O apartamento.

Há um pedaço grande e indefinido
que penso me pertencer, sem certezas,
Ele, que também sou eu, faz exigências
Exige horas solitárias para o processo criativo
Já eu exijo meu café quente para me sentir vivo
Há horas em que as exigências se mesclam
e não sei qual voz fala mais alto e quem escuto
Se o pedaço solto também é meu, afirmo, a outra voz é minha
devo hesitar em seguir as minhas próprias sugestões?
Não sei se nesta manhã confio muito em mim
Subo as escadas e estou no terceiro andar
Viro as chaves e entro no meu apartamento
Ninguém me espera e respiro fundo
É um apartamento espaçoso para uma pessoa
Ganho dinheiro o suficiente, mas não há nada
Um barulho me distrai e ando até a sacada
É a primeira vez em mais de setenta dias
que posso contemplar uma manhã
Meus olhos vislumbram tratores e
me dou conta do tamanho como algo novo
Meu coração se enche de tristeza
Observo homens carregando caixas
Operando empilhadeiras e tratores
Raramente rindo acima da confusão
dos sons altos das máquinas pesadas
Não há mulheres entre os trabalhadores e
ainda assim os homens são mais felizes que eu
Falta-me qualquer luz mínima para findar o breu
Olho para dentro e penso no tanto que já me aconteceu
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Não há mulheres na minha vida, tampouco há amor, sexo e esperança
Há o apartamento no qual moro e existo solitário
Aqui passo minhas pouquíssimas horas fora do trabalho
O bolso cheio, às vezes, coloca-me um sorriso no rosto,

entretanto, ando até a sacada e observo os tratores
Não tenho amores, amizades, carinho, sexo ou respeito,
Não sinto o ódio ou o descaso ou as distrações
É como se a cidade estivesse abandonada ou
tivesse optado por me rejeitar desde o princípio
Tudo o que tenho é este apartamento silencioso
e o suco de limão mais caro do mercado
Bebo o suco de uma só vez e calculo
quantos centavos vale cada gole
É a vingança da minha vida de solidão
Não entendo, mas sei que preciso passar por isso
No futuro passarei por coisas piores e a dor de hoje
me moldará para os desafios inexplicáveis de amanhã
Todo mundo morre no final, eu me ouvi dizer,
É preciso tomar cuidado com a linha que traduz vencer
Respiro fundo e sinto uma brisa gélida
Fecho os olhos e vejo paisagens lindas e lúgubres
através de janelas que nunca pude ver
Sinto como se estivesse ficando louco,

mas há os tratores e a pizzaria na esquina
A realidade é pesada e o barulho me situa
Há um pedaço grande e indefinido,
que penso me pertencer, sem certezas,
A escuridão que assola a minha vida hoje
não chega perto da que eu sentirei um dia,
entretanto, lido sozinho com a cidade alaranjada
Repleta de coelhos brancos e ofensas no trânsito,
Vislumbro um bebê no meu colo
em algum lugar perto de lugar nenhum
Sonho diurno com a vespertina carioca,
Sou o único que capta o momento
em que um camaleão troca de cores
A vil adaptação quando não é feita apenas
por motivos de sobrevivência
Pisco os olhos e descubro o que acontece
após um assalto mal planejado
Olho de frente para uma mentira
que não faz o menor sentido
Conto coisas que canto e canto coisas que conto
As palavras me abraçam nesta desértica solidão laranja
O céu rosa subitamente acinzenta e a tempestade
me convence de que haverá alegrias e tristezas aos montes
Preciso ser feliz e triste para aprender melhor
A vida será ridiculamente mais difícil no futuro, entretanto,
Lá adiante não ando mais sozinho
O apartamento não é mais meu último conforto
O trabalho com números não é o único caminho.

Véspera

            Amanhã é meu aniversário e outra vez não haverá celebração. Consterno-me com isso? Se devo reconhecer algo é que o meu aniversário do ano passado foi excelente, apesar dos pesares. Dois mil e vinte foi um ano de altos e baixos, mesmo com a morte de milhares. Eu realmente gostaria que o cenário fosse mais auspicioso e que toda felicidade não me parecesse tão distante assim. Quando o caos do mundo faz um barulho ensurdecedor, você consegue se manter reto e discreto com a memória do amor? Quando tanta gente fala, você se cala e escolhe o que é melhor para você ou fecha os olhos numa jornada hedonista que visa só o prazer? Os outros sabem pouco e pensam saber tudo. Sei que estive perdido e solitário por tantas noites que, às vezes, eu sinto que definhei sozinho em uma madrugada de janeiro e fui esquecido para sempre. Sinto que minha mente de ficcionista, expansiva e dominante, criou novos mundos para que eu pudesse existir, pois mesmo derrotado eu nunca fui o tipo de pessoa que desistia de algo tão precioso como a vida. Por onde andei? Alguém realmente me procurava?

            No início do ano, eu estive presente no hospital no dia do nascimento do meu sobrinho e sempre me sentirei privilegiado por essa oportunidade. Tantas caminhadas na praia das dunas e como consequência apenas sol e alegria nenhuma. Minto. Estar próximo do meu irmão me trazia felicidade e poder abraçar ele e seu filho no dia 04/01/2021 vai ser sempre das maiores coisas frágeis que pude contemplar na vida. É estranho, mas tento me agarrar nestes pequenos milagres para seguir adiante com coragem e não pensar na gigantesca onda que quase me afogou. Fui empurrado até o fundo do oceano por essas coisas horrendas e tudo o que eu sentia na boca era o gosto de água salgada. Lembro-me da nossa primeira despedida, depois de dias, depois de tantos jogos compartilhados e risadas e açaís e sorrisos… ainda meses antes da chega do pequeno Rodrigo. Os rituais lentos de Matheus, os meus gestos rápidos, a cumplicidade de quem se importa em se lembrar ressaltando a importância de não se esquecer no meio do processo. Eu te amo como você é, mas você pode ser melhor, eu disse para ele e absorvi meu próprio conselho. Eu sei que me agrada, mas não sou viciado na imagem que se reflete quando olho no espelho. Fosse eu viciado na própria imagem, tentaria viciar os outros nela também e assim adquiriria coisas por atalhos. O hedonismo me diz que devo desfrutar de todos os prazeres, ignorando todo o resto, se o posso. Sou esta figura narcisa retratada por Wilde a mais de um século? Matheus então zomba de quem precisa tanto da própria imagem. “Não é você que me diz, Dani, que quem só olha para fora nunca enxerga o que existe dentro? Temos defeitos, irmão, mas podemos mais”. Sempre pudemos. Choro ao me lembrar de como alguém esquecido como ele foi capaz de gravar minhas palavras. A ilusão é o primeiro dos prazeres e muita gente se contenta com as mais baratas. Detesto essas ambições tão rasas. Volto na questão. Poderia eu ser retratado por Oscar Wilde?

            A resposta negativa me fez suspirar longamente. Não sou e nunca serei escravo da voz alheia, mesmo que reconheça o poder do privilégio. Todos fitam sua imagem e você tira vantagem destes tantos ébrios. O sorriso pernicioso percorre atalhos e você se pega em um ponto complexo, ainda que simplório. O que pensaria ao fitar seu corpo no próprio velório? Você encara a velha confusão entre quem se perde nas definições de liberdade. Até mesmo os mais livres se pegam, de quando em quando, contemplando seus dilemas morais. Vivi, chorei, acertei e até me emocionei. O que é que faço de mim quando me reconheço? O que eu me represento se nem eu mesmo me obedeço? Fiz de mim o que não soube? Amo-me o suficiente, mas por vezes desejei ser qualquer um que não fosse eu. Busco estradas para locais seguros, mas piso em armadilhas óbvias e me machuco. Os réprobos me salvam, mas querem compensação. Sinto que os compenso, mas será que realmente os compenso? A realidade dói quando sei que mereço coisas boas e elas se afastam. A vida inteira parece um teste de matemática e não tenho minhas professoras para me tranquilizarem sobre os números. Quando o mundo se apaga, vozes traiçoeiras nos empurram. Às vezes os mais próximos nos afundam. Parto para o ataque e me reteso. Não acredito em Deus, mas às vezes rezo. Posso mesmo carregar todo este peso? Admito que tropecei muito e até me perdi de mim. Será que tudo tinha mesmo que ser assim?

