Um dia…

É necessário certo desprendimento intelectual para conjecturar hipóteses que sejam desconfortáveis. Olha, eu nasci neste lugar, mas não há nada que me prenda aqui, exceto os falsos aprisionamentos quais são obras ficcionais da minha tão criativa mente e aos quais me submeti. Olha, pois o mundo é grande e nele cabe quase toda ambição que tive, mas veja, há impossibilidades para o plano real das coisas, assim, conjecturo-me em cenários novos, diferentes, distante me vejo e reconheço o desejo, fora cresço, ainda distinto e decente, mas buscando outra vida e a realização de que posso encontrar o rosto que eu tinha antes da criação do Universo.

Sou o que posso e talvez amanhã possa ser mais por sentir que hoje ainda não posso ser exatamente o suficiente. Esta suficiência da qual falo objetiva unicamente o meu próprio agrado e a minha singular satisfação, pois como escreveu outrora Machado em Dom Casmurro, “se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo e, essa lacuna é tudo”.

O alcance deles é vasto e o meu pequeno. Quando as luzes se apagam, eu me pego tremendo. Sou obcecado com mudar o mundo para melhor e com a dieta diária do consumo de chocolates amargos e ovos mexidos. Mudo algo verdadeiramente? Faço ou poderei fazer coisas boas? Há os que me dizem de maneira objetiva que eu já faço a diferença e, eu me pergunto, eles geralmente gastam o tempo lendo os meus discursos ou elogiam mais por uma questão de decoro social? Quem sabe eles não pensem “você é péssimo, terrível, horroroso, mas eu sou legal e por isso vou te incentivar, vá, continue tentando, amigo”. Pergunto-me se a avaliação de uma estrela é sincera, pois é desacompanhada de explicações e, agora me pego estático e sério. Os corações das pessoas são cheios de revoltas e mistérios, assim, vejo-me com um desconforto. Nunca posso querer condenar o meu coração pelas inconstâncias e contradições. O que vale no fim do dia é ser honesto, certo?

Supostamente H. D. Thoreau disse certa vez: mais do que amor, do que dinheiro, do que fé, do que fama, do que justiça, dê-me a verdade.

O que significava essa obsessão com a Verdade? Nossa verdade equivale-se ao nosso propósito e tudo o que fica entre a Verdade e o Objetivo é frívolo? Penso, assim, sobre minhas próprias paranoias e principalmente sobre o que considero essencial ao que me condiciona como ser humano. Poderia dizer que viveria sem o ventilador, sem o ar-condicionado, sem comer quaisquer tipos de carne, mas qual é o sentido de abdicar de algo que torna a vida mais prática? Essas coisas todas, essas que tornam a existência facilitada e prática, elas de certa forma se transformam em vícios para que nós deixemos de ver o próprio protagonismo que deveríamos exercer na Vida? Disfarçamos nossas intenções reais inserindo distrações significativas antes delas? O que é que insistimos em não ver?

Vivo como se eu tivesse sempre mais um dia e isso me incomoda. Consciente deste mundo no qual sobrevivo, eu busco não me esquecer da fragilidade da vida. Ontem mesmo era começo do novo milênio e não muitos meses depois a minha avó falecia. Que me comove na morte de uma avó que se preocupava em me preparar tomates com sal e não me comove nas milhares de mortes cotidianas? Que me torna alheio quando, às vezes, sinto que deveria mergulhar no sofrimento mundano? As ideias, os pensamentos, o que me move, é tudo inversamente proporcional ao que me socorre. Tenho gastado minhas reflexões na esperança inútil de que meus pensamentos se esvaziem e de que eu possa encontrar paz após tanto meditar. Encontro-me com mais perguntas e mais contradições e mais percalços. O que é que há de admirável no quintal do vizinho para que ele seja tão exaltado se tenho o quintal tão bonito quanto? Não, não sou eu que faço essas comparações, admito que meu quintal me satisfaz, embora eu esteja notoriamente atrasado para arrancar a promessa de matagal que reside naquelas tantas ervas daninhas, mas suponho-me na existência alheia e busco entender o que por vezes considero incompreensível. A inveja, o vil, o torpe, o maligno, eu já tive vontade de incorporar essas características, porém olho o mundo e o vejo substancialmente negativo. Quão conveniente seria eu se agisse em lapsos de fúria e me tornasse uma espécie de hedonista, um sujeito egoísta, que só existe como indivíduo e individualmente? Há coisas mais importantes que os prazeres. Há funções mais importantes que sentimentos. Há só uma maneira de seguir de peito aberto e com a cabeça erguida, mas há um preço que se paga para ser assim. Eu pago.

Vejo-os, quando não me vejo. Desligo-me da existência para fazer parte de outra coisa e olhar melhor para a minha missão. Como tantos nascem e morrem sem sequer meditarem sobre a missão? A vida pode decorrer tediosa, vaga e sem propósito? Percebo pela minha capacidade de observação que muitos são extremamente dedicados ao trabalho, ainda que o trabalho lhes pague apenas dinheiro e humilhações. Devemos permitir que sejamos humilhados? Aceitam o trabalho, mesmo quando o trabalho é inerente ao declínio, mesmo que notoriamente a noção de cumprir o dever te sopre para a beira de um precipício. Os que caem demoram para se recuperar e os que não caem, creem puerilmente que nunca irão cair, assim, o melhor alimento da ilusão é a expectativa de poder e o melhor alimento da alma é a expectativa da realização de todos os nossos desejos, por mais que os desejos se extravasem na esfera singular da existência e necessitem de outras pessoas para que sejam realizados.

Sei pelo que determinadas pessoas me abandonariam, pois outras me abandonaram. Será que sou capaz de abandonar todos?

