Coisas Pequenas

O inferno é apenas a mais violenta das metáforas. Fecho os olhos e me vejo nos fiordes, ainda que nunca tenha estado lá. Sinto que a minha alma pertence aos locais inabitados e gelados, ainda que a minha presença seja sempre tão expansiva e quente.

O inferno é a mais agressiva das metáforas. Nossos temores, sejam infundados ou não, trazem terror ao cotidiano e preenchem a mente, ainda que não exista razão consciente e real para que permaneçam nela. Revivemos automatismos e procuramos o sofrimento. O inferno não existe nos outros e sim em nós mesmos.

Fiz de mim o que não soube. Há coisas que ainda não digo por não estar preparado para dizer ou por não ter a convicção de que aconteceram. Será que devaneei acordado com pesadelos quase táteis? Inventei o que me atormentou? O que era real parecia sonho e imaginei coisas que eram mais palpáveis que a realidade que eu tocava. Vi o rosto do amor em um mergulho na imaterialidade de mim e chorei, perdendo-me pela primeira vez em décadas. Sorumbático avancei, mesmo que minhas pernas estivessem trêmulas e que o medo fosse sufocante. As trevas se aproximam para todos e não há como evitar. É preciso sobreviver.

Sei que continuar é uma necessidade e estou cansado de ver meu suor pingar vermelho. Sei que, vez ou outra, não me reconheci quando defronte ao espelho. Devo lutar pelas recompensas, ainda que eu já as mereça. Vejo-me abandonado e com a barba bagunçada e espessa. Fito meu rosto cada vez mais magro. Quando todas as portas se fecham, eu outra vez me ergo e me abro. Mostro ao mundo um pouco mais. Tento com um pouco mais de força. Arrisco com um pouco mais de coragem, pois a vida é uma estrada que se pega e milhares que se deixam. Despenco no chão, mas me levanto e caio de novo para me perceber capaz de levantar outra vez. Se perdi tudo é sinal de que não tenho mais nada a perder.

Induzir-se propositadamente a uma letargia de sentidos é uma atitude perigosa. Fechar os olhos para os próprios anseios e desejos e encarar a vida somente pela perspectiva alheia é correr o risco de matar a própria personalidade. Podemos estar enganados sobre tudo e essa consciência é simultaneamente libertadora e assustadora. Nossos amigos podem nos trair. Nossa família pode nos machucar. Nós podemos estar terrivelmente enganados a respeito de nossas certezas mais profundas. Nós podemos nos tornar antagonistas. Não somos maus ou bons. Todo vidro se quebra. Não há exceção para a regra. Somos frágeis e podemos nos despedaçar no chão, pontiagudos. Podemos fazer sangrar pessoas inocentes. Machucamos e somos machucados. Independentemente do desfecho, não somos anjos ou demônios. Nós somos apenas o que somos.

Acumulamos, assim, diversos equívocos e queremos o que queremos no momento exato em que queremos. A realidade me choca. Sobrevivo aos novos dias com a recordação de que tudo se finda. Lembrar da morte reforça o sentido da existência e torna nossa jornada mais linda. Não é errado ter suas balanças, mas tente ser coerente sempre que usá-las. Não feche os olhos para quando as pessoas que você ama fizerem coisas pesadas. Todos somos capazes de tudo. Valorize quem por mais vezes desconsidera a forma e exalta o conteúdo.

Nem tudo é dito, mas tudo é demonstrado. Coisas menores devem imediatamente serem deixadas de lado. Não aceite tudo e não se faça mudo. Não adianta fingir que a vida não é cheia de problemas. Aquele que não sabe perdoar apenas conheceu coisas pequenas. Supere essa quantidade enorme de desconfortos. Você pode tudo desde que ainda não esteja morto.

O paraíso é apenas a mais confortável das metáforas. Fecho os olhos e me vejo nos fiordes, ainda que nunca tenha estado lá. Sinto que a minha alma transborda cada vez mais através de minhas atitudes, mas precisei errar muito para começar a acertar. Senti como se estivesse por um fio, mas através de epifanias me encontrei. O frio que senti nos climas mais quentes foi a maior prova de que me enganei.

