Dor no peito.

Madruga para ver o mar
Espera encontrar respostas
Quando ouve uma voz a sussurrar
no ouvido sobre uma antiga aposta

Oração insistente de marinheiro
Cada noite mais calejado e sofrido
Nunca hesita o velho timoneiro
Coração mais resistente que o vidro

Sua sorte é a descoberta da nova terra
Seu espírito livre nunca se encerra
Para tudo nessa vida se dá um jeito

Esteve em tantos lugares
E só nos mais selvagens mares
É que alivia sua eterna dor no peito.

Milagre

Surge como uma espécie única
Criatura rara que prova a existência divina
Comoção alegre, objetiva e insuspeita
Personificação de um milagre
formado por mil lágrimas
Aparece como quem estreia
em uma peça teatral gigantesca
Não treme, não hesita, não se perde
Uma estrela cadente com pernas e olhos
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Suas decisões são sempre puras,
ainda que tenha tomado algumas ruins
Destas feitas choro, lágrimas e violência
Aposta na resistência e com paciência sobrevive
Continua firme, pôr do sol púrpura,
Raposa lépida, selvagem e imprevisível
Ergue a cabeça, flor do asfalto,
pois você desabrochou bela na feiura do mundo
Venceu todos os obstáculos e andou nas brasas
sem sequer ter notado que eram tão quentes
As noites de chuva querem banhar seu corpo
e escorrer por sua pele lisa
Os ecos de memória clamam por você
Chamam exclusivamente seu nome
Continua firme, anja sensual
Lusco-fusco tardio em plena meia-noite,
Ergue a cabeça, sereia cósmica
Flutua pelo Espaço Sideral como se fosse o seu Mar,
pois você é maior que todos os oceanos somados
Inunda-se pela coragem solar do pensamento reto,
Signifique sua vida fitando o rosto de sua alma
Acalme-se e busque não compreender o que não precisa
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Sinta o que tiver de sentir e saiba
Essa dor é imensa e não há onde caiba,
porém você se expande e se aprimora e evolui
Cada dia mais ampla poderá então comportar tudo
Abarca em abraços ternos novos mundos
Continua firme, fantasma feliz
Sua prole ainda chega para alegrar o Universo
Ergue a cabeça, rainha do tabuleiro de xadrez,
Não esquece que metáforas jamais são esquecidas
e que certas coisas desafiam a lógica definida
Cuida da tua saúde e tinge vidas alheias
com essa capacidade singular de amar
Lembra do Sangue que flui em suas veias
E nunca deixa de lutar
Borboleta lendária que chega da floresta,
Segue tua jornada completamente leve
Muitos por aí te carregaram e ainda te carregam
O que você obviamente não percebe
Continua lumiando o breu profundo
de quem se sente absolutamente sozinho
Nos eventos mais iracundos, isola-se,
e se permite sofrer também baixinho
Ergue a cabeça, milagre ancestral
Você é a prova de que existe um sentido
profundamente oculto na Beleza e na Dor
Milagre das mil lágrimas que nasceu neste mundo
para provar a improbabilidade do Amor.


Desastre clássico.

