Sensações.

            Acabo de percorrer o caminho de volta do Bairro da Liberdade. Todos alertam sobre os perigos de São Paulo e eu não relaxo, mas admito que a sensação é ambígua enquanto carrego minhas sacolas pelos metrôs e pelas ruas. Tenho a impressão de que é como trancar toda a casa antes de dormir e, ainda assim, ser surpreendido por um bandido que sai de dentro do meu guarda-roupas. Verifico os armários antes de me deitar, apenas para me sentir ainda mais seguro e durmo com a televisão ligada para evitar a escuridão. Essas sensações antigas retornam junto com os meus tantos pesadelos.

            Notei, ligeiramente abismado, que chamei a cidade de São Paulo de casa. Poderia uma cidade tão agitada servir para alguém tranquilo como eu? Deixo essas questões ridículas e precipitadas para outro momento. Tenho o péssimo costume de deixar toda sorte de coisas para depois e devo me encontrar com a cidade no meu próprio tempo.

Voltei do passeio e trouxe alguns bonecos dos animes que mais gosto, quatro camisetas, bem como três pôsteres que vão se transformar em lindos quadros. Minhas aquisições são positivas e me sinto renovado e feliz pelo passeio. Ninguém me incomoda na ida e nem na volta. Talvez seja por conta da minha altura ou pelo fato de que forço meus músculos e não abro mão de minha carranca irritadiça. É possível que comprem a ilusão de raiva quando olham para a expressão dura de meu rosto, porém desabrocho meus melhores sorrisos assim que me encontro com pessoas. Intuitivamente sei que é muito importante continuar a ser gentil.

A vida vai esquisita e encontro novas maneiras de ganhar dinheiro. Nenhuma delas até hoje me fez feliz. Chego no apartamento e meu irmão está dormindo às 19h00. Nenhum de nós sabe que em um ano e meio ele vai ter um emprego qual ama e menos ainda desconfiamos que ele será pai. Neste instante agradeço o privilégio de desfrutar das coisas presentes. O computador está livre e posso escrever um texto.

Honestamente não me lembro exatamente do que aconteceu depois. Nesta época, tudo detinha a minha atenção na cidade de São Paulo. De quando em quando me levantava animado e passava o dia todo caminhando por ruas extensas e entrando em lojas com cheiros peculiares e tamanhos improváveis. Noutros eu empenhava esforços homéricos para convencer meu irmão a sair comigo e, vez ou outra, era recompensado com sua companhia. Em algumas manhãs e tardes vaguei a esmo, sem medo do perigo, procurando um lugar pacífico para tomar um café e ler um livro. Numa dessas incursões até ganhei uma pedra do meu signo e uma profecia de uma velha esquisita que previu meu sucesso, o que não foi assustador, mas achei de bom tom da parte de uma excelente vendedora. Houve noites quais saí em primeiros encontros na Padaria Palmeiras e olhei pela primeira vez em olhos azuis como o oceano.

Quem diria que meus olhos castanhos se reconheceriam naquela imensidão azulada e profunda. É que carregar uma dor no peito transforma nosso jeito de se mover e até os nossos olhares e acontece que duas dores distintas podem se encontrar como semelhantes, ainda que sejam completamente diferentes na forma. Eu não apostei em nada mais do que a minha própria gentileza e descobriria muito depois só uma pessoa que me fizesse apostar tudo outra vez. De toda forma, estávamos sentados na mesa estreita, meus joelhos batiam em tudo e nos olhávamos. Trocamos nossas histórias, nossas primeiras impressões e onde dois opostos se encontraram como semelhantes surgiu uma fagulha que resultou em uma explosão. Ela havia sido largada pelo noivo semanas antes do casamento e partiria dentro de dois dias, sozinha, para a lua de mel na Austrália. Eu ainda meditava sobre o meu desamor e meu sofrimento no último semestre e me questionava a respeito da durabilidade das relações. Em outros cantos do país outras pessoas passavam por traumas maiores e descontavam em distrações diferentes ou se alegravam por coisas mais discretas e eram felizes por gestos mínimos. Eu não poderia antecipar o que interligaria o meu destino ao de outros.

