Você vai sentir esse peso

– Você vai sentir esse peso.

O conselho soava despropositado, tosco, fora de hora, longe do nexo, ainda assim, os ombros agora carregavam uma bagagem que não havia anteriormente. Por quê? Não sabia dizer. A gente é tudo aquilo que pode? A gente é aquilo que nunca mente?

– Que é esse peso? – Pergunto e me deparo com o silêncio em resposta. O conselheiro se foi.

Contrariado, ergo-me e bebo um copo de água gelada. Até nas noites o clima quente atrapalha. Se pudesse escolher, eu hoje tomaria uma garrafa de vinho tinto. Se eu pudesse me entender, beberia tudo sozinho. A gente é aquilo que nunca mente e o que pesa internamente antes do novo dia ter amanhecido? A sinceridade é o melhor caminho para não sair ferido?

A noite ainda é longa, porém, reconheço-me distante da excitante luz solar. Reconheço-me com estranheza, mas sigo inconsciente sobre a minha beleza. O brilho fraco das estrelas é a única coisa que me impede de (me) apagar. Venço o estado soporífero. Escuto vozes, velozes, pessoas correndo, fazendo barulho, frenesi louco, ebriedade costumeira, cruzam a madrugada, todos atravessam, arriscando-se, morrendo porque desejam viver. Se eu pudesse recuperar tudo aquilo que havia perdido. Se eu ainda tivesse as chaves para voltar para a orgia de meu sofrido mundo proibido. Se as coisas simplesmente não doessem como doem.

– Você vai sentir esse peso e conhecer essa dor.

A dor não se evita. Acendo uma vela e fito a chama acesa. Este momento é meu, embora nada mais me pertença. A luz bruxuleante queima a cera e toda a minha esperança ingênua se projeta na sombra. Não sei explicar, mas falta algo lúcido e próximo, possível e real, algo esquecido e deixado de lado pela prece de horas sombrias. Não posso ser o foco, entretanto, desejo ser a fogueira que queima através do tempo-espaço, o fogo que nunca apaga e que ilumina caminhos. Jogam-me água. Os que se importam logo desistem e os que apenas não ligam o suficiente se utilizam das situações. Sinto o peso de me sentir solitário em uma existência compartilhada por bilhões.

– Você vai sentir esse peso. Vive no mesmo mundo que eles. Carrega o inevitável fardo de compartilhar seus êxitos e revezes.

Penso nos outros que ousaram ter coragem em épocas mais sombrias e continuaram lançando-se em horizontes densos e escuros, engolidos por violentas tempestades, resistindo, sobrevivendo, minuto a minuto, entre a vida e a morte. Ansiando pelo futuro e contando apenas com a sorte. Sobreviviam pelo ofício, pela recompensa ou pelos que os esperavam? Penso nos que pensaram além de si mesmos, nestes raríssimos que deixaram o egoísmo de lado e se preocuparam primeiramente com a missão do que com os louvores individuais. Penso ainda que nenhum pensamento é único e a repetição é a única tendência infinita na existência, pelo menos enquanto existirmos. Vai desistir da sua vida como se ela não se importasse? Fortaleça-se!

– Você vai sentir esse peso e vai decidir. Chegará o momento em que vai entender se vai se erguer ou se vai sucumbir.

As dúvidas serão incontáveis, o conselheiro avisou, mas se a missão deve ser cumprida é porque talvez exista algo maior do que o próprio amor? Quiçá para uns, certamente não para outros. Silêncio do conselheiro compartilhado por aquele que foi aconselhado. Se existe algo maior, ele sente que deve descobrir e resgatar. Conclui descuidadamente com uma frase de efeito: aquele que sacrifica a felicidade individual para que o mergulho nos aprendizados seja intenso e lúcido o bastante será recompensado e nas profundezas de nossos próprios lagos, enfim, poderá achar suas próprias respostas, acaso não seja assim tão raso. Risca um S.O.S na areia e pensa em quantos pedidos de socorro foram feitos nos areais, céus e mares. Quantos pediram ajuda e morreram antes dos heróis chegarem?

– Você vai sentir esse peso, garoto.

Disse-me, entretanto, certamente sem notar que doze fios de cabelos grisalhos despontavam em minha cabeça. Sou contra comemorar novos aniversários para que eu nunca mais envelheça. A idade atual se esvai, assim como a chama da vela, sim, ela ainda queima e sobrevive diante de outra aurora, defronte a outra despedida. Regente da madrugada, príncipe de melhores horas, ele se levanta poderoso e aproveita o breve momento de reinar. Sabe que eventualmente vai padecer. Está cônscio da possibilidade de falhar. Dragão das manhãs, réprobo do crepúsculo, quase sempre me senti fora do lugar. Segui sentindo na pele todo o mundo que nunca me sentiu, notando e abraçando quem não faz questão de se importar. Sofro a angústia inevitável de ser quem eu fui e choro. Às vezes a comoção abarca o Universo e às vezes resumo a felicidade em um verso solitário que escrevo quando estou sozinho. Às vezes a vida o fustiga e o frustra. Às vezes é melhor continuar na busca. As fatalidades exteriores não existem? Qual é o verdadeiro sentido que nos guia?

Sinto o peso do que não vejo e ainda vive em mim. E sinto os desejos que tenho desde que nasci. E sinto o ensejo do caminho que escolhi. Eu vou carregar esse peso. Verei de perto situações degradantes, cafajestes, trastes, viciados e bajuladores. Superarei o medo e não vou me acovardar. Vou ver a maldição do mundo e me recordar dela em uma lembrança olfativa e adocicada que me causará ânsias de vômito. E vou observar o caótico cenário político e diversos documentários e crises e fins de mundo tão terríveis e chocantes quanto à continuidade da vida. A alma agora se embriaga, mas a essência antes perdida, parece-me, enfim, encontrada. Ninguém vive nesse mundo longe dos perigos. Podemos evitar e chamamos de inevitável. Desvios de rotas são imperdoáveis. Choro melhor quando choro sozinho.

Dirijo meu carro e os olhos marejados tornam as luzes de faróis parecidas com as estrelas. Ofereço um breve aceno tentando entretê-las. É uma metáfora literal, mas vejo a vida conforme atravesso uma nova porta. Alguém situado lá em cima me nota? Retorno-me ao ponto de não retorno, ignorando a placa da proibição. Cada olho enxerga uma realidade diferente. Há tantas realidades assim? O que você seria sem as pessoas que você conheceu? Eu perdi a minha pedra de signo e o meu dado de vinte faces. Nunca mais me encontrei. Nunca mais encontrei os objetos. Aguento o dia árido. Vou sobreviver hoje mesmo tendo sentido o peso. Vou entender que a minha felicidade depende do que faço de mim e, assim, farei algo. O protagonismo, a vela, o fogo, a vida, o jogo, o que sufoca e o que nos torna leves, as responsabilidades e quem decidimos ser, o gosto podre de fracasso, a inebriante sensação de vencer. Muss es sein? Es muß sein! Tomas não tinha certeza. Quanta certeza cada indivíduo pode ter? As mortes de todos os antecessores e parentes queridos, as vidas inúteis de tanta gente que se machuca sem nunca ter merecido, as traições, as angústias, eu quero carregar esse peso. O inferno, a luxúria, a oportunidade não é menos do que o que vejo. Perito em enfrentar os problemas, eu me ergui fora de lugar. Não existe moldura qual eu possa me encaixar?

E o cansaço de alma que me persegue avisa que espera por uma chance de me sobrepujar e me vencer. Sinto-me triste, exausto, cansado e indefeso. Ainda assim, eu vou me levantar e lutar. Eu decidi carregar esse peso.

E o conselheiro sorriu com sinceridade em resposta. Sussurrou sua confissão:
– Essa sempre foi a minha aposta. Confia no teu coração.

E as luzes piscam para àqueles que sempre estão com os olhos acesos nas janelas amarelas das cidades. Não importa a carga, ele quer carregar o peso. Essa é a sua única verdade.