Nenhuma dor pelo dano (Leminski).

Há outros mundos além deste (S. King).

Tem que ser assim (M. Kundera).

Desde a infância respeito meus espaços particulares e preciso de doses pontuais de solidão para não amargar a vida. Se tenho o que necessito, eu transbordo a minha doçura e não é incomum que dissertem e narrem por aí sobre o quanto me sentem e me enxergam realmente doce. Sou uma espécie de sujeito comum com ímpetos de heroísmo e desafio improbabilidades fazendo das minhas cenas presentes minhas novas evoluções. Persegui o pôr do sol em janeiro, quando voltava com quase todos os meus melhores amigos para Campo Grande. Dirigi sozinho na ida e na volta, enfrentei a chuva e a neblina e desci e subi várias serras. Ao final do percurso da volta, eu decidi que chegaríamos em casa ainda de noite. Persegui o sol pelo que pareceram horas, mas os minutos nunca haviam passado tão lentamente. Um dos amigos estava exausto e dormia, outro seguia quieto e discreto no próprio canto e havia um que estava ansioso e tenso com a iminente chegada da noite. A escuridão engolia a estrada e o carro branco persistia vivo com os faróis acesos.

Se sei de algo, eu creio que agora possa confessar, é que não sei de coisa alguma. Sou capaz de lampejos de brilhantismo e atitudes heroicas, exagero-me quando me dedico e me sinto inflado por uma coragem tão poderosa e real que me aproxima da Coragem original. Sei também que em diversos momentos sou deprimente, fraco e inútil. Não admito vulgaridades e quando sou vulgar, excedo-me na raiva que sinto por mim, pois há certas características comportamentais quais não posso tolerar no meu próprio ser. Encontro-me com o meu reflexo várias vezes ao dia, seja nos retrovisores ou espelhos ou poças d’água. A autoimagem deve me agradar e se me vejo sujo, eu faço questão de nunca mais enveredar pelos caminhos quais me sujei.

Outra vez me consterno ao me encontrar no meu constante estado soporífero. Perto de sentir o sono, não me permito dormir. O sono é vão e a vida ocorre nos intervalos de meus piores pesadelos e de meus maiores sonhos. Sonhei-me majestade e fiz mais sentido podendo proteger o meu povo. Sonhei-me mendigo e me senti feliz ao dividir minha pouca comida com o meu cachorro. Sonhei-me gota de chuva em queda livre e fui feliz despencando do céu para o telhado de uma casa. Não muito depois evaporei e da minha presença nada restou. Sonhei-me como um gato entediado que dormia dezoito horas por dia. Todos os sonhos me apraziam mais do que a penosa realidade de ser apenas quem sou. Todos os sonhos me faziam ser algo mais, algo que nunca serei.

Trabalhei e ganhei dinheiro, conquistei pessoas, fui amado e juro que até amei. Perdi dinheiro, perdi amores, trabalhei e fui demitido, trabalhei e me demiti, pediram para que eu reconsiderasse o meu pedido de demissão, eu reconsiderei, mas por um dia e me demiti, juntei dinheiro, juntei afeto, fui amado e desamado e, enfim, amei de novo. O relógio da vida conta os meus minutos e eu conto a probabilidade de me entregar aos meus impulsos. Sou insistentemente racional e não me permito ser tão vil. Nunca traí meus amigos e nunca os trairei, ainda que admita, humanamente posso carregar essa vontade que até hoje nunca carreguei comigo. Espero que nunca carregue, mas sei posso. Espero não fazer o mal, mas sei também que posso e que uma atitude muda tudo. Espero não me render, mas sei que a maioria se rende.

O poder é a moeda do nosso verdadeiro valor. O poder aquisitivo, o poder sedutor, o poder do carisma, o poder de mudar o coração das pessoas, o poder de receber tudo e dar tudo. Ter a consciência dos diversos poderes que obtemos durante a vida e não os utilizar para propósitos egoístas, viciosos ou viciados, talvez seja o verdadeiro teste. Qual é o seu maior poder e como você se utiliza dele? É estranho. Quando ajudamos geralmente esperamos a reciprocidade no momento de dificuldade. Se emprestamos, esperamos que quitem as dívidas conosco. Se não há barganha, o que resta? O que entregamos de graça? O que acontece quando somos cônscios de nossos poderes e de nossas capacidades plenas e, subsistimos e insistimos em uma vida na qual sobrevivemos com educação e humildade? O quanto a tranquilidade não é confundida com a passividade? O quanto não nos subestimam por termos a capacidade de escolhermos os nossos próprios caminhos? A maioria dos ciclos se repete, mas por que diabos eu deveria me permitir a viver uma vida cíclica se me falho em repetir nas minhas constâncias e inconstâncias? Mudo e me aceito, ainda que desconfortável. Minhas mudanças são discretas ou extravagantes, mas são minhas. Aqui grita o meu protagonismo. Sinto uma distância incalculável para com as pessoas que vivem a vida para servir outras pessoas. Vivo a dizer que devemos ter sonhos e ambições individuais, mas reconheço, na verdade, que não tenho o direito de opinar sobre existências, sonhos e objetivos que me são alheios.

Pisco os olhos e respiro com somente uma de minhas narinas, pois a outra não é funcional. Observo tudo com um interesse crescente que subitamente se transforma em desinteresse. Capto imperfeições na pele, detalhes nos sorrisos, gestos de ansiedade transparecendo pelas mãos, vejo a roupa marcada pelo suor e noto como me notam. Uns me subestimam, outros torcem o nariz, ainda há quem me ache bonito ou alto e, até mesmo bonito e alto. Sou chamativo e não me envergonho. Sou como sou e não seria diferente, mesmo se pudesse escolher. Quase todos pensam que eu não os vejo, mas eu vejo quase sempre quase tudo.

