Depois não tenho certezas.

Acordo antes e respiro

A mulher que amo

dorme ao meu lado e sorrio

Sempre fui gentil com as pessoas

Com as que odeio e com as que não gosto

e mais ainda com as que amo

Observo-a e me basto

Amar é olhar com cuidado e

Cuidar dos outros sempre foi

a única coisa que soube fazer desde cedo

Frequentemente alguém me dizia

Perto de ti não ouso sentir medo

Por vezes fui fatalista, mas vivi

tentando fazer a diferença

Creio que a felicidade destes dias

seja apenas consequência

Observo-a a dormir e sorrio

Este retrato no coração me acalma

Até quando ainda não a conhecia

sinto que a imagem já me acalmava

Toda esta leveza e poesia esteve

desde antes fixado em minha alma

O pé esquerdo dói e manco

Pisei em algo pontudo

Ainda assim, nesta manhã canto,

Porque a alegria traduz meu conteúdo

E me basto com a alegria de hoje

ainda que saiba que todas as horas seguintes

Trazem surpresas

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas

Levanto e faço o café

A mulher que amo continua dormindo

O cachorro que amo continua dormindo

A gata que amo continua dormindo

O gato que amo me seguiu até o escritório

Apenas para dormir mais perto de mim

Sou feliz e completo agora

Absorvo da vida toda a sutileza

Sou feliz e completo agora

Sobre depois não tenho certezas.

Artista.

As coisas começam e acabam

Nunca duvide do que encontra

no rabo da palavra

Solidão e borboleta amarela

Anteontem extraiu do coração

Uma autodestruição das mais belas

Pintou uma obra de arte

A tinta seu próprio sangue

Por não se duvidar artista

Teve uma severa hemorragia e morreu

A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso

Junto com um bilhete e um último aviso:

Digam que ele nunca se arrependeu

Einmal ist keinmal.

Receita.

Prepare

Oito ovos mexidos

Saboreie um pedaço

de chocolate amargo

Beba três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Agora é só apreciar meio litro de café

para se manter em pé durante o dia

Se for domingo ou feriado

Finalize aquele livro do Dostoievski

Junte o que há no seu porão

Rascunhe uma crônica ou poesia

Se não for domingo e nem feriado

Vá para o trabalho e cuide bem

de todos aqueles números

Até os trabalhos mínimos importam

Evite pisar nos insetos e matar os besouros

Até as vidas menores importam

Ouse se conhecer e olhe para si e para dentro

Prepare uma mochila com um lanche caseiro

Dirija até o Shopping China e compre

Meia dúzia de coisas que você não precisa

Lembre-se também de levar chocolate amargo

O suco de limão caro compensa mais no mercado

Vagueie pela cidade nas noites e sente sozinho em um bar

Não saia correndo se uma estranha se sentar contigo

Ela precisou de coragem para ir até você

Agora você precisa de coragem para ficar

Portanto, sorria, mesmo que ela não seja tão legal assim

Ainda que você saiba que prefere ir para casa sozinho hoje

Se quer coisas novas na sua vida, deve permitir que elas entrem

Se o seu velho mundo está balançado

Entre discretamente em um novo e recomece

Nenhuma maldade ou bondade perdura para sempre

Passeie pela cidade aos domingos de manhã

Contemple o que há de natureza e o que há de natural

Esteja atento aos que se atrevem a te criticar e te elogiar

Há críticas justas e elogios insinceros, portanto, abra os olhos

É perigoso acreditar em tudo o que dizem sobre você

Essa paisagem com gosto e cheiro de paraíso

Muitas vezes é uma armadilha

Pode sair dela completamente afetado

Volte para a casa

A solidão te ensinou muitas coisas

mas é hora de adotar um gato

Sozinho não irei conseguir

Sozinho amadureci bastante,

Entretanto, não venci o mundo

Agora como mais um pedaço de chocolate

Peço um lanche completo na hamburgueria

com adicional de ovos

Bebo o suco de limão (aquele mais caro)

Assisto um seriado promissor ou um anime novo

Hoje o meu time de futebol não joga

Se for sábado, cuidado, há noites de duzentas horas

Sento e escrevo no papel

Vou até o escritório

Sento e escrevo no computador

Malho por duas horas e nem é início de madrugada

Sinto um tesão absurdo, porém não desejo ver ninguém

Bato uma punheta e ainda nem é madrugada

Meus pensamentos não se esclarecem e continuo acordado

Meus pensamentos não me esclarecem e continuo acordado

Escrevo mais um texto triste sobre amores

como histórias de fantasmas

Só alguns viram, mas todo mundo fala sobre

Do terceiro andar olho pela sacada larga

e vejo a rua deserta e a fábrica de tratores

Ligo o ar-condicionado do escritório

Ligo o ar-condicionado do quarto

Ligo Lord Huron na televisão grande

e danço desajeitadamente

Quando voltar para a minha cidade

Serei o peixe valorizado no mercado

Isso não interessa

Quando voltar para a minha cidade

Receberei o calor dos meus amigos e minha família

E choro de madrugada

Hoje é sábado (ou sexta)

E de amanhã não passa

Vou adotar um gato e escrever um conto

sobre um amor que foi e não é mais

E vou rezar, embora não acredite em Deus

Eu acredito mesmo é no suco de limão mais caro

e naquele pedaço mágico de chocolate amargo

Vou até a minha geladeira e repito a receita,

Embora tenha comido lanche horas antes

Preparo

Oito ovos mexidos

Saboreio dois pedaços

de chocolate amargo

Bebo três goles de suco de limão

aquele mais caro do mercado

Já sinto o cheiro do café

e vou beber um litro inteiro

Esta noite vou tirar de mim

Tudo o que é falso

E vou encarar o meu eu verdadeiro

Não é bem que os ovos e o chocolate e o limão

tornem-me imensamente satisfeito, entretanto,

Esses alimentos me situam e me basto no entendimento

Neste momento a vida precisa ser desse jeito.