Se a vida fosse fácil assim…

A madrugada se inicia e tudo parece meio estremecido quando eu repouso meus olhos no teclado. Observo minhas mãos, meus dedos, minhas marcas. Derramei quase dois litros de água fervendo na mão direita; quebraram o meu polegar da mesma mão no portão do colégio na infância; oito anos atrás, um espelho desabou em mim e quando pulei para trás, uma lasca pontiaguda fez um corte profundo no meu dedinho da mesma mão direita. É impressionante que nada de grave tenha acontecido com a minha destra, pois todos os castigos parecem direcionados. Fito-a como se ela fosse mais interessante do que é e penso nas ciganas espalhadas por aí que leem o futuro das pessoas apenas olhando as linhas das mãos. O que será que elas diriam de minhas linhas e do que me reservam os próximos anos?

Não é muito ortodoxo isso de arrependimento e menos ainda o arrependimento pelo que a maioria consideraria banal. Fui abordado na praia e não paguei R$ 10,00 para que lessem meu futuro. Quantas vezes não gastei mais dinheiro com coisas menos importantes que isso? Quanto poderia me antecipar ao que vivi acaso tivesse investido esse valor na previsão?

Os bons hábitos e as boas atitudes são geralmente recompensados. É certo que uma ação ruim gera inúmeras consequências e o efeito dominó pode ser terrível e assustador. A ação boa pode se encerrar nela mesma, mas fica a certeza que dela não pode nascer o mal legítimo. Ainda assim, eu às vezes me sinto tomado por indecisões. Ilusões antigas de poderes que nunca terei me atormentam. Qualidades honestas e não valorizadas nos estremecem na sequência do caminho do bem.

Se a vida fosse fácil assim…

Os ombros pesam com uma dor abrupta e violenta na madrugada que transforma um sábado outra vez em domingo. Quem saberá se um dia um sábado virou outra coisa? A força invisível e medonha se avulta pelas minhas costas. O ritmo da vida oscila, a melodia do tempo continua tocando e, perco-me. Se eu não sei o caminho, bem, qualquer estrada revela um novo começo, certo? Ainda que eu esteja sozinho, isso não quer dizer que caminhar sozinho nos faça estar em um deserto.

Creio em coisas pueris e sinto o peso do meu coração juvenil nas minhas decisões. Ter convicção é coisa para os malucos e ter coragem é coisa para os insanos. A sina pela qual geralmente responsabilizamos o destino é apenas um reflexo das maiores ideias, enfim, buscadas. Esperança é para os intrépidos que arriscam tudo, ainda que possam ficar sem nada.

Acendo-me na escuridão. Percebi-me apavorado na ausência de luz e não havia lâmpada que me resgatasse do breu absoluto. Todo grito chegava até mim como um sussurro fraco, semimorto. Toda voz era inaudível. Toda tentativa de resgate era vã, ninguém nunca me achava. No momento qual notei que ninguém poderia ser a luz que eu tanto procurava, eu brilhei e iluminei meu próprio caminho. Eu podia fazer mais do que supunha sozinho, ainda que a luz própria tenha sua verdadeira essência transmitida em auxiliar outras almas.

Enfrento a covardia, pois já fui covarde. Enfrento o medo, pois já fui medroso. Espalho mensagens de coragem porque o mundo é suficientemente venenoso. E necessito da minha solidão para me recuperar. Há quem se mergulhe tanto nas distrações que se perca do seu próprio lugar. Sinto-me livre daquele velho cansaço de alma e não sei dizer o que me incomoda tanto. Seria o clima quente ou como se apresenta de repente o pranto.

Se a vida fosse fácil assim…

A vida poderia ser mais fácil, os patrões poderiam pagar melhores salários aos empregados e os trabalhos poderiam ser mais tranquilos. Eu poderia acordar todos os dias como nos domingos desempregados e assistir aos jogos da Premier League e depois emendar na sequência os jogos do Brasileirão. A vida poderia ser mais fácil e eu poderia ter um computador que me permitisse ter um pouquinho de qualidade ao jogar meus poucos jogos e aqui, repito-me, a vida poderia ser mais fácil, eu não sou muito exigente, mas meu computador parece prestes a explodir.

Sinto-me superaquecido muitas vezes, assim, penso que posso imitar a máquina e desligar de repente. Certamente eu sentiria muita falta do meu computador, ainda que hoje ele só me facilite a vida por detalhes. Se, assim como o meu computador, eu pifasse, quantos sentiriam falta dos meus detalhes? Sinto falta das minhas manias mais absurdas e diminuí tanto a cafeína que quase não me reconheço. Há uma vida que valha a recompensa de não se viver como quer? Algo causa irritação. Inquieto-me. Que é que há? Alguém tenta me enganar.

Se a vida fosse fácil assim…

Se a vida fosse fácil talvez todos fossem honestos e independentes e eu não me sentisse tão preso ao que há e às promessas do que ainda haverá. O que é que acontece comigo que me pego no início de domingo pensando no que deveria acontecer para que a minha vida fosse mais fácil? Eu sei, entretanto, o número dos que vivem uma vida mais difícil é tanto incalculável quanto impossível. Que é que há comigo então? O que explica a minha sensibilidade tão insensível?

Desafogo-me das ocupações. É domingo. É preciso entender o tipo de dia, mas a semana soa estranha antes mesmo de ter se iniciado. Fito o caos do Universo pela janela fechada do meu quarto. Tudo ocorre distraidamente, imperceptivelmente, longe do terreno dos cálculos e ainda assim nos desdobramos para calcular. Temos um desejo insistente e ferrenho em gastar tempo com inutilidades, assim, tentamos calcular o amor, tentamos testar o valor das nossas amizades, tentamos antecipar os fins e inícios, tentamos protelar o inadiável e adiantar o que sabemos impossível trazer antes. Desafogo-me de novo, mas desta vez sinto a brisa fresca que me traz vida, a recuperação do fôlego, a necessidade da respiração, os pulmões funcionando e o peito arfando com a expectativa de sobrevivência. A consciência é a de que precisamos nos treinar, esforçarmo-nos em aprender a deixar partir tudo o que tememos perder. O único jeito de ter uma boa vida é formando uma convicção, uma firmeza férrea no autoaprendizado sobre a morte e sobre as coisas frágeis. Quando nos lembramos de que a vida pode ser apenas um sonho que se acaba, o que deixamos para trás?

Se a vida fosse fácil ninguém morreria. Estar cônscio de que um dia deixaremos este mundo para novas jornadas é um jeito não tão prático de admitir que talvez uma jornada só não seja o bastante. Quando terminarmos aqui estaremos felizes e satisfeitos? Se a vida fosse fácil todas as conclusões seriam lógicas. Demore-se um instante em observar o mundo. Analise se o conceito de que “todo ricaço é feliz“. Realmente corresponde com o reflexo da sociedade em que vivemos? Compramos os melhores sapatos para evitar o barro, não gostamos na sensação de pisar na lama, mas fingir que a lama não existe é algo mais fácil ou difícil do que aceitá-la e passar por cima dela, calçado ou não?

O mundo gira e eu giro também. Penso em coisas quais muitas pessoas alimentam o desdém. O Universo repara na nossa existência ou todos vivemos randomicamente e insignificantes? Mudamos em essência ou somos sempre os mesmos que fomos antes? Os dragões foram reais um dia ou são apenas metáforas? Eles cheiram a alecrim e manjericão? Eles carbonizam e esfumaçam tudo ou são apenas um vislumbre rápido e mágico de alegria? São sombras gigantes e verdadeiras ou só a personificação de um dos maiores mitos manifestados das nossas fantasias?

