Milagre

Surge como uma espécie única
Criatura rara que prova a existência divina
Comoção alegre, objetiva e insuspeita
Personificação de um milagre
formado por mil lágrimas
Aparece como quem estreia
em uma peça teatral gigantesca
Não treme, não hesita, não se perde
Uma estrela cadente com pernas e olhos
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Suas decisões são sempre puras,
ainda que tenha tomado algumas ruins
Destas feitas choro, lágrimas e violência
Aposta na resistência e com paciência sobrevive
Continua firme, pôr do sol púrpura,
Raposa lépida, selvagem e imprevisível
Ergue a cabeça, flor do asfalto,
pois você desabrochou bela na feiura do mundo
Venceu todos os obstáculos e andou nas brasas
sem sequer ter notado que eram tão quentes
As noites de chuva querem banhar seu corpo
e escorrer por sua pele lisa
Os ecos de memória clamam por você
Chamam exclusivamente seu nome
Continua firme, anja sensual
Lusco-fusco tardio em plena meia-noite,
Ergue a cabeça, sereia cósmica
Flutua pelo Espaço Sideral como se fosse o seu Mar,
pois você é maior que todos os oceanos somados
Inunda-se pela coragem solar do pensamento reto,
Signifique sua vida fitando o rosto de sua alma
Acalme-se e busque não compreender o que não precisa
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Sinta o que tiver de sentir e saiba
Essa dor é imensa e não há onde caiba,
porém você se expande e se aprimora e evolui
Cada dia mais ampla poderá então comportar tudo
Abarca em abraços ternos novos mundos
Continua firme, fantasma feliz
Sua prole ainda chega para alegrar o Universo
Ergue a cabeça, rainha do tabuleiro de xadrez,
Não esquece que metáforas jamais são esquecidas
e que certas coisas desafiam a lógica definida
Cuida da tua saúde e tinge vidas alheias
com essa capacidade singular de amar
Lembra do Sangue que flui em suas veias
E nunca deixa de lutar
Borboleta lendária que chega da floresta,
Segue tua jornada completamente leve
Muitos por aí te carregaram e ainda te carregam
O que você obviamente não percebe
Continua lumiando o breu profundo
de quem se sente absolutamente sozinho
Nos eventos mais iracundos, isola-se,
e se permite sofrer também baixinho
Ergue a cabeça, milagre ancestral
Você é a prova de que existe um sentido
profundamente oculto na Beleza e na Dor
Milagre das mil lágrimas que nasceu neste mundo
para provar a improbabilidade do Amor.


Otário

            Engana-se quem pensa que é impossível assaltar um otário logo pela manhã. A aurora favorecia os êxitos.

            João Miguel subiu na duna mais alta para observar atentamente os transeuntes, porém não parecia interessado neles, afinal, nem eram tantos assim. Seu ar era despreocupado e sua face não demonstrava a mínima intenção do que pretendia fazer. Seus olhos grandes e agudos encaravam o esverdeado mar de Cabo Frio. João sempre se convencia de que era um grande ator, embora ninguém nunca tivesse lhe dito isso especificamente, mas entender o que se passava em seus pensamentos era algo especialmente complicado, principalmente pelo fato de que agia costumeiramente por instinto e ignorava grandes reflexões. Passou a faca da mão destra para a canhota em gestos distraídos. Havia a utilizado o instrumento vezes demais para não saber como agir e reagir. Cada dia que passa chego mais cedo na praia. Não consigo mais ficar em casa. É claro que não consegue, seu otário, cale a boca, gringo. Vai fazer alguma coisa? Foi o que eu pensei. Cale a boca, otário. Isso… me obedeça. É melhor chegar cedo do que tarde. Deus ajuda quem cedo madruga, mas está muito cedo. Não sei se adianta chegar aqui tão cedo. Não sei se…

