Crônica Pregressa #6

Contradição

     Começo este relato sem a devida lembrança de onde ele se inicia. Falho com o mínimo, porém, não me desanimo tanto. A prolixidade dos meus sentidos contradiz a preguiça do meu corpo. Mal me sinto capaz de caminhar ou de comer, entretanto, obstinado, sigo batendo os meus dedos no teclado. Observo-me, não sem certo estranhamento, quase estático. A minha mente nunca descansa da realidade ou da irrealidade. Sinto uma vontade de gritar até perder a voz, mas estou cercado. Saiam, por favor. Não é da boca para fora, por favor, saiam. Sou dominado por um instinto de isolamento e sinto uma vontade crescente de desaparecer.

     Resisto, incertamente intrigado, mas certamente contente. Tenho falhado sim e errado como um mestre em errar. Domino os equívocos e nunca me basto deles. Quando alguém me diz para não viver tudo hoje, eu sorrio e assumo uma expressão zombeteira, ainda que não me perceba tão irônico assim. Chamar-me de cínico é a única coisa realmente imperdoável. Ouvi discorrerem sobre minhas ações de maneira generalizada e cada um pensava algo diferente. Assim, eu fui honesto comigo e com os outros. Nunca pude controlar o que esperavam de mim. 

     A exaustão percorre meus ossos. Dizem que eu não tenho motivos para estar exausto. Talvez eles estejam certos, mas, olha, eu não tenho que me explicar quando quaisquer tipos de explicações fogem rapidamente do meu controle. Preciso me afastar um pouco. Posso me perder de tudo, até perder uma ou outra pessoa querida, mas minha própria ausência me desespera. Não penso em boas frases para finalizar um texto. Não há nada mais que eu sinta ou que faça sentido. 

     Um bichinho de luz aparece e me incomoda, mas sinto muita preguiça para me livrar dele e minha bondade ingênua me impede de esmagá-lo. Talvez eu devesse ser mau de vez em quando. Neste final de tarde ainda não posso. Apago a luz e torço para que ele vá. Não desejo companhia. Espero dormir e me esquecer de quem me esqueceu e apenas hoje também de quem ainda se recorda de mim. Quero apenas existir sozinho.  

Discreto.

Inicio uma conversa franca
Defronte a uma imensidão branca
Sentindo uma enorme sede

A dor qual ela banca
Quando sozinha no quarto se tranca
E se atira contra a rede

Cogita desistir
Reluta em admitir
Não vê saída

Não sabe o que sentir
Esqueceu de como sorrir
Perdeu-se de sua vida

Escute-me hoje, por favor,
A face febril está em rubor
Tire o rosto da parede

A fase passa e também a dor
Recupera sua alegria e sua cor
A Tristeza têm olhos verdes

Aposto no que me aquece
Finjo crer nas minhas preces
Celebro minha existência

Príncipe que não se esquece
Demônio que se oferece
Anjo sem paciência

Abro um compartimento secreto
utilizando frases em outros dialetos
que encontrei em grimórios antigos

Concentro-me em pessoas e objetos
Sozinho sou e permaneço discreto
A infinitude de um caso perdido.

Madrugada Antiga

Sofrimentos que cegam
Sentimentos que chegam de longe
Insisto na minha entrega
Você insiste em se manter distante

Fingiu para continuar
Continuei supondo que tu parasse de fingir
Você zomba, pois sabe que eu vou voltar
Acha que nunca irei partir

E me vitupera
Como frágil flor de primavera
É aí que erra
Não sou mais quem eu era

Eu avisei naquele silêncio
ensurdecedor da última madrugada
Se um dia eu me for
Não espere que eu volte para casa

Poesia é nada e também é tudo

Poesia é nada e também é tudo 
É exposição do corpo sem alma 
Da forma sem conteúdo 