Desastre clássico
que faço da vida
Essa profusão
de encontros
Estes olhos
cansados e tontos
Chocam-se com impulsos
violentos e mansos
Solidão esquecida
Desastre natural
Falso desinteresse
prolixo e crescente
Tudo se revela sempre
Tudo se rebela
até o que não se entende
Luzes urbanas
Pôr do sol praiano
Gaivotas e pombas ciganas
Por quanto serão o que são
enquanto eu as chamo
Ouço o meu nome
observo de soslaio  
Por onde me esvaio
quando me derramo?
Por onde desmaio
quando sinto fome?
Por onde existo
quando o mundo
então some?
Para onde choro
se sei que secou o pranto
Para onde sigo e me demoro
quando já não sou tanto?
Não me sinto tão pronto
Troca equivalente
Verdades dissidentes
Consegui sorrir hoje
Tudo está abandonado
Certamente eu também
Andarilho distraído
Olhar canino enternecido
Invento mundos
Invernos mudos
Adesivos velhos
com colas duradouras
Na janela marca a tela
a poética da garoa
Azul e preto
Uma memória
de fevereiro
A lua no céu noturno
com a estética
de um queijo
Buquê de flores
Surpresas
O tempo
dos amores
A morte
das certezas
A apoteose
das dores
Barcos frágeis
em tempestades
Aviões bimotores
Peculiaridades
Arco-íris sem cores
Desastre clássico
de um homem salgado
Entrei no mar e
o tornei mais doce
Por quanto será
assim se o que existe em mim
fosse apenas o que fosse?
Desastre ilusório
das minhas impressões
Este caos é retórico
no reino dos corações
Cato pedaços que acho
meus e dos outros
O escape não
faz sentido
Esta rouquidão
representa pouco
Gole de café
Preguiça esticada
Acreditar no Tempo
é uma cilada
Acreditar no Tempo
é ter fé que tudo se acalma
Desgraça cósmica
Desastre clássico
Filósofos miseráveis
Corruptores endinheirados
Seres humanos vendáveis
Desastre clássico e inevitável
Sinto-me como
um lixo descartável
Horizonte plúmbeo
neste crepúsculo
Quanto mais a noite cai
Mais eu me busco
O cinza então
vira púrpura
Eu não viro
coisa nenhuma
Continuo sendo
criatura que sonda
Sente o que sente
Fantasma que assombra
E segue em frente
Fera que rosna
Cansado e exausto
Expiaria os pecados
Nunca pela confissão
para qualquer padre
Sempre como um fardo
Tudo isso e me mudo
Noutro alvorecer
Revelo a forma e o conteúdo
Farei tudo por prazer
Nunca me centrei
Talvez eu nem o saiba
um dia fazer
O universo político
ainda acontece
Domingo fatídico
que amanhã se esquece
Eu sigo prolixo
O resto se entorpece
De escolhas alheias
que não lhe acometem
Lume lunar
que hoje não vem
Fume o que fumar
não ficará bem
Cafés quentes e
bolos de laranja
Sente o que sente
e ainda se arranja
Chuta uma árvore
e colhe novos frutos
Sente o que sente
desespero mudo
Fantasma das dunas
O velho e o mar
Significo o que digo
Instinto solar
Não sei mais se devo
falar o que quero dizer
Todo mundo pensa que me ergo
apenas para ofender
E de dentro surge algo
que eu não sei nem explicar
O sol some
por completo
A tempestade
me torna discreto
Penso o que penso
sem hesitar
Pena, penso, apenso,
lápis, tinta e lugar
Lacuna imensa
Quero me afastar
Sozinho pretendo
me erguer e lutar
Samurai dos anos
Dialeto do povo
Seguro algo
secreto e novo
Antecipo o pesadelo
Desastre clássico
Não é que eu tenha medo
Só estou sorumbático
Conchas, praias, pombas,
Chuvas, assaltantes, padarias,
Pão quente, máscaras, surtos,
Pandemia, xícara, Inglaterra,
O Condado e o Japão em outras Eras
Carvalho milenar e um antigo gosto
Prosseguir é estar exposto
Existir é conhecer seu rosto
E eu continuo procurando
a face que eu tinha antes
da criação deste Universo
E me perco e me acho
na somatória dos versos
Não faço sentido e
nem preciso fazer
O que está perdido
Ainda vai aparecer
No meu caminho
Vislumbro instantes
completamente felinos
Durmo quando acordado
Vivo melhor dormindo
Infelizmente porém
Durmo apenas três horas
Outro dia estive bem
Príncipe de ontem
Fracasso de agora
Hoje estou aquém
Como tudo demora
Como muda o clima
Estou em Campo Grande
com a cabeça em Curitiba
São Paulo fura a fila
e grita o meu nome
Aqui entre nós
será só mais um homem
Sorrio e me distraio
com tudo o que acho
Quero ler aquele livro
Caprichos e relaxos
Tento ser mais vil
E continuar sereno
Minha bondade não serviu
neste mundo tão ameno
Desastre clássico
que sempre perdura
Mouses neons, pastas térmicas,
réprobos, colegas que morrem jovens,
Caixas de sons, budas, elefantes,
Chaves e pokémons e portas,
Corujas, sapos e amuletos,
Bairro da Liberdade,
cadela grande e preta,
Imaginações impossíveis
e a beleza das hipóteses
Desastre clássico
Suspiro ácido
Estrelas fixas
Constelações prolixas
Estrelas soltas
Meteoros
Rios e bares
Arrepios lunares
Santos dos mares
E eu sozinho
Este é o caminho
Esta é a missão
Toda a aposta em mim
mesmo sem cartas nas mãos
Toda a aposta em mim
Mesmo que tudo dê errado
Feiticeiras, bruxos, amores resolutos,
E o furto do Rei Diabo
O que cresce como um susto
sem nenhum suspeito
Grita aos que se fingem surdos
Não há outros jeitos
E assim vou
Como posso
Como consigo
Como devo
E não me martirizo
Deuses e demônios me observam
Como se eu fosse entretenimento
Os aeroportos perderam o charme
As pessoas perderam o encanto
Os infames seguem em vantagem
Os benfeitores nem tanto
Desastre clássico
de um futuro perfeito
Curo o que furo no escuro
faço agora do meu jeito
Sem controle de danos
Eu preciso saber se existo
Mergulho de cabeça nos planos
ou para sempre desisto
Gatas pretas, cachorros de duas cores,
chocolates amargos, malas sucintas,
Jogadores antigos e aposentados,
Raposas, panteras e a televisão
A guerra que sempre habita meu coração
Desastre clássico e o que existe dentro
Quero viver para ver além do fingimento
Borboletas com olhos nas asas
Cometas que acendem meus olhos
E me colocam em brasas
Tudo o que significa
sem nunca significar
Sigo o instinto do que sinto
Um dia me realizo
Um dia me sinto no lugar
Desastre clássico
da existência
Eu só queria ser alguém
com mais paciência.