No meio desta cronologia maluca, eu me peguei desconhecendo as razões de fazer o que eu fazia. Vivi incontáveis madrugadas de silêncio violento. O tiquetaquear do relógio ribombante transforma meu coração em uma bomba relógio. Se eu explodir esta noite estarei completamente sozinho. Pelo menos meus destroços não machucarão nem mesmo meus vizinhos. Penso mesmo na saúde do vizinho de casa? Eu que sempre fui rei dos céus nunca mais pude abrir minhas asas. Estranho é deixar de pensar nos outros quando os outros sempre estiverem em primeiro lugar no meu coração. Sofri e quase me afundei. Nos meus instantes de força bruta e lucidez, eu nadava até a superfície e recuperava o ar. Algumas pessoas me puxavam de volta para me chutar para o fundo do mar. A solidão crescia no meu peito enternecido. Cada dia eu era mais cônscio da vileza do mundo e da quantidade de perigos. Endureci sem nem perceber. Senti a minha força expansiva de sonhar esmorecer. Talvez a vida não seja muito mais do que sofrer e fazer sofrer. Talvez devamos valorizar os que nos ensinam sobre Beleza e Dor.

Continuei a ver a vida, mas deixei de senti-la. Andava, mesmo que não sentisse minhas pernas. Comia mecanicamente, como alguém que se esquece de que nem todas as refeições carregam o mesmo aroma e sabor. Flutuava pelas noites e dias como uma sombra discreta de mim, eco distante da minha totalidade. Não sentia vergonha de coisa alguma. Não sentia orgulho de coisa alguma. Tornei-me fantasma. Deixei de escrever e senti que havia perdido tudo. Sabia, ainda que não trabalhasse para me evitar, que se me perdesse das palavras estaria desmaiado para com a verdadeira vida. Não tinha força para buscar tudo o que estava longe. O que me fazia continuar? Os milagres que eu já tinha visto ou os que eu esperava ver? O que me levava ao autoabandono?

Até hoje não sei identificar com precisão o momento em que eu me afastava dos caminhos que tanto amei, mas olho para minhas culpas e as enfrento, mesmo que elas ainda me assustem de quando em quando. Nunca clamei por atenção, mas há outras maneiras de gritar socorro. Só não sucumbi pela presença dos meus gatos e do meu cachorro. Só os medrosos podem agir com coragem. Só os valentes caminham para a escuridão quando o resto do mundo congela, mesmo com as pernas trêmulas.

Sou fogo que arde e minha luz iluminou, no mínimo, uma dezena de pessoas, mesmo quando me esqueci do meu valor. Oscilo, mas continuo em frente em nome do amor. A vida é difícil, mas ainda vou existir longe, brilharei no horizonte durante minha próxima cena. Serei sutil e profundo como um poema. Sei que muito errei e que de quase nada sei, mas viver sempre vale a pena.

A virada de fevereiro para março me trouxe de volta velhas novas esperanças e o sabor esquecido de uma felicidade real. Vivi noites de natal em pleno carnaval. Sofri e aprendi. Errei e me aprimorei. Sou o mesmo, mas sou alguém melhor. Sinto que quando olho, encaro o cerne de tudo e me sustento em temperança. Se tenho a oportunidade para mudar tudo com as minhas próprias forças, eu sei que um dia por vez vou perseguir o que sempre quis. Nunca mais nessa vida subestimo a oportunidade de ser feliz.

Sinto falta de muita gente, mas ando destemido e contente, agindo como um adulto, mas mantendo meu coração de menino. Não sei o que haverá pela frente, mas sinto segurança no coração e na mente para correr atrás do meu destino.

Um escritor não se perde da escrita.

Um escritor não se perde da escrita. As palavras se deitam atrás de planuras e ficam temporariamente inacessíveis. A capacidade de contar histórias, a beleza narrada nas peculiaridades e mínimos detalhes, a poesia extraída como uma fruta espremida até o limite e a delícia do suco… isso tudo sempre persiste.

Há esta espécie de sono metamorfoseado em outra coisa assustadora, crescente, ensombrecida. O escritor não sente letargia e nem vontade de dormir, mas assim como quando em sono profundo, ele fecha os olhos e a alma divaga para longe e é preciso tomar muito cuidado. O Vazio representa a ruína de tudo.

Vivo a vida, às vezes, no limiar da realidade e desfruto o prazer supremo ao mesmo tempo em que me puno com a dor eterna. A sensação é livre de vícios, mas estar livre de vícios se parece tanto com um vício que a ambivalência da liberdade nos guia para caminhos tortos e estranhos. O que você faria se não tivesse a obrigação de fazer coisa alguma? No que você pensaria se não influenciassem no seu pensar? Tudo é lícito ou há proibições sensatas? Veja como descascamos nossas camadas e nos aproximamos da nossa essência. Veja quantas normalidades se tornaram estranhas e quantas estranhezas se tornaram normais e ainda assim, é preciso ter paciência.  

Um escritor não se perde da escrita. Ele é capaz de reviver memórias antigas e fixá-las com os dedos no tempo presente. Quando isso é feito e os olhos salgam enquanto os dedos sangram, é sinal de que essas memórias passadas ainda estão vivas e o que foi ainda é e há muito o que dizer sobre o que não foi dito e agora tudo escorre. É preciso correr atrás do que faz o coração acelerar. É preciso insistir no amor. Quando o mesmo processo é feito e os dedos apenas queimam, verifica-se a prova de que os incômodos já não são tão urgentes assim.

Todos têm sonhos, assim como eu, quase todos pretendem realizá-los, bem como também pretendo, mas nem todos chegarão até eles. Devo me entristecer pela hipótese de nunca me concluir em longas conjecturas hipotéticas? Sei que não devo. Tenho a oportunidade de celebrar alegrias inéditas que nunca planejei. Entristeci pelas coisas que não pude mudar e pelas coisas que mudaram enquanto eu mudava. O que realmente existe e fica perto do nosso controle? Para um escritor, você supõe, que são as palavras? O escritor nunca se perde da escrita, mas às vezes se perde de si mesmo e sumir de si mesmo é tropeçar no fundo do poço. A queda brusca, violenta, deixa-nos completamente machucados. Tentações, perigos e ecos de morte surgem como sussurros insistentes. Apavorados, convivemos com o medo de ceder. Quando a mente não pensa, a voz não sai, o escritor secretamente alimenta a esperança de que os dedos gritem o pedido desesperado de socorro e nem sempre é assim que acontece. Por vezes apenas sufocamos enquanto o resto do mundo nos esquece.

Um escritor não se perde da escrita. Está por conta do ofício obrigado sempre a se escrever, descrever, transcrever. Não é preciso caneta, papel, teclado ou computador. Os dedos seguem o ofício de criar textos e organizar palavras, mesmo de olhos fechados, mesmo na inconsciência ou na consistência do amor. Grandes inícios em parágrafos bem estruturados e finais trágicos em histórias surpreendentes. Não, um escritor não se perde da escrita, mas a escrita pode exercer sua função de ocupar distâncias e preencher lacunas. O escritor aprende e ensina através dos tantos textos. Percebe que, embora encontre neles sua própria voz, o desenvolvimento nem sempre é o mesmo. O escritor evolui conforme lê mais, entende mais e se atreve mais. É preciso mergulhar profundamente em mares selvagens e se defrontar com monstros lendários e esquecidos. O escritor é aquele que sabe que todo inimigo pode ser vencido, embora não compense acumular inimizades ao longo da vida.

