Simplicidade

Meu irmão mais novo acredita em uma vida mais simples. Eu sempre o observo com certa desconfiança e tento compreender. Tudo pode ser assim tão prático?

Agora observo seu pragmatismo, sua lentidão. Ele dorme quase o dobro do número de horas que eu, mas é no gesto dele de preparar o tabaco para o fumo que me vejo mais distanciado dele. Somos diferentes e estamos distantes e não, o que prenuncia nossa distância não é o fumo e sim a paciência com que ele se prepara para fumar. Eu costumava saber levar tudo no ritmo certo. Quando foi que me perdi?

Eu o chamo para ir até a padaria e ele não quer. Eu digo para ele lavar a louça, pois vou para o quarto dia seguido e é a vez dele. A resposta dele é um dar de ombros com a frase pronta… Já vou.

E eventualmente ele vai, mas não .

Se alguns mosquitos aparecerem, ele pode de repente se sentir mais motivado. Se baratas surgirem no piso da cozinha, ele provavelmente intuirá que há algo sujo e estará coberto de razão. Se fosse receber uma visita especial talvez até limpasse a casa, mas ninguém aparecerá. Os mosquitos ele pode espantar com o repelente; as baratas ele esmaga impiedosamente. Está convicto de que a vida dele vai seguir independentemente do que aconteça.

Bebo um copo de água, mas não finjo prazer no gesto de sorver o líquido. Sei que tenho sido demasiado dramático e prolixo. Estou consciente de que me estendo muito e de que a vida seria mais simples se eu controlasse meus pensamentos.

Desde a infância meu irmão me observa e me admira e me enxerga como uma pessoa muito inteligente, mas olho e penso se a vida não é mais que essa simplicidade com ares de abstração, se é apenas um descuido cuidadoso em direção aos erros mais confortáveis ou ao alheamento completo. Não consigo me convencer e nem sei se quero.

Tanta gente tenta me convencer sobre tantas coisas todos os dias e sinto o peso deste mundo em mim. Sinto a intensidade da exaustão. Não quero preparar meu tabaco e tampouco desejo fumar, mas hoje vou tomar um banho demorado, beber uma cerveja gelada e pedir o lanche vegetariano pela sexta vez neste período em Cabo Frio, apenas porque tenho dinheiro para desfrutar destes prazeres simples e sinto que mereço esse conforto.

Provavelmente vou lavar a louça, retirar o lixo e arrumar a casa, afinal, não é preciso imitar tudo o que admiro em outra pessoa. Ainda assim, os discretos gestos de quem é tão calmo que parece não se importar com nada me ensinam uma grande lição.

E enquanto ele não pensa em muitas coisas, eu penso em tudo. Atinjo a exaustão mental, mas ele é o único de nós que dormirá tranquilo por incontáveis horas. Sorrio e me sinto mais tranquilo.

Pelo menos tomo um café a mais todos os dias e desfruto dos passeios matinais pela praia. Sei que isso é um privilégio só de quem acorda bem cedo, mesmo que seja para quase ser assaltado.

O que tenho tentado dizer

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Sobre estes tantos ensaios dos quais tenho falado, recorda-se? Claro que sim, eu insisto em perguntar por teimosia, aprendi bem, cascas de cebola e coisa e tal, mas se descascarmos o bastante vamos amadurecer e chorar, certo? Claro, é óbvio, mas a cebola quase sempre faz uma diferença incrível no sabor dos pratos, não é?

Perceba, por favor, eu disse antes que todo mundo sangra igual, você ainda se lembra? Note que existe essa inevitabilidade das coisas inevitáveis, bem como há memória das coisas inesquecíveis, embora eu tenha lido uma pesquisa recente que afirma que somos capazes de adulterar quase trinta por cento de uma memória original. Bem, eu não sei quem são esses pesquisadores, mas torço para que estejam errados, se eu pudesse, você bem sabe, eu preservaria a integralidade de todas as minhas memórias mesmo depois da morte, sim, até o que mais me machucou eu guardaria, veja, o sofrimento já foi necessário como prova da minha existência, não, nada mais adiantava, eu beliscava minha própria pele para saber se ainda estava vivo e sentia uma quebra de expectativa da realidade quando eu mesmo tornava minha vida salgada através do choro. Bem, eu não sei se você vai acreditar nos pesquisadores, mas talvez valha a pena crer neles, afinal, é melhor acreditar em algo do que em nada e confesso que tenho verificado no cotidiano essa espécie de necessidade insistente em confiar nos números. A matemática e os cálculos e os gráficos revelam muitos dados, porém quase sempre ensinam pouco.

Não através de minha própria sensação, mas pela impressão que nutro pelo que é sensação alheia, eu sou Eu e simultaneamente sou outro. Choro pelas dores alheias como se elas não me fossem avulsas e me flagro atônico pela minha capacidade de desdobramento. Minhas lágrimas se unem com o choro de todos os outros seres vivos do mundo e os rios salgados escorrem em mim. Olha, eu talvez esteja me expressando mal, mas eu falo quase sempre tudo nas entrelinhas, eu sei, você é míope assim como eu e não deveríamos exigir tanto de nossos olhos, mas escute o que eu digo quando me calo e não procure oportunismo nas palavras que falo, não, não é um jogo, eu sou só ligeiramente invertido ou só e ligeiramente invertido.

