Véspera Vespertina

Meu coração se assemelha ao motor de um veículo zero. Bate, sem oscilar, um número exato de batimentos cardíacos por minuto. Se investigasse os números só me depararia com um resultado aproximado, longe da exatidão cirúrgica. A consciência de não ter plena consciência me exulta. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer qualquer coisa. A imprevisibilidade ainda é, por ora, parte do meu reflexo humano. Estou confessadamente cheio de humanidades! O sangue circula em minhas veias e funciono, pelo menos na medida do possível e sei que o coração bate. As nuvens passam pelo céu azul claro e sei que um dia não haverá mais céu ou nuvens para mim. Nasci para morrer e me perco em longas e eventuais conjecturas. Os animais me encaram com seus olhos fundos e grandes, antevendo secretamente todo o mistério da existência. O amor que recebo é de outra dimensão. Neste plano ainda não aprendi a amar além do limite e talvez nunca aprenda. Minhas emoções se sobressaltam e choro sozinho no carro ao me deparar com um relâmpago numa noite silenciosa. Quase buzino em protesto contra os deuses, mas ouço apenas sons urbanos e dirijo.

Chego em casa e tiro a roupa, como quem descarta os pensamentos e faço do sofá um cabideiro ou uma arara para pendurar vestimentas. Abandono também as hipóteses levianas. Se os cachorros e gatos conhecessem os mistérios da vida jamais seriam atropelados. Se as pombas soubessem os segredos do Universo, apenas comeriam pipoca perto da entrada do Fórum de Justiça da cidade, mas elas ousam ir além e morrem, ao comerem outras coisas ou após serem também fatalmente atropeladas. Estamos aqui para alguma coisa, mas nunca saberemos a razão, afirmo. O caminho mais fácil para a tranquilização do espírito é sufocar as hipóteses complexas e resumir a vida em simplicidades. Se nasci para morrer, como vou me manter motivado para desfrutar de minha vida? Percebo os outros muito mais do que gostaria. Fito segredos degradantes que jamais serão revelados. Revela-se em mim a mania de contar, que nunca me abandonou e sorrio por me escapar a quantidade de batimentos cardíacos, ainda que não escape o impulso de um meio gesto alheio, que significou o gesto inteiro; ainda que não me seja invisível qualquer coisa que aconteça na penumbra; ainda que eu durma relativamente acordado, por conhecer o mal que sofro em meus pesadelos horripilantes. Não procuro em vida expiar as tragédias que me acontecem no cotidiano e nem busco verdades além da uma Verdade. Sou amado, entretanto, há vezes que me sinto tão sozinho que ninguém chega perto de perfurar as esferas do meu isolamento. Devo ter a paciência de me manter calmo e frio, apesar da drástica loucura climática, para não confundirem a minha raiva serena com qualquer destempero frívolo e banal. Sou furiosamente delicado, mas confundir a minha cautela com fragilidade é pisar em uma zona além da qual estipulei a minha pacificidade. Se por bem ou por mal quiseram controlar a minha reação, eu direi a todos que se fodam, que se enfileirem um nos rabos dos outros, que se lambam ou se cuspam, que me chupem, que me procurem na esquina ou que pulem de um precipício.

Tenho o cuidado extremo de permanecer sóbrio e real e leal, mesmo quando me passam rasteiras e cerro os punhos e franzo uma das sobrancelhas enquanto escuto, pois ouvir continua sendo uma arte. Tenho soluções criativas que ninguém ouve, muitas vezes nem eu mesmo. Tenho evitado iniciar confusões, mas só se recordam de como batalho furiosamente uma vez inserido nelas. Não busco conflitos, mas reajo. Que assim lembrem então do meu barulho e que minhas vontades realizadas, apenas pela razão de que desejo as realizar, não sejam confundidas com qualquer vislumbre extravagante de um instinto hedonista. Recuso o hedonismo. Não é tudo pelo prazer, mas tenho o direito de pleitear o que suponho ser prazeroso uma vez que lido com a difícil missão diária de enveredar por subidas mais íngremes. Quero mais, sonho mais, subo mais, luto mais choro mais e até grito mais. Escalo uma montanha e do outro lado da colina há um desconhecido que me diz que eu não deveria estar ali. Após tanto tempo de escalada, resolvo fazer a única coisa que é simultaneamente sensível e sensata. Mostro-lhe o dedo do meio e calmamente digo que não há montanhas, nem vidas, nem separações. Se estiver atento perceberá que até mesmo metade das vontades que você julga serem suas, foram-lhe estimuladas por pessoas alheias ou pela sua falsa argúcia em observar errado. Digo isso a ele e mostro o outro dedo do meio. Percebendo-se apequenado diante de mim, observo-o fugir, sem argumentos para minhas falas, sem astúcia para o enfrentamento. Não o xingo, pois ele tem o direito de se resguardar silenciosamente em seu remorso acovardado.

Há pessoas que odeio e serão famosas e não as odiarei menos por isso. Há pessoas que amo e serão famosas e não as amarei menos por isso. As minhas opiniões não são afetadas por impressionismos de esquina e nem a minha atenção é comprada por qualquer debilitado chamariz patético e pedante. Os que mergulham na prostituição barata em nome de obter atenção e os que bajulam e se rastejam para buscar um lugar ao sol, por terem confundido um falso ídolo qualquer com um verdadeiro Astro cósmico, não sabem nada sobre iluminação e luz. A cidade continua a ser o que sempre foi e desconfio de que eu não sou mais quem quase sempre fui. Minhas mudanças estéticas são mais notáveis que minhas oscilações morais e intelectuais. Os batimentos cardíacos, agradeço a qualquer coisa que não vejo, ainda são impossíveis de contar com precisão. Conto as mentiras, as falhas, os acertos, o salário, os amigos, os falsos amigos, os psicólogos, os psicanalistas, os médicos, os jogadores de futebol, os coqueiros do outro lado da rua, mas ainda não conto os meus próprios batimentos. A imprevisibilidade ainda não é estéril em mim, entretanto, vejo-me cercado e cada vez menos humano. Velhos restaurantes que por anos foram imponentes, repentinamente estão falidos. Como posso eu, repleto de tantas humanidades, ser infalível? Falho com e sem classe, arrependo-me de coisas que fiz e de coisas que não fiz, de murros que não dei na hora exata. Os ossos se consolidam, mas os remorsos nos perseguem e algumas vezes nos matam. O grande júbilo quando o cansaço me alcança é manter a convicção de que ainda há a morte. Que sorte, digo baixo, que sorte, confesso aos prantos, que sorte, grito aos quatro cantos. Tudo começa e acaba e vilões e heróis, santos e pecadores, criminosos, apátridas e ingênuos se igualam com o nivelar final da inevitável condição humana: todos morremos. Não há um político corrupto que escape, não há um diretor de cinema engenhoso, uma advogada, um filho, uma mãe, um filho da mãe, um filho da puta, um animal, uma planta que escape. Tudo morre e tudo em mim retorna ao seu devido lugar. Repito, cansado e combalido, o que começa precisa acabar.

Sinto uma afta abaixo da língua e a pressiono com um punhado de sal e meu dedo anelar. A dor me faz sentir vivo e os meus pensamentos cessam. Não é preciso pressa. O mundo é grande e sempre haverá alguém acordado e alguém dormindo. Os relógios ajudam no controle, mas os ponteiros são mecanizados. A consciência de não ter plena consciência me exalta e me alegra. Toda beleza que interessa é vaga e cega. Nasci para morrer e me firmo nessa constatação. Meu coração sem contagem de batimentos parece descompassado, como um motor quebrado, mas me valho de um orgulho tosco e juvenil de ser quem eu sou hoje, ainda que não tenha a certeza de quem eu vá ser amanhã. Somos ingênuos e abobalhados diante do Tempo e fazemos ou deixamos de fazer apenas nestes pequenos lapsos nos quais nos enxergamos quase como seres Reais. Sem os lapsos epifânicos, sem essa convicção superior de necessidade, nada somos e tentamos disfarçar a notável indiferença que sentimos com propósitos e sonhos e desejos. A vida cinza do escritório se colore com a paisagem que vislumbro da janela. As árvores e máquinas jazem belas no pátio dos automóveis gigantes. Em outros sistemas, será que esses ônibus contam histórias sobre os humanos que os conduzem? Haverá alguém segurando este planeta gigante na palma da mão, como eu seguro uma bola de tênis? Sorrio como reflexo, sem sentir felicidade ou tristeza. Ainda sou o mesmo de sempre, na verdade e esta cidade vai mudando mais do que eu, tanto nos recônditos de seu âmago, como no sentido estético. A alma da cidade se expande. A egrégora formada pelo acúmulo de espíritos campo-grandenses vai além de uma Campo Grande. Novos prédios surgem e eles riem dos antigos, que dizem para as casas pequenas e os comércios locais que a juventude atual está drástica e mudada. As coisas eram melhores antigamente. Até os insetos estão abandonado a cidade para tocarem banjo em uma roda no pântano. Qualquer leigo midiático abandona a literatura por qualquer outro esporte mais prazeroso e fugaz.

