Um final.

Vaguei como uma sombra
pelas ruas mal iluminadas da cidade
Vesti um casaco preto para saber
ensombrar quem aparecesse
Meu tamanho até assusta,
Quem nota minha forma robusta
geralmente não se mete comigo
Há quem sabe o que busca,
Paga o preço que custa
para se ver longe do perigo
Honestamente eu não ligo
Ainda assim ando arisco
Aos pais e padres não peço bença
Descobri que só se vive pelo risco
e se omitir é apressar a sentença
Outro vulto surge do lado de lá da rua
De cá sei que não se vale de qualquer medo
Queria ser valente como essa gente
que anuncia todos os segredos
Ouço um zumbido estranho e
uma voz perdida no espaço
Minha audição me alerta
e escuto também o barulho dos passos
As luzes piscam e a noite é sem lua
Meus pelos se eriçam, porém
minhas pernas não recuam
A escuridão envolve eu e o desconhecido
A alma distorce a face numa expressão cruel e crua
O corpo se retesa quando se lembra da última mulher nua
Aproximando-se com passos firmes e cautelosos,
quase como a outra pessoa que se movimenta no breu
Todos os meus instintos selvagens e corajosos
enfraquecem diante do brilho novo que nasceu
A lâmina prateada cintila em uma dança
O amor é a morte do dever
e a faca a morte da esperança
Queria pedir para a alma obscura que me poupasse
Que me deixasse viver só mais uma semana
Devaneei como Pessoa e gritei para Wilde
TU ESTAVA ERRADO
A gente nem sempre destrói o que mais ama
Julgo ver um sorriso ou
será só a face do paraíso que me chama?
Ora, rio-me, sentindo-me louco
Tento dizer algo, mas me noto rouco
O outro é apenas um e não uma gangue
Aproxime-se agora, vil vagabundo
Prova o gosto do meu sangue
E ergue os braços, pois no jornal dirão:
aquele lá morreu lutando
E o sal dos meus olhos vai se misturar
com meus outros pingos vermelhos
O assassino provará um gole, cairá
e me verá no reflexo do espelho
Descobrirá depois o que eu já sei
Os fantasmas existem e estão por perto
Tenho certeza que não os imaginei
Estavam comigo nos mais solitários desertos
Os abutres se aproximam para se alimentarem
Venham, venham, aglomerem
Minha carne será o seu delicioso banquete
Quando não restar o que comerem,
tornar-me-ei uma estrela e ascenderei aos céus
na velocidade explosiva de um foguete
Olhem, vejam, é o menino viciado em mar,
Aquele apostador azarado que amava o jogo,
Lembra de quando ele ousou a abraçar
uma estrela cadente e protegeu um demônio do fogo?
Ora, a vida passa velozmente, lá vou eu,
cinzas, madeiras, pó e o que ficou do que ainda sentem
São essas coisas efêmeras que nos eternizam?
Corra, pegue uma caneta permanente,
crave nossa amizade em uma árvore milenar!
Avance os corredores proibidos do shopping e piche
“nós fomos feitos para durar”
Antes que tudo se acabe numa piada
Antes que a lâmina bela manche a madrugada
Quem poderia adivinhar esses tantos fins?
Olhe para frente, para trás, recorda-te agora
do primeiro alimento ardido
Fite meus olhos e me diga sem demora
qual o paradeiro de tantos anos perdidos
Que Deus tenha pena da próxima cena,
Que o Diabo não vexe meu poema
Que meu inimigo oscile e trema
enquanto eu tento sobreviver
Eu sei, Criador vil, este mundo é oscilação
Vomitei mil horas para merecer minha redenção
Olha, estúpido, obrigado por este presente,
jogaste-me neste planeta maravilhoso e decadente
Faço eu a diferença para alguém?
Mais um passo, sombras dançam no escuro
Pisco e me vejo observando a cidade esquecida
meus olhos ágeis e curiosos buscando respostas
Eu nunca sei qual é a próxima saída,
mas sigo fazendo minhas apostas
Veja, Lanterneiro, olha, rapaz,
para o jeans que veste ou para a distância, a queda
Olha como mesmo pequenas e longínquas,
são repletas de brilhos aquelas janelas
Olha bem, menino, teu sonho é o teu destino
Você tem sensibilidade e é capaz de vê-las
Aproxime-se das luzes fracas
Tente reacendê-las
Refulgir talvez seja a única missão
Ergo os braços para a última batalha
Orgulhoso do meu valente coração
Os anjos e os deuses me esqueceram aqui
O diabo e os demônios menores não vieram assistir
Sem público, um tanto melhor,
há quem viva para impressionar os outros
Meu sorriso se torna largo e agora acho
que meu algoz me toma por louco
Vivi muito e o que é real nunca parece pouco
Venha, covarde, você despertou em mim
essa vontade de brigar e morrer
Não recua, agora é tarde,
em algumas horas outro dia vai nascer
Urge em mim a vontade de vencer e
num frenesi avanço primeiro
A impulsividade é a vantagem do carneiro
Rolamos pelo chão agressivamente
Desfiro socos e vejo um de seus dentes voar
Ele me acerta e me percebo a sangrar
A ira me personifica e me vejo tomado pela adrenalina
Meu casaco preto agora deve estar vermelho
No silêncio ouço o grasnar dos corvos
O anúncio é o da minha morte?
Que fortuna, que sorte, eu até vejo a manchete
Homem é morto pouco antes das sete
Onde estavam os policiais e os transeuntes?
Onde estavam os heróis trajados?
Um homem morreu e
ninguém pareceu ter se importado
Um cristal esverdeado surge no céu e sonho
Assombro praias com dunas e areias brancas e canto
Revisito meus milagres e absurdos e me pego aos prantos
Neste desfecho me convenço de que não há santos
As luzes, o pó do universo, a areia de estrelas,
No fim de tudo este era o meu único segredo
A única magia que aprendi a conjurar
eram palavras que moravam nas pontas de meus dedos
Ora, vejam, a gente realmente nasce e morre sozinho?
Cresce, envelhece, erra e se possível acerta,
mas não enverga, ferro, não suaviza, vinho,
Não desvia os olhos, olha para a imensidão,
ousa crer nas ficções quais acredito,
Passe pelos portões em brasas,
abra suas asas e verá o mundo mais bonito
Permita-se descansar, mas nunca se esqueça
A estagnação é o fim antes do fim
Agora limpa as roupas e levante,
Expande-te para as terras distantes,
Recorda-te que eu desejava existir longe
Que toda minha prolixidade sonhava em ser sucinta
Que toda minha alma era feita de tinta
Que o Universo todo surgia da ponta da velha caneta
Que a morte é o caminho seguinte
 e que vai me achar sempre que abrir algumas gavetas
Eu vou antes, sem me esquecer, estou em tudo,
Por favor, saiba ver, não seja tão tonta
Eu falava sem parar e agora jazo mudo,
mas noutro mundo a gente se reencontra.  

Certamente diferente…

Estes são os sentimentos que transcendem o tempo, veja, outrora eu estava ali a todo o momento até que não mais precisasse de mim. Sua frivolidade me entretinha enquanto eu tentava me distrair do seu desamor, sim, eu percebia pela maneira como o clima mudava do quente para o frio quando você chegava e aquela invernia não ornava com o sol que derretia tudo, contraste, era isso o que eu sentia conforme notava a sua tentativa de me antagonizar, você precisava de um bode expiatório, um alvo, alguém que se encaixasse na mira e não repelisse a flecha, assim, sólido e são, eu fui atingido. O sangue pingou no chão e disso nunca me esqueço. Há finais que são apenas começos.