João olhou para o relógio que marcava 5h57 e refletiu que os cidadãos com jornadas ordinárias de trabalho geralmente começavam às sete ou sete e meia ou até mesmo às oito horas no período matutino. Era justo categorizar e estereotipar ladrões como indivíduos que queriam uma vida fácil se alguns deles se levantavam antes de todo o resto? João riu e se lembrou de não mostrar muito os dentes. Sua presença era discreta, mas seu sorriso era perfeito e brilhante, luzia, assim, sorrir era um gesto impossível. A mãe e a irmã com os dentes tortos e amarelados se enraiveciam pelo que parecia ser um capricho de Deus para o filho caçula que nunca havia ido ao dentista. Os olhares atentos continuavam sua função e em movimentos lestos, João acompanhava a movimentação pela areia. Definitivamente os velhos com suas panças redondas e seus peitorais grisalhos e cabeludos eram predominantes em quantidade àquele horário na praia. Muitos iam na direção da Praia do Forte, quase todos, na realidade e, apenas uns pouquíssimos percorriam o sentido contrário. João estimava que uma centena de idosos já tivesse percorrido a praia logo cedo, quase todos homens, bom, as mulheres estavam certas, eram alvos relativamente mais fáceis e deveria caminhar pelo calçadão onde se avistava viaturas da polícia com notável periodicidade. Elas podem reagir, você bem sabe, quase se fodeu por causa disso, você sabe, é melhor não tentar fazer tudo o que você vê os outros fazendo, otário, você não passa de um otário, mereceu o chifre que levou, otário, segure a onda, o problema é que você é frouxo, cuidado, tome cuidado, não, você só precisa ser um pouco mais vingativo, sim, mais resoluto e duro e irritadiço. Cada dia que passa chego mais cedo na praia… estou pensando muito. Desse jeito vou ficar com dor de cabeça. Preciso parar de pensar.  

Outra vez o relógio: 6h25. Um grupo de mulheres passa e mais alguns velhos em seguida. João reflete que Cabo Frio é realmente uma cidade de aposentados e não fosse pelo mar, a cidade certamente cheiraria a naftalina, pelo menos em baixa temporada. Obviamente em alta temporada qualquer cidade atulhada de gente cheira a suor e lixo. João sorri por alguns segundos, mas retoma o semblante sério com a aparição de seu alvo. Um homem jovem com o celular na mão, erro de principiante, um típico otário dando mole. Guarda a faca no bolso e deixa as mãos segurarem a alça da mochila. Sempre leva uma mochila para o caso de furtar algum objeto grande, mas há só uma garrafa d’água dentro dela. João nunca se planeja e a mãe costuma lhe dizer que isso é um erro grave e que será sua grande ruína, mas com uma espécie de birra insistente na cabeça, João desliza pela duna de areia e desce subitamente, sem pensar, sem se preparar e apenas improvisa no que pretende ser outro assalto.

– Oi. – João diz e posiciona o corpo de uma maneira que dificulte a reação de fuga do homem. Será que ele é desses que foge ou que encara?

– Oi. – Resposta seca. Não é um bom sinal. Já está desconfiando das minhas intenções. Talvez eu devesse ter sacado a faca antes.

– Meu nome é Davi e o seu? – A desconfiança cresce. João pressente que será mais trabalhoso do que pensara. Não conseguiu reparar tão bem no modelo do celular. A tentativa de furto com a possibilidade de confronto vale mesmo o risco? O rapaz é mais alto e musculoso que ele.

– Victor. – Isso não vai nada bem. Tenho que resolver isso logo. Já consegui muito tempo sem que um idoso aparecesse.

– Você é daqui, Victor?

– Sou.

– Daqui mesmo? Daqui?

– Daqui mesmo. Moro perto daqueles prédios ali, viu? – João não se virou. Victor não parecia ser o cara mais inteligente do mundo, na verdade, tinha uma cara de otário e estava sendo mais perspicaz do que João supunha que poderia ao apontar uma direção. O celular qual segurava descuidadamente instantes antes agora estava longe do alcance das mãos de João. O ladrão estava travado. – Davi, com licença, mas eu não tenho o hábito de parar minhas corridas matinais para tagarelar com estranhos e eu nunca te vi na vida. Vou nessa! – O sujeito correu atrás de um desses atletas idosos que passava no mesmo momento. Se fosse tentar algo no desespero também teria que lidar com o velho.

– Peraí! Vamos conversar um pouquinho! – Disse, mas a voz perdeu a força com surpreendente velocidade e o homem foi diminuindo conforme se afastava para partes distantes da praia.