Falo do que sei, sabendo que sei cada vez menos. Os mais sábios morreram e os mais estúpidos também e quando chegar a minha vez, eu sei que alcançarei todos os que se foram e que hoje estão distantes de mim. Não tenho vaidades cronológicas e assim, contento-me em viver só até a velhice, realizando-me ou não, porque o homem que deseja e realiza encontra o mesmo encerramento que o que não se realiza. Pretendo beber muito café e muita cerveja, pretendo foder pelos próximos trinta anos pelo menos quatro vezes por semana, escrever muitos textos, ainda que ninguém os leia e dizer sem hesitar em um instinto educado de polidez BOM DIA, para as pessoas que eu encontrar no elevador do condomínio. Os animais podem guardar segredos existencialistas, mas eu não sou capaz de guardar nada. A ambição de existir longe me frustra constantemente. O sucesso e o fracasso são vizinhos de frente. Um dia quando eu pedir café emprestado para o vizinho ou para a vizinha, quem sabe não me descubram. Imagino-me agora coberto e rio da inutilidade pueril do senso de humor. Tudo existe, mesmo sem que eu saiba para quê e saber que todas as pessoas pensam, mais ou menos a contagem aproximada de pensamentos que eu também penso, convence-me de que há demasiados pensadores. Queria emudecer na consciência apenas por algumas horas e me encarar nu, vazio e puro. Aceito o meu corpo e até da minha assimetria sou seguro, afinal, a carcaça é nada ou no máximo significa e traduz a roupagem de minha alma. Sinto-me só. Sinto-me e só. Queria externar minhas raivas e paixões, minhas partes esdrúxulas, minhas ironias e verdades, minhas razões, meus choros, meus prazeres, queria ser encarado como um livro escrito e publicado, mesmo que repleto de rasuras. Vou ao banheiro e mijo. Tenho mijado muito por beber seis litros de água por dia e penso na utilidade da água, não para os outros, mas para a minha funcionalidade biológica. Esses tantos silêncios são o que tornam a vida possível ou o que nos disfarça o suficiente para que sejamos encarados como toleráveis? Essa quietude quando a vida pede coragem nos ensina algo sobre os outros ou sobre nós mesmos? Essa angústia disfarçada, esse senso estético exaltado e murcho, destacado constantemente como se fosse a única qualidade a se espelhar, ensina algo, afinal? O fanatismo é indiscutivelmente além da conta, tanto que já vi pessoas disfarçando seus corações, suas paixões e até suas próprias identidades, tudo para saciar uma pressão social concreta. A pressão singular que assola quando ninguém vê, guia o fanático até uma confissão secreta, calada, escondida. Quase ninguém nota, mas eu tenho observado.

Não me entrego aos idiotas e nem me verão me submeter ao vulgar escancarado ou oculto. Àqueles que pensam que podem pensar sobre como os outros agem, não são só estúpidos como completamente egoístas. A vaidade narcisa passa longe de mim, mas tampouco me impressiono com narcisos. Acostumei-me com a constante presença deles ao longo da vida. Há uma mania de convencimento frágil, falsa, de se pensar muito mais do que se é. Idolatrar-se é se entregar ao vitupério próprio, individual e inescapável. Toda obsessão é boçal, sendo a obsessão consigo a mais banal delas. Deificar a aparência é optar sacrificar tudo o que não é aparente. Destacar apenas a estética é se ajoelhar diante de uma falsa beleza e não me ajoelho para amigos e nem para inimigos. Sim, há os amigos e há os inimigos também, você subestima, mas há pessoas na cidade que riem de você, ainda que não te conheçam, que torcem contra você, ainda que nunca tenham te visto, que invejam a sua vida, é claro, sem terem a consciência de que há ônus e bônus para todos. Você que me olha e não lê minhas palavras, zomba, gargalha e ainda acha que estou louco. Tudo o que todo mundo faz ainda é muito pouco. A tragédia não é ser leigo, é ser amoroso. O inferno, como disse Sartre, são os outros.

Já não posso tolerar quem age de maneiras irresponsáveis em relação a mim e me afasto, afastando-os também, por ter aprendido que a autopreservação como instinto é, por vezes, salvadora. Se não me salvasse, quem operaria heroísmos em minha vida? Se não me defendesse, quem desferiria um tapa tentando salvar a minha honra? Se não berrasse, quem conteria meus desesperos soltos no peito? Quem para me defender, quando o mundo é covarde na defesa e prefere se valer de uma fingida destreza para evitar o conflito? Quem é que sendo esperto escolhe o lado certo, sendo que o outro lado está sozinho? Quem é que vai se esquivar e falar que não há razão após o primeiro grito? A covardia, bem como artimanhas viperinas, é manjada e não sou ingênuo para me enganar facilmente. Tenho uma estrutura estética formidável e me agrado com a forma do meu nariz e a cor dos meus olhos, embora desejasse que cumprissem a função original para qual os tenho. Se os olhos enxergassem bem e se meu nariz respirasse melhor, eu talvez me sentisse satisfeito. O senso de estética externo é marcante e por isso engana a funcionalidade de tudo o que é interno e funciona com oscilações. Enganamos os outros, mas no fim, desconfio que jamais enganamos a nós mesmos. Comportamos monstruosidades, bem como operamos milagres. A existência é repleta de dualidade e nós somos todos ambivalentes.

Choro solitário, sem derramar lágrimas e me percebo percebendo. Não consigo ser simpático. A minha ira esbarra na minha doçura e meus contrastes me definem. Se posso ser mais? Talvez. Se quero ser mais? Não sei. Se sou o mesmo desde a infância? Provavelmente sim. Ainda me vejo menino no quintal de casa, sozinho, observando os brinquedos imóveis, que logo agitariam a minha manhã com a minha imaginação. Não preciso estimular minha criatividade, tampouco minhas convicções. Nossas certezas são mais certas que as certezas dos que julgamos ignorantes ou loucos? Há genialidades vomitadas diretamente no esgoto. Esvazio-me, mas continuo cheio, sem saberes acumulados. A única certeza que se crava em meu peito, como uma estaca fincada no coração sem batimentos de um vampiro, é de que um dia irei morrer, bem como todos os que não são eternos também morrerão. Tudo se despedaça. Tudo começa e acaba. Tudo acaba e começa.

Se o mistério da Vida fosse um quebra-cabeças, eu seria apenas uma peça. Rio da rima e me volto aos números. Preciso tomar café e mijar, não necessariamente nessa ordem. Que o Rio de Janeiro tenha compaixão de mim, gargalho no escritório de casa. A ira alheia envolta em fantasias de relações íntimas nunca cumpridas me coloca um sorriso no rosto. Um se matar por um amor não correspondido e este vivo, sobrevivente, não clama por gratidão e abandona o “amigo” na primeira oportunidade. É a batalha da bajulação contra a vaidade. Suporta-se tanta a humilhação só para andar de mãos dadas. Há mãos que são cheirosas e macias, mas não valem esse preço. Sorrio outra vez de meus desassossegos. Torço para que não invadam meu espaço pessoal mais uma vez. A violência não me apraz, mas tenho me cansado de ser calmo. Quero o silêncio a qualquer custo. Não me basto e todo novo dia ainda me busco. Já é possível revolver para dentro e me encarar sem sustos?

Quero chegar em casa e encarar os profundos olhares dos bichos, que me exigirão ternura e alimentos, sem explicações sobre mistérios não misteriosos da vida. Sorrio com expectativas, mesmo sabendo que a expectativa é uma forma de ilusão condicionada propositadamente por mim. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim e essa exatidão me faz rir. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer ainda qualquer coisa. A imprevisibilidade é, por ora, parte do meu reflexo de humanidade. Nesta véspera vespertina de mais um ano de vida, neste prelúdio alaranjado do meu aniversário, penso, como bilhões espalhados pelo mundo também pensam. Sonho infantil de um dia mostrar meus pensamentos e minhas iniciativas aos outros que também pensam. Sorrio outra vez, ainda que essa hipótese possa talvez nunca se concluir. O futuro é imprevisível, bem como as vontades que dançam no meu âmago. Tudo pode acontecer!

Tudo pode acontecer, mas nem tudo vai. A cada escolha que faço deixo milhões de outros destinos para trás.

O que andam dizendo

A vida é certamente incerta,
eu disse e ela sorriu,
Depois me respondeu
com uma frase esperta
e logo então sumiu

Diga-me o que prefere:
o peso ou a leveza?
Prefiro que a vida seja leve
Já você opta pela tristeza

Bem, você precisa assimilar e saber
A melancolia era minha única companhia
Quando ninguém parecia se importar
Quando ninguém tentava me entender
É preciso ser sério nas situações sérias
e no resto do tempo buscar o riso e o prazer

Devemos nos divertir nessa vida
mesmo que nada disso seja um jogo
Tenho certeza de que não há garantias
de que viveremos de novo

Se você pausar o relógio
A vida lá fora continua,
Não seja sempre tão óbvio,
Cante hoje uma canção para a lua

Piche no muro ou na rua
Aproveite os detalhes da jornada
Sacie os seus desejos, pois logo tudo passa
A gente vem, vive, cresce e depois vira fumaça

Há convicções certeiras que esquecemos de lembrar
A vida começa, mas uma hora tem que acabar

Lá fora as pessoas desinteressantes
falam a todo instante sobre nós dois
Somos constantes amantes do agora
Nada fica para depois

Outra noite dessas saímos no escuro
Para um passeio diferente
Demos de cara com uma inscrição no muro
“Quem é que pode ver para sempre?”
Apesar disso nossos juramentos eram puros

Fodemos em todos os lugares
como uma maneira de nos afirmar
Todos os cantos da cidade, até os bares
se tornavam nosso lar
E eu ouvia sua voz melódica sussurrar:
nós fomos feitos para durar
Uma sina, um destino, duas pessoas,
Um par

Você gargalhava da intensidade do meu sentimento,
mas se aquietava quando me ouvia:
A vida é apenas movimento

E você se calava
quando alguém de repente declarava
que um dia haveria uma separação
Aquele pensamento não se enquadrava
no seu coração
Para ser sincero, confesso,
No meu também não

Os cães velhacos e sujos de barro
Os carros quase atolados
Os gatos miando de fome

O barato se tornava caro
A verdade era caso raro
E minha única oração era teu nome

Chamava-a com uma certeza ancestral
Fique
Nem tudo que acaba tem final
Acredite

Rabisquei um verso num caderno
Você me chamou de brega
Para chegar ao céu passamos pelo inferno
A beleza que importa é cega

Rimos e nos embriagamos
até que de repente houve uma briga
Não estava nos nossos planos,
mas nos afastamos pela vida

Olhares matreiros e gestos displicentes
O amor abafado pelos costumes
A gente ainda é o que sente?
O que explica tanto ciúme?

