Não se disfarça.

Os olhos marejados de saudades revelavam um amor insubstituível, impossível de apagar, acompanhado de perto pelo inevitável desgaste do tempo. Os outros, lentos na percepção, demoraram a notar sua tristeza contente, que brotava muito antes das lágrimas escorrerem. Não estava realmente triste e tampouco estava feliz. Apenas estava distante.

Ninguém a alcança neste lugar especial. Cada gota d’água representava uma centena de histórias, desde o primeiro beijo até a última dança, do primeiro ímpeto de desejo até as tantas mudanças, o passado feliz que não se alcança, finais, começos, êxitos, tropeços e o som das crianças. Tudo muda.

Se pudesse modificar algo é provável que não mudasse nada. O tempo amadurece a percepção, entretanto, a sabedoria nos faz não querer abrir mão de coisas que são inevitavelmente nossas. Apenas nossas. Ela sabe do que poucos sabem e talvez o saiba por instinto. Ainda é preciso se arrumar, passar uma maquiagem, colocar uma roupa bonita e celebrar a passagem dos anos. Nem tudo ocorreu como nos melhores sonhos, mas a vida ainda continua sendo boa. O sal das lágrimas encontra o discreto sorriso que já está sorrindo memórias absolutamente distantes e, ainda assim, incontestavelmente próximas. É mais fácil alcançá-las do que passear pela sala.

O choro não cessa e cada uma das pessoas ao redor sente algo diferente. Ninguém se aproxima do que ela realmente sente. Ninguém sabe como é estar na pele da gente. Sentir é sempre diferente. As lágrimas seguem traçando caminhos singulares pela face marcada e a vida segue sendo revivida e restaurada em flashes enquanto pessoas amadas aplaudem e afagam. A vida já foi longa e ela sente saudade da sua metade complementar e ri em uma dimensão distante, paraíso próprio e seguro, de quando haviam mais estradas e menos muros.

Ninguém se camufla. Ninguém se disfarça. O choro acontece e a mente anda de trás para frente percorrendo um trilho invisível. O caminho do amor é sempre possível. Lembra-se de como um dia se sentiu invencível. Agora pode ser longe e o amor sempre a salva. Há muitos motivos para ser feliz ainda, mas hoje essa felicidade é agridoce, pois não pode ser compartilhada com todas as pessoas que já amou. A saudade é uma pedra gigante que se carrega no peito e nunca fica mais leve.

Pouco a pouco, porém, nota-se ainda bela e mais sábia, contempla o surgimento de pessoas novas e memórias novas. O ciclo de renovação vai se tornando complicado, pois jamais se vence uma luta contra o tempo. Reza para que os ciclos se cumpram na cronologia adequada e sobrevive bem, guerreira, feliz. Continua em frente e sorri, veste-se bem e coloca os saltos altos, desfila pela casa, odeia a bengala, mas resignada já aceita que precisa se apoiar em coisas novas. É difícil compreender como se sente tão bem e jovem por dentro, mas os olhares alheios denunciam o envelhecimento. Por dentro a gente não sente. Por fora todo mundo vê. Como sobreviver com esse tanto de saudade? É demasiado doloroso pensar em morar na velha cidade. Como aceitar que a vida avança e a gente não consegue todas as respostas? Como manter a esperança se é difícil fazer novas apostas?

O tempo esmagador nos retira quase tudo, mas a observo sobreviver com classe, ainda que sem apetite. Não abandona sua aparência e se ergue como a deusa Afrodite. Recompõe-se e brilha como um exemplo para todos na mesa. Passa de uma situação para outra sustentando sua beleza.

Feliz é quem melhora os olhos e vislumbra só o conteúdo. Sortudo é quem envelhece consciente de que é preciso criar novos tipos de beleza para enfrentarmos o terrível e inevitável horror mundano. O inferno, às vezes, são as horas mais lentas do cotidiano. Ainda assim, a vida promete coisas boas para quem persiste tentando o melhor. Quando se ama alguém, oferece-lhe genuinamente a qualidade de amar e quando não se pode entregar nada, ainda há de se oferecer mais amor. As memórias nos abraçam apertado, para o bem e para o mal e, vez ou outra, é difícil percorrer o caminho de volta para a realidade, mas ela o fez sem qualquer dificuldade. Como me inspira força e coragem alguém que vive com tantos tipos de saudade.

Ela se levanta da mesa e pede um tempo para si. Não se disfarça. Não se camufla. Ama o seu passado. Ama o seu presente. Ama o seu futuro. Ensina, sem tentar ensinar, pelo exemplo e continuidade. Dorme cedo, acorda tarde, conversa, distrai-se, diverte-se, curte a família e os amigos, mas preserva ainda a felicidade que existe nos hábitos mais antigos e acolhe a todos com suas asas. Muita coisa mudou, mas ela ainda veste roupas bonitas e se maquia antes de sair de casa.

Fome e Memória

Aproveitar esses mágicos instantes
Essa doçura com face de paraíso
Se nessa vida tudo fosse constante
optaria todo dia pelo teu sorriso

Trouxe-me tantas alegrias inesperadas
Fez-me voar alto para a imensidão
Fecho os olhos e nos vejo de mãos dadas
dentro da velha loja em destruição

Quero te beijar como se fosse o primeiro beijo
Te amar com toda a fome do meu desejo
Viver contigo por cento e dez eternidades

Quero ser no dia a dia assim risonho
Assustado acordo de um distante sonho
Chorando por velhas memórias e saudades