Antes de sair do quarto.

Hoje preciso ser sozinho. Reconheço-me em um estado profundo de torpor e uma profusão de cores anuvia minha mente. Perco momentaneamente a capacidade de distinguir e pensar. Desnudo de pudores, preconceitos e longe do vício das primeiras impressões, eu observo o mundo primeiro para depois observar e analisar a pequenez de minhas diversas versões.

Eu olho para o menino, olhe para o menino também, ria dele comigo, sustente seu mais afiado olhar de desdém. Agora observe o menino de novo e veja como ele absorve os detalhes, como se algo pudesse existir de significativo ou importante, como se a vida fosse mais que a concentração de egos em um jogo extravagante, olhe-o, vamos, por favor, ria comigo de como ele se debruça no parapeito da sacada e fita o brilho vespertino da cidade. Deite seu olhar mais pacífico sobre a figura do menino, que agora é adolescente, que amanhã será adulto e que nunca poderá ser velho, pois a velhice só chega para quem derrota a própria imaginação até que não possa mais imaginar. Olhe para o menino e extravase a dó que você sente, vamos, ele é completamente apaixonado por um mundo doente e, aos trancos e barrancos, não é capaz nem de cuidar da própria vida, mas sonha com um mundo decente e com sua capacidade em encontrar diversas saídas. Ora, pobre menino, como insiste se pode se reconhecer pequeno? Como desafia o destino com este sorriso sereno? Renda-se ao inevitável sabor do veneno e desista. Observaremos você beijar o chão e gargalharemos quando seus lábios cuspirem a terra vermelha, mas será tarde, o sabor da poeira vai repousar para sempre na ponta de sua língua. Lamentavelmente o menino se levanta todo sujo de terra e, sem lamentação, sem comiseração, sem perdão, nós todos rimos do seu instinto revolucionário que supõe ter o poder de provocar guerras.

Respiro-me e me situo, recuo dois passos tentando recuperar meu espaço. Que fazia eu ao rir do menino ou era eu próprio a rir de mim em uma insinuação banal de vitalidade? Eu era o menino ou o sujeito que gargalhava do menino ou ainda os dois coexistindo simultaneamente? Que penso na metafísica ou na astrologia se buscar significado é diretamente contra a simplicidade que deveríamos buscar para sermos felizes? De que adianta nessa vida criarmos raízes se não lidamos com cicatrizes? Que provoca esse desassossego sem fim? Puxo o ar e o solto depois em uma tentativa bem sucedida de recuperar o controle de minha própria respiração. Ergo a cabeça e no céu noturno vejo o voo de um gigantesco avião, que antecipo ser gigante por já tê-lo visto de perto. A visão engana e de longe a miragem o faz menor que a minha mão destra. Os espelhos refletem nossa imagem e nos viciamos em nos observar. Cuida-se tanto a aparência que o que deveríamos ver somos incapazes de enxergar. A alma implora por alimentos, mas tudo o que posso oferecer é vulgar.

Encerrei a reflexão para tentar cessar os pensamentos, aconteço, porém, contra todas as perspectivas. Não há conclusão nesta vida. Todas as histórias continuam sem parar e o tempo nunca para de passar, assim, os relógios dos ponteiros fictícios que criamos e hoje chamamos de real existem apenas para que sejam congelados quando nos despedimos desta Vida para o que chamamos de Morte. Alguns desejam a eternidade. A Eternidade é real ou projeção de uma vontade de júbilo duradouro? Nada na vida é constante. Nada disso existe e menos ainda do que as coisas que vemos e sentimos é realmente real. Quando fecho os olhos, imagino o quarto que vi por último. Lembro-me de quando meus olhos estiveram abertos e há uma imagem quase nítida. O frio que eu sinto é real como uma sensação particular minha, mas não o sinto como se ele existisse, exceto se vejo os outros vestindo garbosos casacos e roupas elegantes e resfriados coletivos. Não fosse os outros como comprovação do frio, eu não sei nem se poderia afirmar a realidade deste mesmo frio, ainda que eu morresse por hipotermia.

Veja, a vida segue e os corpos envelhecem e os anos continuam passando e nossas peles lindas um dia serão secas e feias e nossos corpos um dia serão murchos e só nos restará a qualidade de enxergar, mesmo quando não vemos, com a profundidade que o enxergar existe. Futuramente, quando o amanhã for o presente, você vai perceber como a dor molda nossa personalidade e como o que fazemos com a dor reflete nas nossas mais drásticas atitudes. Não chore pelos caminhos não percorridos, por favor, alegre-se pelas estradas seguras e pelos momentos bons e lúcidos e reais que viveu no que agora já é passado. Chore e tire isso tudo do seu peito, eu sei, eu também estou cansado, mas ainda penso nos outros, revolto-me, minha empatia complica minhas ideias e sinto uma espécie inédita de nojo de mim. Como vou conquistar meus objetivos se persistir assim? Como conviver com este asco insistente?

Queria poder me simplificar, mas não posso. Queria poder entender o meu lugar, mas sinto um frio de inverno que me faz congelar todos os ossos. Que há de errado em mim? Que há de errado neste desejo prolixo e demorado por solidão? Sozinho posso sanar o que grita em meu coração?

Um pássaro caiu do céu e o percebi morto entre a rua e a calçada. Penso na ave como penso na vida e me pergunto se o pássaro costumava voar sozinho ou acompanhado, se havia morrido caçando comida ou se já havia se alimentado, se deixou filhotes no ninho e, a complexidade da minha mente me enche de pavor e sinto uma vontade inenarrável de chorar. Não, eu não estou de luto pela morte do pássaro, era apenas um pássaro como outros milhares, estou cônscio, entro em estado de luto por tudo o que isso me significa e não deveria significar. Meu desespero é crescente e medito sobre os desesperados. O infortúnio é pensar sobre o que existe na vida quando deveríamos apenas vivê-la. A miséria do homem é só lembrar do que deixa como dívida e se esquecer de olhar as estrelas. Planetas acenam suas cores distantes para os minúsculos e deselegantes seres da Terra. Os corpos dos mortos retornam ao solo e se transformam em adubo e ervas.

