Crônica de Três Domingos


Sento para organizar as ideias pela primeira vez nos últimos três domingos, mesmo que hoje seja terça-feira. Penso nas tantas despedidas que ocorreram durante a vida e sorrio, satisfeito e melancólico, por saber que mais adiante serei feliz. Hoje não consigo.

O fluxo da vida inclui apresentações e despedidas e, embora conhecer alguém envolva inevitavelmente um terreno incerto, há algo de maravilhoso e mágico que surge em mim toda vez que algo assim acontece. As despedidas são dolorosas e as marcas das pessoas que chegam e vão permanecem pelos anos seguintes como registros do que vivemos, expostos em nossos semblantes.

Por vezes nos esqueceremos, claro, nem todo mundo é marcante e tampouco a memória é perfeita. Outras vezes ficarão retidas em nossa recordação os perfumes, os jeitos, os lumes, os cabelos e contaremos aos outros algo simples como se fosse uma história inacreditável. Um ponto de semelhança basta para que possamos sorrir juntos e nesse ponto tudo muda e se transforma.

As coisas bonitas, eu ouvi dizer, elas deixam um vazio imenso quando se findam, bem como a brisa gélida que refresca o meu corpo no instante que o trespassa, apenas para que eu murmure em seguida sobre como odeio dias quentes. É irônico, pois não existe alguém tão solar quanto eu. As coisas bonitas, eu pensei recolhido em minha própria solidão, são como vaga-lumes que surgem em uma noite morna e nos fazem acreditar que há valor no brilho, pois mesmo um ponto pequeno e cintilante pode romper a escuridão.

Milhares de cenários povoam meus pensamentos. Reflito que buscamos o que buscamos e isso é o que nos torna incríveis. Ninguém de fora pode saciar as nossas vontades internas e independentes, ainda que seja mais divertido e confortável caminhar lado a lado com quem se acostumou a nos conhecer bem. Geralmente não nos sabemos. Quem de fora nos saberá?

O que se ganha, você aprende, também se perde e nesta vida não há garantias. O sentido é discreto ou até mesmo invisível e por vezes tudo soa vago, como se fôssemos vítimas da inevitabilidade da vida. Suas certezas desmoronam e com os olhos cheios d’água, você vê que amizades destinadas a durarem esmorecem; amores eternos murcham; histórias de dificuldade revelam heróis improváveis e valorosos. As quedas feias nos definem. Tornamo-nos mais vis ou belos ao nos reerguermos.

Nem toda ilusão é estéril, você aprende, é necessário estimular um pouco da imaginação para sobreviver com qualidade de vida. Você geralmente se esquecerá de valorizar tudo o que lhe importa, até que tenha passado.

Nesta tarde, porém, eu me peguei alternando olhares entre halteres e nuvens, perdido entre cuidar do meu corpo e viajar pelos céus. Pensei nos mortos, que já partiram, mas permaneceram nos recônditos secretos de mim. No meu coração há uma lareira diante da qual se reúnem, riem e conversam, transbordando ternura. Pensei nos vivos e no sofrimento de viver, quando os corpos se deterioram, os desejos murcham e a memória falha. Vencer é entortar aos murros a ponta da faca?

Permita-se retornar ao que te feriu e ao que te fez feliz. Se aprender a voltar, certamente saberá como prosseguir. A influência de outras pessoas é capaz de nos mudar, mas é preciso tomar cuidar para não desejar ser outro. O que somos na essência é o que revigora a alma. Estremeço por inteiro e me percebo com os pelos eriçados quando ao longe ouço ecoar no meu peito uma velha canção. Envelheço e me percebo estático. Ainda ontem era primavera no meu coração.

Tenho muito o que aprender e me lembro de quem costumava ser. Fui tantos que hoje já não me sei. Amo as versões antigas, mas sou o meu Eu adequado para este momento. Ajo com velocidade, mas a solução vem de dentro. Tento organizar as ideias e falho. Sinto-me perdido, mas nunca distanciado do amor. Estava entristecido até o momento em que ganhei uma flor.

Um dia atingirei todos os meus sonhos e refulgirei entre as estrelas. Hoje ainda não consigo. Melhor descansar neste final de terça-feira com cara de domingo.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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