Talentoso.

A estética de não precisar da estética me agrada e simultaneamente me sinto livre e aprisionado. Estar na distância curta da janela, das portas e saber que só posso sair quando puder sair, quando houver concluído minhas obrigações, isso me pesa o peito e me interrompe os sentidos. Não, na realidade, ainda que eu termine minhas obrigações, ainda que eu finde todos os compromissos pendentes em nome da empresa, eu só poderei sair quando o relógio superar às 17h00. Mal dou conta de respirar direito e sinto inveja do advogado que fuma no estacionamento para aliviar o estresse. Já não sei como não viver estressado. As empresas, sejam privadas, sejam públicas, zelam apenas por si mesmas e nós com nossas individualidades e necessidades básicas somos alvos de um descaso longilíneo e atemporal. Até as companhias e corporações mais cuidadosas secretamente não dão a mínima aos seus funcionários e olho pelas tantas janelas escuras sonhando com o vento gélido nos cabelos e com a ansiedade marcante de quem está prestes a embarcar em uma jornada.

Que será que sonham os caminhoneiros? Creio que seja mais fácil perguntar do que tentar os antecipar, entretanto, forço-me numa especulação presunçosa de me imaginar capaz de prever os sonhos alheios, ainda que saiba que este gesto mísero do meu esforço é insignificante. Ainda assim sonho que sonho seus sonhos como quem sabe que é preciso continuar sonhando a todo o momento, ainda que o estado soporífero invada o dia num horário péssimo. Tudo o que requer esforço se distancia das verdadeiras urgências do espírito e choro por me desagradar. A alma é uma criança mimada que se satisfaz apenas momentaneamente para logo em seguida querer uma nova travessura. Se nos olharmos profundamente, só veremos o fundo. O corpo possui inúmeras limitações, entretanto, o cérebro é irrefreável e a cabeça sempre pode aumentar de volume e comportar ideias novas. A alma é indefinível e indecifrável, porém, por vezes julgo que sei como lançar migalhas a mim e meu espírito diminui a urgência de consumir o mundo quando a minha fome é disfarçada. O hedonismo é funcional por algum tempo, mas não há desconto nos prazeres que nos faça evitar o Vide Noir por mais do que alguns anos. Nasci com uma estrela no lugar do coração e meus batimentos cardíacos são sincronizados com as constelações. Se tudo se apagar, certamente eu apagarei também. Quando este mundo cansar de me entediar, eu seguirei adiante para as novas galáxias, para as novas existências, para os campos mais verdes e flocos de neves mais brancos. Quando eu me cansar da vida e a vida se cansar de mim, partiremos por caminhos distintos, até nos reencontrarmos. Pergunto-me se a travessia é solitária ou se quem me ama ousará seguir comigo.

Interlúdio em mim após um suspiro alto. Atrás do vidro esverdeado eu me sento de frente para esta tela e do outro lado os caminhões passam e invejo os caminhoneiros, por controlarem máquinas, enquanto eu só sou auxiliado pela tecnologia a escrever mais um de meus textos banais e ridículos. Minhas rotinas são simplórias e de nada me adianta me antever gênio ou estúpido, porque ainda que gênio ou estúpido, não sou capaz de fugir da necessidade básica de frequentar os escritórios e viver essa rotina abençoadamente maldita. Se fosse estúpido o bastante talvez já fosse rico o bastante e se fosse realmente gênio, talvez encontrasse um modo de sobreviver sem me alimentar ou ir ao banheiro. Sinto pela primeira vez na vida a inveja e ela é quente, como meus dedos costumam ser, mas não me ataca, como meus dedos se habituaram a atacar. Percebo, sem choque, mas com certo desconforto, que ainda sou humano. Por vezes só queria que minhas mãos sentissem o volante e não que os meus dedos sentissem as teclas. Por vezes me sonho em estradas infinitas, como na rodovia de meus pesadelos e paraísos, a temível e majestosa BR-163. Quiçá ame a estrada apenas por ter sobrevivido e penso subitamente nos tantos que perderam suas vidas. Bebês que sobreviveram sem os pais, pais que sobreviveram sem os bebês, caminhões que amassaram carros como eu amasso uma lata de refrigerante ao pisar com força. Vidas que desaparecem. Tudo termina em nada e apenas as máquinas mais pesadas, vez ou outra, sobrevivem às colisões. O peso quase sempre vence a leveza. Quão certo sou das minhas certezas? O que guia nossas escolhas em direção ao futuro imprevisível? Será que um dia poderei folhear meus próprios livros?