Vejo o que vejo como vejo, mas fico atento para não transformar o que existe como coisa real em apenas um reflexo falso baseado nas minhas impressões pessoais. Sigo os movimentos felinos da gata preta e me sinto longe da capacidade de prever suas ações. Sou brevemente feliz por não saber o que acontecerá em seguida. Nenhum dos movimentos dela depende dos meus e celebro essa distância que há entre nós como um segredo ancestral que carrego no peito e na vida. Ouço a música e os ritmos e sorrio por não saber criar músicas e por não conhecer todos os ritmos. O que me escapa é o que torna feliz, assim, alegro-me com coisas que eu nunca quis. Fiz de mim um sujeito uniforme, que é retilíneo e corajoso, ainda que machuque pessoas pelas estradas desta vida. Quem sai impune? Não ajo com falsidade, pois a sinceridade se tornou natural e extravasa na ponta da língua. Observo o lusco-fusco sem sol e as janelas solitárias ornam com ruas que conheço como a palma da mão, mas que não são minhas. Eu sou mais do que as coisas que tive e sei disso e me regozijo por enfrentar minhas lutas singulares, não, hoje percebo que não posso e nem preciso vencer todas as lutas, posso caminhar junto, ainda que nem sempre deva, mas canso de restringir minhas capacidades ao que me é alheio e me incendeio por um futuro qual eu dependa exclusivamente de mim.

Deito-me no colchão que foi fabricado e no piso do segundo andar que foi construído e, enfim, deito-me na terra que estava e sempre esteve ali. Escapa-me o mundo, porém, sinto-me mais conectado com a Verdade da minha alma e sei que apenas minhas palavras podem alimentá-la. Procuro o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto que a resposta se aproxima a cada novo trecho, conto e verso, assim, escrevo-me pela liberdade que desejo possuir, escrevo, pois escrever é mais importante do que sorrir e agora anseio pela solidão desacompanhada e nem meu amor, nem minha imaginação, nem minha gata, nem meu cão, ninguém mesmo pode me confortar. As palavras soltas talvez possam. Não, nem mesmo as palavras e os textos. Fecho os olhos e sinto tudo me deixar.

Abraço a Verdade do meu mundo como quem olha para um vislumbre da Beleza original pela primeira vez na vida. A luz é muito forte e me cega temporariamente e fecho meus olhos, sem precisar imaginar uma beleza inventada pela minha poderosa imaginação. Nunca envelhecerei, nunca morrerei, pois nunca nem soube se algum dia estive vivo. Será que estive?

Escuto a Voz do mundo me resgatando da Escuridão e do Vazio e ela se parece com a sua voz. Sinto saudades, mas não quero ser resgatado. Confesso que bem correria para os braços que quero que me abracem, mas qualquer conforto é oposto ao que tenho mirado. Pelos outros, eu vou correr no sentido contrário. A minha missão encontra sua conclusão do outro lado. Desejo fervorosamente superar meu medo do escuro e juro que ainda nesta vida este pavor some. Juro pela honra jamais esquecida e pelo valor de meu próprio nome. Pois nomes são importantes, devemos recordá-los e não podemos perder a identidade. Repito e ecoa o silêncio que me afasta ainda mais da vaidade.

Não me finjo, mas talvez eu exista exagerado, demasiado, expansivo, estranho, prolixo, muito. Não me finjo. O cumprimento da missão não teria sentido, acaso minha missão fosse centrada apenas na autorrealização e não evoco esta palavra como mantras culturais e sim como o desejo de se impor, de vencer sozinho. Os que só pensam em seus umbigos nunca sabem para onde vão e, ainda que muitos destes sejam ótimos oradores, fervorosos nos discursos contra os contos de fadas, no âmago deles repousa contraditoriamente uma vontade púrpura de voar. Preciso me tornar quem eu nasci para ser e encontrar o rosto que eu tinha no momento da Criação. Necessito vislumbrar a Verdade qual existe além da verdade que conheço. Posso encontrá-la antes do fim? Claro, principalmente tendo a consciência de que o fim pode não ser exatamente o fim. Não sinto nada e em seguida sinto tudo. Diante da violência assustadora, eu permaneço mudo e pego impulso para o maior dos saltos. Quero combater a vileza, apesar dos meus vestígios de cansaço.

E sofro o sofrimento vulgar de bilhões, pois meu coração está despedaçado, decidido e dividido. Sofro internamente os ventos incessantes de furacões que surgem e não posso salvar todos e nem oferecer abrigo. Resigno-me totalmente e me vejo diante de uma situação fatalista qual não posso fugir, correr, evitar ou disfarçar. Essa é a vida e este sofrimento me faz ter a certeza de que não sonho. O vento amaina, mas não para, assim como a minha respiração.

Os movimentos dos animais, o constante correr das horas, as coisas frágeis, tudo o que foge ao controle, tudo isso existe como a representação simbólica e discreta da fragmentação divina da vida. Deus não fala em voz alta, mas os teístas seguem suas palavras. Será que o melhor presente divino foi a oportunidade de apreciar o silêncio?

Sinto o cheiro da chuva e sei que ele pode ser uma impressão do que eu gostaria que acontecesse. Só quando as gotas despencarem do céu terei a certeza se a minha impressão foi baseada na realidade fática ou apenas na minha vontade. Penso os pensamentos proibidos e me destoo dos tantos vulgares que cogitam uma espécie de limitação intelectual pré-estabelecida. Não compartilho meus hábitos e procuro a minha solidão. Hoje preciso ser sozinho. Hoje preciso existir sozinho.

