Crônica Pregressa #4

22 minutos

Não há comoção que me demova e nem desconforto que me mova. Sou o que costumo dizer, mas, evito falar para que possa viver sem ter a pressão das minhas próprias palavras em mim. Sou sério e cético, geralmente. Creio, porém, nas humanidades mais desumanas e nos sentimentos alheios e invariavelmente afetados, como o amor. É impressionante o que se faz em nome de uma emoção, principalmente quando você batiza o sentimento com um nome. Você pronuncia o nome, o rosto se vira em sua direção e ali há o universo. Você repete o nome numa despretensiosa e chuvosa manhã de sábado qual acorda antes e observa o amor dormindo tão pacificamente ao seu lado. Lá fora chove, mas dentro o silêncio é adequado. De repente você sorri, pois descobre que o amor também ronca. A memória de uma lembrança perfeita se vai, pois perfeição não há e nem existe continuidade que continue suficientemente. O relógio é inimigo. Tudo se desfaz lentamente.

A narrativa se quebra e as reviravoltas da vida te atingem. Você recomeça, mas nunca mais ousa a batizar alguém com o nome do sentimento. Há agora uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas, todas as rugas de cansaço, todos os receios tão sutilmente invasivos flutuando pelo espaço. Você sabe que tudo está visível para quem enxerga bem. Há ali o resto do que ainda não se foi, mas discretamente também persiste a sombra do que um dia foi amor. Eu que olho e vejo, percebo-a como algo tão inútil, mas dou de ombros por saber que não há ali nada de errado. Todos somos insistentes no que já deveria estar ultrapassado. Sou especialista em gente, principalmente em pessoas amargas e gargalho sonoramente de quem cria personagens fictícios para se representar numa realidade que parece insuficiente. Confesso que rio deles, pois às vezes me pego nesta identificação recíproca. Ser um não basta. Queremos nos fragmentar para que exista uma chance mínima de que alguém compreenda nossas completudes. Somos seres vastos, raramente magnânimos, mas quando inundados por uma coragem súbita, buscamos imediatamente o que faz palpitar mais rápido o coração.  

Quando eu era novo, eu apenas agia ou deixava de agir. Nunca havia tempo para o pensamento demasiado e qualquer distração se preenchia de maneira suficientemente confortável. Quando a dor ocasionada pela solidão era exagerada, isolava-me em outros mundos. Fechava portais quais nunca deveriam ter existido em reinos distantes, vertendo-me numa utopia na qual eu personificava a coragem infinita do próprio menino que carregava a chave do reino dos corações. Gostava da poesia de sentir que as coisas estavam próximas, mas incrivelmente distantes. Não me cumpri em ideais, mas idealisticamente me tornei incomparável. Fiquei mais velho e mais sério. O trabalho dignifica o homem, mas o desgasta. Envelhecer dói e há ressentimento para com o relógio, principalmente quando sentimos que a vida está mais rápida ou lenta do que deveria. Captamos a distância entre nossas oscilações e compreendemos nossos ritmos, mas não existem mais ações impensadas (não completamente). Sabemos e temos a segurança do conhecimento, entretanto, às vezes escolhemos o escuro e a ignorância. Quando novo eu, não raramente, derramava-me por hábito. Não havia caixas guardadas em um porão secreto com coisas não ditas àqueles que se revelaram menos amigos do que supus que seriam; dos amores que não amaram; das pessoas que compraram a ilusão de que seriam amadas por mim e se decepcionaram. Não havia preocupação com quem se transformasse em cinzas no meio de meus tantos fogos cruzados e manias inequivocamente equivocadas, mas ao mesmo tempo tão singularmente minhas. Evito hoje o rastro de destruição por onde passo, mas talvez o faça mais por conta de meu próprio cansaço. Conservo minhas excentricidades de outros tempos e as novas, mas não sou mais qualquer príncipe de melhores horas. Meço sucessos e fracassos sem ter a menor preocupação em diferenciá-los. O que se parece às vezes é igual. Tudo termina de modo semelhante para os que se cumprem e para os que falham.
Metáfora prolongada do brilho das estrelas. Outra vez calei minhas palavras com a impressão de que deveria dizê-las.