João Miguel retoma seu posto após escalar outra vez a duna. Havia tempos que uma tentativa de furto não se revelava tão destrambelhada. O homem era alto e parecia capaz de revidar ou perseguir, mas se ele tivesse descido com a faca na mão a história seria outra. Por que diabos havia hesitado? O problema não estava na vítima e sim nele. Os pensamentos falavam mais alto do que nunca e João já não conseguia se evitar. As tantas noites anteriores vinham com um lembrete de susto e as imagens eram vívidas. A mãe espanca a filha porque acha que o comportamento dela é indecente. Ela pensa que a filha é uma vagabunda desde pegou o namorado argentino dela se masturbando espiando a garota na porta do quarto. A culpa não podia ser do namorado, mas podia ser da irmã. João tenta inflamar a irmã com a mesma raiva que sente, sugere que saiam de casa, a irmã dá de ombros, diz que Pablo já a espiona há anos e não há o que fazer e, além do mais, a mãe está velha e é melhor não comprar briga, João cerra os punhos como se fosse socar alguém ou alguma coisa, sente uma raiva latente da própria irmã, mas quer mesmo matar Pablo, João provoca novamente a irmã e ela dá de ombros, larga disso seu garoto otário, agora João desconfia de que a irmã e o argentino tenham relações sexuais, João pergunta para a irmã se ela e Pablo compartilham de alguma intimidade, ela manda ele ir tomar no cu, João insiste de maneira truculenta, ela revela que namora Hugo, João pergunta se Hugo não era o melhor amigo gay, se ele fosse gay não me comia, João fica em silêncio e perde a animosidade, mas pergunta o que ela esconde sobre Pablo, a irmã manda João ir pra casa do caralho, a mãe escuta a gritaria e chega xingando a garota, pois sente raiva dela, João não aguenta mais tanto barulho…

João Miguel restabelece agora sua conexão com a realidade. Odeia quando pensamentos insistentes surgem na cabeça e não o deixam. Sabe que faria qualquer coisa para não pensar. Odeia a irmã. Era sua pessoa favorita no mundo e agora não passa de uma vagabunda que dá para o argentino escroto e para o namorado viadinho. Odeia a mãe. Espanca a irmã gratuitamente só por acreditar que ela dá trela para o gringo fudido e vagabundo. Uma vez a mãe deformou a face da irmã de tanta pancada. Odeia Pablo acima de tudo e de todos. Sabe que o argentino espanca a mãe quando chega bêbado. O desgraçado do argentino já bateu nele também. Na irmã não bate, mas possui intenções secretas. Pablo é mais robusto, mais imponente e se comporta como se não tivesse medo de morrer. A próxima vítima surge diante de seus olhos.

Ela é mais atenta que o primeiro rapaz qual abordara para assaltar, mas desta vez ele vai descer logo com a faca e vai pegar o que precisa e ir para casa. Não, talvez não vá para casa. Em casa eles estarão lá, todos os três, talvez mais gente, em casa eles vão me perseguir e me machucar e ninguém liga para os meus esforços e nem dá a mínima pra minha vida, não. João escorrega pela areia e desliza pela duna. Ninguém dá a mínima pra mim, duas vagabundas e um argentino brocha filho da puta, não, eu ainda chego com o que furto com o meu esforço e tenho que comprar comida pra todo mundo, foda-se, cambada de idiota, eu vou alugar meu canto e não ter que pensar em ninguém batendo em ninguém, vou arrumar uma namorada e… João continua seu avanço na direção da mulher. As namoradas que eu tive me traíram, é porque você não passa de um otário, não, não se pode confiar em mulher, minha mãe mesmo não confia na filha dela e talvez esteja certa, se ela tá dando pro gringo imagino pra quem mais ela não tá dando, não se pode confiar em mulher e agora aquele cara lá quer dizer que é meu pai, argentino filho da puta, meu pai sumiu quando eu nem me lembro, ninguém mais pode ser meu pai, ele nunca vai voltar, não se pode confiar nos pais também e nem nos homens, os homens são ainda menos confiáveis que as mulheres, droga, o que foi, seu otário? Cale-se! Eu tenho que fazer tudo sozinho e é isso, João para diante da mulher, ninguém me valoriza, ninguém é confiável, ninguém se importa e parece que ninguém liga para a minha vida, eu não tenho alguém que realmente me ame, eu, para agora, para de pensar, não grita, porra, eu odeio esse argentino cuzão, eu espero que ele morra e quero que minha mãe pague por espancar a minha irmãzinha de graça e quero que uma bomba, cala boca, para de pensar, eu quero que minha irmã fuja com o melhor amigo gay dela e morra com a bomba, ninguém nessa vida vale a pena, para, furta o que tem que furtar e vai pra casa, olha a cara dela, para de gritar, parou de gritar, ela não tá entendendo, fala alguma coisa, fala, vai dividir a recompensa com sua mãe, fala alguma coisa, o argentino viado tá de olho no que você trouxe, parou de gritar, caralho, não trava duas vezes no mesmo dia, não…

