Fome e Memória

Aproveitar esses mágicos instantes
Essa doçura com face de paraíso
Se nessa vida tudo fosse constante
optaria todo dia pelo teu sorriso

Trouxe-me tantas alegrias inesperadas
Fez-me voar alto para a imensidão
Fecho os olhos e nos vejo de mãos dadas
dentro da velha loja em destruição

Quero te beijar como se fosse o primeiro beijo
Te amar com toda a fome do meu desejo
Viver contigo por cento e dez eternidades

Quero ser no dia a dia assim risonho
Assustado acordo de um distante sonho
Chorando por velhas memórias e saudades

Nunca mais saia de perto.

Pudera neste ínterim lúcido compreender
A diferença sutil dos diversos amores
Quisera neste íntegro ser surpreender
com o perfume adocicado das flores

Lumia repentinamente milhares
que jazem esquecidos na escuridão
Teus gestos simples são espetaculares
Tua presença fora de imaginação

Teu corpo me leva ao delírio
Teus olhos são o meu colírio
Personificação perfeita do meu desejo

Nunca mais saia de perto
Sem você o errado é certo
Cobre-me infinitamente de infinitos beijos.

Diário de Bordo

Livro na sala
Eu no sofá
Arrumei minha mala
Não volto pra lá
Quem sabe o que sente
Leva na bagagem
O que acontece com a gente
Não é de passagem
Sorriso de comissária
Seja muito bem-vindo
A alma ordinária
clama pelo Destino
Eu e você vivos
em outra estação
Sigo pensativo
na poltrona do avião
Teu rosto
na memória
Teu gosto
velha história
Fito na janela
Luzes fortes da cidade
A vida é triste e bela
Viverei com saudades
Tudo vai como deve
Eu vou também
Ainda volto a ser leve
E sigo além
Diário de bordo
O fim é o começo
Esqueça logo de mim,
mas eu não te esqueço.

Ventania interna

Ventania interna
Como coloco para dormir
essas minhas feras?

Venta muito aqui dentro
São profusas minhas frases
O que estava ao lado foi ao centro
O que era certo virou quase

A ventania continua
Dentro e fora do meu corpo
Sou soprado pela rua
Sobrevivo meio morto

A árvore é verdejante
E eu sou todo falho
Queria ser mais constante
Quebro fácil como um galho

Neste ínterim de mau agouro
Recupero uma réstia de lucidez
Entrego todos os meus tesouros
Ainda chega minha vez

Arrastado pelo asfalto
A liberdade de uma folha
Por onde passo grito alto
Vivo fora de qualquer bolha

Ventania interna
Voltarei a dormir
no fim da primavera


Crônica Pregressa #6

Contradição

     Começo este relato sem a devida lembrança de onde ele se inicia. Falho com o mínimo, porém, não me desanimo tanto. A prolixidade dos meus sentidos contradiz a preguiça do meu corpo. Mal me sinto capaz de caminhar ou de comer, entretanto, obstinado, sigo batendo os meus dedos no teclado. Observo-me, não sem certo estranhamento, quase estático. A minha mente nunca descansa da realidade ou da irrealidade. Sinto uma vontade de gritar até perder a voz, mas estou cercado. Saiam, por favor. Não é da boca para fora, por favor, saiam. Sou dominado por um instinto de isolamento e sinto uma vontade crescente de desaparecer.

     Resisto, incertamente intrigado, mas certamente contente. Tenho falhado sim e errado como um mestre em errar. Domino os equívocos e nunca me basto deles. Quando alguém me diz para não viver tudo hoje, eu sorrio e assumo uma expressão zombeteira, ainda que não me perceba tão irônico assim. Chamar-me de cínico é a única coisa realmente imperdoável. Ouvi discorrerem sobre minhas ações de maneira generalizada e cada um pensava algo diferente. Assim, eu fui honesto comigo e com os outros. Nunca pude controlar o que esperavam de mim. 