Meses, revezes, conveses
O que fazemos se tornar engano
Você entre os franceses
Do outro lado do oceano

Astronauta assando um cogumelo
Vermelho se tornando amarelo
O que nos alcança no reino do sono

A complexidade de um homem singelo
A máscara que oculta o belo
A renúncia, as denúncias, o abandono

Tudo muda de repente
E às vezes se sente o efeito
Nenhum dano é permanente,
mas algo ruim perfurou o meu peito

Ficamos por um fio, mas
Berrei pela cidade
Há conserto se ainda
há vontade

Mostre sua feiura me dê um abraço
Receba minha ternura e distorça
o tempo-espaço
A vida anda muito dura
Que saudade do seu abraço

Espalharam por aí boatos
sobre coisas que não estão acontecendo
Segura minha mão e sairemos vencendo

É necessário encarar essas afrontas,
Foda-se o que todos andam dizendo
A gente ainda se reencontra,
mesmo se acabarmos nos perdendo.

Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.  

Um final.

Vaguei como uma sombra
pelas ruas mal iluminadas da cidade
Vesti um casaco preto para saber
ensombrar quem aparecesse
Meu tamanho até assusta,
Quem nota minha forma robusta
geralmente não se mete comigo
Há quem sabe o que busca,
Paga o preço que custa
para se ver longe do perigo
Honestamente eu não ligo
Ainda assim ando arisco
Aos pais e padres não peço bença
Descobri que só se vive pelo risco
e se omitir é apressar a sentença
Outro vulto surge do lado de lá da rua
De cá sei que não se vale de qualquer medo
Queria ser valente como essa gente
que anuncia todos os segredos
Ouço um zumbido estranho e
uma voz perdida no espaço
Minha audição me alerta
e escuto também o barulho dos passos
As luzes piscam e a noite é sem lua
Meus pelos se eriçam, porém
minhas pernas não recuam
A escuridão envolve eu e o desconhecido
A alma distorce a face numa expressão cruel e crua
O corpo se retesa quando se lembra da última mulher nua
Aproximando-se com passos firmes e cautelosos,
quase como a outra pessoa que se movimenta no breu
Todos os meus instintos selvagens e corajosos
enfraquecem diante do brilho novo que nasceu
A lâmina prateada cintila em uma dança
O amor é a morte do dever
e a faca a morte da esperança
Queria pedir para a alma obscura que me poupasse
Que me deixasse viver só mais uma semana
Devaneei como Pessoa e gritei para Wilde
TU ESTAVA ERRADO
A gente nem sempre destrói o que mais ama
Julgo ver um sorriso ou
será só a face do paraíso que me chama?
Ora, rio-me, sentindo-me louco
Tento dizer algo, mas me noto rouco
O outro é apenas um e não uma gangue
Aproxime-se agora, vil vagabundo
Prova o gosto do meu sangue
E ergue os braços, pois no jornal dirão:
aquele lá morreu lutando
E o sal dos meus olhos vai se misturar
com meus outros pingos vermelhos
O assassino provará um gole, cairá
e me verá no reflexo do espelho
Descobrirá depois o que eu já sei
Os fantasmas existem e estão por perto
Tenho certeza que não os imaginei
Estavam comigo nos mais solitários desertos
Os abutres se aproximam para se alimentarem
Venham, venham, aglomerem
Minha carne será o seu delicioso banquete
Quando não restar o que comerem,
tornar-me-ei uma estrela e ascenderei aos céus
na velocidade explosiva de um foguete
Olhem, vejam, é o menino viciado em mar,
Aquele apostador azarado que amava o jogo,
Lembra de quando ele ousou a abraçar
uma estrela cadente e protegeu um demônio do fogo?
Ora, a vida passa velozmente, lá vou eu,
cinzas, madeiras, pó e o que ficou do que ainda sentem
São essas coisas efêmeras que nos eternizam?
Corra, pegue uma caneta permanente,
crave nossa amizade em uma árvore milenar!
Avance os corredores proibidos do shopping e piche
“nós fomos feitos para durar”
Antes que tudo se acabe numa piada
Antes que a lâmina bela manche a madrugada
Quem poderia adivinhar esses tantos fins?
Olhe para frente, para trás, recorda-te agora
do primeiro alimento ardido
Fite meus olhos e me diga sem demora
qual o paradeiro de tantos anos perdidos
Que Deus tenha pena da próxima cena,
Que o Diabo não vexe meu poema
Que meu inimigo oscile e trema
enquanto eu tento sobreviver
Eu sei, Criador vil, este mundo é oscilação
Vomitei mil horas para merecer minha redenção
Olha, estúpido, obrigado por este presente,
jogaste-me neste planeta maravilhoso e decadente
Faço eu a diferença para alguém?
Mais um passo, sombras dançam no escuro
Pisco e me vejo observando a cidade esquecida
meus olhos ágeis e curiosos buscando respostas
Eu nunca sei qual é a próxima saída,
mas sigo fazendo minhas apostas
Veja, Lanterneiro, olha, rapaz,
para o jeans que veste ou para a distância, a queda
Olha como mesmo pequenas e longínquas,
são repletas de brilhos aquelas janelas
Olha bem, menino, teu sonho é o teu destino
Você tem sensibilidade e é capaz de vê-las
Aproxime-se das luzes fracas
Tente reacendê-las
Refulgir talvez seja a única missão
Ergo os braços para a última batalha
Orgulhoso do meu valente coração
Os anjos e os deuses me esqueceram aqui
O diabo e os demônios menores não vieram assistir
Sem público, um tanto melhor,
há quem viva para impressionar os outros
Meu sorriso se torna largo e agora acho
que meu algoz me toma por louco
Vivi muito e o que é real nunca parece pouco
Venha, covarde, você despertou em mim
essa vontade de brigar e morrer
Não recua, agora é tarde,
em algumas horas outro dia vai nascer
Urge em mim a vontade de vencer e
num frenesi avanço primeiro
A impulsividade é a vantagem do carneiro
Rolamos pelo chão agressivamente
Desfiro socos e vejo um de seus dentes voar
Ele me acerta e me percebo a sangrar
A ira me personifica e me vejo tomado pela adrenalina
Meu casaco preto agora deve estar vermelho
No silêncio ouço o grasnar dos corvos
O anúncio é o da minha morte?
Que fortuna, que sorte, eu até vejo a manchete
Homem é morto pouco antes das sete
Onde estavam os policiais e os transeuntes?
Onde estavam os heróis trajados?
Um homem morreu e
ninguém pareceu ter se importado
Um cristal esverdeado surge no céu e sonho
Assombro praias com dunas e areias brancas e canto
Revisito meus milagres e absurdos e me pego aos prantos
Neste desfecho me convenço de que não há santos
As luzes, o pó do universo, a areia de estrelas,
No fim de tudo este era o meu único segredo
A única magia que aprendi a conjurar
eram palavras que moravam nas pontas de meus dedos
Ora, vejam, a gente realmente nasce e morre sozinho?
Cresce, envelhece, erra e se possível acerta,
mas não enverga, ferro, não suaviza, vinho,
Não desvia os olhos, olha para a imensidão,
ousa crer nas ficções quais acredito,
Passe pelos portões em brasas,
abra suas asas e verá o mundo mais bonito
Permita-se descansar, mas nunca se esqueça
A estagnação é o fim antes do fim
Agora limpa as roupas e levante,
Expande-te para as terras distantes,
Recorda-te que eu desejava existir longe
Que toda minha prolixidade sonhava em ser sucinta
Que toda minha alma era feita de tinta
Que o Universo todo surgia da ponta da velha caneta
Que a morte é o caminho seguinte
 e que vai me achar sempre que abrir algumas gavetas
Eu vou antes, sem me esquecer, estou em tudo,
Por favor, saiba ver, não seja tão tonta
Eu falava sem parar e agora jazo mudo,
mas noutro mundo a gente se reencontra.  

Certamente diferente…

Estes são os sentimentos que transcendem o tempo, veja, outrora eu estava ali a todo o momento até que não mais precisasse de mim. Sua frivolidade me entretinha enquanto eu tentava me distrair do seu desamor, sim, eu percebia pela maneira como o clima mudava do quente para o frio quando você chegava e aquela invernia não ornava com o sol que derretia tudo, contraste, era isso o que eu sentia conforme notava a sua tentativa de me antagonizar, você precisava de um bode expiatório, um alvo, alguém que se encaixasse na mira e não repelisse a flecha, assim, sólido e são, eu fui atingido. O sangue pingou no chão e disso nunca me esqueço. Há finais que são apenas começos.

Ora, os dados rolaram e subitamente notei a reviravolta no jogo, olho devagar e reparo na sua obliquidade melancólica na virada para o ano novo. Bem, é preciso se comprometer, prometer e mudar, veja, tudo só muda se você se empenhar e felizmente, apoio-me em mim o bastante para entender que há muito o que não entendo. Fecho os olhos, respiro fundo, espero, aprendo. Por vezes ainda sou tomado por uma ira ancestral, como se o mistério secreto que me compõe urgisse por sair em meu frenesi, porém me revolto para dentro, em silêncio, contendo meu asco, exatamente como uma tartaruga e entro no meu casco, retornando até o momento em que nasci. É engraçado parar e pensar. Outrora quando vim ao mundo eu sabia apenas chorar. Que é mesmo que suponho? Será que a minha vida não passa de um sonho? Há coisas que não aceitam o abandono. Prefiro manter meus hábitos e insistir no ferro e no vinho. Há coisas que só absorvemos quando nos percebemos absolutamente sozinhos. Seus velhos fantasmas até tentaram, mas não me assustaram. Suas provocações me despertaram. Personifiquei-me no menino do coração congelado?