Escuto um barulho interno e é o meu próprio corpo, existindo como coisa real, que me alerta da fome. Eu não como nada há horas e é preciso obedecer a uma ordem que surge de dentro. Poderia dizer não a mim, como muitas vezes já o disse, mas mereço um jantar discreto. Sigo aqui enquanto meus dedos não se descansam e eu teclo. Se tivesse disposição e não sentisse dores de cabeça, eu dirigiria para longe do meu computador e dos meus problemas. Tenho coisa nenhuma e coisa nenhuma me tem. Perco-me, enfim, até das ilusões do Mal e do Bem. A ilusão pode ser o primeiro dos prazeres, mas só é prazer porque nos deleitamos também com o que é falso. O que é memória, verdadeira ou falsa, pode se manter em nosso encalço. Canso-me de minhas impressões e de minhas próprias histórias e de minhas próprias palavras.

Quero vagar por aí como um anjo sem asas.

Quero que o mundo para chamar de quintal de casa.

Quero tudo, mas não posso ser egoísta e devo escolher meus caminhos.

Um dia ainda mudo, mas hoje preciso existir sozinho. Ligo a televisão e apago a luz antes de sair do quarto. Desço as escadas e este é o fim.

Antecessores

Aos novos desafiantes se apresentam geralmente os velhos desafios. Quase todos se deparam com grandes problemáticas, dramas, questionamentos intelectuais, morais, emocionais e, creio que talvez se demorar em uma espécie de meditação nesta mutação de busca por um ponto de equilíbrio seja um grande desafio, entretanto, é provavelmente um daqueles passos gigantes que damos nas caminhas fundamentais.

Erro frases, erro palavras, perco-me do que torna meu texto nexual, sim, às vezes me perco e às vezes perco além da minha própria pessoa. Olho de fora como se fosse mesmo impossível me reconhecer por dentro. Há algo de errado? Não, não existe algo definido e por silogismos não me defino também. Acertei quando tive convicção dos meus equívocos e me peguei falhando quando estava presunçoso sobre o que não podia ser diferente do que eu imaginava. Sempre pode. Quantos antecessores quebraram a cara antes? Quantos tantos almejaram escrever livros e falharam? Quantos tantos almejaram escrever e sucederam? O resultado final importa?

É pelo que sintetiza a paixão e exulta o amor. É a coragem de viver e dar um novo passo, fazer algo realmente único e especial. Se nunca consegui, só nunca consegui até hoje e tenho uma vida como oportunidade.

Os outros realmente influenciam na extensão do meu sentimento?

Não deve ser assim. Temos pessoas que nos empurram e que nos puxam, mas dependendo da sua perspectiva, você pode enxergá-las de maneira invertida. Entregaria tudo por algo? Desistiria de tudo por um sonho? Morreria, antes da hora, acaso precisasse para que os seus ideais alcançassem após a morte algo que nunca alcançariam em vida? Quantos fizeram o mais difícil? Quantos hesitaram e falharam? Quantos hesitaram e venceram a hesitação? Como agiram aqueles tantos que estiveram por aqui antes? Quem é capaz de enxergar suas tantas nuances? Quem um dia vai ser capaz de determinar o seu alcance? Vá e vá longe.

A tremedeira nas mãos e nas pernas não é um sinal de desistência.

Quando me pego trêmulo pela ansiedade dos novos desafios, eu geralmente sorrio. É o que me coloca de volta em mim. Quando o meu coração se acelera e eu fico ofegante, eu sussurro para mim, para que essas batidas, esse tumdum tumdum apenas continue, para que eu possa continuar vivo. Quero viver e ter a consciência de que não tenho apenas sobrevivido. Quero ver o que sonho nas noites pelos dias estar cumprido. E realizar minhas coisas e viver minhas histórias, pois os contos nascem dos nossos corações estrelas. A última ambição do sonhador é uma recompensa que nunca poderá obtê-la?

Ainda assim, eu sonho do meu quarto. Destes meus tantos devaneios que cruzam essas incontáveis madrugadas nunca estou farto. Imagino-me, refaço-me, torno-me mais forte para conquistar meus objetivos. Talvez o mundo todo ainda se demore em olhar para o meu sorriso.

Na contracapa de um livro, numa revista conceitual ou até mesmo na televisão. Se aquele tumdum tumdum continuar, quem sabe onde vou parar, quem sabe o que vai ser do meu coração? Só que ele é forte e pressinto que vou sobreviver. Olho e creio que vejo, pergunto-me, quantos tantos aguentaram antes de você?

Tumdum-tumdum-tumdum. O mundo aguarda minha próxima investida.

Tumdum-tumdum-tumdum. Ainda tarda para a minha despedida.

Tumdum-tumdum-tumdum. Coragem. Abandone tudo o que te prende. É tempo de se arriscar.

Tumdum-tumdum-tumdum.

É a tradução do coração.

Você ainda pode continuar.

Siga em frente até o dia em que falhar.

Antevisão e Cansaço de Fim de Mundo

Estava meio trôpego, instável, qualquer um poderia notar. Um instante era o bastante para se lembrar do que houve antes e simplesmente deitar e chorar. Se choro, pergunto-me, a razão das lágrimas. Se me demoro, é por entender tanto de lástimas. Se ainda estou parado há de ser por não ter virado a página.

Qual máquina metafórica reside dentro de mim? Que é que me traz ao paladar este gosto de fim? Deve existir um parafuso solto, uma engrenagem torta ou qualquer funcionalidade mecânica quebradiça. É que às vezes vou seguir e sinto que volto, algo me corta e os meus pelos se eriçam. Estático, prostro-me feito bicho selvagem. Enfático, aguento o peso da abordagem. Crescido como sou, eu nunca sou quem agride, mas a vida me tornou alguém pronto para o revide.