Porque a vida deveria ser mais feliz, redonda, mas os problemas que nos cercam por muitas vezes não são solucionáveis e temos o hábito sombrio de complicar tudo o que é simples. As tragédias mundanas não se equiparam com tragédias individuais, pois dimensionamos as coisas com os nossos próprios sentimentos e não com o coração do mundo. Respiramos com nossos próprios pulmões e só nós perdemos e recuperamos o controle de situações pessoais. Somos pequenos e consequentemente nossas angústias não podem ser tão expansivas quanto nossos sonhos. Esquecemo-nos que temos a capacidade para existir ao longe, ecoar nossas vozes e risos ao som de fundo do planeta, como pequenas caixas de som, propagando uma mensagem auspiciosa, que reverbera. Temos o potencial para ser a beleza que renasce junto com a primavera. Merecemos muito mais do que uma vida de sacrifícios diários por salários baixos. Merecemos abraçar nosso protagonismo e viver esse heroísmo que já estava escrito nos astros.

O escritor é aquele que sabe que saber muito vale tanto quanto saber nada. É aquele que possui a consciência de que vidas se gastam, amigos se afastam e tudo muda em uma curva na próxima estrada. Há qualquer coisa californiana no meu coração, ainda que eu nunca tenha chegado perto da Califórnia. Há qualquer coisa noctívaga, ainda que eu tenha nascido perto do meio-dia. Transbordo a minha sensibilidade na demonstração absoluta da minha sinceridade e sou retaliado com a precisão certeira de um costureiro hábil. A agulha entra e sai em pequenas incisões e o trabalho, lento e bem feito, não deixa nenhuma ranhura na costura já pronta. Lançam o manto e me cobrem. Percebo-me na escuridão e sinto as pancadas. Observo, absorvo e aprendo, mas no escuro não me defendo. A cabeça de muita gente funciona de um jeito pequeno. Pudera eu ser mais sereno, mas sou como posso no momento em que posso e sinto nos meus ossos essa sensação como um dever. Faço o que for preciso, consciente de que algumas vezes vou perder. O escritor é aquele que sabe que nem sempre poderá se proteger, mas é também aquele que aprende que nem sempre vale a pena atacar. A lei da vida é que tudo muda sempre de lugar.

Respiração profunda em um interlúdio que faço em mim, assim como Tomas se perguntou, eu também me pergunto, tem que ser assim? Pego-me de cócoras afagando a gata e o cachorro. Nenhum ouvido escutou os meus pedidos de socorro. Aprendi e desaprendi, caí e me levantei, sofrendo com influencias sutis, próprias ou alheias, distraído com um ou outro perfume distante, devaneando com memórias distintas ou lastros falsos, seduzido por ritmos confusos em uma canção perfeita, induzido por algo que não vejo, mas que me empurra e me conduz, que me aproxima e me afasta, mesmo em uma simples caminhada, do meu próprio caminho. Aprendi que a gente só se aprende quando ousa existir sozinho, mas que a solidão demasiada é uma doença sem cura. Quem muito se afasta se desacostuma com a ternura. Quem muito se distrai se esquece das responsabilidades dessa vida tantas vezes dura. Nada pode ser tão leve. Nada pode ser tão pesado. Nos encontraremos em um lugar onde não há escuridão e podemos deixar o passado de lado, sem nunca o esquecer. O esquecimento é o primeiro passo para jamais nos aprendermos.

O escritor é aquele que existe atemporal. Um dia eu vou, todos vão, mas talvez meus textos fiquem espalhados em portais da internet e a vida de alguém se valha outra vez em algo profundamente místico que eu disse sem a intenção de dizer e não me lembro. A grande obscuridade dos verdadeiros milagres é que eles acontecem o tempo todo, mas somos incapazes de notá-los. Talvez eu já tenha escrito algo suficientemente poderoso para mudar uma vida e isso baste absolutamente, mas talvez seja tão insubstancial na minha visão que eu enxergue meus textos como um acúmulo de palavras torpes para aliviar meu coração pesado com a responsabilidade crescente de melhorar as coisas.

Que coisas? Ora, todas as coisas! Desde pequeno devaneio com um planeta sem maldades, porém a pungência da maldade é tão expansiva quanto à da bondade. Meu melhor amigo está certo quando diz que a noção da nossa malícia e potencial para fazer vilezas define a nossa postura principal de vida. Isso não quer dizer que não possamos errar, que não sejamos “maus” de quando em quando, muito menos que os nossos erros nos definem, mas significa que temos que olhar para a nossa vida como se ela fosse simultaneamente séria e cômica. Pender muito para um lado só é se desprender da noção de realidade e absorver-se todos os dias em um cotidiano imaginário é uma armadilha perigosa. Mergulhar em um devaneio sem fim faz com que percamos o fio que nos liga ao que existe.

Os perigos são reais, ainda que não soem como promessas de periculosidade. Há quem prefira viver em cenários hipotéticos e falsos, há quem ignore os males do mundo, os presidentes estúpidos, os vírus letais. Sei que faço de mim o que preciso, às vezes para viver, às vezes para sobreviver, porém não arrisco quem eu amo no meio do processo. Nem o cuidado absoluto garante qualquer tipo de sucesso. Nem mesmo mortes garantem o nosso apreço para com a vida. Toda vida passa e em algum momento é esquecida. Sinto-me como uma pilha estourada, vazando, viscosa. Sinto que, às vezes, só a substituição pode me salvar, mas não me substituo e assim a vida continua. Ajoelho-me e rezo por tudo o que firo e por tudo o que me fere. Oro pelos mortos, mas principalmente pelos vivos, pois por eles não há muitos que velem. Respiro profundamente e olho a vida. Vejo detalhes mínimos e inspiro e solto os meus desconfortos. A minha sensibilidade é aguçada, entretanto, creio de maneira retilínea que poucos fariam por mim o que eu faria por eles. Há maneiras de se preservar ou o único tipo de autopreservação é pela exposição completa?

A alma exposta representa nossa liberdade cantada. Alegro-me por coisas que sinto e por coisas que não sei dizer. Passo o café antes do lusco-fusco, sento-me e, enfim, permito-me relaxar. O relógio marca 17:37h e tenho compromissos, porém ainda não consigo cessar de escrever. O escritor é aquele que nunca se perde da escrita e que detesta veementemente se interromper antes do derradeiro final. Não, a vida não exige finais espetaculares, apenas finais bem escritos, histórias bem vividas, amores verdadeiramente amados. Eu recuo e me disponho a viver outros sonhos e correr por tudo o que sempre quis. Certa feita fiz pouco caso sobre ser feliz. Bobagem! A felicidade é tão importante quanto continuar sobrevivendo e da glamourização dos sacrifícios não pode advir nenhuma espécie de bondade ou resultado positivo. A felicidade é o melhor combustível para se sentir vivo!

Um escritor não se perde da escrita, mas muitas vezes nela ele se acha. Encontra-se consigo mesmo e as peças repentinamente se encaixam. As lembranças, as aventuras, os sorrisos, os perfumes, os momentos, tudo isso fica e permanece, mesmo quando a gente parece se esquecer. Esta tarde, tão quente quanto o restante do dia, morre devagar na promessa de uma noite mais fresca. Somos fugazes como o conceito de dia e nos deixamos morrer a cada sono para renascermos ou somos constantes e empedernidos, montanhas resistentes contra as adversidades? Deveríamos apostar mais nas coisas mais importantes que temos em nossas vidas.