Acordado, enfermo, febril, lúcido, louco, qualquer coisa parecida com o que quase é, você quase me toca quando sobe a maré, chame meu nome, grita, por favor, não some e eu sorrirei, místico, fútil, ancestral, patético, preguiçoso, humano. Confundi gotas d’água com pingos de sangue enquanto me arrastava por um terreno desértico. Onde todos estavam quando não me via? Trinta e nova e meio, quarenta, dia doze, dia sete, aniversário, nove, dois, trinta, um, meu eu especial, fracasso, cansaço, noite de natal. Heróis, vândalos, quem sabe a diferença? O albatroz salvou a minha vida, partiu cedo, sua sentença. Nunca senti tanto orgulho do meu coração, saltei do trapézio, repleto de medo, sem asas e me restou confiar. Alguém precisa me segurar. Cadeira de prata, amizades ingratas, vômito, imperfeição, choro de joelhos, quebrei dois espelhos, catorze anos de azar. O tempo passou e agora é tempo de levantar, então, levanta-te rapaz, você é o que você faz, exija mais, tome da vida o que te pertence, erga a cabeça agora, sem demora, vence. Meu melhor estado é o melancólico, acólito, febril. Meu fardo é sentir um mundo que nunca me sentiu. Faço um desenho feio, grotesco e rio de uma hiena que ri de mim. Sou a mim ridículo, mas não sou pedante. Às vezes me desperdiço, entretanto, sou o mestre das inutilidades e dos instantes.

Ando, desando, avante! Boêmio, vadio, errante. Oscilo, terreno, aéreo, sereno, repleto de mistérios. Não há maneira de não me ser. Tentei de tudo e falhei. Constato, sério, que tenho uma infinidade de motivos para surtar, respiro, mentecapto, viro a chave, mudo tudo de lugar. Sinto orgulho dos meus vexames, sussurro ou calo meus atos grandes, cônscio de que somos todos do mesmo tamanho. Perco-me de mim, perco-me de tudo e na voz eloquente julgo ouvir um grito mudo, qualquer coisa que me transmita algum tipo de esperança. Deus se apresenta e diz que todos podemos luzir, exatamente como as crianças. Percebo-me sorrindo e sigo em frente. A vida parece igual, mas eu certamente estou diferente.

Eterno Contador das Horas

Eterno contador das horas
Descobri em qual Tempo te encontrar
O céu plúmbeo anuncia o que sente agora
Você apenas deseja se afastar
Até que possa se recuperar de si mesma
Quanta ingenuidade no seu afago
Cicatrizes abertas mostram o estrago
Seu corpo é um eco da destruição
Abertamente anunciam pela cidade
Fugiu na madrugada sua sanidade
O boato lhe traz humilhação
Você…
Você não superou
Encaro seu semblante, sério
Infante, reajo ao vitupério
Você não parece se importar
Os olhos marejados desfazem o mistério
Está viva e perdida em um cemitério
Vítima de um escandaloso adultério
Não sabe ainda como recomeçar
A noite quase se encerrando, sem lua,
Você se recorda enquanto olha para a rua
Tão vazia quanto a sua própria emoção
Diz que não sente nada, mas lágrimas escorrem
Denunciam sua mais secreta emoção
Você adormece, mas nem em sonho se esquece
Acorda em um sorumbático arrepio
Ajeita os cobertores e se aquece, porém,
Tudo ainda soa absurdamente frio
As pequenas conversas que lhe salvavam
subitamente emudeceram
Os carinhos que raríssimas mãos lhe destinaram
agora de ti esqueceram
Os dedos que um dia te amaram
afagam outros cabelos
Teu vexame frívolo é mais gelado que tua presença
Neste mundo onde vive para se disfarçar
Teu castigo é a solidão desta sentença
Nunca mais podendo se revelar
Estrela opaca morta pela saudade do brilho
Trem de carga, sem vagões, fora dos trilhos
Diga-me agora para onde foram os anos perdidos
Sonhe pela madrugada gélida e sem fim
Segure na borda do mundo com as unhas
e durma em paz, vaga-lume quebrado
Ergue-te, mulher arrelienta
A noite acabou
A manhã seguinte começa e termina cinzenta
para quem se perde na desmedida do amor
Sua parte obscura a torna violenta
Externa-se, enfim, toda a sua dor
Repentinamente epifania
Desmistifica-se o que não compreendia
O que machucava antes agora a incentiva
O sofrimento também é um sinal
de que ainda está viva
Então sobreviva, viva e sorria
Quem sabe quantas surpresas
há em um novo dia?

Metade do Caminho

            Se eu correr de trás para frente, será que eventualmente esbarraria na sua antiga versão na metade do caminho?

            Você era atenciosa, antes de se tornar mais atenciosa, mas parecia preocupada, sempre preocupada com alguma coisa que eu não sabia dizer. Era impossível te antever naquela época. Eu vim de outro lugar, de outro endereço, mas o céu era o mesmo e o tempo também. Percebe como precisamos dos acasos? Ainda assim é estranho saber que sequer teríamos trocado correspondências, acaso meus olhos escuros não a tivessem visto. Se um detalhe fosse diferente, você nunca teria entrado na minha vida e então quem eu seria hoje?

            É que eu costumava ser mais assim, voraz, ágil, expansivo e costumava parecer tão interessante para quem era de fora quanto me parecia desinteressante, por dentro, para mim. Os outros cultivavam um interesse sombrio em mim, uma admiração perplexa, algo sem nexo e eu inflava e crescia e tomava conta do que era meu. Por dentro eu continuava o mesmo, por vezes oco, por vezes seco e outras vezes era colorido o suficiente para tornar o mundo inteiro mais bonito, mas tudo isso era trancafiado para dentro, como se eu mesmo fosse um cofre, isolando essas particularidades, pois ninguém tinha o direito de saber sobre as coisas lindas que outrora havia guardado apenas para mim. As chaves para os meus paraísos e infernos eram minhas e por mais que me recusasse a ser outro, não permitia que os outros vissem tanto de mim. Não se confunda, eu nunca era superficial, não, eu apenas não era inteiro. Essas coisas internas, internalizadas por acaso, consolidam-se em nós, duras como o ferro, até que a gente possa mudar pelas próprias forças ou optar por não mudar. Fechamo-nos tantas vezes, pois a vida ensina que se nos abrirmos, seremos vítimas de um sofrimento terrível. Se uma porção do sofrimento que passei fosse removida de mim, eu não teria os olhos bons para coisas frágeis e quebradas, bons o bastante para reconhecer quem se parecia comigo, assim, creio que você nunca teria pisado na minha calçada e então quem eu seria hoje?

            É que antes eu andava por aí convencido de mim, berrando aos quatro cantos sobre quem eu era e tinha orgulho de ser, apesar das imperfeições, partes feias e equívocos. Deitava sozinho no quintal de casa e olhava para a lua, conjecturando em minha cabeça sobre caminhos, escolhas e sobre tudo o que ainda era desconhecido. Quantos milhares não olhavam para a mesma lua que eu? E a infância havia sido repleta de amigos, mesmo intercalada com inúmeros momentos de solidão nos quais eu observava insetos e ouvia os barulhos que o mundo fazia enquanto tentava entender o meu papel ali. Quantos milhares não procuravam os rostos de suas respectivas almas? Eu sentia como se o Universo inteiro me fosse familiar e como se eu fosse gigante e salgado, exatamente como o oceano, o que justificava o meu sal toda vez que eu chorava. A lua, imponente, por vezes se escondia demonstrando timidez ou era coberta por nuvens que passavam por ali. Não, as nuvens não sentem inveja da lua ou das estrelas, elas apenas precisam passar, como por vezes precisam chover e eu me chovia, lunático, estrelado, distante e satisfeito, refulgindo na escuridão da madrugada, imaginando que a lua, convicta de sua beleza, ria da minha mais pura admiração.

           Quantos não saíram para espiá-la nos céus e não encontraram nada? Eu me perguntava, solitário, sombrio, fechado em mim, se existia alguém capaz de mudar o meu destino. Ficava ali, triste, meu coração melancólico absorvendo as emoções do mundo todo. Se chorei nessas noites, eu peço perdão, chorava sem saber meus porquês, mas hoje vejo que antecipava toda a felicidade e a tristeza que eu ainda sentiria no futuro. Fazia perguntas para Deus, que me deixava no silêncio contemplativo de mim, eu mesmo estirado no chão como um tapete colocado para doação, sem serventia. Via-me avulso, pesado, saboreando a minha solidão e me perguntando no que eu seria bom e se as companhias futuras seriam melhores, até o momento qual a minha cachorrinha invadia a minha privacidade com muitas lambidas e eu me esquecia de ser profundo, prolixo, protelador, rindo da simplicidade maravilhosa do afeto de um animal. A vida vai estranha, mas nos focamos sempre no que aconteceu diferente do que queríamos, nas partes distintas e, esquecemo-nos de que compartilhamos terrenos comuns e de que outros, muito antes de nós, trilharam caminhos semelhantes.

            Você que me olha nos olhos, sabe me dizer se enfrentou ou evitou os perigos? Diga-me agora, milady, senhora, para onde foram todos os anos perdidos?