Por sermos gigantescos e expansivos incorremos às contradições e é pela vastidão dessa imensidão de alma que tenho que ficar defronte ao Propósito. Espere, eu estou delirando, veja, antes isso era algo raro, mas começo discorrendo sobre uma coisa que subitamente se torna outra e quebro barreiras, sem me fingir e sem me fugir, cônscio de que sempre me alcanço, mas eu estava tentando falar sobre o que há de mais puro meu em mim e me peguei evitando um assalto óbvio, comemorando três gols no Atlético Mineiro e observando meu irmão fumar na sacada enquanto evitava uma vontade crescente de vomitar, eu sei que soou confuso, mas a vontade era minha e não do meu irmão e você precisa entender que isso nada tinha a ver com o cheiro da fumaça, mas sim com a minha alimentação irregular na última onzena.

Sabe, eu tenho tentado extravasar através dos textos a criatividade da minha alma e digo muito para falar algo que sinto em síntese. Nada em mim é minúsculo, mesmo assim não consigo me ver grande. Imagino-me diante do Propósito ou tagarelando em um bate papo sincero com o próprio Criador e me pergunto sobre essas coisas todas que nos colocam um sorriso no rosto e que nos dão uma satisfação ancestral. Conforto, carinho, prazer, segurança, amor. Que há na vida além do conforto, do carinho, do prazer, da segurança e do amor?

Meus olhos brilham quando falo de livros e você deveria ter sabido, bom, eu acho que na verdade você sempre soube, eu nunca escondi de ninguém, exceto de mim quando não conseguia confessar nem em sussurros o que berrava interiormente no meu âmago.

Olha, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, percebe? E tenho sofrido em silêncio, pois acredito que a dor precisa ser entendida para ser compartilhada e, bom, eu não sinto como se os outros pudessem realmente me entender. Sabe, eu às vezes imagino o passado, anos antes, tudo o que houve através das décadas e localizado atemporal, percebo-me no presente momento e compro uma certeza de que existiram milhões de seres incompreendidos. Às vezes soa como um castigo que só piora quando é dito em voz alta, pois à luz da explicação tudo se torna ainda mais baço e confuso aos outros. A minha clareza parece ser antagônica ao meu destino. Esforço-me, mas de quando em quando me sinto só mais um menino.

E invejo o Peter Pan que pôde nunca crescer.

Na Terra do Nunca guardei teus melhores sorrisos, mas o Nunca crescia avassalador para tantas pessoas que tive a presunção de me imaginar capaz de fazer algo pelos tantos que se esquecem da própria individualidade e que refutam qualquer chance de correr atrás dos sonhos. Há resgate para quem não se resgata?

Convenço-me de que o rapaz Davi queria me assaltar. Eu estava “dando mole” ou “de bobeira” na praia às 6h18 da manhã escutando Lord Huron e me sentindo um fantasma personificado, quando ele surgiu subitamente. Não, na realidade não foi tão súbito assim, eu o vi quatro ou cinco segundos antes quando ele descia de uma duna de areia e deslizava rapidamente até o meu encontro, mas o esperei. Como evitá-lo em alguns segundos? Havia motivos para não aguardar por este encontro inédito?

– Oi, eu sou o Davi.
– Oi, Davi.
– Eu tenho 23 anos e você?
– 28.
– Você é daqui?
– Sim.
– Daqui da região?
– Sim. Daqui da região.
– Mora aqui perto?
– Sim. Davi, eu não tenho o costume de parar minhas caminhadas matinais para falar com estranhos. Vou indo pra lá. Pra casa. Tchau.
– Poxa! Vamos conversar mais um pouquinho. Ei! Vamos conversar!

Reli o diálogo sem destacar minhas impressões e nu de todas elas encontrei inocência no papo rápido com o jovem rapaz. Evitei relatar que ele me olhava com uma particularidade estranha e que exibia no cenho uma expressão vitoriosa, como o caçador que observa a caça e sabe que não há como perdê-la. Omiti que Davi estava demasiado perto e que falava como se me sondasse. Sondava? Não sei dizer, mas quando um velho de peito cabeludo passou em uma corrida matinal, eu aproveitei a chance de deixar o rapaz para trás e segui o atlético idoso. Que se passava na cabeça de Davi? Será que era realmente possível que ele estivesse tentando assaltar alguém não muito depois do sol nascer? Se não era este o caso, pergunto-me o que fazia o rapaz na praia? O que ele pretendia com o diálogo? Desconheço o sujeito e não posso supor opiniões por ele, ainda que eu tente.

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Sobre se colocar no lugar do outro e sobre nunca ser o outro e tenho tentando ainda mais, você nota? Discorrer sobre a importância dos contos de fadas que nos ensinam sobre como é fundamental conhecer um caminho e seguir por ele, ainda que o caminho mude e você mude também. Olha, se toda história contada não revela algo do contador em contraste com o leitor. Olha, se o que aprendemos de um jeito não aprendemos de outro. Olha e veja, se pequenas decisões não fazem grandes revoluções e se os menores já não mudaram o destino do mundo. Olha, eu fiquei acordado até mais tarde para tentar esvaziar meus pensamentos, mas acontece que toda vez que eu os escrevia, eu pensava ainda mais, não só nos pensamentos anteriores como em alguns outros tantos inéditos, assim, sem cessar de cogitar ideias, eu persistia insone e distante das distrações. Quero me distanciar? Certamente não.

Tenho pensado em coisas que são apenas o que são e que jamais se revestiram de outra coisa qualquer. O valor de uma amizade desinteressada, mas nunca desinteressante, destes amigos que se olham nos olhos como iguais e se escutam e se compreendem, sem vícios ou segundas intenções. A relação do satisfeito homem do campo com a terra, o balanço entre a vida e a morte, a idolatria das crianças pelos adultos e o constante desejo dos adultos pela infância. Cada coisa é o que é, ainda que em tudo se detecte uma vontade vadia de ser outra coisa ou de fazer querer parecer outra coisa. Como então solucionamos tantas divagações?