Vou distante ou voo distante e, sinto-me livre. Meus pensamentos podem se dispersar sem qualquer compromisso com a realidade. Vago para campos verdes e cachoeiras e montanhas nevadas e lugares quais nunca vi. Sinto o peso de uma espada e o fio de sua lâmina. Poderia lutar agora, se a luta fizesse sentido, mas certamente não faz. Se as pessoas se amassem mais, fossem mais diretas, menos abjetas, mais constantes, menos briguentas, mais empáticas, se os patrões pagassem melhor e se preocupassem com os funcionários, se não enfiássemos tantas distrações no meio das coisas importantes, se olhássemos para os planetas e para as estrelas e para a lua, se não nos esquecêssemos do nome das pessoas e nem detalhes das ruas, se cuidássemos das coisas frágeis, se prestássemos a atenção nas cores e nos animais, se dançássemos conforme o caos da desordem sem nexo, se não nos comportássemos como bichos selvagens em relação ao sexo, se observássemos mais a forma que o conteúdo, se não usássemos o pretexto divino e o próprio Deus como escudos, se encarássemos um dia por vez, se não fôssemos tão obcecados em falar inglês, se tudo o que fizemos errados pudesse ser refeito pelo menos uma vez.

Se a vida fosse fácil assim…

Sem título

Eu não sinto até que me machuque de vez em quando, ei, por favor, machuque-me esta noite, não, eu não quero que essa seja uma canção que se encerra no refrão ou antes mesmo disso, eu quero que possamos ser escutados através do tempo-espaço infinito, eu vou voltar para assombrar seus pesadelos quando você estiver longe de alcançar os sonhos meus e, eu vou sorrir enquanto te observo à luz daquele antigo segredo e a vejo cair nas contradições das promessas que nunca prometeu, mas disse sem dizer e a comunicação tácita também firma compromissos, eu te observo daqui, velha amiga, companheira, companheiro, veja, eu vejo que palavra é essa tão bonita, eu escuto a voz que começa mansa e termina viperina na madrugada abafada, o meu grito se abafa e tudo se esquenta, mas minha alma nunca pareceu tão gelada e, rogo, baixinho, para que me entenda quando eu falar e, discreto, movo um objeto e mudo de lugar o sofá. Sento-me então como se a posição da poltrona fizesse a diferença neste deserto ermo qual vivo e sobrevivo e aguardo na resposta certa a calma de que tanto preciso. Abismo. Quando você encara a imensidão do abismo, a imensidão do abismo te encara de volta. Tento não me inflamar pelas reações erradas, você vê, você pensa que eu penso muitos nos livros e eu penso que é melhor do que pensar na TV, mas achamos tantas coisas dos outros que acabamos com o melhor tipo de particularidade que existe na solidão da existência contínua, forçamo-nos ao poema e ao encaixe falso de uma rima e, alguém por aí ri de mim nesta madrugada sem fim e eu me sinto plácido, distancie-se de mim nestas horas escuras, meu paladar talvez esteja ácido e um cuspe seria capaz de corroer a pele mais dura, eu digo e repito, distancie-se de mim em minhas horas mais escuras, pois o verdadeiro bom é aquele que sabe a potencialidade que possui para fazer o mal e o nega, é aquele que nunca turva visão e nunca se cega, ainda que o mundo real como se apresenta nos remova toda motivação de sermos quem somos e de querer seguir em frente, não com rara frequência, a vida é cansativa e tudo o que a gente precisa às vezes é um pouco mais de paciência. Ei, seu tolo, você pode correr, mas não pode escapar e nem pode se salvar, é que todo mundo é vítima do amor e do ódio e da dor e da tristeza e mesmo os mais pomposos se ajoelham, sim, querida, eu vi sua bela face narcisa se ajoelhar em face de uma figura patética e mirrada apenas pelo amor puro, mas você tão cheia de si e repleta de beleza, veja, você estava de joelhos e de quatro por alguém quase invisível, eu sei, é complicado, nós chamamos um pouco da atenção pra nós, nós amamos melhores quando estamos sós e há uma mania que persiste em anular a própria personalidade em prol de alguém, não tremo, diante da dor subitamente me pego sereno, distante eu a vejo, de longe eu aceno e a dor dói e algumas coisas só são sentidas no estado mais sublime do Feliz ou do Triste e ignorei todas minhas notas pessoais e foquei em tudo o que existe. Eu, em mim, por mim, tentando escancarar minhas covardias e viver uma vida de coragem, tentando me embrenhar na mata só para provar meu instinto selvagem e me ver sangrando como alguém que também é capaz de fazer sangrar, de estar cônscio do momento certo ou errado de me afastar e ser proibido de tomar café, pois a audição de repente corre risco e a taxa de cafeína no sangue zera, mas nunca para esse maldito chuvisco e me arrisco de novo, bebo o cafezinho, pois talvez a vida só valha a pena se for assim. Insisto no que me faz, ainda que sutilmente, a continuar, viver feliz assim.

E me importo com todos
e quase ninguém se importa comigo.

Devo ter uma estrela no lugar do coração
e todo meu brilho deve ter sido engolido.

E me importo com todos
até nos dias de nuvens cinzentas.

E se projeta o meu corpo como escudo
de tudo o que considero uma atitude violenta.

E me importo com todos
Consciente de que isso não é saudável.

E sigo em frente, inconsequente,
Ainda que cada dia menos afável.

No próximo poente tão quente
Talvez o cenário seja mais favorável.

E me importo com todos,
mesmo que ninguém se importe comigo
ou com minhas estúpidas raízes.

É a sina de quem é feito de fogo
Ser esquecido e sobreviver
repleto de cicatrizes.

E eu tentei avisar que não é preciso esperar até os setenta anos para nos tornarmos sábios. E tentei avisar que a vida é agora e que não vale a pena apostarmos no que é claramente plágio. Ágil, eu acenei indicando a minha despedida. Fracasso, mas me pertenço e faço o que faço com a minha cabeça erguida.

Go then. There are other worlds than these.

E o meu coração hoje feliz segue sempre por um triz.
E a minha alma dança inspirada.
E o meu coração hoje feliz segue por um triz.
E a minha essência engrandece calada.
E o meu coração hoje feliz segue.
E eu que não sei dançar danço.
E o meu coração hoje é feliz.
E feliz eu finalmente canto.

Por mim.

E pelos outros.

Nunca meu tanto poderá ser tão pouco.

Com carinho e amor,

Daniel Rosa Possari.