Um escritor não se perda da escrita. Palavras se acumulam em linhas e mais linhas de quem tem a necessidade de rasgar o peito para abrir toda a realidade dolorida. Dolorida e colorida, pois onde há dor, há promessas da verdadeira beleza e do amor. Nenhum prêmio chega sem merecimento e ensinamentos obtidos através da dor nos ensinam por muito mais tempo. Crescemos, envelhecemos, sem nunca nos abandonar. O capitão permanece no navio até o dia que ele afundar.

Não sei que efeito novo a vida velha produz em mim, mas sei que me sinto apto a sentir coisas novas. Sei que o verdadeiro amor suporta toda e qualquer tipo de prova. Sei que sei pouco, mas fiquei rouco de tanto gritar minhas verdades. Outro dia desses sorri ao ver minhas frases em outdoors pela minha cidade. Sou a camisa pesada no varal, resistindo contra o vento violento. Tenho o peso das milhões de partes pelas quais sou formado e olho no olho de cada uma delas. Evoluo devagar. Converso com pessoas para entender mais sobre pessoas e busco uma compreensão profunda do que se faz pela sensação única de que deve ser feito. Vejo a espontaneidade. Vejo a malícia. Aproximo-me. Afasto-me. Torno-me mais inteligente, arguto, capaz, mas uma sonolência de ações se apodera de mim. Não quero me tornar inconsciente através de um processo intelectual e consciente que me faça permitir tudo. Não quero aceitar adaptar todos os meus comportamentos e me tornar alguém completamente novo através de uma hipnose dos sentidos. Tanta gente especula e só eu sei o que acontece comigo.

Um escritor não se perde da escrita. Escrever resume tudo o que ele acredita. Dia após dia, os escritores seguem batendo nas teclas e expondo suas opiniões e sentimentos, suas verdades e seus momentos, ansiando para que tudo isso baste. Tornar-me-ei frio? É preciso seguir em frente com coragem e brio. Um escritor é o arco e também a flecha. Lançado ao ar, ele sobre, desce, acerta e se conecta. Ele pode traduzir sentimentos, sensações, como poucos podem fazer. Quer alcançar o que raramente se alcança. Os cantos que conto traduzem diariamente minhas diversas mensagens de esperança.

A respiração cessa. Escuto um som distante. São os passos que se aproximavam no passado e com toda a sutileza do mundo se aproximam novamente. Como senti falta desse jeito de andar. Os saudosistas felizes sempre estarão com o coração cheio, mesmo que vazios de presenças físicas. Lacunas são preenchidas ou não, há tentativas válidas e esforços em vão. A força deste milagre faz com que eu me sinta exposto. Celebro-me por existir completo, mesmo que não me considerem completamente são. Transbordo o tanto de coisas boas que carrego no coração.

Deito na relva e observo as estrelas na escuridão profusa do céu noturno. Recordo-me de quando uma estrela singular surgiu no portão de casa. Não acreditava na força do Universo até ser forçado a crer em magia das estrelas. Antecipei-me ao que viria, sem saber direito o que de algum jeito eu já sabia. A sensação de amor é inigualável e os que vislumbram dessa sorte, precisam saber aproveitá-la. Não se vive mais de uma vez, assim, não há como verificar acertos e erros, exceto pelo próprio limite consciente. Esticar a consciência infinitamente para comportar tudo e transformar sua narrativa própria em um grito de liberdade, parece-me oportuno e instável. Qualquer um pode se convencer de que não há erros e de que tudo é válido. Isso torna realmente tudo válido?

Um escritor é aquele que se perde e se encontra nos próprios delírios. É por natureza um acumulador de martírios. Acumula-se também experiências e através delas nos moldamos. Temos a capacidade de nos transformar com o passar dos anos. Nota-se pelos textos e pelas experiências que é preciso continuar se expandindo. O mundo é quase sempre o mesmo, mas às vezes parece mais lindo. É quando os olhos, sempre distraídos, interrompem-se para cuidar das coisas frágeis. Nossos instintos geralmente fugazes nos tornam apressados, não ágeis.

Um escritor não se perde da escrita. Escreve para lembrar, escreve para esquecer, escreve para se manter afiado e levar ao longe a compreensão de que é possível seguir. O escritor é aquele que faz uma leitura aproximada do que ainda está por vir. Analisa-se o mundo e tudo o que acontece com a passagem dos anos. Como aceitar que o tempo perdido não foi um grande engano? Aprendemos exatamente o que deveríamos, ou seja, não há atrasos e nem antecipações. Como sobreviver sem carinhos e aglomerações? Há quem tenha perdido pessoas próximas sobrevivendo com frustrações e enormes lacunas. Sinto falta da presença do meu irmão, do cheiro do meu sobrinho e da praia das dunas. Ainda assim, celebro-me. Desta vez estou localizado em mim e isso é motivo de alegria. Não há segredos, mas calei meus medos ao me dedicar mais e começar a viver um dia de cada vez. O meu melhor me basta hoje e se não bastar aos outros, bem, eu posso lidar e conviver com isso.

Que me pungem essas ausências distantes? Tenho desenvolvido a minha ingenuidade corajosa. Tenho sentido que a Vida e a Morte vão me colocar à prova. Por vezes sou excessivamente severo, especialmente comigo. Funciono na base da lei do crime e castigo. Creio que tudo o que vai, volta, mas isso nunca me consternou. Antes acreditar de novo na vida, eu sei que vou ter que abrir minhas feridas e permitir entrar mais amor. O que devo fazer quando não sei bem o que fazer? Pedir conselhos aos mais estúpidos que eu? Entrar em uma reclusão prolixa de sentidos e ações? Será que os que se fingem cegos realmente protegerão nossos interesses?

Um escritor é aquele que não se perde da escrita. Os dedos procuram as teclas, mas há coisas mais especiais do que os textos. Quando minhas mãos se encontram com outras mãos, sinto que a vida não é mais um vagar a esmo. O coração acelera em novos ritos de ciúmes. Em um jantar à luz de velas estou a me render pela fragrância de um tipo específico de perfume. Tudo se cala quando o mundo deixa de existir ao redor. Pode ser só por algumas horas, mas a vida se torna muito melhor.

Um escritor não se perde da escrita. Escrevo por necessidade, por prazer, para não perder a doçura, para não perder o amargor. O ato da escrita é representado apenas pela escrita e tudo significa, mesmo quando não significa nada. Sinto que preciso de um tradutor de mim em mim. A minha língua-espada hoje se defende, mas pouco ataca. Há que se procurar estes meios termos ermos.

Confesso que por longos meses temi e me explicar sobre temores é demasiado prolixo. Lidei com tantos fantasmas, eu admito, ao ponto de recear me tornar um. O que garante que não somos o que não queremos ser?

A cautela nos auxilia nos direcionamentos. Por vezes sobrepujamos nossas próprias ações com atitudes desconexas de nós, completamente sem sentido. Há, porém, raros momentos de vislumbres magnânimos, celestiais e aqui existimos como seres sublimes. Somos punidos por nossos equívocos, mas comemoramos devidamente nossos acertos? Realizamo-nos com coerência? Sustentamos a convicção de que por muitas vezes já atingimos certos ideais que vislumbramos? Somos o que podemos ser e temos as características mais nobres que buscamos, entretanto, sem a validação externa, diminuímo-nos, ofuscamo-nos, apavorados com a nossa própria capacidade de brilhar. Tornei-me arisco quando verifiquei a quantidade de aproximações por interesse. Resolvi, porém, os outros não poderiam ser motivo para me desanimar. Aos outros o que é dos outros e a mim o que é meu. Respiro fundo e sorrio. Desejar a felicidade alheia é um dos instintos mais puros e nobres da alma e noto que não sinto ódio nem de quem me odeia.