Talvez não sejamos capazes. Não fosse suficiente sentir náuseas por tantas horas consecutivas, percebi-me piorar com a notícia do escárnio dos poderosos que se ergueram acima do Bem e do Mal. Sentenças inéditas envergonham o país e o povo e não parece existir esperança para coisa alguma.

Olha, eu tenho tentado não pensar nos demais males do mundo, você bem sabe, eu tenho tentado não me assustar, mas sonho com guerras e sou acordado por diabos, atormentado por fantasmas e lidero a perseguição contra a minha paralisia. Quero abraçar responsabilidades e fazer algo pelos outros, mas sinto que só sei escrever e, para ser honesto, às vezes até em escrever me falho.

Olha, eu sei que você quer esquecer discretamente e se entregar ao sono e, bom, eu sei que você percebeu tudo o que quase todos ignoraram. Juntos retirávamos do mundo impressões mais positivas do essas todas que foram deixadas para trás. Ainda assim, eu espero que você não durma muito tarde e nem que acorde muito cedo e que se alimente bem e que nunca se esqueça que os animais precisam de atenção. Eu sei sobre algumas de suas impressões, sim, às vezes eu também quero segurar na mão de alguém que não seja falso e correr por um campo verdejante anunciando meu desespero incessante neste mundo sofrível. Paro e respiro. Eu preciso de ar para continuar a uma sequência profusa de pensamentos parecem despencar de uma egrégora invisível. Sinto como se mil espíritos sibilassem algo em meus ouvidos e os batimentos cardíacos das estrelas me convencem do impossível.

Tudo que é agora logo menos será outra coisa
Perco-me na tentativa de preservação
do que não se pode preservar
Temo perder tudo e afundar em solidão
Cesso o raciocínio e me entrego ao acaso
Imagino minhas entranhas se rasgando
E extraio de uma única alma a irrefutável verdade
Ouço sussurros milenares me preenchendo
E extraio de minha própria alma o segredo incognoscível
Fecho os olhos e se revela o mistério da existência

Pulsa em mim o desejo de não ter desejos
Ajoelho-me em uma poça de meu próprio sangue escuro
Compreendo idiomas quais nunca estudei
Transpiro a inutilidade do existencialismo
Sorrio com a gelidez corpórea da estreia de um ator no palco
Caminho pela praia com a serenidade de uma gaivota
O que sou nada representa ou significa
Sou só o que sou até o dia que não mais serei

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Que me lembro até quando me esqueço e de que o conhecimento que tenho é tão inútil quanto o conhecimento que ainda não tenho. De quando em quando acerto bons textos e eles se apresentam como inutensílios para pessoas que precisam se distrair. Sabe, eu capto gestos, detalhes, observo instantes e os guardo, pois a lembrança discreta pode ser mais valiosa do que a duradoura. Há gestos mínimos realizados em uma noite que deverão sobreviver na memória por anos. Seus olhos sempre olham e enxergam e este é o único orgulho que se pode ter dos olhos. Seus trajes protegem contra o frio perfurante e esta é a única serventia dos trajes. Divido-me entre o sono e a vida e, assusto-me ao pensar que o mundo todo continua acontecendo enquanto eu durmo. Talvez seja a razão por eu dormir cada dia menos.

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? E quando eu saí pela porta da frente foi por necessidade e para que a vida não tire de mim o pouco que sei que preservei apesar dos pesares. Sofro como sofro, amo como amo e escolho como escolho. A coragem de perseguir cegamente uma missão é uma loucura sem precedentes. Ainda assim gargalhei destes dias, apesar dos tantos acidentes. Se um piloto morre nos céus, ele morre fazendo o que amava. Nada mais que o voo lhe importou nem mesmo a própria vida que lá deixava. E alguns o chamarão de herói ou anjo, mas ele era apenas um homem determinado. Algumas pessoas são diferentes, certo, Rivière? Essas noites, hã? Melhor tomar cuidado com elas.

Sabe, eu tenho tentado lembrar de algo que li, bom, que todo mundo é feito de carne e pensamentos e só pode alcançar a beira da extensão, mas nunca o todo. Muitas coisas desaparecem, mas perceba que elas permanecem vivas como marcas de traumas ou de felicidades inenarráveis, veja que muitas coisas desaparecem, mas persistem existindo como símbolos imortais e imutáveis de algo que nos faz lembrar de ser o que somos, ainda que sejamos capazes de mudar sempre. Olha, pois o Sempre é uma esquina repetida e ficaremos uns dias ou uns meses ou uns anos sem nos encontrarmos, mas talvez eu ainda te veja todos os dias, todos os meses, todos os anos, mesmo que você não saiba. Olha, não é sobre vínculos, é sobre a docilidade sutil de algo que se prova e de que não se enjoa, veja, é sobre conforto, carinho, segurança, prazer, amor e muito mais. Olha, é sobre essas coisas que fazem os humanos mais humanos e menos exatos e que nos lembram que somos poeira de estrelas e de que Deus existe e possui um estranho senso de humor e que somos feitos de carne e osso e que inevitavelmente morremos no final, pelo menos por enquanto. Em qual esquina foi que eu li o letreiro com o Nome da Vida? Nada vale a pena. Tudo vale a pena. O amanhã é um deus morto até se tornar presente e realidade. Eu me sinto só, mesmo com tanta gente e praia nessa cidade.