Ora, os dados rolaram e subitamente notei a reviravolta no jogo, olho devagar e reparo na sua obliquidade melancólica na virada para o ano novo. Bem, é preciso se comprometer, prometer e mudar, veja, tudo só muda se você se empenhar e felizmente, apoio-me em mim o bastante para entender que há muito o que não entendo. Fecho os olhos, respiro fundo, espero, aprendo. Por vezes ainda sou tomado por uma ira ancestral, como se o mistério secreto que me compõe urgisse por sair em meu frenesi, porém me revolto para dentro, em silêncio, contendo meu asco, exatamente como uma tartaruga e entro no meu casco, retornando até o momento em que nasci. É engraçado parar e pensar. Outrora quando vim ao mundo eu sabia apenas chorar. Que é mesmo que suponho? Será que a minha vida não passa de um sonho? Há coisas que não aceitam o abandono. Prefiro manter meus hábitos e insistir no ferro e no vinho. Há coisas que só absorvemos quando nos percebemos absolutamente sozinhos. Seus velhos fantasmas até tentaram, mas não me assustaram. Suas provocações me despertaram. Personifiquei-me no menino do coração congelado?

Acordado, enfermo, febril, lúcido, louco, qualquer coisa parecida com o que quase é, você quase me toca quando sobe a maré, chame meu nome, grita, por favor, não some e eu sorrirei, místico, fútil, ancestral, patético, preguiçoso, humano. Confundi gotas d’água com pingos de sangue enquanto me arrastava por um terreno desértico. Onde todos estavam quando não me via? Trinta e nova e meio, quarenta, dia doze, dia sete, aniversário, nove, dois, trinta, um, meu eu especial, fracasso, cansaço, noite de natal. Heróis, vândalos, quem sabe a diferença? O albatroz salvou a minha vida, partiu cedo, sua sentença. Nunca senti tanto orgulho do meu coração, saltei do trapézio, repleto de medo, sem asas e me restou confiar. Alguém precisa me segurar. Cadeira de prata, amizades ingratas, vômito, imperfeição, choro de joelhos, quebrei dois espelhos, catorze anos de azar. O tempo passou e agora é tempo de levantar, então, levanta-te rapaz, você é o que você faz, exija mais, tome da vida o que te pertence, erga a cabeça agora, sem demora, vence. Meu melhor estado é o melancólico, acólito, febril. Meu fardo é sentir um mundo que nunca me sentiu. Faço um desenho feio, grotesco e rio de uma hiena que ri de mim. Sou a mim ridículo, mas não sou pedante. Às vezes me desperdiço, entretanto, sou o mestre das inutilidades e dos instantes.

Ando, desando, avante! Boêmio, vadio, errante. Oscilo, terreno, aéreo, sereno, repleto de mistérios. Não há maneira de não me ser. Tentei de tudo e falhei. Constato, sério, que tenho uma infinidade de motivos para surtar, respiro, mentecapto, viro a chave, mudo tudo de lugar. Sinto orgulho dos meus vexames, sussurro ou calo meus atos grandes, cônscio de que somos todos do mesmo tamanho. Perco-me de mim, perco-me de tudo e na voz eloquente julgo ouvir um grito mudo, qualquer coisa que me transmita algum tipo de esperança. Deus se apresenta e diz que todos podemos luzir, exatamente como as crianças. Percebo-me sorrindo e sigo em frente. A vida parece igual, mas eu certamente estou diferente.

Eterno Contador das Horas

Eterno contador das horas
Descobri em qual Tempo te encontrar
O céu plúmbeo anuncia o que sente agora
Você apenas deseja se afastar
Até que possa se recuperar de si mesma
Quanta ingenuidade no seu afago
Cicatrizes abertas mostram o estrago
Seu corpo é um eco da destruição
Abertamente anunciam pela cidade
Fugiu na madrugada sua sanidade
O boato lhe traz humilhação
Você…
Você não superou
Encaro seu semblante, sério
Infante, reajo ao vitupério
Você não parece se importar
Os olhos marejados desfazem o mistério
Está viva e perdida em um cemitério
Vítima de um escandaloso adultério
Não sabe ainda como recomeçar
A noite quase se encerrando, sem lua,
Você se recorda enquanto olha para a rua
Tão vazia quanto a sua própria emoção
Diz que não sente nada, mas lágrimas escorrem
Denunciam sua mais secreta emoção
Você adormece, mas nem em sonho se esquece
Acorda em um sorumbático arrepio
Ajeita os cobertores e se aquece, porém,
Tudo ainda soa absurdamente frio
As pequenas conversas que lhe salvavam
subitamente emudeceram
Os carinhos que raríssimas mãos lhe destinaram
agora de ti esqueceram
Os dedos que um dia te amaram
afagam outros cabelos
Teu vexame frívolo é mais gelado que tua presença
Neste mundo onde vive para se disfarçar
Teu castigo é a solidão desta sentença
Nunca mais podendo se revelar
Estrela opaca morta pela saudade do brilho
Trem de carga, sem vagões, fora dos trilhos
Diga-me agora para onde foram os anos perdidos
Sonhe pela madrugada gélida e sem fim
Segure na borda do mundo com as unhas
e durma em paz, vaga-lume quebrado
Ergue-te, mulher arrelienta
A noite acabou
A manhã seguinte começa e termina cinzenta
para quem se perde na desmedida do amor
Sua parte obscura a torna violenta
Externa-se, enfim, toda a sua dor
Repentinamente epifania
Desmistifica-se o que não compreendia
O que machucava antes agora a incentiva
O sofrimento também é um sinal
de que ainda está viva
Então sobreviva, viva e sorria
Quem sabe quantas surpresas
há em um novo dia?