Só o hoje me interessa. Só o hoje existe. O passado foi o presente antes e o futuro só acontecerá também no presente. Acordo em novos dias e a minha vida é uma página em branco. Ainda tenho a juventude ao meu lado. Posso mudar tudo, posso fazer tudo, posso focar na missão. Posso devanear e aprender novos idiomas, morar em outros países, abarcar novas civilizações e abraçar novas lições. Nunca me busquei, mas talvez este seja o tempo. Nunca busquei viver a minha vida, mas sou inundado por instintos de coragem que me forçam ao protagonismo. Sou dono de mim e mereço escolher o meu caminho. Mereço ser feliz, eu sei, mereço o amor, eu sei, mereço boas pessoas e sou cercado por elas, eu sei também, mas cresce subitamente em mim a ânsia de realizar a missão.

E se o primeiro avião desaparecer no negrume da noite, eu viverei meu luto em silêncio.

E na manhã seguinte sorrirei sabendo que outro avião partirá.

A vida, eu hoje penso, é uma jornada pelos caminhos já percorridos, mas que ainda nos são inéditos. Só eu posso me livrar do próprio tédio e encontrar o meu propósito. Oh, vida! Escuta a minha voz nesta terça-feira? Dê-me uma saída para que eu seja sério até nas minhas brincadeiras e, assim, que eu nunca desista do que me faz ser exatamente quem sou.

Ainda busco o rosto que eu tinha antes da criação do Universo, mas de maneiras diferentes. Pego a chave do meu carro, que é meu porque eu o comprei, e saio de casa. Hoje não vou perseguir o pôr do sol, mas sinto que persigo o meu âmago.

Acelero o meu carro no final da tarde
Os sons do trânsito caótico me confortam
Alegro-me em conviver com a poluição sonora
Obedeço aos sinais e confio no amarelo
A vida é pelo risco, mas dentro desta máquina
Confesso-me muito mais arisco e cauteloso
A vida é o que fazemos dela e isso me inquieta
A vida é o que fazemos dela e sorrio

A vida é o que ainda farei dela
Sigo dirigindo e tendo paciência
Existo como muitos que dirigem
solitários dentro de seus próprios carros
O meu carro branco se parece com outros,
mas certamente é único no mundo
Dentro dele eu sou o motorista
E o carro confere a mim uma função
qual não posso exercer sem ele
Eu me pareço com muitos outros,
entretanto, sei que sou único
Ouvi sobre o Bem e o Mal
E certa feita não vi bem e mal

Não compreendi a praticidade
desta fútil e insensata divisão
Conheci pessoas reais mais mentirosas
que o próprio Pinóquio e jurei
reconhecer o Gepeto vendendo doces em um bar
Ouvi sobre o Bem e o Mal
Ouvi sobre os ensaios de vileza,
mas não vi mais coisa alguma
Vi apenas outros carros
E outros motoristas e outros passageiros
A maioria agora veste máscaras
e isso tudo não é uma metáfora cafona
Vejo uma réstia do pôr do sol
e me recordo de que em janeiro o persegui
Se eu fosse o mago Howl
talvez até pudesse o engolir
Sonho cadente e secreto que sonho
qual sigo sentado no banco do carro
O objetivo ao que me proponho
pode ser difícil, mas nunca caro
Resisto nas hipóteses e nos fracassos
Persisto como quase ninguém persiste
De cabeça erguida, apesar do cansaço
Sinto falta do trabalho e do dinheiro,
mas não tanta falta de mim
Existia àquela época outro jeito?
Sim, não, tanto faz, mas tinha que ser assim
E devaneio-me em jornadas novas
Sou um andarilho sem cura e sem causa
A salvação não é para todos?
Podemos encarar a vida como um jogo?
Encontros como este são cada vez mais raros
Veja bem do que vai abrir mão
Não espero retornos, assim, nada retorna
Complico o simples e simplifico o complicado
Preciso aprender a falar japonês o quanto antes
Sinto vontade de beber água e cerveja
Sinto vontade de compartilhar minha intimidade,
mas nunca desejo dividir meus hábitos

Afaste-se e me deixe em paz
Queria mais café com a chuva caindo
e a paisagem me soou como um quadro
O deserto do Atacama é o mais árido do mundo
E ainda assim nele há vida
Não importa o quão você tenha ido fundo
há sempre uma saída
Tudo pode ser,
desde que tenha paciência
Tudo pode acontecer,
desde que lide com as consequências
Isso é a vida ou é um novo sonho?
Espero comer chocolates amargos ao final do dia
Espero estar em Londres ou em Londrina ou em Lisboa
quando o meu cansaço me roubar a consciência e a subjetividade
Espero ficar aqui onde estou seguro
Espero ficar longe onde estou desprotegido
Espero tudo e admito que não espero nada
Confio a vida nos pneus do meu carro e no motor
Confio que há coisas tão importantes quanto a Felicidade e o Amor
Preciso continuar insistindo neste Amor
Preciso perpetuá-lo, não importa como,
Pois vive em mim o desejo de tornar o mundo mais bonito
Enquanto não encontro soluções medito dentro de meu carro
Dirigindo para um rumo certo ou para o deserto infinito
Quando tudo se perdeu e

me notei distante do que queria
Sussurrei toda minha esperança

defronte aos medos
Um dia.

Discreto.