Carneiro.

Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.

Retrato da Infância.

O retrato de minha infância feliz
está colocado na mesa de cabeceira da minha memória
Quando se cresce há tantos empecilhos para ser feliz
Há tanto que se pesa antes de chamarmos algo de felicidade
que todos os que tiveram uma infância boa como a minha
revolvem em si mesmos, como máquinas do tempo,
pela nostalgia de uma época em que era fácil aproveitar a vida
O quadro que vejo, do passado colorido e dolorido,
está emoldurado na primeira parede do meu coração
Mesmo quando eu optava pela solidão
Era pequeno, como as crianças costumam ser
e me orgulhava das minhas banalidades,
como as crianças costumam se orgulhar
Nunca imaginava àqueles tempos que eu cresceria
e me tornaria uma pessoa tão difícil e alta
Antes, infante, observava todos os bichos
sem imaginar que um dia haveria em mim tanta falta
Envelhecer é silencioso
Raramente, percebemo-nos envelhecer
é que meu coração ainda carrega as mesmas coisas que eu tinha
naquele momento distante em que eu acabara de nascer
Exceto pelas ausências que aprendi a acumular
E o vazio escuro, inseguro, que tenta me sugar
Já íntimo, nomeei-o como Vide Noir
Outro gênio já diria
Viver é perigoso
e só aproveitamos a vida sem medo
Quantos de nós não temos vergonha
de nossos pequenos segredos
mesmo após eles serem revelados?
As manchas deveriam ensinar para o futuro
e não afetar o presente que logo será passado
Tenho todas as idades porque a idade é uma mentira
A única verdade é que cada um tem uma cronologia
Sofremos, ainda que esteja claro para ver
Tudo o que nasce deve um dia morrer
Anteontem vendi minhas duas coleções de DVD
porque precisava de dinheiro para comprar roupas novas
Comprei um carro, mesmo que dirigir não me apraza,
porque preciso da facilidade da locomoção para ser prático
Preciso ser prático para evitar ser infeliz
É assim que as coisas funcionam e o mundo funciona
e há tantos cuidados que devemos tomar para não sermos engolidos
Aquele velho amigo inimigo se aproxima e o ouço sussurrar
Vide, vide, vide noir
Despenco no precipício de mim e no mais fundo
do meu ser enxergo novos horizontes
Por vezes tudo soa vago, mas vou existir longe
Volto aos tempos em que corria pelos parquinhos
Tinha medo de me machucar e chorava com facilidade
Deitava na pedra do quintal e seguia os insetos, sem machucá-los
Depois inventava um império robótico capaz de coexistir com eles
Os humanos não tinham humanidade o suficiente
para poupar vidas pequenas
E algo me dizia que toda vida valia a pena
Sentia um tosco orgulho em ser excelente nos videogames
Eu era feito de brilho e barulho, mas permanecia discreto e silente
Tudo em mim era muito e com frequência divagava
mesmo muito novo sentia que algo sempre faltava
E era seguido de perto por meus irmãos e meus amigos
Estava sempre acompanhado, até quando corria para o perigo
E cresci bem, intranquilo e forte
Ano a ano melhorei a minha saúde e a minha sorte
Espero conseguir cumprir meus sonhos antes da morte
A puerilidade que ainda carrego hoje reflete
a criança livre que tentei ser ontem
Tentar geralmente basta
E a gente sempre se gasta
tentando fazer mais do que pode
exagerando numa ilusão de necessidades
Acumulando uma lista imensa de vaidades
Desfilando nossa arrogância por toda a cidade
E aquela ingenuidade distraída que tínhamos
Aquela pureza do passado
Isso quase me deixou nestes dias
Envergonhado
Até que percebi que sou o mesmo
Andando a esmo
Cumprindo todas as minhas promessas
Tento me lembrar que não é preciso ter tanta pressa
E se no passado fiz apenas o que pude
A explicação é de que não poderia antes ir além
Um dia tudo passa, relaxa,
a gente vai ficar bem
Mude quando estiver preparado
e nunca se esqueça
Importa menos o ritmo
Importa mais o rumo
Há tantos novos algoritmos que entre eles
Sumo
Reapareço quase compreendendo
qual é o meu lugar
Não tenho a forma de uma estrela,
mas vivo sempre a brilhar
Assim, nunca mais ousei ser imbecil
e me envergonhar de quem eu sou
Até minhas partes mais erradas vibram por amor
Os anos perdidos estão emoldurados
na segunda parede do meu coração
Quando o futuro se tornar passado
Vou colocar alguns móveis de lado
e arrumar a decoração.

Rumo.