     A exaustão percorre meus ossos. Dizem que eu não tenho motivos para estar exausto. Talvez eles estejam certos, mas, olha, eu não tenho que me explicar quando quaisquer tipos de explicações fogem rapidamente do meu controle. Preciso me afastar um pouco. Posso me perder de tudo, até perder uma ou outra pessoa querida, mas minha própria ausência me desespera. Não penso em boas frases para finalizar um texto. Não há nada mais que eu sinta ou que faça sentido. 

     Um bichinho de luz aparece e me incomoda, mas sinto muita preguiça para me livrar dele e minha bondade ingênua me impede de esmagá-lo. Talvez eu devesse ser mau de vez em quando. Neste final de tarde ainda não posso. Apago a luz e torço para que ele vá. Não desejo companhia. Espero dormir e me esquecer de quem me esqueceu e apenas hoje também de quem ainda se recorda de mim. Quero apenas existir sozinho.  

Crônica Pregressa #4

22 minutos

Não há comoção que me demova e nem desconforto que me mova. Sou o que costumo dizer, mas, evito falar para que possa viver sem ter a pressão das minhas próprias palavras em mim. Sou sério e cético, geralmente. Creio, porém, nas humanidades mais desumanas e nos sentimentos alheios e invariavelmente afetados, como o amor. É impressionante o que se faz em nome de uma emoção, principalmente quando você batiza o sentimento com um nome. Você pronuncia o nome, o rosto se vira em sua direção e ali há o universo. Você repete o nome numa despretensiosa e chuvosa manhã de sábado qual acorda antes e observa o amor dormindo tão pacificamente ao seu lado. Lá fora chove, mas dentro o silêncio é adequado. De repente você sorri, pois descobre que o amor também ronca. A memória de uma lembrança perfeita se vai, pois perfeição não há e nem existe continuidade que continue suficientemente. O relógio é inimigo. Tudo se desfaz lentamente.

A narrativa se quebra e as reviravoltas da vida te atingem. Você recomeça, mas nunca mais ousa a batizar alguém com o nome do sentimento. Há agora uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas, todas as rugas de cansaço, todos os receios tão sutilmente invasivos flutuando pelo espaço. Você sabe que tudo está visível para quem enxerga bem. Há ali o resto do que ainda não se foi, mas discretamente também persiste a sombra do que um dia foi amor. Eu que olho e vejo, percebo-a como algo tão inútil, mas dou de ombros por saber que não há ali nada de errado. Todos somos insistentes no que já deveria estar ultrapassado. Sou especialista em gente, principalmente em pessoas amargas e gargalho sonoramente de quem cria personagens fictícios para se representar numa realidade que parece insuficiente. Confesso que rio deles, pois às vezes me pego nesta identificação recíproca. Ser um não basta. Queremos nos fragmentar para que exista uma chance mínima de que alguém compreenda nossas completudes. Somos seres vastos, raramente magnânimos, mas quando inundados por uma coragem súbita, buscamos imediatamente o que faz palpitar mais rápido o coração.  

Quando eu era novo, eu apenas agia ou deixava de agir. Nunca havia tempo para o pensamento demasiado e qualquer distração se preenchia de maneira suficientemente confortável. Quando a dor ocasionada pela solidão era exagerada, isolava-me em outros mundos. Fechava portais quais nunca deveriam ter existido em reinos distantes, vertendo-me numa utopia na qual eu personificava a coragem infinita do próprio menino que carregava a chave do reino dos corações. Gostava da poesia de sentir que as coisas estavam próximas, mas incrivelmente distantes. Não me cumpri em ideais, mas idealisticamente me tornei incomparável. Fiquei mais velho e mais sério. O trabalho dignifica o homem, mas o desgasta. Envelhecer dói e há ressentimento para com o relógio, principalmente quando sentimos que a vida está mais rápida ou lenta do que deveria. Captamos a distância entre nossas oscilações e compreendemos nossos ritmos, mas não existem mais ações impensadas (não completamente). Sabemos e temos a segurança do conhecimento, entretanto, às vezes escolhemos o escuro e a ignorância. Quando novo eu, não raramente, derramava-me por hábito. Não havia caixas guardadas em um porão secreto com coisas não ditas àqueles que se revelaram menos amigos do que supus que seriam; dos amores que não amaram; das pessoas que compraram a ilusão de que seriam amadas por mim e se decepcionaram. Não havia preocupação com quem se transformasse em cinzas no meio de meus tantos fogos cruzados e manias inequivocamente equivocadas, mas ao mesmo tempo tão singularmente minhas. Evito hoje o rastro de destruição por onde passo, mas talvez o faça mais por conta de meu próprio cansaço. Conservo minhas excentricidades de outros tempos e as novas, mas não sou mais qualquer príncipe de melhores horas. Meço sucessos e fracassos sem ter a menor preocupação em diferenciá-los. O que se parece às vezes é igual. Tudo termina de modo semelhante para os que se cumprem e para os que falham.
Metáfora prolongada do brilho das estrelas. Outra vez calei minhas palavras com a impressão de que deveria dizê-las.