O paraíso é apenas a mais confortável das metáforas. Ele também não existe em um lugar mágico e etéreo ou nos outros e sim dentro de nós mesmos. É comum que cada pessoa almeje um lugar tranquilo no qual possa repousar. A vida costuma ser tão dura que, às vezes, a gente só pensa em se deitar. Desta forma, procure valorizar quem aparece na sua memória quando você percorre suas estradas para locais seguros. Pense mais em construir pontes e menos em erguer novos muros.

Respeite seus limites e cresça um pouco a cada novo dia. Os seus erros não te definem, assim, arrisque-se com novas tentativas. Mostre a sua fibra e o tamanho da sua coragem, principalmente quando o mundo provocar todos os seus medos e reproduzir essa imensidão de horror. Quando a maldade de derrubar, lembre-se de que você pode se levantar, sorria e revide com amor.

Simplicidade

Meu irmão mais novo acredita em uma vida mais simples. Eu sempre o observo com certa desconfiança e tento compreender. Tudo pode ser assim tão prático?

Agora observo seu pragmatismo, sua lentidão. Ele dorme quase o dobro do número de horas que eu, mas é no gesto dele de preparar o tabaco para o fumo que me vejo mais distanciado dele. Somos diferentes e estamos distantes e não, o que prenuncia nossa distância não é o fumo e sim a paciência com que ele se prepara para fumar. Eu costumava saber levar tudo no ritmo certo. Quando foi que me perdi?

Eu o chamo para ir até a padaria e ele não quer. Eu digo para ele lavar a louça, pois vou para o quarto dia seguido e é a vez dele. A resposta dele é um dar de ombros com a frase pronta… Já vou.

E eventualmente ele vai, mas não .

Se alguns mosquitos aparecerem, ele pode de repente se sentir mais motivado. Se baratas surgirem no piso da cozinha, ele provavelmente intuirá que há algo sujo e estará coberto de razão. Se fosse receber uma visita especial talvez até limpasse a casa, mas ninguém aparecerá. Os mosquitos ele pode espantar com o repelente; as baratas ele esmaga impiedosamente. Está convicto de que a vida dele vai seguir independentemente do que aconteça.

Bebo um copo de água, mas não finjo prazer no gesto de sorver o líquido. Sei que tenho sido demasiado dramático e prolixo. Estou consciente de que me estendo muito e de que a vida seria mais simples se eu controlasse meus pensamentos.

Desde a infância meu irmão me observa e me admira e me enxerga como uma pessoa muito inteligente, mas olho e penso se a vida não é mais que essa simplicidade com ares de abstração, se é apenas um descuido cuidadoso em direção aos erros mais confortáveis ou ao alheamento completo. Não consigo me convencer e nem sei se quero.

Tanta gente tenta me convencer sobre tantas coisas todos os dias e sinto o peso deste mundo em mim. Sinto a intensidade da exaustão. Não quero preparar meu tabaco e tampouco desejo fumar, mas hoje vou tomar um banho demorado, beber uma cerveja gelada e pedir o lanche vegetariano pela sexta vez neste período em Cabo Frio, apenas porque tenho dinheiro para desfrutar destes prazeres simples e sinto que mereço esse conforto.

Provavelmente vou lavar a louça, retirar o lixo e arrumar a casa, afinal, não é preciso imitar tudo o que admiro em outra pessoa. Ainda assim, os discretos gestos de quem é tão calmo que parece não se importar com nada me ensinam uma grande lição.

E enquanto ele não pensa em muitas coisas, eu penso em tudo. Atinjo a exaustão mental, mas ele é o único de nós que dormirá tranquilo por incontáveis horas. Sorrio e me sinto mais tranquilo.

Pelo menos tomo um café a mais todos os dias e desfruto dos passeios matinais pela praia. Sei que isso é um privilégio só de quem acorda bem cedo, mesmo que seja para quase ser assaltado.