Batalha de egos travada no vale do fim do mundo. O sujeito está equivocado, porém, faz da falsa razão o seu escudo. Como se mede o alcance do orgulho? Provou seu ponto, mas perdeu a argumentação, como se não fosse o suficiente, foi em frente e promoveu a retaliação.

Copiosa marcha para o mistério da morte no vale das sombras. Afrontosa arrogância em baixa, vitupério proferido por esporte, é melhor que se cale nas caminhadas longas. Que tenho tão insistente que tanto me incomoda se não tomo boas ações? Que espécie de regente me vejo nos reinos dos sonhos translúcidos repletos de emoções?

Há pessoas no deserto. Não sou mais esperto que elas. Há pessoas congelando de frio sem cama, teto ou janelas. Não sou mais miserável que elas também. Há pessoas sendo assassinadas. Quanto é que me perseguem? Certamente jamais me atacaram por causa da minha cor de pele.

Shakespeare acreditava que o problema dos homens era a inconstância. A minha aposta é que o cerne das catástrofes seja a arrogância. Fosse eu mais feliz em sonhos, abandonaria o plano físico para dormir e hibernaria durante o inverno. Seguissem os dias enfadonhos e após a invernia transformaria meu descanso temporário em eterno.

Cansaço de fim de mundo. Sorri, embora meu coração chorasse, antevendo a minha despedida de tudo. Vejo-me de fora, revolvo para dentro. A vida é agora, embora, quase todos se percam do presente momento.

Para mudar o mundo

Para mudar o mundo, primeiro, é preciso admitir a insatisfação com as coisas. Se este não é o cenário ideal, reconheça ansiar por mudanças, reconheça-se em seu papel de mudar seu destino e tome bastante cuidado, pois o sonho de mudar o mundo às vezes muda o sonhador (Humberto Gessinger).

Não se preocupe por estar no chão. Os melhores e os piores já caíram e estiveram exatamente no mesmo lugar qual você se encontra. Não é sobre permanecer a vida inteira em sobriedade, imaculado ou livre de constrangimentos e consternações. É sobre entender a leveza e o peso, a liberdade e a responsabilidade, a tristeza e a felicidade, o caos inevitável e a paz absoluta. Certas coisas vão se repetir até o nosso derradeiro amadurecimento. Quando aprendemos, é raro cometermos os mesmos erros.

Se os homens fossem constantes seriam perfeitos, afirmou Shakespeare, mas somos factivelmente falhos e frequentemente nos despedaçamos. Quase todos se escondem com o pretexto de não conseguirem enxergar, mas quando todas as máscaras caem, você realmente fixa os seus olhos naquilo que vê?

Recolher cacos é sempre um trabalho penoso e talvez você dê sorte em estar perto de alguém que saiba tomar cuidado com vidro, pois é difícil remontar, reerguer, reestruturar. Quando ainda no chão suas pontas afiadas estão prontas para ferir a mão de quem ousar tocar, de quem se sujeitar, de quem for suficientemente louco para cruzar os limites e assumir o risco de sangrar por você. Se você é o catador de cacos, eu recomendo apenas cuidado com as hemorragias. Há quem fira pelo prazer de ferir.

A névoa densa outra vez toma conta da cidade e você deixa de enxergar todo o resto. Sua angústia cresce quando repentinamente só enxerga seu próprio corpo, estranho, irregular, quase como se ele não lhe pertencesse. Você age, mas não se sente dentro de você. Uma espécie de monstro estranho tomou posse e suas memórias sobre certas fases são ébrias e entrecortadas. Descemos uma cortina diante das coisas que evitamos ver nos outros e em nós mesmos. Despreparados para a troca de pele, escolhemos nos igualar por baixo, fazemos incentivados por pessoas alheias, guardamos souvenires em recônditos secretos, sejam eles materiais ou não. Você pode se esconder bem, mas nada te afasta do seu reflexo. No fundo, você sabe bem quem é. Talvez secretamente acredite que mereça um prêmio ou uma punição pelas suas atitudes. Se eu não mudar o mundo talvez o mundo me mude. Alguns se regozijam pela autopercepção, outros cantam em voz alta suas lamúrias. Você se envergonha ou se orgulha de quem é?

Levantou já? É manhã outra vez. A escuridão que sugeria infinitude, enfim, morreu. Você estava apavorado, eu notei, mas me imaginou mais forte do que eu realmente sou, pois o negrume da madrugada jogou seu pesado cobertor em cima de mim também e eu senti uma sufocante vontade de chorar. Não chorei. Fiz-me forte, pois eu precisava ser o mais forte, orgulho bobo de quem se levanta quando o resto se deita, de quem se ergue para o sacrifício, de quem levanta correndo para ouvir o barulho estranho dentro de casa, de quem sabe que deve ser o primeiro na linha de combate, ainda que este geralmente seja o primeiro a morrer.

Você sente medo e eu sinto também. Não é diferente com qualquer outra pessoa. Muda-se a forma do medo, mas eventualmente todos se sentem aterrorizados. Já congelou em momentos decisivos? Fraquejou quando deveria ser mais agressivo? Acalme-se e respire fundo uma, duas ou dez vezes. Você é mais do que suas angústias e revezes. Está pronto para tentar de novo? Recomece amanhã. Por hoje, eu apenas recomendo que faça um café forte, beba muita água, coma sua comida favorita, saboreie chocolates amargos, veja a beleza de algo sutil e durma bem.