Pensei numa frase extremamente romântica, mas escolhi o silêncio, pois à época achei melhor não dizê-la. Quem sabe o receio tenha me afastado do brilho espetacular das estrelas. Como aprendi em quase um ano sobre mãos, sorrisos, bocas e gestos. Como entendi que quase ninguém me apreciaria por me derramar do meu jeito honesto. Bebi para perder o rumo, quando senti que o rumo era muito certo e quando não havia rumo, solidarizei-me com estranhos desconhecidos que sempre andam preguiçosamente em círculos sem saber para onde vão. Quando não havia ninguém, eu amei vultos que encontrei pelo caminho. Era preferível a ilusão do que crer em uma jornada feita por um homem sozinho. No Distrito Federal andava mais vagarosamente até o meu quarto de hotel e esperava que uma das tantas portas escancarasse de súbito um destino novo pra mim. Nada nunca acontece, exceto internamente. A imaginação inata é o nosso maior escudo contra a realidade, mas por vezes com certa crueldade deforma e piora o que já nos ataca. Um vacilo ao coração e repentinamente você se mata.

Mas olha… Tenho cinco minutos para terminar o texto e não sei o que devo escrever. Mas olha, eu queria te dar uma dica, mas nenhum conselho se fixa. Não sei o que vou fazer. Olha como a vida muda e as pessoas insubstituíveis somem e outras aparecem e você se acostuma. Olha como fica a saudade daquela memória embaçada na densa bruma. 

Tive 22 minutos para dizer algo precioso, mas falhei. Observei a minha família e fui feliz. Comi pizzas e fui feliz. Na minha boca, porém, gostaria de sentir outros sabores nos quais se reinventam vidas e renascem esperanças em amores… Queria acreditar que… Que entender a razão de… Queria querer menos do que quero ou queria querer diferente do que espero. Posso ser feliz de outros jeitos, eu sei, mas ainda não assimilei tanto assim como. Tenho um comichão que me faz estremecer. Queria ter um amigo para conversar, mas hoje é daqueles dias que todos desapareceram. Bebo água sozinho. Bebo vinho sozinho. Logo mais beberei cappuccino (também sozinho) e vou dormir com o meu cachorro. Eu morri hoje, mas amanhã eu não morro. 

Para mudar o mundo

Para mudar o mundo, primeiro, é preciso admitir a insatisfação com as coisas. Se este não é o cenário ideal, reconheça ansiar por mudanças, reconheça-se em seu papel de mudar seu destino e tome bastante cuidado, pois o sonho de mudar o mundo às vezes muda o sonhador (Humberto Gessinger).

Não se preocupe por estar no chão. Os melhores e os piores já caíram e estiveram exatamente no mesmo lugar qual você se encontra. Não é sobre permanecer a vida inteira em sobriedade, imaculado ou livre de constrangimentos e consternações. É sobre entender a leveza e o peso, a liberdade e a responsabilidade, a tristeza e a felicidade, o caos inevitável e a paz absoluta. Certas coisas vão se repetir até o nosso derradeiro amadurecimento. Quando aprendemos, é raro cometermos os mesmos erros.