Abstração

A representação da vida como coisa real geralmente nos escapa.

Localizo-me no meu quarto e sinto o suor escorrendo pelas minhas costas e pelo meu antebraço. Anoiteceu outra vez e me pergunto sobre o que seria da minha vida acaso não houvessem novas noites. Poderia eu seguir tranquilamente em um mundo que só comporta o lume ou necessito da escuridão e da densidade noturna para certificar de que sigo cônscio e no controle de minhas próprias ações?

Tragédia mundana qual me sinto destinado. Posso acertar minhas próprias ações ou estou fadado a dar errado?

Vejo-os, principalmente quando não me vejo. Vejo-me, apenas quando deixo de ver o restante do mundo. Observo-os e me sinto arrefecer. Não me observo e sinto a minha ausência. Escrevo para diminuir a distância entre quem sou e quem sinto que deveria ser? Que é que deveria fazer para me aproximar mais de quem está tão distante? Existe drama qual devo me render que faça minha vida simplória mais elegante?

O silêncio devastador é interrompido pelo ronco incessante do motor do ar-condicionado. A gata preta desfila atravessando o espaço curto da mesa. Segue o seu rumo com passos delicados, repletos de requinte e, sem se encostar em nada, deita no meu travesseiro e só mexe eventualmente suas atentas orelhas.

O sono dos felinos, as sinas e destinos, os instantes de descansos breves e seculares, a inevitabilidade, a boa utilização do tempo, a individualidade, os lugares, tudo me torna mais leve e tudo também me torna mais pesado. Não divido meus fardos e nem os meus hábitos. Sei que preciso da solidão para sobreviver.

Abstraio-me do Universo e de tudo o que compõe a Vida e me sinto integrar o ambiente. Dura apenas um vislumbre de segundo, um intervalo tão fugaz, que nem o sinto na pele, mas é essa capacidade de me ver longe do mundo que me faz nutrir amor verdadeiro pelo verdadeiro Mundo.

Indago-me sobre Vida e Morte e sobre as próximas vidas que hão de existir após nossas próximas mortes. Haverá espaço e tempo para que tudo seja vivido e aproveitado? Haverá tempo hábil para que possamos realizar os sonhos que sonhamos? Haverá outras versões das nossas mesmas personalidades? Poderei deitar meu julgamento completamente subjetivo sobre a minha maneira de enxergar a existência? Outra vez me perco de mim. Enxergo todas as pessoas, menos a minha. Enxergo todas as dores, exceto a minha. Enxergo a felicidade dos mais próximos e não a minha. Que é que deveria eu fazer para me livrar deste insistente estado soporífero? Estou destinado a sofrer por um mundo que me ignora?

Príncipe diurno e deslocado de melhores horas. Sonhei-me regente em um mundo qual tudo era visto de dentro para fora. Vomitei os segredos da existência. Mergulhei no gélido oceano e me transformei em uma lontra comedora de ouriços-do-mar.

Acordo-me no mundo real, se é que faz sentido distinguir o território dos sonhos do território cotidiano. Sou o Senhor do Lago e devo fazer o que bem entender. Visto meu protagonismo como um super-herói veste sua roupa especial. Trago em mim todo o tipo de esperança vã e estúpida que me faz acreditar que posso modificar severamente os amanhãs. Onde estará meu futuro se me falho em modificar o presente?

Falho de novo e de novo. Sinto uma raiva que dura pouco. Sinto uma tristeza que persiste. A alegria pode ser disfarçada, mas não o sofrimento. Penso sobre as coisas que não posso tolerar e quase me pego chorando. Agradeço ao Acaso Divino que me fez estar com tanto sono.

Lá de longe me vejo e aceno. Estou defronte para as janelas límpidas com vistas enfumaçadas de uma fábrica que expele nuvens de fumaça branca, mas me sinto sereno. Lá de longe me vejo e não há engano. Há qualquer lugar qual sou novo filho do mar e desta vez sei que me amo. Lá de longe me vejo no clima impossivelmente gelado e distante. Talvez uma parte minha congele, mas eu sei que não volto o mesmo de antes. Lá de longe me vejo falando em japonês com os japoneses. Talvez eu me embriague em Tóquio enquanto canto meus maiores reveses.