Sem sombra de dúvidas, sem sobras, sem nenhuma alcunha alongada que não me pertença, por vezes queria que a vida fosse apenas escrever, até que subitamente me esqueço da escrita e vivo todo o resto da minha realidade, vida que na maior parte do tempo não me interessa. Vislumbro identidades, personas, sonhos, desejos secretos e temo os outros, provavelmente pela capacidade de se me refletirem. Se há neles tantas coisas malucas, se antevejo neles tantos desejos sombrios e maliciosos, quem disse que não há tantas coisas em mim também? Se não as acho, será que não olhei para dentro o bastante? Pelo medo dos outros aprendi a ter um temor ligeiramente sobrenatural a mim mesmo. Há medo por encararmos a finitude ou há medo por termos medo de nunca termos uma atitude? Que se prevalece após o esquecimento? O que não envaidece sobrevive além do tempo? Todos os meus esforços e horas de escritas foram resumidas em… talento. Como se meus dois mil e quinhentos textos fossem ocasionais, casuais, como se meus livros fossem escritos por alguma divindade, como se qualquer força oculta tivesse me empurrado para frente e eu, inerte e passivo, não tivesse o menor mérito sobre minhas conquistas. Olha, como aquele ali tem talento para a escrita… talento. Olha que o destino daquele um é ser escritor e Deus o olhou nos olhos dele e disse: – você sim, meu filho. Sem o talento e os gestos figurativos e falsos, sem as amizades verdadeiras e os surtos dos descompensados que não se admitem nunca errados, o que então me resta? Grito meu desespero no escuro. Será que algum dia dormirei seguro? Quanto mais tento ser dócil mais o mundo me obriga a ser duro.

Sobra-me o sangue quente nas veias e, vez ou outra, sinto-me mimado em meus caprichos. Há dias que sinto uma necessidade de isolamento, apenas por desejar que o mundo se faça segundo as minhas vontades. Se não me isolasse, lutaria para fazer com que todos me agradassem, entretanto, encontrei no instinto de isolamento uma fuga para minhas falhas mais humanas. Por ser cônscio do meu egoísmo, não me dou tantas asas e sou eu mesmo que me podo, quando no meio de um voo que me soa excessivamente extravagante. A vida está aí para ser conquistada e não me vejo distinto dos tantos que já fracassaram e se arrependeram. Insisto em ser real e isso me dói, por antever nos outros só a falsidade de não se serem. Insisto-me e me odeio, por não conseguir me fingir, assim, secretamente julgo que todas as minhas vontades quiçá irrealizáveis, fizessem a curva na metafísica e se ajoelhassem diante de mim. Por insistir, creio-me um pouco mais, como quem não ousa duvidar de si mesmo, por muito menos.

Como posso não crer em mim se nasci assim tão talentoso? Quanto tempo devo ficar em silêncio em um mundo permanentemente ruidoso?

Se a vida fosse fácil assim…

A madrugada se inicia e tudo parece meio estremecido quando eu repouso meus olhos no teclado. Observo minhas mãos, meus dedos, minhas marcas. Derramei quase dois litros de água fervendo na mão direita; quebraram o meu polegar da mesma mão no portão do colégio na infância; oito anos atrás, um espelho desabou em mim e quando pulei para trás, uma lasca pontiaguda fez um corte profundo no meu dedinho da mesma mão direita. É impressionante que nada de grave tenha acontecido com a minha destra, pois todos os castigos parecem direcionados. Fito-a como se ela fosse mais interessante do que é e penso nas ciganas espalhadas por aí que leem o futuro das pessoas apenas olhando as linhas das mãos. O que será que elas diriam de minhas linhas e do que me reservam os próximos anos?

Não é muito ortodoxo isso de arrependimento e menos ainda o arrependimento pelo que a maioria consideraria banal. Fui abordado na praia e não paguei R$ 10,00 para que lessem meu futuro. Quantas vezes não gastei mais dinheiro com coisas menos importantes que isso? Quanto poderia me antecipar ao que vivi acaso tivesse investido esse valor na previsão?