Se os homens fossem constantes seriam perfeitos, afirmou Shakespeare, mas somos factivelmente falhos e frequentemente nos despedaçamos. Quase todos se escondem com o pretexto de não conseguirem enxergar, mas quando todas as máscaras caem, você realmente fixa os seus olhos naquilo que vê?

Recolher cacos é sempre um trabalho penoso e talvez você dê sorte em estar perto de alguém que saiba tomar cuidado com vidro, pois é difícil remontar, reerguer, reestruturar. Quando ainda no chão suas pontas afiadas estão prontas para ferir a mão de quem ousar tocar, de quem se sujeitar, de quem for suficientemente louco para cruzar os limites e assumir o risco de sangrar por você. Se você é o catador de cacos, eu recomendo apenas cuidado com as hemorragias. Há quem fira pelo prazer de ferir.

A névoa densa outra vez toma conta da cidade e você deixa de enxergar todo o resto. Sua angústia cresce quando repentinamente só enxerga seu próprio corpo, estranho, irregular, quase como se ele não lhe pertencesse. Você age, mas não se sente dentro de você. Uma espécie de monstro estranho tomou posse e suas memórias sobre certas fases são ébrias e entrecortadas. Descemos uma cortina diante das coisas que evitamos ver nos outros e em nós mesmos. Despreparados para a troca de pele, escolhemos nos igualar por baixo, fazemos incentivados por pessoas alheias, guardamos souvenires em recônditos secretos, sejam eles materiais ou não. Você pode se esconder bem, mas nada te afasta do seu reflexo. No fundo, você sabe bem quem é. Talvez secretamente acredite que mereça um prêmio ou uma punição pelas suas atitudes. Se eu não mudar o mundo talvez o mundo me mude. Alguns se regozijam pela autopercepção, outros cantam em voz alta suas lamúrias. Você se envergonha ou se orgulha de quem é?

Levantou já? É manhã outra vez. A escuridão que sugeria infinitude, enfim, morreu. Você estava apavorado, eu notei, mas me imaginou mais forte do que eu realmente sou, pois o negrume da madrugada jogou seu pesado cobertor em cima de mim também e eu senti uma sufocante vontade de chorar. Não chorei. Fiz-me forte, pois eu precisava ser o mais forte, orgulho bobo de quem se levanta quando o resto se deita, de quem se ergue para o sacrifício, de quem levanta correndo para ouvir o barulho estranho dentro de casa, de quem sabe que deve ser o primeiro na linha de combate, ainda que este geralmente seja o primeiro a morrer.

Você sente medo e eu sinto também. Não é diferente com qualquer outra pessoa. Muda-se a forma do medo, mas eventualmente todos se sentem aterrorizados. Já congelou em momentos decisivos? Fraquejou quando deveria ser mais agressivo? Acalme-se e respire fundo uma, duas ou dez vezes. Você é mais do que suas angústias e revezes. Está pronto para tentar de novo? Recomece amanhã. Por hoje, eu apenas recomendo que faça um café forte, beba muita água, coma sua comida favorita, saboreie chocolates amargos, veja a beleza de algo sutil e durma bem.

Nós somos o que fazemos de nós e não o que deixamos fazerem de nós. Não seja aquilo que tentam fazer de você e seja mais amplo nas suas angústias. Você não é o único atormentado por problemas e com a vida complicada. Não pode sofrer pelos outros, mas tampouco deve agir como se você fosse a única pessoa relevante no universo inteiro. Evite o pedantismo, precaução com os silogismos, cuidado com o que come, pois é preciso cuidar do corpo e da alma. Vá em frente, vá sempre, mas vá com calma. Acorde após sua curta noite de sono, consciente de que amanhã tudo começa de novo, até o dia em que, enfim, a vida termina. Para mudar o mundo é preciso estar bem disposto, então, acorde e lave o rosto, desafie o que lhe foi imposto como sina.

Para mudar o mundo precisamos aceitar quem somos, sem perder, entretanto, a consciência de que sempre é possível mudar para uma versão melhor. Seja você.