O café da madrugada

Aproxima-se no seu próprio ritmo
Sabe que está tudo bem assim
Pega a xícara e sorve um gole de café
Primeiro é noite e ele está sozinho
Na manhã seguinte ele continua sozinho
Na terceira noite chove muito forte
e ele sente uma imensa vontade de chorar
Bebe lentamente o seu café e não se esquece de o apreciar
É a primeira vez que odeia um feriado prolongado
Será que ele sempre esteve isolado assim
solitário na existência obrigatória e inútil dos dias?
Será que em sua vida inteira fez morada na fragilidade
escancarada de um castelo de cartas?
Será que sua miopia dos olhos era acompanhada
por uma espécie de cegueira total dos sentidos?
Será que a cafeína é sua única aliada?
Os pensamentos sombrios o atraem e depois o traem
A insegurança o domina e ele reconhece que
talvez apenas dessa vez fosse adequado,
Que palavra maldita, imunda e trágica, mas
talvez fosse adequado dividir o apartamento
Ali ele ganha dinheiro, mas não há ninguém
Quase não há com o que gastar o dinheiro também
Os idiotas todos dirão que ele poderá guardar
Dirão que poderá atravessar a fronteira quando quiser
Ele ri, pois sabe identificar um idiota de longe
Há coisas simplesmente inalcançáveis e
ele faz flexões incansavelmente até que se canse
Depois de mil flexões ele então bebe suco de limão
Não qualquer suco de limão, mas aquele mais caro
da prateleira alta no mercado e que quase
anuncia sua exclusividade para os que são ricos
Ele não se sente afortunado, pelo contrário,
Uma sombra cresce de maneira irrefreável
mesmo quando não há luz para que ela se propague
Há coisas simplesmente inalcançáveis, ele repete,
Concentrado agora deseja que sua alma se expanda
E assombre a noite dos miseráveis que estão
espalhados por aí bebendo, fodendo e se divertindo
Todos estão entregues e não se importam
Entregam seus corpos por pura distração
Seguem um desejo viciado e compulsivo e alheio
Pessoas encaradas como oportunidades e
uma espécie de conforto no conformismo
Na reflexão irrefletida do toque, do beijo, do sexo
Um no outro e outro no um e tudo isso
para inebriar o pesadelo que representa a solidão
A solidão é a única opção daquele homem naquela madrugada
Ele nem tem a chance de ser compulsivo ou impulsivo
Ele nem tem a chance de ser irrefletido ou irresponsável
E se tivesse será que trairia a si mesmo por reflexo?
É tarde da madrugada e ele segue absolutamente sozinho
Olha para as chaves do carro e está consciente
Não há nada para ele nas ruas alagadas e esburacadas
Aproxima-se da chave, segura-a, é o seu carro
O carro que comprou com o esforço do seu trabalho e dinheiro
Aqui, enfim, ele vê o sentido real do dinheiro como coisa certa interna
No restante do tempo são apenas cédulas, papéis impressos, o que se gasta
pelo consenso secular e tácito de que deveríamos estipular valores
Ninguém está errado e ninguém está certo,
Ele sabe que a solidão é a verdadeira mestra e assim como na escola
os únicos bons alunos são os que possuem a disposição de ouvir o professor
Ele nunca foi dos melhores alunos, porém escuta
Absorve lições no silêncio externo que extenua
o concerto desorganizado e barulhento que internaliza
Ele não se observa nos espelhos do apartamento, mas se nota
A profusão de suas comoções se extingue
Agora todos os caminhos o levam para um
Seu carro, seu apartamento, seu café, sua solidão
Vedado, cego, está enclausurado no fundo do poço
Ele segura o segredo ancestral do Universo
Ainda que em idade seja apenas mais um moço
Há dois grupos de pessoas que existem
Os que estão acordados e vivos e felizes
E os que estão dormindo com ou sem sonhos
Ele não pertence a grupos e não é lembrado
Está acordado em um ponto onde a realidade oscila
Não alterna, é ele mesmo, continua esquecido, sofre,
É caro, ele repete, mas paga o preço, até quando?
É caro, ele insiste e diz de novo,
Até quando resisto e faço com as
circunstâncias meu próprio jogo?
De repente nas profundezas do âmago
ele sente algo estranho e profundo e se divide
A alma é tão expansiva que pode ser fragmentada,
embora seja de conhecimento geral que isso não é saudável
Ele chove junto com a chuva e olha para a sacada
Nada na cidade se move, exceto a água
Ele não escuta nem a própria respiração
Indaga-se subitamente se morreu e acorda em um susto
mesmo reconhecendo que nunca tivesse dormido
Um raio cai e ele não recua nem mesmo um milímetro
Sempre teve admiração e medo de raios
Será que está mesmo vivo?
Subitamente senta de pernas cruzadas
Em seguida se levanta e vai preparar mais café
Sabe que precisa adotar um gato ou vai morrer
Entende que um dia deve morrer, mas espera morrer velho
Sabe que o cão sente a sua falta e o sentimento é recíproco
Possui o coração justo e não trouxe o amigo na mudança
Ele precisa de muita atenção para viver feliz e o homem
jamais teria mais de duas horas por dia para dividir com o bicho
Ele está mais feliz lá longe na outra cidade
Os homens podem se acostumar com a infelicidade
O rapaz trabalhador é miserável em todos os aspectos
O amor também se foi outrora e ele não acredita em distrações
Provavelmente mandaria embora uma bela mulher
ainda que ela batesse desesperada em sua porta clamando por sexo
Gargalha subitamente como um maníaco e pensa sobre absurdos
Isso nunca acontece e nem nunca vai acontecer
Está cronologicamente equivocado
Vai acontecer por meados de janeiro
No futuro alguém vai pegar um ônibus
para passar o final de semana com ele
Vai entregar tudo, mas esperando algo em troca
Ele avisou antes que não barganha sentimentos
Vá embora, eu não posso te dar o que você quer
A frase dura será dita, ele é compelido a ser sincero,
O futuro nem existe ainda e ele ri
Isso nunca acontece e nem vai acontecer,
mas acontecerá mais de uma vez
Ele estava preparado para a eternidade
Vai até a sacada e grita e xinga alto
Talvez nunca mais possa falar com uma mulher
Tampouco acredita que possa amá-las,
ainda que saiba que está disposto a ser honesto
Ninguém é sincero, mas ele seguirá assim
O homem que matou o charme
Sabe que é desajeitado, confuso e não entende nada de flerte
Essas coisas se aprendem?
Não acredita muito em aprendizado
Crê que pessoas possam aprender idiomas,
mas não crê que pessoas possam se aprimorar
Podem? Não, isso não é sobre outras pessoas
É apenas sobre ele mesmo que agora senta no sofá
Quantas malditas horas cabem em apenas uma madrugada?
Outra noite de solidão profunda e vazio existencial
ou será que ainda é a mesma?
Não interessa realmente quando não há aliados
Ele quer se sentir dono de si,
Quer se ver no controle da vida ao menos uma vez,
mas reconhece que talvez ninguém seja dono
de absolutamente porra nenhuma
E se soubesse o que quer o que saberia?
Abre uma lata de cerveja, bebe tudo de uma vez,
Amassa a lata e a coloca no lixo reciclável
Talvez tudo seja inútil, mas é melhor separar o lixo
Separa então o lixo como quem separa a si mesmo
Recorda-se por um instante de um bar e de gente
Recorda-se de sorrisos e de uma mulher tão concentrada
no próprio celular que parecia forçar a invisibilidade na vida
Ela falha como todo mundo costuma falhar, pois meses depois
na solidão daquele apartamento um homem revive a memória
E lembra dos olhos tão vidrados na tela
Ele anda pelo apartamento e paga as contas em dia
É uma delícia morar sozinho
É um pesadelo morar sozinho
Esquenta a água e cozinha cinco ovos
Come os cinco ovos, bebe mais uma cerveja
e tenta se lembrar se já praticou exercícios físicos hoje
Não está se sentindo disposto para ler
Pega o celular e pensa em enviar mensagens
É quando se recorda de que ninguém liga se está vivo ou morto
O importante é que está ganhando dinheiro
Ele se conforta com o pensamento dos outros
Como são estúpidos os raciocínios dos que nem se conhecem
e ainda acreditam que possam aconselhar sobre a vida alheia
Presunção, arrogância, intolerância de gente que se odeia
e às vezes nem percebe, pois há quantias suficientes
para comprar uma distração um pouco mais duradoura
O homem ri, mas sem achar graça
Faltam os outros, mas não falta ele mesmo
Está se descobrindo mais e mais
De repente um desejo cresce
inesperado e repentino
Decide bater uma punheta
Leva seu próprio tempo nisso
Só quem se masturba decide
fazer as coisas de modo rápido ou demorado
Se alguém batesse em sua porta ele não abriria
Está pelado e confuso
Não sabe em que momento tirou suas roupas
Lava as mãos e fita seu rosto cansado no espelho do banheiro
O seu corpo é bonito e conseguiria alguma atenção se o utilizasse
Nunca enviou fotos pelado e nunca as recebeu
Nem tenta se convencer de que isso é vulgar porque não o é
As fotos podem significar tantas coisas, mas raramente vulgaridade
Ele não deixa sua falta de oportunidade viciar uma impressão
de uma vida que nunca teve apenas porque não pôde ter
Nunca enviaria fotos pelado, pelo menos nunca de maneira repentina,
porém por algum instinto ancestral crê que algum dia irá receber
E a mulher então lhe dirá
Me desculpe, eu mandei essa foto por engano,
não conte para ninguém, por favor
”,
E ele não contará, mas se lembrará da foto
O homem ri novamente e já parece embriagado, mas não está
A lucidez que acompanha a sua sobriedade é um castigo
Nem todas as coisas são para todo mundo
Nem tudo que existe está disponível para todas as pessoas
Há os vaidosos e inteligentes e eles também se ajoelham
Odeiam ter que admitir, mas são escravos à sua própria maneira
Há os que erram e se desculpam, há os que erram e não se desculpam
e até os imbecis idólatras de espelhos que só sabem venerar o reflexo
Narcisistas empoderados, grosseiros e insuficientes 
Há toda a vida e toda a esperança
Há desesperança pura e caos
Há quem tenha sido esquecido em vida e lembrado em morte
Há tristeza profunda e duradoura, felicidade fugaz e sorte
Há os que fazem o que querem com quem querem
Há os que fingem a indolência e permitem
que os outros façam o que bem entenderem
Aceitam o papel de utilidade em uma espécie de resignação
crendo que na vida é melhor ter uma função do que nenhuma
Aceitam os trocados, não importa o valor metafórico pago,
Estão escancarados à venda ou para serem levados de graça
Não ficaram sozinhos o bastante e não se perceberam
Não possuem senso de valor individual e acreditam
que o amor e a felicidade que possuem seja
diretamente condicionado ao que merecem
Eles não fazem ideia do que merecem
O homem solitário se divide outra vez e se perde em suas partes
Um resquício de empatia o impele a explicar sobre o amor
que todos realmente merecem
Uma réstia de empáfia faz com que uma frase flutue
“Que se fodam os outros. Os outros não importam”
Ele quebra seus pedaços em pedaços menores
Talvez na manhã seguinte, se é que haverá manhã seguinte
ele tome xícaras de café forte e recolha seus próprios cacos
O amanhã não interessa por ora
Ele bebe mais duas cervejas e se indaga sobre capacidades
Às vezes o sexo será lento e seguirá uma rota sutil
É preciso saber exatamente o que fazer
Às vezes será agressivo, forte, animalesco
Uma vez se perguntará o que está fazendo ali
e se interromperá propositadamente no meio do ato
porque não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo
Há vitórias com gosto de fracasso
E há fracassos não tão amargos assim
Todo ser humano é capaz de ser fenomenal e patético
Ele já havia cumprido ambas as funções antes e cumpriria depois
Veja, ele tenta observar a parte externa de outra maneira
Troca a vista da sacada pela janela
e uma janela por outra janela
Faz isso como quem quer se convencer
de que a vida inteira muda se a perspectiva é distinta
O amor é medido sem medidas e ainda
é descartado quando sua utilidade se encerra?
Sonho febril e primaveril de infinitos
que sobrevivem aos anos e guerras
Não há insetos nessa noite de chuva
Talvez a aranha que mora em um canto esquecido
ainda esteja lá esperando pelos insetos também
Talvez estivesse fazendo companhia desde o começo
Talvez a solidão fosse apenas sua ilusão
Tudo é ilusório?
Ainda não se encontrou com os Fundadores
A chuva continua chovendo
Ele pega a caderneta e lê alguns versos horrorosos
O único consolo é de que realmente foram escritos por ele
Agora escreve uma frase que não lhe diz coisa alguma e a lê
Com que verdade falo sobre mim se nem me escuto?
Irrita-se com a confusão e prolixidade de seu raciocínio
Quem é você agora enquanto a vida explode mundo afora?
Equiparam-se aos réprobos estes solitários das madrugadas
que só podem ser um, mas são simultaneamente vários