A vida vai como vai e é inevitavelmente estranha. Creio que na realidade perfeita desta mulher de olhos azuis, ela se casa com o homem com o qual passou anos juntos e vive uma lua de mel incrível e repleta de passeios. Ela certamente não esperava passar a véspera da viagem com um cara que conheceu na noite anterior. Eu certamente não esperava ser o cara da noite anterior e nem esperava estar sentado no sofá do apartamento em São Paulo assistindo Baki na metade do mês de abril. Ainda sem sair do sofá me peguei imaginando a mulher da noite passada descendo sozinha em solo australiano. Um sorriso espontâneo surgiu em meu rosto e naquela noite tomei a vida por inevitável, mas ri de minha própria tolice pela improbabilidade do avião ter chego tão rapidamente em um país tão distante.   

Ainda assim, eu reconheço que tenho falado muito de pessoas, principalmente das outras e, muito provavelmente, discorrido pouquíssimas vezes em retrospectiva pessoal, intransferível, individual. Estive tentando me evitar? Não tenho certeza, nunca fui de fugas, mas suponho que todos sejamos capazes de contradições.

Volto a falar de destinos que se entrelaçam e felicidades inéditas, como as que vivi no meio do agitado ano de dois mil e dezenove e do esquisito ano de dois mil e vinte. Coisas importantes se renovaram dentro de mim e me tornei alguém melhor. Amei e fui feliz como nunca imaginei. Oscilei mais do que pretendia, entretanto, vejo que fui forte como pude, pelo menos na maioria das vezes. Pilotos franceses subitamente me abriram os olhos e não pude deixar de ver o que por tanto tempo evitei.

O mistério do êxito não é tão misterioso assim. Para fazer o que poucos fizeram é preciso fazer o que poucos fizeram. Sorrio com a afirmação boba e estremeço. Os aviões decolam incessantemente e vejo suas luzes fracas iluminando discretamente o ambiente do céu noturno pelo qual passam. Jazo dentro de um deles, ainda que seja sempre incerto o momento, mas me vejo partindo no meio do breu, insistindo sempre em luzes, veja só, essas luzes que brecam a escuridão aterrorizante, essas luzes que nos salvam a todo instante, essas luzes que me seguem e que me preenchem, essas luzes quais me tornam luz também. Diversas sensações sambam alegremente dentro de mim. Sinto que preciso acender as luzes apagadas, trocar lâmpadas, mostrar o caminho. Aqui hoje assim não posso. Aqui hoje assim não consigo.

Tenho a sensação atemporal de que a minha solidão pode me matar, entretanto, simultaneamente vejo que apenas sozinho sou capaz de parar de me esconder das tantas responsabilidades que tenho para com minhas capacidades. Sei sobre o meu tamanho e tenho que ficar longe de casa, seja lá o que me faça sentir em casa, para atingir meus limites e cumprir com meus objetivos. Até onde sei, tenho esta vida para sentir orgulho de minhas capacidades e me derramar neste mundo tão vil, violento e frágil. Confesso que posso ser exatamente como o Universo se parece aos meus olhos e choro.

            Essas sensações antigas retornam junto com meus pesadelos e me defendo em um estado inconsciente. Quando me percebo em pé com os punhos cerrados, flagro-me em um medo descontrolado da morte e um apego feroz pela vida, assim, convenço-me de que continuar vivendo é uma questão de necessidade e que todo esse papo que faz voltas e mais voltas faz algum sentido. Essas sensações antigas retornam, mas quando o mar da escuridão tenta me engolir e me tornar melancólico ou sorumbático, eu sorrio com os olhos na direção qual seguirei. Tenho a sensação de que sou uma luz forte, dessas que cegam momentaneamente nossas visões, em um mundo escuro e esquecido. O meu jeito de existir é continuar convivendo com as sensações e tomando o cuidado para não queimar subitamente. Quem sabe um dia exista mais claridade que escuridão. Quem sabe um dia eu dormirei sem a televisão ligada. Quem é que sabe?

            Um dia…

Abstração

A representação da vida como coisa real geralmente nos escapa.

Localizo-me no meu quarto e sinto o suor escorrendo pelas minhas costas e pelo meu antebraço. Anoiteceu outra vez e me pergunto sobre o que seria da minha vida acaso não houvessem novas noites. Poderia eu seguir tranquilamente em um mundo que só comporta o lume ou necessito da escuridão e da densidade noturna para certificar de que sigo cônscio e no controle de minhas próprias ações?

Tragédia mundana qual me sinto destinado. Posso acertar minhas próprias ações ou estou fadado a dar errado?

