Depois não tenho certezas.

Acordo antes e respiro

A mulher que amo

dorme ao meu lado e sorrio

Sempre fui gentil com as pessoas

Com as que odeio e com as que não gosto

e mais ainda com as que amo

Observo-a e me basto

Amar é olhar com cuidado e

Cuidar dos outros sempre foi

a única coisa que soube fazer desde cedo

Frequentemente alguém me dizia

Perto de ti não ouso sentir medo

Por vezes fui fatalista, mas vivi

tentando fazer a diferença

Creio que a felicidade destes dias

seja apenas consequência

Observo-a a dormir e sorrio

Este retrato no coração me acalma

Até quando ainda não a conhecia

sinto que a imagem já me acalmava

Toda esta leveza e poesia esteve

desde antes fixado em minha alma

O pé esquerdo dói e manco

Pisei em algo pontudo

Ainda assim, nesta manhã canto,

Porque a alegria traduz meu conteúdo

E me basto com a alegria de hoje

ainda que saiba que todas as horas seguintes

Trazem surpresas

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas

Levanto e faço o café

A mulher que amo continua dormindo

O cachorro que amo continua dormindo

A gata que amo continua dormindo

O gato que amo me seguiu até o escritório

Apenas para dormir mais perto de mim

Sou feliz e completo agora

Absorvo da vida toda a sutileza

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas.

Artista.

As coisas começam e acabam

Nunca duvide do que encontra

no rabo da palavra

Solidão e borboleta amarela

Anteontem extraiu do coração

Uma autodestruição das mais belas

Pintou uma obra de arte

A tinta seu próprio sangue

Por não se duvidar artista

Teve uma severa hemorragia e morreu

A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso

Junto com um bilhete e um último aviso:

Digam que ele nunca se arrependeu

Einmal ist keinmal.

Receita.

Prepare

Oito ovos mexidos

Saboreie um pedaço

de chocolate amargo

Beba três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Agora é só apreciar meio litro de café

para se manter em pé durante o dia

Se for domingo ou feriado

Finalize aquele livro do Dostoievski

Junte o que há no seu porão

Rascunhe uma crônica ou poesia

Se não for domingo e nem feriado

Vá para o trabalho e cuide bem

de todos aqueles números

Até os trabalhos mínimos importam

Evite pisar nos insetos e matar os besouros

Até as vidas menores importam

Ouse se conhecer e olhe para si e para dentro

Prepare uma mochila com um lanche caseiro

Dirija até o Shopping China e compre

Meia dúzia de coisas que você não precisa

Lembre-se também de levar chocolate amargo

O suco de limão caro compensa mais no mercado

Vagueie pela cidade nas noites e sente sozinho em um bar

Não saia correndo se uma estranha se sentar contigo

Ela precisou de coragem para ir até você

Agora você precisa de coragem para ficar

Portanto, sorria, mesmo que ela não seja tão legal assim

Ainda que você saiba que prefere ir para casa sozinho hoje

Se quer coisas novas na sua vida, deve permitir que elas entrem

Se o seu velho mundo está balançado

Entre discretamente em um novo e recomece

Nenhuma maldade ou bondade perdura para sempre

Passeie pela cidade aos domingos de manhã

Contemple o que há de natureza e o que há de natural

Esteja atento aos que se atrevem a te criticar e te elogiar

Há críticas justas e elogios insinceros, portanto, abra os olhos

É perigoso acreditar em tudo o que dizem sobre você

Essa paisagem com gosto e cheiro de paraíso

Muitas vezes é uma armadilha

Pode sair dela completamente afetado

Volte para a casa

A solidão te ensinou muitas coisas

mas é hora de adotar um gato

Sozinho não irei conseguir

Sozinho amadureci bastante,

Entretanto, não venci o mundo

Agora como mais um pedaço de chocolate

Peço um lanche completo na hamburgueria

com adicional de ovos

Bebo o suco de limão (aquele mais caro)