Inicio uma conversa franca
Defronte a uma imensidão branca
Sentindo uma enorme sede

A dor qual ela banca
Quando sozinha no quarto se tranca
E se atira contra a rede

Cogita desistir
Reluta em admitir
Não vê saída

Não sabe o que sentir
Esqueceu de como sorrir
Perdeu-se de sua vida

Escute-me hoje, por favor,
A face febril está em rubor
Tire o rosto da parede

A fase passa e também a dor
Recupera sua alegria e sua cor
A Tristeza têm olhos verdes

Aposto no que me aquece
Finjo crer nas minhas preces
Celebro minha existência

Príncipe que não se esquece
Demônio que se oferece
Anjo sem paciência

Abro um compartimento secreto
utilizando frases em outros dialetos
que encontrei em grimórios antigos

Concentro-me em pessoas e objetos
Sozinho sou e permaneço discreto
A infinitude de um caso perdido.

Interplanetário

A escada
de saída
da Terra
O cheiro
de flores
e ervas
O voo
no rabo
do cometa
A chance
de escapar
deste planeta
A magia
O caderno
No fundo
da gaveta
A lenda
dos que
morriam e
viravam estrelas
Versos extintos
Textos distintos
Prolixos e
também sucintos
Escritos apenas
pela tinta
da caneta
A música
Os animais
que cantam
O sono
tão profundo
de Deus
que não
se levanta
A miséria
A dor
O destino
de sofrimento
A matéria
A cor
O solo
O firmamento
O universo
que começa
e termina
na Lua
Os mistérios
que não
se findam
O tempo
congelou em
uma rua
Endireita o
seu porte
Olha o
que há
no futuro
Um corte
A morte
O sol
A sorte
Tudo muda
no escuro
A chuva
tão leve
A orientação
de Marte
A fuga
na neve
A consideração
O descarte
Saturno chama
Soturno menino
Ele não
deixa a
confortável cama
Continua dormindo
A Galáxia
O Vazio
O Tudo
O Nada
O quente
O frio
O início
A chegada
Vênus convoca
Uma mulher
de coragem
Ela aposta
e provoca
Sempre selvagem
Poeira estelar
Brisa pueril
Sono compartilhado
A paixão
A paciência
O amor
O certo
O errado
A ciência
O paciente
O doutor
O que
realmente é
E o
que deve
ser assim
A vida
A fé
O começo
O fim.

Trabalho

Canto
desconhecendo a composição
Componho
desconhecendo a métrica
Pediram-me por um padrão
A contramão do instinto poeta
Querem me fazer de vilão
só por ter julgado a ideia tétrica
Não aceitei o trabalho
Descrevo-me, escrevo-me,
Sei do meu potencial
Quem sabe um dia você
Verá meu rosto na sua TV
Em um longo e chato comercial?
Não sei, mas não me regro
Não me fecho em contradições
Enraiveço-me quando me sinto cego
Outra vez me ergo rei das solidões
Conheço senhoras e ando por sertões
Desta vida conheço as veredas
Corro, ainda que
não me sinta apressado
Quando acordo meus
olhos fitam a escuridão
Encarcerados em um mundo
que chamo de passado
A vida é em frente
nem adianta temer
Melhor confiar no que se sente
E apostar na improvável chance
de vencer.

