabem,
mas sinto mesmo saudade é dos curtos intervalos
Sentava no banco desconfortável da lanchonete
que havia naquele velho posto de gasolina
e a minha bunda magra doía
Os marimbondos moribundos e mentecaptos
 tentavam insistentemente beber meu energético  
Apostavam suas vidas por um gole
E eu sorria da ousadia deles
Quem não desejaria a coragem de arriscar tudo?
Rabiscava versos, frases e palavras soltas
na minha caderneta preta e esperava mudanças
Àquela época sequer imaginava
quão maravilhoso seriam meus anos futuros
Amaldiçoe o capitão que nos amarrou ao navio
Ele esperava que afundássemos perto do fim do mundo,
mas nós conseguimos voltar
Nas idas e vindas das tantas jornadas
Pude me lembrar do esgar de ódio
e da expressão dolorosa da indiferença
A tua feiura me obrigava a ser feio
E bebi o meu sal enquanto lamentava
a monstruosidade que você havia se tornado
Muita gente morre sem sequer ter morrido
Já sentiu como se estivesse preso em um ciclo?
Soltei o ar após prender a minha respiração
Parece que durou uma eternidade, mas
enfim pude me sentir completamente livre
Nas idas e voltas das tantas jornadas
Tanta coisa acontecia que eu mal sabia dizer
Crescemos com a dor e com a felicidade
Quando não queremos ser alguém além de quem somos
Vencemos
Quando queremos ser quem somos e ansiamos por melhorar
Vencemos
Há dias em que só me vejo derrotado
E abro três garrafas pequenas de cerveja escura
O preto sempre me vestiu bem
Caminho pelas ruas desérticas com a companhia
de minha sombra veloz
Quando não a vejo, aceito não vê-la, assim,
prossigo projetando-me para frente,
por não saber andar no sentido contrário,
O que o futuro traz nos assombra de uma maneira diferente
O meu primeiro gato foi o último
Os meus bons tratos me trouxeram infortúnios
E toda expectativa de novo começo soava como um fim
Tantas vezes fiz de mim coisas que nem sabia, entretanto,
reencontrava-me nas contemplações junto da BR-163
Nas idas e vindas das tantas jornadas
não ousei tanto quanto os marimbondos,
mas fui tão fundo quanto eu podia no momento que podia
Arrisquei, perdi, venci, mas não abaixei a cabeça
Meus olhos raivosos e astutos incineravam o mundo
Queimavam tudo até o momento em que eu pudesse amar outra vez
Ninguém neste planeta amou tão bem quanto eu
Começa com um olhar discreto, um sorriso, uma coincidência
E tudo se acaba em centenas de problemas
Preciso aprender com os marimbondos e com as abelhas
Preciso alimentar cada uma de minhas pequenas centelhas
Que Deus tenha piedade de nós todos e que possamos querer
exatamente o que queremos
Não preciso estimular coisas que não sinto
Sou grato por tudo, mas não me ajoelho por ninguém
Conheci as praias, as cidades e os silêncios
Conheci a mim mesmo e deixei de me fazer tanta falta
Nas idas e vindas das minhas jornadas
notei que não havia um caminho só
As coisas acontecem livremente de nossas ações
Ainda que as ações impactem severamente
Fomos outra pessoa e hoje somos diferentes
Está tudo bem sentir a falta da sua antiga versão,
pelo menos por um instante ou outro
Você agora é mais do que aquele seu outro pouco
Atravessa os campos verdes com uma segurança inédita
Ama ainda melhor do que antes e poderia amar tudo
ainda assim não perdoa quem exalta a forma e humilha o conteúdo
A vileza caótica nos destrói
Somos todos patéticos e perdidos
Somos todos astros caídos
Apoia teu queixo na mão e contempla
Tudo o que ainda não destruímos
Segura a tua mão na minha e veja
os perigos e aventuras que prometo te oferecer
Deixa-me te mostrar o que ainda vai acontecer
Meus olhos não se dividem mais entre passado e futuro
Ouço muito melhor quando largado no escuro
Mergulho na solidão de mim sem me antecipar
De quando em quando soo imprevisível
Afundo nas cores que costumava ter e me perco
Estou em um ponto sem pontos
Decido preparar quatro xícaras de café
Não necessito da doçura para prosseguir
Levanto o escudo sem saber do que tento me proteger
Sangro tanto que percebo que posso fazer sangrar
Somos todos tão pontiagudos
Por vezes me vejo como forma geométrica
tão distante das minhas antigas humanidades
quanto fui outrora quando ainda não me sabia
Hoje que presumo saber o pouco que sei
Desconfio de mim
Os pensamentos mais vis cruzam a minha mente
e por um milésimo de segundo sonho ser vilão
Isso passa
Estou sem tempo e alternativas
Estou sem roupas novas e dinheiro
Estou sem amigos e sem perspectivas
Quando passo todos sentem um cheiro putrefato
como coisa qualquer em decomposição
Quando passo todos sentem um perfume chamativo,
hipnótico e me olham como se quisessem me obedecer
Estou entrando em extinção e choro
pelo fim da minha espécie
Será que um dia haverá outro igual?
Naufrágio no ralo do banheiro e escorro
junto com a água quente do chuveiro
Minha pele queima e penso nos lugares que conheço
Campo Grande nem é tão grande assim,
Dourados, Berlin, São José dos Campos, Bonito, Londrina,
Em todas essas cidades havia perigos nas esquinas
Ervas daninhas são como pelos no sovaco do demônio
E o chão que se pisa é como o diabo encarnado
Vivemos condenamos à morte e não nos entregamos
Não, vivemos destinados à morte e nos toleramos
Escondemos nossos lados vergonhosos e torpes
como se alguém pudesse proibir nossas infantilidades
Na minha imaginação todos os cenários já aconteceram
Sorrio maliciosamente por entender que reinei o mundo
Patéticos, eu sussurro, vocês são patéticos
Queres ser forte, jovem rebelde, rígido,
deita-te no chão e faça mil flexões por dia
Abdominais são para quem tem tempo sobrando
Nos meus olho te vejo
Nos meus glóbulos oculares narro meu desejo
Nas minhas gotículas de suor transpiro
implorando por teu beijo
Talvez eu perca meu interessa,