Os bons hábitos e as boas atitudes são geralmente recompensados. É certo que uma ação ruim gera inúmeras consequências e o efeito dominó pode ser terrível e assustador. A ação boa pode se encerrar nela mesma, mas fica a certeza que dela não pode nascer o mal legítimo. Ainda assim, eu às vezes me sinto tomado por indecisões. Ilusões antigas de poderes que nunca terei me atormentam. Qualidades honestas e não valorizadas nos estremecem na sequência do caminho do bem.

Se a vida fosse fácil assim…

Os ombros pesam com uma dor abrupta e violenta na madrugada que transforma um sábado outra vez em domingo. Quem saberá se um dia um sábado virou outra coisa? A força invisível e medonha se avulta pelas minhas costas. O ritmo da vida oscila, a melodia do tempo continua tocando e, perco-me. Se eu não sei o caminho, bem, qualquer estrada revela um novo começo, certo? Ainda que eu esteja sozinho, isso não quer dizer que caminhar sozinho nos faça estar em um deserto.

Creio em coisas pueris e sinto o peso do meu coração juvenil nas minhas decisões. Ter convicção é coisa para os malucos e ter coragem é coisa para os insanos. A sina pela qual geralmente responsabilizamos o destino é apenas um reflexo das maiores ideias, enfim, buscadas. Esperança é para os intrépidos que arriscam tudo, ainda que possam ficar sem nada.

Acendo-me na escuridão. Percebi-me apavorado na ausência de luz e não havia lâmpada que me resgatasse do breu absoluto. Todo grito chegava até mim como um sussurro fraco, semimorto. Toda voz era inaudível. Toda tentativa de resgate era vã, ninguém nunca me achava. No momento qual notei que ninguém poderia ser a luz que eu tanto procurava, eu brilhei e iluminei meu próprio caminho. Eu podia fazer mais do que supunha sozinho, ainda que a luz própria tenha sua verdadeira essência transmitida em auxiliar outras almas.

Enfrento a covardia, pois já fui covarde. Enfrento o medo, pois já fui medroso. Espalho mensagens de coragem porque o mundo é suficientemente venenoso. E necessito da minha solidão para me recuperar. Há quem se mergulhe tanto nas distrações que se perca do seu próprio lugar. Sinto-me livre daquele velho cansaço de alma e não sei dizer o que me incomoda tanto. Seria o clima quente ou como se apresenta de repente o pranto.

Se a vida fosse fácil assim…

A vida poderia ser mais fácil, os patrões poderiam pagar melhores salários aos empregados e os trabalhos poderiam ser mais tranquilos. Eu poderia acordar todos os dias como nos domingos desempregados e assistir aos jogos da Premier League e depois emendar na sequência os jogos do Brasileirão. A vida poderia ser mais fácil e eu poderia ter um computador que me permitisse ter um pouquinho de qualidade ao jogar meus poucos jogos e aqui, repito-me, a vida poderia ser mais fácil, eu não sou muito exigente, mas meu computador parece prestes a explodir.

Sinto-me superaquecido muitas vezes, assim, penso que posso imitar a máquina e desligar de repente. Certamente eu sentiria muita falta do meu computador, ainda que hoje ele só me facilite a vida por detalhes. Se, assim como o meu computador, eu pifasse, quantos sentiriam falta dos meus detalhes? Sinto falta das minhas manias mais absurdas e diminuí tanto a cafeína que quase não me reconheço. Há uma vida que valha a recompensa de não se viver como quer? Algo causa irritação. Inquieto-me. Que é que há? Alguém tenta me enganar.

Se a vida fosse fácil assim…

Se a vida fosse fácil talvez todos fossem honestos e independentes e eu não me sentisse tão preso ao que há e às promessas do que ainda haverá. O que é que acontece comigo que me pego no início de domingo pensando no que deveria acontecer para que a minha vida fosse mais fácil? Eu sei, entretanto, o número dos que vivem uma vida mais difícil é tanto incalculável quanto impossível. Que é que há comigo então? O que explica a minha sensibilidade tão insensível?