Nós somos o que fazemos de nós e não o que deixamos fazerem de nós. Não seja aquilo que tentam fazer de você e seja mais amplo nas suas angústias. Você não é o único atormentado por problemas e com a vida complicada. Não pode sofrer pelos outros, mas tampouco deve agir como se você fosse a única pessoa relevante no universo inteiro. Evite o pedantismo, precaução com os silogismos, cuidado com o que come, pois é preciso cuidar do corpo e da alma. Vá em frente, vá sempre, mas vá com calma. Acorde após sua curta noite de sono, consciente de que amanhã tudo começa de novo, até o dia em que, enfim, a vida termina. Para mudar o mundo é preciso estar bem disposto, então, acorde e lave o rosto, desafie o que lhe foi imposto como sina.

Para mudar o mundo precisamos aceitar quem somos, sem perder, entretanto, a consciência de que sempre é possível mudar para uma versão melhor. Seja você.

Feitos para durar

Noutra noite de aventuranças
Vislumbrei
estranhas cenas
Tardios sonhos

de esperança
contidos nas

entranhas de poemas
Devaneio com um

corpo e uma valsa
Boca, toque, aproximação, pele
Sinto-me morto com uma lembrança falsa
Poucas roupas,

choque, vibração,
Estou entregue
Acordo entorpecido sem saber onde estou
Ela se aproxima e me dá um beijo de café
Esvanece o perigo diante do rosto do amor
Ela é sina e se denomina minha nova fé
Envolvo-a com meus braços e sussurro
quando envolve todo o espaço aquele perfume
Ainda que tudo soe escasso e escuro quando fracasso meus olhos encontram o lume
Na madrugada densa nos entregamos completamente
Espiados integralmente pela noite enluarada
Dada nossa sentença suspiramos lentamente
Suados e contentes não nos arrependemos de nada
A beleza hipnotizante some com o raiar do dia
Enquanto rascunho homenagens em meu caderno
Àquela que personifica o bailar e a poesia
Que se tornou o testemunho de um conto eterno
Os risos histéricos e invejosos ficam roucos
Pontualíssima sensação de que é impossível atrapalhar
Rios lodosos que afogam tantos loucos
Anunciam a conclusão: foram feitos para durar.

Crônica Pregressa #1

Amor fantasma, futuro, passado e fim

Eu não sinto meu coração até que doa, vamos, por favor, machuque-me.     

Tarde passada, eu resolvi, enfim, que fecharia os olhos para as direções quais eles sempre estiveram abertos. Estiveram assim, inevitavelmente, por escolha minha, mas escolher não deixa de ser também um fardo. Nunca me deram o benefício da dúvida, veja, eu sou sempre julgado com uma espécie de certeza férrea e fria, capaz de assustar até mesmo demônios. Ainda que seja algo desconfortável, eu acho que agora posso compreender porque o fazem. Sempre esperam a minha convicção, ainda que, usualmente só me ofereçam a dúvida. Não me ofendo. Abraço os monstros alheios e os que moram em mim também, mas acredito que posso, mais do que antes, realmente entender a amplitude da ação das pessoas. Quando ameaçados, em regra, todos nós recuamos e somos ligeiramente ariscos. Quem suporta se sentir acuado? Eis que então a simplicidade ganha nuances de complicações e o simples ganha contornos impossíveis. Por que deixar alguém se aproximar? Quais benefícios podem advir disso? Por que é que tão fácil para uns falarem sobre coisas que não entendem? Por que é tão difícil aceitar outras coisas que, mesmo em silêncio, cansamos de compreender? Escute sua própria voz e não seja o seu próprio algoz. Siga o próprio conselho. Você já sabe o seu caminho. Proferiu as palavras sozinho diante de um espelho. 

Amor como crença em fantasmas. Raríssimos viram, mas todos falam sobre.     

Não nos ensinam, creio, sobre a maneira correta de acreditar em determinadas coisas; aquelas verdadeiramente importantes como a vida, o tempo ou o amor. É mais fácil aprender a não ter fé do que se acostumar a tê-la, percebe? Fé em qualquer coisa que seja, mas esse sentimento abstrato de determinação, de compromisso individual, que forma e solidifica o dever moral de melhorar dentro do coração. Constroem a sua personalidade de uma maneira prática, comum, e se você der sorte, ao longo da jornada poderá contar com um ou dois tapinhas encorajadores nos ombros. Dirão que suas rimas são ridículas e que é melhor que seja advogado, médico ou que trabalhe na empresa da família, pois nessa vida, aprenda logo, não se vive sem dinheiro. Concordo com essas palavras. Quem é que vive sem dinheiro? É mais fácil também, assim como sugeri acima, acreditar no dinheiro do que em Deus, mas com o passar dos meses, com o constante correr das horas, você percebe que, há coisas, ainda que sejam detalhes, que não estão ofertadas em vitrines. Como alcançar algo nada prático sem cometer uma espécie de crime? Como voltar o relógio, evitar se transformar em um opróbrio, e buscar, sem “ganhar”, a única coisa que um dia te fez sentir sublime? Ora, eu vejo que você ainda não vê. Talvez seja por dar trela à opinião de quem não se interessa ou pelo barulho alto da TV. Quando as crianças de rua perguntaram, todos os seus impulsos se calaram, pois não sabia responder. Uma simples indagação te travou. Quem diabos é que eu sou?

Sirva-se filho. Sugiro que beba uma boa taça de vinho esta noite. 

Obrigado, senhor. Tenho que me virar, eu sei. Na minha barriga e no meu âmago não carrego nem mesmo um rei. A arrogância de nada vale pra alguém como eu. Do que vale a pena discorrer? Dinheiro? Ganhe, gaste, guarde, mas seja sábio. Gaste apenas o que sabe ter, nunca mais, não seja estúpido, é idiotice viver endividado. Amizades? Tenha poucas. Inconsequentes, mas corajosos e fiéis, como sugeria o poema de Victor Hugo. Os bons amigos apertarão suas feridas e depois ajudarão a curá-las. Amor? Ah! Amor! Amor é vislumbre para a maioria. Amor é rascunho de poesia. Amor em um dicionário atualizado é conceito de velharia. Quem é que, de verdade, se preocupa com o amor? Não os ensinaram, certo? Que já nascemos incríveis? Seus pais não falaram como não existem sonhos impossíveis? Ainda é traumatizado por que quando caiu da bicicleta haviam soltado sua mão? Notou que a cicatriz no joelho foi o jeito perfeito do conselho chegar ao coração?  