Assisto um seriado promissor ou um anime novo

Hoje o meu time de futebol não joga

Se for sábado, cuidado, há noites de duzentas horas

Sento e escrevo no papel

Vou até o escritório

Sento e escrevo no computador

Malho por duas horas e nem é início de madrugada

Sinto um tesão absurdo, porém não desejo ver ninguém

Bato uma punheta e ainda nem é madrugada

Meus pensamentos não se esclarecem e continuo acordado

Meus pensamentos não me esclarecem e continuo acordado

Escrevo mais um texto triste sobre amores

como histórias de fantasmas

Só alguns viram, mas todo mundo fala sobre

Do terceiro andar olho pela sacada larga

e vejo a rua deserta e a fábrica de tratores

Ligo o ar-condicionado do escritório

Ligo o ar-condicionado do quarto

Ligo Lord Huron na televisão grande

e danço desajeitadamente

Quando voltar para a minha cidade

Serei o peixe valorizado no mercado

Isso não interessa

Quando voltar para a minha cidade

Receberei o calor dos meus amigos e minha família

E choro de madrugada

Hoje é sábado (ou sexta)

E de amanhã não passa

Vou adotar um gato e escrever um conto

sobre um amor que foi e não é mais

E vou rezar, embora não acredite em Deus

Eu acredito mesmo é no suco de limão mais caro

e naquele pedaço mágico de chocolate amargo

Vou até a minha geladeira e repito a receita,

Embora tenha comido lanche horas antes

Preparo

Oito ovos mexidos

Saboreio dois pedaços

de chocolate amargo

Bebo três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Já sinto o cheiro do café

e vou beber um litro inteiro

Esta noite vou tirar de mim

Tudo o que é falso

E vou encarar o meu eu verdadeiro

Não é bem que os ovos e o chocolate e o limão

tornem-me imensamente satisfeito, entretanto,

Esses alimentos me situam e me basto no entendimento

Neste momento a vida precisa ser desse jeito.

Carneiro.

Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.

Retrato da Infância.

O retrato de minha infância feliz
está colocado na mesa de cabeceira da minha memória
Quando se cresce há tantos empecilhos para ser feliz
Há tanto que se pesa antes de chamarmos algo de felicidade
que todos os que tiveram uma infância boa como a minha
revolvem em si mesmos, como máquinas do tempo,
pela nostalgia de uma época em que era fácil aproveitar a vida
O quadro que vejo, do passado colorido e dolorido,
está emoldurado na primeira parede do meu coração
Mesmo quando eu optava pela solidão
Era pequeno, como as crianças costumam ser
e me orgulhava das minhas banalidades,
como as crianças costumam se orgulhar
Nunca imaginava àqueles tempos que eu cresceria
e me tornaria uma pessoa tão difícil e alta
Antes, infante, observava todos os bichos
sem imaginar que um dia haveria em mim tanta falta
Envelhecer é silencioso
Raramente, percebemo-nos envelhecer
é que meu coração ainda carrega as mesmas coisas que eu tinha
naquele momento distante em que eu acabara de nascer
Exceto pelas ausências que aprendi a acumular
E o vazio escuro, inseguro, que tenta me sugar
Já íntimo, nomeei-o como Vide Noir
Outro gênio já diria
Viver é perigoso
e só aproveitamos a vida sem medo
Quantos de nós não temos vergonha
de nossos pequenos segredos
mesmo após eles serem revelados?
As manchas deveriam ensinar para o futuro
e não afetar o presente que logo será passado
Tenho todas as idades porque a idade é uma mentira
A única verdade é que cada um tem uma cronologia
Sofremos, ainda que esteja claro para ver
Tudo o que nasce deve um dia morrer
Anteontem vendi minhas duas coleções de DVD
porque precisava de dinheiro para comprar roupas novas
Comprei um carro, mesmo que dirigir não me apraza,
porque preciso da facilidade da locomoção para ser prático
Preciso ser prático para evitar ser infeliz
É assim que as coisas funcionam e o mundo funciona
e há tantos cuidados que devemos tomar para não sermos engolidos
Aquele velho amigo inimigo se aproxima e o ouço sussurrar
Vide, vide, vide noir
Despenco no precipício de mim e no mais fundo
do meu ser enxergo novos horizontes
Por vezes tudo soa vago, mas vou existir longe
Volto aos tempos em que corria pelos parquinhos
Tinha medo de me machucar e chorava com facilidade
Deitava na pedra do quintal e seguia os insetos, sem machucá-los
Depois inventava um império robótico capaz de coexistir com eles
Os humanos não tinham humanidade o suficiente
para poupar vidas pequenas
E algo me dizia que toda vida valia a pena
Sentia um tosco orgulho em ser excelente nos videogames
Eu era feito de brilho e barulho, mas permanecia discreto e silente
Tudo em mim era muito e com frequência divagava
mesmo muito novo sentia que algo sempre faltava
E era seguido de perto por meus irmãos e meus amigos
Estava sempre acompanhado, até quando corria para o perigo
E cresci bem, intranquilo e forte
Ano a ano melhorei a minha saúde e a minha sorte
Espero conseguir cumprir meus sonhos antes da morte
A puerilidade que ainda carrego hoje reflete
a criança livre que tentei ser ontem
Tentar geralmente basta
E a gente sempre se gasta
tentando fazer mais do que pode
exagerando numa ilusão de necessidades
Acumulando uma lista imensa de vaidades
Desfilando nossa arrogância por toda a cidade
E aquela ingenuidade distraída que tínhamos
Aquela pureza do passado
Isso quase me deixou nestes dias
Envergonhado
Até que percebi que sou o mesmo
Andando a esmo
Cumprindo todas as minhas promessas
Tento me lembrar que não é preciso ter tanta pressa
E se no passado fiz apenas o que pude
A explicação é de que não poderia antes ir além
Um dia tudo passa, relaxa,
a gente vai ficar bem
Mude quando estiver preparado
e nunca se esqueça
Importa menos o ritmo
Importa mais o rumo
Há tantos novos algoritmos que entre eles
Sumo
Reapareço quase compreendendo
qual é o meu lugar
Não tenho a forma de uma estrela,
mas vivo sempre a brilhar
Assim, nunca mais ousei ser imbecil
e me envergonhar de quem eu sou
Até minhas partes mais erradas vibram por amor
Os anos perdidos estão emoldurados
na segunda parede do meu coração
Quando o futuro se tornar passado
Vou colocar alguns móveis de lado
e arrumar a decoração.

