Eu preciso de uma carteira nova.

     Eu preciso de uma carteira nova. Eu preciso de uma carteira nova e não compro, não pela falta do dinheiro, mas sim pela falta de convicção na afirmação de que eu realmente preciso do que preciso. Eu preciso do que acho que preciso? Não sou consumista e nem extremista e quase nunca me deixo ser tomado por minhas futilidades. O que acontece é que a carteira atual está remendada em três pontos diferentes. O único ponto positivo é que ainda consigo guardar meus cartões com bastante segurança. Ela costumava ser preta à época que a comprei, porém, agora é de um marrom desbotado, cor de vida desgastada, forma de sombra exausta, rosto de passagem do tempo. Quem é que vê esses anos que voam?

     Às vezes tudo o que fazia sentir ou fazia sentido perde, você talvez tenha notado, subitamente a singularidade. Compreensões nos fogem no momento exato da explicação, pois ainda que algo se derrame inexplicável, temos a mania persistente de teimar em enxergar quando nossos olhos se desacostumam a ver o que é preciso. Não queremos a bula e nem manuais, não temos tempo, dê-me apenas o remédio. Os detalhes, sim, como eu sempre digo, essas coisas frágeis e rápidas e até mesmo perigosas, essas coisas nos definem mais do que todo o resto. Essas coisas frágeis, sim, são absurdamente fortes na essência. O vidro quebrado ergue suas pontas para ferir, mostra que ainda pode te fazer sangrar. O ovo quebra fácil, mas suporta como poucos a pressão, o calor. E você nessa mania de inferioridade canta aos quatro cantos da cidade que não existe amor. Você acha que não o merece.

     No que é que você pensa quando sabe que ninguém pensa em você? Quem você não finge que é, quando sabe que ninguém vai saber? Os perfumes perderam o cheiro ou eu mesmo bloqueei minhas narinas? Não, eu preciso me acalmar. Tudo flutua por dentro, mas eu me sinto centrado. Vejo aqui e ali o que se vê com os olhos que se ganha da natureza e agradeço pelo privilégio de notar coisa ou outra. O Universo foi cruel comigo, mas com a minha idade já possuo maturidade para tolerar. Quando tudo ocorre errado, quando a vida gira ao contrário, eu me inverto e estou no lugar.

     Qual lugar, perguntariam, se existissem pessoas por perto com dúvidas, não sei ainda, eu responderia e sairia para a cozinha preparar um café. Leio Leminski, Poe, Solano, Martin, Exupéry e Saramago, um pouco de tudo na mesma tarde, antecipo aqui meu estrago, corpo largo estirado no deserto, consciência que lateja e arde. Levanto-me, como quem possui uma agilidade sobrenatural adormecida. Continuo, aqui e ali cicatrizado, sorriso largo, como se nunca antes houvesse feridas. Que é que se leva, perguntaram-me, desta vida?

     Eu gostaria que levássemos pelo menos nossas memórias. Queria que o Real Folk Blues tocasse no meu coração antes de uma evidente tragédia e que o telefone tocasse, sim, eu gostaria da excitação que antecede uma ligação, mas apenas se fosse para minguar a falsa paz que antecede a guerra. Reclamam de quem vive com a cabeça no ar, mas ninguém aprecia a terra. E as pessoas odeiam cada vez mais a ligação, pois a fala imediata reflete a necessidade de uma resposta urgente. Por mensagens e áudios gravados a gente disfarça o que sente. E o que levar desta vida, volto-me, notando que me perdi em pensamentos. E eu honestamente também gostaria de levar embora o meu cão. Ele dorme e acorda habitando o espaço mais próximo do meu coração.

     Perdi-me de novo e ontem mesmo a chaleira do ovo quase explodiu. Onde é que ando com a cabeça, se ela parece no mesmo lugar de sempre, mas já não a domino? Que é que se sente quando por dentro quente, a invernia transborda pela pele gelada do exausto menino? Quem sou eu que não sou poeta, mas rimo?

     E minhas olheiras agora marcam e eu não era cansado assim. E outrora como Pessoa tive todos os sonhos do mundo em mim. Os óbvios olham e dizem “você parece cansado“. E meus músculos murcham e eu nunca ficava três dias seguidos sem me exercitar. E as pernas tremem de quando em quando, mas caminho. Agora eu não correria nem que pudesse. Logo mais desconhecidos acenam, notam sua presença, conforme você agora se esquece. Os olhos avermelhados, o suor, o instinto, você vê, cansado de ser sobrepujado por razões inferiores, exausto de ser cercado pelas mesmas cores. Apostando, uma vez por ano, todo tipo de plano em novos amores. Que é que se faz com o que resta das dores?

     Na era da ascensão financeira, eu juro, eles dizem que amor é pura bobeira. Talvez eles estejam parcialmente certos, pois eu ainda não os refutei com incontestáveis provas. Eu aqui, madrugada adentro, evitando todo o esquecimento, recordo-me de que preciso de uma carteira nova. E tenho feito o meu melhor e isso, eu digo e repito, é bom o bastante. O que importa é não permanecer o mesmo de antes, porém, uma espécie de energia má e assassina tenta me derrubar. Tenho feito o meu melhor, mas um dia todos vão me deixar?

     Suspiro profundo, eco da alma, pele marcada pelo corte. Quando todos saem, evita-se a morte. Sozinho, imundo, mas com a mente calma, você se sente em falta ou se sente com sorte? Sente-se aqui, por favor, bem pertinho, bem do meu lado. Narre-me sua história.

    E as ondas quebram, eu sigo inteiro.
    E no mar em tormenta, eu me torno timoneiro.
    E no olho do furacão,
    eu entrei em um balão,
    em busca do que é Verdadeiro.
    Podemos desperdiçar tantas flechas ou
    o tiro deve ser certeiro?

    Perco-me, acho-me, conforme a madrugada segue. O filme qual eu estava gostando agora está pausado e neste momento sou o deus que decide se essa história termina ou não. Encontro-me e perdoo o que passou. Minha alma já não passeia em cidades fantasmas com a memória do que ressonava como amor. Eu talvez já saiba de tudo, pois imaginei de modo tão real que pude sentir. Vivi tantas vidas em ficção, que, às vezes em realidade me sinto com um pé na cova. Eu tanto divaguei e descobri que me derramei em palavras exageradas, quando só queria mesmo uma carteira nova.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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