O café da madrugada

Aproxima-se no seu próprio ritmo
Sabe que está tudo bem assim
Pega a xícara e sorve um gole de café
Primeiro é noite e ele está sozinho
Na manhã seguinte ele continua sozinho
Na terceira noite chove muito forte
e ele sente uma imensa vontade de chorar
Bebe lentamente o seu café e não se esquece de o apreciar
É a primeira vez que odeia um feriado prolongado
Será que ele sempre esteve isolado assim
solitário na existência obrigatória e inútil dos dias?
Será que em sua vida inteira fez morada na fragilidade
escancarada de um castelo de cartas?
Será que sua miopia dos olhos era acompanhada
por uma espécie de cegueira total dos sentidos?
Será que a cafeína é sua única aliada?
Os pensamentos sombrios o atraem e depois o traem
A insegurança o domina e ele reconhece que
talvez apenas dessa vez fosse adequado,
Que palavra maldita, imunda e trágica, mas
talvez fosse adequado dividir o apartamento
Ali ele ganha dinheiro, mas não há ninguém
Quase não há com o que gastar o dinheiro também
Os idiotas todos dirão que ele poderá guardar
Dirão que poderá atravessar a fronteira quando quiser
Ele ri, pois sabe identificar um idiota de longe
Há coisas simplesmente inalcançáveis e
ele faz flexões incansavelmente até que se canse
Depois de mil flexões ele então bebe suco de limão
Não qualquer suco de limão, mas aquele mais caro
da prateleira alta no mercado e que quase
anuncia sua exclusividade para os que são ricos
Ele não se sente afortunado, pelo contrário,
Uma sombra cresce de maneira irrefreável
mesmo quando não há luz para que ela se propague
Há coisas simplesmente inalcançáveis, ele repete,
Concentrado agora deseja que sua alma se expanda
E assombre a noite dos miseráveis que estão
espalhados por aí bebendo, fodendo e se divertindo
Todos estão entregues e não se importam
Entregam seus corpos por pura distração
Seguem um desejo viciado e compulsivo e alheio
Pessoas encaradas como oportunidades e
uma espécie de conforto no conformismo
Na reflexão irrefletida do toque, do beijo, do sexo
Um no outro e outro no um e tudo isso
para inebriar o pesadelo que representa a solidão
A solidão é a única opção daquele homem naquela madrugada
Ele nem tem a chance de ser compulsivo ou impulsivo
Ele nem tem a chance de ser irrefletido ou irresponsável
E se tivesse será que trairia a si mesmo por reflexo?
É tarde da madrugada e ele segue absolutamente sozinho
Olha para as chaves do carro e está consciente
Não há nada para ele nas ruas alagadas e esburacadas
Aproxima-se da chave, segura-a, é o seu carro
O carro que comprou com o esforço do seu trabalho e dinheiro
Aqui, enfim, ele vê o sentido real do dinheiro como coisa certa interna
No restante do tempo são apenas cédulas, papéis impressos, o que se gasta
pelo consenso secular e tácito de que deveríamos estipular valores
Ninguém está errado e ninguém está certo,
Ele sabe que a solidão é a verdadeira mestra e assim como na escola
os únicos bons alunos são os que possuem a disposição de ouvir o professor
Ele nunca foi dos melhores alunos, porém escuta
Absorve lições no silêncio externo que extenua
o concerto desorganizado e barulhento que internaliza
Ele não se observa nos espelhos do apartamento, mas se nota
A profusão de suas comoções se extingue
Agora todos os caminhos o levam para um
Seu carro, seu apartamento, seu café, sua solidão
Vedado, cego, está enclausurado no fundo do poço
Ele segura o segredo ancestral do Universo
Ainda que em idade seja apenas mais um moço
Há dois grupos de pessoas que existem
Os que estão acordados e vivos e felizes
E os que estão dormindo com ou sem sonhos
Ele não pertence a grupos e não é lembrado
Está acordado em um ponto onde a realidade oscila
Não alterna, é ele mesmo, continua esquecido, sofre,
É caro, ele repete, mas paga o preço, até quando?
É caro, ele insiste e diz de novo,
Até quando resisto e faço com as
circunstâncias meu próprio jogo?
De repente nas profundezas do âmago
ele sente algo estranho e profundo e se divide
A alma é tão expansiva que pode ser fragmentada,
embora seja de conhecimento geral que isso não é saudável
Ele chove junto com a chuva e olha para a sacada
Nada na cidade se move, exceto a água
Ele não escuta nem a própria respiração
Indaga-se subitamente se morreu e acorda em um susto
mesmo reconhecendo que nunca tivesse dormido
Um raio cai e ele não recua nem mesmo um milímetro
Sempre teve admiração e medo de raios
Será que está mesmo vivo?
Subitamente senta de pernas cruzadas
Em seguida se levanta e vai preparar mais café
Sabe que precisa adotar um gato ou vai morrer
Entende que um dia deve morrer, mas espera morrer velho
Sabe que o cão sente a sua falta e o sentimento é recíproco
Possui o coração justo e não trouxe o amigo na mudança
Ele precisa de muita atenção para viver feliz e o homem
jamais teria mais de duas horas por dia para dividir com o bicho
Ele está mais feliz lá longe na outra cidade
Os homens podem se acostumar com a infelicidade
O rapaz trabalhador é miserável em todos os aspectos
O amor também se foi outrora e ele não acredita em distrações
Provavelmente mandaria embora uma bela mulher
ainda que ela batesse desesperada em sua porta clamando por sexo
Gargalha subitamente como um maníaco e pensa sobre absurdos
Isso nunca acontece e nem nunca vai acontecer
Está cronologicamente equivocado
Vai acontecer por meados de janeiro
No futuro alguém vai pegar um ônibus
para passar o final de semana com ele
Vai entregar tudo, mas esperando algo em troca
Ele avisou antes que não barganha sentimentos
Vá embora, eu não posso te dar o que você quer
A frase dura será dita, ele é compelido a ser sincero,
O futuro nem existe ainda e ele ri
Isso nunca acontece e nem vai acontecer,
mas acontecerá mais de uma vez
Ele estava preparado para a eternidade
Vai até a sacada e grita e xinga alto
Talvez nunca mais possa falar com uma mulher
Tampouco acredita que possa amá-las,
ainda que saiba que está disposto a ser honesto
Ninguém é sincero, mas ele seguirá assim
O homem que matou o charme
Sabe que é desajeitado, confuso e não entende nada de flerte
Essas coisas se aprendem?
Não acredita muito em aprendizado
Crê que pessoas possam aprender idiomas,
mas não crê que pessoas possam se aprimorar