            É que estamos envelhecendo em uma velocidade assustadora, abrupta e o coração que acelera no peito é o mesmo daqueles tempos que antecederam o primeiro beijo na adolescência e o que é súbito ou pior, abrupto, indica que as palavras podem assustar tanto quanto as ações. E as minhas mãos suavam e não sabia sequer dizer uma palavra, até que aprendi muitas, até que erroneamente fui acusado de ter a consciência de sempre saber o que dizer e adivinhar pensamentos. A verdade é que eu nunca adivinhei nada, nem bênçãos, nem desgraças e era fechado, apenas por não saber como me abrir. Costumavam me perguntar se o gato havia comido a minha língua, até que disseram que a minha prolixidade objetiva era encantadora, ainda que no meu ponto de vista o prolixo seja incapaz de ser objetivo. As minhas mãos ainda suam, mas a minha língua-espada hoje me defende e me regozija, por todas as suas capacidades. Vê o quanto passamos para chegar até aqui? E os nossos tremores nunca pararam e nem creio que pararão, pois há aquela velha ansiedade pela vida que temos pela frente, vida de riscos e perigos, de tristezas e sorrisos, vida para viver. É que nós humanos somos uma coisa original, quase vulgar, seres repletos de instintos maus e nobres e, escondemos nossas vilezas horrendas por acharmos que o mundo nunca nos entenderia. Será que um dia alguém entenderá? Será que existe alguém que nunca se disfarçou?

            Toda vez que eu chegava em um lugar, eu sentia como se estivesse na antiga Sala Grande, um velho cômodo da casa de infância, quase absolutamente inútil até a semana passada quando diversos amigos jogaram Beerpong e me pego pensando na importância das cervejas e dos amigos e dos espaços vazios. Eu me perguntava se a sala era mesmo grande ou eu e meus irmãos éramos demasiados pequenos e se os espaços não preenchidos parecem maiores do que realmente são. Tudo me estranhava quando eu não era estranho para tudo. Eu me pegava febril, quente, refletindo, ansioso e acuado, cheio de medos. Revolvia para dentro, angustiado por não poder brilhar para o mundo. Mesmo quando o trem descarrilava, eu sorria, ainda que triste. Há nessa vida quem só ame ferrovias, você sabia? Mesmo quando tudo parecia desconexo, eu insistia. Há quem nessa vida sempre insista, você imagina? Tive excelentes ideias, mas nenhuma delas bastava. Por vezes me via igual ao menino que tinha uma estrela no lugar do coração, entretanto, meus batimentos cardíacos se aceleravam e me revelavam tão comum quanto qualquer outro. A única diferença é que eu insistia em ser quem eu era, nunca emprestando sequer um traço das personalidades alheias, assim, por vezes, de tanto ser peixe fora d’água, quase morri asfixiado longe do oceano.

            Nunca soei a mim bom o bastante, embora sempre tenha me gostado, fora da casinha ou da caixa, um esquisito, uma peça solta de um quebra-cabeças que ninguém jamais soube montar, eu mesmo o mais distante disso. E meus afagos e afetos, bem como minhas obtusidades, cresceram e mudaram de rumo até que eu abraçasse algo para a minha vida e chamasse de destino. É que a gente não pode ignorar os casacos e as baratas douradas e todo o resto que nos trouxe até aqui. Não podemos fingir que ontem, por pouco, quase não fomos nós mesmos em nada e alimentamos um monstro viciado em absorver escuridões e temores. Ontem um olhar atravessado seguido de um gesto extravagante foram capazes de nos estremecer. Dormi mal, tiritando de frio, por não sentir o seu calor. Não entendi muito do que deveria e o que entendi não era o que me parecia. Nossas embarcações estremeceram, nós oscilamos e ficamos à deriva no mar. Você sentiu também, não foi? Quando subimos de volta, estávamos em canoas separadas, barcos frágeis e, isso tudo nos leva a perguntar o que estamos perseguindo quando mergulhamos em partes rasas ou procurando defeitos com lupas. Quando dois mundos se encontram, há inevitavelmente catástrofes e eucatástrofes notáveis.

            Se acalme agora, não é sobre certo ou errado, não é sobre eu e você, temos melhorado, você percebe? E não somos mais tão teimosos, obtusos, não batemos cabeça tanto por bobeira, não estamos distribuindo socos nas pontas das facas e esperando não sangrar, como costumávamos fazer lá atrás. E o nosso carinho cresce, um pelo outro, bem como cresce o amor, aquele verdadeiro, aquele que anos antes, pensávamos que seríamos incapazes de sentir outra vez. E me esqueço do mundo no chão da sala, com o giro do ventilador, assistindo qualquer coisa quase interessante que nos distraia, mas que sirva como pretexto para que estejamos nos braços um do outro mais uma vez. Somos divertidos e chatos, sucintos e prolixos, obscenos e sagrados, simétricos na assimetria. Eu estou remando até você, você vê? Até que possamos estar novamente em um barco só.

            É estranho que a Sala Grande tenha levado quase três décadas para receber alegria e, eu mesmo, tão nostálgico e melancólico por natureza, acreditei, apesar de tantos pesares, que não merecia ser feliz. Quando me olharam como se eu não me fosse, enraiveci-me, pois, as minhas roupas só cabiam em mim, assim, chorei abertamente e em segredo, pela confusão que fizeram de mim. Nem tudo é o que parece e o que me pareceu foi assustador, bem como os outros sustos que te fiz tomar e de alguma forma, as bruxas que celebraram o dilúvio na semana anterior nos amaldiçoaram na semana seguinte e você sabe, tão bem quanto eu, que todos esses mitos e ficções são reais.

            Caímos e nos levantamos. O respeito não pode acabar, assim, tentamos de novo e de novo e outra vez, enquanto houver amor. Fomos atacados pelas bruxas, pelos fantasmas, assombrados por figuras que se pareciam conosco e não eram, porque nunca poderiam ser. Somos melhores. Somos maiores que essas lendas. Quem não aprendeu a perdoar só aprendeu coisas pequenas. Se eu correr de trás para frente, eu te encontrarei na metade do caminho? Diga que me ama, bem como eu tenho te amado, desde antes do nosso nascimento aqui neste planeta. Diga que quer permanecer mais cinco minutos ao meu lado, apenas porque a minha presença te traz segurança. Diga que vai ter paciência e que vai me ensinar todos os tipos de dança, ainda que eu não saiba dançar. Sacuda o meu corpo e me desperte para que possamos contemplar o nascimento do sol. Aconchegue-se na sala enquanto assistimos outro jogo de futebol.

            Se eu correr de trás para frente, será que o meu eu do passado se orgulharia do meu eu do presente? Perdido nas cronologias que faço em imaginação, utilizando-me de um número surreal de silogismos para sustentar minhas poucas convicções, percebo-me olhando para o lugar qual estou pela primeira vez e sorrio. A vida é bela, vale a pena e todos os percalços que nos trouxeram aqui nos fizeram quem somos. Sinto que devo ser grato por tudo, pelos erros, pelos acertos, por quem acertou e errou comigo também. Envelheço a cada dia que passa e a vida ganha cada vez mais graça enquanto você anda ao meu lado. Se isso soa tão certo, é impossível estar errado.

           Se eu correr para você hoje, antes que a noite vire dia, você me receberá com aquele seu sorriso que me traz tanta alegria?

Crônica de Três Domingos


Sento para organizar as ideias pela primeira vez nos últimos três domingos, mesmo que hoje seja terça-feira. Penso nas tantas despedidas que ocorreram durante a vida e sorrio, satisfeito e melancólico, por saber que mais adiante serei feliz. Hoje não consigo.

O fluxo da vida inclui apresentações e despedidas e, embora conhecer alguém envolva inevitavelmente um terreno incerto, há algo de maravilhoso e mágico que surge em mim toda vez que algo assim acontece. As despedidas são dolorosas e as marcas das pessoas que chegam e vão permanecem pelos anos seguintes como registros do que vivemos, expostos em nossos semblantes.

Por vezes nos esqueceremos, claro, nem todo mundo é marcante e tampouco a memória é perfeita. Outras vezes ficarão retidas em nossa recordação os perfumes, os jeitos, os lumes, os cabelos e contaremos aos outros algo simples como se fosse uma história inacreditável. Um ponto de semelhança basta para que possamos sorrir juntos e nesse ponto tudo muda e se transforma.

As coisas bonitas, eu ouvi dizer, elas deixam um vazio imenso quando se findam, bem como a brisa gélida que refresca o meu corpo no instante que o trespassa, apenas para que eu murmure em seguida sobre como odeio dias quentes. É irônico, pois não existe alguém tão solar quanto eu. As coisas bonitas, eu pensei recolhido em minha própria solidão, são como vaga-lumes que surgem em uma noite morna e nos fazem acreditar que há valor no brilho, pois mesmo um ponto pequeno e cintilante pode romper a escuridão.

Milhares de cenários povoam meus pensamentos. Reflito que buscamos o que buscamos e isso é o que nos torna incríveis. Ninguém de fora pode saciar as nossas vontades internas e independentes, ainda que seja mais divertido e confortável caminhar lado a lado com quem se acostumou a nos conhecer bem. Geralmente não nos sabemos. Quem de fora nos saberá?

O que se ganha, você aprende, também se perde e nesta vida não há garantias. O sentido é discreto ou até mesmo invisível e por vezes tudo soa vago, como se fôssemos vítimas da inevitabilidade da vida. Suas certezas desmoronam e com os olhos cheios d’água, você vê que amizades destinadas a durarem esmorecem; amores eternos murcham; histórias de dificuldade revelam heróis improváveis e valorosos. As quedas feias nos definem. Tornamo-nos mais vis ou belos ao nos reerguermos.

Nem toda ilusão é estéril, você aprende, é necessário estimular um pouco da imaginação para sobreviver com qualidade de vida. Você geralmente se esquecerá de valorizar tudo o que lhe importa, até que tenha passado.