Pergunta-se sobre quem ele é e responde sem hesitar
Alguém com dinheiro e que pode tomar o suco de limão caro
A raiva cresce irrefreável, o instinto de violência se amplia
Se tudo fosse vão e sem sentido,
se não houvesse continuação após essa vida e tudo fosse
simplesmente simples e frívolo e irrelevante
você acha que agiria diferente?
Você não é diferente
Escreve no papel para tentar se convencer e falha
Sente-se completamente diferente 
Como não seria diferente se ele lida com a solidão
enquanto os outros optam pela distração?
Todo mundo se arrepende posteriormente
de tanta coisa que disse ou fez
Ele se pergunta se algum dia chegará a sua vez
Acende um incenso e liga uma música para meditar
Bebe mais uma cerveja e se sente zonzo
A meditação definitivamente está funcionando,
ainda que a chuva atrapalhe com seus ruídos essa música
que nunca mais vai parar de tocar
Percebe em seguida que é a música que atrapalha a chuva
Desliga a música, mas sente que ela continuará tocando
Aquele instante lúcido e nauseabundo parece eterno
Reflete sobre a música que atrapalhou a chuva
Outra vez inverte perspectivas e assume hipóteses
Tenta entender os outros que se parecem com ele, mas não o são
Vai até a geladeira e come metade de uma barra de chocolate
Encontra a sua verdade nos cafés e nos chocolates
Repara no beiral da janela, ainda sem insetos
As gotículas de água, porém, insistem em invadir pela janela
Na insistência ganham, mas é uma vitória quase insignificante
O homem joga um pano no chão perto da janela e controla a situação
Abre a despensa e olha para o que comprou com desinteresse
Antes de abrir o armário sabia que não queria nada
Ainda assim decidiu abrir aquelas minúsculas portas
Escapa-lhe o sentido da inutilidade do próprio gesto
que por antecipação sabia ser completamente inútil
Não é incoerente com suas crenças
Não procura desculpas para quem é
Não inventa dramas para sua dor, embora
sua dor seja uma epopeia dramática e sufocante
Desejarão amá-lo, mas dificilmente o alcançarão
Talvez seja ele a escolher quem pode cuidar do seu coração
Não é um homem fácil, mas é mais fácil que os outros
Entrega na coerência e na sinceridade sua alma
todos os dias no mesmo horário, no lusco-fusco,
Às vezes sua expansividade o torna brusco, mas
ele só reza para os santos em que realmente acredita
E só prega na geladeira regras e sugestões
que sabe ter a capacidade de cumprir
Franze o cenho e range os dentes para os que se repetem
O arrependimento deles é geralmente falso
e assim forçam os erros que tanto cometem
Entra em um frenesi na madrugada e se sente quente
A noite lá fora é gelada e instantes antes seus dedos doíam
Pensa em soluções, mas há quem não queira solucionar coisa alguma
Todos entram na mesma mira
Ninguém comete o mesmo erro de maneira mais leve
por conta de uma intimidade maior ou de um lanço sanguíneo
Avalia seu próprio extremismo e pensa se é realmente extremo
Respira fundo e recupera um ar mais calmo e sereno
Bebe uma cerveja e sente um arrepio que acompanha o temor
Odiará os hipócritas até o dia em que se tornará um
Se tornará um? Ele chora, pois parece inevitável
Nunca conheceu alguém que não fosse hipócrita,
mas pelo menos não fará parte dos que são assim no cotidiano
Ninguém sente seu drama e ninguém o entende
Ele se expurga passando por todos os processos
Nunca pega atalhos e nunca evita a dor
Se sente machucado e sozinho na madrugada
sabe que precisa sobreviver o quanto for
Talvez amanhã tenha alguma companhia,
Talvez amanhã respondam suas mensagens ou
ele mesmo resolva conversar com quem optou ignorar
Ele respira fundo e ergue a voz para dizer
“Eu sei que vou conseguir”
Há milhões de coisas que passam por sua mente
A luta livre armada, o futebol, os animes,
Os hobbits, anões, elfos e os filmes Ghibli,
As dezenas e centenas de filmes e mangás,
As pessoas, os lugares, os bares
A Nova Zelândia, os japoneses e o Japão
Será que um dia começará a fazer aulas?
Será que se comunicará e viajará?
Será que poderia ser professor, escritor ou filologista?
Será que com tantos ímpetos de heroísmo
pudesse se converter em um vigarista?
Ele pensa em mais coisas que não pensam nele
Os insetos que hoje não tentaram invadir o apartamento
talvez voltem amanhã
O filho não sabe se quer ter, mas sabe que seria
o pai mais espetacular de todos os tempos
Não opina sobre sua vontade de nascer neste mundo odioso
Repleto de desgraças e desigualdades e com vislumbres,
Apenas vislumbres de uma alegria duradoura
Ele sabe que a tristeza se ajeita em qualquer lar,
mas a felicidade requer muitos pressupostos
Mas ele leria histórias para sua criança dormir bem
E ensinaria que os filósofos todos parecem prolixos,
mas que possuem lições importantes a ensinar
E que ele não pode e nem deve ignorá-los,
Mesmo os que são entediantes no Ensino Fundamental
Ele desliga a cafeteira e vai até o quarto
Liga um filme para ninguém assistir
Conta para todo mundo que perdeu o medo do escuro,
mas sempre dorme com a televisão ligada
E daí?
Cambada de filhos da puta
Murmura, mesmo sem se entender
O café da madrugada acabou e a cerveja também
Ele olha para a sacada e depois analisa
o espaço do apartamento
Reconhece que poderia ter pelo menos três gatos
Há muito espaço para ser sozinho
Ele é expansivo, mas confia no que dizem sobre os gatos
Eles gostam do próprio espaço
O próprio homem se sente um pouco felino
Precisa adotar um gato ou vai morrer nas rodovias
Olha para a cama de casal e sabe que terá que dormir sozinho
E dormirá se juntando ao grupo dos que estão dormindo,
pois não pode se distrair
Será que em sonhos terá a paz que merece?
Reza para que outra vez volte a ter companhia, mas
roga para que seja alguém que lhe dê espaço
Não é um dragão personificado, mas não divide seus hábitos
Espirra e lava o nariz e olha para a cama de novo
A oração foi em vão porque ele não acredita em Deus
Acredita em camas de casal para solteiros e na solidão
Acredita em atalhos, fugas e distrações
Acredita no chocolate, na cerveja e no café
Acredita ser capaz de não se contradizer e
de não tornar mentiras óbvias sua própria religião
Acredita nas batidas do próprio coração
Sente-se solitário, mas ao mesmo tempo bem
Isso de querer ser exatamente o que se é
Ainda vai o levar além
Ele não faz ideia do quanto vai sofrer
e tampouco desconfia do quanto vai evoluir
Derruba seu corpo no sofá e se esquece da TV
até que, enfim, consegue dormir
Quando acorda de manhã com uma
leve dor de cabeça sabe que tudo ficará bem
Segue no seu próprio ritmo até a cafeteira
Pega a xícara e sorve um gole de café.