Pensei numa frase extremamente romântica, mas escolhi o silêncio, pois à época achei melhor não dizê-la. Quem sabe o receio tenha me afastado do brilho espetacular das estrelas. Como aprendi em quase um ano sobre mãos, sorrisos, bocas e gestos. Como entendi que quase ninguém me apreciaria por me derramar do meu jeito honesto. Bebi para perder o rumo, quando senti que o rumo era muito certo e quando não havia rumo, solidarizei-me com estranhos desconhecidos que sempre andam preguiçosamente em círculos sem saber para onde vão. Quando não havia ninguém, eu amei vultos que encontrei pelo caminho. Era preferível a ilusão do que crer em uma jornada feita por um homem sozinho. No Distrito Federal andava mais vagarosamente até o meu quarto de hotel e esperava que uma das tantas portas escancarasse de súbito um destino novo pra mim. Nada nunca acontece, exceto internamente. A imaginação inata é o nosso maior escudo contra a realidade, mas por vezes com certa crueldade deforma e piora o que já nos ataca. Um vacilo ao coração e repentinamente você se mata.

Mas olha… Tenho cinco minutos para terminar o texto e não sei o que devo escrever. Mas olha, eu queria te dar uma dica, mas nenhum conselho se fixa. Não sei o que vou fazer. Olha como a vida muda e as pessoas insubstituíveis somem e outras aparecem e você se acostuma. Olha como fica a saudade daquela memória embaçada na densa bruma. 

Tive 22 minutos para dizer algo precioso, mas falhei. Observei a minha família e fui feliz. Comi pizzas e fui feliz. Na minha boca, porém, gostaria de sentir outros sabores nos quais se reinventam vidas e renascem esperanças em amores… Queria acreditar que… Que entender a razão de… Queria querer menos do que quero ou queria querer diferente do que espero. Posso ser feliz de outros jeitos, eu sei, mas ainda não assimilei tanto assim como. Tenho um comichão que me faz estremecer. Queria ter um amigo para conversar, mas hoje é daqueles dias que todos desapareceram. Bebo água sozinho. Bebo vinho sozinho. Logo mais beberei cappuccino (também sozinho) e vou dormir com o meu cachorro. Eu morri hoje, mas amanhã eu não morro. 

Eu preciso de uma carteira nova.

     Eu preciso de uma carteira nova. Eu preciso de uma carteira nova e não compro, não pela falta do dinheiro, mas sim pela falta de convicção na afirmação de que eu realmente preciso do que preciso. Eu preciso do que acho que preciso? Não sou consumista e nem extremista e quase nunca me deixo ser tomado por minhas futilidades. O que acontece é que a carteira atual está remendada em três pontos diferentes. O único ponto positivo é que ainda consigo guardar meus cartões com bastante segurança. Ela costumava ser preta à época que a comprei, porém, agora é de um marrom desbotado, cor de vida desgastada, forma de sombra exausta, rosto de passagem do tempo. Quem é que vê esses anos que voam?

     Às vezes tudo o que fazia sentir ou fazia sentido perde, você talvez tenha notado, subitamente a singularidade. Compreensões nos fogem no momento exato da explicação, pois ainda que algo se derrame inexplicável, temos a mania persistente de teimar em enxergar quando nossos olhos se desacostumam a ver o que é preciso. Não queremos a bula e nem manuais, não temos tempo, dê-me apenas o remédio. Os detalhes, sim, como eu sempre digo, essas coisas frágeis e rápidas e até mesmo perigosas, essas coisas nos definem mais do que todo o resto. Essas coisas frágeis, sim, são absurdamente fortes na essência. O vidro quebrado ergue suas pontas para ferir, mostra que ainda pode te fazer sangrar. O ovo quebra fácil, mas suporta como poucos a pressão, o calor. E você nessa mania de inferioridade canta aos quatro cantos da cidade que não existe amor. Você acha que não o merece.

     No que é que você pensa quando sabe que ninguém pensa em você? Quem você não finge que é, quando sabe que ninguém vai saber? Os perfumes perderam o cheiro ou eu mesmo bloqueei minhas narinas? Não, eu preciso me acalmar. Tudo flutua por dentro, mas eu me sinto centrado. Vejo aqui e ali o que se vê com os olhos que se ganha da natureza e agradeço pelo privilégio de notar coisa ou outra. O Universo foi cruel comigo, mas com a minha idade já possuo maturidade para tolerar. Quando tudo ocorre errado, quando a vida gira ao contrário, eu me inverto e estou no lugar.

