Ninguém nunca antes…

E qualquer um apontaria o meu exagero latente, mas a verdade é que eu acordei lá pelas cinco e fiquei sentado contando os minutos para que o tempo passasse.

Você me disse uma vez que ninguém nunca antes, nunca desse jeito e era cedo, bastante cedo e o início daquela noite era como o início de nossas vidas e de eras que pareciam se anunciar com a nossa (re) união, mas era realmente cedo, quase como constatei que era cedo hoje ao abrir os olhos pela manhã e notar que você não estava por perto, mas não estava tão longe, pois eu fechei os olhos e pude me lembrar, nunca desse jeito, você me olhava meio cética, meio qualquer coisa incrédula, ninguém nunca antes, nunca desse jeito e eu ri alto, é que eu sabia que não era uma provocação e sim uma confissão sincera, mas eu continuava sorrindo e você não antecipava como eu poderia ser bom com minhas certezas, uma vez que elas quase sempre saltam diante dos meus olhos sem qualquer réstia de explicação racional.

Essas coisas todas talvez se expliquem, eu sei mesmo, uma vez não conta, eu tenho repetido isso por acreditar realmente na ideia e no fundo acredito também que os alemães estão certos e que tudo precisa ser exatamente assim, mas de quando em quando me bate uma vontade de ser ligeiramente egoísta e me transportar para esse amparo de espaço seguro que eu encontrava nos seus braços. A delicadeza da sua presença era capaz de torná-la a mais sutil das almas, mas nunca invisível, bom, você dizia também que não eram muitas pessoas que tinham te enxergado, mas me abusando do que se parece um clichê, eu confesso que sinto uma necessidade ansiosa de falar, bem, qualquer um que não perceba essa diferença talvez realmente não mereça sua presença. O que eu acho é só uma opinião extravagante de uma impressão que cresceu em mim e ainda cresce. Você agora se olha do jeito certo, não é?

E as perguntas não param e eu tentei responder o que eu podia, mas acontece é que certas coisas são demasiadamente certeiras e me notei com essa espécie de instinto distante e perfeccionista, eu não estava na direção certa, embora pudesse mesmo enxergar o caminho. Eu me debruço e não desperdiço meus gestos e falo qualquer coisa sobre matar o vínculo, bom, eu só quero que você fique bem, eu não tenho impulsos assassinos, eu não quero matar nada, mas sempre sigo em frente, mesmo quando a tristeza preenche meus espaços vazios e me torno a pessoa menos ensolarada desta galáxia. O que me dói é que eu ainda sorrio toda vez que me lembro de você com aquela sua antiga relutância cética, ninguém antes, ninguém nunca antes, nunca desse jeito e era cedo e eu sorria, pois sabia que só havia uma unidade minha solta, embora tenham visto alguém parecido na Califórnia, sim, dizem que a Califórnia é ensolarada o bastante até para almas chuvosas, eu rio e penso no meu clone californiano, mas eu estava comentando que sou fabricação única e sei que só há uma de você também, ninguém antes também, nunca antes também e me regozijei pelos momentos que transformaram a hesitação em surpresa.

Sabe, eu ainda não saí do sofá e os minutos são apenas minutos, mas quase os chamei de inimigos e isso não faz sentido. Sinto que uma desgraça vai recair em mim se eu não me levantar, você provavelmente riria, mas talvez o sofá engula meu corpo ou um meteoro chegue pela sacada ampla e coloque um fim nisso tudo. Se tudo fosse se findar hoje, eu me lembraria de você na última chuva de meteoros e abriria os meus braços como quem literalmente abraça o fim antes de me tornar poeira cósmica. Continuo nesta insistente alimentação tóxica de ideias, eu pensei que o meu avião fosse cair, que o meu ônibus fosse tombar e a única coisa que quase ocorreu foi um assalto, mas afinal não fui assaltado e só o frio e a chuva parecem insistir no meu pessimismo, pois considerando a sequência de tudo, percebo-me com sorte.