Sinto saudade da estrada
Meus olhos castanhos escuros
chegavam nas boates e bares sempre procurando
Observava cada rachadura nos muros
enquanto a vida ia passando
Só me deparava com mentiras
espalhadas pela cidade
E eu que estava sempre na mira
Sabia que nas estradas havia
a única e esquecida verdade
Estar lúcido e sóbrio
prestes a desistir ou a admitir
É o consolo dos loucos,
Os que enxergam um pedaço da verdade são poucos
A consciência requer inevitabilidade
Quando podemos morrer a qualquer momento
somos honestos com a vida
Odeio ter a capacidade de ler as entrelinhas
Uma vez quase morri nas estradas,
E ainda assim sinto falta
das mãos no volante
E da necessidade de contar apenas
com meus reflexos para sobreviver
Qualquer caminhão ou ônibus
surgia como um monstro pesado
E eu, encolhido em meu carro branco,
antes de comprar um carro preto,
Sabia que não poderia ficar desatento
A vida é este detalhe discreto
E se dormimos na hora errada
somos esmagados como insetos
Há diversas plantações dos dois lados
e há bois e vacas e carneiros espalhados
Há também pombas que pulam no para-choque
e me pergunto se as aves se suicidam
As nuvens cinzas escolhem locais específicos para chover
E eu sinto falta do menino que eu era
antes da última primavera do mundo
Um jovem que acreditava em cartomantes,
dados viciados e na influência das marés
É estranho absorver a verdade
que o asfalto transmite
A máquina do tempo já foi inventada
É o cérebro quando estamos concentrados
em chegar em algum lugar
Qualquer lugar
Assim eu voltava brevemente
A minha prolixidade de sentidos
por vezes me fazia ficar calado
Essa prolixidade se fazia sucinta nos anos perdidos
nos quais sentia que nunca fui amado
E eu, grande mago da solidão,
carregava o charme de não ter charme,
O ar misterioso de quem não tem mistério,
O sono insistente em tudo o que me envolvia
contrastava com meu interesse imenso
em tudo o que me era alheio
E faziam filas para ter uma migalha da minha atenção
E eu olhava desinteressado e quase triste para o Vide Noir
sabendo que ninguém conhecia o buraco negro em mim
Aquela lacuna enorme que carregava tanta Dor e Beleza
sugava todas as minhas energias
Como restava algo em mim capaz
de encantar alguém?
E minhas vontades passavam
a 120km/h e eu sabia que tinha visto
muito mais do que o suficiente
E que nunca viveria o suficiente para
realizar todos os meus sonhos e desejos
Todo mundo é um, mas alguns
são um enquanto são dois ou três
Tenho me dedicado tanto
que por vezes me encontro aos prantos
quando um relâmpago lumia o breu da noite
Emociono-me diante da Beleza e sinto a sorte
de ser um homem que nunca sentiu inveja
Dirigir na estrada é
um ato contínuo de meditação
Se você tiver bons ouvidos
escutará o motor como seu coração
Os batimentos cardíacos unidos
Os radares querendo ditar limites
Os sonolentos nos tirando o ar
E os suspiros breves no peito
quando evitamos colisões e acidentes
E a consciência de que muitos outros
não conseguiram evitá-los
Viver é perigoso
Viver é raro
Viver é necessário
Se um dia tiver dúvidas sobre a vida
recomendo que dirija nas estradas
E se depare com a realidade
As mentiras, as cidades, os córregos,
os sinais de trânsito, o consumo, o dinheiro,
Isso tudo força a miopia na verdade
e deixamos de enxergar o que realmente importa
Abra as portas e janelas e veja
Ligue os faróis e encare os percursos
A vida é procurar e nunca encontrar
um rumo.

Véspera Vespertina

Meu coração se assemelha ao motor de um veículo zero. Bate, sem oscilar, um número exato de batimentos cardíacos por minuto. Se investigasse os números só me depararia com um resultado aproximado, longe da exatidão cirúrgica. A consciência de não ter plena consciência me exulta. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer qualquer coisa. A imprevisibilidade ainda é, por ora, parte do meu reflexo humano. Estou confessadamente cheio de humanidades! O sangue circula em minhas veias e funciono, pelo menos na medida do possível e sei que o coração bate. As nuvens passam pelo céu azul claro e sei que um dia não haverá mais céu ou nuvens para mim. Nasci para morrer e me perco em longas e eventuais conjecturas. Os animais me encaram com seus olhos fundos e grandes, antevendo secretamente todo o mistério da existência. O amor que recebo é de outra dimensão. Neste plano ainda não aprendi a amar além do limite e talvez nunca aprenda. Minhas emoções se sobressaltam e choro sozinho no carro ao me deparar com um relâmpago numa noite silenciosa. Quase buzino em protesto contra os deuses, mas ouço apenas sons urbanos e dirijo.