Madrugada Antiga

Sofrimentos que cegam
Sentimentos que chegam de longe
Insisto na minha entrega
Você insiste em se manter distante

Fingiu para continuar
Continuei supondo que tu parasse de fingir
Você zomba, pois sabe que eu vou voltar
Acha que nunca irei partir

E me vitupera
Como frágil flor de primavera
É aí que erra
Não sou mais quem eu era

Eu avisei naquele silêncio
ensurdecedor da última madrugada
Se um dia eu me for
Não espere que eu volte para casa

Qualquer madrugada

Vou até a cozinha. É meio da madrugada, não consultei o relógio, mas quase sempre acordo por volta de 3h30. Uma recordação distante me fala que essa é a hora dos demônios, mas sacudo minha cabeça tentando me lembrar se isso é mesmo o que parecia ser. Talvez também tenham me dito que é a hora dos anjos, mas dou de ombros. Abro a porta da geladeira e meus olhos, ainda remelentos e marcados pelo sono interrompido, buscam algo que eu sinta vontade de comer. Não tenho fome. Comer agora, porém, é um reflexo da minha ansiedade. Não preciso acordar tão cedo, mas sei que vou. Balanço a caixa de leite e consigo ter a certeza de que o leite está prestes a acabar, eu sei, não rende nem um copo cheio, assim, bebo o restante direto da caixa, como os abandonados costumam fazer em filmes americanos. Pego um pedaço de chocolate. O leite gelado refrescou a minha garganta, mas quero o doce mais amargo para me sentir centrado outra vez.

Vou até a sala, sento no sofá e estico o meu braço direito o suficiente para alcançar um livro alaranjado na mesa redonda. Sei, antes de saber, que estou com Leminski nas mãos e sorrio. Recito por brincadeira cinco ou seis poesias quais sei do escritor curitibano, sem abrir o livro e me pergunto sobre o que faço da minha vida nessas perdidas horas da madrugada. A minha gata preta me observa, preguiçosa, pouco se mexe, mas seus olhos amarelados estão fixos nos meus castanhos. Ela parece séria. Eu fico sério em seguida. Meu cachorro dorme perto dos meus pés e sou cauteloso para não despertá-lo. Abro alguns sites na internet pelo meu celular e só vejo atualizações sobre o BBB 2020 e sobre o Corona Vírus. Espero que a população sobreviva aos dois acontecimentos. Respiro fundo e ouço a minha própria respiração. Lá na rua o caminhão do lixo passa e eles gritam qualquer coisa. Eu vou até a janela e desejo-lhes uma ótima noite. Acho que ninguém me escutou, mas todos seguem animados.

Deito-me outra vez e meu corpo solta todo o seu peso na cama. Quando fecho meus olhos, penso sempre nas outras coisas e pessoas e sonhos. Tenho a sensação forte de que quase ninguém pensa em mim. Sorrio e espero não ter pesadelos. Eu tive lá minha cota deles quando era mais jovem e morria de medo, até fui afagado uma vez por um fantasma, quero apenas uma boa noite de sono, mas ainda penso nas coisas e pessoas e sonhos. Quem diabos pensa em mim? Compunjo-me por não poder ser tão diferente do que sempre fui. Coloco os outros na minha frente e eles me deixam para trás. Sei que os caminhos são sempre diferentes, mas todo mundo parece saber tão bem o que faz. E eu? Eu ainda penso nas coisas, nas pessoas e nos sonhos. Os outros me esquecem, mas não é o destino final de todos o esquecimento? Não devo fazer estardalhaço com o meu lamento.

Sigo insone na cama. As palavras de Oscar Wilde me questionam: A gente sempre destrói aquilo que mais ama? Tenho medo de que me machuquem e destruam em nome do amor. Admito que receio cada pessoa que implora por atenção. Cada chamada silenciosa esconde algo e confesso às vezes temer o que não vejo. Revolvo-me, solitário, consciente, enquanto tento encontrar sentido para coisas muitas vezes sem sentido. Tenho a peculiaridade de não saber respirar, mas aprendi a dividir a dor. Costumo falhar, mas ainda vou ser quem sou seja por onde for. Vejo crianças desesperadas por atenção e pais validando seus mimos o tempo inteiro. Vejo as coisas como são, subornos, tempo por dinheiro. Vejo como ignoram obviedades escancaradas nas nossas caras, como normalizam absurdos e vulgaridades e como tornam complexas e obsoletas crenças sobre retidão, carinho e amor. Este é o meu mundo, eu repito, quando sinto o sono iniciar sua briga comigo.

Este é o meu mundo? Não pode ser verdade. Sinto-me muito perto de mim e longe do resto para admitir que este é o meu lugar. Reluto, teimo, ergo meus braços. Adianta? Não sei, mas me sinto cada vez mais fraco, magro. Em um universo de cegos, emergi com Saramago. Aprendi, mas quase vomitei e chorei em diversas oportunidades por me propor a entender a humanidade dos humanos e os limites que se ultrapassam. Algo grande está prestes a acontecer, mas todos me esquecem. Nessa vida alguém se depara com o que merece? É certo, pelo menos, que cada um de nós cresce. Adivinho minhas consternações, antecipo meus incômodos, mas não posso evitá-los. Tudo é como deve ser. Essa é a única resolução máxima de uma madrugada qual eu só preferia adormecer.

Eu preciso de uma carteira nova.