Não sejas precipitado, tome cuidado, mas não se torne arredio.
Fique esperto e nesta imensidão de gelo e deserto, lembre-se:
A confiança é um prato que se come frio. 

Ditados invertidos, invertidos inventados, dias antes prometidos, por ferro e fogo feridos, eternidades fadadas a dar errado. Sinto falta de tudo o que um dia foi, mas não sinto saudade de quem fui. Tenho orgulho das mudanças e sei que hoje ninguém me possui. Seria tão ruim ter alguém para segurar a minha mão? Ah, meu amigo, chega dessa melancolia. Até quando vai se lamentar? Varra a monotonia e mude tudo de lugar. Chame as coisas pelo nome e espere que atendam seu chamado. Quem não responder, chame agora de passado. É preciso se preocupar com a saúde, a espessura do sangue e as veias do coração, mas não se esqueça de que a vida é agora e não há garantias em futuros planos. Por amor, por favor, não abandone tudo o que pode ocorrer de bom em um ano. Quem é que pode te atrapalhar a conquistar o que você sempre quis? Se pensar com cuidado, notará que seu único obstáculo, é o quanto você deseja mesmo ser feliz. Não procure respostas no que havia ontem e nem no que haverá amanhã. Faz sentido viver a vida além de hoje? Por meses que pareceram anos, eu não senti as batidas do meu próprio coração e quis culpar todo o resto, até a minha boa cidade. Quando entendi minha situação, coloquei SIM onde só havia NÃO, pois constatei que merecia a minha felicidade. 

Sinto minha vida pulsar e a vibração de tudo é tão serena.
Ainda não sei dizer qual é o meu lugar no mundo, mas
a partir de hoje assumo que sou parte de Tudo
Viver vale mesmo a pena

Não arrefeça se tirarem seu teto e sustento
Você já passou por fins de mundo piores e pôde sobreviver
Sei que vai virar o jogo no próximo movimento
O mundo acaba hoje para amanhã renascer.

Há amor depois do amor?

     Meu único amor, eu tenho te esperado por tanto tempo. Por onde é que você anda? Soube meias notícias sobre você, meias verdades apenas, mas custei a acreditar nos boatos. Por onde erra você? Jaz no sono eterno ou eternamente se perdeu no vento? O porta-retratos com a velha foto ficou exposto por algum tempo na sala vazia, mas muitos começaram a achar estranho que eu ainda a ostentasse, mesmo tendo a perdido. Depois veio outra mulher em um porta-retratos novo. Nunca a vi, mas ela se parece com uma menina de cabelo colorido, então, deixei ela na sala para colorir minha imaginação. Todos que antes se incomodavam com a foto antiga, perguntam agora quem é a nova. Sorrio. Uma modelo qualquer de algum lugar qualquer. E o que aconteceu com a antiga? Ora, eu sou descuidado. Em um equívoco legítimo, alguns dirão que eu a perdi mesmo, mas importa tanto assim o meio se o fim é igual? Que seja a perda então. E se eu dissesse que mesmo com a perda, eu ainda ganhei? Há uma parte que será, até o dia de nossas mortes ao menos, eternamente minha, eu sei. Entendo sua partida, pois “o amor não enche barriga” e apontar o dedo por deduções é algo mais comum do que se imagina, mas quem é que diria? Quando me tornei certo de que você não voltava, a insuportável invernia no meu coração piorou e eu só rezei para melhorar. Rezava para quê ou para quem? Não sei dizer, mas cada uma das raras lágrimas que derramei escancarou minhas fraquezas. Choro é fuga. Que razão há no mundo para um homem de sonhos profundos se lhe tiram o que mais ama? Que razão não há para tudo ignorar e viver isolado vestindo o mesmo pijama? Fuga no sono, queda dramática, cama. Infelizmente até em meus sonhos, onde sento em um vistoso trono, você me chama. Por que faz tanta questão de me possuir se nunca mais foi capaz de me desejar?


     O fim da vida é a morte e hoje pouco ou nada me interessa devanear sobre o que há depois. De que importa, afinal? Eu só gostaria de saber se há amor depois do amor, pois com a última batida pesada da porta, imediatamente soube que meus sorrisos não seriam os mesmos. Há ilusões de paraíso para meros vagabundos à esmo? Meus medos me consumiram. Hoje é sábado, 9h10, mas estou em um escritório. Nos meus sonhos mais antigos isto é como comparecer ao meu próprio velório. Lancei eu mesmo a flechada que perfurou a minha armadura. Fadado a viver em batalha, constatação de uma gama de falhas, uma voz que ecoa: A vida é dura. Já não penso mais sobre o amor, pois se há esperança de perseverar nele, esta esperança apenas é alimentada nos momentos em que é impossível raciocinar. A lógica é inimiga do sentimento. Se pensar com clareza pode concluir que nenhuma ou todas as suas atitudes foram capazes de influenciar alguém. Adianta disparar a arma quando a vida tomou reféns? Que há por de trás do ódio senão a candura? As faces de escárnio, todas secas, horripilantes, lançam olhares mortificados para os que ainda se preocupam. Quanto tempo nós temos? O que é que fazemos aqui?