Podem? Não, isso não é sobre outras pessoas
É apenas sobre ele mesmo que agora senta no sofá
Quantas malditas horas cabem em apenas uma madrugada?
Outra noite de solidão profunda e vazio existencial
ou será que ainda é a mesma?
Não interessa realmente quando não há aliados
Ele quer se sentir dono de si,
Quer se ver no controle da vida ao menos uma vez,
mas reconhece que talvez ninguém seja dono
de absolutamente porra nenhuma
E se soubesse o que quer o que saberia?
Abre uma lata de cerveja, bebe tudo de uma vez,
Amassa a lata e a coloca no lixo reciclável
Talvez tudo seja inútil, mas é melhor separar o lixo
Separa então o lixo como quem separa a si mesmo
Recorda-se por um instante de um bar e de gente
Recorda-se de sorrisos e de uma mulher tão concentrada
no próprio celular que parecia forçar a invisibilidade na vida
Ela falha como todo mundo costuma falhar, pois meses depois
na solidão daquele apartamento um homem revive a memória
E lembra dos olhos tão vidrados na tela
Ele anda pelo apartamento e paga as contas em dia
É uma delícia morar sozinho
É um pesadelo morar sozinho
Esquenta a água e cozinha cinco ovos
Come os cinco ovos, bebe mais uma cerveja
e tenta se lembrar se já praticou exercícios físicos hoje
Não está se sentindo disposto para ler
Pega o celular e pensa em enviar mensagens
É quando se recorda de que ninguém liga se está vivo ou morto
O importante é que está ganhando dinheiro
Ele se conforta com o pensamento dos outros
Como são estúpidos os raciocínios dos que nem se conhecem
e ainda acreditam que possam aconselhar sobre a vida alheia
Presunção, arrogância, intolerância de gente que se odeia
e às vezes nem percebe, pois há quantias suficientes
para comprar uma distração um pouco mais duradoura
O homem ri, mas sem achar graça
Faltam os outros, mas não falta ele mesmo
Está se descobrindo mais e mais
De repente um desejo cresce
inesperado e repentino
Decide bater uma punheta
Leva seu próprio tempo nisso
Só quem se masturba decide
fazer as coisas de modo rápido ou demorado
Se alguém batesse em sua porta ele não abriria
Está pelado e confuso
Não sabe em que momento tirou suas roupas
Lava as mãos e fita seu rosto cansado no espelho do banheiro
O seu corpo é bonito e conseguiria alguma atenção se o utilizasse
Nunca enviou fotos pelado e nunca as recebeu
Nem tenta se convencer de que isso é vulgar porque não o é
As fotos podem significar tantas coisas, mas raramente vulgaridade
Ele não deixa sua falta de oportunidade viciar uma impressão
de uma vida que nunca teve apenas porque não pôde ter
Nunca enviaria fotos pelado, pelo menos nunca de maneira repentina,
porém por algum instinto ancestral crê que algum dia irá receber
E a mulher então lhe dirá
Me desculpe, eu mandei essa foto por engano,
não conte para ninguém, por favor
”,
E ele não contará, mas se lembrará da foto
O homem ri novamente e já parece embriagado, mas não está
A lucidez que acompanha a sua sobriedade é um castigo
Nem todas as coisas são para todo mundo
Nem tudo que existe está disponível para todas as pessoas
Há os vaidosos e inteligentes e eles também se ajoelham
Odeiam ter que admitir, mas são escravos à sua própria maneira
Há os que erram e se desculpam, há os que erram e não se desculpam
e até os imbecis idólatras de espelhos que só sabem venerar o reflexo
Narcisistas empoderados, grosseiros e insuficientes 
Há toda a vida e toda a esperança
Há desesperança pura e caos
Há quem tenha sido esquecido em vida e lembrado em morte
Há tristeza profunda e duradoura, felicidade fugaz e sorte
Há os que fazem o que querem com quem querem
Há os que fingem a indolência e permitem
que os outros façam o que bem entenderem
Aceitam o papel de utilidade em uma espécie de resignação
crendo que na vida é melhor ter uma função do que nenhuma
Aceitam os trocados, não importa o valor metafórico pago,
Estão escancarados à venda ou para serem levados de graça
Não ficaram sozinhos o bastante e não se perceberam
Não possuem senso de valor individual e acreditam
que o amor e a felicidade que possuem seja
diretamente condicionado ao que merecem
Eles não fazem ideia do que merecem
O homem solitário se divide outra vez e se perde em suas partes
Um resquício de empatia o impele a explicar sobre o amor
que todos realmente merecem
Uma réstia de empáfia faz com que uma frase flutue
“Que se fodam os outros. Os outros não importam”
Ele quebra seus pedaços em pedaços menores
Talvez na manhã seguinte, se é que haverá manhã seguinte
ele tome xícaras de café forte e recolha seus próprios cacos
O amanhã não interessa por ora
Ele bebe mais duas cervejas e se indaga sobre capacidades
Às vezes o sexo será lento e seguirá uma rota sutil
É preciso saber exatamente o que fazer
Às vezes será agressivo, forte, animalesco
Uma vez se perguntará o que está fazendo ali
e se interromperá propositadamente no meio do ato
porque não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo
Há vitórias com gosto de fracasso
E há fracassos não tão amargos assim
Todo ser humano é capaz de ser fenomenal e patético
Ele já havia cumprido ambas as funções antes e cumpriria depois
Veja, ele tenta observar a parte externa de outra maneira
Troca a vista da sacada pela janela
e uma janela por outra janela
Faz isso como quem quer se convencer
de que a vida inteira muda se a perspectiva é distinta
O amor é medido sem medidas e ainda
é descartado quando sua utilidade se encerra?
Sonho febril e primaveril de infinitos
que sobrevivem aos anos e guerras
Não há insetos nessa noite de chuva
Talvez a aranha que mora em um canto esquecido
ainda esteja lá esperando pelos insetos também
Talvez estivesse fazendo companhia desde o começo
Talvez a solidão fosse apenas sua ilusão
Tudo é ilusório?
Ainda não se encontrou com os Fundadores
A chuva continua chovendo
Ele pega a caderneta e lê alguns versos horrorosos
O único consolo é de que realmente foram escritos por ele
Agora escreve uma frase que não lhe diz coisa alguma e a lê
Com que verdade falo sobre mim se nem me escuto?
Irrita-se com a confusão e prolixidade de seu raciocínio
Quem é você agora enquanto a vida explode mundo afora?
Equiparam-se aos réprobos estes solitários das madrugadas
que só podem ser um, mas são simultaneamente vários