Lá de longe me vejo acompanhado.

Lá de longe me vejo sozinho.

Lá de longe me vejo.

Lá vou eu outra vez.

Lá vou eu agora.

Lá vou eu outro dia.

Lá vou em uma nova velha vida.

Partícula irreal e incompreensível. Falhei na vida e no devaneio de minhas hipóteses. Falhei na imaginação e no sonho. Dormi acordado e vivi dormindo. Nunca encontrei o que me fosse agradável como qualquer tipo de resposta. Surgem mais perguntas e outra vez me vejo. Não há mais ninguém. Deixo de me ver e a vida inteira brilha e surgem mais uma vez as coisas todas que faltam.

O sono é o meu único Deus e rezo para que durma rápido. Divido-me entre a ânsia de sonhar e a vontade apressada de me lembrar detalhadamente dos sonhos. Pudesse eu me compreender nas partes quais não me compreendo e tudo poderia ser diferente. O que fiz de mim se calei quando deveria ter dito? O que ainda faço de mim se falhei em fazer deste um mundo mais bonito? O que fui falar quando não tinha mais o que dizer?

Amo como posso e sigo em frente. Sou como sou agora, mas talvez um dia escolha ser diferente. Que me julguem com ferocidade! Que me julguem com um caráter férreo e que eu seja alvejado! Que eu sofra com os dramas e dores do mundo! Um dia eu ainda melhoro! Um dia eu ainda mudo…

Andarilho cósmico,

Interplanetário,

Eu vi a escada de saída da Terra,
Eu também senti o cheiro de flores e ervas

Eu sei que há circunstâncias de melhorias e que eu não quero e nem posso morrer de um jeito estúpido ou banal. Não aqui. Talvez com essas pessoas. Talvez longe delas.

Quero falar outras línguas e admirar outros sotaques.

Quero que todos vejam na minha representação externa toda a capacidade estética e interna da minha alma. Quero a explosão do mundo em absoluta calma.

Hoje nenhum pedaço do planeta foi feito pra mim.

Um dia.

Ferro, vinho, romantismo, sono compartilhado e lucidez. Não sei quando, mas ainda chega minha vez. Até lá me valho dos inutensílios que encontro ao longo dos dias mais longos para continuar bem.

Isso de querer ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além.

Gastando palavras até que os dedos doam para confrontar qualquer resquício de vaidade. O sono me chama e em sonhos quero ficar face a face com a única Verdade.

Boa noite.

Crônica de Terça

Eu sempre parto para o ataque tentando frear quem lhe golpeia por suas vilezas, mas eu avisei antes e repito agora, você precisa ter mais clareza. Eles disseram que a culpa era sua, bom, eu insisti em te defender, mas não se vomita na sala de estar da casa dos outros, eu não lhe avisei? A culpa era realmente sua.

Não avisei? Eu sei que avisei e havia mais gente por perto. Agora você pode bater sua cabeça e pode também beber sua cachaça, seu gim, suas cervejas, eu juro que por mim pode até vomitar, entretanto, você não é um novato e conhece as regras, sem vômito na sala e sem trocar o canal da televisão. Tanto faz porra nenhuma! Etiqueta, seu idiota, você entende a minha fala. É preciso ter um pouquinho de bom senso. Eu sei, você é assim porque a vida é foda e tornou você assim, você sentiu falta de amigos e uma família mais dedicada e empenhada em te ver bem e feliz. Claro, eu sei, a culpa não é sua, eu posso pedir desculpas e você? Sei bem, eu me lembro bem, não foi criado assim, certo? Orgulho e boca grande em uma boca pequena. Cale a boca, por favor. Achegue-se mais perto para um conselho.