Quase tudo se perde,
Quase tudo se recupera,
Você é para mim mais bonita
do que todas as flores na Primavera,
Eu conheço lugares e esquinas e pessoas
Sou um péssimo apostador, viciado em jogos de azar
Zonzo, eu deixo o vento me levar
De um jeito ou de outro estou à deriva no mar
Sou um especialista na arte de saber amar
e quando não amo estou sendo vexatório
Tudo o que é meu se perde
Sinto a dor percorrendo a minha pele
Os fracassos e falhas se acumulam em mim
Sinto vontade de desistir
Um latido me transporta de volta para o apartamento
Cuido das urgências no trabalho, pois não posso ser demitido
Sei muito mais e mereço muito mais, mas que se pode fazer?
Para não ser escravo do dinheiro tive de dizer não
Quão diferente seria a vida se tivesse mudado uma escolha?
Estourei todas as minhas confortáveis bolhas
Ando nu pela casa e preparo mais um café
Sou dono de mim, pelo menos parcialmente,
Visto minhas roupas e tiro o lixo
Separo o lixo orgânico do lixo reciclável
e me vejo deprimente ao tentar fazer minha parte
A arrogância de supor que posso salvar o planeta
Ergo-me outra vez para ver com mais clareza
Hoje meus lucros são menores que as despesas
Beijo meu cachorro na testa e meus dois gatos também
Estou entrando em extinção e choro
Não sei quem vai cuidar deles quando eu me for
Sou o melhor no planeta em amar de verdade
Ainda que em algum momento pregresso já tenha mentido
Quem é que nunca foi traído por si mesmo?
É nosso dever aprender com os erros
Os voos noturnos se perdem no negrume
Nossos melhores pilotes jazem esquecidos no céu
As janelas de luzes acesas piscam como estrelas
Meu coração se acelera e sinto frio
Febre alta no final do mês de abril
Que será que me aguarda no final do ano?
Cada lágrima derramada conta a história do oceano
E se nosso mergulho subjetivo nas imensas hipóteses
for apenas uma ilusão conveniente?
Enganamo-nos para crer que há vida além da fatalidade?
Nascemos, morremos, sem nunca fazer o que queríamos
O que diabos tanto queremos?
Pressinto a minha extinção mais próxima
Estou prestes a me destruir
sem antes ter a minha grande oportunidade
Meus livros são obras de arte
nunca lidas pelas editoras grandes
As editoras por vezes publicam livros péssimos
E no meu canto outra vez escorre o pranto pelo que não obtive
Quase tudo morre, mas minhas emoções sobrevivem
Faço outro café para tomar sozinho
Meus gatos lutam e brincam pela casa
Meu cachorro dorme no meu pé direito e não me movo
Decidir é uma ilusão estéril e necessária
Imaginar é preciso para seguir em frente
A gente é tudo aquilo que sente?
Sinto que ser apenas o que se sente parece vago
Eu bem que queria ter a sabedoria dos antigos magos
que eram cautelosos, mas se arriscavam como os marimbondos
Tudo ou nada
Pilhas de tesouros ou escombros
Queria sentir menos que o peso do planeta
nos meus tão fracos ombros
Não aguentarei para sempre e preciso dividir o fardo
Divido-me e me vejo separado
Sou um só e também milhões de pedaços
É difícil me ver por inteiro e encaixado
Nas tantas idas e vindas
rezei para que Deus tivesse misericórdia de mim
Mesmo não acreditando Nele cem por cento
Como eu esperaria que ele lesse meus textos gigantes
se nem eu me leria se eu fosse hoje o eu que era antes?
Eu habito os corações alheios e me deixo para trás
Passo a existir nas ervas, cactos e flores
Existo nos cantos da casa, nas vozes antigas,
na delicadeza dos animais e nos absurdos
A prolixidade é o meu maior mérito
Escrevo ainda que seja absoluto o meu cansaço
Escrevo aqui e em outro Tempo-Espaço
Estou morto e vivo ao mesmo tempo
Habito o canto dos pássaros e o ritmo do vento
Talvez você me ouça se a minha voz se perder
Talvez você se recorde de mim,
mesmo se um dia eu me esquecer
Bom, este é o começo de mais um fim
ou o fim de mais um começo?
Nas tantas idas e vindas
Conheci muito, aprendi muito, perdi muito,
Fui tão entusiasmado que não reconheci a apatia
Prostrei-me no chão abraçando meus joelhos
E foram duro comigo
Não me tornei o que tentaram me tornar
Endureci, entretanto, nesta saga de terror
percebi-me muito bem sozinho
A minha natureza é o ferro e o vinho
Levantei a minha cabeça e lhes devolvi amor
Sequestrei a Lua e aprendi a absorver as nuvens
Chovia toda vez que gargalhava ou me enraivecia
Ninguém sabe nada de mim e ninguém nunca antes
Milagres de temporadas gélidas que antecedem a invernia
Andei para cima e para baixo buscando encontrar
qualquer coisa que não fosse poesia
Esvaziei-me de mim e não tinha mais nada para entregar
Sorte é uma palavra forte
Há quem te ame e não exija nada em troca?
Essa é a maior sorte dos sortudos
Meus olhos estiveram quase sempre
atrás de telas de computadores
Aumentava a minha miopia conforme crescia
minha vontade de estimular amores
E me expandia sonhando que um dia
teria tudo que eu quisesse
Tudo é muito, vagabundo, abre os olhos, esquece
Volta para a margem da casa perto daquela clareira
Confia nas intuições ancestrais
Ouça a voz da tua mãe que previu
“Você será um homem bonito, meu filho”
A Dama do Lago chama o nome como uma oração
Escondo-me das convocações do chamado
Entretanto escrevo e produzo como um escritor enlouquecido
Memorizo ditados e medito sobre a cidade sem mim
Amo tudo, mesmo o que não me merece
As construções se descontroem e dirijo meu carro preto
recordando da vez que me emocionei com um relâmpago
Amante das tempestades e das estradas,
Eu tanto penso e nada concluo,
Eu tanto sinto e nada descubro
Nessas tantas idas e vindas
Acostumei-me com todo tipo de adversidade
Só não me acostumei a não escrever
Escreverei uma história nova e feliz agora
e do resto vou me esquecer.
Nessas tantas idas e vindas,
Um dia fui e nunca mais voltei.