– Isso é um assalto! Calminha… Passa já suas coisas que eu não vou te machucar, eu prometo. – Nenhuma resposta. Você pensa que pode me ignorar? – Eu disse que isso é um assalto! Entrega suas coisas, puta! – Nenhuma resposta. João começa a sacodir vigorosamente o corpo da mulher e só então percebe que está deitado acima da cintura dela e os dois estão na areia da praia. O branco suave da praia tingido de escarlate e as ondas empurrando e puxando uma quantidade impressionante de sangue. João ainda se movimenta e nem percebe que está molhado por sangue e sal. Ele ainda desfere facadas sem nem perceber que está com a arma na mão. Os pensamentos não o alcançam e ele continua com uma facada após a outra. O braço ameaça travar e ele cai resignado acima do corpo morto da mulher.

Engana-se quem pensa que é impossível ser preso por assassinato na metade da manhã de uma quinta-feira.

O relógio marcava 8h12 e o rapaz João já estava algemado dentro de uma viatura policial. Não estava comovido com o assassinato ou desesperado com a prisão, mas as vozes que ecoavam no fundo de sua mente faziam com que ele tivesse vontade de se matar. Crianças cantavam em uníssono.

Otário, bundão,

não serve nem pra ser ladrão

Otário, bundão,

Partindo pra prisão,

Otário, cuzão,

Dentro do camburão,

Otário, imbecil

Até o argentino riu

Otário…

Otário.

Problemática

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática.

Uma criatura hedionda, sinistra, completamente vil, fita-me no escuro. Não sei dizer se ela é maligna, pois o tipo de tortura que me impõe é apenas verbal. Sussurra nomes antigos e evoca meus fracassos e traumas. O sorriso matreiro brinca em sua face e, às vezes, eu posso jurar que ela é uma espécie de contraparte minha, meu doppelgänger ou qualquer coisa que o valha. Quando estou muito ansioso a criatura parece adquirir mais poder, assim, devaneio com o meu reflexo no espelho do banheiro, penso que ele me lança olhadelas malignas e provocadoras, suponho que ele vá me puxar para dentro e sugar a minha vida e minha alma. Este vazio escuro me cerca e me consome, zomba das minhas decisões e chama o meu nome, eu reconheço a voz distinta e distante, é estranho, mas eu sei que essa noite alguém vai tentar me afogar.

Sobrevivo um pouco mais, eu aprendi a nadar há anos, quando ainda não passava de uma criança chorona. Recordo-me das aulas de natação nas quais eu era o único aluno que não trapaceava nas idas e voltas que a professora exigia. Todos tinham uma vontade urgente em anunciarem a tarefa como finalizada. A criatura alta ainda me fita e eu me torno soturno. Sinto o peso de milhões de dores que deveriam ser alheias e carrego o cansaço desta vida e de outras. Sou equiparado aos réprobos e ninguém me defende. Sou chamado de patético e ninguém me entende. Uma força medonha e invisível se insinua e eu recuo dois passos. A criatura continua prostrada perto da cama. Se há um Diabo, ele dança diante de meus olhos. Se este é o Deus único, certamente ele não é bondoso. Se abro os olhos não vejo nada na escuridão. Se fecho os olhos sinto meu corpo todo tiritar e os meus gritos são sufocados. Emudeço e sinto medo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me afundar.