Nesta tarde, porém, eu me peguei alternando olhares entre halteres e nuvens, perdido entre cuidar do meu corpo e viajar pelos céus. Pensei nos mortos, que já partiram, mas permaneceram nos recônditos secretos de mim. No meu coração há uma lareira diante da qual se reúnem, riem e conversam, transbordando ternura. Pensei nos vivos e no sofrimento de viver, quando os corpos se deterioram, os desejos murcham e a memória falha. Vencer é entortar aos murros a ponta da faca?

Permita-se retornar ao que te feriu e ao que te fez feliz. Se aprender a voltar, certamente saberá como prosseguir. A influência de outras pessoas é capaz de nos mudar, mas é preciso tomar cuidar para não desejar ser outro. O que somos na essência é o que revigora a alma. Estremeço por inteiro e me percebo com os pelos eriçados quando ao longe ouço ecoar no meu peito uma velha canção. Envelheço e me percebo estático. Ainda ontem era primavera no meu coração.

Tenho muito o que aprender e me lembro de quem costumava ser. Fui tantos que hoje já não me sei. Amo as versões antigas, mas sou o meu Eu adequado para este momento. Ajo com velocidade, mas a solução vem de dentro. Tento organizar as ideias e falho. Sinto-me perdido, mas nunca distanciado do amor. Estava entristecido até o momento em que ganhei uma flor.

Um dia atingirei todos os meus sonhos e refulgirei entre as estrelas. Hoje ainda não consigo. Melhor descansar neste final de terça-feira com cara de domingo.

Idas e Vindas

Nas idas e vindas das tantas jornadas
Escutava teu sorriso romper a neblina espessa
As rodas do carro amassavam o asfalto
ou pelo menos é o que eu imaginava
Temendo nunca mais te ver,
eu me tornava o melhor dos motoristas
E vivia por reflexo de querer viver
Ninguém sabe de quantos acidentes fugi
Quando vencia a tempestade, a neblina e até a noite,
eu me sentia como um deus sem nome e esquecido
Os demônios assustadores eram apenas caminhões
e me apavorava a hipótese de ser esmagado como uma lata
Não gostaria de desaparecer junto com os faróis
Vencer a estrada era vencer a vida e assim
eu respirava o ar fresco das pequenas vitórias
Meus fantasmas me aplaudiam como se sobreviver importasse
E eu me alegrava pelo estrondoso som da celebração
Até chegar no meu apartamento silencioso
O silêncio possui diversas naturezas distintas
e de vez em quando é tão profundo que abriga outros silêncios
Os meus geralmente tinham três partes ou mais
Àquela época, eu me encontrava apenas comigo
e toda noite era potencialmente infinita
Soltava o meu corpo no sofá e fitava a TV desligada
Suspirava profundamente e me sentia vago
Quando cessaria a busca pelo rosto de minha alma?
Piscava os meus olhos e estava outra vez
vivendo a minha rotina de trabalho
O dinheiro faz falta, isso todos sabem,
mas sinto mesmo saudade é dos curtos intervalos
Sentava no banco desconfortável da lanchonete
que havia naquele velho posto de gasolina
e a minha bunda magra doía
Os marimbondos moribundos e mentecaptos
 tentavam insistentemente beber meu energético  
Apostavam suas vidas por um gole
E eu sorria da ousadia deles
Quem não desejaria a coragem de arriscar tudo?
Rabiscava versos, frases e palavras soltas
na minha caderneta preta e esperava mudanças
Àquela época sequer imaginava
quão maravilhoso seriam meus anos futuros
Amaldiçoe o capitão que nos amarrou ao navio
Ele esperava que afundássemos perto do fim do mundo,
mas nós conseguimos voltar
Nas idas e vindas das tantas jornadas
Pude me lembrar do esgar de ódio
e da expressão dolorosa da indiferença
A tua feiura me obrigava a ser feio
E bebi o meu sal enquanto lamentava
a monstruosidade que você havia se tornado
Muita gente morre sem sequer ter morrido
Já sentiu como se estivesse preso em um ciclo?
Soltei o ar após prender a minha respiração
Parece que durou uma eternidade, mas
enfim pude me sentir completamente livre
Nas idas e voltas das tantas jornadas
Tanta coisa acontecia que eu mal sabia dizer
Crescemos com a dor e com a felicidade
Quando não queremos ser alguém além de quem somos
Vencemos
Quando queremos ser quem somos e ansiamos por melhorar
Vencemos
Há dias em que só me vejo derrotado
E abro três garrafas pequenas de cerveja escura
O preto sempre me vestiu bem
Caminho pelas ruas desérticas com a companhia
de minha sombra veloz
Quando não a vejo, aceito não vê-la, assim,
prossigo projetando-me para frente,
por não saber andar no sentido contrário,
O que o futuro traz nos assombra de uma maneira diferente
O meu primeiro gato foi o último
Os meus bons tratos me trouxeram infortúnios
E toda expectativa de novo começo soava como um fim
Tantas vezes fiz de mim coisas que nem sabia, entretanto,
reencontrava-me nas contemplações junto da BR-163
Nas idas e vindas das tantas jornadas
não ousei tanto quanto os marimbondos,
mas fui tão fundo quanto eu podia no momento que podia
Arrisquei, perdi, venci, mas não abaixei a cabeça
Meus olhos raivosos e astutos incineravam o mundo
Queimavam tudo até o momento em que eu pudesse amar outra vez
Ninguém neste planeta amou tão bem quanto eu
Começa com um olhar discreto, um sorriso, uma coincidência
E tudo se acaba em centenas de problemas
Preciso aprender com os marimbondos e com as abelhas
Preciso alimentar cada uma de minhas pequenas centelhas
Que Deus tenha piedade de nós todos e que possamos querer
exatamente o que queremos
Não preciso estimular coisas que não sinto
Sou grato por tudo, mas não me ajoelho por ninguém
Conheci as praias, as cidades e os silêncios
Conheci a mim mesmo e deixei de me fazer tanta falta
Nas idas e vindas das minhas jornadas
notei que não havia um caminho só
As coisas acontecem livremente de nossas ações
Ainda que as ações impactem severamente
Fomos outra pessoa e hoje somos diferentes
Está tudo bem sentir a falta da sua antiga versão,
pelo menos por um instante ou outro
Você agora é mais do que aquele seu outro pouco
Atravessa os campos verdes com uma segurança inédita
Ama ainda melhor do que antes e poderia amar tudo
ainda assim não perdoa quem exalta a forma e humilha o conteúdo
A vileza caótica nos destrói
Somos todos patéticos e perdidos
Somos todos astros caídos
Apoia teu queixo na mão e contempla
Tudo o que ainda não destruímos
Segura a tua mão na minha e veja
os perigos e aventuras que prometo te oferecer
Deixa-me te mostrar o que ainda vai acontecer
Meus olhos não se dividem mais entre passado e futuro
Ouço muito melhor quando largado no escuro
Mergulho na solidão de mim sem me antecipar
De quando em quando soo imprevisível
Afundo nas cores que costumava ter e me perco
Estou em um ponto sem pontos
Decido preparar quatro xícaras de café
Não necessito da doçura para prosseguir
Levanto o escudo sem saber do que tento me proteger
Sangro tanto que percebo que posso fazer sangrar
Somos todos tão pontiagudos
Por vezes me vejo como forma geométrica
tão distante das minhas antigas humanidades
quanto fui outrora quando ainda não me sabia
Hoje que presumo saber o pouco que sei
Desconfio de mim
Os pensamentos mais vis cruzam a minha mente
e por um milésimo de segundo sonho ser vilão
Isso passa
Estou sem tempo e alternativas
Estou sem roupas novas e dinheiro
Estou sem amigos e sem perspectivas
Quando passo todos sentem um cheiro putrefato
como coisa qualquer em decomposição
Quando passo todos sentem um perfume chamativo,
hipnótico e me olham como se quisessem me obedecer
Estou entrando em extinção e choro
pelo fim da minha espécie
Será que um dia haverá outro igual?
Naufrágio no ralo do banheiro e escorro
junto com a água quente do chuveiro
Minha pele queima e penso nos lugares que conheço
Campo Grande nem é tão grande assim,
Dourados, Berlin, São José dos Campos, Bonito, Londrina,
Em todas essas cidades havia perigos nas esquinas
Ervas daninhas são como pelos no sovaco do demônio
E o chão que se pisa é como o diabo encarnado
Vivemos condenamos à morte e não nos entregamos
Não, vivemos destinados à morte e nos toleramos
Escondemos nossos lados vergonhosos e torpes
como se alguém pudesse proibir nossas infantilidades
Na minha imaginação todos os cenários já aconteceram
Sorrio maliciosamente por entender que reinei o mundo
Patéticos, eu sussurro, vocês são patéticos
Queres ser forte, jovem rebelde, rígido,
deita-te no chão e faça mil flexões por dia
Abdominais são para quem tem tempo sobrando
Nos meus olho te vejo
Nos meus glóbulos oculares narro meu desejo
Nas minhas gotículas de suor transpiro
implorando por teu beijo
Talvez eu perca meu interessa,
Quase tudo se perde,
Quase tudo se recupera,
Você é para mim mais bonita
do que todas as flores na Primavera,
Eu conheço lugares e esquinas e pessoas
Sou um péssimo apostador, viciado em jogos de azar
Zonzo, eu deixo o vento me levar
De um jeito ou de outro estou à deriva no mar
Sou um especialista na arte de saber amar
e quando não amo estou sendo vexatório
Tudo o que é meu se perde
Sinto a dor percorrendo a minha pele
Os fracassos e falhas se acumulam em mim
Sinto vontade de desistir
Um latido me transporta de volta para o apartamento
Cuido das urgências no trabalho, pois não posso ser demitido
Sei muito mais e mereço muito mais, mas que se pode fazer?
Para não ser escravo do dinheiro tive de dizer não
Quão diferente seria a vida se tivesse mudado uma escolha?
Estourei todas as minhas confortáveis bolhas
Ando nu pela casa e preparo mais um café
Sou dono de mim, pelo menos parcialmente,
Visto minhas roupas e tiro o lixo
Separo o lixo orgânico do lixo reciclável
e me vejo deprimente ao tentar fazer minha parte
A arrogância de supor que posso salvar o planeta
Ergo-me outra vez para ver com mais clareza
Hoje meus lucros são menores que as despesas
Beijo meu cachorro na testa e meus dois gatos também
Estou entrando em extinção e choro
Não sei quem vai cuidar deles quando eu me for
Sou o melhor no planeta em amar de verdade
Ainda que em algum momento pregresso já tenha mentido
Quem é que nunca foi traído por si mesmo?
É nosso dever aprender com os erros
Os voos noturnos se perdem no negrume
Nossos melhores pilotes jazem esquecidos no céu
As janelas de luzes acesas piscam como estrelas
Meu coração se acelera e sinto frio
Febre alta no final do mês de abril
Que será que me aguarda no final do ano?
Cada lágrima derramada conta a história do oceano
E se nosso mergulho subjetivo nas imensas hipóteses
for apenas uma ilusão conveniente?
Enganamo-nos para crer que há vida além da fatalidade?
Nascemos, morremos, sem nunca fazer o que queríamos
O que diabos tanto queremos?
Pressinto a minha extinção mais próxima
Estou prestes a me destruir
sem antes ter a minha grande oportunidade
Meus livros são obras de arte
nunca lidas pelas editoras grandes
As editoras por vezes publicam livros péssimos
E no meu canto outra vez escorre o pranto pelo que não obtive
Quase tudo morre, mas minhas emoções sobrevivem
Faço outro café para tomar sozinho
Meus gatos lutam e brincam pela casa
Meu cachorro dorme no meu pé direito e não me movo
Decidir é uma ilusão estéril e necessária
Imaginar é preciso para seguir em frente
A gente é tudo aquilo que sente?
Sinto que ser apenas o que se sente parece vago
Eu bem que queria ter a sabedoria dos antigos magos
que eram cautelosos, mas se arriscavam como os marimbondos
Tudo ou nada
Pilhas de tesouros ou escombros
Queria sentir menos que o peso do planeta
nos meus tão fracos ombros
Não aguentarei para sempre e preciso dividir o fardo
Divido-me e me vejo separado
Sou um só e também milhões de pedaços
É difícil me ver por inteiro e encaixado
Nas tantas idas e vindas
rezei para que Deus tivesse misericórdia de mim
Mesmo não acreditando Nele cem por cento
Como eu esperaria que ele lesse meus textos gigantes
se nem eu me leria se eu fosse hoje o eu que era antes?
Eu habito os corações alheios e me deixo para trás
Passo a existir nas ervas, cactos e flores
Existo nos cantos da casa, nas vozes antigas,
na delicadeza dos animais e nos absurdos
A prolixidade é o meu maior mérito
Escrevo ainda que seja absoluto o meu cansaço
Escrevo aqui e em outro Tempo-Espaço
Estou morto e vivo ao mesmo tempo
Habito o canto dos pássaros e o ritmo do vento
Talvez você me ouça se a minha voz se perder
Talvez você se recorde de mim,
mesmo se um dia eu me esquecer
Bom, este é o começo de mais um fim
ou o fim de mais um começo?
Nas tantas idas e vindas
Conheci muito, aprendi muito, perdi muito,
Fui tão entusiasmado que não reconheci a apatia
Prostrei-me no chão abraçando meus joelhos
E foram duro comigo
Não me tornei o que tentaram me tornar
Endureci, entretanto, nesta saga de terror
percebi-me muito bem sozinho
A minha natureza é o ferro e o vinho
Levantei a minha cabeça e lhes devolvi amor
Sequestrei a Lua e aprendi a absorver as nuvens
Chovia toda vez que gargalhava ou me enraivecia
Ninguém sabe nada de mim e ninguém nunca antes
Milagres de temporadas gélidas que antecedem a invernia
Andei para cima e para baixo buscando encontrar
qualquer coisa que não fosse poesia
Esvaziei-me de mim e não tinha mais nada para entregar
Sorte é uma palavra forte
Há quem te ame e não exija nada em troca?
Essa é a maior sorte dos sortudos
Meus olhos estiveram quase sempre
atrás de telas de computadores
Aumentava a minha miopia conforme crescia
minha vontade de estimular amores
E me expandia sonhando que um dia
teria tudo que eu quisesse
Tudo é muito, vagabundo, abre os olhos, esquece
Volta para a margem da casa perto daquela clareira
Confia nas intuições ancestrais
Ouça a voz da tua mãe que previu
“Você será um homem bonito, meu filho”
A Dama do Lago chama o nome como uma oração
Escondo-me das convocações do chamado
Entretanto escrevo e produzo como um escritor enlouquecido
Memorizo ditados e medito sobre a cidade sem mim
Amo tudo, mesmo o que não me merece
As construções se descontroem e dirijo meu carro preto
recordando da vez que me emocionei com um relâmpago
Amante das tempestades e das estradas,
Eu tanto penso e nada concluo,
Eu tanto sinto e nada descubro
Nessas tantas idas e vindas
Acostumei-me com todo tipo de adversidade
Só não me acostumei a não escrever
Escreverei uma história nova e feliz agora
e do resto vou me esquecer.
Nessas tantas idas e vindas,
Um dia fui e nunca mais voltei.