Furo cronológico

O seu beijo quando era meu
O meu beijo quando era seu
Nosso beijo quando era nosso
E aquela vontade imatura e infantil
de que sua boca fosse apenas minha
E nós sorríamos com a convicção divina
de que seria exatamente assim
Fazíamos tudo como adultos fazem,
mas nossos sonhos eram pueris e puros
Como sinto saudades de nós juntos
Como penso em tudo toda hora
Pedi para que apagasse a vela
Pedi para que não me seguisse pelos vales
Pedi para que se lembrasse
de que a vida é bela
A magia está nos ares
A vida é maior do que
a lacuna das sequelas
Visite agora novos lugares
Olhe e veja como eu te vi pela primeira vez
Deixe que o manto da noite te cubra e descubra
Tudo o que você é capaz de fazer
Acredite e siga nos próprios trilhos
Quando fecho os olhos ainda vejo seu brilho
E se ilumina o meu rosto com a lembrança
do seu gosto e da perfeição do sorriso
O seu beijo quando era meu
O meu beijo quando era seu
E a nossa existência como Um
ainda que sempre fôssemos dois diferentes
Num tempo singular qual é particular
Você sobrevive e eu quero que continue assim
Mesmo que a vida mude
Mesmo que o sentimento mude
Mesmo que os desfechos esperados mudem
Eu sei que havia algo especial sobre nós
Eu sei que há algo especial entre nós
Eu sei que sempre haverá algo especial sobre nós
Talvez seja um pequeno furo na cronologia da vida
Talvez seja o tempo certo e outras versões nossas
estejam felizes em outro tempo e espaço
Eu quase posso tocá-las, pois ainda imagino
E alcanço memórias reais e ilusões perfeitas
É que eu ainda me lembro e intuitivamente sei
que nunca conseguirei deixar de me lembrar
O seu beijo quando era meu
O meu beijo quando era seu
Nosso beijo quando era nosso.

Um dia…

É necessário certo desprendimento intelectual para conjecturar hipóteses que sejam desconfortáveis. Olha, eu nasci neste lugar, mas não há nada que me prenda aqui, exceto os falsos aprisionamentos quais são obras ficcionais da minha tão criativa mente e aos quais me submeti. Olha, pois o mundo é grande e nele cabe quase toda ambição que tive, mas veja, há impossibilidades para o plano real das coisas, assim, conjecturo-me em cenários novos, diferentes, distante me vejo e reconheço o desejo, fora cresço, ainda distinto e decente, mas buscando outra vida e a realização de que posso encontrar o rosto que eu tinha antes da criação do Universo.