Ao mesmo tempo é isso junto,
avesso e também separado 
A poesia falha em fazer sentido 
por ser apenas expressão natural 
Poesia é sorriso de um amigo 
Jantar na noite de natal 
Poesia é esperteza ligeira 

de quem sabe valorizar o que têm 
É a delicadeza da pureza 
Canto dos pássaros
Barulho de trem
É silêncio ensurdecedor que fere
Gota de orvalho evaporando na pele

Poesia é palavra apoteótica forte
Capaz de falar sobre morte 
Esvanecer todos os medos seus 
É vislumbre de sorte 
Poder para você
ser seu próprio Deus

Poesia é tatuagem feita sem precisar significado
para significar

Poesia é arte abstrata,
profunda ou rasa 

Tela em branco
Quadro fora de lugar 

Poesia é o jeito
que você me olha toda vez que me encontra

É o jeito que você ri
quando eu te chamo de tonta

É qualquer coisa bela,
mas também vulgar 

É cinza, é aquarela,
É qualquer jeito de amar.

Crônica Pregressa #4

22 minutos

Não há comoção que me demova e nem desconforto que me mova. Sou o que costumo dizer, mas, evito falar para que possa viver sem ter a pressão das minhas próprias palavras em mim. Sou sério e cético, geralmente. Creio, porém, nas humanidades mais desumanas e nos sentimentos alheios e invariavelmente afetados, como o amor. É impressionante o que se faz em nome de uma emoção, principalmente quando você batiza o sentimento com um nome. Você pronuncia o nome, o rosto se vira em sua direção e ali há o universo. Você repete o nome numa despretensiosa e chuvosa manhã de sábado qual acorda antes e observa o amor dormindo tão pacificamente ao seu lado. Lá fora chove, mas dentro o silêncio é adequado. De repente você sorri, pois descobre que o amor também ronca. A memória de uma lembrança perfeita se vai, pois perfeição não há e nem existe continuidade que continue suficientemente. O relógio é inimigo. Tudo se desfaz lentamente.

A narrativa se quebra e as reviravoltas da vida te atingem. Você recomeça, mas nunca mais ousa a batizar alguém com o nome do sentimento. Há agora uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas, todas as rugas de cansaço, todos os receios tão sutilmente invasivos flutuando pelo espaço. Você sabe que tudo está visível para quem enxerga bem. Há ali o resto do que ainda não se foi, mas discretamente também persiste a sombra do que um dia foi amor. Eu que olho e vejo, percebo-a como algo tão inútil, mas dou de ombros por saber que não há ali nada de errado. Todos somos insistentes no que já deveria estar ultrapassado. Sou especialista em gente, principalmente em pessoas amargas e gargalho sonoramente de quem cria personagens fictícios para se representar numa realidade que parece insuficiente. Confesso que rio deles, pois às vezes me pego nesta identificação recíproca. Ser um não basta. Queremos nos fragmentar para que exista uma chance mínima de que alguém compreenda nossas completudes. Somos seres vastos, raramente magnânimos, mas quando inundados por uma coragem súbita, buscamos imediatamente o que faz palpitar mais rápido o coração.  

Quando eu era novo, eu apenas agia ou deixava de agir. Nunca havia tempo para o pensamento demasiado e qualquer distração se preenchia de maneira suficientemente confortável. Quando a dor ocasionada pela solidão era exagerada, isolava-me em outros mundos. Fechava portais quais nunca deveriam ter existido em reinos distantes, vertendo-me numa utopia na qual eu personificava a coragem infinita do próprio menino que carregava a chave do reino dos corações. Gostava da poesia de sentir que as coisas estavam próximas, mas incrivelmente distantes. Não me cumpri em ideais, mas idealisticamente me tornei incomparável. Fiquei mais velho e mais sério. O trabalho dignifica o homem, mas o desgasta. Envelhecer dói e há ressentimento para com o relógio, principalmente quando sentimos que a vida está mais rápida ou lenta do que deveria. Captamos a distância entre nossas oscilações e compreendemos nossos ritmos, mas não existem mais ações impensadas (não completamente). Sabemos e temos a segurança do conhecimento, entretanto, às vezes escolhemos o escuro e a ignorância. Quando novo eu, não raramente, derramava-me por hábito. Não havia caixas guardadas em um porão secreto com coisas não ditas àqueles que se revelaram menos amigos do que supus que seriam; dos amores que não amaram; das pessoas que compraram a ilusão de que seriam amadas por mim e se decepcionaram. Não havia preocupação com quem se transformasse em cinzas no meio de meus tantos fogos cruzados e manias inequivocamente equivocadas, mas ao mesmo tempo tão singularmente minhas. Evito hoje o rastro de destruição por onde passo, mas talvez o faça mais por conta de meu próprio cansaço. Conservo minhas excentricidades de outros tempos e as novas, mas não sou mais qualquer príncipe de melhores horas. Meço sucessos e fracassos sem ter a menor preocupação em diferenciá-los. O que se parece às vezes é igual. Tudo termina de modo semelhante para os que se cumprem e para os que falham.
Metáfora prolongada do brilho das estrelas. Outra vez calei minhas palavras com a impressão de que deveria dizê-las.