Chego em casa e tiro a roupa, como quem descarta os pensamentos e faço do sofá um cabideiro ou uma arara para pendurar vestimentas. Abandono também as hipóteses levianas. Se os cachorros e gatos conhecessem os mistérios da vida jamais seriam atropelados. Se as pombas soubessem os segredos do Universo, apenas comeriam pipoca perto da entrada do Fórum de Justiça da cidade, mas elas ousam ir além e morrem, ao comerem outras coisas ou após serem também fatalmente atropeladas. Estamos aqui para alguma coisa, mas nunca saberemos a razão, afirmo. O caminho mais fácil para a tranquilização do espírito é sufocar as hipóteses complexas e resumir a vida em simplicidades. Se nasci para morrer, como vou me manter motivado para desfrutar de minha vida? Percebo os outros muito mais do que gostaria. Fito segredos degradantes que jamais serão revelados. Revela-se em mim a mania de contar, que nunca me abandonou e sorrio por me escapar a quantidade de batimentos cardíacos, ainda que não escape o impulso de um meio gesto alheio, que significou o gesto inteiro; ainda que não me seja invisível qualquer coisa que aconteça na penumbra; ainda que eu durma relativamente acordado, por conhecer o mal que sofro em meus pesadelos horripilantes. Não procuro em vida expiar as tragédias que me acontecem no cotidiano e nem busco verdades além da uma Verdade. Sou amado, entretanto, há vezes que me sinto tão sozinho que ninguém chega perto de perfurar as esferas do meu isolamento. Devo ter a paciência de me manter calmo e frio, apesar da drástica loucura climática, para não confundirem a minha raiva serena com qualquer destempero frívolo e banal. Sou furiosamente delicado, mas confundir a minha cautela com fragilidade é pisar em uma zona além da qual estipulei a minha pacificidade. Se por bem ou por mal quiseram controlar a minha reação, eu direi a todos que se fodam, que se enfileirem um nos rabos dos outros, que se lambam ou se cuspam, que me chupem, que me procurem na esquina ou que pulem de um precipício.

Tenho o cuidado extremo de permanecer sóbrio e real e leal, mesmo quando me passam rasteiras e cerro os punhos e franzo uma das sobrancelhas enquanto escuto, pois ouvir continua sendo uma arte. Tenho soluções criativas que ninguém ouve, muitas vezes nem eu mesmo. Tenho evitado iniciar confusões, mas só se recordam de como batalho furiosamente uma vez inserido nelas. Não busco conflitos, mas reajo. Que assim lembrem então do meu barulho e que minhas vontades realizadas, apenas pela razão de que desejo as realizar, não sejam confundidas com qualquer vislumbre extravagante de um instinto hedonista. Recuso o hedonismo. Não é tudo pelo prazer, mas tenho o direito de pleitear o que suponho ser prazeroso uma vez que lido com a difícil missão diária de enveredar por subidas mais íngremes. Quero mais, sonho mais, subo mais, luto mais choro mais e até grito mais. Escalo uma montanha e do outro lado da colina há um desconhecido que me diz que eu não deveria estar ali. Após tanto tempo de escalada, resolvo fazer a única coisa que é simultaneamente sensível e sensata. Mostro-lhe o dedo do meio e calmamente digo que não há montanhas, nem vidas, nem separações. Se estiver atento perceberá que até mesmo metade das vontades que você julga serem suas, foram-lhe estimuladas por pessoas alheias ou pela sua falsa argúcia em observar errado. Digo isso a ele e mostro o outro dedo do meio. Percebendo-se apequenado diante de mim, observo-o fugir, sem argumentos para minhas falas, sem astúcia para o enfrentamento. Não o xingo, pois ele tem o direito de se resguardar silenciosamente em seu remorso acovardado.

Há pessoas que odeio e serão famosas e não as odiarei menos por isso. Há pessoas que amo e serão famosas e não as amarei menos por isso. As minhas opiniões não são afetadas por impressionismos de esquina e nem a minha atenção é comprada por qualquer debilitado chamariz patético e pedante. Os que mergulham na prostituição barata em nome de obter atenção e os que bajulam e se rastejam para buscar um lugar ao sol, por terem confundido um falso ídolo qualquer com um verdadeiro Astro cósmico, não sabem nada sobre iluminação e luz. A cidade continua a ser o que sempre foi e desconfio de que eu não sou mais quem quase sempre fui. Minhas mudanças estéticas são mais notáveis que minhas oscilações morais e intelectuais. Os batimentos cardíacos, agradeço a qualquer coisa que não vejo, ainda são impossíveis de contar com precisão. Conto as mentiras, as falhas, os acertos, o salário, os amigos, os falsos amigos, os psicólogos, os psicanalistas, os médicos, os jogadores de futebol, os coqueiros do outro lado da rua, mas ainda não conto os meus próprios batimentos. A imprevisibilidade ainda não é estéril em mim, entretanto, vejo-me cercado e cada vez menos humano. Velhos restaurantes que por anos foram imponentes, repentinamente estão falidos. Como posso eu, repleto de tantas humanidades, ser infalível? Falho com e sem classe, arrependo-me de coisas que fiz e de coisas que não fiz, de murros que não dei na hora exata. Os ossos se consolidam, mas os remorsos nos perseguem e algumas vezes nos matam. O grande júbilo quando o cansaço me alcança é manter a convicção de que ainda há a morte. Que sorte, digo baixo, que sorte, confesso aos prantos, que sorte, grito aos quatro cantos. Tudo começa e acaba e vilões e heróis, santos e pecadores, criminosos, apátridas e ingênuos se igualam com o nivelar final da inevitável condição humana: todos morremos. Não há um político corrupto que escape, não há um diretor de cinema engenhoso, uma advogada, um filho, uma mãe, um filho da mãe, um filho da puta, um animal, uma planta que escape. Tudo morre e tudo em mim retorna ao seu devido lugar. Repito, cansado e combalido, o que começa precisa acabar.

