Crônica de Terça

Eu sempre parto para o ataque tentando frear quem lhe golpeia por suas vilezas, mas eu avisei antes e repito agora, você precisa ter mais clareza. Eles disseram que a culpa era sua, bom, eu insisti em te defender, mas não se vomita na sala de estar da casa dos outros, eu não lhe avisei? A culpa era realmente sua.

Não avisei? Eu sei que avisei e havia mais gente por perto. Agora você pode bater sua cabeça e pode também beber sua cachaça, seu gim, suas cervejas, eu juro que por mim pode até vomitar, entretanto, você não é um novato e conhece as regras, sem vômito na sala e sem trocar o canal da televisão. Tanto faz porra nenhuma! Etiqueta, seu idiota, você entende a minha fala. É preciso ter um pouquinho de bom senso. Eu sei, você é assim porque a vida é foda e tornou você assim, você sentiu falta de amigos e uma família mais dedicada e empenhada em te ver bem e feliz. Claro, eu sei, a culpa não é sua, eu posso pedir desculpas e você? Sei bem, eu me lembro bem, não foi criado assim, certo? Orgulho e boca grande em uma boca pequena. Cale a boca, por favor. Achegue-se mais perto para um conselho.

Ele se aproxima e quando está perto lhe acerto um safanão na testa. Agora desconfio que ele realmente tenha aprendido a lição. Há quem prefira do jeito mais difícil, certo? Não que ele fosse teimoso ou burro, bem longe disso, mas tinha uma mania de ser particularmente obstinado na produção dos próprios erros. Tudo era um espetáculo.

É uma tarde de terça-feira normal, mas ainda assim é diferente. Meus pés estão gelados, mas o dia está quente. Não temo ficar doente, pois tomo mel. Rio dessa piada que só eu sou capaz de compreender. Bom, terça-feira, o que existe de particular hoje? Sim, eu não me esqueci, hoje é aniversário do meu irmão, mas para a gata é só mais um dia e para o cão também, aliás, para eles não é dos melhores dias, pois eu não me sinto tão bem e eles se movimentam mais de acordo com a minha dinâmica. O amor que os dois nutrem por mim precisa de estímulos, sim, exatamente como qualquer amor. Alguma vez você já reparou como isso é curioso? Na falta da minha atenção, contentam-se ambos os bichos com a solidez da minha presença. A minha existência faz diferença para eles, ainda que para a hipótese do meu falecimento, eu me conforte em saber que eles seguirão acompanhando os outros membros da minha família. Respiro e observo os detalhes com atenção. A brisa passa por mim, mas eu também passo por ela. O cão escolhe o chão e fica bem próximo das rodas da cadeira giratória enquanto a gata dorme na janela.

Ando pela casa sem camisa e penso. Carrego quatro livros na mão direita, porém me falho no meu propósito. Tinha o objetivo de fazer o que mesmo? Olho para os livros, é isso, eu provavelmente queria ler e não consegui. Falhei outra vez em cessar minhas atividades e me concentrar em alguma outra coisa que, bom, eu talvez devesse me distrair ou talvez devesse me embeber de filosofias ou talvez devesse andar sozinho pelo mundo conhecendo e contando histórias e…

E respiro para me concentrar no que restou da tarde. Bebo uma xícara de café. Checo o site, vejo que não vendi muitos livros ainda, porém um sorriso escapa de meu rosto empedernido e frio. Eles gostam das minhas histórias e eu me pergunto o motivo. Não sei bem, mas se estabelece com mais firmeza aquele mesmo sorriso.

Não faço exercícios. Está muito quente e o meu nariz sangrou pela manhã. Consumi mais de cinco mil calorias ontem e antes de ontem e só tenho gastado energia nas noites quando sento na minha cadeira e teclo no meu teclado. Quero crer no mundo, mas ele parece todo errado. Quero fugir daqui? Quero mudar? Quero me apegar ao que sei não funcionar para manter a melhor ilusão de funcionamento? Não planto ideias por malícia ou interesse. Gosto do cru das pessoas e descubro na hora e pelo brilho no olhar sobre o que finjo que esqueço. Por essa percepção sensitiva eu sempre agradeço. Tornei-me o tipo sábio de pessoa que entende como a confiança é um prato que se come frio, porém insisto em confiar antes da hora para mudar o que vejo como reflexo deste mundo vazio. Preciso ser diferente para ansiar pela diferença, porém sei que a minha ingenuidade reverbera pela cidade o peso da sentença. Aceito o preço, escolho viver e sento outra vez. Escrevo.

Escrevo porque preciso conhecer mais do que o tudo
que eu já sei
Escrevo porque escrever é a única maneira de me tornar
quem sempre sonhei
Escrevo, ainda que existam muitas coisas melhores
para se fazer
Escrevo porque sou escritor e preciso me dedicar
ao sonho que tenho
Escrevo e vou continuar escrevendo e quanto ao resto
eu me abstenho
Talvez eu encorpore minha única

semelhança com Christopher Green
E saia sozinho para longe

para descobrir o que falta em mim
Talvez não falte coisa alguma

E escrevo
para que a minha originalidade
nunca suma
para que não mudem
os meus desejos
Escrevo-me porque quero e
para registrar minhas andanças
Escrevo-me, pois às vezes temo a morte
Quem sabe com um pouco de sorte
Postumamente eu causa alguma mudança.

Sinto fome e é hora de consumir mais calorias. Sinto-me feliz, pois elas se deixam ser consumidas e utilizadas. Já que não faço isso com ninguém, eu encontrei nas calorias estranhas aliadas. Sorrio triste ou entristeço sorrindo? Digito qualquer bobeira sentado nessa cadeira e admito que o dia seria melhor se eu estivesse dormindo.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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