Pensei numa frase extremamente romântica, mas escolhi o silêncio, pois à época achei melhor não dizê-la. Quem sabe o receio tenha me afastado do brilho espetacular das estrelas. Como aprendi em quase um ano sobre mãos, sorrisos, bocas e gestos. Como entendi que quase ninguém me apreciaria por me derramar do meu jeito honesto. Bebi para perder o rumo, quando senti que o rumo era muito certo e quando não havia rumo, solidarizei-me com estranhos desconhecidos que sempre andam preguiçosamente em círculos sem saber para onde vão. Quando não havia ninguém, eu amei vultos que encontrei pelo caminho. Era preferível a ilusão do que crer em uma jornada feita por um homem sozinho. No Distrito Federal andava mais vagarosamente até o meu quarto de hotel e esperava que uma das tantas portas escancarasse de súbito um destino novo pra mim. Nada nunca acontece, exceto internamente. A imaginação inata é o nosso maior escudo contra a realidade, mas por vezes com certa crueldade deforma e piora o que já nos ataca. Um vacilo ao coração e repentinamente você se mata.

Mas olha… Tenho cinco minutos para terminar o texto e não sei o que devo escrever. Mas olha, eu queria te dar uma dica, mas nenhum conselho se fixa. Não sei o que vou fazer. Olha como a vida muda e as pessoas insubstituíveis somem e outras aparecem e você se acostuma. Olha como fica a saudade daquela memória embaçada na densa bruma. 

Tive 22 minutos para dizer algo precioso, mas falhei. Observei a minha família e fui feliz. Comi pizzas e fui feliz. Na minha boca, porém, gostaria de sentir outros sabores nos quais se reinventam vidas e renascem esperanças em amores… Queria acreditar que… Que entender a razão de… Queria querer menos do que quero ou queria querer diferente do que espero. Posso ser feliz de outros jeitos, eu sei, mas ainda não assimilei tanto assim como. Tenho um comichão que me faz estremecer. Queria ter um amigo para conversar, mas hoje é daqueles dias que todos desapareceram. Bebo água sozinho. Bebo vinho sozinho. Logo mais beberei cappuccino (também sozinho) e vou dormir com o meu cachorro. Eu morri hoje, mas amanhã eu não morro. 

Para mudar o mundo

Para mudar o mundo, primeiro, é preciso admitir a insatisfação com as coisas. Se este não é o cenário ideal, reconheça ansiar por mudanças, reconheça-se em seu papel de mudar seu destino e tome bastante cuidado, pois o sonho de mudar o mundo às vezes muda o sonhador (Humberto Gessinger).

Não se preocupe por estar no chão. Os melhores e os piores já caíram e estiveram exatamente no mesmo lugar qual você se encontra. Não é sobre permanecer a vida inteira em sobriedade, imaculado ou livre de constrangimentos e consternações. É sobre entender a leveza e o peso, a liberdade e a responsabilidade, a tristeza e a felicidade, o caos inevitável e a paz absoluta. Certas coisas vão se repetir até o nosso derradeiro amadurecimento. Quando aprendemos, é raro cometermos os mesmos erros.