O cruel destino da autoidolatria eterna.

Meu sangue pinga pelo apartamento
Tinge o piso todo de vermelho
Congelam-se meus movimentos
Em face do que vejo diante do espelho

Escrevo no papel na intenção de me libertar
Ouço risinhos e cochichos aos montes
Nesta terra quase ninguém sabe o seu lugar
E eu, mesmo sozinho, vou existir longe

Distingo os tipos de sorrisos
Reconheço centenas de Narcisos
O cruel destino da autoidolatria eterna

Os bajuladores estão sempre serenos
Se fodem, se beijam e trocam venenos
Bebem com o mesmo deleite o suco, a cerveja e o esperma

Rumo.

Sinto saudade da estrada
Meus olhos castanhos escuros
chegavam nas boates e bares sempre procurando
Observava cada rachadura nos muros
enquanto a vida ia passando
Só me deparava com mentiras
espalhadas pela cidade
E eu que estava sempre na mira
Sabia que nas estradas havia
a única e esquecida verdade
Estar lúcido e sóbrio
prestes a desistir ou a admitir
É o consolo dos loucos,
Os que enxergam um pedaço da verdade são poucos
A consciência requer inevitabilidade
Quando podemos morrer a qualquer momento
somos honestos com a vida
Odeio ter a capacidade de ler as entrelinhas
Uma vez quase morri nas estradas,
E ainda assim sinto falta
das mãos no volante
E da necessidade de contar apenas
com meus reflexos para sobreviver
Qualquer caminhão ou ônibus
surgia como um monstro pesado
E eu, encolhido em meu carro branco,
antes de comprar um carro preto,
Sabia que não poderia ficar desatento
A vida é este detalhe discreto
E se dormimos na hora errada
somos esmagados como insetos
Há diversas plantações dos dois lados
e há bois e vacas e carneiros espalhados
Há também pombas que pulam no para-choque
e me pergunto se as aves se suicidam
As nuvens cinzas escolhem locais específicos para chover
E eu sinto falta do menino que eu era
antes da última primavera do mundo
Um jovem que acreditava em cartomantes,
dados viciados e na influência das marés
É estranho absorver a verdade
que o asfalto transmite
A máquina do tempo já foi inventada
É o cérebro quando estamos concentrados
em chegar em algum lugar
Qualquer lugar
Assim eu voltava brevemente
A minha prolixidade de sentidos
por vezes me fazia ficar calado
Essa prolixidade se fazia sucinta nos anos perdidos
nos quais sentia que nunca fui amado
E eu, grande mago da solidão,
carregava o charme de não ter charme,
O ar misterioso de quem não tem mistério,
O sono insistente em tudo o que me envolvia
contrastava com meu interesse imenso
em tudo o que me era alheio
E faziam filas para ter uma migalha da minha atenção
E eu olhava desinteressado e quase triste para o Vide Noir
sabendo que ninguém conhecia o buraco negro em mim
Aquela lacuna enorme que carregava tanta Dor e Beleza
sugava todas as minhas energias
Como restava algo em mim capaz
de encantar alguém?
E minhas vontades passavam
a 120km/h e eu sabia que tinha visto
muito mais do que o suficiente
E que nunca viveria o suficiente para
realizar todos os meus sonhos e desejos
Todo mundo é um, mas alguns
são um enquanto são dois ou três
Tenho me dedicado tanto
que por vezes me encontro aos prantos
quando um relâmpago lumia o breu da noite
Emociono-me diante da Beleza e sinto a sorte
de ser um homem que nunca sentiu inveja
Dirigir na estrada é
um ato contínuo de meditação
Se você tiver bons ouvidos
escutará o motor como seu coração
Os batimentos cardíacos unidos
Os radares querendo ditar limites
Os sonolentos nos tirando o ar
E os suspiros breves no peito
quando evitamos colisões e acidentes
E a consciência de que muitos outros
não conseguiram evitá-los
Viver é perigoso
Viver é raro
Viver é necessário
Se um dia tiver dúvidas sobre a vida
recomendo que dirija nas estradas
E se depare com a realidade
As mentiras, as cidades, os córregos,
os sinais de trânsito, o consumo, o dinheiro,
Isso tudo força a miopia na verdade
e deixamos de enxergar o que realmente importa
Abra as portas e janelas e veja
Ligue os faróis e encare os percursos
A vida é procurar e nunca encontrar
um rumo.