Ele se aproxima e quando está perto lhe acerto um safanão na testa. Agora desconfio que ele realmente tenha aprendido a lição. Há quem prefira do jeito mais difícil, certo? Não que ele fosse teimoso ou burro, bem longe disso, mas tinha uma mania de ser particularmente obstinado na produção dos próprios erros. Tudo era um espetáculo.

É uma tarde de terça-feira normal, mas ainda assim é diferente. Meus pés estão gelados, mas o dia está quente. Não temo ficar doente, pois tomo mel. Rio dessa piada que só eu sou capaz de compreender. Bom, terça-feira, o que existe de particular hoje? Sim, eu não me esqueci, hoje é aniversário do meu irmão, mas para a gata é só mais um dia e para o cão também, aliás, para eles não é dos melhores dias, pois eu não me sinto tão bem e eles se movimentam mais de acordo com a minha dinâmica. O amor que os dois nutrem por mim precisa de estímulos, sim, exatamente como qualquer amor. Alguma vez você já reparou como isso é curioso? Na falta da minha atenção, contentam-se ambos os bichos com a solidez da minha presença. A minha existência faz diferença para eles, ainda que para a hipótese do meu falecimento, eu me conforte em saber que eles seguirão acompanhando os outros membros da minha família. Respiro e observo os detalhes com atenção. A brisa passa por mim, mas eu também passo por ela. O cão escolhe o chão e fica bem próximo das rodas da cadeira giratória enquanto a gata dorme na janela.

Ando pela casa sem camisa e penso. Carrego quatro livros na mão direita, porém me falho no meu propósito. Tinha o objetivo de fazer o que mesmo? Olho para os livros, é isso, eu provavelmente queria ler e não consegui. Falhei outra vez em cessar minhas atividades e me concentrar em alguma outra coisa que, bom, eu talvez devesse me distrair ou talvez devesse me embeber de filosofias ou talvez devesse andar sozinho pelo mundo conhecendo e contando histórias e…

E respiro para me concentrar no que restou da tarde. Bebo uma xícara de café. Checo o site, vejo que não vendi muitos livros ainda, porém um sorriso escapa de meu rosto empedernido e frio. Eles gostam das minhas histórias e eu me pergunto o motivo. Não sei bem, mas se estabelece com mais firmeza aquele mesmo sorriso.

Não faço exercícios. Está muito quente e o meu nariz sangrou pela manhã. Consumi mais de cinco mil calorias ontem e antes de ontem e só tenho gastado energia nas noites quando sento na minha cadeira e teclo no meu teclado. Quero crer no mundo, mas ele parece todo errado. Quero fugir daqui? Quero mudar? Quero me apegar ao que sei não funcionar para manter a melhor ilusão de funcionamento? Não planto ideias por malícia ou interesse. Gosto do cru das pessoas e descubro na hora e pelo brilho no olhar sobre o que finjo que esqueço. Por essa percepção sensitiva eu sempre agradeço. Tornei-me o tipo sábio de pessoa que entende como a confiança é um prato que se come frio, porém insisto em confiar antes da hora para mudar o que vejo como reflexo deste mundo vazio. Preciso ser diferente para ansiar pela diferença, porém sei que a minha ingenuidade reverbera pela cidade o peso da sentença. Aceito o preço, escolho viver e sento outra vez. Escrevo.

Escrevo porque preciso conhecer mais do que o tudo
que eu já sei
Escrevo porque escrever é a única maneira de me tornar
quem sempre sonhei
Escrevo, ainda que existam muitas coisas melhores
para se fazer
Escrevo porque sou escritor e preciso me dedicar
ao sonho que tenho
Escrevo e vou continuar escrevendo e quanto ao resto
eu me abstenho
Talvez eu encorpore minha única

semelhança com Christopher Green
E saia sozinho para longe

para descobrir o que falta em mim
Talvez não falte coisa alguma

E escrevo
para que a minha originalidade
nunca suma
para que não mudem
os meus desejos
Escrevo-me porque quero e
para registrar minhas andanças
Escrevo-me, pois às vezes temo a morte
Quem sabe com um pouco de sorte
Postumamente eu causa alguma mudança.