Se os homens fossem constantes seriam perfeitos, afirmou Shakespeare, mas somos factivelmente falhos e frequentemente nos despedaçamos. Quase todos se escondem com o pretexto de não conseguirem enxergar, mas quando todas as máscaras caem, você realmente fixa os seus olhos naquilo que vê?

Recolher cacos é sempre um trabalho penoso e talvez você dê sorte em estar perto de alguém que saiba tomar cuidado com vidro, pois é difícil remontar, reerguer, reestruturar. Quando ainda no chão suas pontas afiadas estão prontas para ferir a mão de quem ousar tocar, de quem se sujeitar, de quem for suficientemente louco para cruzar os limites e assumir o risco de sangrar por você. Se você é o catador de cacos, eu recomendo apenas cuidado com as hemorragias. Há quem fira pelo prazer de ferir.

A névoa densa outra vez toma conta da cidade e você deixa de enxergar todo o resto. Sua angústia cresce quando repentinamente só enxerga seu próprio corpo, estranho, irregular, quase como se ele não lhe pertencesse. Você age, mas não se sente dentro de você. Uma espécie de monstro estranho tomou posse e suas memórias sobre certas fases são ébrias e entrecortadas. Descemos uma cortina diante das coisas que evitamos ver nos outros e em nós mesmos. Despreparados para a troca de pele, escolhemos nos igualar por baixo, fazemos incentivados por pessoas alheias, guardamos souvenires em recônditos secretos, sejam eles materiais ou não. Você pode se esconder bem, mas nada te afasta do seu reflexo. No fundo, você sabe bem quem é. Talvez secretamente acredite que mereça um prêmio ou uma punição pelas suas atitudes. Se eu não mudar o mundo talvez o mundo me mude. Alguns se regozijam pela autopercepção, outros cantam em voz alta suas lamúrias. Você se envergonha ou se orgulha de quem é?

Levantou já? É manhã outra vez. A escuridão que sugeria infinitude, enfim, morreu. Você estava apavorado, eu notei, mas me imaginou mais forte do que eu realmente sou, pois o negrume da madrugada jogou seu pesado cobertor em cima de mim também e eu senti uma sufocante vontade de chorar. Não chorei. Fiz-me forte, pois eu precisava ser o mais forte, orgulho bobo de quem se levanta quando o resto se deita, de quem se ergue para o sacrifício, de quem levanta correndo para ouvir o barulho estranho dentro de casa, de quem sabe que deve ser o primeiro na linha de combate, ainda que este geralmente seja o primeiro a morrer.

Você sente medo e eu sinto também. Não é diferente com qualquer outra pessoa. Muda-se a forma do medo, mas eventualmente todos se sentem aterrorizados. Já congelou em momentos decisivos? Fraquejou quando deveria ser mais agressivo? Acalme-se e respire fundo uma, duas ou dez vezes. Você é mais do que suas angústias e revezes. Está pronto para tentar de novo? Recomece amanhã. Por hoje, eu apenas recomendo que faça um café forte, beba muita água, coma sua comida favorita, saboreie chocolates amargos, veja a beleza de algo sutil e durma bem.

Nós somos o que fazemos de nós e não o que deixamos fazerem de nós. Não seja aquilo que tentam fazer de você e seja mais amplo nas suas angústias. Você não é o único atormentado por problemas e com a vida complicada. Não pode sofrer pelos outros, mas tampouco deve agir como se você fosse a única pessoa relevante no universo inteiro. Evite o pedantismo, precaução com os silogismos, cuidado com o que come, pois é preciso cuidar do corpo e da alma. Vá em frente, vá sempre, mas vá com calma. Acorde após sua curta noite de sono, consciente de que amanhã tudo começa de novo, até o dia em que, enfim, a vida termina. Para mudar o mundo é preciso estar bem disposto, então, acorde e lave o rosto, desafie o que lhe foi imposto como sina.