Vejo-os, principalmente quando não me vejo. Vejo-me, apenas quando deixo de ver o restante do mundo. Observo-os e me sinto arrefecer. Não me observo e sinto a minha ausência. Escrevo para diminuir a distância entre quem sou e quem sinto que deveria ser? Que é que deveria fazer para me aproximar mais de quem está tão distante? Existe drama qual devo me render que faça minha vida simplória mais elegante?

O silêncio devastador é interrompido pelo ronco incessante do motor do ar-condicionado. A gata preta desfila atravessando o espaço curto da mesa. Segue o seu rumo com passos delicados, repletos de requinte e, sem se encostar em nada, deita no meu travesseiro e só mexe eventualmente suas atentas orelhas.

O sono dos felinos, as sinas e destinos, os instantes de descansos breves e seculares, a inevitabilidade, a boa utilização do tempo, a individualidade, os lugares, tudo me torna mais leve e tudo também me torna mais pesado. Não divido meus fardos e nem os meus hábitos. Sei que preciso da solidão para sobreviver.

Abstraio-me do Universo e de tudo o que compõe a Vida e me sinto integrar o ambiente. Dura apenas um vislumbre de segundo, um intervalo tão fugaz, que nem o sinto na pele, mas é essa capacidade de me ver longe do mundo que me faz nutrir amor verdadeiro pelo verdadeiro Mundo.

Indago-me sobre Vida e Morte e sobre as próximas vidas que hão de existir após nossas próximas mortes. Haverá espaço e tempo para que tudo seja vivido e aproveitado? Haverá tempo hábil para que possamos realizar os sonhos que sonhamos? Haverá outras versões das nossas mesmas personalidades? Poderei deitar meu julgamento completamente subjetivo sobre a minha maneira de enxergar a existência? Outra vez me perco de mim. Enxergo todas as pessoas, menos a minha. Enxergo todas as dores, exceto a minha. Enxergo a felicidade dos mais próximos e não a minha. Que é que deveria eu fazer para me livrar deste insistente estado soporífero? Estou destinado a sofrer por um mundo que me ignora?

Príncipe diurno e deslocado de melhores horas. Sonhei-me regente em um mundo qual tudo era visto de dentro para fora. Vomitei os segredos da existência. Mergulhei no gélido oceano e me transformei em uma lontra comedora de ouriços-do-mar.

Acordo-me no mundo real, se é que faz sentido distinguir o território dos sonhos do território cotidiano. Sou o Senhor do Lago e devo fazer o que bem entender. Visto meu protagonismo como um super-herói veste sua roupa especial. Trago em mim todo o tipo de esperança vã e estúpida que me faz acreditar que posso modificar severamente os amanhãs. Onde estará meu futuro se me falho em modificar o presente?

Falho de novo e de novo. Sinto uma raiva que dura pouco. Sinto uma tristeza que persiste. A alegria pode ser disfarçada, mas não o sofrimento. Penso sobre as coisas que não posso tolerar e quase me pego chorando. Agradeço ao Acaso Divino que me fez estar com tanto sono.

Lá de longe me vejo e aceno. Estou defronte para as janelas límpidas com vistas enfumaçadas de uma fábrica que expele nuvens de fumaça branca, mas me sinto sereno. Lá de longe me vejo e não há engano. Há qualquer lugar qual sou novo filho do mar e desta vez sei que me amo. Lá de longe me vejo no clima impossivelmente gelado e distante. Talvez uma parte minha congele, mas eu sei que não volto o mesmo de antes. Lá de longe me vejo falando em japonês com os japoneses. Talvez eu me embriague em Tóquio enquanto canto meus maiores reveses.

Lá de longe me vejo acompanhado.

Lá de longe me vejo sozinho.

Lá de longe me vejo.

Lá vou eu outra vez.

Lá vou eu agora.

Lá vou eu outro dia.

Lá vou em uma nova velha vida.

Partícula irreal e incompreensível. Falhei na vida e no devaneio de minhas hipóteses. Falhei na imaginação e no sonho. Dormi acordado e vivi dormindo. Nunca encontrei o que me fosse agradável como qualquer tipo de resposta. Surgem mais perguntas e outra vez me vejo. Não há mais ninguém. Deixo de me ver e a vida inteira brilha e surgem mais uma vez as coisas todas que faltam.