Sob meus pés lama ou uma espécie de areia movediça, entretanto, passo ante passo, eu sigo firmemente e não me deixo ser sugado e nem provocado pelo que me atiça. Escrevo versos e conquisto minutos valiosos. Desejo viver. Perto dos finais cada segundo conta o dobro. Agora parece que minha vida significa algo, pelo menos por um instante. Escrevo para criar um interlúdio entre a realidade e o medo. Ouço perguntas milenares e impulsos solares me respondem que ainda é muito cedo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar acabar comigo.

Brilho raro na escuridão. Memórias de pessoas que me inspiram e iluminam meu caminho ressurgem. Queimo como o sol e o relógio marca meia-noite, eu sei, ergo-me em improbabilidades tão certeiras que dificilmente me creem. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me destruir e desconfio de quem seja.

Fito a criatura e me fito também, recito Incenso fosse Música, “isso de querer ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”. Pisco meus olhos e seco o choro. Outra crise de ansiedade e me concentro no que existe ao redor e escuto o ronco do cachorro. Não serei vencido tão facilmente por coisas assim. Como posso parar se ainda existem todos os sonhos do mundo em mim? A poetisa estava certa, o nosso maior medo não é o de sermos inadequados e sim o de sermos poderosos além da conta. Eu sei que essa noite a minha contraparte tentará me convencer de que eu não sou capaz de fazer coisas quais tenho certeza de que sou capaz. Intuo que o negrume da madrugada soará assustador, porém como um vaga-lume vou piscar e lumiar discretamente. Afastarei o breu para quem quer apenas seguir em frente.

Brilho raro na escuridão da existência para quem com paciência busca o seu lugar. A absoluta consciência de quem sabe que precisa se encontrar. Coragem e insistência para quem nasceu para iluminar.

Toda noite sofro com a mesma problemática, mas me descobri capaz de resolvê-la. Agora quando fecho meus olhos só me recordo do inigualável brilho das estrelas.

Eu sei que essa noite alguém vai tentar destruir a minha vida e sei também que vai falhar. Eu sei que muitos falarão sobre minhas ações, mas ninguém vai ser direto e me perguntar. Eu sei que já avisei quem me interessa que não sou feito de aço. Anunciei que ontem mesmo quase tive um colapso.

Eu sei que muita gente sabe de muita coisa e eu não sei de nada. Sei que parece fácil, mas será longa essa madrugada. A criatura vil voltará e sentirei a apoteose de meu abandono. A criatura violenta voltará buscando sangue e será difícil permanecer por uma hora em meu sono.

Toda noite sofro com a mesma problemática, porém aprendi a esperá-la com calma. Uma boa dose de meditação, instantes lúcidos de orgulho do próprio coração e a insistência no que alimenta minha alma.

Eu sei que essa noite alguém tentará me matar, mas eu não vou morrer. Sei que tudo se repetirá, mas eu só preciso aguentar um dia por vez.

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática. Um dia isso passa…

Desastre clássico.