A vida é um pasto verde que de repente se incendeia, como no quadro em chamas da fazenda na sala da casa dos meus avós, obra de arte que fez nascer a primeira poesia escrita em mim. Estranhos acasos da vida. Encontrei minhas salvações perto da última saída. Tudo acontece de um jeito surpreende e me inflo de coragem para tentar acertar. Aposto alto, mas sinto que estou completamente alinhado com tudo. Ando devagar, mas sei o que quero e o que preciso. Quando tudo me pune, não fujo, enfrento e se não estou pronto para enfrentar agora, sei que eu estarei em breve. Resisto, incertamente intrigado, certamente contente. Falhei como um mestre em falhar, mas reergui quando fiz um tratado de paz com meus problemas: resolverei um por vez. Não posso controlar o que esperam de mim, mas posso cumprir com o que eu mesmo espero.

Um escritor não se perde da escrita. Medos que não sinto me fazem insone. Sinto medo de um dia sentir medo da fome. Há um garoto em um porta-retratos ao lado do teclado qual agora digito. A confiança é um prato que se come frio, é uma frase que eu inventei e o menino gelado ouviu, mas será que nela acredito? Nenhuma conexão rápida me soa natural. Outra vez o que parecia uma brisa fez na minha vida um vendaval. Deixou-me em destroços e assim me tornei desconfiado. Há acertos que parecem feitos para dar errado.

Há outros lampejos de uma felicidade que chega em uma vida além. A vontade insistente de um beijo do qual não se pode mais viver sem. E subitamente vejo sonhos coloridos nos olhos vidrados dos peixes mortos. Fito os espaços brancos a serem preenchidos com a oração dos nossos corpos. Desejo preenchê-las. Quem disse que uma coruja não pode se apaixonar por uma raposa ou por uma estrela?

Sinto medo e amedrontado sigo na direção das coisas que me apavoram. Um escritor não se perde da escrita.

Há dias que brilho como o sol, mas em regra sou como uma esponja que absorve a sujeira dos outros. Um escritor não se perde da escrita.

Quando chove muito e o céu chora por mim, quando o sol queima minha pela apenas para me fazer arder, quando tropeço em um obstáculo que eu inventei, eu me lembro de que um escritor não se perde da escrita.

Assim, sigo firme e escrevo. Quando tudo me pune e sofro com milhares de ataques, eu fecho meus olhos brevemente e me recordo de que um escritor não se perde da escrita. Independente do sente, ele se adapta, é um mestre em seguir em frente e luta por tudo aquilo que acredita.

Água Salgada

Improvável filho
de uma força invisível
que não faz questão de ficar
Eterno andarilho
Incansável
Anda e anda e anda
Percorre os trilhos e sabe
Nunca vai voltar
Aprendeu
Catástrofes nos engolem
e temos sorte se esbarramos
em alguém que nos devolva
na boca o gosto da Vida
Lágrimas escorrem de meus olhos
sinto o sal na ponta da língua
Carregamos o oceano no âmago
O mundo se perdeu
Escuto e ouço centenas se repetirem
O mundo se perdeu, mas eu não
Sou acometido por náuseas e vertigens
Não vou vomitar
O fim é só um começo deturpado
Derrotamos o que supomos
fadado a dar errado?
Silêncio, ronco do cachorro,
estrelas urbanas nas calçadas,
carros em alta velocidade,
batida, semáforos, acidentes
Vale a pena sentir o que se sente?
O instinto da coragem te ergue
É preciso seguir em frente
Filho do mar se aproxima
sente a areia nos pés
Filho do mar, não existe sina
Ganhamos e perdemos
apostando na nossa fé
Fecho os olhos e
a areia me afunda
Estou enlouquecendo ou
tudo está acabando?
Sinto muito pelos erros que cometi
A minha vida passou voando
Por anos tive tantas certezas
Tento desfazer meus enganos
As nuvens anunciam a tempestade
Relâmpagos fazem brilhar o céu
É noite já e estou sozinho na praia
Fecho meus olhos e apago, mas
não sei dizer se estou dormindo
Na grande solidão do término do mundo
No ocaso mais tenebroso e escuro
Eu estava luzindo
Uma grande onda chega
Afogando tudo
Cada sentimento
Cada memória
com água salgada
Grito o seu nome e você não escuta
Será que grita o meu também?
Nossa prole também não nos ouve
Os corpos são lançados
em diversas direções
Na língua o forte gosto do sal
Nós nunca nos lembramos
Nós nunca existimos
Nós somos apenas
água salgada.

Fome e Memória

Aproveitar esses mágicos instantes
Essa doçura com face de paraíso
Se nessa vida tudo fosse constante
optaria todo dia pelo teu sorriso

Trouxe-me tantas alegrias inesperadas
Fez-me voar alto para a imensidão
Fecho os olhos e nos vejo de mãos dadas
dentro da velha loja em destruição

Quero te beijar como se fosse o primeiro beijo
Te amar com toda a fome do meu desejo
Viver contigo por cento e dez eternidades

Quero ser no dia a dia assim risonho
Assustado acordo de um distante sonho
Chorando por velhas memórias e saudades

Nunca mais saia de perto.

Pudera neste ínterim lúcido compreender
A diferença sutil dos diversos amores
Quisera neste íntegro ser surpreender
com o perfume adocicado das flores

Lumia repentinamente milhares
que jazem esquecidos na escuridão
Teus gestos simples são espetaculares
Tua presença fora de imaginação

Teu corpo me leva ao delírio
Teus olhos são o meu colírio
Personificação perfeita do meu desejo

Nunca mais saia de perto
Sem você o errado é certo
Cobre-me infinitamente de infinitos beijos.

Era uma vez.

Tantas horas tardias na madrugada
Cravam em minha pele o flagelo
Tantas doçuras agora tão amargas
Transformam fogo imortal em puro gelo 

Sinto uma espécie de autopiedade
Seguida pela raiva que advém da pena
Na memória o eterno gosto da saudade
Minha língua provando tuas lindas pernas

Tantos afagos e tantos beijos
Tantas noites de incessantes desejos
O que nunca se pode esquecer 

Gestos discretos e atitudes simplórias
O que houve e se tornou história
Quando era uma vez eu e você.

Monólogo para um ouvinte calado

            Sonho que sou o inventor deste mundo e faço uma mistura questionável das conclusões que obtenho antes de acordar. Quando acordo, sinto-me estranho e o peso da realidade destoa do que me é costumeiro. Que se pesa mais no decorrer dos dias?

            Há este ponto confuso onde me vejo Perfeito e Imperfeito e a contraposição de ideias que me parecem impossíveis em coexistência certamente coexistem. Como alego ser Feliz e Triste? Como vou do Tudo ao Nada? Como penso apenas nos outros ou apenas em mim? Como admito ter encontrado a satisfação suprema e necessitar abrir mão disso por compreender, seja precipitado ou não, que o regozijo da calmaria me afasta de um Propósito tão grandiloquente? Você está me acompanhando aqui, senhor?

            Esqueço os propósitos, as missões e os anseios por coisas que julgo serem boas e, faço-me terreno, humano e mortal, como fingia não saber que sempre fui. Experimento a vituperação e o sabor amargo de uma realidade que não me é comum. Sofro por julgar que o sofrimento é a conclusão mais real da vida. Outra vez deito meus pensamentos para o Bem e o que é Bom, exatamente para essas coisas livres de vícios ou falsas virtudes. É possível alcançar isso senão em pensamentos? Que é que vejo quando fecho os olhos e não há mais o que ver?