Sou o que posso e talvez amanhã possa ser mais por sentir que hoje ainda não posso ser exatamente o suficiente. Esta suficiência da qual falo objetiva unicamente o meu próprio agrado e a minha singular satisfação, pois como escreveu outrora Machado em Dom Casmurro, “se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo e, essa lacuna é tudo”.

O alcance deles é vasto e o meu pequeno. Quando as luzes se apagam, eu me pego tremendo. Sou obcecado com mudar o mundo para melhor e com a dieta diária do consumo de chocolates amargos e ovos mexidos. Mudo algo verdadeiramente? Faço ou poderei fazer coisas boas? Há os que me dizem de maneira objetiva que eu já faço a diferença e, eu me pergunto, eles geralmente gastam o tempo lendo os meus discursos ou elogiam mais por uma questão de decoro social? Quem sabe eles não pensem “você é péssimo, terrível, horroroso, mas eu sou legal e por isso vou te incentivar, vá, continue tentando, amigo”. Pergunto-me se a avaliação de uma estrela é sincera, pois é desacompanhada de explicações e, agora me pego estático e sério. Os corações das pessoas são cheios de revoltas e mistérios, assim, vejo-me com um desconforto. Nunca posso querer condenar o meu coração pelas inconstâncias e contradições. O que vale no fim do dia é ser honesto, certo?

Supostamente H. D. Thoreau disse certa vez: mais do que amor, do que dinheiro, do que fé, do que fama, do que justiça, dê-me a verdade.

O que significava essa obsessão com a Verdade? Nossa verdade equivale-se ao nosso propósito e tudo o que fica entre a Verdade e o Objetivo é frívolo? Penso, assim, sobre minhas próprias paranoias e principalmente sobre o que considero essencial ao que me condiciona como ser humano. Poderia dizer que viveria sem o ventilador, sem o ar-condicionado, sem comer quaisquer tipos de carne, mas qual é o sentido de abdicar de algo que torna a vida mais prática? Essas coisas todas, essas que tornam a existência facilitada e prática, elas de certa forma se transformam em vícios para que nós deixemos de ver o próprio protagonismo que deveríamos exercer na Vida? Disfarçamos nossas intenções reais inserindo distrações significativas antes delas? O que é que insistimos em não ver?

Vivo como se eu tivesse sempre mais um dia e isso me incomoda. Consciente deste mundo no qual sobrevivo, eu busco não me esquecer da fragilidade da vida. Ontem mesmo era começo do novo milênio e não muitos meses depois a minha avó falecia. Que me comove na morte de uma avó que se preocupava em me preparar tomates com sal e não me comove nas milhares de mortes cotidianas? Que me torna alheio quando, às vezes, sinto que deveria mergulhar no sofrimento mundano? As ideias, os pensamentos, o que me move, é tudo inversamente proporcional ao que me socorre. Tenho gastado minhas reflexões na esperança inútil de que meus pensamentos se esvaziem e de que eu possa encontrar paz após tanto meditar. Encontro-me com mais perguntas e mais contradições e mais percalços. O que é que há de admirável no quintal do vizinho para que ele seja tão exaltado se tenho o quintal tão bonito quanto? Não, não sou eu que faço essas comparações, admito que meu quintal me satisfaz, embora eu esteja notoriamente atrasado para arrancar a promessa de matagal que reside naquelas tantas ervas daninhas, mas suponho-me na existência alheia e busco entender o que por vezes considero incompreensível. A inveja, o vil, o torpe, o maligno, eu já tive vontade de incorporar essas características, porém olho o mundo e o vejo substancialmente negativo. Quão conveniente seria eu se agisse em lapsos de fúria e me tornasse uma espécie de hedonista, um sujeito egoísta, que só existe como indivíduo e individualmente? Há coisas mais importantes que os prazeres. Há funções mais importantes que sentimentos. Há só uma maneira de seguir de peito aberto e com a cabeça erguida, mas há um preço que se paga para ser assim. Eu pago.