Sinto uma afta abaixo da língua e a pressiono com um punhado de sal e meu dedo anelar. A dor me faz sentir vivo e os meus pensamentos cessam. Não é preciso pressa. O mundo é grande e sempre haverá alguém acordado e alguém dormindo. Os relógios ajudam no controle, mas os ponteiros são mecanizados. A consciência de não ter plena consciência me exalta e me alegra. Toda beleza que interessa é vaga e cega. Nasci para morrer e me firmo nessa constatação. Meu coração sem contagem de batimentos parece descompassado, como um motor quebrado, mas me valho de um orgulho tosco e juvenil de ser quem eu sou hoje, ainda que não tenha a certeza de quem eu vá ser amanhã. Somos ingênuos e abobalhados diante do Tempo e fazemos ou deixamos de fazer apenas nestes pequenos lapsos nos quais nos enxergamos quase como seres Reais. Sem os lapsos epifânicos, sem essa convicção superior de necessidade, nada somos e tentamos disfarçar a notável indiferença que sentimos com propósitos e sonhos e desejos. A vida cinza do escritório se colore com a paisagem que vislumbro da janela. As árvores e máquinas jazem belas no pátio dos automóveis gigantes. Em outros sistemas, será que esses ônibus contam histórias sobre os humanos que os conduzem? Haverá alguém segurando este planeta gigante na palma da mão, como eu seguro uma bola de tênis? Sorrio como reflexo, sem sentir felicidade ou tristeza. Ainda sou o mesmo de sempre, na verdade e esta cidade vai mudando mais do que eu, tanto nos recônditos de seu âmago, como no sentido estético. A alma da cidade se expande. A egrégora formada pelo acúmulo de espíritos campo-grandenses vai além de uma Campo Grande. Novos prédios surgem e eles riem dos antigos, que dizem para as casas pequenas e os comércios locais que a juventude atual está drástica e mudada. As coisas eram melhores antigamente. Até os insetos estão abandonado a cidade para tocarem banjo em uma roda no pântano. Qualquer leigo midiático abandona a literatura por qualquer outro esporte mais prazeroso e fugaz.

Falo do que sei, sabendo que sei cada vez menos. Os mais sábios morreram e os mais estúpidos também e quando chegar a minha vez, eu sei que alcançarei todos os que se foram e que hoje estão distantes de mim. Não tenho vaidades cronológicas e assim, contento-me em viver só até a velhice, realizando-me ou não, porque o homem que deseja e realiza encontra o mesmo encerramento que o que não se realiza. Pretendo beber muito café e muita cerveja, pretendo foder pelos próximos trinta anos pelo menos quatro vezes por semana, escrever muitos textos, ainda que ninguém os leia e dizer sem hesitar em um instinto educado de polidez BOM DIA, para as pessoas que eu encontrar no elevador do condomínio. Os animais podem guardar segredos existencialistas, mas eu não sou capaz de guardar nada. A ambição de existir longe me frustra constantemente. O sucesso e o fracasso são vizinhos de frente. Um dia quando eu pedir café emprestado para o vizinho ou para a vizinha, quem sabe não me descubram. Imagino-me agora coberto e rio da inutilidade pueril do senso de humor. Tudo existe, mesmo sem que eu saiba para quê e saber que todas as pessoas pensam, mais ou menos a contagem aproximada de pensamentos que eu também penso, convence-me de que há demasiados pensadores. Queria emudecer na consciência apenas por algumas horas e me encarar nu, vazio e puro. Aceito o meu corpo e até da minha assimetria sou seguro, afinal, a carcaça é nada ou no máximo significa e traduz a roupagem de minha alma. Sinto-me só. Sinto-me e só. Queria externar minhas raivas e paixões, minhas partes esdrúxulas, minhas ironias e verdades, minhas razões, meus choros, meus prazeres, queria ser encarado como um livro escrito e publicado, mesmo que repleto de rasuras. Vou ao banheiro e mijo. Tenho mijado muito por beber seis litros de água por dia e penso na utilidade da água, não para os outros, mas para a minha funcionalidade biológica. Esses tantos silêncios são o que tornam a vida possível ou o que nos disfarça o suficiente para que sejamos encarados como toleráveis? Essa quietude quando a vida pede coragem nos ensina algo sobre os outros ou sobre nós mesmos? Essa angústia disfarçada, esse senso estético exaltado e murcho, destacado constantemente como se fosse a única qualidade a se espelhar, ensina algo, afinal? O fanatismo é indiscutivelmente além da conta, tanto que já vi pessoas disfarçando seus corações, suas paixões e até suas próprias identidades, tudo para saciar uma pressão social concreta. A pressão singular que assola quando ninguém vê, guia o fanático até uma confissão secreta, calada, escondida. Quase ninguém nota, mas eu tenho observado.

Não me entrego aos idiotas e nem me verão me submeter ao vulgar escancarado ou oculto. Àqueles que pensam que podem pensar sobre como os outros agem, não são só estúpidos como completamente egoístas. A vaidade narcisa passa longe de mim, mas tampouco me impressiono com narcisos. Acostumei-me com a constante presença deles ao longo da vida. Há uma mania de convencimento frágil, falsa, de se pensar muito mais do que se é. Idolatrar-se é se entregar ao vitupério próprio, individual e inescapável. Toda obsessão é boçal, sendo a obsessão consigo a mais banal delas. Deificar a aparência é optar sacrificar tudo o que não é aparente. Destacar apenas a estética é se ajoelhar diante de uma falsa beleza e não me ajoelho para amigos e nem para inimigos. Sim, há os amigos e há os inimigos também, você subestima, mas há pessoas na cidade que riem de você, ainda que não te conheçam, que torcem contra você, ainda que nunca tenham te visto, que invejam a sua vida, é claro, sem terem a consciência de que há ônus e bônus para todos. Você que me olha e não lê minhas palavras, zomba, gargalha e ainda acha que estou louco. Tudo o que todo mundo faz ainda é muito pouco. A tragédia não é ser leigo, é ser amoroso. O inferno, como disse Sartre, são os outros.