            Que se convençam do que podem, eu me convenço da dureza das coisas e me puno com o que julgo errado. Se ajo errado, certo ou incerto, castigo-me por tempo indeterminado. Minhas punições podem durar eras quando eu sou o carrasco, mas tenho aprendido a perdoar rápido os outros. Deveria? Não há coisa que se deva nessa vida, há? Não sei. Creio que em situações de dúvida apostar no instinto seja a melhor opção. Ensaio uma despedida antecipada, mas em breve vou me despedir definitivamente. E daí se eu nunca mais voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem é que pode se preocupar realmente comigo?

            Não, estes não são os caminhos, embora seja difícil ver com clareza. O hedonismo é tão cego quanto a religião. Que prazeres recompensam uma vida sem recompensas? Que realidades compensam uma vida hipoteticamente sublime? Há necessidade de desejar algo assim tão distante e distinto? Compensaria optar pela Abstração?

Neste ínterim de insanidade, mergulha-se o peito num mundo-fundo vazio e me afogo em coisa nenhuma. Meus questionamentos não mudam. E daí se eu nunca voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem vai pular no oceano gélido para me resgatar se eu estiver afundando?

            Qual subjetividade humana te satisfaz, senhor? Qual te faz mais completo? A simplicidade? O entendimento limitado nos permite fixar raízes mais fundas em nossas relações interpessoais? A amálgama que faço de diversificados assuntos me assusta. Creio que parte de mim já tenha enlouquecido. Perdi meu senso de objetividade? Não sorrio e nem choro. Estático olho pela janela e vejo telhas, telhados e árvores. O céu vai mudando de cor e prevejo que a noite será incalculavelmente longa. Já esteve preso em uma dessas, senhor? Noites que duram meses ou até anos?

O que há para enxergar quando cai a noite? A luz da lua, o brilho das estrelas e as nuvens cinzas nas noites mais claras? Os olhos se acostumam com o céu noturno e me pego sentado perto da piscina que está esvaziada pela metade. Não é um caso de copo meio cheio, meio vazio. A piscina pela metade não faz sentido, entretanto, é a piscina que eu tenho na casa qual vivo. Se hoje a piscina é lar de novos seres, assim seja, brindamos às realidades quais podemos suportar! E se não pudermos suportar? Reticências, suspense, continuação sem continuidade. E daí se eu deitar na pedra e dormir? E daí se eu não acordar? E daí se eu nunca mais voltar?

            Não sei, confesso sempre ter me sentido bastante distanciado da sensação de inveja, mas olha-me, eu às vezes queria ter resoluções mais simples, exatamente como o senhor. As nuvens são nuvens, o céu é o céu e os animais precisam dos potes de ração cheios ou morrerão de fome. Os aviões são apenas aviões e tudo é apenas o que é, bem como, certamente por seus olhos certeiros, eu sou apenas o que sou. Se me perguntasse, porém, quem eu sou ou como sou, como poderia eu me explicar? Percebe a diferença de nossas maiores diferenças? Queria ver simples, ser simples, desejar simples. Queria ser sintetizado. Recente, te juro, senti Amor maiúsculo e quanto mais eu sentia, menos eu era quem eu era, pois não fui quem eu precisava ser antes de me encontrar com isso. Há hora errada para essas coisas todas? Amor maiúsculo cessa de sentir? Desta vez parece-me impossível. Perco-me nesta divagação confusa? Se eu te perguntasse quem você é, você riria e responderia “apenas eu”, resumindo a falta de necessidade da prolixidade em uma pergunta tão direta e boba. Desanuvio a mente e volto para a pergunta que me fiz agorinha. Há horas erradas?

            Se há hora errada, eu nunca me errei, mas ainda vou, pois todos se equivocam grande ou pequeno, estreito ou largo, ao longo da vida. Você sabe melhor do que eu, senhor, nossas estradas são apenas estradas, mais ou menos esburacadas, com mais ou menos acidentes, que importa? Fases feias que vão e vêm, vômito, vergonha, asco, raiva, tristeza, miséria, mas e daí? Alguns se erram jovens, outros velhos e ainda há os que erram jovens e também velhos. São estradas esburacadas e acidentadas simplesmente. Nota o poder da dualidade que há nelas? Abre-se a janela e a vida se significa em uma brisa dentro de um carro em alta velocidade. Perde-se do reflexo de motorista e a vida se encerra em uma batida violenta. A dualidade de tudo me apavora. Qualquer um pode me destruir. Eu posso destruir qualquer um. Ter consciência do poder é perigoso. Talvez a falta de consciência seja ainda mais aguda e fatal.  

Meu relato soa tão confuso, senhor, estranho que você ainda não tenha me pedido pausas, mas se está me compreendendo, vejo-me na obrigação de seguir. Prometo maneirar com meus tantos silogismos. Lágrimas? Gotículas repentinamente escorrem por meus olhos. É, sim, o sal do mar que habita os oceanos de nossa humanidade. Que é que há? Choro por não conseguir aplicar o descaso no descaso e sinto a minha prolixidade sentimental envenenar minha alma e minhas futuras escolhas. E daí se eu furar todas as minhas bolhas? E daí se eu optar pelo desconforto? E daí se vivo, eu às vezes sinto, como se estivesse morto? E daí se eu me machucar? E daí se eu partir e não voltar?

Venho dizendo em alta voz uma frase estranha, ouça bem, digo que todo mundo sangra igual, você também consegue perceber, senhor? Assim não se importe com o quanto me venho trôpego, o quanto pareço retalhado, faz-se necessário essa dureza de espírito e essa frigidez de não mudança para alcançar certas coisas tão incertas assim. Caí e quebrei. Agora, por ora, é a minha vez de ser um caco quebrado pontiagudo e pronto a ferir. Afaste-se, senhor, pois eu não te invejo, mas se me der escolha de prontidão, verá que eu te machuco sim. Não é o momento, senhor, mantenha-se longe, eu posso te fazer sangrar.

            Queria ver simples, eu disse, desejar simples, eu também disse, mas quando Deus ou eu mesmo, que inventei o mundo, vi-me diante desta hipótese, recusei-a. Explica-se aos outros o que nem completamente se entende para si? A vida se interrompe enquanto observo a gata se divertir preguiçosamente na janela. Ela não precisa de ninguém, mas busca ficar perto de mim, quando eu estou em casa. O companheirismo velado vale tanto quanto o barulhento, senhor? Dividir a estrada é possível, mesmo quieto, mesmo de tão longe? Nem todos os companheiros fazem alarde?

            Senhor, eu lhe disse antes, inveja não é a palavra certa, escute, você vê um avião e vê apenas um avião. Eu vejo a máquina terrível e majestosa que transporta pessoas ao redor do globo. Senhor, você dentro do avião apenas cochila sabendo que vai acordar no seu destino! Eu? Eu nem sei se o avião chegará e toda vez que me pego pensando em destinos finais, vejo-me em seguida em conjecturas sobre acasos, vidas e mortes. Você não olha para a janela, senhor e eu agora confesso que observo àquelas tantas cidades em miniaturas e àquelas luzes tão distantes que enchem meu peito de algo que não sei o que. Você sabe, senhor?

Eu inventei o mundo e queria contar um pouco sobre as coisas que descobri sobre todo o resto. Eu inventei o mundo ou será que apenas sonhei isso? Minha alma quiçá possui o mesmo tamanho da egrégora deste planeta? Perdi-me de novo, senhor, suplico que me desculpe. Confesso não me recordar mais da diferença entre sonho e realidade e nem do que realmente é e do que realmente não é. Esta dicotomia entre planos astrais e reais, este valor subjetivo qual etiquetamos a alma, tudo isso soa tão vago como os que imploram por clemência.

            Em termos gerais, escolho um caminho de sofrimento individual.

            Os começos, certo? Estou a começar pelas estranhas maneiras que agimos ou deixamos de agir, pelas manifestações tão absurdas e incoerentes e certeiras.