Idas e Vindas

Nas idas e vindas das tantas jornadas
Escutava teu sorriso romper a neblina espessa
As rodas do carro amassavam o asfalto
ou pelo menos é o que eu imaginava
Temendo nunca mais te ver,
eu me tornava o melhor dos motoristas
E vivia por reflexo de querer viver
Ninguém sabe de quantos acidentes fugi
Quando vencia a tempestade, a neblina e até a noite,
eu me sentia como um deus sem nome e esquecido
Os demônios assustadores eram apenas caminhões
e me apavorava a hipótese de ser esmagado como uma lata
Não gostaria de desaparecer junto com os faróis
Vencer a estrada era vencer a vida e assim
eu respirava o ar fresco das pequenas vitórias
Meus fantasmas me aplaudiam como se sobreviver importasse
E eu me alegrava pelo estrondoso som da celebração
Até chegar no meu apartamento silencioso
O silêncio possui diversas naturezas distintas
e de vez em quando é tão profundo que abriga outros silêncios
Os meus geralmente tinham três partes ou mais
Àquela época, eu me encontrava apenas comigo
e toda noite era potencialmente infinita
Soltava o meu corpo no sofá e fitava a TV desligada
Suspirava profundamente e me sentia vago
Quando cessaria a busca pelo rosto de minha alma?
Piscava os meus olhos e estava outra vez
vivendo a minha rotina de trabalho
O dinheiro faz falta, isso todos sabem,
mas sinto mesmo saudade é dos curtos intervalos
Sentava no banco desconfortável da lanchonete
que havia naquele velho posto de gasolina
e a minha bunda magra doía
Os marimbondos moribundos e mentecaptos
 tentavam insistentemente beber meu energético  
Apostavam suas vidas por um gole
E eu sorria da ousadia deles
Quem não desejaria a coragem de arriscar tudo?
Rabiscava versos, frases e palavras soltas
na minha caderneta preta e esperava mudanças
Àquela época sequer imaginava
quão maravilhoso seriam meus anos futuros
Amaldiçoe o capitão que nos amarrou ao navio
Ele esperava que afundássemos perto do fim do mundo,
mas nós conseguimos voltar
Nas idas e vindas das tantas jornadas
Pude me lembrar do esgar de ódio
e da expressão dolorosa da indiferença
A tua feiura me obrigava a ser feio
E bebi o meu sal enquanto lamentava
a monstruosidade que você havia se tornado
Muita gente morre sem sequer ter morrido
Já sentiu como se estivesse preso em um ciclo?
Soltei o ar após prender a minha respiração
Parece que durou uma eternidade, mas
enfim pude me sentir completamente livre
Nas idas e voltas das tantas jornadas
Tanta coisa acontecia que eu mal sabia dizer
Crescemos com a dor e com a felicidade
Quando não queremos ser alguém além de quem somos
Vencemos
Quando queremos ser quem somos e ansiamos por melhorar
Vencemos
Há dias em que só me vejo derrotado
E abro três garrafas pequenas de cerveja escura
O preto sempre me vestiu bem
Caminho pelas ruas desérticas com a companhia
de minha sombra veloz
Quando não a vejo, aceito não vê-la, assim,
prossigo projetando-me para frente,
por não saber andar no sentido contrário,
O que o futuro traz nos assombra de uma maneira diferente
O meu primeiro gato foi o último
Os meus bons tratos me trouxeram infortúnios
E toda expectativa de novo começo soava como um fim
Tantas vezes fiz de mim coisas que nem sabia, entretanto,
reencontrava-me nas contemplações junto da BR-163
Nas idas e vindas das tantas jornadas
não ousei tanto quanto os marimbondos,
mas fui tão fundo quanto eu podia no momento que podia
Arrisquei, perdi, venci, mas não abaixei a cabeça
Meus olhos raivosos e astutos incineravam o mundo
Queimavam tudo até o momento em que eu pudesse amar outra vez
Ninguém neste planeta amou tão bem quanto eu
Começa com um olhar discreto, um sorriso, uma coincidência
E tudo se acaba em centenas de problemas
Preciso aprender com os marimbondos e com as abelhas
Preciso alimentar cada uma de minhas pequenas centelhas
Que Deus tenha piedade de nós todos e que possamos querer
exatamente o que queremos
Não preciso estimular coisas que não sinto
Sou grato por tudo, mas não me ajoelho por ninguém
Conheci as praias, as cidades e os silêncios
Conheci a mim mesmo e deixei de me fazer tanta falta
Nas idas e vindas das minhas jornadas
notei que não havia um caminho só
As coisas acontecem livremente de nossas ações
Ainda que as ações impactem severamente
Fomos outra pessoa e hoje somos diferentes
Está tudo bem sentir a falta da sua antiga versão,
pelo menos por um instante ou outro
Você agora é mais do que aquele seu outro pouco
Atravessa os campos verdes com uma segurança inédita
Ama ainda melhor do que antes e poderia amar tudo
ainda assim não perdoa quem exalta a forma e humilha o conteúdo
A vileza caótica nos destrói
Somos todos patéticos e perdidos
Somos todos astros caídos
Apoia teu queixo na mão e contempla
Tudo o que ainda não destruímos
Segura a tua mão na minha e veja
os perigos e aventuras que prometo te oferecer
Deixa-me te mostrar o que ainda vai acontecer
Meus olhos não se dividem mais entre passado e futuro
Ouço muito melhor quando largado no escuro
Mergulho na solidão de mim sem me antecipar
De quando em quando soo imprevisível
Afundo nas cores que costumava ter e me perco
Estou em um ponto sem pontos
Decido preparar quatro xícaras de café
Não necessito da doçura para prosseguir
Levanto o escudo sem saber do que tento me proteger
Sangro tanto que percebo que posso fazer sangrar
Somos todos tão pontiagudos
Por vezes me vejo como forma geométrica
tão distante das minhas antigas humanidades
quanto fui outrora quando ainda não me sabia
Hoje que presumo saber o pouco que sei
Desconfio de mim
Os pensamentos mais vis cruzam a minha mente
e por um milésimo de segundo sonho ser vilão
Isso passa
Estou sem tempo e alternativas
Estou sem roupas novas e dinheiro
Estou sem amigos e sem perspectivas
Quando passo todos sentem um cheiro putrefato
como coisa qualquer em decomposição
Quando passo todos sentem um perfume chamativo,
hipnótico e me olham como se quisessem me obedecer
Estou entrando em extinção e choro
pelo fim da minha espécie
Será que um dia haverá outro igual?
Naufrágio no ralo do banheiro e escorro
junto com a água quente do chuveiro
Minha pele queima e penso nos lugares que conheço
Campo Grande nem é tão grande assim,
Dourados, Berlin, São José dos Campos, Bonito, Londrina,
Em todas essas cidades havia perigos nas esquinas
Ervas daninhas são como pelos no sovaco do demônio
E o chão que se pisa é como o diabo encarnado
Vivemos condenamos à morte e não nos entregamos
Não, vivemos destinados à morte e nos toleramos
Escondemos nossos lados vergonhosos e torpes
como se alguém pudesse proibir nossas infantilidades
Na minha imaginação todos os cenários já aconteceram
Sorrio maliciosamente por entender que reinei o mundo
Patéticos, eu sussurro, vocês são patéticos
Queres ser forte, jovem rebelde, rígido,
deita-te no chão e faça mil flexões por dia
Abdominais são para quem tem tempo sobrando
Nos meus olho te vejo
Nos meus glóbulos oculares narro meu desejo
Nas minhas gotículas de suor transpiro
implorando por teu beijo
Talvez eu perca meu interessa,
Quase tudo se perde,
Quase tudo se recupera,
Você é para mim mais bonita
do que todas as flores na Primavera,
Eu conheço lugares e esquinas e pessoas
Sou um péssimo apostador, viciado em jogos de azar
Zonzo, eu deixo o vento me levar
De um jeito ou de outro estou à deriva no mar
Sou um especialista na arte de saber amar
e quando não amo estou sendo vexatório
Tudo o que é meu se perde
Sinto a dor percorrendo a minha pele
Os fracassos e falhas se acumulam em mim
Sinto vontade de desistir
Um latido me transporta de volta para o apartamento
Cuido das urgências no trabalho, pois não posso ser demitido
Sei muito mais e mereço muito mais, mas que se pode fazer?
Para não ser escravo do dinheiro tive de dizer não
Quão diferente seria a vida se tivesse mudado uma escolha?
Estourei todas as minhas confortáveis bolhas
Ando nu pela casa e preparo mais um café
Sou dono de mim, pelo menos parcialmente,
Visto minhas roupas e tiro o lixo
Separo o lixo orgânico do lixo reciclável
e me vejo deprimente ao tentar fazer minha parte
A arrogância de supor que posso salvar o planeta
Ergo-me outra vez para ver com mais clareza
Hoje meus lucros são menores que as despesas
Beijo meu cachorro na testa e meus dois gatos também
Estou entrando em extinção e choro
Não sei quem vai cuidar deles quando eu me for
Sou o melhor no planeta em amar de verdade
Ainda que em algum momento pregresso já tenha mentido
Quem é que nunca foi traído por si mesmo?
É nosso dever aprender com os erros
Os voos noturnos se perdem no negrume
Nossos melhores pilotes jazem esquecidos no céu
As janelas de luzes acesas piscam como estrelas
Meu coração se acelera e sinto frio
Febre alta no final do mês de abril
Que será que me aguarda no final do ano?
Cada lágrima derramada conta a história do oceano
E se nosso mergulho subjetivo nas imensas hipóteses
for apenas uma ilusão conveniente?
Enganamo-nos para crer que há vida além da fatalidade?
Nascemos, morremos, sem nunca fazer o que queríamos
O que diabos tanto queremos?
Pressinto a minha extinção mais próxima
Estou prestes a me destruir
sem antes ter a minha grande oportunidade
Meus livros são obras de arte
nunca lidas pelas editoras grandes
As editoras por vezes publicam livros péssimos
E no meu canto outra vez escorre o pranto pelo que não obtive
Quase tudo morre, mas minhas emoções sobrevivem
Faço outro café para tomar sozinho
Meus gatos lutam e brincam pela casa
Meu cachorro dorme no meu pé direito e não me movo
Decidir é uma ilusão estéril e necessária
Imaginar é preciso para seguir em frente
A gente é tudo aquilo que sente?
Sinto que ser apenas o que se sente parece vago
Eu bem que queria ter a sabedoria dos antigos magos
que eram cautelosos, mas se arriscavam como os marimbondos
Tudo ou nada
Pilhas de tesouros ou escombros
Queria sentir menos que o peso do planeta
nos meus tão fracos ombros
Não aguentarei para sempre e preciso dividir o fardo
Divido-me e me vejo separado
Sou um só e também milhões de pedaços
É difícil me ver por inteiro e encaixado
Nas tantas idas e vindas
rezei para que Deus tivesse misericórdia de mim
Mesmo não acreditando Nele cem por cento
Como eu esperaria que ele lesse meus textos gigantes
se nem eu me leria se eu fosse hoje o eu que era antes?
Eu habito os corações alheios e me deixo para trás
Passo a existir nas ervas, cactos e flores
Existo nos cantos da casa, nas vozes antigas,
na delicadeza dos animais e nos absurdos
A prolixidade é o meu maior mérito
Escrevo ainda que seja absoluto o meu cansaço
Escrevo aqui e em outro Tempo-Espaço
Estou morto e vivo ao mesmo tempo
Habito o canto dos pássaros e o ritmo do vento
Talvez você me ouça se a minha voz se perder
Talvez você se recorde de mim,
mesmo se um dia eu me esquecer
Bom, este é o começo de mais um fim
ou o fim de mais um começo?
Nas tantas idas e vindas
Conheci muito, aprendi muito, perdi muito,
Fui tão entusiasmado que não reconheci a apatia
Prostrei-me no chão abraçando meus joelhos
E foram duro comigo
Não me tornei o que tentaram me tornar
Endureci, entretanto, nesta saga de terror
percebi-me muito bem sozinho
A minha natureza é o ferro e o vinho
Levantei a minha cabeça e lhes devolvi amor
Sequestrei a Lua e aprendi a absorver as nuvens
Chovia toda vez que gargalhava ou me enraivecia
Ninguém sabe nada de mim e ninguém nunca antes
Milagres de temporadas gélidas que antecedem a invernia
Andei para cima e para baixo buscando encontrar
qualquer coisa que não fosse poesia
Esvaziei-me de mim e não tinha mais nada para entregar
Sorte é uma palavra forte
Há quem te ame e não exija nada em troca?
Essa é a maior sorte dos sortudos
Meus olhos estiveram quase sempre
atrás de telas de computadores
Aumentava a minha miopia conforme crescia
minha vontade de estimular amores
E me expandia sonhando que um dia
teria tudo que eu quisesse
Tudo é muito, vagabundo, abre os olhos, esquece
Volta para a margem da casa perto daquela clareira
Confia nas intuições ancestrais
Ouça a voz da tua mãe que previu
“Você será um homem bonito, meu filho”
A Dama do Lago chama o nome como uma oração
Escondo-me das convocações do chamado
Entretanto escrevo e produzo como um escritor enlouquecido
Memorizo ditados e medito sobre a cidade sem mim
Amo tudo, mesmo o que não me merece
As construções se descontroem e dirijo meu carro preto
recordando da vez que me emocionei com um relâmpago
Amante das tempestades e das estradas,
Eu tanto penso e nada concluo,
Eu tanto sinto e nada descubro
Nessas tantas idas e vindas
Acostumei-me com todo tipo de adversidade
Só não me acostumei a não escrever
Escreverei uma história nova e feliz agora
e do resto vou me esquecer.
Nessas tantas idas e vindas,
Um dia fui e nunca mais voltei.