Sinto fome e é hora de consumir mais calorias. Sinto-me feliz, pois elas se deixam ser consumidas e utilizadas. Já que não faço isso com ninguém, eu encontrei nas calorias estranhas aliadas. Sorrio triste ou entristeço sorrindo? Digito qualquer bobeira sentado nessa cadeira e admito que o dia seria melhor se eu estivesse dormindo.

Descuidado

Ando por aí, admito, descuidado demais. Outrora fui tão ferido que o medo do perigo não pude deixar para trás. E me consideram leigo, mas o que trago, eu juro, é invariavelmente trazido como qualquer coisa que se traz. E tudo passou. Os mestres linguistas me odeiam, mas não calham de me deixar em paz. Para trás nada vejo. Para frente ninguém mais traz nada, mas param para me olhar. Eu viro e levanto o dedo, ouso e digo sem medo: Você poderia apenas continuar?

Olha, eu não tenho conseguido manter meu interesse em nada. Sou honesto, mas você quer repelir minha honestidade com argumentos. Cada um com a sua verdade, não é? Seus caprichos são como o sopro do vento. Ainda que eu desse ouvidos, diga-me, o que pode querer tanto de mim? Desça sua tão potente verdade em cima de mim. Que se vá ou que fique. Honestamente eu tenho dado de ombros e tanto faz. Sempre escuto com muita atenção. Ainda que ninguém note meus poços de escuridão. A vida é o que a gente faz.

E lá vou eu outra vez. Vejo-me fora de mim, veja, lá vou eu. Eu ou ele? Se eu estou fora não posso ao mesmo tempo ser dois. Que é que há? Ela perguntou se eu realmente sabia algo sobre o que eu sei. Gargalhei e não pude evitar minha crise de riso. Veja a prepotência que carrega por aí todo filho de Narciso.

E lá vou eu outra vez. Nos meus bolsos sempre carrego um dado de vinte faces, uma pedra do meu signo e uma chave que nunca abriu uma porta. O dado decide sobre coisas importantes. A pedra me ajuda a ter um pouco de sorte. E na grandiloquência dos meus devaneios supus que a chave um dia possa abrir a porta para o amor. Por ora ela segue inútil, mas quem sou eu para reclamar de inutilidades? Não raramente sou tonto.

Há um paradoxo na busca pelas coisas que queremos. Atingi-las significa a obtenção do resultado final e com a recompensa a nossa luta deixa de ser assim tão significativa. Se você obtém o que quer possuir, o que é que pode querer a seguir? Se você mata os motivos pelos quais vive, pelo que viverá depois?

O sentido não pode se perder do sentir. O sentir pode se perder do sentido. Na busca de uma extravagância, ignoramos nossos próprios discursos na busca de viver a vida. Só a experiência nos permeia com o que não sabemos de fato?

E se você silenciar por muito tempo alguns pensarão que podem falar por você. Sobre você. E contarão suas próprias verdades ainda que eivadas em vícios tão esdrúxulos ou mentiras tão descaradamente falsas quais possam se valer. Eu erro ou acerto, mas não me omito. Isso não me faz melhor ou pior e a razão de me narrar não faz sentido.

Mudo meus caminhos. Toda velha estrada é inútil. Decorei os caminhos como havia decorado os telefones na época em que ainda se telefonava. Agora todos refutam ligações com o pretexto da conveniência de que nunca se sabe o que dizer ou o que conversar, mas é uma bobagem sem tamanho. Sempre sentiremo-nos assim tão estranhos?

Estradas velhas não levam a novos caminhos. Virei na esquina contrária, pisei de propósito na poça d’água, ignorei a chuva e entrei no meu carro. Passei por túneis que se pareciam com cavernas. Descobri-me meio louco, continuei mais um pouco e gritei até ficar rouco. Gargalhei mais do que qualquer outra coisa.