O que sabem de mim.

            Anteciparam-me errado, ainda que eu estivesse estático, silente e soturno. Bem, é que era um problema dos outros e não meu. Eu logo vi, esses tais equívocos, essa quantidade palpável de fracassos acumulados em um baú escondido no fundo do armário, não me pertenciam. Os dedos em riste surgiram, apontando-me com agressividade. Queriam me impor culpa. Eu, aéreo, continuei flutuando, cinza, pesado, prestes a chover. O que foi dito, o que calei, o que inventaram, tudo isso existe numa prateleira que não existe, ostentado diante de meus olhos, para que eu possa encarar a opulência imoral do que nunca me pertenceu. A minha grande ignomínia é a minha paixão revelada pela escrita e cada vez que escrevo meus romances, crônicas e poemas, eu firo alguém que nunca se levantou para ser quem deveria ser e isso só se justifica porque determinaram que escrever é banal. Desta forma, por ser escritor, tornei-me um réprobo. Os grandes disfarces disfarçam talentosos artistas, peritos na arte de encenar, especialistas com a capacidade de ser quem não são. Bastando-se do que não lhes pertence, eles seguem confiantes e eretos, ainda que sejam pessoas incompletas e vagas. Acostumaram-se tanto aos costumes emprestados, que quando se perguntam quem são na essência, as gargantas secam e faltam suas vozes. Como seriam os seus dias se a sua única obrigação fosse o autocuidado?