É tarde para se esquecer


Sustente o seu olhar no meu
antes que tudo se perca
Você me trouxe até aqui e
agora é muito tarde para se esquecer
Aventure-se para além da cerca:
Nascemos para morrer
Você bem sabe que inventaram muitas coisas
Estratagemas de entretenimento
Você me trouxe até aqui,
mas se esqueceu do nome do vento
Sussurre em outra língua
e estarei do seu lado
Empunhei uma espada pontuda
Colocando-me em posição de combate
Estava pronto a pintar corpos de vermelho
por você
Seu rosto se expandia enquanto você sorria
“Eu sei me defender”
E gargalhava das minhas tolas apreensões
como o meu medo de escuro
Você e eu celebrávamos trovões,
mas só eu amava o meu barulho
Desde o primeiro minuto você era especial
Eu sabia que um dia iria aprender
Todo mundo sangra igual
Nós nascemos para morrer
Que advém de benigno se o raciocínio
é capaz de antecipar a tragédia?
A vida é um eterno declínio,
uma inevitável guerra?
`Como podemos amar bem
sem a chance do erro?
Como podemos viver sem
cultivar rostos nos espelhos?
Deito-me na sacada e observo
Luzes acesas, sombras, pessoas, pássaros,
Vozes, gemidos, gritos, amor, raiva
Tudo que acontece em uma noite que se esvai
Não choro pelo que não me pertence
E seco quando percebo que nada me pertence
Um sorriso brota de meu rosto envelhecido
Continuo aprendendo sobre insetos e fuligem
Nas estradas tortas, eu caminho reto
sem sentir vertigens
Anuncio-me como o último amante
da primeira e única lua
Um milagre aconteceu no instante
qual você pisou na minha rua
Assim, divido-me, sem me separar
Sou várias partes complementares e sofro
sempre que sinto que me falto
Sei tão pouco ao ponto de me punir
Sei o suficiente para que possa insistir
Meus tímpanos quase estouraram
Exigi mais cafeína
Estranhos subitamente se amaram
E aproveitaram a sutileza da rotina
Sustente o seu olhar no meu
antes que tudo se perca
Os acertos e erros todos se misturam
batidos em um liquidificador silente
Percebemos a ausência do barulho e sentimos falta
da reclamação dos vizinhos
Tudo se acaba
Até o dia que não se acabará
Quiçá os homens do futuro extingam a morte
Eu, que morrerei antes, sou um sujeito de sorte
Você nota as notas desta sutil canção?
Deite no meu pesado peito
Daquele teu velho jeito
tua delicada mão
As preocupações atuais irão desaparecer
Corpos, memórias, histórias, desejos,
Tudo irá padecer
Sorrio com a tua companhia
E contigo não me envergonho de me envergonhar
Aproveite os prazeres antes de tudo acabar
Sustente o seu olhar no meu
antes que tudo se perca
Envelhecemos o bastante, não?
Há o suficiente para se orgulhar do seu coração?
Você me trouxe até aqui e
eu te amarei por isso para sempre
Ainda que eternidades se despedacem
Se eu tiver sorte
Você me amará de volta e
eu serei extremamente feliz por isso
Chegamos juntos até aqui e
agora é tarde para me esquecer
Até as desgraças valem a pena
Encontramo-nos para nos perder.