O sono é o meu único Deus e rezo para que durma rápido. Divido-me entre a ânsia de sonhar e a vontade apressada de me lembrar detalhadamente dos sonhos. Pudesse eu me compreender nas partes quais não me compreendo e tudo poderia ser diferente. O que fiz de mim se calei quando deveria ter dito? O que ainda faço de mim se falhei em fazer deste um mundo mais bonito? O que fui falar quando não tinha mais o que dizer?

Amo como posso e sigo em frente. Sou como sou agora, mas talvez um dia escolha ser diferente. Que me julguem com ferocidade! Que me julguem com um caráter férreo e que eu seja alvejado! Que eu sofra com os dramas e dores do mundo! Um dia eu ainda melhoro! Um dia eu ainda mudo…

Andarilho cósmico,

Interplanetário,

Eu vi a escada de saída da Terra,
Eu também senti o cheiro de flores e ervas

Eu sei que há circunstâncias de melhorias e que eu não quero e nem posso morrer de um jeito estúpido ou banal. Não aqui. Talvez com essas pessoas. Talvez longe delas.

Quero falar outras línguas e admirar outros sotaques.

Quero que todos vejam na minha representação externa toda a capacidade estética e interna da minha alma. Quero a explosão do mundo em absoluta calma.

Hoje nenhum pedaço do planeta foi feito pra mim.

Um dia.

Ferro, vinho, romantismo, sono compartilhado e lucidez. Não sei quando, mas ainda chega minha vez. Até lá me valho dos inutensílios que encontro ao longo dos dias mais longos para continuar bem.

Isso de querer ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além.

Gastando palavras até que os dedos doam para confrontar qualquer resquício de vaidade. O sono me chama e em sonhos quero ficar face a face com a única Verdade.

Boa noite.

Crônica de Segunda

Sinto uma espécie de preguiça que se alterna em raiva e lamúria. Queria dizer coisas bonitas, mas começo a minha crônica em fúria. Respiro fundo e desacelero o mundo sempre acelerado. A vida vai acontecendo, mas a letargia dos sentidos me faz pensar que não tenho feito o suficiente, que certamente não tenho sido bom o bastante.

Os que me conhecem o suficiente sabem me ler, mas quanto me conhecem tão bem? Quase ninguém. De repente noto que talvez não saibam o que fazer com a informação que adquirem na leitura dos meus gestos. Será que apenas não se importam? Bebo uma xícara de café e tento enfrentar o dia que se anuncia. O desemprego ainda me assombra e sinto uma vontade desesperada de trabalhar. O que é que devo fazer com o meu tempo quando não há sequer sinal de misericórdia da vida que se debruça sobre nós?

Sacudo os lençóis e vejo uma discreta nuvem de poeira. Prendo a respiração, mas não adianta. Tenho uma crise alérgica do mesmo jeito e agora sei que só vou parar de espirrar daqui a duas horas. Amanhã é o dia da mudança ou terça ou quarta. Eu quero sair logo daqui, mas vou sentir saudades deste apartamento e deste quarto e desta janela. Será que minha gata e meu cachorro vão se acostumar? Viver nos surpreende a cada momento e quando de ausências me entupo é que me sinto verdadeiramente farto. Do que sinto saudades, afinal?

Olho de longe os ingênuos e os imbecis. Os primeiros acreditam em todos os amores, todas as alegrias, todos os sonhos. Os segundos creem que podem levar uma vida de enganações, de armações, de cenas e isso sem nunca cair do cavalo. E eu sou o ridículo por escrever romances, contos e poemas. Sou eu que eles querem ver escoando pelo ralo.

A ridicularização dos outros nunca para e devo insistir em acreditar em mim. Querem nos impor uma vida normal, logo ali, a camisa pesada entorta o varal e eu sei que deve ser assim. Resisto ao vento.

Vigia de marfim do choro silencioso em uma madrugada discreta. Há quem toque profundamente nossas feridas secretas?

A prolixidade me faz continuar, ainda que eu não saiba bem para onde seguir. Às vezes queria estar na praia, no passado, no futuro e até em Paris. O passado é suave, mas está onde deve estar. Tiro de pistola na cara das lembranças. Não volte, não me incomode, não implore. Uma epifania me acomete e sei que estou exatamente no tempo qual devo habitar.

Lá em cima uma estrela despenca. É só a morte do brilho ou a chance de um desejo?

Almoço placidamente e assisto alguma coisa na TV. Lancho placidamente e tento olhar para a direção qual ninguém quer ver. Pessoas que se evitam e nunca se combatem às vezes me assustam. Como encorajá-las se preferem fingir que não há problema?