            Encaixo-me nos estereótipos, pelo menos é o que a maioria supõe, portanto, todos presumem o que quiserem a meu respeito e assim se satisfazem. Por escrever poemas, é impossível que eu goste de sexo violento. Por ser distraído, todos acreditam que fumo muito e bebo mais ainda. Por ser alheio, todos creem que sou desinteressado e distante. Definem-me calmo, pois como alguém como eu seria capaz de tantas tempestades? Como alguém de tantas notas belas poderia facilmente mergulhar em um Vazio Escuro e sair mais assustador do que assustado? Meus impulsos não se controlam. Nada em mim subsiste. Gosto do sexo violento, mas também do sexo lento. Gosto do barulho ensurdecedor, mas me aprazo também com a calmaria. Raramente demonstro meus interesses, mas meus olhos faíscam para tudo o que me torna quem eu sou e cresço expansivo por todos os cantos da cidade, quando me percebo falando das coisas que mais amo. Personifico a tempestade e chovo. Ninguém escapa de mim e escutam meu som contra os telhados. Despenco com agressividade e me desfaço em lágrimas no asfalto. A ira, a água, a distância, o que habita em nós e mais ninguém entende, tudo isso eu vejo e, embora não me pertença, quase sempre sou capaz de compreender. Sou o imperador das madrugadas e sobrevivo com meus tantos sonhos diurnos. Um grito ecoa nas profundas cavernas do Ser. Levanta-te, príncipe insone, senhor solene das horas tardias, agora é tempo de se manter desperto, ainda que nem tenha adormecido. Permaneça comigo e respire devagar. Nos dias ensolarados e radiantes, nada ensombra meus sonhos mais coloridos. Sigo em frente, sem pensar na velocidade dos meus avanços ou na quantidade de perigos.

            Penso no trabalho sentado na cadeira e encaro a tela do computador com os olhos pesados. Quantos antes não passaram noites em claro diante de letras e frases? Quantos antes não fracassaram nas tentativas? Eu, tão inconstante, contradigo-me e luto para que as minhas intenções sejam puras e honestas. Não difamo quem passou pela minha vida. Minha gratidão é tão pura quanto a minha raiva cega. Tudo o que há em mim muito cedo se revela. Meus olhos ligeiros acompanham os movimentos de fora e eu, prolixo e sensível, sinto tudo na parte de dentro. Conheci a realidade e a ilusão e percebi que o exercício de distanciar a realidade da ilusão é estéril. Deveria desperdiçar meu tempo tentando abrir os olhos de quem vive anuviado até quando este torpor ilusório foi provocado e proposital? Deveria instigar a coragem, não sendo eu o responsável pelas covardias alheias? Quisera eu crescer e me fazer valente, sem nunca hesitar em avançar nas direções certas. Pudera eu vencer todas as minhas covardias latentes. Que sentido eu poderia dar para quem opta por viver ilusões em demasia? Se o que existe subjetivamente não fosse importante, não iríamos tão longe, assim, pego-me perdido em pensamentos prolixos sobre como a ilusão pode ser benéfica e me vejo sem a disposição de atacar quem eu considero iludido. Não se chuta quem está no chão.

