Antes de sair do quarto.

Hoje preciso ser sozinho. Reconheço-me em um estado profundo de torpor e uma profusão de cores anuvia minha mente. Perco momentaneamente a capacidade de distinguir e pensar. Desnudo de pudores, preconceitos e longe do vício das primeiras impressões, eu observo o mundo primeiro para depois observar e analisar a pequenez de minhas diversas versões.

Eu olho para o menino, olhe para o menino também, ria dele comigo, sustente seu mais afiado olhar de desdém. Agora observe o menino de novo e veja como ele absorve os detalhes, como se algo pudesse existir de significativo ou importante, como se a vida fosse mais que a concentração de egos em um jogo extravagante, olhe-o, vamos, por favor, ria comigo de como ele se debruça no parapeito da sacada e fita o brilho vespertino da cidade. Deite seu olhar mais pacífico sobre a figura do menino, que agora é adolescente, que amanhã será adulto e que nunca poderá ser velho, pois a velhice só chega para quem derrota a própria imaginação até que não possa mais imaginar. Olhe para o menino e extravase a dó que você sente, vamos, ele é completamente apaixonado por um mundo doente e, aos trancos e barrancos, não é capaz nem de cuidar da própria vida, mas sonha com um mundo decente e com sua capacidade em encontrar diversas saídas. Ora, pobre menino, como insiste se pode se reconhecer pequeno? Como desafia o destino com este sorriso sereno? Renda-se ao inevitável sabor do veneno e desista. Observaremos você beijar o chão e gargalharemos quando seus lábios cuspirem a terra vermelha, mas será tarde, o sabor da poeira vai repousar para sempre na ponta de sua língua. Lamentavelmente o menino se levanta todo sujo de terra e, sem lamentação, sem comiseração, sem perdão, nós todos rimos do seu instinto revolucionário que supõe ter o poder de provocar guerras.

Respiro-me e me situo, recuo dois passos tentando recuperar meu espaço. Que fazia eu ao rir do menino ou era eu próprio a rir de mim em uma insinuação banal de vitalidade? Eu era o menino ou o sujeito que gargalhava do menino ou ainda os dois coexistindo simultaneamente? Que penso na metafísica ou na astrologia se buscar significado é diretamente contra a simplicidade que deveríamos buscar para sermos felizes? De que adianta nessa vida criarmos raízes se não lidamos com cicatrizes? Que provoca esse desassossego sem fim? Puxo o ar e o solto depois em uma tentativa bem sucedida de recuperar o controle de minha própria respiração. Ergo a cabeça e no céu noturno vejo o voo de um gigantesco avião, que antecipo ser gigante por já tê-lo visto de perto. A visão engana e de longe a miragem o faz menor que a minha mão destra. Os espelhos refletem nossa imagem e nos viciamos em nos observar. Cuida-se tanto a aparência que o que deveríamos ver somos incapazes de enxergar. A alma implora por alimentos, mas tudo o que posso oferecer é vulgar.

Encerrei a reflexão para tentar cessar os pensamentos, aconteço, porém, contra todas as perspectivas. Não há conclusão nesta vida. Todas as histórias continuam sem parar e o tempo nunca para de passar, assim, os relógios dos ponteiros fictícios que criamos e hoje chamamos de real existem apenas para que sejam congelados quando nos despedimos desta Vida para o que chamamos de Morte. Alguns desejam a eternidade. A Eternidade é real ou projeção de uma vontade de júbilo duradouro? Nada na vida é constante. Nada disso existe e menos ainda do que as coisas que vemos e sentimos é realmente real. Quando fecho os olhos, imagino o quarto que vi por último. Lembro-me de quando meus olhos estiveram abertos e há uma imagem quase nítida. O frio que eu sinto é real como uma sensação particular minha, mas não o sinto como se ele existisse, exceto se vejo os outros vestindo garbosos casacos e roupas elegantes e resfriados coletivos. Não fosse os outros como comprovação do frio, eu não sei nem se poderia afirmar a realidade deste mesmo frio, ainda que eu morresse por hipotermia.

Veja, a vida segue e os corpos envelhecem e os anos continuam passando e nossas peles lindas um dia serão secas e feias e nossos corpos um dia serão murchos e só nos restará a qualidade de enxergar, mesmo quando não vemos, com a profundidade que o enxergar existe. Futuramente, quando o amanhã for o presente, você vai perceber como a dor molda nossa personalidade e como o que fazemos com a dor reflete nas nossas mais drásticas atitudes. Não chore pelos caminhos não percorridos, por favor, alegre-se pelas estradas seguras e pelos momentos bons e lúcidos e reais que viveu no que agora já é passado. Chore e tire isso tudo do seu peito, eu sei, eu também estou cansado, mas ainda penso nos outros, revolto-me, minha empatia complica minhas ideias e sinto uma espécie inédita de nojo de mim. Como vou conquistar meus objetivos se persistir assim? Como conviver com este asco insistente?

Queria poder me simplificar, mas não posso. Queria poder entender o meu lugar, mas sinto um frio de inverno que me faz congelar todos os ossos. Que há de errado em mim? Que há de errado neste desejo prolixo e demorado por solidão? Sozinho posso sanar o que grita em meu coração?

Um pássaro caiu do céu e o percebi morto entre a rua e a calçada. Penso na ave como penso na vida e me pergunto se o pássaro costumava voar sozinho ou acompanhado, se havia morrido caçando comida ou se já havia se alimentado, se deixou filhotes no ninho e, a complexidade da minha mente me enche de pavor e sinto uma vontade inenarrável de chorar. Não, eu não estou de luto pela morte do pássaro, era apenas um pássaro como outros milhares, estou cônscio, entro em estado de luto por tudo o que isso me significa e não deveria significar. Meu desespero é crescente e medito sobre os desesperados. O infortúnio é pensar sobre o que existe na vida quando deveríamos apenas vivê-la. A miséria do homem é só lembrar do que deixa como dívida e se esquecer de olhar as estrelas. Planetas acenam suas cores distantes para os minúsculos e deselegantes seres da Terra. Os corpos dos mortos retornam ao solo e se transformam em adubo e ervas.

Vejo o que vejo como vejo, mas fico atento para não transformar o que existe como coisa real em apenas um reflexo falso baseado nas minhas impressões pessoais. Sigo os movimentos felinos da gata preta e me sinto longe da capacidade de prever suas ações. Sou brevemente feliz por não saber o que acontecerá em seguida. Nenhum dos movimentos dela depende dos meus e celebro essa distância que há entre nós como um segredo ancestral que carrego no peito e na vida. Ouço a música e os ritmos e sorrio por não saber criar músicas e por não conhecer todos os ritmos. O que me escapa é o que torna feliz, assim, alegro-me com coisas que eu nunca quis. Fiz de mim um sujeito uniforme, que é retilíneo e corajoso, ainda que machuque pessoas pelas estradas desta vida. Quem sai impune? Não ajo com falsidade, pois a sinceridade se tornou natural e extravasa na ponta da língua. Observo o lusco-fusco sem sol e as janelas solitárias ornam com ruas que conheço como a palma da mão, mas que não são minhas. Eu sou mais do que as coisas que tive e sei disso e me regozijo por enfrentar minhas lutas singulares, não, hoje percebo que não posso e nem preciso vencer todas as lutas, posso caminhar junto, ainda que nem sempre deva, mas canso de restringir minhas capacidades ao que me é alheio e me incendeio por um futuro qual eu dependa exclusivamente de mim.

Deito-me no colchão que foi fabricado e no piso do segundo andar que foi construído e, enfim, deito-me na terra que estava e sempre esteve ali. Escapa-me o mundo, porém, sinto-me mais conectado com a Verdade da minha alma e sei que apenas minhas palavras podem alimentá-la. Procuro o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto que a resposta se aproxima a cada novo trecho, conto e verso, assim, escrevo-me pela liberdade que desejo possuir, escrevo, pois escrever é mais importante do que sorrir e agora anseio pela solidão desacompanhada e nem meu amor, nem minha imaginação, nem minha gata, nem meu cão, ninguém mesmo pode me confortar. As palavras soltas talvez possam. Não, nem mesmo as palavras e os textos. Fecho os olhos e sinto tudo me deixar.

Abraço a Verdade do meu mundo como quem olha para um vislumbre da Beleza original pela primeira vez na vida. A luz é muito forte e me cega temporariamente e fecho meus olhos, sem precisar imaginar uma beleza inventada pela minha poderosa imaginação. Nunca envelhecerei, nunca morrerei, pois nunca nem soube se algum dia estive vivo. Será que estive?

Escuto a Voz do mundo me resgatando da Escuridão e do Vazio e ela se parece com a sua voz. Sinto saudades, mas não quero ser resgatado. Confesso que bem correria para os braços que quero que me abracem, mas qualquer conforto é oposto ao que tenho mirado. Pelos outros, eu vou correr no sentido contrário. A minha missão encontra sua conclusão do outro lado. Desejo fervorosamente superar meu medo do escuro e juro que ainda nesta vida este pavor some. Juro pela honra jamais esquecida e pelo valor de meu próprio nome. Pois nomes são importantes, devemos recordá-los e não podemos perder a identidade. Repito e ecoa o silêncio que me afasta ainda mais da vaidade.

Não me finjo, mas talvez eu exista exagerado, demasiado, expansivo, estranho, prolixo, muito. Não me finjo. O cumprimento da missão não teria sentido, acaso minha missão fosse centrada apenas na autorrealização e não evoco esta palavra como mantras culturais e sim como o desejo de se impor, de vencer sozinho. Os que só pensam em seus umbigos nunca sabem para onde vão e, ainda que muitos destes sejam ótimos oradores, fervorosos nos discursos contra os contos de fadas, no âmago deles repousa contraditoriamente uma vontade púrpura de voar. Preciso me tornar quem eu nasci para ser e encontrar o rosto que eu tinha no momento da Criação. Necessito vislumbrar a Verdade qual existe além da verdade que conheço. Posso encontrá-la antes do fim? Claro, principalmente tendo a consciência de que o fim pode não ser exatamente o fim. Não sinto nada e em seguida sinto tudo. Diante da violência assustadora, eu permaneço mudo e pego impulso para o maior dos saltos. Quero combater a vileza, apesar dos meus vestígios de cansaço.

E sofro o sofrimento vulgar de bilhões, pois meu coração está despedaçado, decidido e dividido. Sofro internamente os ventos incessantes de furacões que surgem e não posso salvar todos e nem oferecer abrigo. Resigno-me totalmente e me vejo diante de uma situação fatalista qual não posso fugir, correr, evitar ou disfarçar. Essa é a vida e este sofrimento me faz ter a certeza de que não sonho. O vento amaina, mas não para, assim como a minha respiração.

Os movimentos dos animais, o constante correr das horas, as coisas frágeis, tudo o que foge ao controle, tudo isso existe como a representação simbólica e discreta da fragmentação divina da vida. Deus não fala em voz alta, mas os teístas seguem suas palavras. Será que o melhor presente divino foi a oportunidade de apreciar o silêncio?

Sinto o cheiro da chuva e sei que ele pode ser uma impressão do que eu gostaria que acontecesse. Só quando as gotas despencarem do céu terei a certeza se a minha impressão foi baseada na realidade fática ou apenas na minha vontade. Penso os pensamentos proibidos e me destoo dos tantos vulgares que cogitam uma espécie de limitação intelectual pré-estabelecida. Não compartilho meus hábitos e procuro a minha solidão. Hoje preciso ser sozinho. Hoje preciso existir sozinho.

Escuto um barulho interno e é o meu próprio corpo, existindo como coisa real, que me alerta da fome. Eu não como nada há horas e é preciso obedecer a uma ordem que surge de dentro. Poderia dizer não a mim, como muitas vezes já o disse, mas mereço um jantar discreto. Sigo aqui enquanto meus dedos não se descansam e eu teclo. Se tivesse disposição e não sentisse dores de cabeça, eu dirigiria para longe do meu computador e dos meus problemas. Tenho coisa nenhuma e coisa nenhuma me tem. Perco-me, enfim, até das ilusões do Mal e do Bem. A ilusão pode ser o primeiro dos prazeres, mas só é prazer porque nos deleitamos também com o que é falso. O que é memória, verdadeira ou falsa, pode se manter em nosso encalço. Canso-me de minhas impressões e de minhas próprias histórias e de minhas próprias palavras.

Quero vagar por aí como um anjo sem asas.

Quero que o mundo para chamar de quintal de casa.

Quero tudo, mas não posso ser egoísta e devo escolher meus caminhos.

Um dia ainda mudo, mas hoje preciso existir sozinho. Ligo a televisão e apago a luz antes de sair do quarto. Desço as escadas e este é o fim.

Caso Perdido

Nasce a alegria em mim e não há lua no céu.

É estranho admitir que é possível ser feliz, apesar dos pesares. É engraçado sorrir e anuir que posso me manter afastados dos bares, ainda que o coração sempre nostálgico poetize o sofrimento gerado pela ausência. Ah! Quantas saudades!

Adotei um ritmo saudosista de vida. Aos domingos e às quintas olho fotos antigas e me lembro de outros tempos. Àquelas épocas me soam agora como memórias de outra encarnação e eu que não me importo com o que a maioria se importa, só gostaria que nem toda lembrança minha fosse esquecida.

Vivemos a tragédia inenarrável do esquecimento. Os mais jovens não fazem questão da recordação e os velhos percebem apenas em idade avançada que talvez seja um pouco tarde demais para assumirem decisões realmente sábias na vida.

O que eu chamo de decisão sábia?

Algo semelhante ao clichê universal de dedicar a vida para algum propósito que realmente legitime o sentido de sentir. É empenhar ânimo, alegria e coragem no que neste mundo te faz sorrir. É alcançar o estado sublime do que te faz bem, realmente bem. Eu escrevo livros e você?

Bom, isso não é sobre ignorar a parte necessária da vida, pelo contrário. O trabalho é absolutamente necessário tanto quanto o dinheiro que se ganha para sobrevivência. Valorizo o trabalho, mas quase nenhum trabalho nos força em nós mesmos, quase nenhum trabalho nos impulsa ao protagonismo.

O que eu chamo de protagonismo? É assumir decisões na vida, sejam elas sensatas ou não, cruéis ou não, mas que busquem, pelo menos na medida do possível, a honestidade. A verdade é mais importante que a coerência.

Há muitos Dorian Gray por aí e outras tantas Sybil Vane. Há tantos que abrem mão da própria vida numa ilusão enfraquecida de que só há vida na vida alheia. Sinto uma vontade de gargalhar, mas reconheço que empalideci. Gostaria de saber o que ia falar, mas suponho que esqueci.

Uma tristeza indefinível recai em meus ossos. Sinto o cansaço de milhares, talvez milhões e penso nos que passaram por isso antes que eu. Sim, os antecessores que me erguem nos dias bons agora me enxotam nos dias desgraçados.

O pescoço travado é o sinal de que há algo incerto? Bobagem! Vincular sinais físicos de fadiga ao emocional é pura suposição. Inventar-me em teoria não me explica e nem me define na prática. Quero uma pesquisa que me desmistifique, mas, por favor, que seja uma pesquisa fática.

Penso sobre os outros que não pensam sobre mim. Sobre insuficiências, sobre vida, objetivo, ambição, dinheiro, ganância. Penso sobre os que não pensam em mim. Já fiz inimigos sem saber que eles existiam e me pergunto se me derramei em algum excesso anuviado de vaidade ou se fui perseguido injustamente?

Sorrio e me sinto feliz. Penso sobre os outros e admito sentir certo conforto em minha solidão. Debruço-me na janela e aguardo pelos pássaros. Penso-os em inglês e em japonês. Pássaro, bird, tori, como você preferir chamá-lo, mas eles passaram em um enorme bando voando convictos buscando um abrigo para a noite.

Você já sentiu a convicção de um animal que sempre sabe o que faz?

Localizo-me no Universo e no meu quarto e na minha expansividade. Vejo-me só, solitário como quase sempre fui, sozinho como quase sempre serei, abandonado me senti, mas torci para não ser achado. Agora torço e realmente me pego com os olhos marejados quando confesso que procurei muitas coisas que sempre existiram dentro. Por quê compramos essa ilusão de que a felicidade só existe no mundo lá fora? O interno não aguenta tinta.

Busca vã que atravessa galáxias em busca de propósito. O meu, real ou sonhado, há anos soa bastante óbvio.

Luas, planetas, luares, galáxias, cometas, magia, reencontros, contos, febril, tonto, eu olhei o mundo com a maior sinceridade possível. Quase enlouqueci quando defronte às tragédias e quase achei que já havia visto o bastante quando vi a felicidade.

Então se lembre equivocadamente, mas se lembre. Deturpe algumas das memórias, mas não se esqueça dessas tantas histórias que criamos. Quanta coisa acontece em menos de um ano, vê?

Achados e perdidos, tesouros esquecidos, túneis secretos, barulhos discretos e silêncios milenares. Os eternos viajantes que vagam conhecem seus lugares?

Chamo a minha tristeza e ela não some. Abraço-a e a chamo pelo nome. Agora só eu posso lidar com essa Tristeza. A importância de personificar os sentimentos próprios ou apenas senti-los, o que fazemos, o que esquecemos, o que sempre está nos definindo.

Muita gente pensa sobre muitas coisas, mas você sabe sobre você. Muitas vezes sabe por antecipação até o que vão dizer. Foda-se a opinião alheia, você brada, mas sua força é na verdade fraca. O peso e a leveza; o lampião mais aceso é às vezes o primeiro que fraqueja.

Caminhada vespertina pela orla da praia. Não há nada aqui que distraia minha alma.

Creio, não sei com que intensidade, não crer em absolutamente coisa alguma. Creio, ainda que fira minha vaidade, ser um viajante perdido no reino dos sonhos e das densas brumas. Reconheço, não sei por qual razão, a minha incoerência e a minha incapacidade de ser sucinto. Vejo-me, oscilo, mas não minto.

A cachoeira dos desastres deságua em minha cabeça e me pego de joelhos. Sinto por vezes uma necessidade de estilhaçar todos os espelhos que existem neste mundo tão imenso. Choro ao me ver inútil, fútil e outra vez me perco em pensamentos.

A tristeza vai e vem.

A felicidade segue o mesmo ritmo também.

Discreto sofro a angústia sólida de ser quem eu sou. Guardo um recado secreto que desvenda tudo o que nesta vida é escravo do Amor.

Continuar, desistir, cantar, partir, ficar, esquecer, chorar, repetir, ver e escalar montanhas metafóricas como quem galga o trajeto correto até o segredo da existência.

Nesta madrugada me pego centrado e em seguida perdido, mas conservo minha paciência e peço para que os impacientes pacientes aguentem um pouco mais e insistam no caminho do bem.

Isso de querer ser quem se é ainda vai nos levar além.

Surge a lua no céu e a capto entre as folhas de uma árvore. Estou feliz. Sou feliz.

Discreto, enfim, sorrio e saio de cena. Meu coração vagante e vadio bate sem parar insistindo que a vida vale o preço da tinta e o peso da pena.

E choro, sorrio, esquento, esfrio. Torno-me Nada e Tudo. Desfaço-me da forma e do conteúdo. Sou Vazio e simultaneamente Preenchido.

Sou o que os céticos e sérios vão chamar sempre de…

Caso perdido.

Crônica Pregressa #5

Convite

Gata preta que traz boa sorte, arco-íris de chão. Eu peguei só a geladeira, a cama e o desgastado colchão. Segurei as mãos dela e me calei. Quando falo muito sempre digo pouco.

Não pretendia que as coisas fossem assim, mas é que de tanto pretender acabei perdendo o que acontecia bem diante de mim. Choveram estrelas na noite passada, você notou? Incontáveis, cadentes, repletas de pedidos, esperanças e milagres, mas igualmente incapazes diante da sombra da ideia do amor. Havia esmeraldas na escuridão, você as pegou? Soltei os fantasmas do porão. Algum deles te assustou? Tantos olhos embriagados vagaram pela madrugada buscando uma distração. Você pode dizer que achou?

Houve um boato na noite passada. Confessaram-me vários segredos, mas nenhum que me desse arrepios. A noite nublada também era enluarada e expunha tantos fatos e medos, mas só os solitários notaram os tantos espaços vazios. Onde é que você estava quando a dor se tornou tão pungente? Soprei a última luz de vela e encontrei uma bela fada endiabrada no momento em que se alimentava de uma estrela cadente. Quem é que não mente quando falta o que dizer? Quem é o que sente quando tenta não sentir o que quer esquecer?

Encontrei um velho amigo em sonhos e ele me olhou divertido e risonho. Fui feliz. Encontrei o primeiro beijo sentado em uma árvore derrubada, mas quando abri os olhos havia menos que nada. Fui feliz também. Sempre jogo apostando, exceto quando o assunto é amor. O que é que ganho ao deixar outros provarem meu sabor? Sou singular e o resto que se dane, pois estou me lavando agora. De vocês, dos sonhos, planos e das velharias. Vou dominar o idioma francês e abrir minha própria cafeteria. Batuco meu peito e pareço tão oco. Queria oferecer-lhe o Universo, mas esta noite sou tão pouco.

Sou feito da poeira mais pura. Todos os meus pensamentos belos e idiotas são feitos de matéria que perdura. Transformo-me em vidro e sou quebrado. Por que importa ser certo em um mundo que aprecia só o que se faz de errado? Estilhaço, quebro, espalho-me no chão. Quase ninguém toma cuidado e menos da metade de quem nota não evita um novo pisão. O que fazer se é tão frágil meu coração? Cuidado se resolver tentar a sorte e me remontar. Meus cacos são tão afiados que mesmo sem intenção posso machucar. Corte de gastos, orçamento, contabilidade. Falta-me a habilidade para desapegar dos sentimentos, mas construo aqui meus novos atos, sem vaidade, enfim, é o meu momento. Quando as estrelas despencaram como gotículas, os brilhos foram louvados e ninguém sentiu vontade de apagar o outro.

Gata branca de estrada, cachorro da mais bela alma, arco-íris de chão. Eu peguei só o pouco que tinha e lhe entreguei o meu coração. Não sabia como era o misterioso rosto dela, mas eram quentes suas pequenas mãos. Olhei para aquela chance de aventura morando em um ponto de interrogação. Sorri docilmente com meus olhos em chamas, mas de alguma forma ofereci também o mais confortável abrigo. Respirei fundo e perguntei a ela, para a incógnita dos dias que virão, você está disposta a partir comigo?

Neblina Espessa

Essa neblina espessa, veja, eu sinto que posso tocá-la. Ontem senti sua falta pelos quatro cantos da nova casa. Esta casa atual é muito maior do que a outra, mas às vezes sinto saudades de quem eu era. Estranho, eu sei, como quem quer forçar o inverno em plena primavera. Inadequado, eu sei também, tal qual vestir uma antiga roupa que já não cabe mais, mas a gente possui essa estranha mania de querer o que se quer, não é? E às vezes aposta muito nos outros e pouquíssimo na nossa própria fé. Roupas ultrapassadas, apertadas, antigas. Talvez seja melhor doá-las. Memórias desgastadas e coisas esquecidas, esculpidas relativamente, desejos de fantasmas que estão mortos, mas ainda sentem, o apelo desesperado para que a alma seja notada. Você consegue perceber a sutileza deste sentir? Você consegue sentir falta de quem se foi, respirar com calma, perceber que está tudo bem e sorrir?

Essa neblina espessa, eu sinto que posso tocá-la. A fumaça cansada lançou seu manto sobre a cidade e eu não vejo nada aqui desta sala.

Recordo-me das noites incomparavelmente melancólicas nas quais nunca houve outro ser humano que fosse mais triste do que eu. Recordo-me da voz de Lord Huron falando sobre fantasmas, prazos, fins e tudo aquilo que eu perdia, mas que hoje nem sei se me pertenceu.

A janela anunciava luzes e a cidade piscava convidativa. Esta noite qualquer apelo do corpo para lembrar a alma de que ela ainda está viva.

A janela de novo e minhas epifanias. Nestes vislumbres notei que a vista não era apenas feita de melancolia. Às vezes reparava em alguém que cruzava a rua durante a metade do dia. Mãe e filha de mãos dadas caminhando distraidamente até a igreja, o trabalhador em obras com a camisa suada e pensando em todas as suas despesas ou até mesmo eu de longe, distante da figura que tanto aprenderia a conhecer no futuro. Na janela de mim, observo-me passear com o cão Link pelas esquinas que serão esquecidas. Ele caga, eu recolho as fezes. O mundo seria melhor se todos nós fossem dispostos em recolher as fezes? Acumulo de revezes.

Acordo e vou até outra janela. Bom, eu confesso com uma infelicidade resignada que acordei 5h15 para esperar o nascer do sol. É o meu último dia neste prédio e ontem a noite havia decidido que não perderia essa chance. Quando temos a rara consciência do momento exato de nossas despedidas, podemos ser mais dedicados em torná-las especiais.

Os prédios não falam ou pelo menos eu nunca pude ouvi-los. Acordei cedo, mas ainda antes a neblina havia os engolido. Procurei uma caneta pela casa e não a encontrei. A angústia cresceu em meu coração subitamente. Precisava rabiscar sangue no papel. Esfreguei a ponta da caneta. Havia acabado o sangue. Usei a minha própria tinta para começar o texto até que percebi que não havia mais. Os dedos gelados agressivamente começaram a bater nos teclados e eu já não conseguia parar.

A janela continua perfeita, mas o céu se fez difícil na minha despedida. Talvez eu não mereça hoje essa melhor vista. A neblina e as nuvens esconderam completamente o céu, mas insisto nesta minha fé cega ou na pesquisa científica para acalmar meus nervos e repetir devagar em um intervalo de respiração. O sol aparece amanhã de manhã.

Sinto um calafrio que percorre toda minha pele. Sou quente e feito de emoção, batida rápida de coração e não há invernia que me gele.

Dominado pelo cansaço sinto um frio que ocupa todos os meus espaços e fecho meus olhos tendo a esperança de dormir. Abro os olhos e encaro meu erro crasso, é o dia final para a mudança, eu preciso correr e sair daqui.

Crôninca Pregressa #3

Receita

     Ouvi dizer que a felicidade era uma receita pronta. Bastaria que existisse dinheiro sobrando na conta. Ri do que supus ser presunção, mas sou eu o tolo de me preocupar tanto com a sensibilidade quanto com a razão? O tempo segue e eu não consigo deixar de me preocupar. Arrogantemente faço uma ideia virar certeza. Transformo-a em convicção. Agora sei que estou no caminho certo. Sei que os meus sonhos estão mais perto. Sei que este é o tempo perfeito para que eu viva a minha vida. Tenho uma fé grande em alguma grande coisa, mas não sei lhe dar nome. Geralmente converso com o Criador, mas as respostas não chegam como eu espero ou desejo. Tenho uma fé grande, mas não sei se Nele ou em mim. Não sei, enfim, se somos partes tão diferentes da mesma coisa ou partes iguais de coisas diferentes. Somos arquitetos, certo? Todos. 

     Tenho visto a vida em mim e nos outros. Somos avessos e ainda assim parecidos. Planejamos os passos seguintes, como se fosse possível. Temos a ilusão do controle, mas olhamos para trás e notamos que a vida passou rapidamente. Os dias, meses e anos voaram. Há coisas que perdemos e não há como recuperá-las. Amigos que se foram e nunca voltaram. Antes de ontem era natal, ontem páscoa e hoje maio. Ontem a mãe não admitia a gata em casa e hoje assiste a novela da noite lado a lado com a Nami. Os irmãos que assistiam animes juntos quando novos na sala estão em outra sala vivendo outras vidas e assistindo outras coisas. Rimos outros risos, discorremos sobre assuntos mais sérios e outros ainda mais bobos. Estou orgulhoso. Eu mesmo na infância odiei futebol e posteriormente reconheci no mesmo esporte o meu primeiro amor. O cão segue bem. Perfeitamente igual sempre, ele corre atrás dos seus brinquedos e faz o que sabe fazer: brinca, late e ama. Ainda bem que algumas coisas permanecem no lugar. Matamos algumas saudades, mas sabemos que ainda falta um específico abraço. Às vezes puerilmente impelimos o corpo à frente como se a pele fosse feita de aço. Viver machuca. Esquecemos do que importa e deixamos de ver com clareza. Forçamos para que morra a criança interna e insistimos que é impossível viver com leveza. Será? Não creio. Após a descrença bate na porta a velha hesitação.

Frequentemente falho. Sou soporífero na minha vez de montar guarda e cochilo nos momentos importantes. Fui surpreendido por um brilho solar em uma noite de carnaval e só queria ser capaz de dizer o que pensei ou pensar no que imaginei que disse. Tive medo de queimar minha mão, mas é o conselho da mão queimada que chega ao coração. Não deveria ter hesitado, certo? Não deveria valorizar quem acelera o tempo para fugir de mim. Não deveria menosprezar quem atrasa o relógio para passar mais tempo comigo. A hora não passa e eu conto os minutos para os finais de semana. Pelas novas manhãs, eu não tenho enrolado para sair da cama. Só vale a pena viver quando debruçado sobre as coisas que ama. Você ama sua vida ou vive para ser perfeito? Você é feliz assim ou força a felicidade de outro jeito?

     Eu costumava pensar que só seria feliz ao lado de alguém que pudesse ser legal comigo e que suprisse minha carência nos dias mais sombrios. Eu costumava pensar que nunca em minha vida eu seria capaz de ler mais que vinte livros. Também me enganei quando pensei que não poderia escrevê-los. Tentei imaginar um futuro pra mim, mas fui descobrindo minhas vontades e desbravando meu caminho à fórceps. Tive que me impor e lutar pelas minhas vontades. Eu me formei no curso errado e pensei que fosse a pessoa mais estúpida do universo, mas eu desconsiderei o quanto a experiência havia me lapidado. Eu melhorei. Passei a observar o mundo com meus melhores olhos, ainda que eles nunca tenham superado a miopia. Posso compreender o ódio. Já o senti. Posso compreender a tristeza. Certa época eu era a personificação da melancolia. Posso narrar a alegria. Sorri com a essência de minha alma para dezenas de desconhecidos em diversos aeroportos. A inveja não posso compreender. Nunca quis coisa que fosse dos outros e nem ser outro. Saber valorizar a vida que leva é um dos segredos que compõe o segredo maior. Às vezes acelero a vida e perco o que poderia ganhar, pois a pressa é inimiga da melhor visão. Quando a gente vive o dia atual com a lembrança de que este dia é especial e jamais se repetirá, bom, então o vivemos em plenitude. As árvores são mais verdes, os animais mais incríveis e até as refeições são mais saborosas.  Os sorrisos são mais largos, os abraços são mais longos e as brigas são mais curtas. Aproveitando como pode, você não deseja mais do que o que já acontece. E se você pudesse mesmo mudar algo na sua essência ou alterar algo que realmente fizesse a diferença?

     A novidade é que você pode. Tudo é a respeito da nossa jornada e sobre o quanto somos decididos sobre nós mesmos. Você pode se manter como está ou mudar e a mágica na simplicidade deste fato é que você pode fazer isso quando quiser. Eu escrevo livros e isso não me envergonha, embora muitos subestimem minha capacidade e superestimem a possibilidade de que eu passe fome futuramente. Punge-me apenas o fato de que ainda não fui analisado, mas é mais do que necessário ter esperança. Ainda chega a minha vez.

Enquanto isso faço outras coisas também e tento ser prático e criativo e profissional, mas deveria mudar toda a minha vida apenas para me encaixar no que uma imensa quantidade de gente infeliz considera ideal? É claro que não! Deveria escutar música baixa e tentar aquietar meus instintos de dragão? Não! Deveria esconder os defeitos que me tornam mais humano? Não! Deveria esconder os enganos se foram justamente eles que me fizeram crescer? Não. Ultimamente você pensa mais que os grandes filósofos e faz mais cálculos que Pitágoras. Nas noites mais intensas seus dilemas são profundos e você se preocupa com o futuro da humanidade. Às vezes é mais sensível que todos, às vezes é mais insensato. Às vezes baseia sua vida em imaginação e às vezes prefere os fatos. Qual é a grande maldade em admitir que somos inconstantes e oscilamos? Qual é a dificuldade em reconhecer que há enganos?

A felicidade está ao nosso alcance, por incrível que pareça. É possível tocá-la, senti-la, vê-la, se há um esforço razoável. Você, enfim, nota. Não precisa de minha ajuda para reconhecer que você apenas se limita ao que se sujeita. Nós todos temos mudado tanto e vivemos tão bem esses últimos anos que é fundamental ignorar a tal receita. Não escute o que todos falam. É preciso sentir para viver e também viver para sentir. Cada um descobre sozinho um jeito pessoal e exclusivo de ser realmente feliz. 

Para mudar o mundo

Para mudar o mundo, primeiro, é preciso admitir a insatisfação com as coisas. Se este não é o cenário ideal, reconheça ansiar por mudanças, reconheça-se em seu papel de mudar seu destino e tome bastante cuidado, pois o sonho de mudar o mundo às vezes muda o sonhador (Humberto Gessinger).

Não se preocupe por estar no chão. Os melhores e os piores já caíram e estiveram exatamente no mesmo lugar qual você se encontra. Não é sobre permanecer a vida inteira em sobriedade, imaculado ou livre de constrangimentos e consternações. É sobre entender a leveza e o peso, a liberdade e a responsabilidade, a tristeza e a felicidade, o caos inevitável e a paz absoluta. Certas coisas vão se repetir até o nosso derradeiro amadurecimento. Quando aprendemos, é raro cometermos os mesmos erros.

Se os homens fossem constantes seriam perfeitos, afirmou Shakespeare, mas somos factivelmente falhos e frequentemente nos despedaçamos. Quase todos se escondem com o pretexto de não conseguirem enxergar, mas quando todas as máscaras caem, você realmente fixa os seus olhos naquilo que vê?

Recolher cacos é sempre um trabalho penoso e talvez você dê sorte em estar perto de alguém que saiba tomar cuidado com vidro, pois é difícil remontar, reerguer, reestruturar. Quando ainda no chão suas pontas afiadas estão prontas para ferir a mão de quem ousar tocar, de quem se sujeitar, de quem for suficientemente louco para cruzar os limites e assumir o risco de sangrar por você. Se você é o catador de cacos, eu recomendo apenas cuidado com as hemorragias. Há quem fira pelo prazer de ferir.

A névoa densa outra vez toma conta da cidade e você deixa de enxergar todo o resto. Sua angústia cresce quando repentinamente só enxerga seu próprio corpo, estranho, irregular, quase como se ele não lhe pertencesse. Você age, mas não se sente dentro de você. Uma espécie de monstro estranho tomou posse e suas memórias sobre certas fases são ébrias e entrecortadas. Descemos uma cortina diante das coisas que evitamos ver nos outros e em nós mesmos. Despreparados para a troca de pele, escolhemos nos igualar por baixo, fazemos incentivados por pessoas alheias, guardamos souvenires em recônditos secretos, sejam eles materiais ou não. Você pode se esconder bem, mas nada te afasta do seu reflexo. No fundo, você sabe bem quem é. Talvez secretamente acredite que mereça um prêmio ou uma punição pelas suas atitudes. Se eu não mudar o mundo talvez o mundo me mude. Alguns se regozijam pela autopercepção, outros cantam em voz alta suas lamúrias. Você se envergonha ou se orgulha de quem é?

Levantou já? É manhã outra vez. A escuridão que sugeria infinitude, enfim, morreu. Você estava apavorado, eu notei, mas me imaginou mais forte do que eu realmente sou, pois o negrume da madrugada jogou seu pesado cobertor em cima de mim também e eu senti uma sufocante vontade de chorar. Não chorei. Fiz-me forte, pois eu precisava ser o mais forte, orgulho bobo de quem se levanta quando o resto se deita, de quem se ergue para o sacrifício, de quem levanta correndo para ouvir o barulho estranho dentro de casa, de quem sabe que deve ser o primeiro na linha de combate, ainda que este geralmente seja o primeiro a morrer.

Você sente medo e eu sinto também. Não é diferente com qualquer outra pessoa. Muda-se a forma do medo, mas eventualmente todos se sentem aterrorizados. Já congelou em momentos decisivos? Fraquejou quando deveria ser mais agressivo? Acalme-se e respire fundo uma, duas ou dez vezes. Você é mais do que suas angústias e revezes. Está pronto para tentar de novo? Recomece amanhã. Por hoje, eu apenas recomendo que faça um café forte, beba muita água, coma sua comida favorita, saboreie chocolates amargos, veja a beleza de algo sutil e durma bem.

Nós somos o que fazemos de nós e não o que deixamos fazerem de nós. Não seja aquilo que tentam fazer de você e seja mais amplo nas suas angústias. Você não é o único atormentado por problemas e com a vida complicada. Não pode sofrer pelos outros, mas tampouco deve agir como se você fosse a única pessoa relevante no universo inteiro. Evite o pedantismo, precaução com os silogismos, cuidado com o que come, pois é preciso cuidar do corpo e da alma. Vá em frente, vá sempre, mas vá com calma. Acorde após sua curta noite de sono, consciente de que amanhã tudo começa de novo, até o dia em que, enfim, a vida termina. Para mudar o mundo é preciso estar bem disposto, então, acorde e lave o rosto, desafie o que lhe foi imposto como sina.

Para mudar o mundo precisamos aceitar quem somos, sem perder, entretanto, a consciência de que sempre é possível mudar para uma versão melhor. Seja você.