Vejo-os, quando não me vejo. Desligo-me da existência para fazer parte de outra coisa e olhar melhor para a minha missão. Como tantos nascem e morrem sem sequer meditarem sobre a missão? A vida pode decorrer tediosa, vaga e sem propósito? Percebo pela minha capacidade de observação que muitos são extremamente dedicados ao trabalho, ainda que o trabalho lhes pague apenas dinheiro e humilhações. Devemos permitir que sejamos humilhados? Aceitam o trabalho, mesmo quando o trabalho é inerente ao declínio, mesmo que notoriamente a noção de cumprir o dever te sopre para a beira de um precipício. Os que caem demoram para se recuperar e os que não caem, creem puerilmente que nunca irão cair, assim, o melhor alimento da ilusão é a expectativa de poder e o melhor alimento da alma é a expectativa da realização de todos os nossos desejos, por mais que os desejos se extravasem na esfera singular da existência e necessitem de outras pessoas para que sejam realizados.

Sei pelo que determinadas pessoas me abandonariam, pois outras me abandonaram. Será que sou capaz de abandonar todos?

Nenhuma dor pelo dano (Leminski).

Há outros mundos além deste (S. King).

Tem que ser assim (M. Kundera).

Desde a infância respeito meus espaços particulares e preciso de doses pontuais de solidão para não amargar a vida. Se tenho o que necessito, eu transbordo a minha doçura e não é incomum que dissertem e narrem por aí sobre o quanto me sentem e me enxergam realmente doce. Sou uma espécie de sujeito comum com ímpetos de heroísmo e desafio improbabilidades fazendo das minhas cenas presentes minhas novas evoluções. Persegui o pôr do sol em janeiro, quando voltava com quase todos os meus melhores amigos para Campo Grande. Dirigi sozinho na ida e na volta, enfrentei a chuva e a neblina e desci e subi várias serras. Ao final do percurso da volta, eu decidi que chegaríamos em casa ainda de noite. Persegui o sol pelo que pareceram horas, mas os minutos nunca haviam passado tão lentamente. Um dos amigos estava exausto e dormia, outro seguia quieto e discreto no próprio canto e havia um que estava ansioso e tenso com a iminente chegada da noite. A escuridão engolia a estrada e o carro branco persistia vivo com os faróis acesos.

Se sei de algo, eu creio que agora possa confessar, é que não sei de coisa alguma. Sou capaz de lampejos de brilhantismo e atitudes heroicas, exagero-me quando me dedico e me sinto inflado por uma coragem tão poderosa e real que me aproxima da Coragem original. Sei também que em diversos momentos sou deprimente, fraco e inútil. Não admito vulgaridades e quando sou vulgar, excedo-me na raiva que sinto por mim, pois há certas características comportamentais quais não posso tolerar no meu próprio ser. Encontro-me com o meu reflexo várias vezes ao dia, seja nos retrovisores ou espelhos ou poças d’água. A autoimagem deve me agradar e se me vejo sujo, eu faço questão de nunca mais enveredar pelos caminhos quais me sujei.

Outra vez me consterno ao me encontrar no meu constante estado soporífero. Perto de sentir o sono, não me permito dormir. O sono é vão e a vida ocorre nos intervalos de meus piores pesadelos e de meus maiores sonhos. Sonhei-me majestade e fiz mais sentido podendo proteger o meu povo. Sonhei-me mendigo e me senti feliz ao dividir minha pouca comida com o meu cachorro. Sonhei-me gota de chuva em queda livre e fui feliz despencando do céu para o telhado de uma casa. Não muito depois evaporei e da minha presença nada restou. Sonhei-me como um gato entediado que dormia dezoito horas por dia. Todos os sonhos me apraziam mais do que a penosa realidade de ser apenas quem sou. Todos os sonhos me faziam ser algo mais, algo que nunca serei.

Trabalhei e ganhei dinheiro, conquistei pessoas, fui amado e juro que até amei. Perdi dinheiro, perdi amores, trabalhei e fui demitido, trabalhei e me demiti, pediram para que eu reconsiderasse o meu pedido de demissão, eu reconsiderei, mas por um dia e me demiti, juntei dinheiro, juntei afeto, fui amado e desamado e, enfim, amei de novo. O relógio da vida conta os meus minutos e eu conto a probabilidade de me entregar aos meus impulsos. Sou insistentemente racional e não me permito ser tão vil. Nunca traí meus amigos e nunca os trairei, ainda que admita, humanamente posso carregar essa vontade que até hoje nunca carreguei comigo. Espero que nunca carregue, mas sei posso. Espero não fazer o mal, mas sei também que posso e que uma atitude muda tudo. Espero não me render, mas sei que a maioria se rende.