            É que essas coisas belas estão por aí e existem, olha, eu sinto que poderia falar sobre pelo menos uma delas o dia inteiro, veja, não é sobre conquistas, fracassos, dor, mira? É sobre ser e apenas ser, nesta tortuosidade má e insana que a gente carrega de vez em quando para com a visão do mundo, eu não me entendo, quando criei o mundo eu ainda era jovem e não percebi a desnecessidade de imprimir maldade nele? Entende sobre a maldade, senhor? Só sendo mal que se entende ela?

            Eu criei o mundo e fui derrotado pela melhor impressão que já encontrei. Soa hoje esquisito me ouvir falar disso? Escute bem, pois é com duas orelhas e dois olhos que mandei fazer essa gente toda e assim de carece de ter que confiar mais no que escuta e no que vê e é bom, realmente bom a gente tomar cuidado com o que fala, veja, outra noite tu também vais perceber que língua corta tanto quanto espada e minha mãe me falava isso sobre duas orelhas e dois olhos e agora já não sei qual de nós dois inventou essa confusão caótica de existência.

            Ainda está me escutando, senhor? Sustento a impressão certeira de que escutou pouco ou nada, mas tudo bem. Gente simples escuta pela metade ou nem escuta e sabe ser feliz com menos da metade que escuta e com menos da metade de coisas que todo mundo sonha em ter.

            Senhor, eu te juro, não é inveja que isso chama, não, nutro honesta admiração por ti e por toda essa sua maneira de ser, prática, obsequiosa, elegante, sim, senhor, todo homem simples é mais elegante e, veja, você não consegue ver as coisas como eu vejo e nem eu como você vê e deve ser bom nunca ter sonhado que inventou o mundo e nunca nem ter saído do quintal de casa e não passado frio muito longe daqui, meu caríssimo senhor e bem, eu não sei, mas você deve saber… Está farto deste monólogo, senhor? Pois percebi que é um ouvinte calado e fala pouco com a boca e muito com expressões, não estou certo? Seus olhos são comunicativos e me admiro com essa capacidade de transmitir ideias sem dizê-las. Eu não sei se sei o que sei, mas respeito a sua sabedoria, senhor e você deve saber muito mais que eu…

            Gente simples se basta exatamente com a vida que vive, mesmo que ocorram vários pormenores ao longo dela.

            Gente complicada igual eu, senhor, está sempre tentando mais, buscando fazer melhor, arriscando tudo… mesmo sem ter a certeza do que significa tudo, mesmo sem ter a certeza que esse tanto de riscos vale a pena.

            Você acha que vale, senhor?

Otário

            Engana-se quem pensa que é impossível assaltar um otário logo pela manhã. A aurora favorecia os êxitos.

            João Miguel subiu na duna mais alta para observar atentamente os transeuntes, porém não parecia interessado neles, afinal, nem eram tantos assim. Seu ar era despreocupado e sua face não demonstrava a mínima intenção do que pretendia fazer. Seus olhos grandes e agudos encaravam o esverdeado mar de Cabo Frio. João sempre se convencia de que era um grande ator, embora ninguém nunca tivesse lhe dito isso especificamente, mas entender o que se passava em seus pensamentos era algo especialmente complicado, principalmente pelo fato de que agia costumeiramente por instinto e ignorava grandes reflexões. Passou a faca da mão destra para a canhota em gestos distraídos. Havia a utilizado o instrumento vezes demais para não saber como agir e reagir. Cada dia que passa chego mais cedo na praia. Não consigo mais ficar em casa. É claro que não consegue, seu otário, cale a boca, gringo. Vai fazer alguma coisa? Foi o que eu pensei. Cale a boca, otário. Isso… me obedeça. É melhor chegar cedo do que tarde. Deus ajuda quem cedo madruga, mas está muito cedo. Não sei se adianta chegar aqui tão cedo. Não sei se…

João olhou para o relógio que marcava 5h57 e refletiu que os cidadãos com jornadas ordinárias de trabalho geralmente começavam às sete ou sete e meia ou até mesmo às oito horas no período matutino. Era justo categorizar e estereotipar ladrões como indivíduos que queriam uma vida fácil se alguns deles se levantavam antes de todo o resto? João riu e se lembrou de não mostrar muito os dentes. Sua presença era discreta, mas seu sorriso era perfeito e brilhante, luzia, assim, sorrir era um gesto impossível. A mãe e a irmã com os dentes tortos e amarelados se enraiveciam pelo que parecia ser um capricho de Deus para o filho caçula que nunca havia ido ao dentista. Os olhares atentos continuavam sua função e em movimentos lestos, João acompanhava a movimentação pela areia. Definitivamente os velhos com suas panças redondas e seus peitorais grisalhos e cabeludos eram predominantes em quantidade àquele horário na praia. Muitos iam na direção da Praia do Forte, quase todos, na realidade e, apenas uns pouquíssimos percorriam o sentido contrário. João estimava que uma centena de idosos já tivesse percorrido a praia logo cedo, quase todos homens, bom, as mulheres estavam certas, eram alvos relativamente mais fáceis e deveria caminhar pelo calçadão onde se avistava viaturas da polícia com notável periodicidade. Elas podem reagir, você bem sabe, quase se fodeu por causa disso, você sabe, é melhor não tentar fazer tudo o que você vê os outros fazendo, otário, você não passa de um otário, mereceu o chifre que levou, otário, segure a onda, o problema é que você é frouxo, cuidado, tome cuidado, não, você só precisa ser um pouco mais vingativo, sim, mais resoluto e duro e irritadiço. Cada dia que passa chego mais cedo na praia… estou pensando muito. Desse jeito vou ficar com dor de cabeça. Preciso parar de pensar.  

Outra vez o relógio: 6h25. Um grupo de mulheres passa e mais alguns velhos em seguida. João reflete que Cabo Frio é realmente uma cidade de aposentados e não fosse pelo mar, a cidade certamente cheiraria a naftalina, pelo menos em baixa temporada. Obviamente em alta temporada qualquer cidade atulhada de gente cheira a suor e lixo. João sorri por alguns segundos, mas retoma o semblante sério com a aparição de seu alvo. Um homem jovem com o celular na mão, erro de principiante, um típico otário dando mole. Guarda a faca no bolso e deixa as mãos segurarem a alça da mochila. Sempre leva uma mochila para o caso de furtar algum objeto grande, mas há só uma garrafa d’água dentro dela. João nunca se planeja e a mãe costuma lhe dizer que isso é um erro grave e que será sua grande ruína, mas com uma espécie de birra insistente na cabeça, João desliza pela duna de areia e desce subitamente, sem pensar, sem se preparar e apenas improvisa no que pretende ser outro assalto.

– Oi. – João diz e posiciona o corpo de uma maneira que dificulte a reação de fuga do homem. Será que ele é desses que foge ou que encara?

– Oi. – Resposta seca. Não é um bom sinal. Já está desconfiando das minhas intenções. Talvez eu devesse ter sacado a faca antes.

– Meu nome é Davi e o seu? – A desconfiança cresce. João pressente que será mais trabalhoso do que pensara. Não conseguiu reparar tão bem no modelo do celular. A tentativa de furto com a possibilidade de confronto vale mesmo o risco? O rapaz é mais alto e musculoso que ele.

– Victor. – Isso não vai nada bem. Tenho que resolver isso logo. Já consegui muito tempo sem que um idoso aparecesse.

– Você é daqui, Victor?

– Sou.

– Daqui mesmo? Daqui?