Já não posso tolerar quem age de maneiras irresponsáveis em relação a mim e me afasto, afastando-os também, por ter aprendido que a autopreservação como instinto é, por vezes, salvadora. Se não me salvasse, quem operaria heroísmos em minha vida? Se não me defendesse, quem desferiria um tapa tentando salvar a minha honra? Se não berrasse, quem conteria meus desesperos soltos no peito? Quem para me defender, quando o mundo é covarde na defesa e prefere se valer de uma fingida destreza para evitar o conflito? Quem é que sendo esperto escolhe o lado certo, sendo que o outro lado está sozinho? Quem é que vai se esquivar e falar que não há razão após o primeiro grito? A covardia, bem como artimanhas viperinas, é manjada e não sou ingênuo para me enganar facilmente. Tenho uma estrutura estética formidável e me agrado com a forma do meu nariz e a cor dos meus olhos, embora desejasse que cumprissem a função original para qual os tenho. Se os olhos enxergassem bem e se meu nariz respirasse melhor, eu talvez me sentisse satisfeito. O senso de estética externo é marcante e por isso engana a funcionalidade de tudo o que é interno e funciona com oscilações. Enganamos os outros, mas no fim, desconfio que jamais enganamos a nós mesmos. Comportamos monstruosidades, bem como operamos milagres. A existência é repleta de dualidade e nós somos todos ambivalentes.

Choro solitário, sem derramar lágrimas e me percebo percebendo. Não consigo ser simpático. A minha ira esbarra na minha doçura e meus contrastes me definem. Se posso ser mais? Talvez. Se quero ser mais? Não sei. Se sou o mesmo desde a infância? Provavelmente sim. Ainda me vejo menino no quintal de casa, sozinho, observando os brinquedos imóveis, que logo agitariam a minha manhã com a minha imaginação. Não preciso estimular minha criatividade, tampouco minhas convicções. Nossas certezas são mais certas que as certezas dos que julgamos ignorantes ou loucos? Há genialidades vomitadas diretamente no esgoto. Esvazio-me, mas continuo cheio, sem saberes acumulados. A única certeza que se crava em meu peito, como uma estaca fincada no coração sem batimentos de um vampiro, é de que um dia irei morrer, bem como todos os que não são eternos também morrerão. Tudo se despedaça. Tudo começa e acaba. Tudo acaba e começa.

Se o mistério da Vida fosse um quebra-cabeças, eu seria apenas uma peça. Rio da rima e me volto aos números. Preciso tomar café e mijar, não necessariamente nessa ordem. Que o Rio de Janeiro tenha compaixão de mim, gargalho no escritório de casa. A ira alheia envolta em fantasias de relações íntimas nunca cumpridas me coloca um sorriso no rosto. Um se matar por um amor não correspondido e este vivo, sobrevivente, não clama por gratidão e abandona o “amigo” na primeira oportunidade. É a batalha da bajulação contra a vaidade. Suporta-se tanta a humilhação só para andar de mãos dadas. Há mãos que são cheirosas e macias, mas não valem esse preço. Sorrio outra vez de meus desassossegos. Torço para que não invadam meu espaço pessoal mais uma vez. A violência não me apraz, mas tenho me cansado de ser calmo. Quero o silêncio a qualquer custo. Não me basto e todo novo dia ainda me busco. Já é possível revolver para dentro e me encarar sem sustos?

Quero chegar em casa e encarar os profundos olhares dos bichos, que me exigirão ternura e alimentos, sem explicações sobre mistérios não misteriosos da vida. Sorrio com expectativas, mesmo sabendo que a expectativa é uma forma de ilusão condicionada propositadamente por mim. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim e essa exatidão me faz rir. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer ainda qualquer coisa. A imprevisibilidade é, por ora, parte do meu reflexo de humanidade. Nesta véspera vespertina de mais um ano de vida, neste prelúdio alaranjado do meu aniversário, penso, como bilhões espalhados pelo mundo também pensam. Sonho infantil de um dia mostrar meus pensamentos e minhas iniciativas aos outros que também pensam. Sorrio outra vez, ainda que essa hipótese possa talvez nunca se concluir. O futuro é imprevisível, bem como as vontades que dançam no meu âmago. Tudo pode acontecer!

Tudo pode acontecer, mas nem tudo vai. A cada escolha que faço deixo milhões de outros destinos para trás.

O que andam dizendo

A vida é certamente incerta,
eu disse e ela sorriu,
Depois me respondeu
com uma frase esperta
e logo então sumiu

Diga-me o que prefere:
o peso ou a leveza?
Prefiro que a vida seja leve
Já você opta pela tristeza

Bem, você precisa assimilar e saber
A melancolia era minha única companhia
Quando ninguém parecia se importar
Quando ninguém tentava me entender
É preciso ser sério nas situações sérias
e no resto do tempo buscar o riso e o prazer

Devemos nos divertir nessa vida
mesmo que nada disso seja um jogo
Tenho certeza de que não há garantias
de que viveremos de novo

Se você pausar o relógio
A vida lá fora continua,
Não seja sempre tão óbvio,
Cante hoje uma canção para a lua

Piche no muro ou na rua
Aproveite os detalhes da jornada
Sacie os seus desejos, pois logo tudo passa
A gente vem, vive, cresce e depois vira fumaça