Pode ser minha tendência dramática, mas se eu continuar por aqui sinto que uma desgraça acontecerá e sinto uma vontade breve de fugir de mim e correr para a minha casa e sentar confortavelmente no meu sofá que nunca engoliu ninguém. Os meus bichinhos certamente estão me esperando e eu sinto a falta deles, será que eles meditam sobre o meu retorno? Estou me perdendo do ponto aqui, eu vim te dizer que decidi certo e que você faz falta e que não há motivo para ter esse gosto terrível de derrota na ponta da minha língua, não, eu não sei a razão de me sentir tão triste, pois ninguém nunca antes, nunca desse jeito e ainda é tão cedo e eu nem fiz o café da manhã e minha barriga dói, bom, eu não fui drástico e senti dores no corpo acordando lá pelas quatro e meia e tomei um Tandrilax e acordei sem estar travado, porém com a barriga extremamente dolorida. O que eu provavelmente quero dizer é que quando sinto e agora sinto, eu sei que não consigo me explicar e que minhas explicações mais aproximadas apenas são explicações aproximadas.

Não há alternativas e eu me peguei pensando em tantas coisas diferentes e, bom, eu te disse também que não é sobre não ter medo e sim sobre enfrentá-lo, mas eu não escondo de ninguém que o escuro de quando em quando me apavora e nas noites de silêncio violento ainda durmo com a televisão ligada, mas não tenho televisão no apartamento em Cabo Frio, como você faz, eu presumo que você me perguntaria, bom, eu dou um jeito, eu sou bom em dar um jeito, é coisa de brasileiro, você também vai dar um jeito, quando há televisão a gente assiste filmes repetidos e quando não há televisão também, uma vez não conta, tudo bem se repetir, mas é que ninguém nunca antes, nunca desse jeito e, bom, o que encontro é quase o suficiente para me deixar gago, mas tenho sorrido uma ou duas vezes por dia e passei duas semanas no limbo e agora estou de volta, é, I’m back from the deads e sorrio, aquele velho sorriso que quebra a hesitação e surge ligeiro e rápido e a barriga ainda dói, mas vou tomar um café e rio de novo, pois a minha pronúncia de dad e dead é idêntica e me imagino voltando de uma reunião de pais.

Sabe que essa história de que ninguém nunca antes mexeu comigo e passei horas tentando aceitar o fato de que nunca desse jeito e ainda é cedo, mas sinto que vou receber uma onda de ódio e vou ser vítima de uma retaliação silenciosa, não, eu sei que você sabe, há duas maneiras de encarar, a primeira é de que não há vítimas a segunda é de que todos somos vítimas e agora estamos caminhando em desertos diferentes e ainda é cedo, eu sei, você sabe, é o que importa, afinal. Agora tudo muda e tudo bem, incenso fosse música, Leminski está certo, querer ser o que se é ainda vai nos levar além e que a vida siga como deve seguir, um dia por vez, um sorriso por vez, um machucado por vez, um sangramento, uma batalha, um amor, mas que ninguém tire a ideia e a admiração sincera que um nutriu pelo outro. Bom, é que todo mundo adora lamber migalhas e tanta gente não sabe o que é uma devoção completa e inteira e recíproca e, bem, eu usei a porta da frente e fiz tudo como senti que deveria fazer, eu sei, tudo é assustador e o mundo já foi difícil pra nós, antes de nos pensarmos juntos, essas coisas tão horripilantes que você sofreu e quase meia década que eu passei vomitando em quase todos os finais de semana e agora estamos aqui, não sabemos nada direito, nada cem por cento, mas o que é existe e basta para seguirmos tentando e, sabe, eu reconheço que não tenho tentado meu melhor, mas eu tenho tentado tentar e isso deveria bastar, não, ninguém nunca antes, nunca é desse jeito e me pergunto se meu clone californiano já fez o café da manhã e preciso fazer esses ovos mexidos na frigideira nova e, bom, eu espero que meu estômago melhore e que o seu esteja bem também, certo, nós ficaremos bem, eu aqui, você aí, os outros onde quer que estejam e sou brevemente feliz, pois entendo que você entende e que ainda vai me olhar nos olhos quando esse furacão todo passar.

Sabe, eu torci para que o sofá me engolisse e para que o sol aparecesse, mas ainda é cedo, bastante cedo e não sei bem o que faço acordado. Ainda assim, uma lembrança de não ter lembranças me coloca um sorriso fugaz no semblante e pela primeira vez em muitos dias sou grato por estar vivo.

E qualquer um apontaria o meu exagero latente, mas a verdade é que eu acordei lá pelas cinco e fiquei sentado contando os minutos para que o tempo passasse…

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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