Desastre clássico
que faço da vida
Essa profusão
de encontros
Estes olhos
cansados e tontos
Chocam-se com impulsos
violentos e mansos
Solidão esquecida
Desastre natural
Falso desinteresse
prolixo e crescente
Tudo se revela sempre
Tudo se rebela
até o que não se entende
Luzes urbanas
Pôr do sol praiano
Gaivotas e pombas ciganas
Por quanto serão o que são
enquanto eu as chamo
Ouço o meu nome
observo de soslaio  
Por onde me esvaio
quando me derramo?
Por onde desmaio
quando sinto fome?
Por onde existo
quando o mundo
então some?
Para onde choro
se sei que secou o pranto
Para onde sigo e me demoro
quando já não sou tanto?
Não me sinto tão pronto
Troca equivalente
Verdades dissidentes
Consegui sorrir hoje
Tudo está abandonado
Certamente eu também
Andarilho distraído
Olhar canino enternecido
Invento mundos
Invernos mudos
Adesivos velhos
com colas duradouras
Na janela marca a tela
a poética da garoa
Azul e preto
Uma memória
de fevereiro
A lua no céu noturno
com a estética
de um queijo
Buquê de flores
Surpresas
O tempo
dos amores
A morte
das certezas
A apoteose
das dores
Barcos frágeis
em tempestades
Aviões bimotores
Peculiaridades
Arco-íris sem cores
Desastre clássico
de um homem salgado
Entrei no mar e
o tornei mais doce
Por quanto será
assim se o que existe em mim
fosse apenas o que fosse?
Desastre ilusório
das minhas impressões
Este caos é retórico
no reino dos corações
Cato pedaços que acho
meus e dos outros
O escape não
faz sentido
Esta rouquidão
representa pouco
Gole de café
Preguiça esticada
Acreditar no Tempo
é uma cilada
Acreditar no Tempo
é ter fé que tudo se acalma
Desgraça cósmica
Desastre clássico
Filósofos miseráveis
Corruptores endinheirados
Seres humanos vendáveis
Desastre clássico e inevitável
Sinto-me como
um lixo descartável
Horizonte plúmbeo
neste crepúsculo
Quanto mais a noite cai
Mais eu me busco
O cinza então
vira púrpura
Eu não viro
coisa nenhuma
Continuo sendo
criatura que sonda
Sente o que sente
Fantasma que assombra
E segue em frente
Fera que rosna
Cansado e exausto
Expiaria os pecados
Nunca pela confissão
para qualquer padre
Sempre como um fardo
Tudo isso e me mudo
Noutro alvorecer
Revelo a forma e o conteúdo
Farei tudo por prazer
Nunca me centrei
Talvez eu nem o saiba
um dia fazer
O universo político
ainda acontece
Domingo fatídico
que amanhã se esquece
Eu sigo prolixo
O resto se entorpece
De escolhas alheias
que não lhe acometem
Lume lunar
que hoje não vem
Fume o que fumar
não ficará bem
Cafés quentes e
bolos de laranja
Sente o que sente
e ainda se arranja
Chuta uma árvore
e colhe novos frutos
Sente o que sente
desespero mudo
Fantasma das dunas
O velho e o mar
Significo o que digo
Instinto solar
Não sei mais se devo
falar o que quero dizer
Todo mundo pensa que me ergo
apenas para ofender
E de dentro surge algo
que eu não sei nem explicar
O sol some
por completo
A tempestade
me torna discreto
Penso o que penso
sem hesitar
Pena, penso, apenso,
lápis, tinta e lugar
Lacuna imensa
Quero me afastar
Sozinho pretendo
me erguer e lutar
Samurai dos anos
Dialeto do povo
Seguro algo
secreto e novo
Antecipo o pesadelo
Desastre clássico
Não é que eu tenha medo
Só estou sorumbático
Conchas, praias, pombas,
Chuvas, assaltantes, padarias,
Pão quente, máscaras, surtos,
Pandemia, xícara, Inglaterra,
O Condado e o Japão em outras Eras
Carvalho milenar e um antigo gosto
Prosseguir é estar exposto
Existir é conhecer seu rosto
E eu continuo procurando
a face que eu tinha antes
da criação deste Universo
E me perco e me acho
na somatória dos versos
Não faço sentido e
nem preciso fazer
O que está perdido
Ainda vai aparecer
No meu caminho
Vislumbro instantes
completamente felinos
Durmo quando acordado
Vivo melhor dormindo
Infelizmente porém
Durmo apenas três horas
Outro dia estive bem
Príncipe de ontem
Fracasso de agora
Hoje estou aquém
Como tudo demora
Como muda o clima
Estou em Campo Grande
com a cabeça em Curitiba
São Paulo fura a fila
e grita o meu nome
Aqui entre nós
será só mais um homem
Sorrio e me distraio
com tudo o que acho
Quero ler aquele livro
Caprichos e relaxos
Tento ser mais vil
E continuar sereno
Minha bondade não serviu
neste mundo tão ameno
Desastre clássico
que sempre perdura
Mouses neons, pastas térmicas,
réprobos, colegas que morrem jovens,
Caixas de sons, budas, elefantes,
Chaves e pokémons e portas,
Corujas, sapos e amuletos,
Bairro da Liberdade,
cadela grande e preta,
Imaginações impossíveis
e a beleza das hipóteses
Desastre clássico
Suspiro ácido
Estrelas fixas
Constelações prolixas
Estrelas soltas
Meteoros
Rios e bares
Arrepios lunares
Santos dos mares
E eu sozinho
Este é o caminho
Esta é a missão
Toda a aposta em mim
mesmo sem cartas nas mãos
Toda a aposta em mim
Mesmo que tudo dê errado
Feiticeiras, bruxos, amores resolutos,
E o furto do Rei Diabo
O que cresce como um susto
sem nenhum suspeito
Grita aos que se fingem surdos
Não há outros jeitos
E assim vou
Como posso
Como consigo
Como devo
E não me martirizo
Deuses e demônios me observam
Como se eu fosse entretenimento
Os aeroportos perderam o charme
As pessoas perderam o encanto
Os infames seguem em vantagem
Os benfeitores nem tanto
Desastre clássico
de um futuro perfeito
Curo o que furo no escuro
faço agora do meu jeito
Sem controle de danos
Eu preciso saber se existo
Mergulho de cabeça nos planos
ou para sempre desisto
Gatas pretas, cachorros de duas cores,
chocolates amargos, malas sucintas,
Jogadores antigos e aposentados,
Raposas, panteras e a televisão
A guerra que sempre habita meu coração
Desastre clássico e o que existe dentro
Quero viver para ver além do fingimento
Borboletas com olhos nas asas
Cometas que acendem meus olhos
E me colocam em brasas
Tudo o que significa
sem nunca significar
Sigo o instinto do que sinto
Um dia me realizo
Um dia me sinto no lugar
Desastre clássico
da existência
Eu só queria ser alguém
com mais paciência.