Ando por aí descuidado, admito, em todos os aspectos imagináveis. Não há quem me cuide, exceto eu mesmo. Nada me ilude quando percorro meus caminhos. Há tanta coisa que perdi, mas ainda que não me cuidem, alguns me acompanham. É bom ouvir sons de novos passos. Juntos, ainda que em pedaços. É tão bom não estar sozinho.

Onze e qualquer coisa da terça-feira. É hora de pensar nas obrigações de amanhã. É preciso encarar o trabalho que é trabalho aos olhos de todos e o trabalho que apenas eu considero trabalho. É como deve ser. Este texto leva de nada a lugar nenhum. Sentir-se vazio é algo comum. Não me permitirei, porém, que essa seja a temática dos meus dias. Preparo-me para dormir, escovo os dentes. Amanhã é dia de ser feliz.

Tomates

Vou ao mercado. Desço pelo elevador e entro no carro sem ligar a música. Sincronizar o bluetooth não é tão complicado como eu imaginava, aprendi dias antes, mas não me sinto paciente. Opto pelo silêncio e prossigo no meu caminho. Os campo-grandenses comem as faixas de sinalização como se estivessem com fome. Não é novidade, porém, impressionam-me os erros tão básicos em tamanha quantidade. Estaciono, tranco o carro e entro no mercado. 

A primeira coisa que faço é óbvia. Consulto minha lista de compras: tomate (3), cebola (3), maçã (2), ovos, suco (2), iogurte (5), pizza de frigideira (5), pão integral (1), leite. Decido que vou tentar fazer isso velozmente. Pego uma cesta para segurar minhas compras nas mãos, pois admito que pegar um carrinho seria exagero. Inicio minhas compras pelos tomates e o primeiro que pego parece zombar de mim.

Que é que tenho para ser efetivamente zombado por um tomate? Escondo o tomate zombeteiro ao fundo e seleciono outro. O segundo tomate é incomumente vermelho escuro e isso me irrita. O terceiro é extravagantemente verde e isso não é certo. O quarto possui tantos machucados e cortes que parece ser um tomate que sofreu ao longo da vida. Como é a vida de um tomate sofredor? Respiro fundo e olho bem para cada tomate. Eles não me olham de volta. Escolho três que não me parecem tão ruins assim e sigo. 

Pego três cebolas boas, duas maçãs adequadas e com facilidade acho o pão integral da única marca que gosto, mas o fim do mundo se anuncia junto com a traição do mercado. Os sucos não estão nas prateleiras de sempre, pergunto sobre o paradeiro das pizzas e sou informado de que elas estão esgotadas. O único iogurte que achei está vencido e me enraiveço com o preço do leite. Impaciente e quase sem escolhas, eu opto por levar duas cervejas, única promoção disponível, mas o que me tira do sério é que resolveram mexer até no mercado. A mania idiota de mudar tudo de lugar!

Uma criança me encara enquanto pago. Loiro, magro e provavelmente com uns nove ou dez anos de idade. Ele me olha fixamente e eu faço um sinal positivo para ele. Como quem antecipa meu dia de estresse, ele pega repentinamente o saco de tomates do carrinho de sua mãe e me mostra. Rose, a atendente, observei bem no crachá, estende o meu troco enquanto eu abafo a vontade de rir. O loirinho corre de volta para os corredores do mercado. O que anuvia minha mente repentinamente desaparece. 

– Boa noite, senhor. – Fala a mulher com uma voz agradável e simultaneamente mecânica. 
– Boa noite, Rose. Tenha um ótimo resto de semana. – O rosto de Rose se ilumina e ela fica feliz com quem pôde notá-la. O menino salvou a minha noite e me protegeu dos tomates; eu fiz o meu dever e fui educado como se deve, mas como sei que raramente são. 

Pego minhas compras, volto para o meu carro e sigo para a minha casa. Não quero passar perto de tomates hoje. Penso em prometer que não vou me estressar mais durante a semana, direciono meus pensamentos para o café da manhã de amanhã e sou tomado por uma súbita decepção. Esqueci os ovos.