Pergunta-se sobre quem ele é e responde sem hesitar
Alguém com dinheiro e que pode tomar o suco de limão caro
A raiva cresce irrefreável, o instinto de violência se amplia
Se tudo fosse vão e sem sentido,
se não houvesse continuação após essa vida e tudo fosse
simplesmente simples e frívolo e irrelevante
você acha que agiria diferente?
Você não é diferente
Escreve no papel para tentar se convencer e falha
Sente-se completamente diferente 
Como não seria diferente se ele lida com a solidão
enquanto os outros optam pela distração?
Todo mundo se arrepende posteriormente
de tanta coisa que disse ou fez
Ele se pergunta se algum dia chegará a sua vez
Acende um incenso e liga uma música para meditar
Bebe mais uma cerveja e se sente zonzo
A meditação definitivamente está funcionando,
ainda que a chuva atrapalhe com seus ruídos essa música
que nunca mais vai parar de tocar
Percebe em seguida que é a música que atrapalha a chuva
Desliga a música, mas sente que ela continuará tocando
Aquele instante lúcido e nauseabundo parece eterno
Reflete sobre a música que atrapalhou a chuva
Outra vez inverte perspectivas e assume hipóteses
Tenta entender os outros que se parecem com ele, mas não o são
Vai até a geladeira e come metade de uma barra de chocolate
Encontra a sua verdade nos cafés e nos chocolates
Repara no beiral da janela, ainda sem insetos
As gotículas de água, porém, insistem em invadir pela janela
Na insistência ganham, mas é uma vitória quase insignificante
O homem joga um pano no chão perto da janela e controla a situação
Abre a despensa e olha para o que comprou com desinteresse
Antes de abrir o armário sabia que não queria nada
Ainda assim decidiu abrir aquelas minúsculas portas
Escapa-lhe o sentido da inutilidade do próprio gesto
que por antecipação sabia ser completamente inútil
Não é incoerente com suas crenças
Não procura desculpas para quem é
Não inventa dramas para sua dor, embora
sua dor seja uma epopeia dramática e sufocante
Desejarão amá-lo, mas dificilmente o alcançarão
Talvez seja ele a escolher quem pode cuidar do seu coração
Não é um homem fácil, mas é mais fácil que os outros
Entrega na coerência e na sinceridade sua alma
todos os dias no mesmo horário, no lusco-fusco,
Às vezes sua expansividade o torna brusco, mas
ele só reza para os santos em que realmente acredita
E só prega na geladeira regras e sugestões
que sabe ter a capacidade de cumprir
Franze o cenho e range os dentes para os que se repetem
O arrependimento deles é geralmente falso
e assim forçam os erros que tanto cometem
Entra em um frenesi na madrugada e se sente quente
A noite lá fora é gelada e instantes antes seus dedos doíam
Pensa em soluções, mas há quem não queira solucionar coisa alguma
Todos entram na mesma mira
Ninguém comete o mesmo erro de maneira mais leve
por conta de uma intimidade maior ou de um lanço sanguíneo
Avalia seu próprio extremismo e pensa se é realmente extremo
Respira fundo e recupera um ar mais calmo e sereno
Bebe uma cerveja e sente um arrepio que acompanha o temor
Odiará os hipócritas até o dia em que se tornará um
Se tornará um? Ele chora, pois parece inevitável
Nunca conheceu alguém que não fosse hipócrita,
mas pelo menos não fará parte dos que são assim no cotidiano
Ninguém sente seu drama e ninguém o entende
Ele se expurga passando por todos os processos
Nunca pega atalhos e nunca evita a dor
Se sente machucado e sozinho na madrugada
sabe que precisa sobreviver o quanto for
Talvez amanhã tenha alguma companhia,
Talvez amanhã respondam suas mensagens ou
ele mesmo resolva conversar com quem optou ignorar
Ele respira fundo e ergue a voz para dizer
“Eu sei que vou conseguir”
Há milhões de coisas que passam por sua mente
A luta livre armada, o futebol, os animes,
Os hobbits, anões, elfos e os filmes Ghibli,
As dezenas e centenas de filmes e mangás,
As pessoas, os lugares, os bares
A Nova Zelândia, os japoneses e o Japão
Será que um dia começará a fazer aulas?
Será que se comunicará e viajará?
Será que poderia ser professor, escritor ou filologista?
Será que com tantos ímpetos de heroísmo
pudesse se converter em um vigarista?
Ele pensa em mais coisas que não pensam nele
Os insetos que hoje não tentaram invadir o apartamento
talvez voltem amanhã
O filho não sabe se quer ter, mas sabe que seria
o pai mais espetacular de todos os tempos
Não opina sobre sua vontade de nascer neste mundo odioso
Repleto de desgraças e desigualdades e com vislumbres,
Apenas vislumbres de uma alegria duradoura
Ele sabe que a tristeza se ajeita em qualquer lar,
mas a felicidade requer muitos pressupostos
Mas ele leria histórias para sua criança dormir bem
E ensinaria que os filósofos todos parecem prolixos,
mas que possuem lições importantes a ensinar
E que ele não pode e nem deve ignorá-los,
Mesmo os que são entediantes no Ensino Fundamental
Ele desliga a cafeteira e vai até o quarto
Liga um filme para ninguém assistir
Conta para todo mundo que perdeu o medo do escuro,
mas sempre dorme com a televisão ligada
E daí?
Cambada de filhos da puta
Murmura, mesmo sem se entender
O café da madrugada acabou e a cerveja também
Ele olha para a sacada e depois analisa
o espaço do apartamento
Reconhece que poderia ter pelo menos três gatos
Há muito espaço para ser sozinho
Ele é expansivo, mas confia no que dizem sobre os gatos
Eles gostam do próprio espaço
O próprio homem se sente um pouco felino
Precisa adotar um gato ou vai morrer nas rodovias
Olha para a cama de casal e sabe que terá que dormir sozinho
E dormirá se juntando ao grupo dos que estão dormindo,
pois não pode se distrair
Será que em sonhos terá a paz que merece?
Reza para que outra vez volte a ter companhia, mas
roga para que seja alguém que lhe dê espaço
Não é um dragão personificado, mas não divide seus hábitos
Espirra e lava o nariz e olha para a cama de novo
A oração foi em vão porque ele não acredita em Deus
Acredita em camas de casal para solteiros e na solidão
Acredita em atalhos, fugas e distrações
Acredita no chocolate, na cerveja e no café
Acredita ser capaz de não se contradizer e
de não tornar mentiras óbvias sua própria religião
Acredita nas batidas do próprio coração
Sente-se solitário, mas ao mesmo tempo bem
Isso de querer ser exatamente o que se é
Ainda vai o levar além
Ele não faz ideia do quanto vai sofrer
e tampouco desconfia do quanto vai evoluir
Derruba seu corpo no sofá e se esquece da TV
até que, enfim, consegue dormir
Quando acorda de manhã com uma
leve dor de cabeça sabe que tudo ficará bem
Segue no seu próprio ritmo até a cafeteira
Pega a xícara e sorve um gole de café.