            Sinto um arrepio pelo corpo e meus pelos todos se eriçam. A minha intuição alerta e sussurra que é melhor me manter cauteloso. O desconhecido é maravilhoso ou perverso e o fogo queima, até mesmo quando é amigo. As línguas requintadas, pingando veneno, suavizam doces beijos nas bochechas de todos, sem distinção. A educação, a pose, o luxo, a sutileza que se esconde por de trás da falsa elegância, tudo isso se amplia em um traiçoeiro senso de beleza, por estarmos hoje acostumados a enxergar a beleza de trás para frente. Os amigos atuais se preocupam apenas em permanecer do seu lado, desconsiderando sua vileza e sua arrogância, sem qualquer coragem de interpelar, por puro medo das distâncias. Escolhem o afastamento, ainda que tenham a opção de fazer diferente. Opta-se por assentir com versões e visões estúpidas do que se erguer diante de um confronto. Sujeitamo-nos a qualquer coisa, prostrados de joelhos de corpo e alma, por quem sequer nos olha nos olhos ou se preocupa com a nossa existência. Quando nos acostumamos ao silêncio diante das coisas vis, lentamente as coisas vis se tornam uma extensão de nós.

            Tenho conjecturado mais teorias do que os grandes pensadores e tenho feito esforços homéricos maiores do que o do próprio Homero. Tudo o que se existe é para se pensar ou não pensar, para ser feito ou não ser feito e me encontro confuso, ainda que localizado em mim. Os estereótipos todos se explodem com a sensibilidade do meu jeito de amar ou da minha violência veloz nos assuntos que mais importam. Quem perdeu a conta de quantas vezes já foi ridículo ou sensacional, obtém, cedo ou tarde, um domínio mais abrangente das próprias reações, ainda que reagir seja espontâneo. Como posso me preparar se nunca estarei preparado? Como posso querer antecipar algo se eu tenho sido tão imprevisível quanto a vida maluca que se apresenta diante de mim? Analiso-me em perspectivas diferentes até o cansaço de minhas hipóteses e me encaro como um sábio e um imbecil, como alguém perdido e alguém que sabe exatamente para onde ir. Minha alma se demonstra expansiva e me percebo expansivo. Aprendo com rapidez e noto que impressiono até os que não são facilmente impressionáveis. Ser eu e existir além de mim, exige-me muito, entretanto, não consigo deixar de me exigir. Que faço de mim se não consigo me fazer exatamente quem sou? Que me restaria se desistisse de lutar por toda essa alegria e amor? Por vezes me pego sentindo uma exaustão profunda e me percebo cansado de ser a única pessoa que sou, entretanto, sei que o pior pesadelo é a hipótese de ser diferente de quem sou. Não poderia viver me diminuindo para me encaixar e nem arrotando contos heroicos de proezas que nunca fiz. Sou complexo na minha discreta sensibilidade e não desejo ir muito além.

            Sem me embriagar, eu ando em linha reta, mesmo quando a vida dá voltas e me vejo diante de muitas curvas. Saio de mim, sem sair de mim. Torno-me contemplativo e ouço os roncos de cães e gatos. Nas ruas de um condomínio fechado, observo das alturas enquanto uma pessoa encapuzada caminha decidida para lugar nenhum. A segurança nos passos daquela silhueta escura me faz pensar que observo o próprio inventor dos mundos, o único Criador desta infame e maravilhosa jornada, que caminha nas madrugadas enquanto o resto de nós pensa ou dorme. O que explicaria uma pessoa, homem ou mulher, caminhando na chuva em um domingo oco que antecipa uma segunda-feira turbulenta de esforços e trabalhos?

Sabem tanto de mim que confesso que já não sei se me sei como um dia soube. As paixões que estimo costumavam ser claras, até o momento em que alguém supôs que sou apaixonado por coisa alheia. Perdido no torpor causado pelas opiniões que não me pertencem, percebo tampouco me pertencer agora. Aconteço para dentro e fogos de artifício explodem no meu peito. Não sei dizer se eles celebrar vitórias ou derrotas, por não saber nada mais de mim. Meus gestos outrora fracos subitamente se tornaram fortes e as minhas impressões discretas agora eram inevitavelmente inesquecíveis. Agir é modificar a natureza do pensamento e preferia o meu próprio mundo. Durante mais da metade de minha vida, revolvia-me em meus recônditos, explorando a minha criatividade latente, buscando pelo rosto da alma. O que havia no exterior jamais me interessou tanto quanto o que havia para o lado de dentro. Quem não conhece a própria casa raramente consegue desfrutar do que há para ver no mundo externo. Sentava na areia branca da praia ou da chácara e construía meus tantos castelos ou me enterrava na areia, por sentir que era rei de qualquer reinado ou que meu lugar era junto a borda do mar. O sal de minhas lágrimas me fazia rejuvenescer e eu crescia frívolo, longe da maldade ou da bondade, nas margens que me delimitavam. Era a minha covardia que estabelecia margens? Quando me percebi expansivo, nunca mais parei de aumentar de tamanho e aprendi lições dolorosas. Talvez os cronistas tenham a escrita preguiçosa e os poetas, cruzes, talvez os malditos banais possam escrever poemas. Pasme! O horror de formular poemas. Onde é que foi que nos perdemos antes de nos localizarmos assustadiços pela arte da literatura?