     O não pensar nos faz livres e o pensar nos faz prisioneiros, por tal, digo que é mais feliz aquele que nunca aprendeu a raciocinar. Aquele que não sabe que o mundo é gigantesco, não sente falta de conhecer sua imensidão, pois o resumo em que vive o basta para se satisfazer e ser feliz. Quem é louco de querer ser apenas feliz? Aquele que pensa, age ou não, mas inevitavelmente se compunge pelas façanhas realizadas ou por aquelas que deixa de realizar. Aquele que não pensa, porém, age e a extensão de seus porquês se encerra na própria razão que o levou a agir. Furtei um pão, pois senti fome. Se não fui preso, fui feliz. Se fui preso, não fui ladrão bom o suficiente. Era preciso fazê-lo e aqui se encerra a existência da questão. Não há razão para questionar se é moralmente correto tomar o pão; foi necessário. Há amor para os tolos? Sim! Principalmente para os tolos, mas sigo em minha racionalidade banal ao me perguntar: há amor depois do amor?


     Alguns que me leem me acham inteligente. Outros me tomam por um tolo infantil. Estou amadurecendo ainda e sou qualquer coisa entre criança e adulto; entre o divino e o cético; entre o pueril e o razoável. Se me consideram imbecil, provavelmente estão certos. Se captaram em minhas palavras algum vislumbre genial, pode até ser que ele também exista. A felicidade é para quem sabe agir esquecendo-se de pensar ou para quem sabe olhar para o que possui, sabendo que possuir é mera ilusão. Talvez a palavra ilusão sintetize a ideia errada, pois possuir é ainda menos. Na realidade, nós não possuímos, em regra, nem a nós mesmos e somos condicionados a fazer coisas que muitas vezes não queremos exclusivamente por uma vontade que nos leva ao que desejaríamos que fosse. Possuir é expectativa longínqua de ilusão. Tudo que não existe em ação e solidez é mais real para quem raciocina. A imaginação é importante, pois é nela que se firmam todas as nossas teses e se continuamos a acordar no dia seguinte e no dia depois, é, apenas pelo fato de que em um lugar dentro de nós, existe uma fé cega em nossas próprias capacidades. Antes de Deus ou da ideia de Deus ou de qualquer ideia que não o envolva, a realidade nos guia para uma fé cega em nós mesmos e quanto mais arrogante somos em pensamento menos altruístas (verdadeiramente) tendemos a ser em nossas atitudes. Há humildade só no agir simples. A bondade na simplicidade é geralmente discreta. Desconfie dos que fazem barulho por qualquer coisa. Afaste-se dos que sentenciam à morte quem cometeu qualquer erro frugal. Se puder, seja humilde, peça desculpas, mas evite se humilhar. Não devemos baixar a cabeça, pois não somos servos de Rainhas ou Reis. Acaso não possa ser humilde, seja coisa nenhuma. Ainda que cada indivíduo seja a meditação contemplativa da memória do que um dia foi, o que ele é agora é apenas expectativa do que o que imagina ser.


     Assim, por ora, encerro em mim todas as questões existenciais essenciais tanto como as francamente patéticas. A chance de que os cruéis, os pernósticos, os ascetas e os desmedidos sejam felizes é absurdamente maior do que a chance de felicidade dos ingênuos e dos coerentes. A ausência de culpabilidade, o não remorso, faz com que a arrogância predominante da alma se eleve. Elevado, supostamente há leveza no ser, mas não o há, porém, para os que se martirizam por erros que nunca cometeram. A própria expectativa de liberdade geralmente é uma artimanha ilusória para com a verdadeira liberdade. Somos prisioneiros da suposição do que poderíamos ou deveríamos ser.  Associamo-nos à pessoas degradantes para nos impedirmos do privilégio de pensar. Juntamo-nos aos réprobos, pois queremos evitar a solidão. Que sentido há em viver? Há sentido em qualquer coisa? Tornar o sonho real faz com que se perca a possibilidade do sonhar, mas, creio, embora sem forçar expectativas demasiadas, que realizar o sonho nos torna complacentes. Se é importante ser bom ninguém jamais soube dizer. Do mesmo modo ainda não tenho a resposta para a pergunta que me fez escrever e pensar inutilmente em tudo isso. Há amor depois do amor? Há lealdade em um mundo de oportunistas? Para o que se vive é o mesmo para o que se morre? A palavra futuro é ridícula. Tudo que é, obviamente, é agora. Erro-me por medo de não ter errado o bastante, pois deveria ter dito algumas coisas que não disse. Ainda assim, quando tive a oportunidade de dizer, falei muito em silêncio, mas quando tentei me expressar com a voz, disse tanto e ainda assim nada transmiti. Como são curiosos os caminhos, vê? Forçaram-me a estar aqui neste sábado. Lancei um débito errado e esqueci de dar o desconto de um centavo. Na segunda-feira cedo, eu vou perder mais trinta minutos da minha vida por isso, mas o que serão trinta minutos quando já estou fadado a perder nove horas? Desejo o tempo livre que tinha. Desejo ser um pouco mais do que fui e um pouco menos do que sou. Não penso para depois. Não passo para depois. Sou o que sou e sou agora. Apenas isso importa, mas que há de acontecer?