Sabe, eu tenho tentando dizer essas coisas todas.

Mas não tenho conseguido.

Se a vida fosse fácil assim…

A madrugada se inicia e tudo parece meio estremecido quando eu repouso meus olhos no teclado. Observo minhas mãos, meus dedos, minhas marcas. Derramei quase dois litros de água fervendo na mão direita; quebraram o meu polegar da mesma mão no portão do colégio na infância; oito anos atrás, um espelho desabou em mim e quando pulei para trás, uma lasca pontiaguda fez um corte profundo no meu dedinho da mesma mão direita. É impressionante que nada de grave tenha acontecido com a minha destra, pois todos os castigos parecem direcionados. Fito-a como se ela fosse mais interessante do que é e penso nas ciganas espalhadas por aí que leem o futuro das pessoas apenas olhando as linhas das mãos. O que será que elas diriam de minhas linhas e do que me reservam os próximos anos?

Não é muito ortodoxo isso de arrependimento e menos ainda o arrependimento pelo que a maioria consideraria banal. Fui abordado na praia e não paguei R$ 10,00 para que lessem meu futuro. Quantas vezes não gastei mais dinheiro com coisas menos importantes que isso? Quanto poderia me antecipar ao que vivi acaso tivesse investido esse valor na previsão?

Os bons hábitos e as boas atitudes são geralmente recompensados. É certo que uma ação ruim gera inúmeras consequências e o efeito dominó pode ser terrível e assustador. A ação boa pode se encerrar nela mesma, mas fica a certeza que dela não pode nascer o mal legítimo. Ainda assim, eu às vezes me sinto tomado por indecisões. Ilusões antigas de poderes que nunca terei me atormentam. Qualidades honestas e não valorizadas nos estremecem na sequência do caminho do bem.

Se a vida fosse fácil assim…

Os ombros pesam com uma dor abrupta e violenta na madrugada que transforma um sábado outra vez em domingo. Quem saberá se um dia um sábado virou outra coisa? A força invisível e medonha se avulta pelas minhas costas. O ritmo da vida oscila, a melodia do tempo continua tocando e, perco-me. Se eu não sei o caminho, bem, qualquer estrada revela um novo começo, certo? Ainda que eu esteja sozinho, isso não quer dizer que caminhar sozinho nos faça estar em um deserto.

Creio em coisas pueris e sinto o peso do meu coração juvenil nas minhas decisões. Ter convicção é coisa para os malucos e ter coragem é coisa para os insanos. A sina pela qual geralmente responsabilizamos o destino é apenas um reflexo das maiores ideias, enfim, buscadas. Esperança é para os intrépidos que arriscam tudo, ainda que possam ficar sem nada.

Acendo-me na escuridão. Percebi-me apavorado na ausência de luz e não havia lâmpada que me resgatasse do breu absoluto. Todo grito chegava até mim como um sussurro fraco, semimorto. Toda voz era inaudível. Toda tentativa de resgate era vã, ninguém nunca me achava. No momento qual notei que ninguém poderia ser a luz que eu tanto procurava, eu brilhei e iluminei meu próprio caminho. Eu podia fazer mais do que supunha sozinho, ainda que a luz própria tenha sua verdadeira essência transmitida em auxiliar outras almas.

Enfrento a covardia, pois já fui covarde. Enfrento o medo, pois já fui medroso. Espalho mensagens de coragem porque o mundo é suficientemente venenoso. E necessito da minha solidão para me recuperar. Há quem se mergulhe tanto nas distrações que se perca do seu próprio lugar. Sinto-me livre daquele velho cansaço de alma e não sei dizer o que me incomoda tanto. Seria o clima quente ou como se apresenta de repente o pranto.

Se a vida fosse fácil assim…

A vida poderia ser mais fácil, os patrões poderiam pagar melhores salários aos empregados e os trabalhos poderiam ser mais tranquilos. Eu poderia acordar todos os dias como nos domingos desempregados e assistir aos jogos da Premier League e depois emendar na sequência os jogos do Brasileirão. A vida poderia ser mais fácil e eu poderia ter um computador que me permitisse ter um pouquinho de qualidade ao jogar meus poucos jogos e aqui, repito-me, a vida poderia ser mais fácil, eu não sou muito exigente, mas meu computador parece prestes a explodir.

Sinto-me superaquecido muitas vezes, assim, penso que posso imitar a máquina e desligar de repente. Certamente eu sentiria muita falta do meu computador, ainda que hoje ele só me facilite a vida por detalhes. Se, assim como o meu computador, eu pifasse, quantos sentiriam falta dos meus detalhes? Sinto falta das minhas manias mais absurdas e diminuí tanto a cafeína que quase não me reconheço. Há uma vida que valha a recompensa de não se viver como quer? Algo causa irritação. Inquieto-me. Que é que há? Alguém tenta me enganar.

Se a vida fosse fácil assim…

Se a vida fosse fácil talvez todos fossem honestos e independentes e eu não me sentisse tão preso ao que há e às promessas do que ainda haverá. O que é que acontece comigo que me pego no início de domingo pensando no que deveria acontecer para que a minha vida fosse mais fácil? Eu sei, entretanto, o número dos que vivem uma vida mais difícil é tanto incalculável quanto impossível. Que é que há comigo então? O que explica a minha sensibilidade tão insensível?