            O meu grande crime foi chorar alto no meu primeiro instante de vida. Quem sabe não chorava por antecipar que este mundo não vale a pena? Quem sabe não chorava por saber que eu me despediria incontáveis de vezes? Quiçá já soubesse e sentisse naquele milésimo de segundo a força de todos os meus revezes ainda não vividos. Tudo isso vai e continua muito rápido. Amores se despedaçam e amizades também. Os mais ausentes te jogam em uma fogueira porque você não esteve lá no momento exato, mas nunca se voltam para olhar a quantidade de momentos exatos em que eu os precisei e me notei sozinho. Durante os meus colapsos, eu tive dois anjos da guarda e o restante não se preocupou sequer em saber de mim. Tudo desmoronou, entretanto, na perspectiva narcisista de quem acredita que o mundo gira ao redor da própria barriga, somente os erros alheios são incluídos para contagem. Os erros próprios sequer são considerados erros. Cansado de fazer de mim o que não era, eu vesti minha jaqueta de couro e saí pelas ruas para caminhar.

            Dizem que as ruas são perigosas e que dois homens em uma moto irão te assaltar ou te matar. Se morri, não sei como lhes escrevo. Por duas vezes me deparei com duas motos nesta narrativa. Ergui os olhos, atento, não como quem esperava reagir, mas como quem aceitava que perderia os bens materiais ou a frágil vida. Que é que se pode fazer quando não há nada mais a fazer? Atravessei a rotatória, reto, como se fosse uma flecha perfurando um alvo e meus pensamentos prolixos giraram sozinho pelo círculo fixo. As luzes dos postes estavam em mim e assim eu era seguido de perto pela minha sombra. Isso, de uma forma bizarra, trazia-me segurança. Tinha o conforto de saber que pelo menos eu não havia perdido a minha sombra. Devaneei que o meu espectro pudesse cuidar a minha retaguarda e desta forma não mais precisaria temer os homens em motos. As frases que eu disse eram todas ridículas, bem como meus poemas e ainda assim, perdi o medo do ridículo me ridicularizando por completo. Continuei andando a esmo pela madrugada até o momento em que disparei numa corrida frenética. Parei só quando me senti ofegante e não havia água para tomar. Sorri, explorando-me, sem me concluir.

            Anteciparam-me errado, ainda que eu estivesse estático, silente e soturno. Os dedos em riste continuaram afrontosos, apontando-me com agressividade. Eu, aéreo, continuei flutuando, cinza, pesado, mas já havia chovido. Não havia mais o que dizer porque não havia meios de calar o que a minha língua-espada pronunciou. Ataquei sem medo de ser contra-atacado. Até onde percebo só tenho uma vida para viver e me apagar para que outros brilhem parece inútil. É pelos bons exemplos dos realmente valorosos que quero me erguer e lutar. A minha grande ignomínia é a paixão pela escrita, pois que me julguem um réprobo pelo resto da vida pelas tantas crônicas, romances e poemas. As minhas ficções são muito mais reais do que as mentiras de alguém que sustenta todos os próprios alicerces em boatos infundados e inúteis de quem fala e fala, de tanto não se bastar e insiste que as coisas estranhas e deturpadas sejam forçosamente verdadeiras. Por ser um réprobo, eu admito que não entendo até o que entendo. Como não sou adepto aos grandes disfarces, sobrevivo com o disfarce comum de ser precisamente quem eu sou. Por ser um réprobo, eu continuo a me explorar, mesmo quando sinto que estou realmente próximo de encontrar o rosto de minha alma. Por ser um inimigo dos olhos irritadiços e alheios, eu sorrio como quem adivinha que não vale a pena desistir da própria consciência para mergulhar na inconsciência, pois a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior e eu, tão ferro, tão vinho, percebi que podem me faltar os outros e a presença deles significará pouco, se eu não me faltar quando estiver sozinho.