Desafogo-me das ocupações. É domingo. É preciso entender o tipo de dia, mas a semana soa estranha antes mesmo de ter se iniciado. Fito o caos do Universo pela janela fechada do meu quarto. Tudo ocorre distraidamente, imperceptivelmente, longe do terreno dos cálculos e ainda assim nos desdobramos para calcular. Temos um desejo insistente e ferrenho em gastar tempo com inutilidades, assim, tentamos calcular o amor, tentamos testar o valor das nossas amizades, tentamos antecipar os fins e inícios, tentamos protelar o inadiável e adiantar o que sabemos impossível trazer antes. Desafogo-me de novo, mas desta vez sinto a brisa fresca que me traz vida, a recuperação do fôlego, a necessidade da respiração, os pulmões funcionando e o peito arfando com a expectativa de sobrevivência. A consciência é a de que precisamos nos treinar, esforçarmo-nos em aprender a deixar partir tudo o que tememos perder. O único jeito de ter uma boa vida é formando uma convicção, uma firmeza férrea no autoaprendizado sobre a morte e sobre as coisas frágeis. Quando nos lembramos de que a vida pode ser apenas um sonho que se acaba, o que deixamos para trás?

Se a vida fosse fácil ninguém morreria. Estar cônscio de que um dia deixaremos este mundo para novas jornadas é um jeito não tão prático de admitir que talvez uma jornada só não seja o bastante. Quando terminarmos aqui estaremos felizes e satisfeitos? Se a vida fosse fácil todas as conclusões seriam lógicas. Demore-se um instante em observar o mundo. Analise se o conceito de que “todo ricaço é feliz“. Realmente corresponde com o reflexo da sociedade em que vivemos? Compramos os melhores sapatos para evitar o barro, não gostamos na sensação de pisar na lama, mas fingir que a lama não existe é algo mais fácil ou difícil do que aceitá-la e passar por cima dela, calçado ou não?

O mundo gira e eu giro também. Penso em coisas quais muitas pessoas alimentam o desdém. O Universo repara na nossa existência ou todos vivemos randomicamente e insignificantes? Mudamos em essência ou somos sempre os mesmos que fomos antes? Os dragões foram reais um dia ou são apenas metáforas? Eles cheiram a alecrim e manjericão? Eles carbonizam e esfumaçam tudo ou são apenas um vislumbre rápido e mágico de alegria? São sombras gigantes e verdadeiras ou só a personificação de um dos maiores mitos manifestados das nossas fantasias?

Vou distante ou voo distante e, sinto-me livre. Meus pensamentos podem se dispersar sem qualquer compromisso com a realidade. Vago para campos verdes e cachoeiras e montanhas nevadas e lugares quais nunca vi. Sinto o peso de uma espada e o fio de sua lâmina. Poderia lutar agora, se a luta fizesse sentido, mas certamente não faz. Se as pessoas se amassem mais, fossem mais diretas, menos abjetas, mais constantes, menos briguentas, mais empáticas, se os patrões pagassem melhor e se preocupassem com os funcionários, se não enfiássemos tantas distrações no meio das coisas importantes, se olhássemos para os planetas e para as estrelas e para a lua, se não nos esquecêssemos do nome das pessoas e nem detalhes das ruas, se cuidássemos das coisas frágeis, se prestássemos a atenção nas cores e nos animais, se dançássemos conforme o caos da desordem sem nexo, se não nos comportássemos como bichos selvagens em relação ao sexo, se observássemos mais a forma que o conteúdo, se não usássemos o pretexto divino e o próprio Deus como escudos, se encarássemos um dia por vez, se não fôssemos tão obcecados em falar inglês, se tudo o que fizemos errados pudesse ser refeito pelo menos uma vez.

Se a vida fosse fácil assim…

Do meu jeito

Porque você sempre pensava que sabia o que eu pensava, mas não é como se algum dia tivesse passado perto.

Eu, por outro lado, acreditava também que entendia como você se sentia, bom, pelo menos enquanto ainda sentia, até que deixou de sentir.

Olha, você enumerou os tantos problemas e os transformou em matemática simples, mas cruzou os braços quando me disse com aspereza, não, eu não entendo a matemática e não sei fazer contas.

Quem discute com a racionalidade? Agi como um idiota, pois tentei te ensinar equações quando você não queria se debruçar em soluções lógicas e dizia, não, não adianta, eu já disse que não sei fazer contas. Não tenho respostas.

Quando minha ausência cresceu, ora, por necessidade de crescer, quando a distância passou a ser obrigatória e não eventual, você me substituiu. Sua humanidade repentinamente dormiu no mecanismo da inevitabilidade das ações. Contradições.

Antes pensava que ser trocado assim era o mais triste dos fardos, porém, hoje vejo que você nem sabe o que usa para colar o buraco que deixei. Não, não me perdi, mas confesso, usei muitas coisas e certamente não devo me orgulhar da maioria delas. Tomei o extremo cuidado de ser cuidadoso.

Ainda assim a dor que realmente doeu foi a de ver seus braços não cruzados. Você, sempre tão péssima em matemática, enfim, raciocinou de maneira absolutamente lógica no pretexto para matar sua carência e solidão. Debruçou-se em cima de teoremas, contas fez em centenas, tudo para que fechasse a equação. E de repente amor, não é?

Você nem sabe, mas isso não a impediu. Pendurou-se em algo ou na ideia de algo, para que não fosse obrigada a crescer de uma vez só. Fez o que disse que não faria, mas e daí? Funcionou. Os fins justificam os meios.

Não, não foi isso que eu fiz, sim, eu estava carente, não, não foi por carência, sim, é, não, é que talvez você não entenda, cada um de um jeito, eu sei. Você sempre enrola, não, eu não queria que você fosse tão enrolado, sim, quis dizer não, mas nem tanto, eu não queria mudar o seu jeito. Queria apenas que você sumisse.

Sinto que envelheci, mas, sim, por aqui continuo bem. Não admito mais, juro que não. Você sempre me preteriu. Meus animais não são da sua conta e nem a minha família. Você pode deixar o fingimento para depois, sim, exatamente como fazia comigo.

Esqueceu que sou melhor para identificar mentiras do que para contá-las? Assim, admito, você me tirou do sério duas vezes com relatos falsos. Na primeira chorei. Na segunda gargalhei.

As discussões com os amigos continuam, não, nem todas vão terminar bem. Os problemas no trabalho se multiplicam, mas você é forte e os resolve, ainda que canse. Tudo pesa. A loucura nunca acaba, mas você já sabia. Você inventou uma fuga.

O que supus leve de repente pesou uma tonelada. É melhor soltar nossas amarras e flutuar por aí ou abraçar as responsabilidades do mundo e nunca sair do chão?

Ontem eu quis te mandar uma mensagem. Hoje foi sua vez. Bloqueei seu número, você sabe bem que mereceu. Falou sobre futuro como se ficcionista fosse, e, bem sabemos, eu sou o homem das fantasias por aqui.

Não, desta vez não dá para ser diferente, não, não vou desbloquear, não, não vamos conversar, sim, deve ser drama, não, não seremos amigos. Você não entende sobre amizades. Chega de ilusões baratas.

Lá vou eu ao banco. A fila está enorme. Você trabalha e se mantém fiel ao que chama de compromissos. Todos eles. Absolutamente racional até na irracionalidade. Infantil e boba, irreconhecivelmente exata.

Lá vai você continuar crescendo do seu jeito e vou me orgulhar em breve pelos seus avanços, mas não vou me permitir acompanhá-los. Meus olhos estarão descansando em outros países.

O mundo vai mudando conforme a gente muda. Tá olhando tudo?

Não, é óbvio que não me esqueci das coisas boas, embora uma tonelada de coisas ruins tenham sido forçadas em cima do que restava de agradável. Que absurdo é querer falar em amizade. Não basta de hipocrisia? Chorei abraçando uma figura pequenina e preta. Recebi o amor que restava de quem amor ainda tinha. O que ainda havia para quebrar, enfim, quebrou.

A minha cegueira da vista cresce. Os meus ímpetos são ainda mais honestos. A parte minha que tanto foi sua, assim, de repente, não é mais. Liberdade.

Condenarão minha prolixidade sentimental, eu sei, vejo e noto, assim como condenam minha prolixidade textual. Para que me estender?

Bem, eu não sei, mas é que precisa ser do meu jeito e ninguém pode opinar. Perdi umas tantas coisas, mas sou mais meu. Conheço e entendo o meu lugar. Ao que ficou para trás digo adeus.