Para mudar o mundo precisamos aceitar quem somos, sem perder, entretanto, a consciência de que sempre é possível mudar para uma versão melhor. Seja você.

Poesia em Trânsito – Dirigi meu carro branco

Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Em um tempo você não sabe quando
Num universo nem eu sei onde 
As vias eram de mãos quádruplas, mas
os faróis amarelados de meu carro eram as únicas luzes na escuridão 
Onde estavam os motoristas e passageiros?
Onde estavam os determinados caminhoneiros?
Dirigi e escutei algumas novas e velhas músicas
Algumas você sabe quais, porém, outras nunca conheceu
Você duvida, mas eu posso ser surpreendente 
Vá se ferrar, eu penso e
concluo que o pensamento é errado
Alimento-me com amendoins torrados 
e algumas memórias que me ferem 
Não deveria ter exagerado, pois
os dois alimentos irritam a minha pele
Coço o meu cabelo e continuo 
com meus olhos vidrados na pista
Você não vem hoje, meu bem
Você me fez ontem, refém, 
Desista, pare, faça o retorno, 

Os sinais estão todos espalhados 
Um relâmpago ilumina o céu 
Eu sempre quente me mantenho morno
Choro e gargalho, pois vejo além, 
Choro de novo sem nem me entender
Transformo ouro em frases no papel
Eu disse que vejo além, notou?
Não preciso das suas migalhas de amor
Não como um dia eu precisei
As coisas mudaram, exceto o meu carro
Quem sabe em outros tempos?
Soube que eu gostei de outras duas?
Você amou um, mas e daí? 
Sou ainda o seu rapaz da rua com o nome de motel?
As secretárias dos médicos fazem caretas 
E em voz alta entoam seus revezes 
Eu me mudei de casa sete vezes 
Aprendi o sotaque dos ingleses 
Troquei de pele até que a carne antes macia
fosse então dura como uma couraça
Tudo que antes existia: fumaça
Por meados da virada do ano
Eu vou te deixar para sempre
Sou ainda o que fui um dia?
Sim, sou, sou sim, sei que sou
Em algum tempo sei lá quando
Em algum lugar sei lá onde
Até o dia em que não serei mais 
Esse dia é hoje e foi ontem
Provavelmente agora 
Certamente nunca

Percebo-me e me sinto vazio
Quantas bocas preciso beijar até que passe esse frio?
Eu me tornei quem eu não era
A invernia com maquiagem de primavera 
O pacifista intelectual que sempre pondera
Quando deveria partir para a ação
Ainda assim sou a presença que ninguém espera
Quando atiçado me transformo em fera 
Bicho solto com instinto louco de destruição
Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Pisei no acelerador e me senti ágil, mas paguei caro no pedágio para voltar
ao tempo na velocidade estável de 122km/h 
Certas lembranças eram como aquaplanagem
para os pneus do meu carro 
Outras com gosto de esperança
Faziam com que eu me atolasse
Cada vez mais fundo no barro
Metáforas desmedidas e esforços tão tortos 
São necessárias as partidas para enterrarmos os espaços mortos
Você não veio ontem, meu bem
Não vem hoje também
E eu não peguei os sinais da pista, sabe?
É a sina de quem possui bons olhos 
Perde-se a ingenuidade e a candura
Perde-se o carinho e deforma-se a figura 
Perde-se coisas que nunca imaginou apenas para
poder ganhar o que poucos poderiam ousar
Olha, quem vem chegando ao fim da esquina
É o pedaço quebrado ao peito apontado 
Denomina-se sina 
Os sinais trocam as cores
Na letargia e cegueira da vida
Você ainda não trocou seus amores 
Você personifica flores
que já estão murchas e mortas
A felicidade está distante em outros países ou
você só finca os pés no chão como se fossem raízes? 
Talvez seja a sina de quem sabe ler os sinais
Dar de ombros em um falso tanto faz 
Sinalizar que ao final é tudo sobre sina 
E que as sinas não impedem sequer um sinal 
Tampouco nos impedem das mais trágicas rimas 
A noite caiu dentro de mim e não há lua
Dirigi meu carro branco por uma estrada escura
Dirigi meu carro branco fingindo estar a sua procura
As estrelas refulgiam alegremente no céu ou 
seriam apenas postes disfarçando minha esperança?
Que se dane!
O que importa é a luminosidade 
Ao longe vejo luzes de apartamentos numa cidade
Temperança, repito, soturno 
Aos poucos perdia o meu medo da morte 
Na estrada (eu) desempenhava o meu papel 
O som do carro anunciava a minha sorte 
Dirigi meu carro branco por instantes seculares
Dirigi meu carro branco e atropelei segredos milenares
Apaguei os últimos resquícios seus em minha memória 
Eu estou tão feliz, triste e aliviado, pois
com você ao lado jamais poderia iniciar outra história 
Sou mais do que as partes que me formaram
É tempo de novos inícios já, certo?
Dirigi meu carro branco por novos caminhos 
Assumindo completamente o risco de me perder (e tudo bem)
Ainda dirigia e pelo retrovisor me vi sorrir 
Lembrei do conselho do gato de Lewis Carrol 
Para quem não sabe para onde vai
Não importa qual direção seguir 
Desde que não volte,
acrescentei baixinho 
Acelerei e cruzei a madrugada
Dirigindo o meu carro branco e sentido a alma gelada 
Divagando por inéditas e perigosas estradas 
Pela primeira vez em muito tempo
Satisfeito completamente 
Completamente sozinho.