O poder é a moeda do nosso verdadeiro valor. O poder aquisitivo, o poder sedutor, o poder do carisma, o poder de mudar o coração das pessoas, o poder de receber tudo e dar tudo. Ter a consciência dos diversos poderes que obtemos durante a vida e não os utilizar para propósitos egoístas, viciosos ou viciados, talvez seja o verdadeiro teste. Qual é o seu maior poder e como você se utiliza dele? É estranho. Quando ajudamos geralmente esperamos a reciprocidade no momento de dificuldade. Se emprestamos, esperamos que quitem as dívidas conosco. Se não há barganha, o que resta? O que entregamos de graça? O que acontece quando somos cônscios de nossos poderes e de nossas capacidades plenas e, subsistimos e insistimos em uma vida na qual sobrevivemos com educação e humildade? O quanto a tranquilidade não é confundida com a passividade? O quanto não nos subestimam por termos a capacidade de escolhermos os nossos próprios caminhos? A maioria dos ciclos se repete, mas por que diabos eu deveria me permitir a viver uma vida cíclica se me falho em repetir nas minhas constâncias e inconstâncias? Mudo e me aceito, ainda que desconfortável. Minhas mudanças são discretas ou extravagantes, mas são minhas. Aqui grita o meu protagonismo. Sinto uma distância incalculável para com as pessoas que vivem a vida para servir outras pessoas. Vivo a dizer que devemos ter sonhos e ambições individuais, mas reconheço, na verdade, que não tenho o direito de opinar sobre existências, sonhos e objetivos que me são alheios.

Pisco os olhos e respiro com somente uma de minhas narinas, pois a outra não é funcional. Observo tudo com um interesse crescente que subitamente se transforma em desinteresse. Capto imperfeições na pele, detalhes nos sorrisos, gestos de ansiedade transparecendo pelas mãos, vejo a roupa marcada pelo suor e noto como me notam. Uns me subestimam, outros torcem o nariz, ainda há quem me ache bonito ou alto e, até mesmo bonito e alto. Sou chamativo e não me envergonho. Sou como sou e não seria diferente, mesmo se pudesse escolher. Quase todos pensam que eu não os vejo, mas eu vejo quase sempre quase tudo.

Só o hoje me interessa. Só o hoje existe. O passado foi o presente antes e o futuro só acontecerá também no presente. Acordo em novos dias e a minha vida é uma página em branco. Ainda tenho a juventude ao meu lado. Posso mudar tudo, posso fazer tudo, posso focar na missão. Posso devanear e aprender novos idiomas, morar em outros países, abarcar novas civilizações e abraçar novas lições. Nunca me busquei, mas talvez este seja o tempo. Nunca busquei viver a minha vida, mas sou inundado por instintos de coragem que me forçam ao protagonismo. Sou dono de mim e mereço escolher o meu caminho. Mereço ser feliz, eu sei, mereço o amor, eu sei, mereço boas pessoas e sou cercado por elas, eu sei também, mas cresce subitamente em mim a ânsia de realizar a missão.

E se o primeiro avião desaparecer no negrume da noite, eu viverei meu luto em silêncio.

E na manhã seguinte sorrirei sabendo que outro avião partirá.

A vida, eu hoje penso, é uma jornada pelos caminhos já percorridos, mas que ainda nos são inéditos. Só eu posso me livrar do próprio tédio e encontrar o meu propósito. Oh, vida! Escuta a minha voz nesta terça-feira? Dê-me uma saída para que eu seja sério até nas minhas brincadeiras e, assim, que eu nunca desista do que me faz ser exatamente quem sou.

Ainda busco o rosto que eu tinha antes da criação do Universo, mas de maneiras diferentes. Pego a chave do meu carro, que é meu porque eu o comprei, e saio de casa. Hoje não vou perseguir o pôr do sol, mas sinto que persigo o meu âmago.