Ferro & Vinho

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Penso no escuro, onde nada vejo, longe dos santos e criminosos, longe do que me ensina a experiência, longe dos ímpetos de heroísmos e vícios, apenas para que eu possa ver claramente além das situações mais complicadas.

Há vezes que me odeio pela insistência, entretanto, aprendi que a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior, assim, insisto no que é preciso, afinal, fazer-nos a nós mesmos é a tarefa, não?

Diminuir-me para que os outros se sintam grandes é inadequado. Apagar a minha luz não fará com que os outros brilhem mais. O sol é para todos e se o aquecimento das hipóteses. Tudo existe e deve ser considerado. É fundamental reconhecer os erros que cometo e me desculpar por eles, mas é raso se desculpar em todos os momentos apenas para evitar o conflito. O orgulho é importante quando não é venenoso. Os perdões são gestos imensos, quando sinceros. Quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas.

Por vezes penso que nasci do avesso, cresci ao contrário e me guiei por incertos instintos cósmicos. Era velho na infância e me sinto rejuvenescer com o decorrer dos tantos anos perdidos. Só me encontro quando perco completamente o sentido. Seria eu uma criatura interplanetária perdida na Terra? Foi em uma manhã de março que vim ao mundo para lidar, dia após dia, com despedidas. Nunca me esqueço de que um dia partirei também.

Tudo em mim é muito por pouco tempo, mas me percebo expandir de maneira extravagante, ilimitada, lépida. Preencho espaços improváveis. Quase tudo me interessa, ainda que seja apenas por alguns dias ou meses e noto que a prolixidade dos meus sentidos contradiz minhas atitudes sucintas e diretas. Subo em uma árvore para contemplar o horizonte e não há respostas ou perguntas, apenas cores. Fito o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto o dever urgente de alimentar a minha alma. Posso desapontar desconhecidos, entretanto, avanço passo-a-passo em direção a mim, encontrando o que sou e significo.

Mudo devagar e de forma contínua por compreender que a repetição reforça a missão. Não envergo fácil e nem me desdobro para atender expectativas alheias. Sou fantástico. Sou desapontador. Sou. Encaro o meu objetivo e me sinto transbordar. Minhas hesitações desaparecem e minhas compreensões se estreitam em um sentido mais claro. Já não me perco entre as estrelas, mas amo os planetas e a lua; já não me desoriento buscando nos aviões e pilotos o meu propósito de vida. A vida em si é o meu propósito e me sinto grato por perceber. Não entendo nada de gráficos e sou demasiado humano para os números frios. Desconheço as melhores estratégias de venda, quiçá por ainda não ter fixado meus valores ou por acreditar piamente que não tenho preço. Sou ferro e vinho, inflexível e seco e me deparo com a realidade de que nunca serei suave. Às vezes posso ser aprazível e inebriante, mas isso não impede, vez ou outra, uma ressaca no dia seguinte. Relaxo os ombros e sorrio. Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia e eu me exijo, sem me arrepender.

Não tente me entender.