O que sabem de mim.

            Anteciparam-me errado, ainda que eu estivesse estático, silente e soturno. Bem, é que era um problema dos outros e não meu. Eu logo vi, esses tais equívocos, essa quantidade palpável de fracassos acumulados em um baú escondido no fundo do armário, não me pertenciam. Os dedos em riste surgiram, apontando-me com agressividade. Queriam me impor culpa. Eu, aéreo, continuei flutuando, cinza, pesado, prestes a chover. O que foi dito, o que calei, o que inventaram, tudo isso existe numa prateleira que não existe, ostentado diante de meus olhos, para que eu possa encarar a opulência imoral do que nunca me pertenceu. A minha grande ignomínia é a minha paixão revelada pela escrita e cada vez que escrevo meus romances, crônicas e poemas, eu firo alguém que nunca se levantou para ser quem deveria ser e isso só se justifica porque determinaram que escrever é banal. Desta forma, por ser escritor, tornei-me um réprobo. Os grandes disfarces disfarçam talentosos artistas, peritos na arte de encenar, especialistas com a capacidade de ser quem não são. Bastando-se do que não lhes pertence, eles seguem confiantes e eretos, ainda que sejam pessoas incompletas e vagas. Acostumaram-se tanto aos costumes emprestados, que quando se perguntam quem são na essência, as gargantas secam e faltam suas vozes. Como seriam os seus dias se a sua única obrigação fosse o autocuidado?

            Encaixo-me nos estereótipos, pelo menos é o que a maioria supõe, portanto, todos presumem o que quiserem a meu respeito e assim se satisfazem. Por escrever poemas, é impossível que eu goste de sexo violento. Por ser distraído, todos acreditam que fumo muito e bebo mais ainda. Por ser alheio, todos creem que sou desinteressado e distante. Definem-me calmo, pois como alguém como eu seria capaz de tantas tempestades? Como alguém de tantas notas belas poderia facilmente mergulhar em um Vazio Escuro e sair mais assustador do que assustado? Meus impulsos não se controlam. Nada em mim subsiste. Gosto do sexo violento, mas também do sexo lento. Gosto do barulho ensurdecedor, mas me aprazo também com a calmaria. Raramente demonstro meus interesses, mas meus olhos faíscam para tudo o que me torna quem eu sou e cresço expansivo por todos os cantos da cidade, quando me percebo falando das coisas que mais amo. Personifico a tempestade e chovo. Ninguém escapa de mim e escutam meu som contra os telhados. Despenco com agressividade e me desfaço em lágrimas no asfalto. A ira, a água, a distância, o que habita em nós e mais ninguém entende, tudo isso eu vejo e, embora não me pertença, quase sempre sou capaz de compreender. Sou o imperador das madrugadas e sobrevivo com meus tantos sonhos diurnos. Um grito ecoa nas profundas cavernas do Ser. Levanta-te, príncipe insone, senhor solene das horas tardias, agora é tempo de se manter desperto, ainda que nem tenha adormecido. Permaneça comigo e respire devagar. Nos dias ensolarados e radiantes, nada ensombra meus sonhos mais coloridos. Sigo em frente, sem pensar na velocidade dos meus avanços ou na quantidade de perigos.

            Penso no trabalho sentado na cadeira e encaro a tela do computador com os olhos pesados. Quantos antes não passaram noites em claro diante de letras e frases? Quantos antes não fracassaram nas tentativas? Eu, tão inconstante, contradigo-me e luto para que as minhas intenções sejam puras e honestas. Não difamo quem passou pela minha vida. Minha gratidão é tão pura quanto a minha raiva cega. Tudo o que há em mim muito cedo se revela. Meus olhos ligeiros acompanham os movimentos de fora e eu, prolixo e sensível, sinto tudo na parte de dentro. Conheci a realidade e a ilusão e percebi que o exercício de distanciar a realidade da ilusão é estéril. Deveria desperdiçar meu tempo tentando abrir os olhos de quem vive anuviado até quando este torpor ilusório foi provocado e proposital? Deveria instigar a coragem, não sendo eu o responsável pelas covardias alheias? Quisera eu crescer e me fazer valente, sem nunca hesitar em avançar nas direções certas. Pudera eu vencer todas as minhas covardias latentes. Que sentido eu poderia dar para quem opta por viver ilusões em demasia? Se o que existe subjetivamente não fosse importante, não iríamos tão longe, assim, pego-me perdido em pensamentos prolixos sobre como a ilusão pode ser benéfica e me vejo sem a disposição de atacar quem eu considero iludido. Não se chuta quem está no chão.

