Crôninca Pregressa #3

Receita

     Ouvi dizer que a felicidade era uma receita pronta. Bastaria que existisse dinheiro sobrando na conta. Ri do que supus ser presunção, mas sou eu o tolo de me preocupar tanto com a sensibilidade quanto com a razão? O tempo segue e eu não consigo deixar de me preocupar. Arrogantemente faço uma ideia virar certeza. Transformo-a em convicção. Agora sei que estou no caminho certo. Sei que os meus sonhos estão mais perto. Sei que este é o tempo perfeito para que eu viva a minha vida. Tenho uma fé grande em alguma grande coisa, mas não sei lhe dar nome. Geralmente converso com o Criador, mas as respostas não chegam como eu espero ou desejo. Tenho uma fé grande, mas não sei se Nele ou em mim. Não sei, enfim, se somos partes tão diferentes da mesma coisa ou partes iguais de coisas diferentes. Somos arquitetos, certo? Todos. 

     Tenho visto a vida em mim e nos outros. Somos avessos e ainda assim parecidos. Planejamos os passos seguintes, como se fosse possível. Temos a ilusão do controle, mas olhamos para trás e notamos que a vida passou rapidamente. Os dias, meses e anos voaram. Há coisas que perdemos e não há como recuperá-las. Amigos que se foram e nunca voltaram. Antes de ontem era natal, ontem páscoa e hoje maio. Ontem a mãe não admitia a gata em casa e hoje assiste a novela da noite lado a lado com a Nami. Os irmãos que assistiam animes juntos quando novos na sala estão em outra sala vivendo outras vidas e assistindo outras coisas. Rimos outros risos, discorremos sobre assuntos mais sérios e outros ainda mais bobos. Estou orgulhoso. Eu mesmo na infância odiei futebol e posteriormente reconheci no mesmo esporte o meu primeiro amor. O cão segue bem. Perfeitamente igual sempre, ele corre atrás dos seus brinquedos e faz o que sabe fazer: brinca, late e ama. Ainda bem que algumas coisas permanecem no lugar. Matamos algumas saudades, mas sabemos que ainda falta um específico abraço. Às vezes puerilmente impelimos o corpo à frente como se a pele fosse feita de aço. Viver machuca. Esquecemos do que importa e deixamos de ver com clareza. Forçamos para que morra a criança interna e insistimos que é impossível viver com leveza. Será? Não creio. Após a descrença bate na porta a velha hesitação.

Frequentemente falho. Sou soporífero na minha vez de montar guarda e cochilo nos momentos importantes. Fui surpreendido por um brilho solar em uma noite de carnaval e só queria ser capaz de dizer o que pensei ou pensar no que imaginei que disse. Tive medo de queimar minha mão, mas é o conselho da mão queimada que chega ao coração. Não deveria ter hesitado, certo? Não deveria valorizar quem acelera o tempo para fugir de mim. Não deveria menosprezar quem atrasa o relógio para passar mais tempo comigo. A hora não passa e eu conto os minutos para os finais de semana. Pelas novas manhãs, eu não tenho enrolado para sair da cama. Só vale a pena viver quando debruçado sobre as coisas que ama. Você ama sua vida ou vive para ser perfeito? Você é feliz assim ou força a felicidade de outro jeito?

     Eu costumava pensar que só seria feliz ao lado de alguém que pudesse ser legal comigo e que suprisse minha carência nos dias mais sombrios. Eu costumava pensar que nunca em minha vida eu seria capaz de ler mais que vinte livros. Também me enganei quando pensei que não poderia escrevê-los. Tentei imaginar um futuro pra mim, mas fui descobrindo minhas vontades e desbravando meu caminho à fórceps. Tive que me impor e lutar pelas minhas vontades. Eu me formei no curso errado e pensei que fosse a pessoa mais estúpida do universo, mas eu desconsiderei o quanto a experiência havia me lapidado. Eu melhorei. Passei a observar o mundo com meus melhores olhos, ainda que eles nunca tenham superado a miopia. Posso compreender o ódio. Já o senti. Posso compreender a tristeza. Certa época eu era a personificação da melancolia. Posso narrar a alegria. Sorri com a essência de minha alma para dezenas de desconhecidos em diversos aeroportos. A inveja não posso compreender. Nunca quis coisa que fosse dos outros e nem ser outro. Saber valorizar a vida que leva é um dos segredos que compõe o segredo maior. Às vezes acelero a vida e perco o que poderia ganhar, pois a pressa é inimiga da melhor visão. Quando a gente vive o dia atual com a lembrança de que este dia é especial e jamais se repetirá, bom, então o vivemos em plenitude. As árvores são mais verdes, os animais mais incríveis e até as refeições são mais saborosas.  Os sorrisos são mais largos, os abraços são mais longos e as brigas são mais curtas. Aproveitando como pode, você não deseja mais do que o que já acontece. E se você pudesse mesmo mudar algo na sua essência ou alterar algo que realmente fizesse a diferença?

     A novidade é que você pode. Tudo é a respeito da nossa jornada e sobre o quanto somos decididos sobre nós mesmos. Você pode se manter como está ou mudar e a mágica na simplicidade deste fato é que você pode fazer isso quando quiser. Eu escrevo livros e isso não me envergonha, embora muitos subestimem minha capacidade e superestimem a possibilidade de que eu passe fome futuramente. Punge-me apenas o fato de que ainda não fui analisado, mas é mais do que necessário ter esperança. Ainda chega a minha vez.

Enquanto isso faço outras coisas também e tento ser prático e criativo e profissional, mas deveria mudar toda a minha vida apenas para me encaixar no que uma imensa quantidade de gente infeliz considera ideal? É claro que não! Deveria escutar música baixa e tentar aquietar meus instintos de dragão? Não! Deveria esconder os defeitos que me tornam mais humano? Não! Deveria esconder os enganos se foram justamente eles que me fizeram crescer? Não. Ultimamente você pensa mais que os grandes filósofos e faz mais cálculos que Pitágoras. Nas noites mais intensas seus dilemas são profundos e você se preocupa com o futuro da humanidade. Às vezes é mais sensível que todos, às vezes é mais insensato. Às vezes baseia sua vida em imaginação e às vezes prefere os fatos. Qual é a grande maldade em admitir que somos inconstantes e oscilamos? Qual é a dificuldade em reconhecer que há enganos?

A felicidade está ao nosso alcance, por incrível que pareça. É possível tocá-la, senti-la, vê-la, se há um esforço razoável. Você, enfim, nota. Não precisa de minha ajuda para reconhecer que você apenas se limita ao que se sujeita. Nós todos temos mudado tanto e vivemos tão bem esses últimos anos que é fundamental ignorar a tal receita. Não escute o que todos falam. É preciso sentir para viver e também viver para sentir. Cada um descobre sozinho um jeito pessoal e exclusivo de ser realmente feliz. 

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

Um comentário sobre “Crôninca Pregressa #3”

  1. Eu sou aquela que não entende de receita e se alguém me envia uma… pronto. Eu espio e deixo de lado, foco apenas nos ingredientes, que são muitos. Gosto de brincar com massas, sentir as mãos sujas e ver o que surge de certas combinações. Experimentar é a melhor parte.

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