Não tente me entender
se nem a mim, eu mesmo faço sentido
Não tente, se poupe, se economize,
Sou repleto de contradições
Sou insano e imprevisível quando
abandono todas as minhas convicções
Sacralizo minhas profanidades
Vi-me velho, satisfeito e distante
Vislumbrei meu futuro numa alucinação
de uma noite de dores lancinantes
Prostraram-se de joelhos e se sentiram humilhados
No torpor só soube que não humilhei ninguém
Estava febril sem estar doente
Rosno e expulso para longe
os que nunca recuperam a compostura
Eu erro bastante e me recupero
Uma vez mergulhei em olhos hipnóticos
nunca soube se realmente voltei
A Existência é uma piada e tantos
de nós não possuem senso de humor
Engulo Galáxias no café da manhã
com os cereais e as frutas e o iogurte
Tudo isso me parece inevitável
Jogaram uma bomba no meu colo
e esperaram que eu explodisse
Ainda estou aqui, vocês notam?
Bebo meu café fumegante
Afasto para longe de mim, eu mesmo,
com todas aquelas velhas quinquilharias
Quem foi que disse que acumulador de restos
sempre esconde alguma poesia?
Talvez eu tenha me livrado de tudo
Talvez espero que se livrem de mim  
Se você acha que eu me importo
provavelmente você está certo,
mas meus interesses não subsistem
Nada em mim é tão duradouro assim,
Exceto aquela velhas promessas
bem como todas as chaves que encontro
Um dia abrirei todas as portas,
 apenas para escapar por uma janela
Como nos tempos da juventude
onde o meu único prazer era inovar
nos jeitos de fugir das aulas
Até hoje, de quando em quando,
pego-me em reflexões profundas
Do que é que eu tanto fugia?
Não tento me entender e por isso
espero que você não tente adivinhar
porque acelero quando tudo se acalma
Vocês buscam satisfação, desejo e sexo
Eu busco o rosto de minha alma
A satisfação, o desejo, o sexo,
isso tudo já busquei um dia também
Nessas tantas buscas por sabe se lá o quê,
eu, enfim, me percebi refém
Sem revólveres apontados para a minha cabeça
Apenas idólatras patéticos sussurrando
“Cresça, cresça, cresça”
Foi então que cresci,
mas quem ata altura ao tamanho
Quem se propõe a aventuras só pensando nos ganhos
Não sabe nada do que deveria saber
E mesmo eu, na dureza da lida, ainda me valho
de saber que não devemos ir tão longe assim
Cansei de tentar entendê-los
Por isso reforço o primeiro pedido
Não tente me entender
Homens dormem, morrem e nascem
Um dia nasci, hoje mesmo dormi,
sei que eventualmente vou morrer
Você tentou me perscrutar ontem,
Volte dois passos, amarre seus sapatos
Faça arames com os cadarços
E vá foder
Não tente me entender,
O saber é inútil
Os esforços são vãos
Sobreviver é a tarefa do fútil
Distraído por uma única canção
que fala sobre barcos e navegantes
Minhas costas doem e a minha nuca
prova que os meus limites são fracos
Quero ser a camisa que entorta o varal,
mas seco demasiadamente rápido e me torno leve
Flutuo pelas ruas como um floco de neve
Conheço um artesão culinário com cabelos cor de areia
Ele não tenta me entender
Observo uma mulher mística
que muda de aparência a cada nova manhã
Ela não tenta me entender
Eles são quem são e se bastam,
Eu sou quem eu sou e me basto,
ainda que em alguns dias eu queira ser outra pessoa
Raramente sinto que enxergo na visão dos outros
E vejo silhuetas fantasmas que dançam
Eu dançarei com você até o fim da próxima música
Fico por último para não deixar ninguém para trás
Ainda que eu não me importe com isso
de vida, morte, amor e sorte
A memória é um tesouro
Conheço-me o bastante para saber
Teria dinheiro sobrando se nunca tivesse
largado o antigo trabalho
Que vida medíocre e opulenta me esperaria?
Conheço-me o bastante para não conhecer
Entro e saio de dietas e quando rezo,
nas noites raras em que falo com o Criador,
peço até pelo bem daqueles que detesto,
Talvez nem o Criador tente me entender
Eu sou simples o bastante para não valer a pena
Complexo para não compensar o tempo de estudos
Quando o resto do mundo fala, eu me torno mudo
Não quero opinar sobre coisas que não sei
nem amar coisas que não amo
Quero descobrir o nome de minha alma
quando solto meu corpo no oceano
E volto salgado
Tudo muda o tempo todo
Os dias parecidos nunca são iguais
Alguns novos começos se parecem tanto
com os velhos finais
Cuidado com as assombrações
Cuidado com o sentir dos sentidos
Desejaram a minha morte por ser prolixo
Por mim, hoje, apenas hoje,
Espero que o mundo se esqueça de mim
Quero existir no limbo
Profano, sagrado, magro, mago, sozinho
Quero existir na noite infinita de outubro
quando o frio chegar, eu subo o edredom e me cubro
Não tenho tempo para o que não quero ter
Você não me verá agindo como um palhaço de circo
Nem beijando a boca de qualquer pessoa
apenas para fingir que eu sou parecido com vocês
Apenas para fingir que eu sou suficientemente legal
Que se fodam os atores, bem como eu já me fodi
Maldito dia que o Inferno se apossou do meu Paraíso
na amada casa da Rua Ipacaraí
Criaturas nascem, criaturas morrem,
mas eu não queria que ninguém se afogasse
Não, eu não queria nada mesmo disso
E ninguém pode me entender
Por favor, não admitirei tentativas
A taça de vinho chegou muito tarde
e eu vomitei muito cedo
Algo no meu peito ainda arde,
mas sei que não sinto mais medo
Eu cheguei muito tarde
e até hoje não consigo transbordar
Não tente me entender
Não tente me achar
Não tente
Não respire ou
apenas respire e revolva para o interno
que nunca aguentou tinta
Olho-me como um perito e como um estranho
O que existe no fundo de meus olhos castanhos?
Escrevo textos razoáveis
Outro dia desses me especializei
em sentimentos alheios e escrevi sobre os venezuelanos
Fui pago para isso e mereci o dinheiro
Os venezuelanos merecem o destino?
Esqueça a empatia e pense em sobrevivência
e então quando for forte o bastante
Poderá se debruçar em outros papéis
Não tente me entender,
embora eu talvez já tenha tentado
fazer isso por você
Não por amor, mas por algo sublime
pelo próximo verso na ponta da dor
Por qualquer coisa que rime
Por ser prolixo da cabeça aos pés
Não cruze os limites,
Sim, apesar das aparências e dessa loucura,
viver sem regras internas e preceitos
é cometer suicídio emocional e intelectual
Tente compreender, aceite a liberdade,
até por não ser algo que te convém,
mas não confunda liberdade com permissão
Podemos fazer tudo, mas não devemos
Você ainda está tentando me entender?
Bobagem, você foi longe demais por mim
Vire a página, eu nasci para ser e não para me explicar
Eu nasci para fazer e até hoje pude amar
Não tente me entender
Como você espera se aproximar de qualquer
entendimento sobre os outros se
ainda se apavora com a solidão?
Eu vou te explicar, mas você não vai entender
A solidão é sal
E rochas
E crustáceos
A solidão é um resto de lixo
na praia que ninguém nunca
se voluntariou a recolher 
Como espera entender?
Preparei um café quente e chorei
Bebi o litro e meio que fiz
Nada aconteceu
Sem tremores
Sem amores
Sem sombras
Sem ilusões
Sem pensamentos
Sem corações
Sem coragem
Sem instinto
Sem selvageria
Sem demonstrações
Sem invernos
Sem infernos
Sem verões
Sem batidas na porta
Sem ligações
Sem tudo
porque tudo
é nada
Os dias acontecem
e nós todos acontecemos também
Não há prêmios e temporadas
Apenas dias amassados em cima de dias
Vidas como sonhos bons ou ruins
Esperanças e desilusões
Assim cada risada profunda
é um mergulho em água termais
Cada desejo compartilhado
é uma meta de vida que se cumpriu
ainda que essa meta seja simples
Ainda que se trate apenas sobre
comer pipoca no final da tarde de uma quarta-feira
Os atletas entram em campo para vencer
Nós acordamos porque precisamos acordar
Dormimos porque precisamos dormir
A natureza não pode ser vil,
pois mesmo os mais diferentes ainda são parecidos
Escarro no chão ao pensar que tenho algo em mim
semelhante aos meus piores inimigos
A natureza não pode ser vil,
mas os humanos podem
A razão superior não deve se sobrepor a razão inferior
As marés mudam conforme as fases da lua
Utiliza-se tudo para não defrontarmos o nada
Nascemos e corremos, embora não exista linha de chegada
Não tente se entender ou me entender
Inocentes morreram afogados
Vaidosos subiram em pedestais e aceitaram
atenção como um gesto de amor
O que já beberam para se mostrarem intocáveis?
Os narcisos não são melhores
Só se observam por mais tempo
Não tente me entender,
Anteontem eu me cansei de mim,
Exausto das minhas teorias e cálculos,
Enojado com meus planos de marketing,
Amanhã eu me renovo e recomeço
se porventura não me afogar em mim,
Eternidades se despedaçam,
Os heróis do povo me rechaçam,
E assim sei que estou no caminho certo
Nem são, nem santo
Nunca pouco,
Mesmo assim nem tanto
Amigo dos loucos
Repleto de encantos
Invisíveis
Não aceito que me digam quem sou
Como saberiam se nem eu sei?
Esqueço meus problemas
e durmo como um rei
Meu cachorro jaz perto de mim
Minha gata me cuida da sacada
Não há linha de chegada,
mas aprendi a amar a minha estrada
Não tente me entender,
Eu talvez seja tão banal como você,
mas meus crimes não são imperdoáveis
Ainda que o dano conte como dano
e nem tudo seja reparável
Amo quem merece o meu amor
Amo quem não merece também
Às vezes me vejo no Japão ou na Nova Zelândia
Às vezes me vejo ainda mais além
Interplanetário
Gatuno fugidio das sombras
Sombra fugida de ladrões
Cobri-me com um sobretudo e saí
para conhecer a Verdade
Tudo está em toda parte
e minhas partes se espalharam pela cidade
Não desejo que me procure, mas espero que me encontre
E assim saberemos que o Destino existe
Há coisas que vão e não voltam
Há o que existe e não aceita o abandono
Há melancias congeladas e bananas apodrecendo
Há cerveja, barulho, cachaça e água
Há o que existe e o que inventei
E penso às vezes que inventei tudo o que existe
Será que não criei todos vocês como minhas ficções
apenas para os dias em que o silêncio me incomodasse?
Será que vocês não fariam tudo o que eu pedisse
se eu chegasse mesmo a pedir?
Será que não os criei para que eu
tivesse como me impedir nas madrugadas de trevas?
Será que eu não existo desde o início das Eras?
Será que não estou sentado de pernas cruzas
em um trono ou afagando a mim,
eu mesmo, que não faço sentido,
num cafuné em meus próprios cabelos?
Às vezes me esqueço que minhas mãos
são realmente minhas e meus dedos finos
de pianista, nunca acharam seu instrumento
O vidro antes era areia
Eu antes era nada
Vim do deserto de Lugar Nenhum
Vide Noir
Esb Mub Sein
Frases, palavras, letras,
Água, fogo, planetas,
Pulei muros impossíveis
apenas porque quis
Beijei todos os animais
que encontrei pelo caminho
Sou um especialista em carinhos
Se me perguntam a razão disso tudo
Honestamente não sei responder
O vidro antes era areia
Posso ser pontiagudo também
Você não me entende, mas somos afiados
Capazes de ferir e sermos feridos
Eu me percebo distante e fútil
Quero tomar mais café e rezo
para que não tenha mais orações
Há desejos incomunicáveis e comunicações improváveis,
mas não há sequer um pensamento proibido
Os olhos são a janela da alma?
A minha alma precisa dos óculos e do vidro
Vocês talvez sejam mais estranhos do que eu
principalmente por tentarem me entender
O reflexo me agrada e me enoja
Pequenos progressos também me importam
Os espelhos pararam de quebrar em mim
Supostamente todo o meu azar se foi para sempre
Assim meus olhos correm
para a próxima cena
O tinteiro molha a ponta da pena
A minha loucura é um poema
da sanidade que nunca tive
Se amo objetos e insetos,
é claro que posso amar vocês
Não me oscilo tanto assim
Se nem eu me preciso,
quem é que vai precisar de mim?
Tatuei o meu corpo e me senti belo
Os trapezistas equilibram nas mãos
o peso exagerado deste mundo
Não podem nunca escorregar
Todos prendem a respiração
Ninguém me entende
Decido não aparar a barba
Pareço abandonado, mas não
Pareço embriagado, mas estou são
O time faz um gol e todos vibram
Estou buscando compreender
o que vocês todos se tornaram para mim
Estou buscando entender
que entender é inútil
Guardo inutilidades e cesso minhas buscas
Não, eu não tento descobrir ou saber
Queria que não se demorassem em tentar me entender
A dor dói quando dói e eu mesmo não faço sentido
Aconteço do avesso e às vezes sou feliz na tristeza,
Melancólico nos interlúdios de felicidade
Se acalme e tenha paciência
O tempo é um conceito
Eu não
Queria que chovesse hoje,
mas não aprendi a fazer chuva
Persisto seco, neste desterro,
neste caminho desértico de secura
Cautela com as mentiras que contam
Certas coisas sempre duram
Certas pessoas me dão a confiança
de sentir que posso fazer o que quiser
Assim, eu sinto que talvez não tenha
inventado tudo isso afinal
A vida e a morte não fazem sentido,
mas eu também não faço e sorrio
Sinto a brisa abafada em um início de tarde quente
E continuo sorrindo
Talvez eu não tenha inventado tudo
e isso me preenche de alívio
Não me entendo e continuo a sorrir
A ficção de meus pensamentos e atos
não forjou a probabilidade do que é real a mim
A Existência afasta os cálculos
E ainda que eu seja exato demais para ser humano,
sou exageradamente humano para ser exato,
Tudo bem, eu vejo que também falho
Posso querer coisas extravagantes
Posso querer coisas patéticas
Posso me tornar extravagante
Posso me tornar patético
Posso ser simples e incrível
Posso alcançar o impossível
e torná-lo possível, assim, meus pelos se eriçam
Sinto-me emocionado com uma estrela cadente
Seguro-a perto do meu coração
Tornamo-nos uma coisa só
Cadente, estrela, eu, fogo, areia
Uma peça única delicada como o vidro
Mobília singular no canto da casa
Criatura que voa sem ter asas
Os milagres existem e eu me emociono
Lágrimas salgadas escorrem dos meus olhos
Sinto o gosto do Mar e
da Alma na ponta da língua
Você desistiu de tentar me entender
acha que sou grandiloquente, mas pelas palavras
fica claro que cultuo tudo o que é frágil e pequeno
Talvez você tenha inventado tudo
O que sei é que eu não inventei nada
e tampouco me entendo.

Eu me cansei de mim.

Às vezes me canso de ser quem eu sou, mas me vejo preso em mim, como se a vida me zombasse em um dar de ombros. A vida, entretanto, nem é corpórea, portanto, como poderia ter ombros? Rio de mim, pensando que quase a vida toda tenho sido o mesmo, dentro da minha cabeça, distante deste pesado e coercivo mundo real. Distancio-me da realidade e de quem erra irrefreavelmente. Quero acertar mais. Quero errar mais. Quero o que nem sei, mas não costumo me repetir. Sou inédito nos detalhes, mas nunca aprendi a dizer a palavra certa na hora certa. Será que aprenderei? Queria antecipar a língua dos anjos, conjurar magias benévolas e simplesmente fazer com que os sérios pudessem sorrir. Sinto-me estranho. Faço o que me parece ser a coisa certa e deixo o orgulho de lado. É necessário se desculpar quando se percebe errado. Flocos de neve nunca caíram diante de mim, assim, a neve é tão irreal quanto os amanhãs que nunca aconteceram. O segredo para se ter dias agradáveis é pensar perto e existir longe. O agrimensor mede a extensão das terras. Quem mede a extensão dos homens?

Ainda ontem eu era criança e encontrava todos os tesouros que nunca procurei. Os insetos eram meus amigos silenciosos e a poeira subia como nuvens diante dos meus óculos. Os gatos de rua me observavam enquanto eu via o que só eles também viam. Os cães deitavam para receber o meu afago, pois sempre fui um grande entendedor de carinhos. Nem todos me viam, mas eu via todos. Nem todos sabiam o meu nome, mas eu memorizava todos os que conseguia. Coletava tudo o que encontrava pelo caminho, alimentando secretamente a esperança de utilizar uma chave perdida que encontrei no chão para abrir uma porta ou um baú. O que pensava ter, eu vejo hoje que não me pertencia e muito do que eu era, eu nem sabia ser. O charme dos que nunca foram charmosos, as mentiras boas, espetáculos de sombras e luzes, ligações telefônicas, duras verdades, vozes ofegantes, trotes, patas sujas de lama, juventude, o segredo dos ônibus noturnos, vácuos emocionais, discussões acaloradas, conversas mornas, vazios, ausências, as fases da lua, corujas, andarilhos perdidos e sinceros, o coração puro para os equívocos honestos e as coisas que exalavam o perfume do abandono. Tudo isso sempre existiu no retrovisor de mim, nunca abandonado, nunca sozinho, sempre sozinho, arredio, carinhoso, evasivo, difícil, muito sorridente, muito sério, singular, expansivo, discreto, por anos e anos sem me encontrar com uma alma parecida. Eventualmente, no futuro, eu encontraria algumas, mas enquanto se espera sempre se demora e a rotina pode ser tortuosa no constante correr das horas.