            Sinto um arrepio pelo corpo e meus pelos todos se eriçam. A minha intuição alerta e sussurra que é melhor me manter cauteloso. O desconhecido é maravilhoso ou perverso e o fogo queima, até mesmo quando é amigo. As línguas requintadas, pingando veneno, suavizam doces beijos nas bochechas de todos, sem distinção. A educação, a pose, o luxo, a sutileza que se esconde por de trás da falsa elegância, tudo isso se amplia em um traiçoeiro senso de beleza, por estarmos hoje acostumados a enxergar a beleza de trás para frente. Os amigos atuais se preocupam apenas em permanecer do seu lado, desconsiderando sua vileza e sua arrogância, sem qualquer coragem de interpelar, por puro medo das distâncias. Escolhem o afastamento, ainda que tenham a opção de fazer diferente. Opta-se por assentir com versões e visões estúpidas do que se erguer diante de um confronto. Sujeitamo-nos a qualquer coisa, prostrados de joelhos de corpo e alma, por quem sequer nos olha nos olhos ou se preocupa com a nossa existência. Quando nos acostumamos ao silêncio diante das coisas vis, lentamente as coisas vis se tornam uma extensão de nós.

            Tenho conjecturado mais teorias do que os grandes pensadores e tenho feito esforços homéricos maiores do que o do próprio Homero. Tudo o que se existe é para se pensar ou não pensar, para ser feito ou não ser feito e me encontro confuso, ainda que localizado em mim. Os estereótipos todos se explodem com a sensibilidade do meu jeito de amar ou da minha violência veloz nos assuntos que mais importam. Quem perdeu a conta de quantas vezes já foi ridículo ou sensacional, obtém, cedo ou tarde, um domínio mais abrangente das próprias reações, ainda que reagir seja espontâneo. Como posso me preparar se nunca estarei preparado? Como posso querer antecipar algo se eu tenho sido tão imprevisível quanto a vida maluca que se apresenta diante de mim? Analiso-me em perspectivas diferentes até o cansaço de minhas hipóteses e me encaro como um sábio e um imbecil, como alguém perdido e alguém que sabe exatamente para onde ir. Minha alma se demonstra expansiva e me percebo expansivo. Aprendo com rapidez e noto que impressiono até os que não são facilmente impressionáveis. Ser eu e existir além de mim, exige-me muito, entretanto, não consigo deixar de me exigir. Que faço de mim se não consigo me fazer exatamente quem sou? Que me restaria se desistisse de lutar por toda essa alegria e amor? Por vezes me pego sentindo uma exaustão profunda e me percebo cansado de ser a única pessoa que sou, entretanto, sei que o pior pesadelo é a hipótese de ser diferente de quem sou. Não poderia viver me diminuindo para me encaixar e nem arrotando contos heroicos de proezas que nunca fiz. Sou complexo na minha discreta sensibilidade e não desejo ir muito além.

            Sem me embriagar, eu ando em linha reta, mesmo quando a vida dá voltas e me vejo diante de muitas curvas. Saio de mim, sem sair de mim. Torno-me contemplativo e ouço os roncos de cães e gatos. Nas ruas de um condomínio fechado, observo das alturas enquanto uma pessoa encapuzada caminha decidida para lugar nenhum. A segurança nos passos daquela silhueta escura me faz pensar que observo o próprio inventor dos mundos, o único Criador desta infame e maravilhosa jornada, que caminha nas madrugadas enquanto o resto de nós pensa ou dorme. O que explicaria uma pessoa, homem ou mulher, caminhando na chuva em um domingo oco que antecipa uma segunda-feira turbulenta de esforços e trabalhos?

Sabem tanto de mim que confesso que já não sei se me sei como um dia soube. As paixões que estimo costumavam ser claras, até o momento em que alguém supôs que sou apaixonado por coisa alheia. Perdido no torpor causado pelas opiniões que não me pertencem, percebo tampouco me pertencer agora. Aconteço para dentro e fogos de artifício explodem no meu peito. Não sei dizer se eles celebrar vitórias ou derrotas, por não saber nada mais de mim. Meus gestos outrora fracos subitamente se tornaram fortes e as minhas impressões discretas agora eram inevitavelmente inesquecíveis. Agir é modificar a natureza do pensamento e preferia o meu próprio mundo. Durante mais da metade de minha vida, revolvia-me em meus recônditos, explorando a minha criatividade latente, buscando pelo rosto da alma. O que havia no exterior jamais me interessou tanto quanto o que havia para o lado de dentro. Quem não conhece a própria casa raramente consegue desfrutar do que há para ver no mundo externo. Sentava na areia branca da praia ou da chácara e construía meus tantos castelos ou me enterrava na areia, por sentir que era rei de qualquer reinado ou que meu lugar era junto a borda do mar. O sal de minhas lágrimas me fazia rejuvenescer e eu crescia frívolo, longe da maldade ou da bondade, nas margens que me delimitavam. Era a minha covardia que estabelecia margens? Quando me percebi expansivo, nunca mais parei de aumentar de tamanho e aprendi lições dolorosas. Talvez os cronistas tenham a escrita preguiçosa e os poetas, cruzes, talvez os malditos banais possam escrever poemas. Pasme! O horror de formular poemas. Onde é que foi que nos perdemos antes de nos localizarmos assustadiços pela arte da literatura?

            O meu grande crime foi chorar alto no meu primeiro instante de vida. Quem sabe não chorava por antecipar que este mundo não vale a pena? Quem sabe não chorava por saber que eu me despediria incontáveis de vezes? Quiçá já soubesse e sentisse naquele milésimo de segundo a força de todos os meus revezes ainda não vividos. Tudo isso vai e continua muito rápido. Amores se despedaçam e amizades também. Os mais ausentes te jogam em uma fogueira porque você não esteve lá no momento exato, mas nunca se voltam para olhar a quantidade de momentos exatos em que eu os precisei e me notei sozinho. Durante os meus colapsos, eu tive dois anjos da guarda e o restante não se preocupou sequer em saber de mim. Tudo desmoronou, entretanto, na perspectiva narcisista de quem acredita que o mundo gira ao redor da própria barriga, somente os erros alheios são incluídos para contagem. Os erros próprios sequer são considerados erros. Cansado de fazer de mim o que não era, eu vesti minha jaqueta de couro e saí pelas ruas para caminhar.

            Dizem que as ruas são perigosas e que dois homens em uma moto irão te assaltar ou te matar. Se morri, não sei como lhes escrevo. Por duas vezes me deparei com duas motos nesta narrativa. Ergui os olhos, atento, não como quem esperava reagir, mas como quem aceitava que perderia os bens materiais ou a frágil vida. Que é que se pode fazer quando não há nada mais a fazer? Atravessei a rotatória, reto, como se fosse uma flecha perfurando um alvo e meus pensamentos prolixos giraram sozinho pelo círculo fixo. As luzes dos postes estavam em mim e assim eu era seguido de perto pela minha sombra. Isso, de uma forma bizarra, trazia-me segurança. Tinha o conforto de saber que pelo menos eu não havia perdido a minha sombra. Devaneei que o meu espectro pudesse cuidar a minha retaguarda e desta forma não mais precisaria temer os homens em motos. As frases que eu disse eram todas ridículas, bem como meus poemas e ainda assim, perdi o medo do ridículo me ridicularizando por completo. Continuei andando a esmo pela madrugada até o momento em que disparei numa corrida frenética. Parei só quando me senti ofegante e não havia água para tomar. Sorri, explorando-me, sem me concluir.

            Anteciparam-me errado, ainda que eu estivesse estático, silente e soturno. Os dedos em riste continuaram afrontosos, apontando-me com agressividade. Eu, aéreo, continuei flutuando, cinza, pesado, mas já havia chovido. Não havia mais o que dizer porque não havia meios de calar o que a minha língua-espada pronunciou. Ataquei sem medo de ser contra-atacado. Até onde percebo só tenho uma vida para viver e me apagar para que outros brilhem parece inútil. É pelos bons exemplos dos realmente valorosos que quero me erguer e lutar. A minha grande ignomínia é a paixão pela escrita, pois que me julguem um réprobo pelo resto da vida pelas tantas crônicas, romances e poemas. As minhas ficções são muito mais reais do que as mentiras de alguém que sustenta todos os próprios alicerces em boatos infundados e inúteis de quem fala e fala, de tanto não se bastar e insiste que as coisas estranhas e deturpadas sejam forçosamente verdadeiras. Por ser um réprobo, eu admito que não entendo até o que entendo. Como não sou adepto aos grandes disfarces, sobrevivo com o disfarce comum de ser precisamente quem eu sou. Por ser um réprobo, eu continuo a me explorar, mesmo quando sinto que estou realmente próximo de encontrar o rosto de minha alma. Por ser um inimigo dos olhos irritadiços e alheios, eu sorrio como quem adivinha que não vale a pena desistir da própria consciência para mergulhar na inconsciência, pois a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior e eu, tão ferro, tão vinho, percebi que podem me faltar os outros e a presença deles significará pouco, se eu não me faltar quando estiver sozinho.

            Anteciparam-me errado. O que sabem de mim é exatamente o que nunca souberam. Supuseram a consciência do panorama completo da situação, entretanto, estavam extremamente equivocados e não haviam tocado em nada real. Aconteço somente quando sinto a liberdade plena. O corpo descansa, a ferocidade se amansa e fecho os olhos em uma simples e complicada respiração serena. Tudo o que é gigante então se apequena. O que haviam vislumbrado em mim era só uma impressão fugaz e passageira, pois eu era muito mais, mas me recusava a me gastar mostrando a Beleza lapidada em Dor que me trouxe até aqui. Um ou outro, por muito pouco, terá o privilégio de ver a minha alma sorrir.