Há convicções certeiras que esquecemos de lembrar
A vida começa, mas uma hora tem que acabar

Lá fora as pessoas desinteressantes
falam a todo instante sobre nós dois
Somos constantes amantes do agora
Nada fica para depois

Outra noite dessas saímos no escuro
Para um passeio diferente
Demos de cara com uma inscrição no muro
“Quem é que pode ver para sempre?”
Apesar disso nossos juramentos eram puros

Fodemos em todos os lugares
como uma maneira de nos afirmar
Todos os cantos da cidade, até os bares
se tornavam nosso lar
E eu ouvia sua voz melódica sussurrar:
nós fomos feitos para durar
Uma sina, um destino, duas pessoas,
Um par

Você gargalhava da intensidade do meu sentimento,
mas se aquietava quando me ouvia:
A vida é apenas movimento

E você se calava
quando alguém de repente declarava
que um dia haveria uma separação
Aquele pensamento não se enquadrava
no seu coração
Para ser sincero, confesso,
No meu também não

Os cães velhacos e sujos de barro
Os carros quase atolados
Os gatos miando de fome

O barato se tornava caro
A verdade era caso raro
E minha única oração era teu nome

Chamava-a com uma certeza ancestral
Fique
Nem tudo que acaba tem final
Acredite

Rabisquei um verso num caderno
Você me chamou de brega
Para chegar ao céu passamos pelo inferno
A beleza que importa é cega

Rimos e nos embriagamos
até que de repente houve uma briga
Não estava nos nossos planos,
mas nos afastamos pela vida

Olhares matreiros e gestos displicentes
O amor abafado pelos costumes
A gente ainda é o que sente?
O que explica tanto ciúme?

Meses, revezes, conveses
O que fazemos se tornar engano
Você entre os franceses
Do outro lado do oceano

Astronauta assando um cogumelo
Vermelho se tornando amarelo
O que nos alcança no reino do sono

A complexidade de um homem singelo
A máscara que oculta o belo
A renúncia, as denúncias, o abandono

Tudo muda de repente
E às vezes se sente o efeito
Nenhum dano é permanente,
mas algo ruim perfurou o meu peito

Ficamos por um fio, mas
Berrei pela cidade
Há conserto se ainda
há vontade

Mostre sua feiura me dê um abraço
Receba minha ternura e distorça
o tempo-espaço
A vida anda muito dura
Que saudade do seu abraço

Espalharam por aí boatos
sobre coisas que não estão acontecendo
Segura minha mão e sairemos vencendo

É necessário encarar essas afrontas,
Foda-se o que todos andam dizendo
A gente ainda se reencontra,
mesmo se acabarmos nos perdendo.

Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.  

Cronologias.