     Qual lugar, perguntariam, se existissem pessoas por perto com dúvidas, não sei ainda, eu responderia e sairia para a cozinha preparar um café. Leio Leminski, Poe, Solano, Martin, Exupéry e Saramago, um pouco de tudo na mesma tarde, antecipo aqui meu estrago, corpo largo estirado no deserto, consciência que lateja e arde. Levanto-me, como quem possui uma agilidade sobrenatural adormecida. Continuo, aqui e ali cicatrizado, sorriso largo, como se nunca antes houvesse feridas. Que é que se leva, perguntaram-me, desta vida?

     Eu gostaria que levássemos pelo menos nossas memórias. Queria que o Real Folk Blues tocasse no meu coração antes de uma evidente tragédia e que o telefone tocasse, sim, eu gostaria da excitação que antecede uma ligação, mas apenas se fosse para minguar a falsa paz que antecede a guerra. Reclamam de quem vive com a cabeça no ar, mas ninguém aprecia a terra. E as pessoas odeiam cada vez mais a ligação, pois a fala imediata reflete a necessidade de uma resposta urgente. Por mensagens e áudios gravados a gente disfarça o que sente. E o que levar desta vida, volto-me, notando que me perdi em pensamentos. E eu honestamente também gostaria de levar embora o meu cão. Ele dorme e acorda habitando o espaço mais próximo do meu coração.

     Perdi-me de novo e ontem mesmo a chaleira do ovo quase explodiu. Onde é que ando com a cabeça, se ela parece no mesmo lugar de sempre, mas já não a domino? Que é que se sente quando por dentro quente, a invernia transborda pela pele gelada do exausto menino? Quem sou eu que não sou poeta, mas rimo?

     E minhas olheiras agora marcam e eu não era cansado assim. E outrora como Pessoa tive todos os sonhos do mundo em mim. Os óbvios olham e dizem “você parece cansado“. E meus músculos murcham e eu nunca ficava três dias seguidos sem me exercitar. E as pernas tremem de quando em quando, mas caminho. Agora eu não correria nem que pudesse. Logo mais desconhecidos acenam, notam sua presença, conforme você agora se esquece. Os olhos avermelhados, o suor, o instinto, você vê, cansado de ser sobrepujado por razões inferiores, exausto de ser cercado pelas mesmas cores. Apostando, uma vez por ano, todo tipo de plano em novos amores. Que é que se faz com o que resta das dores?

     Na era da ascensão financeira, eu juro, eles dizem que amor é pura bobeira. Talvez eles estejam parcialmente certos, pois eu ainda não os refutei com incontestáveis provas. Eu aqui, madrugada adentro, evitando todo o esquecimento, recordo-me de que preciso de uma carteira nova. E tenho feito o meu melhor e isso, eu digo e repito, é bom o bastante. O que importa é não permanecer o mesmo de antes, porém, uma espécie de energia má e assassina tenta me derrubar. Tenho feito o meu melhor, mas um dia todos vão me deixar?

     Suspiro profundo, eco da alma, pele marcada pelo corte. Quando todos saem, evita-se a morte. Sozinho, imundo, mas com a mente calma, você se sente em falta ou se sente com sorte? Sente-se aqui, por favor, bem pertinho, bem do meu lado. Narre-me sua história.

    E as ondas quebram, eu sigo inteiro.
    E no mar em tormenta, eu me torno timoneiro.
    E no olho do furacão,
    eu entrei em um balão,
    em busca do que é Verdadeiro.
    Podemos desperdiçar tantas flechas ou
    o tiro deve ser certeiro?

    Perco-me, acho-me, conforme a madrugada segue. O filme qual eu estava gostando agora está pausado e neste momento sou o deus que decide se essa história termina ou não. Encontro-me e perdoo o que passou. Minha alma já não passeia em cidades fantasmas com a memória do que ressonava como amor. Eu talvez já saiba de tudo, pois imaginei de modo tão real que pude sentir. Vivi tantas vidas em ficção, que, às vezes em realidade me sinto com um pé na cova. Eu tanto divaguei e descobri que me derramei em palavras exageradas, quando só queria mesmo uma carteira nova.