     Eu preciso de uma carteira nova. Eu preciso de uma carteira nova e não compro, não pela falta do dinheiro, mas sim pela falta de convicção na afirmação de que eu realmente preciso do que preciso. Eu preciso do que acho que preciso? Não sou consumista e nem extremista e quase nunca me deixo ser tomado por minhas futilidades. O que acontece é que a carteira atual está remendada em três pontos diferentes. O único ponto positivo é que ainda consigo guardar meus cartões com bastante segurança. Ela costumava ser preta à época que a comprei, porém, agora é de um marrom desbotado, cor de vida desgastada, forma de sombra exausta, rosto de passagem do tempo. Quem é que vê esses anos que voam?

     Às vezes tudo o que fazia sentir ou fazia sentido perde, você talvez tenha notado, subitamente a singularidade. Compreensões nos fogem no momento exato da explicação, pois ainda que algo se derrame inexplicável, temos a mania persistente de teimar em enxergar quando nossos olhos se desacostumam a ver o que é preciso. Não queremos a bula e nem manuais, não temos tempo, dê-me apenas o remédio. Os detalhes, sim, como eu sempre digo, essas coisas frágeis e rápidas e até mesmo perigosas, essas coisas nos definem mais do que todo o resto. Essas coisas frágeis, sim, são absurdamente fortes na essência. O vidro quebrado ergue suas pontas para ferir, mostra que ainda pode te fazer sangrar. O ovo quebra fácil, mas suporta como poucos a pressão, o calor. E você nessa mania de inferioridade canta aos quatro cantos da cidade que não existe amor. Você acha que não o merece.

     No que é que você pensa quando sabe que ninguém pensa em você? Quem você não finge que é, quando sabe que ninguém vai saber? Os perfumes perderam o cheiro ou eu mesmo bloqueei minhas narinas? Não, eu preciso me acalmar. Tudo flutua por dentro, mas eu me sinto centrado. Vejo aqui e ali o que se vê com os olhos que se ganha da natureza e agradeço pelo privilégio de notar coisa ou outra. O Universo foi cruel comigo, mas com a minha idade já possuo maturidade para tolerar. Quando tudo ocorre errado, quando a vida gira ao contrário, eu me inverto e estou no lugar.

     Qual lugar, perguntariam, se existissem pessoas por perto com dúvidas, não sei ainda, eu responderia e sairia para a cozinha preparar um café. Leio Leminski, Poe, Solano, Martin, Exupéry e Saramago, um pouco de tudo na mesma tarde, antecipo aqui meu estrago, corpo largo estirado no deserto, consciência que lateja e arde. Levanto-me, como quem possui uma agilidade sobrenatural adormecida. Continuo, aqui e ali cicatrizado, sorriso largo, como se nunca antes houvesse feridas. Que é que se leva, perguntaram-me, desta vida?

     Eu gostaria que levássemos pelo menos nossas memórias. Queria que o Real Folk Blues tocasse no meu coração antes de uma evidente tragédia e que o telefone tocasse, sim, eu gostaria da excitação que antecede uma ligação, mas apenas se fosse para minguar a falsa paz que antecede a guerra. Reclamam de quem vive com a cabeça no ar, mas ninguém aprecia a terra. E as pessoas odeiam cada vez mais a ligação, pois a fala imediata reflete a necessidade de uma resposta urgente. Por mensagens e áudios gravados a gente disfarça o que sente. E o que levar desta vida, volto-me, notando que me perdi em pensamentos. E eu honestamente também gostaria de levar embora o meu cão. Ele dorme e acorda habitando o espaço mais próximo do meu coração.

     Perdi-me de novo e ontem mesmo a chaleira do ovo quase explodiu. Onde é que ando com a cabeça, se ela parece no mesmo lugar de sempre, mas já não a domino? Que é que se sente quando por dentro quente, a invernia transborda pela pele gelada do exausto menino? Quem sou eu que não sou poeta, mas rimo?

     E minhas olheiras agora marcam e eu não era cansado assim. E outrora como Pessoa tive todos os sonhos do mundo em mim. Os óbvios olham e dizem “você parece cansado“. E meus músculos murcham e eu nunca ficava três dias seguidos sem me exercitar. E as pernas tremem de quando em quando, mas caminho. Agora eu não correria nem que pudesse. Logo mais desconhecidos acenam, notam sua presença, conforme você agora se esquece. Os olhos avermelhados, o suor, o instinto, você vê, cansado de ser sobrepujado por razões inferiores, exausto de ser cercado pelas mesmas cores. Apostando, uma vez por ano, todo tipo de plano em novos amores. Que é que se faz com o que resta das dores?

     Na era da ascensão financeira, eu juro, eles dizem que amor é pura bobeira. Talvez eles estejam parcialmente certos, pois eu ainda não os refutei com incontestáveis provas. Eu aqui, madrugada adentro, evitando todo o esquecimento, recordo-me de que preciso de uma carteira nova. E tenho feito o meu melhor e isso, eu digo e repito, é bom o bastante. O que importa é não permanecer o mesmo de antes, porém, uma espécie de energia má e assassina tenta me derrubar. Tenho feito o meu melhor, mas um dia todos vão me deixar?

     Suspiro profundo, eco da alma, pele marcada pelo corte. Quando todos saem, evita-se a morte. Sozinho, imundo, mas com a mente calma, você se sente em falta ou se sente com sorte? Sente-se aqui, por favor, bem pertinho, bem do meu lado. Narre-me sua história.

    E as ondas quebram, eu sigo inteiro.
    E no mar em tormenta, eu me torno timoneiro.
    E no olho do furacão,
    eu entrei em um balão,
    em busca do que é Verdadeiro.
    Podemos desperdiçar tantas flechas ou
    o tiro deve ser certeiro?

    Perco-me, acho-me, conforme a madrugada segue. O filme qual eu estava gostando agora está pausado e neste momento sou o deus que decide se essa história termina ou não. Encontro-me e perdoo o que passou. Minha alma já não passeia em cidades fantasmas com a memória do que ressonava como amor. Eu talvez já saiba de tudo, pois imaginei de modo tão real que pude sentir. Vivi tantas vidas em ficção, que, às vezes em realidade me sinto com um pé na cova. Eu tanto divaguei e descobri que me derramei em palavras exageradas, quando só queria mesmo uma carteira nova.

Medusa

Chega e ordena
que eu tire minha blusa
Olhar que me condena
Medusa
Não te amo
Ainda que seja

minha musa
Não é engano
A gente se usa
Tento assimilar a informação, mas
seu jeito de falar é pura tentação
Hesito e me convenço de uma mentira
Quero me amenizar e decido ir embora
Não sou igual a todo mundo
Tento me convencer de que
homem como eu já não se fabrica
Aos pés dela, porém,

somos todos vagabundos
Vítimas dum olhar que petrifica

Nunca posso resistir
Quando a voz dela me chama
Até tentei fugir, mas

cá estou na cama
Ela vai dizer o

que quero ouvir
Fingir que me ama
Foderemos a noite inteira
Escuridão que inflama

O demônio do fogo

Há um demônio do fogo 
dentro do meu ser
Desobediente
Incontrolável 
Alimentando-se de tudo o que se move  
Apenas para sobreviver
Há um demônio do fogo
queimando o meu coração 
Cada vez mais expansivo 
Ele urge para sair 
Cada vez mais invasivo 
Ele não quer mais dormir
Cada vez ele mais eu 
E eu mais ele
E ele ainda mais eu
do que eu ele

Mas nada
tão separado

nem possessivo
que possa chamá-lo meu

Nós aqui divididos 
Até o dia em que seremos uma única coisa 
Não hoje, mas talvez em breve
O resto do mundo nunca interfere na nossa relação
Tudo o que me toca e fere
Vira carvão Até minha própria pele
às vezes parece vulcão
Sou um eco solto de
Destruição
Nunca sozinho
Duplamente
em ebulição
Evite-se a
Erupção
Quebramos todas nossas leis 

Assim que fazemos
Só importa o que sei
Ainda estou aprendendo
Quem recua mata
a vontade que está nascendo