Desafogo-me das ocupações. É domingo. É preciso entender o tipo de dia, mas a semana soa estranha antes mesmo de ter se iniciado. Fito o caos do Universo pela janela fechada do meu quarto. Tudo ocorre distraidamente, imperceptivelmente, longe do terreno dos cálculos e ainda assim nos desdobramos para calcular. Temos um desejo insistente e ferrenho em gastar tempo com inutilidades, assim, tentamos calcular o amor, tentamos testar o valor das nossas amizades, tentamos antecipar os fins e inícios, tentamos protelar o inadiável e adiantar o que sabemos impossível trazer antes. Desafogo-me de novo, mas desta vez sinto a brisa fresca que me traz vida, a recuperação do fôlego, a necessidade da respiração, os pulmões funcionando e o peito arfando com a expectativa de sobrevivência. A consciência é a de que precisamos nos treinar, esforçarmo-nos em aprender a deixar partir tudo o que tememos perder. O único jeito de ter uma boa vida é formando uma convicção, uma firmeza férrea no autoaprendizado sobre a morte e sobre as coisas frágeis. Quando nos lembramos de que a vida pode ser apenas um sonho que se acaba, o que deixamos para trás?

Se a vida fosse fácil ninguém morreria. Estar cônscio de que um dia deixaremos este mundo para novas jornadas é um jeito não tão prático de admitir que talvez uma jornada só não seja o bastante. Quando terminarmos aqui estaremos felizes e satisfeitos? Se a vida fosse fácil todas as conclusões seriam lógicas. Demore-se um instante em observar o mundo. Analise se o conceito de que “todo ricaço é feliz“. Realmente corresponde com o reflexo da sociedade em que vivemos? Compramos os melhores sapatos para evitar o barro, não gostamos na sensação de pisar na lama, mas fingir que a lama não existe é algo mais fácil ou difícil do que aceitá-la e passar por cima dela, calçado ou não?

O mundo gira e eu giro também. Penso em coisas quais muitas pessoas alimentam o desdém. O Universo repara na nossa existência ou todos vivemos randomicamente e insignificantes? Mudamos em essência ou somos sempre os mesmos que fomos antes? Os dragões foram reais um dia ou são apenas metáforas? Eles cheiram a alecrim e manjericão? Eles carbonizam e esfumaçam tudo ou são apenas um vislumbre rápido e mágico de alegria? São sombras gigantes e verdadeiras ou só a personificação de um dos maiores mitos manifestados das nossas fantasias?

Vou distante ou voo distante e, sinto-me livre. Meus pensamentos podem se dispersar sem qualquer compromisso com a realidade. Vago para campos verdes e cachoeiras e montanhas nevadas e lugares quais nunca vi. Sinto o peso de uma espada e o fio de sua lâmina. Poderia lutar agora, se a luta fizesse sentido, mas certamente não faz. Se as pessoas se amassem mais, fossem mais diretas, menos abjetas, mais constantes, menos briguentas, mais empáticas, se os patrões pagassem melhor e se preocupassem com os funcionários, se não enfiássemos tantas distrações no meio das coisas importantes, se olhássemos para os planetas e para as estrelas e para a lua, se não nos esquecêssemos do nome das pessoas e nem detalhes das ruas, se cuidássemos das coisas frágeis, se prestássemos a atenção nas cores e nos animais, se dançássemos conforme o caos da desordem sem nexo, se não nos comportássemos como bichos selvagens em relação ao sexo, se observássemos mais a forma que o conteúdo, se não usássemos o pretexto divino e o próprio Deus como escudos, se encarássemos um dia por vez, se não fôssemos tão obcecados em falar inglês, se tudo o que fizemos errados pudesse ser refeito pelo menos uma vez.

Se a vida fosse fácil assim…

Crônica de Segunda

Sinto uma espécie de preguiça que se alterna em raiva e lamúria. Queria dizer coisas bonitas, mas começo a minha crônica em fúria. Respiro fundo e desacelero o mundo sempre acelerado. A vida vai acontecendo, mas a letargia dos sentidos me faz pensar que não tenho feito o suficiente, que certamente não tenho sido bom o bastante.

Os que me conhecem o suficiente sabem me ler, mas quanto me conhecem tão bem? Quase ninguém. De repente noto que talvez não saibam o que fazer com a informação que adquirem na leitura dos meus gestos. Será que apenas não se importam? Bebo uma xícara de café e tento enfrentar o dia que se anuncia. O desemprego ainda me assombra e sinto uma vontade desesperada de trabalhar. O que é que devo fazer com o meu tempo quando não há sequer sinal de misericórdia da vida que se debruça sobre nós?

Sacudo os lençóis e vejo uma discreta nuvem de poeira. Prendo a respiração, mas não adianta. Tenho uma crise alérgica do mesmo jeito e agora sei que só vou parar de espirrar daqui a duas horas. Amanhã é o dia da mudança ou terça ou quarta. Eu quero sair logo daqui, mas vou sentir saudades deste apartamento e deste quarto e desta janela. Será que minha gata e meu cachorro vão se acostumar? Viver nos surpreende a cada momento e quando de ausências me entupo é que me sinto verdadeiramente farto. Do que sinto saudades, afinal?

Olho de longe os ingênuos e os imbecis. Os primeiros acreditam em todos os amores, todas as alegrias, todos os sonhos. Os segundos creem que podem levar uma vida de enganações, de armações, de cenas e isso sem nunca cair do cavalo. E eu sou o ridículo por escrever romances, contos e poemas. Sou eu que eles querem ver escoando pelo ralo.

A ridicularização dos outros nunca para e devo insistir em acreditar em mim. Querem nos impor uma vida normal, logo ali, a camisa pesada entorta o varal e eu sei que deve ser assim. Resisto ao vento.