Feitos para durar

Noutra noite de aventuranças
Vislumbrei
estranhas cenas
Tardios sonhos

de esperança
contidos nas

entranhas de poemas
Devaneio com um

corpo e uma valsa
Boca, toque, aproximação, pele
Sinto-me morto com uma lembrança falsa
Poucas roupas,

choque, vibração,
Estou entregue
Acordo entorpecido sem saber onde estou
Ela se aproxima e me dá um beijo de café
Esvanece o perigo diante do rosto do amor
Ela é sina e se denomina minha nova fé
Envolvo-a com meus braços e sussurro
quando envolve todo o espaço aquele perfume
Ainda que tudo soe escasso e escuro quando fracasso meus olhos encontram o lume
Na madrugada densa nos entregamos completamente
Espiados integralmente pela noite enluarada
Dada nossa sentença suspiramos lentamente
Suados e contentes não nos arrependemos de nada
A beleza hipnotizante some com o raiar do dia
Enquanto rascunho homenagens em meu caderno
Àquela que personifica o bailar e a poesia
Que se tornou o testemunho de um conto eterno
Os risos histéricos e invejosos ficam roucos
Pontualíssima sensação de que é impossível atrapalhar
Rios lodosos que afogam tantos loucos
Anunciam a conclusão: foram feitos para durar.

Amálgama

Essa mistura
de tudo e
mais um pouco
É a única cura para
o meu jeito louco
Guerreiro ferido e cansado
que sempre se opunha
Casca de machucado
arrancada na unha
Tudo o que nos forma
Virará um dia
Acessório que
nos adorna
Detalhe que
nos faz poesia
E essa estranha
Amálgama
me faz ficar bem
Arranha
minha alma e
me faz ir
Além.

Crônica Pregressa #1

Amor fantasma, futuro, passado e fim

Eu não sinto meu coração até que doa, vamos, por favor, machuque-me.     

Tarde passada, eu resolvi, enfim, que fecharia os olhos para as direções quais eles sempre estiveram abertos. Estiveram assim, inevitavelmente, por escolha minha, mas escolher não deixa de ser também um fardo. Nunca me deram o benefício da dúvida, veja, eu sou sempre julgado com uma espécie de certeza férrea e fria, capaz de assustar até mesmo demônios. Ainda que seja algo desconfortável, eu acho que agora posso compreender porque o fazem. Sempre esperam a minha convicção, ainda que, usualmente só me ofereçam a dúvida. Não me ofendo. Abraço os monstros alheios e os que moram em mim também, mas acredito que posso, mais do que antes, realmente entender a amplitude da ação das pessoas. Quando ameaçados, em regra, todos nós recuamos e somos ligeiramente ariscos. Quem suporta se sentir acuado? Eis que então a simplicidade ganha nuances de complicações e o simples ganha contornos impossíveis. Por que deixar alguém se aproximar? Quais benefícios podem advir disso? Por que é que tão fácil para uns falarem sobre coisas que não entendem? Por que é tão difícil aceitar outras coisas que, mesmo em silêncio, cansamos de compreender? Escute sua própria voz e não seja o seu próprio algoz. Siga o próprio conselho. Você já sabe o seu caminho. Proferiu as palavras sozinho diante de um espelho. 

Amor como crença em fantasmas. Raríssimos viram, mas todos falam sobre.     