A cena se reinventa e eu sigo meu dia sozinho. Escrevo para me gastar, sinto que preciso me cansar e não quero deixar nada no caminho. Meus bichos me dedicam hoje o amor que tanto preciso. E bebo mais uma xícara de café, pois é o que me faz suspirar e oferecer meu sorriso.

Outrora muito elogiaram meu sorriso por aí. Nos bares, nas esquinas e nas palavras de gente que talvez eu devesse me lembrar, mas só me recordo de que esqueci. Alongo meu corpo e faço trinta, noventa, duzentas e cinquenta flexões. Quem dera o exercício físico fosse o suficiente para me livrar das alucinações.

E escrevo assim como bebo café. Preciso e gosto e gosto de precisar.

Qualquer conto acontece e muda o panorama dos dias atuais. O livro que a gente agora entende no instante seguinte não entende mais. E quem não se valha geralmente falha e se esforça em compensar para nunca deixar de surpreender. É na leveza que reside a verdadeira beleza e todos seus caminhos sempre te levam de volta até você.

Escuto minhas palavras e percebo que estou falando comigo. Já é segunda-feira e chega o fim da tarde e ainda agora eu jurei que era domingo. Estou preso em algum lugar sem acesso? Precisarei do Guia para avançar com sucesso? Neblina. Observo-me sem me ver, pois dificilmente tenho conseguido enxergar muito em frente. Às vezes este mundo vil pesa nas minhas costas, mas não desisto de ser diferente.

Quatro horas da tarde é a hora da sexta refeição do dia. Um pedaço de bolo, uma fatia de pão integral com manteiga de amendoim, uma maçã mais gostosa do que bela e outra xícara de café. Meus dedos se sentem apaixonados pelo teclado e ensaio meu único tipo de fé.

Em alguns dias algumas coisas acontecerão e honestamente não sei o que se sucederá. Espero o livro de contos vendidos, o extermínio do Corona Vírus, um abraço nos amigos e assistir jogos de futebol sentado no sofá. Agradeço por quem me ampara quando o mundo me balança e me lança ao chão. Agradeço por quem se separa para dividir o fardo deste meu coração.

E há notícias maravilhosas que me fazem ter um respingo de otimismo, além do lançamento do livro. Daqui uns meses meu sobrinho chega por aqui e o nome dele vai ser Rodrigo.

Sinto meu corpo se impelir, o dia é ruim, mas vale a pena continuar. Carrego grandes ambições e sei que não posso falhar.

Decidi que não falharei.

Crônica de segunda-feira, 06 de julho de 2020.

Nove x Segunda

Nove vezes segunda
Digo e espero mudanças
A rua continua imunda
Eu sigo sem esperanças
O mundo vai mal
Tudo fica mais vexatório
Agonizamos até o final
em nossos próprios velórios
Nove vezes segunda
Repito sem qualquer apreço
Nunca sei o que dizer
A gente apenas se afunda
Isso não é o que eu mereço
Preciso me entender
Nove horas da segunda-feira
Esta especialmente feia e eu
Já sorvi minha quarta xícara de café
Minha alma aventureira devaneia
com a solidão que me permeia em outro continente
Um longo passeio a pé
Nove vezes segunda
Nada mais será como antes
Troque galhos, mantenha raízes
Um dia especial na Barra Funda
Passados e ontens tão distantes
Outra vez seremos felizes
E por nove vezes nesta manhã
Juro quase ter desistido sem tentar
Por nove vezes segurei minhas pontas
E mantive a cabeça no lugar
Tudo parece vil e infante
neste instante, porém,
Vou Além, pois sei,
A vida vai melhorar.

Menos que antes

Menos que antes,
Muito mais que agora
Menos que mero instante
A vida crescendo lá fora
E pesa no meu peito
O que deixei por fazer
O que poderia ter dado jeito
e preferi esquecer
Menos do que o futuro
Muito mais que o presente
O jornalista busca o furo
O dentista arruma os dentes
Menos do que pude supor
Mais do que poderia doer
A imaginação me causa uma dor
que eu preferia não ter
Menos do que o merecido
Sobrepujado pelo cansaço
Fui suficientemente ferido
Confundem minha pele com aço
Até onde eu sei ainda há diferença
Todos parecem se importar com tudo,
Menos com a minha presença