Vigia de marfim do choro silencioso em uma madrugada discreta. Há quem toque profundamente nossas feridas secretas?

A prolixidade me faz continuar, ainda que eu não saiba bem para onde seguir. Às vezes queria estar na praia, no passado, no futuro e até em Paris. O passado é suave, mas está onde deve estar. Tiro de pistola na cara das lembranças. Não volte, não me incomode, não implore. Uma epifania me acomete e sei que estou exatamente no tempo qual devo habitar.

Lá em cima uma estrela despenca. É só a morte do brilho ou a chance de um desejo?

Almoço placidamente e assisto alguma coisa na TV. Lancho placidamente e tento olhar para a direção qual ninguém quer ver. Pessoas que se evitam e nunca se combatem às vezes me assustam. Como encorajá-las se preferem fingir que não há problema?

A cena se reinventa e eu sigo meu dia sozinho. Escrevo para me gastar, sinto que preciso me cansar e não quero deixar nada no caminho. Meus bichos me dedicam hoje o amor que tanto preciso. E bebo mais uma xícara de café, pois é o que me faz suspirar e oferecer meu sorriso.

Outrora muito elogiaram meu sorriso por aí. Nos bares, nas esquinas e nas palavras de gente que talvez eu devesse me lembrar, mas só me recordo de que esqueci. Alongo meu corpo e faço trinta, noventa, duzentas e cinquenta flexões. Quem dera o exercício físico fosse o suficiente para me livrar das alucinações.

E escrevo assim como bebo café. Preciso e gosto e gosto de precisar.

Qualquer conto acontece e muda o panorama dos dias atuais. O livro que a gente agora entende no instante seguinte não entende mais. E quem não se valha geralmente falha e se esforça em compensar para nunca deixar de surpreender. É na leveza que reside a verdadeira beleza e todos seus caminhos sempre te levam de volta até você.

Escuto minhas palavras e percebo que estou falando comigo. Já é segunda-feira e chega o fim da tarde e ainda agora eu jurei que era domingo. Estou preso em algum lugar sem acesso? Precisarei do Guia para avançar com sucesso? Neblina. Observo-me sem me ver, pois dificilmente tenho conseguido enxergar muito em frente. Às vezes este mundo vil pesa nas minhas costas, mas não desisto de ser diferente.

Quatro horas da tarde é a hora da sexta refeição do dia. Um pedaço de bolo, uma fatia de pão integral com manteiga de amendoim, uma maçã mais gostosa do que bela e outra xícara de café. Meus dedos se sentem apaixonados pelo teclado e ensaio meu único tipo de fé.

Em alguns dias algumas coisas acontecerão e honestamente não sei o que se sucederá. Espero o livro de contos vendidos, o extermínio do Corona Vírus, um abraço nos amigos e assistir jogos de futebol sentado no sofá. Agradeço por quem me ampara quando o mundo me balança e me lança ao chão. Agradeço por quem se separa para dividir o fardo deste meu coração.

E há notícias maravilhosas que me fazem ter um respingo de otimismo, além do lançamento do livro. Daqui uns meses meu sobrinho chega por aqui e o nome dele vai ser Rodrigo.

Sinto meu corpo se impelir, o dia é ruim, mas vale a pena continuar. Carrego grandes ambições e sei que não posso falhar.

Decidi que não falharei.

Crônica de segunda-feira, 06 de julho de 2020.

Crônica Pregressa #4

22 minutos

Não há comoção que me demova e nem desconforto que me mova. Sou o que costumo dizer, mas, evito falar para que possa viver sem ter a pressão das minhas próprias palavras em mim. Sou sério e cético, geralmente. Creio, porém, nas humanidades mais desumanas e nos sentimentos alheios e invariavelmente afetados, como o amor. É impressionante o que se faz em nome de uma emoção, principalmente quando você batiza o sentimento com um nome. Você pronuncia o nome, o rosto se vira em sua direção e ali há o universo. Você repete o nome numa despretensiosa e chuvosa manhã de sábado qual acorda antes e observa o amor dormindo tão pacificamente ao seu lado. Lá fora chove, mas dentro o silêncio é adequado. De repente você sorri, pois descobre que o amor também ronca. A memória de uma lembrança perfeita se vai, pois perfeição não há e nem existe continuidade que continue suficientemente. O relógio é inimigo. Tudo se desfaz lentamente.

A narrativa se quebra e as reviravoltas da vida te atingem. Você recomeça, mas nunca mais ousa a batizar alguém com o nome do sentimento. Há agora uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas, todas as rugas de cansaço, todos os receios tão sutilmente invasivos flutuando pelo espaço. Você sabe que tudo está visível para quem enxerga bem. Há ali o resto do que ainda não se foi, mas discretamente também persiste a sombra do que um dia foi amor. Eu que olho e vejo, percebo-a como algo tão inútil, mas dou de ombros por saber que não há ali nada de errado. Todos somos insistentes no que já deveria estar ultrapassado. Sou especialista em gente, principalmente em pessoas amargas e gargalho sonoramente de quem cria personagens fictícios para se representar numa realidade que parece insuficiente. Confesso que rio deles, pois às vezes me pego nesta identificação recíproca. Ser um não basta. Queremos nos fragmentar para que exista uma chance mínima de que alguém compreenda nossas completudes. Somos seres vastos, raramente magnânimos, mas quando inundados por uma coragem súbita, buscamos imediatamente o que faz palpitar mais rápido o coração.  

