Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.  

Cronologias.

Num tempo em que ela era minha
E flertávamos como crianças ingênuas
Sentávamos no tronco de uma árvore
e olhávamos a lentidão das vidas pequenas
Formigas, abelhas, esforços
A importância das rotinas nos escapava
Logo menos seria a hora dela de partir
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Minha frase antecipa cronologias
como se eu tivesse viajado ao futuro
Minha sabedoria a impressiona
Tudo bem, é assim mesmo,
Amanhã nos veremos, digo,
Ela pergunta, é certeza?
Mesmo sendo um domingo?
Afirmo, ela corre e me beija
e me entrega uma flor amarela
Digo que seria incrível se em algum
lugar do mundo existissem flores pretas nas janelas
Ela franze o cenho, mas relutante responde:
“você pode pintar essa com uma caneta”
Depois corre e se esconde
Gargalho dela e de um telefonema
Que a vida seja bela como nos cinemas
Furacões de distopias distintas
tiram os meus pés do chão
A minha alma está faminta e
ouço as batidas do meu coração
“Ictus Cordis” significa impulso apical
Este é um formidável nome afinal
Desejo agora te amar, outra me confessa,
Isso não é amor, é desespero, pressa,
Não sou eu, quase amor, o que tenho é tão pouco
Desconfio de que se perdeu no meu jeito meio louco
Estou rouco, calma, devagar, agora estou sentado na calçada
Ouço uma confissão aterrorizante sobre
um crime antigo na melancólica madrugada
Abraça-me, criança, tenha esperança,
Não imagino sua dor, mas
hoje você está longe do perigo
Nunca serei teu amor,
mas sou para sempre teu amigo
Ainda que você suma para todo o sempre,
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Observo minha alma e depois meu espelho
gosto do que vejo quando estou pelado
Sinto que me vesti errado quase uma vida inteira
Quando me obrigavam a vestir máscaras,
eu as rasgava no meu júbilo durante as bebedeiras,
Sentimentos que transcendem o tempo
e imortalidades que agora morrem
Aproveite cada momento
Eles inevitavelmente escorrem
Olha nos meus olhos,
Esverdeia minha imaginação
e se torna agora minha personagem
Será que é mais que alucinação ou miragem?
Não, não nas cidades grandes!
Não, não nas cidades pequenas!
Não, não nos campos verdes!
Não, não enquanto os mares forem salgados!
Não, não enquanto não segurar um d20!
Não, não enquanto não houver fé nos dias seguintes,
Um, dois, dez, vinte, estou envelhecendo,
Vinte e oito, vinte e nove, os grisalhos vão aparecendo
Olha para os números mágicos e eles te olharão
Roda outra vez na violência do teu furacão
Tudo isso é o que é e você merece
Te davam por avenca, mas suas raízes esticam e crescem
Você toma conta de tudo, minha senhorita
Obrigado por tornar a vida mais bonita,
Sim, sim nas ruas ermas e nas boates lotadas,
Sim, sim nas manhãs e nas madrugadas,
Sim, ora, claro, você tem muito o que me ensinar
Sim, eu sou desajeitado, mas ainda hei de dançar
Escuta, por favor, devagar, sou puro e arisco
A minha vida é me arriscar aos riscos
Lembro de mim, quase como se não me fosse
sentado naquela velha árvore que não está mais no parque
Lembro de mim, quase como se não me fosse
inseguro, indeciso e melancólico
Tudo isso que foi e tudo isso que é
Isso tudo não passa de uma fase
Chegamos ao último destino?
Quase!
Ando nu pelo meu apartamento
Sou feliz
Outrora andava solitário
e zombava tudo o que existe
Minha satisfação chegou durante a jornada
Compreendi que a minha alegria é triste
Por vezes me levanto soturno, sorumbático
e sinto um estranho arrepio
É no meu estado mais dramático
que sinto desaparecerem os meus vazios
Logo menos será minha hora de partir
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Como aceitar um gol do adversário que acontece
nos acréscimos em um jogo de futebol?
Como não se imaginar dançando
após se apaixonar por Sophie e Howl?
Será que um dia saberei de algo?
Olha, amor, eternidades se acabam
Portanto nunca me faça de refém
As baratas por vezes serão douradas
E há os que não querem o nosso bem
Ando pelas ruas e me encontro
Vejo a minha versão criança
abraçando minha versão adolescente
Muita calma, garotos,
Esse mundo ainda se acostuma com a gente
Não, não apenas nas cidades pequenas,
Não, não apenas nas cidades grandes,
Aprecia o peso da minha sentença
“EU VOU EXISTIR LONGE”
Declaro e tiro do meu peito toda a raiva
Os milagres desfilam por aí
recolhendo casacos para doação
Alguns se acabam e outros nos levam
para o velho furacão
Bem lá onde ficção e realidade se confundem
Bebo o café amargo
Sou livre e independente
Cresci do meu jeito, expansivo, valente
Logo menos será a minha hora de partir
Ensombro os meus amigos para que descansem
Protejo-os, como se os antecipasse
Nunca conhecemos ninguém
Abraço todos os meus eu’s antigos
Descobri para onde foram os meus anos perdidos
Sorrio, cansaço, esperando pelos números
enquanto rezo pelas letras nascerem
das pontas dos meus dedos
Sou ficcionista e minhas fantasias
são meus maiores segredos
Um dia vou revelá-los
Um dia vocês vão contemplá-los
Um dia, sim, assim será
Fecho os olhos e não flerto
Ainda assim sou uma criança ingênua  
Acreditando na beleza do mundo ao redor
Sento na calçada, não há troncos soltos,
Não há lamúrias ou corridas alegres,
Não, não há vento,
Não, não há sexo,
Não, sequer existe carinho
Estou nesta estrada sozinho
Bem como vim ao mundo,
cheio de perguntas e sem respostas,
Meu coração de vagabundo se alegra
e faço novas apostas
Encontro minhas partes feias
Encontro minhas partes belas
Sou tantos, pacífico, fera,
Grito selvagem sobre a minha coragem
Não me reconheço e gargalho
Ferro, vinho, cumprimentos, despedidas,
Há tanta coisa que sobrevoa minha cabeça
Minhas histórias mais belas não serão esquecidas,
ainda que todos me esqueçam
O tempo voa
Será que um dia saberei de algo?
É possível descobrir o nome que tinha
antes que o Universo fosse criado?
Errado, certo, apenas palavras
Aparo flechas com a minha espada
Sono, sonho, lúcido, louco, parado,
Acerto quando erro,
sou um relógio quebrado
Régio, eu tenho me esforçado
A importância das rotinas me cerca
e os anjos me apertam proferindo profecias
Você escreve qualquer merda e torce
para que sejam poesias
Olha, que a gente nunca sabe o que sabe
e vive tentando se encaixar onde não cabe
Fadados a perseguir ídolos falsos por milênios
Aqui nunca mais, vivo longe em sonhos gênios,
O sono pesa minhas pálpebras e amanhã trabalho
Perdi-me das horas,
Se eu me perder de ti, encontra-me,
por favor, não demora
Olha, olha que sobrou pouco de mim
E essa miséria é maior que o infinito
Obrigado outra vez por fazer meu mundo mais bonito
Profícuo, prolixo, sucinto, distinto,
Discreto, ereto, objetivo,
Ergo o rosto, exposto e me atingem
O sangue pinga, eu vermelho,
sem panos e nem curativos
Eu vermelho
Quase morto,
Ainda vivo
A morte chega, eu a sinto, mas não hoje
Aproxima-se com a ternura de um beijo
Desafio minha sina e renego seu desejo
Prometo que só irei após séculos
Desacelere agora, planeta Terra,
não queremos guerra, mas não acabamos
Alguns ciclos logo se encerram,
mas ainda nem nos mostramos
É estranho, real, inconstante
Sussurre suas vontades aos céus
Realize-as imediatamente
Aproveite a vida já que tudo acaba de repente
Será que um dia saberei de algo?
Deito-me perto de um lago e me percebo
Estou me transformando em um fantasma, mas
ainda vejo um cenário auspicioso surgir no horizonte
Se um dia saberei de algo? Isso já está claro:
Eu vou existir longe.