Tanto fez, tanto faz.

Tanto fez, tanto faz
A beleza é relativa
Menos às vezes é mais
O que é belo também se finda

Por quês e por quais
Síntese profética de sina
Transformo tudo em sinais
ou simplesmente em rimas

Cresci bem e cresci forte
Porém ainda temo o escuro
Por onde passo faço minha sorte
Sentimos falta do seu barulho

Ouvi isso mais de uma vez
A insistência das palavras
Tanto faz, tanto fez
Mas o silêncio dessa casa

É que quando você some
Tudo parece esperar por você
O cachorro faz greve de fome
A gata chega a adoecer

É que mesmo quando você sai
Nem tudo você leva
O que fica nos distrai
No sapato a velha pedra

É que a vida agora me chama
para bem longe daqui
Vou atrás do que a alma clama
É o que devo a mim

Tanto fez, tanto faz
É hora de partir
Desta vez não volto atrás
É tempo de luzir.

Tanto faz, tanto fez
Adiante com o cansaço
Era uma vez minha existência
no meu próprio tempo-espaço.

Diário de Bordo

Livro na sala
Eu no sofá
Arrumei minha mala
Não volto pra lá
Quem sabe o que sente
Leva na bagagem
O que acontece com a gente
Não é de passagem
Sorriso de comissária
Seja muito bem-vindo
A alma ordinária
clama pelo Destino
Eu e você vivos
em outra estação
Sigo pensativo
na poltrona do avião
Teu rosto
na memória
Teu gosto
velha história
Fito na janela
Luzes fortes da cidade
A vida é triste e bela
Viverei com saudades
Tudo vai como deve
Eu vou também
Ainda volto a ser leve
E sigo além
Diário de bordo
O fim é o começo
Esqueça logo de mim,
mas eu não te esqueço.

Ventania interna

Ventania interna
Como coloco para dormir
essas minhas feras?