Quando eu era novo, eu apenas agia ou deixava de agir. Nunca havia tempo para o pensamento demasiado e qualquer distração se preenchia de maneira suficientemente confortável. Quando a dor ocasionada pela solidão era exagerada, isolava-me em outros mundos. Fechava portais quais nunca deveriam ter existido em reinos distantes, vertendo-me numa utopia na qual eu personificava a coragem infinita do próprio menino que carregava a chave do reino dos corações. Gostava da poesia de sentir que as coisas estavam próximas, mas incrivelmente distantes. Não me cumpri em ideais, mas idealisticamente me tornei incomparável. Fiquei mais velho e mais sério. O trabalho dignifica o homem, mas o desgasta. Envelhecer dói e há ressentimento para com o relógio, principalmente quando sentimos que a vida está mais rápida ou lenta do que deveria. Captamos a distância entre nossas oscilações e compreendemos nossos ritmos, mas não existem mais ações impensadas (não completamente). Sabemos e temos a segurança do conhecimento, entretanto, às vezes escolhemos o escuro e a ignorância. Quando novo eu, não raramente, derramava-me por hábito. Não havia caixas guardadas em um porão secreto com coisas não ditas àqueles que se revelaram menos amigos do que supus que seriam; dos amores que não amaram; das pessoas que compraram a ilusão de que seriam amadas por mim e se decepcionaram. Não havia preocupação com quem se transformasse em cinzas no meio de meus tantos fogos cruzados e manias inequivocamente equivocadas, mas ao mesmo tempo tão singularmente minhas. Evito hoje o rastro de destruição por onde passo, mas talvez o faça mais por conta de meu próprio cansaço. Conservo minhas excentricidades de outros tempos e as novas, mas não sou mais qualquer príncipe de melhores horas. Meço sucessos e fracassos sem ter a menor preocupação em diferenciá-los. O que se parece às vezes é igual. Tudo termina de modo semelhante para os que se cumprem e para os que falham.
Metáfora prolongada do brilho das estrelas. Outra vez calei minhas palavras com a impressão de que deveria dizê-las.

Pensei numa frase extremamente romântica, mas escolhi o silêncio, pois à época achei melhor não dizê-la. Quem sabe o receio tenha me afastado do brilho espetacular das estrelas. Como aprendi em quase um ano sobre mãos, sorrisos, bocas e gestos. Como entendi que quase ninguém me apreciaria por me derramar do meu jeito honesto. Bebi para perder o rumo, quando senti que o rumo era muito certo e quando não havia rumo, solidarizei-me com estranhos desconhecidos que sempre andam preguiçosamente em círculos sem saber para onde vão. Quando não havia ninguém, eu amei vultos que encontrei pelo caminho. Era preferível a ilusão do que crer em uma jornada feita por um homem sozinho. No Distrito Federal andava mais vagarosamente até o meu quarto de hotel e esperava que uma das tantas portas escancarasse de súbito um destino novo pra mim. Nada nunca acontece, exceto internamente. A imaginação inata é o nosso maior escudo contra a realidade, mas por vezes com certa crueldade deforma e piora o que já nos ataca. Um vacilo ao coração e repentinamente você se mata.

Mas olha… Tenho cinco minutos para terminar o texto e não sei o que devo escrever. Mas olha, eu queria te dar uma dica, mas nenhum conselho se fixa. Não sei o que vou fazer. Olha como a vida muda e as pessoas insubstituíveis somem e outras aparecem e você se acostuma. Olha como fica a saudade daquela memória embaçada na densa bruma. 

Tive 22 minutos para dizer algo precioso, mas falhei. Observei a minha família e fui feliz. Comi pizzas e fui feliz. Na minha boca, porém, gostaria de sentir outros sabores nos quais se reinventam vidas e renascem esperanças em amores… Queria acreditar que… Que entender a razão de… Queria querer menos do que quero ou queria querer diferente do que espero. Posso ser feliz de outros jeitos, eu sei, mas ainda não assimilei tanto assim como. Tenho um comichão que me faz estremecer. Queria ter um amigo para conversar, mas hoje é daqueles dias que todos desapareceram. Bebo água sozinho. Bebo vinho sozinho. Logo mais beberei cappuccino (também sozinho) e vou dormir com o meu cachorro. Eu morri hoje, mas amanhã eu não morro. 

Crôninca Pregressa #3

Receita

     Ouvi dizer que a felicidade era uma receita pronta. Bastaria que existisse dinheiro sobrando na conta. Ri do que supus ser presunção, mas sou eu o tolo de me preocupar tanto com a sensibilidade quanto com a razão? O tempo segue e eu não consigo deixar de me preocupar. Arrogantemente faço uma ideia virar certeza. Transformo-a em convicção. Agora sei que estou no caminho certo. Sei que os meus sonhos estão mais perto. Sei que este é o tempo perfeito para que eu viva a minha vida. Tenho uma fé grande em alguma grande coisa, mas não sei lhe dar nome. Geralmente converso com o Criador, mas as respostas não chegam como eu espero ou desejo. Tenho uma fé grande, mas não sei se Nele ou em mim. Não sei, enfim, se somos partes tão diferentes da mesma coisa ou partes iguais de coisas diferentes. Somos arquitetos, certo? Todos. 