Os amanhãs existem por um motivo.

Se tudo quero e tudo posso,
como tanto tempo depois
ainda te sinto nos ossos?
Acostumei-me a ser dois
Agora sou obrigado a andar sozinho
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam e me lançam
para o próximo capítulo?
Sinto, vez ou outra,
Qualquer lembrança turva e pouca
dos teus suaves carinhos
Estremeço por completo,
Trêmulo e discreto só me restam energias
para erguer um copo de cerveja num bar
Em minhas memórias jazem velhas fantasias
Nas madrugadas frias recordo outros dias
Onde você ainda era capaz de amar
Mel amargo azedado pelo recipiente sujo
Tua forma vale mais que o teu conteúdo
Tornei-me nada e o vazio ecoou dolorido
Em sonhos gênios me persigo sorrindo
Aquela criança
não deveria sofrer tanto
Ergue a voz e dissimula sua esperança
nas letras dos contos que canto
Cantos que cantei e devaneios que hei de devanear
Roubaria a lua apenas para te entregar
Pobre coitado, alguém sussurra
e dos cochichos tenho medo
Desajustado de vontades duras
Quem para guardar os meus segredos?
Sou patético, mas você não se esqueceu
da maneira como eu te beijo
Doce lembrança do teu corpo no meu
Amei tanto alguém que tão rápido me esqueceu
Acendia velas para queimar o seu corpo
juntamente com o meu pela madrugada
O espanto com tua beleza era sempre
inédito quando eu a via pelada
As orações de nossas peles então se tornavam
subitamente cálidas, agressivas e ousadas
Ninguém nunca antes, instantes,
todo o futuro que vivi na imaginação
Abracei qualquer coisa insignificante diante
do que restou de mim na minha solidão
Olha, eu não sei exatamente o que dizer,
mas honestamente ainda me lembro
dos caminhos para te dar prazer
Suas mãos alcançavam o meu pescoço
Tua boca provava o meu gosto
E eu te erguia nos braços
Eu, você, outras rotações,
Lembranças de antigos verões,
O nosso próprio Tempo-Espaço,
Nossas brisas todas furacões
Puxo seus cabelos e aceito o que me oferece
Às vezes nosso amor deixa marcas na pele
E tudo se sucede como se fosse a primeira vez
Estar ao seu lado era meu maior privilégio
Ainda me lembro de como me sentia rijo e régio
Estreamos uma cama alheia embalados pelo vinho
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam para o próximo capítulo?
Caio de joelhos
em meados de fevereiros
Os miados afogados
que ouço reverberam pela eternidade
Quando tudo se acalma choro desolado
e meu grito de agonia acorda a cidade
Revolvo-me e endureço mais
Já não sei se sou capaz
de encontrar meus velhos sentidos
Eu só queria ter uma resposta
Uma velha ou nova aposta
do que aconteceu com os anos perdidos
Estremeço e a vida soa como morte,
Para onde foi minha sorte
Parece que estou sempre sendo punido
Sofro com os novos cortes
e carrego cicatrizes inéditas comigo
Será que um dia irei me encontrar
ou viverei eternamente perdido?
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam e me lançam
para o próximo capítulo?
Um lema antigo sacode a minha alma
Respire fundo e tenha calma
Os amanhãs existem por um motivo
Sobreviva e valerá a pena ter vivido.

Um final.

Vaguei como uma sombra
pelas ruas mal iluminadas da cidade
Vesti um casaco preto para saber
ensombrar quem aparecesse
Meu tamanho até assusta,
Quem nota minha forma robusta
geralmente não se mete comigo
Há quem sabe o que busca,
Paga o preço que custa
para se ver longe do perigo
Honestamente eu não ligo
Ainda assim ando arisco
Aos pais e padres não peço bença
Descobri que só se vive pelo risco
e se omitir é apressar a sentença
Outro vulto surge do lado de lá da rua
De cá sei que não se vale de qualquer medo
Queria ser valente como essa gente
que anuncia todos os segredos
Ouço um zumbido estranho e
uma voz perdida no espaço
Minha audição me alerta
e escuto também o barulho dos passos
As luzes piscam e a noite é sem lua
Meus pelos se eriçam, porém
minhas pernas não recuam
A escuridão envolve eu e o desconhecido
A alma distorce a face numa expressão cruel e crua
O corpo se retesa quando se lembra da última mulher nua
Aproximando-se com passos firmes e cautelosos,
quase como a outra pessoa que se movimenta no breu
Todos os meus instintos selvagens e corajosos
enfraquecem diante do brilho novo que nasceu
A lâmina prateada cintila em uma dança
O amor é a morte do dever
e a faca a morte da esperança
Queria pedir para a alma obscura que me poupasse
Que me deixasse viver só mais uma semana
Devaneei como Pessoa e gritei para Wilde
TU ESTAVA ERRADO
A gente nem sempre destrói o que mais ama
Julgo ver um sorriso ou
será só a face do paraíso que me chama?
Ora, rio-me, sentindo-me louco
Tento dizer algo, mas me noto rouco
O outro é apenas um e não uma gangue
Aproxime-se agora, vil vagabundo
Prova o gosto do meu sangue
E ergue os braços, pois no jornal dirão:
aquele lá morreu lutando
E o sal dos meus olhos vai se misturar
com meus outros pingos vermelhos
O assassino provará um gole, cairá
e me verá no reflexo do espelho
Descobrirá depois o que eu já sei
Os fantasmas existem e estão por perto
Tenho certeza que não os imaginei
Estavam comigo nos mais solitários desertos
Os abutres se aproximam para se alimentarem
Venham, venham, aglomerem
Minha carne será o seu delicioso banquete
Quando não restar o que comerem,
tornar-me-ei uma estrela e ascenderei aos céus
na velocidade explosiva de um foguete
Olhem, vejam, é o menino viciado em mar,
Aquele apostador azarado que amava o jogo,
Lembra de quando ele ousou a abraçar
uma estrela cadente e protegeu um demônio do fogo?
Ora, a vida passa velozmente, lá vou eu,
cinzas, madeiras, pó e o que ficou do que ainda sentem
São essas coisas efêmeras que nos eternizam?
Corra, pegue uma caneta permanente,
crave nossa amizade em uma árvore milenar!
Avance os corredores proibidos do shopping e piche
“nós fomos feitos para durar”
Antes que tudo se acabe numa piada
Antes que a lâmina bela manche a madrugada
Quem poderia adivinhar esses tantos fins?
Olhe para frente, para trás, recorda-te agora
do primeiro alimento ardido
Fite meus olhos e me diga sem demora
qual o paradeiro de tantos anos perdidos
Que Deus tenha pena da próxima cena,
Que o Diabo não vexe meu poema
Que meu inimigo oscile e trema
enquanto eu tento sobreviver
Eu sei, Criador vil, este mundo é oscilação
Vomitei mil horas para merecer minha redenção
Olha, estúpido, obrigado por este presente,
jogaste-me neste planeta maravilhoso e decadente
Faço eu a diferença para alguém?
Mais um passo, sombras dançam no escuro
Pisco e me vejo observando a cidade esquecida
meus olhos ágeis e curiosos buscando respostas
Eu nunca sei qual é a próxima saída,
mas sigo fazendo minhas apostas
Veja, Lanterneiro, olha, rapaz,
para o jeans que veste ou para a distância, a queda
Olha como mesmo pequenas e longínquas,
são repletas de brilhos aquelas janelas
Olha bem, menino, teu sonho é o teu destino
Você tem sensibilidade e é capaz de vê-las
Aproxime-se das luzes fracas
Tente reacendê-las
Refulgir talvez seja a única missão
Ergo os braços para a última batalha
Orgulhoso do meu valente coração
Os anjos e os deuses me esqueceram aqui
O diabo e os demônios menores não vieram assistir
Sem público, um tanto melhor,
há quem viva para impressionar os outros
Meu sorriso se torna largo e agora acho
que meu algoz me toma por louco
Vivi muito e o que é real nunca parece pouco
Venha, covarde, você despertou em mim
essa vontade de brigar e morrer
Não recua, agora é tarde,
em algumas horas outro dia vai nascer
Urge em mim a vontade de vencer e
num frenesi avanço primeiro
A impulsividade é a vantagem do carneiro
Rolamos pelo chão agressivamente
Desfiro socos e vejo um de seus dentes voar
Ele me acerta e me percebo a sangrar
A ira me personifica e me vejo tomado pela adrenalina
Meu casaco preto agora deve estar vermelho
No silêncio ouço o grasnar dos corvos
O anúncio é o da minha morte?
Que fortuna, que sorte, eu até vejo a manchete
Homem é morto pouco antes das sete
Onde estavam os policiais e os transeuntes?
Onde estavam os heróis trajados?
Um homem morreu e
ninguém pareceu ter se importado
Um cristal esverdeado surge no céu e sonho
Assombro praias com dunas e areias brancas e canto
Revisito meus milagres e absurdos e me pego aos prantos
Neste desfecho me convenço de que não há santos
As luzes, o pó do universo, a areia de estrelas,
No fim de tudo este era o meu único segredo
A única magia que aprendi a conjurar
eram palavras que moravam nas pontas de meus dedos
Ora, vejam, a gente realmente nasce e morre sozinho?
Cresce, envelhece, erra e se possível acerta,
mas não enverga, ferro, não suaviza, vinho,
Não desvia os olhos, olha para a imensidão,
ousa crer nas ficções quais acredito,
Passe pelos portões em brasas,
abra suas asas e verá o mundo mais bonito
Permita-se descansar, mas nunca se esqueça
A estagnação é o fim antes do fim
Agora limpa as roupas e levante,
Expande-te para as terras distantes,
Recorda-te que eu desejava existir longe
Que toda minha prolixidade sonhava em ser sucinta
Que toda minha alma era feita de tinta
Que o Universo todo surgia da ponta da velha caneta
Que a morte é o caminho seguinte
 e que vai me achar sempre que abrir algumas gavetas
Eu vou antes, sem me esquecer, estou em tudo,
Por favor, saiba ver, não seja tão tonta
Eu falava sem parar e agora jazo mudo,
mas noutro mundo a gente se reencontra.  

Certamente diferente…

Estes são os sentimentos que transcendem o tempo, veja, outrora eu estava ali a todo o momento até que não mais precisasse de mim. Sua frivolidade me entretinha enquanto eu tentava me distrair do seu desamor, sim, eu percebia pela maneira como o clima mudava do quente para o frio quando você chegava e aquela invernia não ornava com o sol que derretia tudo, contraste, era isso o que eu sentia conforme notava a sua tentativa de me antagonizar, você precisava de um bode expiatório, um alvo, alguém que se encaixasse na mira e não repelisse a flecha, assim, sólido e são, eu fui atingido. O sangue pingou no chão e disso nunca me esqueço. Há finais que são apenas começos.

Ora, os dados rolaram e subitamente notei a reviravolta no jogo, olho devagar e reparo na sua obliquidade melancólica na virada para o ano novo. Bem, é preciso se comprometer, prometer e mudar, veja, tudo só muda se você se empenhar e felizmente, apoio-me em mim o bastante para entender que há muito o que não entendo. Fecho os olhos, respiro fundo, espero, aprendo. Por vezes ainda sou tomado por uma ira ancestral, como se o mistério secreto que me compõe urgisse por sair em meu frenesi, porém me revolto para dentro, em silêncio, contendo meu asco, exatamente como uma tartaruga e entro no meu casco, retornando até o momento em que nasci. É engraçado parar e pensar. Outrora quando vim ao mundo eu sabia apenas chorar. Que é mesmo que suponho? Será que a minha vida não passa de um sonho? Há coisas que não aceitam o abandono. Prefiro manter meus hábitos e insistir no ferro e no vinho. Há coisas que só absorvemos quando nos percebemos absolutamente sozinhos. Seus velhos fantasmas até tentaram, mas não me assustaram. Suas provocações me despertaram. Personifiquei-me no menino do coração congelado?

Acordado, enfermo, febril, lúcido, louco, qualquer coisa parecida com o que quase é, você quase me toca quando sobe a maré, chame meu nome, grita, por favor, não some e eu sorrirei, místico, fútil, ancestral, patético, preguiçoso, humano. Confundi gotas d’água com pingos de sangue enquanto me arrastava por um terreno desértico. Onde todos estavam quando não me via? Trinta e nova e meio, quarenta, dia doze, dia sete, aniversário, nove, dois, trinta, um, meu eu especial, fracasso, cansaço, noite de natal. Heróis, vândalos, quem sabe a diferença? O albatroz salvou a minha vida, partiu cedo, sua sentença. Nunca senti tanto orgulho do meu coração, saltei do trapézio, repleto de medo, sem asas e me restou confiar. Alguém precisa me segurar. Cadeira de prata, amizades ingratas, vômito, imperfeição, choro de joelhos, quebrei dois espelhos, catorze anos de azar. O tempo passou e agora é tempo de levantar, então, levanta-te rapaz, você é o que você faz, exija mais, tome da vida o que te pertence, erga a cabeça agora, sem demora, vence. Meu melhor estado é o melancólico, acólito, febril. Meu fardo é sentir um mundo que nunca me sentiu. Faço um desenho feio, grotesco e rio de uma hiena que ri de mim. Sou a mim ridículo, mas não sou pedante. Às vezes me desperdiço, entretanto, sou o mestre das inutilidades e dos instantes.

Ando, desando, avante! Boêmio, vadio, errante. Oscilo, terreno, aéreo, sereno, repleto de mistérios. Não há maneira de não me ser. Tentei de tudo e falhei. Constato, sério, que tenho uma infinidade de motivos para surtar, respiro, mentecapto, viro a chave, mudo tudo de lugar. Sinto orgulho dos meus vexames, sussurro ou calo meus atos grandes, cônscio de que somos todos do mesmo tamanho. Perco-me de mim, perco-me de tudo e na voz eloquente julgo ouvir um grito mudo, qualquer coisa que me transmita algum tipo de esperança. Deus se apresenta e diz que todos podemos luzir, exatamente como as crianças. Percebo-me sorrindo e sigo em frente. A vida parece igual, mas eu certamente estou diferente.

Sozinho no Bar

Não soube o que fazer quando fiquei sozinho na mesa daquele bar. Eu sabia, claro que eu sabia, em alguns instantes meus amigos reapareceriam e encerrariam minha solidão, entretanto, reconheci-me em maus lençóis quando tentei narrar meu desespero. Os meus motivos? Ora, percebe-me pálido diante deste discurso? Há certas coisas que não se explicam e o meu desespero me furtou a voz e a vez. Quando os costumes antigos dão lugar aos novos ou ainda pior, quando não há novos costumes e tudo o que chega é inédito, muito se agita por dentro com a liberdade de tudo o que é imprevisível e vem de fora. Não faço sentido então? Eu estava convicto de que meus amigos voltariam, mas quando um minuto soa como uma hora e o coração se acelera, peguei-me apertando meus dedos e querendo apressar a vida que nunca se apressa.

O que me levava aos picos de ansiedade sendo que todos, sem exceção, sabiam o quanto eu aprendi a ser calmo? Essas inconstâncias, instabilidades, todas essas letras e palavras que soam como impossíveis, inviáveis, bom, eu vejo que elas me ajudaram a ter clareza de que há apenas um acúmulo de dramas em nossas vidas e essas nossas tragédias, veja, sempre tão particulares, agulham nossa pele o tempo todo.

Os amigos ainda não voltaram, o garçom pergunta se aceito mais um chopp e sinalizo que sim com a cabeça. Essas novas rotinas ainda me surpreendem e abaixo a minha máscara cuidadosamente para dar uma golada revigorante. Esse primeiro gole parece o primeiro ou o último gole de toda a minha vida e renovo a respiração no alívio que se sucede. É a solidão que me faz ficar tão tenso?

Não. Ainda me lembro com clareza da solidão. Vinte, trinta ou cinquenta dias sem ver um rosto qual desejava mesmo ver, bom, eu ainda me lembro. Recordo-me de como as representações estéticas tão comuns repentinamente se esvaíram e os símbolos trazidos pelas imagens passaram a existir como fantasmas dos próprios símbolos, sem imagens. A distância do amor, a distância da amizade, tudo isso dói, assim, convencia-me de que tinha que seguir em frente, mesmo ferido.

Lembro-me de que a presença do silêncio era tão aterrorizante, que eu sentia, mesmo sem estar enlouquecendo, que eu podia tocá-lo. A chuva era mais molhada, os trovões eram urros raivosos e cada tempestade soava como o fim do mundo. Eu dirigia na chuva ou tomava a chuva na própria pele e sentia cada gota me flechando, uma a uma. Essas resoluções úmidas são estranhas, veja, é que a gente envelhece todo dia, claro e, embora por dentro não se sinta, quem está de fora sempre repara. O que os anos fizeram com a gente?

Nada. Os anos, na verdade, nunca fazem nada com a gente e a percepção do que fazemos com os anos é muitas vezes sombria. Ainda assim, vale a pena, certo? Escrever e tentar, continuar escrevendo, carregando no peito puerilidades incontáveis e a esperança quase desesperançada de que algumas coisas valem a pena e de que escrever sobre o amor pode mudar o mundo.

Rio de minhas ideias, pois a experiência transforma muitas vezes a esperança em bom humor. Ainda assim, rindo da própria piada que faço de mim, secretamente creio nela. Os amigos agora retornam e estão sorridentes e parecem cheios de novidades para contar. Este meu pequeno devaneio tive quando fiquei de escanteio, procurando a solução para o mistério da vida na mesa de um bar.

Eterno Contador das Horas

Eterno contador das horas
Descobri em qual Tempo te encontrar
O céu plúmbeo anuncia o que sente agora
Você apenas deseja se afastar
Até que possa se recuperar de si mesma
Quanta ingenuidade no seu afago
Cicatrizes abertas mostram o estrago
Seu corpo é um eco da destruição
Abertamente anunciam pela cidade
Fugiu na madrugada sua sanidade
O boato lhe traz humilhação
Você…
Você não superou
Encaro seu semblante, sério
Infante, reajo ao vitupério
Você não parece se importar
Os olhos marejados desfazem o mistério
Está viva e perdida em um cemitério
Vítima de um escandaloso adultério
Não sabe ainda como recomeçar
A noite quase se encerrando, sem lua,
Você se recorda enquanto olha para a rua
Tão vazia quanto a sua própria emoção
Diz que não sente nada, mas lágrimas escorrem
Denunciam sua mais secreta emoção
Você adormece, mas nem em sonho se esquece
Acorda em um sorumbático arrepio
Ajeita os cobertores e se aquece, porém,
Tudo ainda soa absurdamente frio
As pequenas conversas que lhe salvavam
subitamente emudeceram
Os carinhos que raríssimas mãos lhe destinaram
agora de ti esqueceram
Os dedos que um dia te amaram
afagam outros cabelos
Teu vexame frívolo é mais gelado que tua presença
Neste mundo onde vive para se disfarçar
Teu castigo é a solidão desta sentença
Nunca mais podendo se revelar
Estrela opaca morta pela saudade do brilho
Trem de carga, sem vagões, fora dos trilhos
Diga-me agora para onde foram os anos perdidos
Sonhe pela madrugada gélida e sem fim
Segure na borda do mundo com as unhas
e durma em paz, vaga-lume quebrado
Ergue-te, mulher arrelienta
A noite acabou
A manhã seguinte começa e termina cinzenta
para quem se perde na desmedida do amor
Sua parte obscura a torna violenta
Externa-se, enfim, toda a sua dor
Repentinamente epifania
Desmistifica-se o que não compreendia
O que machucava antes agora a incentiva
O sofrimento também é um sinal
de que ainda está viva
Então sobreviva, viva e sorria
Quem sabe quantas surpresas
há em um novo dia?

Metade do Caminho

            Se eu correr de trás para frente, será que eventualmente esbarraria na sua antiga versão na metade do caminho?

            Você era atenciosa, antes de se tornar mais atenciosa, mas parecia preocupada, sempre preocupada com alguma coisa que eu não sabia dizer. Era impossível te antever naquela época. Eu vim de outro lugar, de outro endereço, mas o céu era o mesmo e o tempo também. Percebe como precisamos dos acasos? Ainda assim é estranho saber que sequer teríamos trocado correspondências, acaso meus olhos escuros não a tivessem visto. Se um detalhe fosse diferente, você nunca teria entrado na minha vida e então quem eu seria hoje?

            É que eu costumava ser mais assim, voraz, ágil, expansivo e costumava parecer tão interessante para quem era de fora quanto me parecia desinteressante, por dentro, para mim. Os outros cultivavam um interesse sombrio em mim, uma admiração perplexa, algo sem nexo e eu inflava e crescia e tomava conta do que era meu. Por dentro eu continuava o mesmo, por vezes oco, por vezes seco e outras vezes era colorido o suficiente para tornar o mundo inteiro mais bonito, mas tudo isso era trancafiado para dentro, como se eu mesmo fosse um cofre, isolando essas particularidades, pois ninguém tinha o direito de saber sobre as coisas lindas que outrora havia guardado apenas para mim. As chaves para os meus paraísos e infernos eram minhas e por mais que me recusasse a ser outro, não permitia que os outros vissem tanto de mim. Não se confunda, eu nunca era superficial, não, eu apenas não era inteiro. Essas coisas internas, internalizadas por acaso, consolidam-se em nós, duras como o ferro, até que a gente possa mudar pelas próprias forças ou optar por não mudar. Fechamo-nos tantas vezes, pois a vida ensina que se nos abrirmos, seremos vítimas de um sofrimento terrível. Se uma porção do sofrimento que passei fosse removida de mim, eu não teria os olhos bons para coisas frágeis e quebradas, bons o bastante para reconhecer quem se parecia comigo, assim, creio que você nunca teria pisado na minha calçada e então quem eu seria hoje?

            É que antes eu andava por aí convencido de mim, berrando aos quatro cantos sobre quem eu era e tinha orgulho de ser, apesar das imperfeições, partes feias e equívocos. Deitava sozinho no quintal de casa e olhava para a lua, conjecturando em minha cabeça sobre caminhos, escolhas e sobre tudo o que ainda era desconhecido. Quantos milhares não olhavam para a mesma lua que eu? E a infância havia sido repleta de amigos, mesmo intercalada com inúmeros momentos de solidão nos quais eu observava insetos e ouvia os barulhos que o mundo fazia enquanto tentava entender o meu papel ali. Quantos milhares não procuravam os rostos de suas respectivas almas? Eu sentia como se o Universo inteiro me fosse familiar e como se eu fosse gigante e salgado, exatamente como o oceano, o que justificava o meu sal toda vez que eu chorava. A lua, imponente, por vezes se escondia demonstrando timidez ou era coberta por nuvens que passavam por ali. Não, as nuvens não sentem inveja da lua ou das estrelas, elas apenas precisam passar, como por vezes precisam chover e eu me chovia, lunático, estrelado, distante e satisfeito, refulgindo na escuridão da madrugada, imaginando que a lua, convicta de sua beleza, ria da minha mais pura admiração.

           Quantos não saíram para espiá-la nos céus e não encontraram nada? Eu me perguntava, solitário, sombrio, fechado em mim, se existia alguém capaz de mudar o meu destino. Ficava ali, triste, meu coração melancólico absorvendo as emoções do mundo todo. Se chorei nessas noites, eu peço perdão, chorava sem saber meus porquês, mas hoje vejo que antecipava toda a felicidade e a tristeza que eu ainda sentiria no futuro. Fazia perguntas para Deus, que me deixava no silêncio contemplativo de mim, eu mesmo estirado no chão como um tapete colocado para doação, sem serventia. Via-me avulso, pesado, saboreando a minha solidão e me perguntando no que eu seria bom e se as companhias futuras seriam melhores, até o momento qual a minha cachorrinha invadia a minha privacidade com muitas lambidas e eu me esquecia de ser profundo, prolixo, protelador, rindo da simplicidade maravilhosa do afeto de um animal. A vida vai estranha, mas nos focamos sempre no que aconteceu diferente do que queríamos, nas partes distintas e, esquecemo-nos de que compartilhamos terrenos comuns e de que outros, muito antes de nós, trilharam caminhos semelhantes.

            Você que me olha nos olhos, sabe me dizer se enfrentou ou evitou os perigos? Diga-me agora, milady, senhora, para onde foram todos os anos perdidos?

            É que estamos envelhecendo em uma velocidade assustadora, abrupta e o coração que acelera no peito é o mesmo daqueles tempos que antecederam o primeiro beijo na adolescência e o que é súbito ou pior, abrupto, indica que as palavras podem assustar tanto quanto as ações. E as minhas mãos suavam e não sabia sequer dizer uma palavra, até que aprendi muitas, até que erroneamente fui acusado de ter a consciência de sempre saber o que dizer e adivinhar pensamentos. A verdade é que eu nunca adivinhei nada, nem bênçãos, nem desgraças e era fechado, apenas por não saber como me abrir. Costumavam me perguntar se o gato havia comido a minha língua, até que disseram que a minha prolixidade objetiva era encantadora, ainda que no meu ponto de vista o prolixo seja incapaz de ser objetivo. As minhas mãos ainda suam, mas a minha língua-espada hoje me defende e me regozija, por todas as suas capacidades. Vê o quanto passamos para chegar até aqui? E os nossos tremores nunca pararam e nem creio que pararão, pois há aquela velha ansiedade pela vida que temos pela frente, vida de riscos e perigos, de tristezas e sorrisos, vida para viver. É que nós humanos somos uma coisa original, quase vulgar, seres repletos de instintos maus e nobres e, escondemos nossas vilezas horrendas por acharmos que o mundo nunca nos entenderia. Será que um dia alguém entenderá? Será que existe alguém que nunca se disfarçou?

            Toda vez que eu chegava em um lugar, eu sentia como se estivesse na antiga Sala Grande, um velho cômodo da casa de infância, quase absolutamente inútil até a semana passada quando diversos amigos jogaram Beerpong e me pego pensando na importância das cervejas e dos amigos e dos espaços vazios. Eu me perguntava se a sala era mesmo grande ou eu e meus irmãos éramos demasiados pequenos e se os espaços não preenchidos parecem maiores do que realmente são. Tudo me estranhava quando eu não era estranho para tudo. Eu me pegava febril, quente, refletindo, ansioso e acuado, cheio de medos. Revolvia para dentro, angustiado por não poder brilhar para o mundo. Mesmo quando o trem descarrilava, eu sorria, ainda que triste. Há nessa vida quem só ame ferrovias, você sabia? Mesmo quando tudo parecia desconexo, eu insistia. Há quem nessa vida sempre insista, você imagina? Tive excelentes ideias, mas nenhuma delas bastava. Por vezes me via igual ao menino que tinha uma estrela no lugar do coração, entretanto, meus batimentos cardíacos se aceleravam e me revelavam tão comum quanto qualquer outro. A única diferença é que eu insistia em ser quem eu era, nunca emprestando sequer um traço das personalidades alheias, assim, por vezes, de tanto ser peixe fora d’água, quase morri asfixiado longe do oceano.

            Nunca soei a mim bom o bastante, embora sempre tenha me gostado, fora da casinha ou da caixa, um esquisito, uma peça solta de um quebra-cabeças que ninguém jamais soube montar, eu mesmo o mais distante disso. E meus afagos e afetos, bem como minhas obtusidades, cresceram e mudaram de rumo até que eu abraçasse algo para a minha vida e chamasse de destino. É que a gente não pode ignorar os casacos e as baratas douradas e todo o resto que nos trouxe até aqui. Não podemos fingir que ontem, por pouco, quase não fomos nós mesmos em nada e alimentamos um monstro viciado em absorver escuridões e temores. Ontem um olhar atravessado seguido de um gesto extravagante foram capazes de nos estremecer. Dormi mal, tiritando de frio, por não sentir o seu calor. Não entendi muito do que deveria e o que entendi não era o que me parecia. Nossas embarcações estremeceram, nós oscilamos e ficamos à deriva no mar. Você sentiu também, não foi? Quando subimos de volta, estávamos em canoas separadas, barcos frágeis e, isso tudo nos leva a perguntar o que estamos perseguindo quando mergulhamos em partes rasas ou procurando defeitos com lupas. Quando dois mundos se encontram, há inevitavelmente catástrofes e eucatástrofes notáveis.

            Se acalme agora, não é sobre certo ou errado, não é sobre eu e você, temos melhorado, você percebe? E não somos mais tão teimosos, obtusos, não batemos cabeça tanto por bobeira, não estamos distribuindo socos nas pontas das facas e esperando não sangrar, como costumávamos fazer lá atrás. E o nosso carinho cresce, um pelo outro, bem como cresce o amor, aquele verdadeiro, aquele que anos antes, pensávamos que seríamos incapazes de sentir outra vez. E me esqueço do mundo no chão da sala, com o giro do ventilador, assistindo qualquer coisa quase interessante que nos distraia, mas que sirva como pretexto para que estejamos nos braços um do outro mais uma vez. Somos divertidos e chatos, sucintos e prolixos, obscenos e sagrados, simétricos na assimetria. Eu estou remando até você, você vê? Até que possamos estar novamente em um barco só.

            É estranho que a Sala Grande tenha levado quase três décadas para receber alegria e, eu mesmo, tão nostálgico e melancólico por natureza, acreditei, apesar de tantos pesares, que não merecia ser feliz. Quando me olharam como se eu não me fosse, enraiveci-me, pois, as minhas roupas só cabiam em mim, assim, chorei abertamente e em segredo, pela confusão que fizeram de mim. Nem tudo é o que parece e o que me pareceu foi assustador, bem como os outros sustos que te fiz tomar e de alguma forma, as bruxas que celebraram o dilúvio na semana anterior nos amaldiçoaram na semana seguinte e você sabe, tão bem quanto eu, que todos esses mitos e ficções são reais.

            Caímos e nos levantamos. O respeito não pode acabar, assim, tentamos de novo e de novo e outra vez, enquanto houver amor. Fomos atacados pelas bruxas, pelos fantasmas, assombrados por figuras que se pareciam conosco e não eram, porque nunca poderiam ser. Somos melhores. Somos maiores que essas lendas. Quem não aprendeu a perdoar só aprendeu coisas pequenas. Se eu correr de trás para frente, eu te encontrarei na metade do caminho? Diga que me ama, bem como eu tenho te amado, desde antes do nosso nascimento aqui neste planeta. Diga que quer permanecer mais cinco minutos ao meu lado, apenas porque a minha presença te traz segurança. Diga que vai ter paciência e que vai me ensinar todos os tipos de dança, ainda que eu não saiba dançar. Sacuda o meu corpo e me desperte para que possamos contemplar o nascimento do sol. Aconchegue-se na sala enquanto assistimos outro jogo de futebol.

            Se eu correr de trás para frente, será que o meu eu do passado se orgulharia do meu eu do presente? Perdido nas cronologias que faço em imaginação, utilizando-me de um número surreal de silogismos para sustentar minhas poucas convicções, percebo-me olhando para o lugar qual estou pela primeira vez e sorrio. A vida é bela, vale a pena e todos os percalços que nos trouxeram aqui nos fizeram quem somos. Sinto que devo ser grato por tudo, pelos erros, pelos acertos, por quem acertou e errou comigo também. Envelheço a cada dia que passa e a vida ganha cada vez mais graça enquanto você anda ao meu lado. Se isso soa tão certo, é impossível estar errado.

           Se eu correr para você hoje, antes que a noite vire dia, você me receberá com aquele seu sorriso que me traz tanta alegria?

Crônica de Três Domingos


Sento para organizar as ideias pela primeira vez nos últimos três domingos, mesmo que hoje seja terça-feira. Penso nas tantas despedidas que ocorreram durante a vida e sorrio, satisfeito e melancólico, por saber que mais adiante serei feliz. Hoje não consigo.

O fluxo da vida inclui apresentações e despedidas e, embora conhecer alguém envolva inevitavelmente um terreno incerto, há algo de maravilhoso e mágico que surge em mim toda vez que algo assim acontece. As despedidas são dolorosas e as marcas das pessoas que chegam e vão permanecem pelos anos seguintes como registros do que vivemos, expostos em nossos semblantes.

Por vezes nos esqueceremos, claro, nem todo mundo é marcante e tampouco a memória é perfeita. Outras vezes ficarão retidas em nossa recordação os perfumes, os jeitos, os lumes, os cabelos e contaremos aos outros algo simples como se fosse uma história inacreditável. Um ponto de semelhança basta para que possamos sorrir juntos e nesse ponto tudo muda e se transforma.

As coisas bonitas, eu ouvi dizer, elas deixam um vazio imenso quando se findam, bem como a brisa gélida que refresca o meu corpo no instante que o trespassa, apenas para que eu murmure em seguida sobre como odeio dias quentes. É irônico, pois não existe alguém tão solar quanto eu. As coisas bonitas, eu pensei recolhido em minha própria solidão, são como vaga-lumes que surgem em uma noite morna e nos fazem acreditar que há valor no brilho, pois mesmo um ponto pequeno e cintilante pode romper a escuridão.

Milhares de cenários povoam meus pensamentos. Reflito que buscamos o que buscamos e isso é o que nos torna incríveis. Ninguém de fora pode saciar as nossas vontades internas e independentes, ainda que seja mais divertido e confortável caminhar lado a lado com quem se acostumou a nos conhecer bem. Geralmente não nos sabemos. Quem de fora nos saberá?

O que se ganha, você aprende, também se perde e nesta vida não há garantias. O sentido é discreto ou até mesmo invisível e por vezes tudo soa vago, como se fôssemos vítimas da inevitabilidade da vida. Suas certezas desmoronam e com os olhos cheios d’água, você vê que amizades destinadas a durarem esmorecem; amores eternos murcham; histórias de dificuldade revelam heróis improváveis e valorosos. As quedas feias nos definem. Tornamo-nos mais vis ou belos ao nos reerguermos.

Nem toda ilusão é estéril, você aprende, é necessário estimular um pouco da imaginação para sobreviver com qualidade de vida. Você geralmente se esquecerá de valorizar tudo o que lhe importa, até que tenha passado.

Nesta tarde, porém, eu me peguei alternando olhares entre halteres e nuvens, perdido entre cuidar do meu corpo e viajar pelos céus. Pensei nos mortos, que já partiram, mas permaneceram nos recônditos secretos de mim. No meu coração há uma lareira diante da qual se reúnem, riem e conversam, transbordando ternura. Pensei nos vivos e no sofrimento de viver, quando os corpos se deterioram, os desejos murcham e a memória falha. Vencer é entortar aos murros a ponta da faca?

Permita-se retornar ao que te feriu e ao que te fez feliz. Se aprender a voltar, certamente saberá como prosseguir. A influência de outras pessoas é capaz de nos mudar, mas é preciso tomar cuidar para não desejar ser outro. O que somos na essência é o que revigora a alma. Estremeço por inteiro e me percebo com os pelos eriçados quando ao longe ouço ecoar no meu peito uma velha canção. Envelheço e me percebo estático. Ainda ontem era primavera no meu coração.

Tenho muito o que aprender e me lembro de quem costumava ser. Fui tantos que hoje já não me sei. Amo as versões antigas, mas sou o meu Eu adequado para este momento. Ajo com velocidade, mas a solução vem de dentro. Tento organizar as ideias e falho. Sinto-me perdido, mas nunca distanciado do amor. Estava entristecido até o momento em que ganhei uma flor.

Um dia atingirei todos os meus sonhos e refulgirei entre as estrelas. Hoje ainda não consigo. Melhor descansar neste final de terça-feira com cara de domingo.