Não nos ensinam, creio, sobre a maneira correta de acreditar em determinadas coisas; aquelas verdadeiramente importantes como a vida, o tempo ou o amor. É mais fácil aprender a não ter fé do que se acostumar a tê-la, percebe? Fé em qualquer coisa que seja, mas esse sentimento abstrato de determinação, de compromisso individual, que forma e solidifica o dever moral de melhorar dentro do coração. Constroem a sua personalidade de uma maneira prática, comum, e se você der sorte, ao longo da jornada poderá contar com um ou dois tapinhas encorajadores nos ombros. Dirão que suas rimas são ridículas e que é melhor que seja advogado, médico ou que trabalhe na empresa da família, pois nessa vida, aprenda logo, não se vive sem dinheiro. Concordo com essas palavras. Quem é que vive sem dinheiro? É mais fácil também, assim como sugeri acima, acreditar no dinheiro do que em Deus, mas com o passar dos meses, com o constante correr das horas, você percebe que, há coisas, ainda que sejam detalhes, que não estão ofertadas em vitrines. Como alcançar algo nada prático sem cometer uma espécie de crime? Como voltar o relógio, evitar se transformar em um opróbrio, e buscar, sem “ganhar”, a única coisa que um dia te fez sentir sublime? Ora, eu vejo que você ainda não vê. Talvez seja por dar trela à opinião de quem não se interessa ou pelo barulho alto da TV. Quando as crianças de rua perguntaram, todos os seus impulsos se calaram, pois não sabia responder. Uma simples indagação te travou. Quem diabos é que eu sou?

Sirva-se filho. Sugiro que beba uma boa taça de vinho esta noite. 

Obrigado, senhor. Tenho que me virar, eu sei. Na minha barriga e no meu âmago não carrego nem mesmo um rei. A arrogância de nada vale pra alguém como eu. Do que vale a pena discorrer? Dinheiro? Ganhe, gaste, guarde, mas seja sábio. Gaste apenas o que sabe ter, nunca mais, não seja estúpido, é idiotice viver endividado. Amizades? Tenha poucas. Inconsequentes, mas corajosos e fiéis, como sugeria o poema de Victor Hugo. Os bons amigos apertarão suas feridas e depois ajudarão a curá-las. Amor? Ah! Amor! Amor é vislumbre para a maioria. Amor é rascunho de poesia. Amor em um dicionário atualizado é conceito de velharia. Quem é que, de verdade, se preocupa com o amor? Não os ensinaram, certo? Que já nascemos incríveis? Seus pais não falaram como não existem sonhos impossíveis? Ainda é traumatizado por que quando caiu da bicicleta haviam soltado sua mão? Notou que a cicatriz no joelho foi o jeito perfeito do conselho chegar ao coração?  

Não sejas precipitado, tome cuidado, mas não se torne arredio.
Fique esperto e nesta imensidão de gelo e deserto, lembre-se:
A confiança é um prato que se come frio. 

Ditados invertidos, invertidos inventados, dias antes prometidos, por ferro e fogo feridos, eternidades fadadas a dar errado. Sinto falta de tudo o que um dia foi, mas não sinto saudade de quem fui. Tenho orgulho das mudanças e sei que hoje ninguém me possui. Seria tão ruim ter alguém para segurar a minha mão? Ah, meu amigo, chega dessa melancolia. Até quando vai se lamentar? Varra a monotonia e mude tudo de lugar. Chame as coisas pelo nome e espere que atendam seu chamado. Quem não responder, chame agora de passado. É preciso se preocupar com a saúde, a espessura do sangue e as veias do coração, mas não se esqueça de que a vida é agora e não há garantias em futuros planos. Por amor, por favor, não abandone tudo o que pode ocorrer de bom em um ano. Quem é que pode te atrapalhar a conquistar o que você sempre quis? Se pensar com cuidado, notará que seu único obstáculo, é o quanto você deseja mesmo ser feliz. Não procure respostas no que havia ontem e nem no que haverá amanhã. Faz sentido viver a vida além de hoje? Por meses que pareceram anos, eu não senti as batidas do meu próprio coração e quis culpar todo o resto, até a minha boa cidade. Quando entendi minha situação, coloquei SIM onde só havia NÃO, pois constatei que merecia a minha felicidade. 

Sinto minha vida pulsar e a vibração de tudo é tão serena.
Ainda não sei dizer qual é o meu lugar no mundo, mas
a partir de hoje assumo que sou parte de Tudo
Viver vale mesmo a pena

Não arrefeça se tirarem seu teto e sustento
Você já passou por fins de mundo piores e pôde sobreviver
Sei que vai virar o jogo no próximo movimento
O mundo acaba hoje para amanhã renascer.