A dor dói

A dor dói
Repito e repito e repito
Apenas por mentir
ou por repetir?
O que se constrói
também se destrói
Repito e repito e repito
até que eu possa sorrir
Wilde disse que sempre
destruímos o que mais amamos
Sabia ele algo sobre amor?
Talvez sua especialidade
fosse apenas destruição
Quiçá um perito bem vivido
em longínquos tempos de dor
E solidão
Diria ele então que a dor dói
E se repetiria apenas por se repetir?
O que se destrói apenas se destrói
E zombaria da minha visão
ao sorrir
A dor certamente dói
A indecisão indubitavelmente fere
Não há neste mundo super-herói
Que aguente o sofrimento do mundo na pele
E que tentemos nos manter calmos
Em face do que nos traz a noite escura
Do chão estamos à sete palmos
Epitáfio lúgubre em eterna gravura
A memória recorda e guarda lembranças
A chuva me acorda e perco esperanças
Quando ficou tão difícil
de falarmos a mesma linguagem?
A compreensão de quem compreende
Rede nas janelas
Sono felino
Sequelas
e velas
Cachorro
dormindo
Dormido
distante
da dor que
tanto dói
Outro cão
mija na estante
Sinto a cabeça
que dói
Confusão
Dor que dói
Como a dor antiga
na outra madrugada de temor
Em minha lápide jaz esquecida
a mais bela história de amor
E os tristes seguem tristes
E a felicidade dos felizes passa
A minhoca se entorta e foge
do pássaro predador que a caça
A dor dói
A felicidade é feliz
E qualquer coisa
é qualquer coisa
Se eu sei de algo
É por saber que sei de nada
É preciso tomar cuidado
quando a voz cala
E a intenção segue
Insinuada
Nada
a ser dito
Nada
bonito
Madrugada
gelada
Desespero
E grito
Talvez
se a dor
não doesse
Meu sentimento
fosse mais pequeno
Talvez um dia entenda
o que hoje parece ameno
Que sinta e olhe e saiba
que não se força onde não caiba
E que falar é necessário
A cena descreve
um poema
A vergonha
envenena
a tinta e a pena
O rumo e
o destinatário
Assim se vai
a dor que dói
Após sentirmos
Ela ao extremo
De longe eu a vejo
Distante eu aceno
Os demônios do fogo dormem
todos de olhos abertos
Imito seus rituais
tentando me sentir esperto
Os sentidos todos se escapam
O sentido objetivo também
Estas reflexões me matam,
mas revivo e vou além
A dor dói e eu repito a frase
Que eu não morra cedo e com medo
de sempre ser QUASE
A dor dói, mas me situo
Reparo, enfim, que tremo
De longe eu a vejo
Distante eu aceno
De perto eu a beijo
Aberto e sereno
A solidão que sinto
poetiza todo o meu cansaço
Nunca mesmo eu minto
Busco o meu próprio espaço
De Vidas me tornei faminto
Afrouxo quando me aperta o laço
Entretanto, sigo firme e distinto
Na indecisão de cada novo passo
O sofrimento bate na porta fechada,
mas a melancolia
é a rainha desta nova madrugada
A dor realmente dói
e chega o sono
para quase todos
O resto do mundo dorme
Exceto os demônios do fogo
Entretanto, estes nunca estão aos prantos
Assim nunca se esquecem de lembrar
A dor realmente dói
Aqui ou em qualquer lugar.

Madrugada Antiga

Sofrimentos que cegam
Sentimentos que chegam de longe
Insisto na minha entrega
Você insiste em se manter distante

Fingiu para continuar
Continuei supondo que tu parasse de fingir
Você zomba, pois sabe que eu vou voltar
Acha que nunca irei partir

E me vitupera
Como frágil flor de primavera
É aí que erra
Não sou mais quem eu era

Eu avisei naquele silêncio
ensurdecedor da última madrugada
Se um dia eu me for
Não espere que eu volte para casa

Nove x Segunda

Nove vezes segunda
Digo e espero mudanças
A rua continua imunda
Eu sigo sem esperanças
O mundo vai mal
Tudo fica mais vexatório
Agonizamos até o final
em nossos próprios velórios
Nove vezes segunda
Repito sem qualquer apreço
Nunca sei o que dizer
A gente apenas se afunda
Isso não é o que eu mereço
Preciso me entender
Nove horas da segunda-feira
Esta especialmente feia e eu
Já sorvi minha quarta xícara de café
Minha alma aventureira devaneia
com a solidão que me permeia em outro continente
Um longo passeio a pé
Nove vezes segunda
Nada mais será como antes
Troque galhos, mantenha raízes
Um dia especial na Barra Funda
Passados e ontens tão distantes
Outra vez seremos felizes
E por nove vezes nesta manhã
Juro quase ter desistido sem tentar
Por nove vezes segurei minhas pontas
E mantive a cabeça no lugar
Tudo parece vil e infante
neste instante, porém,
Vou Além, pois sei,
A vida vai melhorar.