Acelero o meu carro no final da tarde
Os sons do trânsito caótico me confortam
Alegro-me em conviver com a poluição sonora
Obedeço aos sinais e confio no amarelo
A vida é pelo risco, mas dentro desta máquina
Confesso-me muito mais arisco e cauteloso
A vida é o que fazemos dela e isso me inquieta
A vida é o que fazemos dela e sorrio

A vida é o que ainda farei dela
Sigo dirigindo e tendo paciência
Existo como muitos que dirigem
solitários dentro de seus próprios carros
O meu carro branco se parece com outros,
mas certamente é único no mundo
Dentro dele eu sou o motorista
E o carro confere a mim uma função
qual não posso exercer sem ele
Eu me pareço com muitos outros,
entretanto, sei que sou único
Ouvi sobre o Bem e o Mal
E certa feita não vi bem e mal

Não compreendi a praticidade
desta fútil e insensata divisão
Conheci pessoas reais mais mentirosas
que o próprio Pinóquio e jurei
reconhecer o Gepeto vendendo doces em um bar
Ouvi sobre o Bem e o Mal
Ouvi sobre os ensaios de vileza,
mas não vi mais coisa alguma
Vi apenas outros carros
E outros motoristas e outros passageiros
A maioria agora veste máscaras
e isso tudo não é uma metáfora cafona
Vejo uma réstia do pôr do sol
e me recordo de que em janeiro o persegui
Se eu fosse o mago Howl
talvez até pudesse o engolir
Sonho cadente e secreto que sonho
qual sigo sentado no banco do carro
O objetivo ao que me proponho
pode ser difícil, mas nunca caro
Resisto nas hipóteses e nos fracassos
Persisto como quase ninguém persiste
De cabeça erguida, apesar do cansaço
Sinto falta do trabalho e do dinheiro,
mas não tanta falta de mim
Existia àquela época outro jeito?
Sim, não, tanto faz, mas tinha que ser assim
E devaneio-me em jornadas novas
Sou um andarilho sem cura e sem causa
A salvação não é para todos?
Podemos encarar a vida como um jogo?
Encontros como este são cada vez mais raros
Veja bem do que vai abrir mão
Não espero retornos, assim, nada retorna
Complico o simples e simplifico o complicado
Preciso aprender a falar japonês o quanto antes
Sinto vontade de beber água e cerveja
Sinto vontade de compartilhar minha intimidade,
mas nunca desejo dividir meus hábitos

Afaste-se e me deixe em paz
Queria mais café com a chuva caindo
e a paisagem me soou como um quadro
O deserto do Atacama é o mais árido do mundo
E ainda assim nele há vida
Não importa o quão você tenha ido fundo
há sempre uma saída
Tudo pode ser,
desde que tenha paciência
Tudo pode acontecer,
desde que lide com as consequências
Isso é a vida ou é um novo sonho?
Espero comer chocolates amargos ao final do dia
Espero estar em Londres ou em Londrina ou em Lisboa
quando o meu cansaço me roubar a consciência e a subjetividade
Espero ficar aqui onde estou seguro
Espero ficar longe onde estou desprotegido
Espero tudo e admito que não espero nada
Confio a vida nos pneus do meu carro e no motor
Confio que há coisas tão importantes quanto a Felicidade e o Amor
Preciso continuar insistindo neste Amor
Preciso perpetuá-lo, não importa como,
Pois vive em mim o desejo de tornar o mundo mais bonito
Enquanto não encontro soluções medito dentro de meu carro
Dirigindo para um rumo certo ou para o deserto infinito
Quando tudo se perdeu e

me notei distante do que queria
Sussurrei toda minha esperança

defronte aos medos
Um dia.

Abstração

A representação da vida como coisa real geralmente nos escapa.

Localizo-me no meu quarto e sinto o suor escorrendo pelas minhas costas e pelo meu antebraço. Anoiteceu outra vez e me pergunto sobre o que seria da minha vida acaso não houvessem novas noites. Poderia eu seguir tranquilamente em um mundo que só comporta o lume ou necessito da escuridão e da densidade noturna para certificar de que sigo cônscio e no controle de minhas próprias ações?

Tragédia mundana qual me sinto destinado. Posso acertar minhas próprias ações ou estou fadado a dar errado?

Vejo-os, principalmente quando não me vejo. