Um final.

Vaguei como uma sombra
pelas ruas mal iluminadas da cidade
Vesti um casaco preto para saber
ensombrar quem aparecesse
Meu tamanho até assusta,
Quem nota minha forma robusta
geralmente não se mete comigo
Há quem sabe o que busca,
Paga o preço que custa
para se ver longe do perigo
Honestamente eu não ligo
Ainda assim ando arisco
Aos pais e padres não peço bença
Descobri que só se vive pelo risco
e se omitir é apressar a sentença
Outro vulto surge do lado de lá da rua
De cá sei que não se vale de qualquer medo
Queria ser valente como essa gente
que anuncia todos os segredos
Ouço um zumbido estranho e
uma voz perdida no espaço
Minha audição me alerta
e escuto também o barulho dos passos
As luzes piscam e a noite é sem lua
Meus pelos se eriçam, porém
minhas pernas não recuam
A escuridão envolve eu e o desconhecido
A alma distorce a face numa expressão cruel e crua
O corpo se retesa quando se lembra da última mulher nua
Aproximando-se com passos firmes e cautelosos,
quase como a outra pessoa que se movimenta no breu
Todos os meus instintos selvagens e corajosos
enfraquecem diante do brilho novo que nasceu
A lâmina prateada cintila em uma dança
O amor é a morte do dever
e a faca a morte da esperança
Queria pedir para a alma obscura que me poupasse
Que me deixasse viver só mais uma semana
Devaneei como Pessoa e gritei para Wilde
TU ESTAVA ERRADO
A gente nem sempre destrói o que mais ama
Julgo ver um sorriso ou
será só a face do paraíso que me chama?
Ora, rio-me, sentindo-me louco
Tento dizer algo, mas me noto rouco
O outro é apenas um e não uma gangue
Aproxime-se agora, vil vagabundo
Prova o gosto do meu sangue
E ergue os braços, pois no jornal dirão:
aquele lá morreu lutando
E o sal dos meus olhos vai se misturar
com meus outros pingos vermelhos
O assassino provará um gole, cairá
e me verá no reflexo do espelho
Descobrirá depois o que eu já sei
Os fantasmas existem e estão por perto
Tenho certeza que não os imaginei
Estavam comigo nos mais solitários desertos
Os abutres se aproximam para se alimentarem
Venham, venham, aglomerem
Minha carne será o seu delicioso banquete
Quando não restar o que comerem,
tornar-me-ei uma estrela e ascenderei aos céus
na velocidade explosiva de um foguete
Olhem, vejam, é o menino viciado em mar,
Aquele apostador azarado que amava o jogo,
Lembra de quando ele ousou a abraçar
uma estrela cadente e protegeu um demônio do fogo?
Ora, a vida passa velozmente, lá vou eu,
cinzas, madeiras, pó e o que ficou do que ainda sentem
São essas coisas efêmeras que nos eternizam?
Corra, pegue uma caneta permanente,
crave nossa amizade em uma árvore milenar!
Avance os corredores proibidos do shopping e piche
“nós fomos feitos para durar”
Antes que tudo se acabe numa piada
Antes que a lâmina bela manche a madrugada
Quem poderia adivinhar esses tantos fins?
Olhe para frente, para trás, recorda-te agora
do primeiro alimento ardido
Fite meus olhos e me diga sem demora
qual o paradeiro de tantos anos perdidos
Que Deus tenha pena da próxima cena,
Que o Diabo não vexe meu poema
Que meu inimigo oscile e trema
enquanto eu tento sobreviver
Eu sei, Criador vil, este mundo é oscilação
Vomitei mil horas para merecer minha redenção
Olha, estúpido, obrigado por este presente,
jogaste-me neste planeta maravilhoso e decadente
Faço eu a diferença para alguém?
Mais um passo, sombras dançam no escuro
Pisco e me vejo observando a cidade esquecida
meus olhos ágeis e curiosos buscando respostas
Eu nunca sei qual é a próxima saída,
mas sigo fazendo minhas apostas
Veja, Lanterneiro, olha, rapaz,
para o jeans que veste ou para a distância, a queda
Olha como mesmo pequenas e longínquas,
são repletas de brilhos aquelas janelas
Olha bem, menino, teu sonho é o teu destino
Você tem sensibilidade e é capaz de vê-las
Aproxime-se das luzes fracas
Tente reacendê-las
Refulgir talvez seja a única missão
Ergo os braços para a última batalha
Orgulhoso do meu valente coração
Os anjos e os deuses me esqueceram aqui
O diabo e os demônios menores não vieram assistir
Sem público, um tanto melhor,
há quem viva para impressionar os outros
Meu sorriso se torna largo e agora acho
que meu algoz me toma por louco
Vivi muito e o que é real nunca parece pouco
Venha, covarde, você despertou em mim
essa vontade de brigar e morrer
Não recua, agora é tarde,
em algumas horas outro dia vai nascer
Urge em mim a vontade de vencer e
num frenesi avanço primeiro
A impulsividade é a vantagem do carneiro
Rolamos pelo chão agressivamente
Desfiro socos e vejo um de seus dentes voar
Ele me acerta e me percebo a sangrar
A ira me personifica e me vejo tomado pela adrenalina
Meu casaco preto agora deve estar vermelho
No silêncio ouço o grasnar dos corvos
O anúncio é o da minha morte?
Que fortuna, que sorte, eu até vejo a manchete
Homem é morto pouco antes das sete
Onde estavam os policiais e os transeuntes?
Onde estavam os heróis trajados?
Um homem morreu e
ninguém pareceu ter se importado
Um cristal esverdeado surge no céu e sonho
Assombro praias com dunas e areias brancas e canto
Revisito meus milagres e absurdos e me pego aos prantos
Neste desfecho me convenço de que não há santos
As luzes, o pó do universo, a areia de estrelas,
No fim de tudo este era o meu único segredo
A única magia que aprendi a conjurar
eram palavras que moravam nas pontas de meus dedos
Ora, vejam, a gente realmente nasce e morre sozinho?
Cresce, envelhece, erra e se possível acerta,
mas não enverga, ferro, não suaviza, vinho,
Não desvia os olhos, olha para a imensidão,
ousa crer nas ficções quais acredito,
Passe pelos portões em brasas,
abra suas asas e verá o mundo mais bonito
Permita-se descansar, mas nunca se esqueça
A estagnação é o fim antes do fim
Agora limpa as roupas e levante,
Expande-te para as terras distantes,
Recorda-te que eu desejava existir longe
Que toda minha prolixidade sonhava em ser sucinta
Que toda minha alma era feita de tinta
Que o Universo todo surgia da ponta da velha caneta
Que a morte é o caminho seguinte
 e que vai me achar sempre que abrir algumas gavetas
Eu vou antes, sem me esquecer, estou em tudo,
Por favor, saiba ver, não seja tão tonta
Eu falava sem parar e agora jazo mudo,
mas noutro mundo a gente se reencontra.  

Se a vida fosse fácil assim…

A madrugada se inicia e tudo parece meio estremecido quando eu repouso meus olhos no teclado. Observo minhas mãos, meus dedos, minhas marcas. Derramei quase dois litros de água fervendo na mão direita; quebraram o meu polegar da mesma mão no portão do colégio na infância; oito anos atrás, um espelho desabou em mim e quando pulei para trás, uma lasca pontiaguda fez um corte profundo no meu dedinho da mesma mão direita. É impressionante que nada de grave tenha acontecido com a minha destra, pois todos os castigos parecem direcionados. Fito-a como se ela fosse mais interessante do que é e penso nas ciganas espalhadas por aí que leem o futuro das pessoas apenas olhando as linhas das mãos. O que será que elas diriam de minhas linhas e do que me reservam os próximos anos?

Não é muito ortodoxo isso de arrependimento e menos ainda o arrependimento pelo que a maioria consideraria banal. Fui abordado na praia e não paguei R$ 10,00 para que lessem meu futuro. Quantas vezes não gastei mais dinheiro com coisas menos importantes que isso? Quanto poderia me antecipar ao que vivi acaso tivesse investido esse valor na previsão?

Os bons hábitos e as boas atitudes são geralmente recompensados. É certo que uma ação ruim gera inúmeras consequências e o efeito dominó pode ser terrível e assustador. A ação boa pode se encerrar nela mesma, mas fica a certeza que dela não pode nascer o mal legítimo. Ainda assim, eu às vezes me sinto tomado por indecisões. Ilusões antigas de poderes que nunca terei me atormentam. Qualidades honestas e não valorizadas nos estremecem na sequência do caminho do bem.

Se a vida fosse fácil assim…

Os ombros pesam com uma dor abrupta e violenta na madrugada que transforma um sábado outra vez em domingo. Quem saberá se um dia um sábado virou outra coisa? A força invisível e medonha se avulta pelas minhas costas. O ritmo da vida oscila, a melodia do tempo continua tocando e, perco-me. Se eu não sei o caminho, bem, qualquer estrada revela um novo começo, certo? Ainda que eu esteja sozinho, isso não quer dizer que caminhar sozinho nos faça estar em um deserto.

Creio em coisas pueris e sinto o peso do meu coração juvenil nas minhas decisões. Ter convicção é coisa para os malucos e ter coragem é coisa para os insanos. A sina pela qual geralmente responsabilizamos o destino é apenas um reflexo das maiores ideias, enfim, buscadas. Esperança é para os intrépidos que arriscam tudo, ainda que possam ficar sem nada.

Acendo-me na escuridão. Percebi-me apavorado na ausência de luz e não havia lâmpada que me resgatasse do breu absoluto. Todo grito chegava até mim como um sussurro fraco, semimorto. Toda voz era inaudível. Toda tentativa de resgate era vã, ninguém nunca me achava. No momento qual notei que ninguém poderia ser a luz que eu tanto procurava, eu brilhei e iluminei meu próprio caminho. Eu podia fazer mais do que supunha sozinho, ainda que a luz própria tenha sua verdadeira essência transmitida em auxiliar outras almas.

Enfrento a covardia, pois já fui covarde. Enfrento o medo, pois já fui medroso. Espalho mensagens de coragem porque o mundo é suficientemente venenoso. E necessito da minha solidão para me recuperar. Há quem se mergulhe tanto nas distrações que se perca do seu próprio lugar. Sinto-me livre daquele velho cansaço de alma e não sei dizer o que me incomoda tanto. Seria o clima quente ou como se apresenta de repente o pranto.

Se a vida fosse fácil assim…

A vida poderia ser mais fácil, os patrões poderiam pagar melhores salários aos empregados e os trabalhos poderiam ser mais tranquilos. Eu poderia acordar todos os dias como nos domingos desempregados e assistir aos jogos da Premier League e depois emendar na sequência os jogos do Brasileirão. A vida poderia ser mais fácil e eu poderia ter um computador que me permitisse ter um pouquinho de qualidade ao jogar meus poucos jogos e aqui, repito-me, a vida poderia ser mais fácil, eu não sou muito exigente, mas meu computador parece prestes a explodir.

Sinto-me superaquecido muitas vezes, assim, penso que posso imitar a máquina e desligar de repente. Certamente eu sentiria muita falta do meu computador, ainda que hoje ele só me facilite a vida por detalhes. Se, assim como o meu computador, eu pifasse, quantos sentiriam falta dos meus detalhes? Sinto falta das minhas manias mais absurdas e diminuí tanto a cafeína que quase não me reconheço. Há uma vida que valha a recompensa de não se viver como quer? Algo causa irritação. Inquieto-me. Que é que há? Alguém tenta me enganar.

Se a vida fosse fácil assim…

Se a vida fosse fácil talvez todos fossem honestos e independentes e eu não me sentisse tão preso ao que há e às promessas do que ainda haverá. O que é que acontece comigo que me pego no início de domingo pensando no que deveria acontecer para que a minha vida fosse mais fácil? Eu sei, entretanto, o número dos que vivem uma vida mais difícil é tanto incalculável quanto impossível. Que é que há comigo então? O que explica a minha sensibilidade tão insensível?

Desafogo-me das ocupações. É domingo. É preciso entender o tipo de dia, mas a semana soa estranha antes mesmo de ter se iniciado. Fito o caos do Universo pela janela fechada do meu quarto. Tudo ocorre distraidamente, imperceptivelmente, longe do terreno dos cálculos e ainda assim nos desdobramos para calcular. Temos um desejo insistente e ferrenho em gastar tempo com inutilidades, assim, tentamos calcular o amor, tentamos testar o valor das nossas amizades, tentamos antecipar os fins e inícios, tentamos protelar o inadiável e adiantar o que sabemos impossível trazer antes. Desafogo-me de novo, mas desta vez sinto a brisa fresca que me traz vida, a recuperação do fôlego, a necessidade da respiração, os pulmões funcionando e o peito arfando com a expectativa de sobrevivência. A consciência é a de que precisamos nos treinar, esforçarmo-nos em aprender a deixar partir tudo o que tememos perder. O único jeito de ter uma boa vida é formando uma convicção, uma firmeza férrea no autoaprendizado sobre a morte e sobre as coisas frágeis. Quando nos lembramos de que a vida pode ser apenas um sonho que se acaba, o que deixamos para trás?

Se a vida fosse fácil ninguém morreria. Estar cônscio de que um dia deixaremos este mundo para novas jornadas é um jeito não tão prático de admitir que talvez uma jornada só não seja o bastante. Quando terminarmos aqui estaremos felizes e satisfeitos? Se a vida fosse fácil todas as conclusões seriam lógicas. Demore-se um instante em observar o mundo. Analise se o conceito de que “todo ricaço é feliz“. Realmente corresponde com o reflexo da sociedade em que vivemos? Compramos os melhores sapatos para evitar o barro, não gostamos na sensação de pisar na lama, mas fingir que a lama não existe é algo mais fácil ou difícil do que aceitá-la e passar por cima dela, calçado ou não?

O mundo gira e eu giro também. Penso em coisas quais muitas pessoas alimentam o desdém. O Universo repara na nossa existência ou todos vivemos randomicamente e insignificantes? Mudamos em essência ou somos sempre os mesmos que fomos antes? Os dragões foram reais um dia ou são apenas metáforas? Eles cheiram a alecrim e manjericão? Eles carbonizam e esfumaçam tudo ou são apenas um vislumbre rápido e mágico de alegria? São sombras gigantes e verdadeiras ou só a personificação de um dos maiores mitos manifestados das nossas fantasias?

Vou distante ou voo distante e, sinto-me livre. Meus pensamentos podem se dispersar sem qualquer compromisso com a realidade. Vago para campos verdes e cachoeiras e montanhas nevadas e lugares quais nunca vi. Sinto o peso de uma espada e o fio de sua lâmina. Poderia lutar agora, se a luta fizesse sentido, mas certamente não faz. Se as pessoas se amassem mais, fossem mais diretas, menos abjetas, mais constantes, menos briguentas, mais empáticas, se os patrões pagassem melhor e se preocupassem com os funcionários, se não enfiássemos tantas distrações no meio das coisas importantes, se olhássemos para os planetas e para as estrelas e para a lua, se não nos esquecêssemos do nome das pessoas e nem detalhes das ruas, se cuidássemos das coisas frágeis, se prestássemos a atenção nas cores e nos animais, se dançássemos conforme o caos da desordem sem nexo, se não nos comportássemos como bichos selvagens em relação ao sexo, se observássemos mais a forma que o conteúdo, se não usássemos o pretexto divino e o próprio Deus como escudos, se encarássemos um dia por vez, se não fôssemos tão obcecados em falar inglês, se tudo o que fizemos errados pudesse ser refeito pelo menos uma vez.

Se a vida fosse fácil assim…