Venta muito aqui dentro
São profusas minhas frases
O que estava ao lado foi ao centro
O que era certo virou quase

A ventania continua
Dentro e fora do meu corpo
Sou soprado pela rua
Sobrevivo meio morto

A árvore é verdejante
E eu sou todo falho
Queria ser mais constante
Quebro fácil como um galho

Neste ínterim de mau agouro
Recupero uma réstia de lucidez
Entrego todos os meus tesouros
Ainda chega minha vez

Arrastado pelo asfalto
A liberdade de uma folha
Por onde passo grito alto
Vivo fora de qualquer bolha

Ventania interna
Voltarei a dormir
no fim da primavera


A última noite

A última noite chegou e eu não te encontrei
Quando você apareceu você era menos você
A última quinzena de sofrimento não foi fácil
Suponho que tenhamos nos transformado
Ainda assim entrei em choque quando te procurei

Que fim teve a mulher que amei?
A última noite chegou e eu não te encontrei
Não havia carinho, amor ou atenção
Estava sozinho com a minha dor
Revisitando tudo o que conseguia
Espelhos, desejos, tudo custa caro,
Camas, terraços, beijos e o sexo no carro
A última noite chegou e eu não te encontrei
Ouvi sua voz falando alguma bobagem
e não admiti que você fosse ela
Não por se fazer coisa frágil
Sim por quase desistir de tudo
Independente da queda
Eu sempre te falei que há
muitas belezas neste mundo
A última noite chegou e eu não te encontrei
Pouca coisa mudou, mas eu mudei e sei
Sou o piloto que gargalha do desafio
minutos antes de chorar rios pela despedida
O segredo é não criar expectativas
A última noite chegou e eu não te encontrei
Refiz rotas mentalmente e abracei o meu sufoco
Não deixe esse tanto virar apenas um pouco
Respeite-se e erga sua voz aos que se fingem surdos
Mostre a beleza da sua forma e do seu conteúdo
Apenas viva extremamente bem
Incenso fosse música e você sabe
Querer ser quem é vai nos levar Além
A última noite chegou e eu não te encontrei
A última noite chegou e eu chorei
E escrevia enlouquecido por horas apenas
para ter a certeza de que não iria enlouquecer
Todo o resto parece me inventar
Espero que você não me deixe apodrecer
Daqui sigo agora completo e sozinho
Não é exatamente reto, mas é o meu caminho
A última noite chegou e eu não te encontrei
Espero que você possa apenas se recordar
das coisas boas que eu também me lembrei
A última noite chegou e a chuva parou,
mas o frio seguiu me congelando
Eu preciso me arriscar para sentir
que meu coração não está parando
A última noite chegou e eu não encontrei você
A última noite chegou e você não me encontrou
A última noite é qualquer coisa que antecede a manhã seguinte
Não viva por migalhas ou e nunca se faça pedinte
Divirta-se e coloque no rosto milhares de sorrisos
Temos amanhãs por alguns bons motivos.

Gaveta

Na gaveta guardados antigos
Ao lado do teclado fones de ouvidos
O que se escuta no som do computador
É qualquer hippie hop antigo e baladas sobre amor
O quarto está gelado para espantar os insetos
Tudo parece meio inventado, ainda que seja certo
Copo de água vazio, Alberto Caeiro, Paulo Leminski,
O Daniel de sempre fitando novos abismos
Avançando com questionamentos mutáveis
Perdendo-se por lapsos de consciência e memória
Túnel atemporal e sonho lúcido durante o dia
O meu irmão gargalha da dificuldade da gaivota
que teimosa resolveu voar contra o vento
Eu acredito em todos os tipos de lorota
Até em quem quer transar depois do casamento
O microfone me lembra o Sílvio Santos
A imitação mais antiga do apresentador no motel
Numa realidade alternativa estou aos prantos
Nesta madrugada sorrio e cumpro meu papel
A tesourinha de aparar o bigode custou R$ 28,00
Os vídeos no YouTube e o sotaque de Minas Gerais
Um pôster antigo do Coringa nunca pregado
Um pernilongo maldito quer ser assassinado
Armários extremamente novos e mouse colorido
Arranjo de flores roxas feitas de plástico
Estou me sentindo patético e fantástico
Estou me sentindo poético e descartável
Jogos e apostas, vitórias e fracassos
Existo no meu próprio Tempo-Espaço
Garrafa de água azul, cadeira de praia,
Toalha verde, pendrive, relógio preto,
Durmo de luzes acesas e este é meu segredo
Na gaveta guardados antigos
Algum dia tudo ainda pode ser possível
Desapareço por agora enquanto
ainda somos bons amigos.