O que andam dizendo

A vida é certamente incerta,
eu disse e ela sorriu,
Depois me respondeu
com uma frase esperta
e logo então sumiu

Diga-me o que prefere:
o peso ou a leveza?
Prefiro que a vida seja leve
Já você opta pela tristeza

Bem, você precisa assimilar e saber
A melancolia era minha única companhia
Quando ninguém parecia se importar
Quando ninguém tentava me entender
É preciso ser sério nas situações sérias
e no resto do tempo buscar o riso e o prazer

Devemos nos divertir nessa vida
mesmo que nada disso seja um jogo
Tenho certeza de que não há garantias
de que viveremos de novo

Se você pausar o relógio
A vida lá fora continua,
Não seja sempre tão óbvio,
Cante hoje uma canção para a lua

Piche no muro ou na rua
Aproveite os detalhes da jornada
Sacie os seus desejos, pois logo tudo passa
A gente vem, vive, cresce e depois vira fumaça

Há convicções certeiras que esquecemos de lembrar
A vida começa, mas uma hora tem que acabar

Lá fora as pessoas desinteressantes
falam a todo instante sobre nós dois
Somos constantes amantes do agora
Nada fica para depois

Outra noite dessas saímos no escuro
Para um passeio diferente
Demos de cara com uma inscrição no muro
“Quem é que pode ver para sempre?”
Apesar disso nossos juramentos eram puros

Fodemos em todos os lugares
como uma maneira de nos afirmar
Todos os cantos da cidade, até os bares
se tornavam nosso lar
E eu ouvia sua voz melódica sussurrar:
nós fomos feitos para durar
Uma sina, um destino, duas pessoas,
Um par

Você gargalhava da intensidade do meu sentimento,
mas se aquietava quando me ouvia:
A vida é apenas movimento

E você se calava
quando alguém de repente declarava
que um dia haveria uma separação
Aquele pensamento não se enquadrava
no seu coração
Para ser sincero, confesso,
No meu também não

Os cães velhacos e sujos de barro
Os carros quase atolados
Os gatos miando de fome

O barato se tornava caro
A verdade era caso raro
E minha única oração era teu nome

Chamava-a com uma certeza ancestral
Fique
Nem tudo que acaba tem final
Acredite

Rabisquei um verso num caderno
Você me chamou de brega
Para chegar ao céu passamos pelo inferno
A beleza que importa é cega

Rimos e nos embriagamos
até que de repente houve uma briga
Não estava nos nossos planos,
mas nos afastamos pela vida

Olhares matreiros e gestos displicentes
O amor abafado pelos costumes
A gente ainda é o que sente?
O que explica tanto ciúme?