Leve

Aparece e sorri
Sou feliz e leve, mas sou
Além do que era
Mais do que se espera
Primavera antecipada
Sorri e desaparece
Vê-me agora
E me esquece
Fui tudo
Sou nada

Nada que valha a pena
Que é que isso quer dizer?
Sorri na Vila Madalena
E também antes de nascer
E na estação da Sé
E entrando no estádio
Sorrio para quem me acena
Renovo minha fé
É um novo estágio

E devo viver
Abraço mais

Ando mais
Testo minhas pernas
Sorrio mais e cativo mais
Não há quem não se renda

Sou árvore avulsa no meio da plantação
ou tulipa perdida no centro urbano
Sou também a lágrima que
salga ainda mais o oceano
Se me perseguem, que me persigam,
Se me amam, que me amem,
Se querem me forçar o peso,
eu contra-ataco com a leveza
É fundamental, porém, valorizar a luta
A repetição reforça o poder da conduta
A grama bem cortada cheira bem
O matagal alto assusta
São a mesma coisa
Em leveza agora vejo
a beleza pura
Sem sentir medo
Ando firmemente
Torno-me insubstancial
Qualquer resto de poeira estelar
Flutuo e me refaço
Em outros tempos
e outros espaços
Sempre que parto
é para nunca voltar
Não pertenço a ninguém
Ainda assim

o mundo todo
É o meu lugar
.

Menos que antes

Menos que antes,
Muito mais que agora
Menos que mero instante
A vida crescendo lá fora
E pesa no meu peito
O que deixei por fazer
O que poderia ter dado jeito
e preferi esquecer
Menos do que o futuro
Muito mais que o presente
O jornalista busca o furo
O dentista arruma os dentes
Menos do que pude supor
Mais do que poderia doer
A imaginação me causa uma dor
que eu preferia não ter
Menos do que o merecido
Sobrepujado pelo cansaço
Fui suficientemente ferido
Confundem minha pele com aço
Até onde eu sei ainda há diferença
Todos parecem se importar com tudo,
Menos com a minha presença

Amálgama

Essa mistura
de tudo e
mais um pouco
É a única cura para
o meu jeito louco
Guerreiro ferido e cansado
que sempre se opunha
Casca de machucado
arrancada na unha
Tudo o que nos forma
Virará um dia
Acessório que
nos adorna
Detalhe que
nos faz poesia
E essa estranha
Amálgama
me faz ficar bem
Arranha
minha alma e
me faz ir
Além.