– Daqui mesmo. Moro perto daqueles prédios ali, viu? – João não se virou. Victor não parecia ser o cara mais inteligente do mundo, na verdade, tinha uma cara de otário e estava sendo mais perspicaz do que João supunha que poderia ao apontar uma direção. O celular qual segurava descuidadamente instantes antes agora estava longe do alcance das mãos de João. O ladrão estava travado. – Davi, com licença, mas eu não tenho o hábito de parar minhas corridas matinais para tagarelar com estranhos e eu nunca te vi na vida. Vou nessa! – O sujeito correu atrás de um desses atletas idosos que passava no mesmo momento. Se fosse tentar algo no desespero também teria que lidar com o velho.

– Peraí! Vamos conversar um pouquinho! – Disse, mas a voz perdeu a força com surpreendente velocidade e o homem foi diminuindo conforme se afastava para partes distantes da praia.

João Miguel retoma seu posto após escalar outra vez a duna. Havia tempos que uma tentativa de furto não se revelava tão destrambelhada. O homem era alto e parecia capaz de revidar ou perseguir, mas se ele tivesse descido com a faca na mão a história seria outra. Por que diabos havia hesitado? O problema não estava na vítima e sim nele. Os pensamentos falavam mais alto do que nunca e João já não conseguia se evitar. As tantas noites anteriores vinham com um lembrete de susto e as imagens eram vívidas. A mãe espanca a filha porque acha que o comportamento dela é indecente. Ela pensa que a filha é uma vagabunda desde pegou o namorado argentino dela se masturbando espiando a garota na porta do quarto. A culpa não podia ser do namorado, mas podia ser da irmã. João tenta inflamar a irmã com a mesma raiva que sente, sugere que saiam de casa, a irmã dá de ombros, diz que Pablo já a espiona há anos e não há o que fazer e, além do mais, a mãe está velha e é melhor não comprar briga, João cerra os punhos como se fosse socar alguém ou alguma coisa, sente uma raiva latente da própria irmã, mas quer mesmo matar Pablo, João provoca novamente a irmã e ela dá de ombros, larga disso seu garoto otário, agora João desconfia de que a irmã e o argentino tenham relações sexuais, João pergunta para a irmã se ela e Pablo compartilham de alguma intimidade, ela manda ele ir tomar no cu, João insiste de maneira truculenta, ela revela que namora Hugo, João pergunta se Hugo não era o melhor amigo gay, se ele fosse gay não me comia, João fica em silêncio e perde a animosidade, mas pergunta o que ela esconde sobre Pablo, a irmã manda João ir pra casa do caralho, a mãe escuta a gritaria e chega xingando a garota, pois sente raiva dela, João não aguenta mais tanto barulho…

João Miguel restabelece agora sua conexão com a realidade. Odeia quando pensamentos insistentes surgem na cabeça e não o deixam. Sabe que faria qualquer coisa para não pensar. Odeia a irmã. Era sua pessoa favorita no mundo e agora não passa de uma vagabunda que dá para o argentino escroto e para o namorado viadinho. Odeia a mãe. Espanca a irmã gratuitamente só por acreditar que ela dá trela para o gringo fudido e vagabundo. Uma vez a mãe deformou a face da irmã de tanta pancada. Odeia Pablo acima de tudo e de todos. Sabe que o argentino espanca a mãe quando chega bêbado. O desgraçado do argentino já bateu nele também. Na irmã não bate, mas possui intenções secretas. Pablo é mais robusto, mais imponente e se comporta como se não tivesse medo de morrer. A próxima vítima surge diante de seus olhos.

Ela é mais atenta que o primeiro rapaz qual abordara para assaltar, mas desta vez ele vai descer logo com a faca e vai pegar o que precisa e ir para casa. Não, talvez não vá para casa. Em casa eles estarão lá, todos os três, talvez mais gente, em casa eles vão me perseguir e me machucar e ninguém liga para os meus esforços e nem dá a mínima pra minha vida, não. João escorrega pela areia e desliza pela duna. Ninguém dá a mínima pra mim, duas vagabundas e um argentino brocha filho da puta, não, eu ainda chego com o que furto com o meu esforço e tenho que comprar comida pra todo mundo, foda-se, cambada de idiota, eu vou alugar meu canto e não ter que pensar em ninguém batendo em ninguém, vou arrumar uma namorada e… João continua seu avanço na direção da mulher. As namoradas que eu tive me traíram, é porque você não passa de um otário, não, não se pode confiar em mulher, minha mãe mesmo não confia na filha dela e talvez esteja certa, se ela tá dando pro gringo imagino pra quem mais ela não tá dando, não se pode confiar em mulher e agora aquele cara lá quer dizer que é meu pai, argentino filho da puta, meu pai sumiu quando eu nem me lembro, ninguém mais pode ser meu pai, ele nunca vai voltar, não se pode confiar nos pais também e nem nos homens, os homens são ainda menos confiáveis que as mulheres, droga, o que foi, seu otário? Cale-se! Eu tenho que fazer tudo sozinho e é isso, João para diante da mulher, ninguém me valoriza, ninguém é confiável, ninguém se importa e parece que ninguém liga para a minha vida, eu não tenho alguém que realmente me ame, eu, para agora, para de pensar, não grita, porra, eu odeio esse argentino cuzão, eu espero que ele morra e quero que minha mãe pague por espancar a minha irmãzinha de graça e quero que uma bomba, cala boca, para de pensar, eu quero que minha irmã fuja com o melhor amigo gay dela e morra com a bomba, ninguém nessa vida vale a pena, para, furta o que tem que furtar e vai pra casa, olha a cara dela, para de gritar, parou de gritar, ela não tá entendendo, fala alguma coisa, fala, vai dividir a recompensa com sua mãe, fala alguma coisa, o argentino viado tá de olho no que você trouxe, parou de gritar, caralho, não trava duas vezes no mesmo dia, não…

– Isso é um assalto! Calminha… Passa já suas coisas que eu não vou te machucar, eu prometo. – Nenhuma resposta. Você pensa que pode me ignorar? – Eu disse que isso é um assalto! Entrega suas coisas, puta! – Nenhuma resposta. João começa a sacodir vigorosamente o corpo da mulher e só então percebe que está deitado acima da cintura dela e os dois estão na areia da praia. O branco suave da praia tingido de escarlate e as ondas empurrando e puxando uma quantidade impressionante de sangue. João ainda se movimenta e nem percebe que está molhado por sangue e sal. Ele ainda desfere facadas sem nem perceber que está com a arma na mão. Os pensamentos não o alcançam e ele continua com uma facada após a outra. O braço ameaça travar e ele cai resignado acima do corpo morto da mulher.

Engana-se quem pensa que é impossível ser preso por assassinato na metade da manhã de uma quinta-feira.

O relógio marcava 8h12 e o rapaz João já estava algemado dentro de uma viatura policial. Não estava comovido com o assassinato ou desesperado com a prisão, mas as vozes que ecoavam no fundo de sua mente faziam com que ele tivesse vontade de se matar. Crianças cantavam em uníssono.

Otário, bundão,

não serve nem pra ser ladrão

Otário, bundão,

Partindo pra prisão,

Otário, cuzão,

Dentro do camburão,

Otário, imbecil

Até o argentino riu

Otário…

Otário.

Diário de Bordo

Livro na sala
Eu no sofá
Arrumei minha mala
Não volto pra lá
Quem sabe o que sente
Leva na bagagem
O que acontece com a gente
Não é de passagem
Sorriso de comissária
Seja muito bem-vindo
A alma ordinária
clama pelo Destino
Eu e você vivos
em outra estação
Sigo pensativo
na poltrona do avião
Teu rosto
na memória
Teu gosto
velha história
Fito na janela
Luzes fortes da cidade
A vida é triste e bela
Viverei com saudades
Tudo vai como deve
Eu vou também
Ainda volto a ser leve
E sigo além
Diário de bordo
O fim é o começo
Esqueça logo de mim,
mas eu não te esqueço.