     Não há justiça no mundo. A ordem é uma palavra inventada para frear o eterno caos que passa por cima de tudo. Por dentro, quase todos, vi com meus próprios olhos e senti com minha própria carne, são selvagens. Parte de mim também compartilha dessa animalesca selvageria, mas sou um desses coitados infelizes que se presta a pensar além do próprio umbigo. Constatei sem derramar lágrimas que só há felicidade destinada a mim em sonhos. O mais belo deles se resume em um homem recostado em uma árvore lendo um livro; uma mulher cochila está deitada nas coxas dele. Uma menina, um menino e um cachorro correm ali perto, exultantes, ninguém saberia dizer o porquê. Respiro longamente e sou toda aquela cena. Se sou o homem, sou feliz. Se sou a mulher, a filha, o filho ou até mesmo o cachorro, sou igualmente feliz. Se sou a árvore que observa aquele instante, viverei mais por conta disso. Se sou o sol que faz suar as crianças, sorrio, mas cedo espaço à chuva, pois creio que ainda aqui cabe um arco-íris nesta utopia. Sonha-se acordado, vive-se dormindo. Não há rumo novo. Não há alegria nova. Felicidade é ser e ser é existir sem expectativa e sem pensar. Os outros decidem muito sobre nós; eles não importam. Decido-me hoje sobre alguns velhos desejos matreiros que ainda matutam em meu coração. Quero fazer uma viagem para fora do país, pois não quero entender completamente as línguas que falarão comigo. Que seja uma aventura. Quero descobrir o que há depois do mar, para onde os dragões verdes partem e onde dormem os corações partidos. Quero descobrir se há morte após a vida ou se até isso é ilusão. Quero desenrolar meu próprio ser, eu mesmo me saber, entender meu coração. Quero descobrir se há como viver desperto, além dos sonhos e se há amor depois do amor. Talvez nada disso te faça sentido, raramente sinto o sentido, mas ainda assim, é uma jornada longa e dura para que eu a faça sozinho. Quem sabe alguns se juntem a mim antes, durante ou ao final do caminho? Tanto faz. O pouco que sei é insignificante, sigo inconstante, chutando para longe os mais belos diamantes. Quero sonhar acordado, não pensar nos dilemas morais, fazer algo pela existência, mas me aflijo ao pensar, há como acreditar neste mundo que vive por aparências? Não sei. Partirei em breve. Se quiser ir comigo, será bem-vindo. Prometo que será leve, mas não sei se será lindo. Desconheço o destino ainda, mas chegaremos aos lugares que pretendemos. Saiba que está convidado a ser parte da minha tripulação. Tudo bem se ainda tiver medo, nós vamos nos superar. Coragem não é ausência de medo e por de trás um mundo de segredos quem sabe eu ainda possa amar.

Uma espécie de limbo tenta me engolir por mais uma semana,
mas ele se engana se acha que esse espaço vazio me fará desacreditar…
Se há amor depois do amor? Eu me pergunto e me respondo: claro que há. 

Uma noite boa

Já estava quase dormindo quando ela disse, ei, eu achei aqui na internet, achou o que, perguntei, essas coisas bobas, ela disse e de olhos fechados vi o sorriso, que coisas bobas, posso falar mesmo, ela perguntou, eu disse sim, claro, fale sobre essas coisas bobas. Ok, se você pudesse levar alguém para jantar quem seria, vivo ou morto, indaguei, acho melhor levar alguém vivo, é, os mortos não sentem fome, eu concordo, quem levaria, Hayao Miyazaki, japonês, ela pergunta, sim, é japonês e você, não sou japonesa, bem humorada é, sou, quem levaria, pergunto, Will Smith, ela responde. Penso em chocá-la com meu brilhantismo de conhecimentos diversificados. Sabia que a filha dele chama Willa e o filho Jade porque ele é Jada e a esposa Will, não, ele Will e a esposa Jada e aí usaram os próprios nomes para nomear os filhos. Ela ri, ri bastante e o mundo se torna mais leve. Suspiro sentindo algo parecido com a última felicidade palpável. É, talvez seja felicidade, penso. Sabia ou não sabia, eu digo, do que você está falando, pergunta ela enquanto ainda gargalha, eu não sei direito, respondo, peço perdão então, perdoado, próxima pergunta, o que é um dia perfeito pra você, um que chova e esteja frio e eu possa beber bastante café com intervalos para cochilar com a pessoa que eu gosto, nós somos parecidos, ela diz, você e eu, sim, viu, vi, mas eu sou mais alto, sim, viu, vi. Veja a previsão do tempo, mas vou ter que fechar a página das perguntas, deixa pra depois, a previsão ou as perguntas, a previsão e o dia perfeito, próxima pergunta agora, manda, quando foi a última vez que você cantou para alguém? Eu cantei Frejat bêbado uma vez para a outra, faz tempo, ela pergunta com curiosidade sem parecer incomodada, faz muito tempo, respondo, ela me observa, eu sei mesmo ainda de olhos fechados, mas e você, eu cantei uma romântica do Cazuza para o outro e até gravaram um vídeo meu, jura, juro, um dia me mostra, eu não canto bem, não ligo, tudo bem, eu mostro. Agora algo pelo qual se sente grato, liberdade e você, independência. Mudaria algo na maneira como foi criado? Pediria para que meus pais me incentivassem ao hábito de ler livros. Aprendi depois de bem velho e você, pergunto, eu não mudaria, ela diz e emenda, ei, você dormiu, ela me pergunta e se aproxima para me dar um beijo na boca, ei, ela diz de novo e se debruça em mim sem roupas. Você está acordado, decreta, não tenho certeza, mas acho que sim, ela ri, seu idiota, aguenta firme, ainda faltam muitas perguntas, pergunte, que horas são, isso está no teste, não, confere no celular, duas e quarenta e sete, que horas você precisa acordar mesmo, seis e meia, posso parar, ela diz, eu sei que não pode, ela ri, eu também. Como você se sente sobre o relacionamento com sua mãe, eu primeiro, ela se antecipa, tivemos nossas brigas, não é fácil, mas hoje nos entendemos e você? Não conheci sua mãe ainda, você é um idiota, eu sou, responda, eu me sinto feliz e orgulhoso, somos bons amigos, afinal. Algo que você gosta em mim, eu gosto do som da sua risada, do jeito que você mergulha em mim quando me olha e de como você é irrefreável e pergunta inoportunamente, idiota, diz ela rindo, abraça-me e parece desistir do questionário, mas não sei. Meus olhos pesados cedem ao sono, durmo, sem sonhos, sem nem desconfiar do que é que ela gosta em mim.