            Anteciparam-me errado. O que sabem de mim é exatamente o que nunca souberam. Supuseram a consciência do panorama completo da situação, entretanto, estavam extremamente equivocados e não haviam tocado em nada real. Aconteço somente quando sinto a liberdade plena. O corpo descansa, a ferocidade se amansa e fecho os olhos em uma simples e complicada respiração serena. Tudo o que é gigante então se apequena. O que haviam vislumbrado em mim era só uma impressão fugaz e passageira, pois eu era muito mais, mas me recusava a me gastar mostrando a Beleza lapidada em Dor que me trouxe até aqui. Um ou outro, por muito pouco, terá o privilégio de ver a minha alma sorrir. 

É tarde para se esquecer


Sustente o seu olhar no meu
antes que tudo se perca
Você me trouxe até aqui e
agora é muito tarde para se esquecer
Aventure-se para além da cerca:
Nascemos para morrer
Você bem sabe que inventaram muitas coisas
Estratagemas de entretenimento
Você me trouxe até aqui,
mas se esqueceu do nome do vento
Sussurre em outra língua
e estarei do seu lado
Empunhei uma espada pontuda
Colocando-me em posição de combate
Estava pronto a pintar corpos de vermelho
por você
Seu rosto se expandia enquanto você sorria
“Eu sei me defender”
E gargalhava das minhas tolas apreensões
como o meu medo de escuro
Você e eu celebrávamos trovões,
mas só eu amava o meu barulho
Desde o primeiro minuto você era especial
Eu sabia que um dia iria aprender
Todo mundo sangra igual
Nós nascemos para morrer
Que advém de benigno se o raciocínio
é capaz de antecipar a tragédia?
A vida é um eterno declínio,
uma inevitável guerra?
`Como podemos amar bem
sem a chance do erro?
Como podemos viver sem
cultivar rostos nos espelhos?
Deito-me na sacada e observo
Luzes acesas, sombras, pessoas, pássaros,
Vozes, gemidos, gritos, amor, raiva
Tudo que acontece em uma noite que se esvai
Não choro pelo que não me pertence
E seco quando percebo que nada me pertence
Um sorriso brota de meu rosto envelhecido
Continuo aprendendo sobre insetos e fuligem
Nas estradas tortas, eu caminho reto
sem sentir vertigens
Anuncio-me como o último amante
da primeira e única lua
Um milagre aconteceu no instante
qual você pisou na minha rua
Assim, divido-me, sem me separar
Sou várias partes complementares e sofro
sempre que sinto que me falto
Sei tão pouco ao ponto de me punir
Sei o suficiente para que possa insistir
Meus tímpanos quase estouraram
Exigi mais cafeína
Estranhos subitamente se amaram
E aproveitaram a sutileza da rotina
Sustente o seu olhar no meu
antes que tudo se perca
Os acertos e erros todos se misturam
batidos em um liquidificador silente
Percebemos a ausência do barulho e sentimos falta
da reclamação dos vizinhos
Tudo se acaba
Até o dia que não se acabará
Quiçá os homens do futuro extingam a morte
Eu, que morrerei antes, sou um sujeito de sorte
Você nota as notas desta sutil canção?
Deite no meu pesado peito
Daquele teu velho jeito
tua delicada mão
As preocupações atuais irão desaparecer
Corpos, memórias, histórias, desejos,
Tudo irá padecer
Sorrio com a tua companhia
E contigo não me envergonho de me envergonhar
Aproveite os prazeres antes de tudo acabar
Sustente o seu olhar no meu
antes que tudo se perca
Envelhecemos o bastante, não?
Há o suficiente para se orgulhar do seu coração?
Você me trouxe até aqui e
eu te amarei por isso para sempre
Ainda que eternidades se despedacem
Se eu tiver sorte
Você me amará de volta e
eu serei extremamente feliz por isso
Chegamos juntos até aqui e
agora é tarde para me esquecer
Até as desgraças valem a pena
Encontramo-nos para nos perder.