Há este demônio do fogo 
Convive comigo nas noites e nos dias
Às vezes me fustiga e outras vezes acaricia
Ele é tão capaz quanto eu
Guardião estranho e improvável 
Protege-me com suas chamas
Ainda que apareça até quando não é chamado
Este demônio é atrevido 
Extremamente ousado 
Inconsequente
Presunçoso
Por vezes perigoso
Infante
Arrogante
Distante
De quando em quando
eu e ele nos desentendemos 
Eu busco agir racionalmente 
Ele quer queimar o mundo
Trinca os dentes num esgar horrendo
Mostra sua agressividade
Ninguém ousa um passo a mais

Queimamos juntos o que cruza o nosso estreito caminho 
Ele me observa sorrindo 
completamente zombeteiro 
Sabe que eu aguento o que poucos aguentam
Diz baixinho “até quando”?
Mando ele calar a boca
Aqui sou eu que mando”
Ainda assim ele gargalha, pois 
todos fracassam nessa batalha
Contra os males do mundo
Sussurra nos meus ouvidos 
“Um dia você vai incinerar tudo com a minha ajuda
Cedo ou tarde a crueldade do mundo te muda” 
Ele às vezes soa tão tolo
Nunca sabe o que fala
Era melhor ter
abraçado o silêncio
Era melhor ter engolido
o sol no lusco-fusco
Tudo o que não tenho
Ainda busco

Ganância
Garra
Algo parece vago
Inquieto, ele me cutuca
como se apagasse um cigarro em mim
Não pôde fazer o que deveria
Diz que não coleta mais
Tudo o que recolhe
em seguida descarta
“Nada nas mãos nunca
É disso que somos feitos”

A última coisa que ele
segurou foi o brilho da lua
Ainda assim um instinto
estranhamente pacífico
Fez com que o demônio a soltasse
Talvez alguns mereçam
morrer de frio pelas traições
Na Islândia, Rússia ou no Canadá
Alguém como eu poderia
derreter o continente por lá

Contradições como espadas
Do nada ao tudo e do tudo ao nada
Tento ser empático, mas estático,
reconheço-me fático
Está além da compreensão
Como além se somos quase
a mesma coisa?

Cada vez ele mais eu 
E eu mais ele
E ele ainda mais eu
do que eu ele

Não o entendo, mas o sinto
Inequivocamente triste
Ele não me entende também, porém,
solidarizamo-nos na

ausência de palavras
que engloba a vida

inteira que existe
O demônio é forte
Bem desconfiado
observo a minha sorte
Mal entendendo
Devaneio minha morte
Meu demônio a desafia
Como se fosse mais poderoso
que o próprio Deus
É bom tê-lo por perto?
Um demônio mau
pode ter utilidade?
Há um demônio do fogo
dividindo a morada do espírito

Ele já não me dá mais arrepios
Em certo momento nos
perdemos um do outro

Ele se parece comigo
E eu me pareço com ele
A alma eloquente se agita
no corpo que emudece agora
Regente perdido inconsequente
Consome com as chamas
Acelera o correr das horas

Mais inflamável do que
qualquer coisa que viu

Instável aguardando
uma faísca no pavio

O demônio se lança em mim
Cada vez ele mais eu
E eu mais ele
E ele ainda mais meu
Eu respiro fundo
para tentar não me perder
Ele gargalha sonoramente, 
mas sinto o que ele sente
Queima com uma raiva
arroxeada e profunda
Instinto de ira indomável
Admite que todo fogo se apaga
Quem não sabe entender a mínima fagulha
não pode tocar quem é pura lava
Suspiro-me ou é ele que suspira
Há este demônio aqui e já não sei
quem é que controla a respiração
Para os outros não há comoção
Somos nós dois uma estação
Como o inverno ou como aquela que
leva embora para sempre um trem

Revestido de fogo nos fortalecemos
Quem é que pode me impedir?
Quem é que pode nos impedir?
Quem é que pode o impedir?
As lágrimas que escorreriam
evaporaram antes de tocar a pele
Não há nada em mim que gele
Sofro hoje como um mestre
O tédio me frustra
Vou queimá-lo

Faço o que quero e 
ninguém me impede
O tal demônio por vezes 

me personifica 
Por vezes agimos juntos 
Só em mim ele acredita
Ainda assim ele só
quer saber de queimar
Lançar labaredas dançantes 
para consumir tudo 
Incêndio incontrolável
Inefável
Intragável
Detestável
O demônio é sincero
Eu também
Odiamos mentiras
O demônio é direto
Eu prolixo
Ainda que às vezes eu seja direto
e ele enrolado também 
Há um demônio comigo
Ele me afasta e
me protege do perigo
Ele diz que é letal, mas
que é meu leal amigo
Como posso não confiar
em alguém tão próximo?
Não tenho escolha ou
Escolhi que fosse assim
Tudo de repente explodiu
Claridade no céu que

nunca mais se viu
De repente o meu fogo
e o do demônio

Espalham por
toda a cidade

E um sussurro quase mudo
nos revela desnudos
Há partes nossas por 
todas as casas
E há em corações alheios 
nossas brasas
E há o que eu nem imaginava
que poderia de haver
E há cinzas nossas que guardaram
E eu nunca iria saber
E a raiva cega minha 
que nunca pune
Transforma-se 
então em lume
Eu e o demônio 
não somos cruéis
Ainda que pudéssemos ser
Ainda que devêssemos ser
Só o demônio sabe o quanto
o sofrimento me arrasta na dor
E o que foi me enche de espanto
Ele tenta queimar tudo, mas não
nunca viu nada que tenha resistido
Recorda-me da frase que tanto gosto
“Seu coração é feito de coisa mais forte que vidro”

Num universo de tanta crueldade
Abraço o demônio antes de dormir
Eu me sinto tão lúgubre, mas volto a sorrir
Seguro a onda, aguento a barra, ajudo
Ninguém me nota na parte mais profunda 

Observo o mundo com sutileza
Vejo em cada cantinho
um pouquinho mais de beleza
Sou sozinho, mas me sinto fortaleza
Quem derruba estes portões?
Também ninguém sabe a senha

E lá vou eu sendo ele
Ele sendo eu
Absorvendo lindos olhos verdes
que queimarão em nós
Coloridos
Conquistar é
algo divertido

Queimamos como
fogo de fogueira
Numa diversidade de cores
No chão somos céu de estrelas
Mestres em tudo, exceto nos amores

Ouço ele acalmar a respiração
Acalmo a minha também

Eu mais ele
Ele mais eu

Algo sempre acontece quando
não estamos vendo

Continuo mudando e crescendo
Estou cada vez mais velho
O demônio faz aniversário
Nós comemoramos
Celebramos um com o outro

Já nem me lembro dos tempos
em que o demônio não estava por aqui
Ele parece vil, mas me ajuda a seguir
Fecho os olhos e aguardo
Os milagres acontecem
quando a percepção encontra o sono

Os grandes eventos sempre lembram
Épocas distantes e abandono
Dou de ombros e sigo em frente
Eu mais chama quente
O demônio mais tranquilo
Eu mais ele e ele mais eu
Um dia encontro
um pedaço de saúde
Abraço o meu
descanso na loucura
Repouso vulnerável
Jazo sem armadura
Até o dia fatídico
vou como posso

Faço o que posso
E também o que devo
O demônio matou o medo
Ele mora comigo de aluguel
Eu cada dia mais ele
Ele cada dia mais eu
Eu ainda mais ele
Ele ainda mais eu
Eu mais ele
Ele mais eu
Eu ele
Ele eu
Eu
Acho que, enfim,

Localizo-me aqui
Nos entendemos ou
eu mesmo me entendi

Nossa parte boa domina,
mas deve ser mantido este segredo
Que por aí digam que nossa sina
Não é espalhar amor e sim o medo

Que me chamem de demônio
Que tentem apagar nossas chamas
Continuaremos, entretanto,
por aqueles que nos amam
Esquento outra vez

de tanta felicidade
Talvez ainda queime esta cidade
Sou completo e me reconheço
Celebro a minha liberdade.