Num tempo em que ela era minha
E flertávamos como crianças ingênuas
Sentávamos no tronco de uma árvore
e olhávamos a lentidão das vidas pequenas
Formigas, abelhas, esforços
A importância das rotinas nos escapava
Logo menos seria a hora dela de partir
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Minha frase antecipa cronologias
como se eu tivesse viajado ao futuro
Minha sabedoria a impressiona
Tudo bem, é assim mesmo,
Amanhã nos veremos, digo,
Ela pergunta, é certeza?
Mesmo sendo um domingo?
Afirmo, ela corre e me beija
e me entrega uma flor amarela
Digo que seria incrível se em algum
lugar do mundo existissem flores pretas nas janelas
Ela franze o cenho, mas relutante responde:
“você pode pintar essa com uma caneta”
Depois corre e se esconde
Gargalho dela e de um telefonema
Que a vida seja bela como nos cinemas
Furacões de distopias distintas
tiram os meus pés do chão
A minha alma está faminta e
ouço as batidas do meu coração
“Ictus Cordis” significa impulso apical
Este é um formidável nome afinal
Desejo agora te amar, outra me confessa,
Isso não é amor, é desespero, pressa,
Não sou eu, quase amor, o que tenho é tão pouco
Desconfio de que se perdeu no meu jeito meio louco
Estou rouco, calma, devagar, agora estou sentado na calçada
Ouço uma confissão aterrorizante sobre
um crime antigo na melancólica madrugada
Abraça-me, criança, tenha esperança,
Não imagino sua dor, mas
hoje você está longe do perigo
Nunca serei teu amor,
mas sou para sempre teu amigo
Ainda que você suma para todo o sempre,
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Observo minha alma e depois meu espelho
gosto do que vejo quando estou pelado
Sinto que me vesti errado quase uma vida inteira
Quando me obrigavam a vestir máscaras,
eu as rasgava no meu júbilo durante as bebedeiras,
Sentimentos que transcendem o tempo
e imortalidades que agora morrem
Aproveite cada momento
Eles inevitavelmente escorrem
Olha nos meus olhos,
Esverdeia minha imaginação
e se torna agora minha personagem
Será que é mais que alucinação ou miragem?
Não, não nas cidades grandes!
Não, não nas cidades pequenas!
Não, não nos campos verdes!
Não, não enquanto os mares forem salgados!
Não, não enquanto não segurar um d20!
Não, não enquanto não houver fé nos dias seguintes,
Um, dois, dez, vinte, estou envelhecendo,
Vinte e oito, vinte e nove, os grisalhos vão aparecendo
Olha para os números mágicos e eles te olharão
Roda outra vez na violência do teu furacão
Tudo isso é o que é e você merece
Te davam por avenca, mas suas raízes esticam e crescem
Você toma conta de tudo, minha senhorita
Obrigado por tornar a vida mais bonita,
Sim, sim nas ruas ermas e nas boates lotadas,
Sim, sim nas manhãs e nas madrugadas,
Sim, ora, claro, você tem muito o que me ensinar
Sim, eu sou desajeitado, mas ainda hei de dançar
Escuta, por favor, devagar, sou puro e arisco
A minha vida é me arriscar aos riscos
Lembro de mim, quase como se não me fosse
sentado naquela velha árvore que não está mais no parque
Lembro de mim, quase como se não me fosse
inseguro, indeciso e melancólico
Tudo isso que foi e tudo isso que é
Isso tudo não passa de uma fase
Chegamos ao último destino?
Quase!
Ando nu pelo meu apartamento
Sou feliz
Outrora andava solitário
e zombava tudo o que existe
Minha satisfação chegou durante a jornada
Compreendi que a minha alegria é triste
Por vezes me levanto soturno, sorumbático
e sinto um estranho arrepio
É no meu estado mais dramático
que sinto desaparecerem os meus vazios
Logo menos será minha hora de partir
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Como aceitar um gol do adversário que acontece
nos acréscimos em um jogo de futebol?
Como não se imaginar dançando
após se apaixonar por Sophie e Howl?
Será que um dia saberei de algo?
Olha, amor, eternidades se acabam
Portanto nunca me faça de refém
As baratas por vezes serão douradas
E há os que não querem o nosso bem
Ando pelas ruas e me encontro
Vejo a minha versão criança
abraçando minha versão adolescente
Muita calma, garotos,
Esse mundo ainda se acostuma com a gente
Não, não apenas nas cidades pequenas,
Não, não apenas nas cidades grandes,
Aprecia o peso da minha sentença
“EU VOU EXISTIR LONGE”
Declaro e tiro do meu peito toda a raiva
Os milagres desfilam por aí
recolhendo casacos para doação
Alguns se acabam e outros nos levam
para o velho furacão
Bem lá onde ficção e realidade se confundem
Bebo o café amargo
Sou livre e independente
Cresci do meu jeito, expansivo, valente
Logo menos será a minha hora de partir
Ensombro os meus amigos para que descansem
Protejo-os, como se os antecipasse
Nunca conhecemos ninguém
Abraço todos os meus eu’s antigos
Descobri para onde foram os meus anos perdidos
Sorrio, cansaço, esperando pelos números
enquanto rezo pelas letras nascerem
das pontas dos meus dedos
Sou ficcionista e minhas fantasias
são meus maiores segredos
Um dia vou revelá-los
Um dia vocês vão contemplá-los
Um dia, sim, assim será
Fecho os olhos e não flerto
Ainda assim sou uma criança ingênua  
Acreditando na beleza do mundo ao redor
Sento na calçada, não há troncos soltos,
Não há lamúrias ou corridas alegres,
Não, não há vento,
Não, não há sexo,
Não, sequer existe carinho
Estou nesta estrada sozinho
Bem como vim ao mundo,
cheio de perguntas e sem respostas,
Meu coração de vagabundo se alegra
e faço novas apostas
Encontro minhas partes feias
Encontro minhas partes belas
Sou tantos, pacífico, fera,
Grito selvagem sobre a minha coragem
Não me reconheço e gargalho
Ferro, vinho, cumprimentos, despedidas,
Há tanta coisa que sobrevoa minha cabeça
Minhas histórias mais belas não serão esquecidas,
ainda que todos me esqueçam
O tempo voa
Será que um dia saberei de algo?
É possível descobrir o nome que tinha
antes que o Universo fosse criado?
Errado, certo, apenas palavras
Aparo flechas com a minha espada
Sono, sonho, lúcido, louco, parado,
Acerto quando erro,
sou um relógio quebrado
Régio, eu tenho me esforçado
A importância das rotinas me cerca
e os anjos me apertam proferindo profecias
Você escreve qualquer merda e torce
para que sejam poesias
Olha, que a gente nunca sabe o que sabe
e vive tentando se encaixar onde não cabe
Fadados a perseguir ídolos falsos por milênios
Aqui nunca mais, vivo longe em sonhos gênios,
O sono pesa minhas pálpebras e amanhã trabalho
Perdi-me das horas,
Se eu me perder de ti, encontra-me,
por favor, não demora
Olha, olha que sobrou pouco de mim
E essa miséria é maior que o infinito
Obrigado outra vez por fazer meu mundo mais bonito
Profícuo, prolixo, sucinto, distinto,
Discreto, ereto, objetivo,
Ergo o rosto, exposto e me atingem
O sangue pinga, eu vermelho,
sem panos e nem curativos
Eu vermelho
Quase morto,
Ainda vivo
A morte chega, eu a sinto, mas não hoje
Aproxima-se com a ternura de um beijo
Desafio minha sina e renego seu desejo
Prometo que só irei após séculos
Desacelere agora, planeta Terra,
não queremos guerra, mas não acabamos
Alguns ciclos logo se encerram,
mas ainda nem nos mostramos
É estranho, real, inconstante
Sussurre suas vontades aos céus
Realize-as imediatamente
Aproveite a vida já que tudo acaba de repente
Será que um dia saberei de algo?
Deito-me perto de um lago e me percebo
Estou me transformando em um fantasma, mas
ainda vejo um cenário auspicioso surgir no horizonte
Se um dia saberei de algo? Isso já está claro:
Eu vou existir longe.