Envelheci mais pela experiência e pelos grandes diálogos do que pelo decorrer do tempo. Ninguém sabe para onde foram os anos passados. O descaso é uma bênção e uma maldição. Eu hoje não sei o que procuro, mas analiso com paciência tudo o que encontro. Ontem mesmo borboletas saíram de dentro do armário. Percebi pelo evento que, vez ou outra, nada faz sentido. Há tanta ficção no meio destas coisas concretas que desconfio da realidade e me sinto perdido. Tudo hoje me parece possível e rio outra vez de minhas futilidades. Oscilo como os gênios e os preguiçosos, cônscio de que sou absolutamente comum. Suspiros duradouros nos interlúdios que faço em mim. Será que tenho feito o meu melhor? O otimismo, de quando em quando, exaure-me. A minha inteligência, de quando em quando, aborrece-me. Quando tudo decorre de acordo com minhas previsões, noto-me furioso. Particularmente me acho patético e incrível quando tropeço ou bato meus ombros nos lugares de sempre. É como se o meu cérebro se desligasse para uma realidade óbvia, assim, meu desastre se torna um fator novo e sinto uma raiva latente e real da minha memória, apenas por não ter conseguido antecipar a dor. Como trombo nos mesmos objetos se eles estão no mesmo lugar?

Às vezes me canso de ser quem eu sou, mas por estar preso em mim, não luto para me tornar alheio. Essas tantas camuflagens me parecem deploráveis e esses tantos disfarces atiçam o meu lado sombrio. O cansaço de todas as hipóteses, os inutensílios que acumulo pelo caminho, as fragilidades que me fazem sensível, as sombras que nos perseguem, tudo o que é diante de tudo o que poderia ser e do que nunca será. Tudo isso me cansa e me pune, assim, repleto dessa exaustão mental, noto minhas lágrimas escorrendo outra vez. Não desvie teus olhos dos meus, acaso me perceba chorando. Eu aprendi a não ter vergonha de derramar o meu sal. Somos mais que as partes que nos formam e, vez ou outra, talvez você também se canse de ser quem é, apenas pela falta de um tipo específico de descanso. Aceite-se, ame-se, perdoe-se e, enfim, erga-se. Eu aprendi que de olhos postos no chão, deixamos de enxergar a vida que acontece.

Às vezes me canso de ser quem eu sou, mas na maior parte do tempo ando de peito estufado, satisfeito por ter me aceitado defectível e inconstante, imprevisível, atento, viciado em cafeína e em detalhes. Decifro-me até me tornar outra vez um novo mistério. Sou o que sou e me amo, entretanto, percebo que posso mudar nos gestos mínimos e me tornar ainda melhor. Não me iludo com facilidade. Observo a vida com paciência e absorvo o máximo que consigo. A tendência é que amanhã eu seja alguém parecido com quem sou hoje, mas quem sabe o que serei daqui a uma década? Quem sabe o que posso alcançar? Tento ter calma. A vida é marcante por ser real, mesmo que a ficção se misture com o cotidiano. Devo lutar pelos meus sonhos, pelas vontades que são apenas minhas e lutar por um mundo melhor, não porque isso seja intrínseco a nós como seres humanos, mas que seja uma necessidade de sobrevivência da minha parte. Já fui vil, já errei feio, porém me noto acertando na maior parte do tempo. Procuro ainda pelo rosto que tinha antes da criação do Universo, mas não abalo o meu sono com as tantas respostas que ainda não tenho. Busco os meus objetivos grandiloquentes, ainda que muitos os achem impossíveis. Avanço com meu ímpeto juvenil no rumo do que me proponho. O agrimensor mede a extensão da terra, mas ninguém mede a extensão dos sonhos.

Cicatrizes de uma vida sofrida.

Longa e escura noite
Solitária segue a mulher
Pronta para o açoite
Seja o que Deus quiser
Dividida entre dois mundos
Não sabe para qual olhar
Reflexos iracundos a
transportam para nenhum lugar
Limbo, passagem e a alma
Desguarnecida
Findo, selvagem, a calma
foi esquecida
Outra vez a noite escura
Lança o cobertor em nós
Nem tudo que é belo perdura
Fecha os olhos para não ver o algoz
Que chega sorrateiro
sabendo exatamente o que quer
Seus desejos são traiçoeiros
Pretende usurpar a mulher
A protagonista se levanta
Luta contra o ímpeto
de que não adianta
Enfrentar alguém
muito mais forte
Ri e depois canta
Ninguém quer o seu bem
Esta é sua mísera sorte
A noite vira madrugada
A mulher reza e se aquece
só com a raiva que sente
Tudo é péssimo agora,
mas um dia será diferente
Existe mundo lá fora
que justifique seguir em frente?
O amor quando veio era falso
A atenção quando veio era oportuna
Arrasta-se pela casa com os pés descalços
Sonha a felicidade, mas sua realidade é a bruma
Eles sempre se afastam, porém, antes a punição
Seu corpo é um saco de pancadas
Sua história de pura humilhação
Ergue a cabeça de algum jeito
Esta mulher de força extrema
Recorda-se de tudo o que lhe foi feito,
mas refuta que sintam pena
Ninguém é perfeito, mas ela
nunca se perde da cena
Quem explica esse efeito?
Coisa trágica de cinema
Do sofrimento muitos nascem
e nele tantos se perdem da lida
A minha heroína sustenta na face
As cicatrizes de uma vida sofrida
Viveu pela liberdade
e seu conto foi escrito em dor
Escreveram em sua lápide
“Representa a luta por onde for”
Hoje cantam pela cidade
seus gritos de luta como história
de amor. 

Não é tarde demais

Não é tarde demais, pelo menos não ainda. A lei da vida é a mudança, mas não é errado desejar que algumas coisas não mudem, percebe? Você precisa crescer e idade ou tamanho nada influenciam no que quero dizer com crescimento. Você passa quase todo o seu tempo acompanhado e se esqueceu de quem é por nunca ficar sozinho. A solidão é ambivalente. Ela tem a capacidade de nos ancorar na dor profunda das coisas que tínhamos e perdemos, mas simultaneamente tem o poder de nos ensinar o caminho de volta para quem realmente somos.

E se essas respostas não forem agradáveis? E se não pudermos amar quem realmente somos? E se nos envergonharmos dos nossos defeitos, passados e até mesmo dos mais puros e belos impulsos afetivos?

Respire fundo e se acalme, pois a boa notícia é que você pode mudar. A lei da vida é a mudança, você ainda se lembra? Comece de novo, de preferência do zero e lide com as partes mais difíceis. Ensinamentos que acompanham experiências dolorosas geralmente são mais marcantes e valorosos. Não permita que tudo seja em vão. Não repita os seus erros e não se acomode com os seus acertos. A vida acontece no presente e você precisa continuar tentando acertar.

Aprenda a dizer não para os seus amigos, para a sua família e principalmente para seus próprios instintos. Temos a rara capacidade de raciocinar, assim, por favor, conjecture suas ações e tente ser gentil sempre. Que tal se você sorrir mais? Você alegrará, no mínimo, a vida de quem ama te ver feliz.

Dê um basta nas obstinações desnecessárias. Chega de socar a ponta da faca. Já não viu o suficiente do teu próprio sangue? Não se vicie na tristeza. Deixe para trás o que já te deixou. Apegue-se às coisas boas. Não insista no seu orgulho, raiva ou desespero. Você pode mais do que isso. Queira mais do que isso. Seja paciente, mas não desista. As mudanças verdadeiras levam tempo. Continue de cabeça erguida, nunca pise nos outros e a vida vai mudar.

Não é tarde demais, pelo menos não ainda.