     Tenho visto a vida em mim e nos outros. Somos avessos e ainda assim parecidos. Planejamos os passos seguintes, como se fosse possível. Temos a ilusão do controle, mas olhamos para trás e notamos que a vida passou rapidamente. Os dias, meses e anos voaram. Há coisas que perdemos e não há como recuperá-las. Amigos que se foram e nunca voltaram. Antes de ontem era natal, ontem páscoa e hoje maio. Ontem a mãe não admitia a gata em casa e hoje assiste a novela da noite lado a lado com a Nami. Os irmãos que assistiam animes juntos quando novos na sala estão em outra sala vivendo outras vidas e assistindo outras coisas. Rimos outros risos, discorremos sobre assuntos mais sérios e outros ainda mais bobos. Estou orgulhoso. Eu mesmo na infância odiei futebol e posteriormente reconheci no mesmo esporte o meu primeiro amor. O cão segue bem. Perfeitamente igual sempre, ele corre atrás dos seus brinquedos e faz o que sabe fazer: brinca, late e ama. Ainda bem que algumas coisas permanecem no lugar. Matamos algumas saudades, mas sabemos que ainda falta um específico abraço. Às vezes puerilmente impelimos o corpo à frente como se a pele fosse feita de aço. Viver machuca. Esquecemos do que importa e deixamos de ver com clareza. Forçamos para que morra a criança interna e insistimos que é impossível viver com leveza. Será? Não creio. Após a descrença bate na porta a velha hesitação.

Frequentemente falho. Sou soporífero na minha vez de montar guarda e cochilo nos momentos importantes. Fui surpreendido por um brilho solar em uma noite de carnaval e só queria ser capaz de dizer o que pensei ou pensar no que imaginei que disse. Tive medo de queimar minha mão, mas é o conselho da mão queimada que chega ao coração. Não deveria ter hesitado, certo? Não deveria valorizar quem acelera o tempo para fugir de mim. Não deveria menosprezar quem atrasa o relógio para passar mais tempo comigo. A hora não passa e eu conto os minutos para os finais de semana. Pelas novas manhãs, eu não tenho enrolado para sair da cama. Só vale a pena viver quando debruçado sobre as coisas que ama. Você ama sua vida ou vive para ser perfeito? Você é feliz assim ou força a felicidade de outro jeito?

     Eu costumava pensar que só seria feliz ao lado de alguém que pudesse ser legal comigo e que suprisse minha carência nos dias mais sombrios. Eu costumava pensar que nunca em minha vida eu seria capaz de ler mais que vinte livros. Também me enganei quando pensei que não poderia escrevê-los. Tentei imaginar um futuro pra mim, mas fui descobrindo minhas vontades e desbravando meu caminho à fórceps. Tive que me impor e lutar pelas minhas vontades. Eu me formei no curso errado e pensei que fosse a pessoa mais estúpida do universo, mas eu desconsiderei o quanto a experiência havia me lapidado. Eu melhorei. Passei a observar o mundo com meus melhores olhos, ainda que eles nunca tenham superado a miopia. Posso compreender o ódio. Já o senti. Posso compreender a tristeza. Certa época eu era a personificação da melancolia. Posso narrar a alegria. Sorri com a essência de minha alma para dezenas de desconhecidos em diversos aeroportos. A inveja não posso compreender. Nunca quis coisa que fosse dos outros e nem ser outro. Saber valorizar a vida que leva é um dos segredos que compõe o segredo maior. Às vezes acelero a vida e perco o que poderia ganhar, pois a pressa é inimiga da melhor visão. Quando a gente vive o dia atual com a lembrança de que este dia é especial e jamais se repetirá, bom, então o vivemos em plenitude. As árvores são mais verdes, os animais mais incríveis e até as refeições são mais saborosas.  Os sorrisos são mais largos, os abraços são mais longos e as brigas são mais curtas. Aproveitando como pode, você não deseja mais do que o que já acontece. E se você pudesse mesmo mudar algo na sua essência ou alterar algo que realmente fizesse a diferença?

     A novidade é que você pode. Tudo é a respeito da nossa jornada e sobre o quanto somos decididos sobre nós mesmos. Você pode se manter como está ou mudar e a mágica na simplicidade deste fato é que você pode fazer isso quando quiser. Eu escrevo livros e isso não me envergonha, embora muitos subestimem minha capacidade e superestimem a possibilidade de que eu passe fome futuramente. Punge-me apenas o fato de que ainda não fui analisado, mas é mais do que necessário ter esperança. Ainda chega a minha vez.

Enquanto isso faço outras coisas também e tento ser prático e criativo e profissional, mas deveria mudar toda a minha vida apenas para me encaixar no que uma imensa quantidade de gente infeliz considera ideal? É claro que não! Deveria escutar música baixa e tentar aquietar meus instintos de dragão? Não! Deveria esconder os defeitos que me tornam mais humano? Não! Deveria esconder os enganos se foram justamente eles que me fizeram crescer? Não. Ultimamente você pensa mais que os grandes filósofos e faz mais cálculos que Pitágoras. Nas noites mais intensas seus dilemas são profundos e você se preocupa com o futuro da humanidade. Às vezes é mais sensível que todos, às vezes é mais insensato. Às vezes baseia sua vida em imaginação e às vezes prefere os fatos. Qual é a grande maldade em admitir que somos inconstantes e oscilamos? Qual é a dificuldade em reconhecer que há enganos?

A felicidade está ao nosso alcance, por incrível que pareça. É possível tocá-la, senti-la, vê-la, se há um esforço razoável. Você, enfim, nota. Não precisa de minha ajuda para reconhecer que você apenas se limita ao que se sujeita. Nós todos temos mudado tanto e vivemos tão bem esses últimos anos que é fundamental ignorar a tal receita. Não escute o que todos falam. É preciso sentir para viver e também viver para sentir. Cada um descobre sozinho um jeito pessoal e exclusivo de ser realmente feliz.