Meses, revezes, conveses
O que fazemos se tornar engano
Você entre os franceses
Do outro lado do oceano

Astronauta assando um cogumelo
Vermelho se tornando amarelo
O que nos alcança no reino do sono

A complexidade de um homem singelo
A máscara que oculta o belo
A renúncia, as denúncias, o abandono

Tudo muda de repente
E às vezes se sente o efeito
Nenhum dano é permanente,
mas algo ruim perfurou o meu peito

Ficamos por um fio, mas
Berrei pela cidade
Há conserto se ainda
há vontade

Mostre sua feiura me dê um abraço
Receba minha ternura e distorça
o tempo-espaço
A vida anda muito dura
Que saudade do seu abraço

Espalharam por aí boatos
sobre coisas que não estão acontecendo
Segura minha mão e sairemos vencendo

É necessário encarar essas afrontas,
Foda-se o que todos andam dizendo
A gente ainda se reencontra,
mesmo se acabarmos nos perdendo.

Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.  

Os amanhãs existem por um motivo.

Se tudo quero e tudo posso,
como tanto tempo depois
ainda te sinto nos ossos?
Acostumei-me a ser dois
Agora sou obrigado a andar sozinho
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam e me lançam
para o próximo capítulo?
Sinto, vez ou outra,
Qualquer lembrança turva e pouca
dos teus suaves carinhos
Estremeço por completo,
Trêmulo e discreto só me restam energias
para erguer um copo de cerveja num bar
Em minhas memórias jazem velhas fantasias
Nas madrugadas frias recordo outros dias
Onde você ainda era capaz de amar
Mel amargo azedado pelo recipiente sujo
Tua forma vale mais que o teu conteúdo
Tornei-me nada e o vazio ecoou dolorido
Em sonhos gênios me persigo sorrindo
Aquela criança
não deveria sofrer tanto
Ergue a voz e dissimula sua esperança
nas letras dos contos que canto
Cantos que cantei e devaneios que hei de devanear
Roubaria a lua apenas para te entregar
Pobre coitado, alguém sussurra
e dos cochichos tenho medo
Desajustado de vontades duras
Quem para guardar os meus segredos?
Sou patético, mas você não se esqueceu
da maneira como eu te beijo
Doce lembrança do teu corpo no meu
Amei tanto alguém que tão rápido me esqueceu
Acendia velas para queimar o seu corpo
juntamente com o meu pela madrugada
O espanto com tua beleza era sempre
inédito quando eu a via pelada
As orações de nossas peles então se tornavam
subitamente cálidas, agressivas e ousadas
Ninguém nunca antes, instantes,
todo o futuro que vivi na imaginação
Abracei qualquer coisa insignificante diante
do que restou de mim na minha solidão
Olha, eu não sei exatamente o que dizer,
mas honestamente ainda me lembro
dos caminhos para te dar prazer
Suas mãos alcançavam o meu pescoço
Tua boca provava o meu gosto
E eu te erguia nos braços
Eu, você, outras rotações,
Lembranças de antigos verões,
O nosso próprio Tempo-Espaço,
Nossas brisas todas furacões
Puxo seus cabelos e aceito o que me oferece
Às vezes nosso amor deixa marcas na pele
E tudo se sucede como se fosse a primeira vez
Estar ao seu lado era meu maior privilégio
Ainda me lembro de como me sentia rijo e régio
Estreamos uma cama alheia embalados pelo vinho
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam para o próximo capítulo?
Caio de joelhos
em meados de fevereiros
Os miados afogados
que ouço reverberam pela eternidade
Quando tudo se acalma choro desolado
e meu grito de agonia acorda a cidade
Revolvo-me e endureço mais
Já não sei se sou capaz
de encontrar meus velhos sentidos
Eu só queria ter uma resposta
Uma velha ou nova aposta
do que aconteceu com os anos perdidos
Estremeço e a vida soa como morte,
Para onde foi minha sorte
Parece que estou sempre sendo punido
Sofro com os novos cortes
e carrego cicatrizes inéditas comigo
Será que um dia irei me encontrar
ou viverei eternamente perdido?
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam e me lançam
para o próximo capítulo?
Um lema antigo sacode a minha alma
Respire fundo e tenha calma
Os amanhãs existem por um motivo
Sobreviva e valerá a pena ter vivido.