Rotação

Acordo e busco na geladeira
algo para saciar a fome
Ouço uma risada zombeteira
Esse vazio ainda não tem nome
Que ilusão se alimenta por acreditar
que pode se saciar subitamente nas madrugadas?
A vida é ou muito simples ou muito complicada
Tenho dificuldades de compreender as caretas
que são expressivas e claras na representação de si mesmas
O que poderia ser mais claro do que a pureza?
As dores no trapézio voltaram e eu me preocupo
por não ser um habilidoso trapezista
A minha nuca quase travou de dor
Hoje sinto um pavor absurdo de hospitais
pressentindo que um dia de lá não mais voltarei
Às vezes vejo gente que soa como se desejasse outra vida
Eu não consigo existir tão longe assim da minha
Rotação
É que quando tudo dorme
Eu acordo ouvindo gritos e sirenes
Esperando que a minha dor se transforme
Que meus vazios se tornem silentes
Eu tenho olhado para as coisas e visto
a sutileza vil de quem se disfarça
Um toque desnecessário a mais na perna
Uma imaginação mais longilínea e distante
Um gesto despretensioso cheio de pretensão 
Uma qualquer coisa aqui que não se pareça com isso
Sonhei que nós fazíamos sexo naquele banheiro
Confessou com uma espontaneidade ingênua, risonha,
Passei a língua nos dentes e fitei a cena
Tudo muda incrivelmente rápido
Apenas eu não consigo sair de minha
Rotação
Outros teriam prêmios que eu nunca terei
Quiçá eu pudesse me fragmentar de acordo
com quem faz parte dos meus dias?
Às vezes vejo gente que soa como se desejasse outra vida
Eu não consigo existir tão longe assim da minha
Rotação
E as coisas modernas e degradantes
Eu as detesto e as afasto
Sou um pequeno perdido entre gigantes,
entretanto, por vezes me basto
E sigo um caminho singular
Único
Ninguém imita minhas marcas no asfalto
Há quem me considere teimoso ou estúpido
Percebi, porém, que eu mesmo não me falto
Por tentar me aproximar e criar e crer em magias
Por ir além para tentar
Gargalho quando tentam me dissuadir
de coisas triviais e supostamente insignificantes
Vocifero quando me tratam como se eu fosse um inseto
Mostro os dentes quando me traduzem pedante
Desanimo quando me confundem
Eu tenho tentado ser claro durante a minha vida toda
E tenho falhado
Eu tenho tentado acertar e
meus dardos nunca acertam os alvos
Talvez essas coisas confusas nos doam
e nos estremeçam
Uma dor aguda na ponta do peito
Uma forte pressão na cabeça,
Talvez eu devesse fazer diferente,
mas insisto no meu jeito
Luto para melhorar, mas convivo com os fracassos
Faço o que posso, mas não sou feito de aço
As ilusões não são saudáveis, mas algumas
nos ajudam a permanecermos vivos
Alguns defeitos são o alicerce de nossa estrutura
e até deles precisamos para sorrirmos
Em uma festa comum, eu sou o mais incomum
E os assuntos verdadeiros e artificiais
Plásticos e gentis e desestimulantes,
como frutas falsas no centro da sala
Fazem-me pensar em coisas que não sei
Isso tudo dói e sufoca
E os gestos súbitos a mais
entram para uma inconsciência consciente
Absorvo tudo o que vejo e observo
Quando os sentidos se esvaem
Eu me fecho e me preservo
É uma resposta automática, defesa robótica
para o meu eu exageradamente humano
É que lido com esse terror
desde os meus primeiros anos
Passava noites em claro olhando vultos
Os brinquedos nas estantes eram sombrios
Ganhavam vidas e suas formas se assomavam
Uma sombra engolindo a outra
E virando coisa alheia qualquer
O vazio sempre brincou comigo
Provocação barata e sedutora
Algum dia você irá cair
Talvez faça um gesto a mais
Talvez aceite mais dos outros em você
do que você está acostumado a deixar
Talvez um dia deseje ser outro e viver outra vida
como frequentemente sente que os outros desejam
Tantos deles querem existir longe da própria
Rotação
Eu, rodo e me rodo, giro, sem cair no chão
Giro como um girassol, amarelo,
E personifico um violento furacão
Ainda assim insisto na minha própria versão
Quando tudo o que é alheio se sobrepõe ao que é meu
recordo do apanhador no campo do centeio
E da vida triste que ele viveu
Alinhar os desejos não é perder os próprios
Sonhar é viver
Agir é se perder em vida
Reinei tudo nos sonhos
Todas as vidas foram minhas
Cumpri com todas as minhas vontades
Atingi todas as minhas metas
Do jeito mais torto eu me tornei
um fruto do poema em linha reta
Aos poucos todos se enraiveciam com meus gestos,
mas não eram os gestos que haviam mudado
Dialoguei tanto com Deus que nos tornamos amigos
Recebi o seu emprego por uma semana
com a condição que estabeleci de continuar na minha
Rotação
Deus riu alto de mim, mas não tirou satisfação
A confiança é um prato que se come frio
Você verá o rosto da tua alma quando
conhecer a profundidade do seu vazio
Um toque a mais na perna
pode parecer mais sutil que um olhar
A frieza é algo que nos consterna
Há coisas que tardamos para mudar  
Tive medo de mim quando o escuro me atingiu
Tive medo de tudo quando seu sorriso sumiu
E o jeito com que me olhava todos os dias
mudou severamente
Por um instante de segundo
Tive medo do quem estava em minha frente
Às vezes me flagro vil
em imaginação
Neste mundo pueril, entretanto,
tenho sentido orgulho do meu coração
E tenho me antecipado quase sempre
E não atolado quase nunca
E pagado minhas contas
E não sentido tantas tonturas
Em mim eu vejo quem sou e vejo os outros rostos
vivazes ou mordazes,
Em mim eu vejo os outros e sinto
devagar a dor que eles também sentiram
Farto-me dos camaleões e me pergunto quantos
não seriam mais adaptáveis com a oportunidade ideal
Cuspo no chão para espantar o azar
Choro ao ver um relâmpago clarear o céu
Um dia brilharei fulminante e desaparecerei
Distinto e distante em mim
com a nobreza de um verdadeiro rei
Sem escapatórias e ébrio, oscilante,
Preso em parafuso na minha própria
Rotação
Tenho sentido muito medo
Quase tudo eriça meus pelos
Por muitas vezes eu sinto que me ofusco
para não atingir outra
Rotação
E bebo meus cafés como se significassem
desejando beber outros cafés
E esses gestos pequenos e significativos
Por noites e dias, de quando em quando, serão esquecidos
A gata preta dorme próxima dos meus dedos
e é pela ponta deles que se contam os segredos
E é pela insistência deles que se enfrentam os medos
E é pelos impulsos afetivos ou reativos
que mostramos nossa coragem
Muito é esquecido e muito é lembrado
Nada é definitivo
até ser definitivamente encerrado
Tenho sentido falta de ser um fracasso ambulante
Irresponsável, sem contas, sem pampas, sem tantas ou tantos,
Frequentador de botecos e escritor de qualquer coisa
Na minha antiga memória esquecida
Eu era irrelevante ao mundo, mas existia na minha
Rotação
E quando eu saía sempre alguém dizia
“Você faz falta”
E quando eu me ausentava alguém gritava
“Que silêncio nessa casa”
E quando em brigava, furioso, alguém sussurrava
“Esse aí é bem bravo”
E eu sorria sabendo que tudo era verdade
naquela minha ancestral
Rotação
Os gestos simples significam muito
Não queremos que nos peçam o que não devem
Queremos que nos entregam o que não querem entregar
Há um misticismo em colocar as peças no lugar
E os quebra-cabeças, difíceis, complexos, longos,
Ainda me deixam anuviado e completamente zonzo
Tenho vivido mais aventuras que Dom Quixote,
Tenho tratado queimaduras profundas como simples cortes
Quando me enxergam erguido
geralmente se encolhem
Ainda assim quase implodi quando ouvi
alguém depreciar outrem por conta de simples poemas
Subitamente uma vontade de desistir
se assomou aos meus tantos problemas
Que males a língua viperina traz
e nos entrega?
Viver é sobreviver na selva?
Revolvi-me para dentro de mim
Mergulhei mais fundo
O oceano é cheio de mistérios e eu também
Querer ser o que sou vai me levar além?
A água ficava mais gelada e eu
não aceitava o desânimo
Mergulhei mais fundo e percebi que morreria
sem ar
Melancolia é sentir que estar certo
é existir fora de lugar
Sinto-me desprezado e isso dói,
mas é melhor do que me sentir e me saber desprezível
Tudo é encarado como uma obrigação séria
Já não sei se me sei
Estar atento é rasgar minhas entranhas
Será que necessito mesmo dessa atenção total?
Revolvido em mim, eu abri os olhos
No lusco-fusco da existência
Vi meu corpo boiar pela correnteza
de um rio dourado
Contemplei corpos afogados
Tudo soa vago como se a vida não fosse assim
Ainda lembro dos tempos em que tinha
todos os sonhos do mundo em mim
Como ir adiante sem fraquejar?
Como ser constante se só posso me falhar?
Vivi sempre no preto e no branco
Desinteressado ou em encanto
Hoje me percebo completamente cinza
quando faces conhecidas me olham com náusea
Eu as carbonizo
E me visto de cinza dançando em destruição
O caos não é meu maior inimigo
Eu sou este algoz de minhas próprias capacidades
Sinto que falta o ímpeto
para o livro que me tornará celebridade
Falta ainda a chance para os meus romances,
mas tenho me anulado de todas as formas possíveis
Por vezes sei que tenho tempo de sobra
e sempre o desperdiço
Amaldiçoo-me, por não conseguir sair
de minhas próprias rotações
Sou o mesmo em cada uma das estações
E bebo café preto e sem açúcar
para me encontrar, enfim,
Quem sabe, amargo, desperto,
eu não saiba a resposta para um fim
E nos escritórios alheios os amantes
se deliciam com os corpos e prazeres carnais
Queremos acreditar nessas tantas diferenças,
mas a maioria destes tolos são iguais
E me inundo no desgosto da ingratidão
Dos maus amigos, das más pessoas, dos viciados em cenas,
Quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas,
Entretanto, o orgulho, deve existir e te manter de pé,
Como o rabo de um gato que continua balançando,
mesmo quando ele já está dormindo
É preciso se defender quando há tantos murros vindo,
As pedras desmoronam e quase me cobrem
Sei que estou vivo, mas este dia tem gosto de morte
Suspiro cansado, errado, imaginando quantos erros cometi hoje
E continuo na minha própria
Rotação
Interplanetário avanço,
Conto os planetas e estrelas na minha
Rotação
Distraio-me tentando entretê-las
Nunca me canso
Ainda bem que sigo meu coração
Levanto-me,
Deito-me,
Aperta o meu peito essa
Rotação
No espaço vejo a constelação de leão
Um velho blues que anuncia
Rotas antigas de separação
Destas pessoas de agora
Nunca vou me separar
Exceto quando chegar a hora
da morte nos levar
Choro até tarde e meus olhos ardem
tenho tantas coisas boas na vida
Odeio quando me confundem
Espero não odiar a minha partida
Escrevo romances para não morrer antes
E entre cozinheiros e ratos,
Entre poetas, reis e magos,
Há o melhor do que já existiu um dia em mim,
Penso em mapas antigos e crio criaturas,
Talvez em outro mundo eu escreva em eternidades
este amor que sinto e nunca acaba
Essas apostas que faço
Tornam-me gélido como o aço,
mas por você eu sei que insisto
Que nada nos dilacere e nos pare e que sempre
a gente se veja
Cada um na sua própria
Rotação
Girando suficientemente juntos
para sentirmos os ritmos de outro coração
Fazendo com que exista sentido
em uma canção sem som
Distraio-me quando o sono se aproxima
Perco-me de mais de meia dúzia de rimas,
Ainda assim fico com os punhos erguidos,
Estou completamente pronto para me defender
Rabo de gato distraído, eu às vezes me sinto perdido,
mas rezo para um dia vencer
Todos me abandonaram por alguns dias inteiros
e no futuro de longe no passado me vejo
Alheio numa casa grande repleta de solidão
Tudo bem, homem, erros são cometidos
Vão empedernir no teu valente peito
Continue na tua rotação,
Sinta orgulho do seu coração,
Ainda que nunca possa ser perfeito
Tenho sentido que os outros
não podem mais suportar serem quem são
Eu continuo devagar, perdido,
encontrado e esquecido na minha
Rotação.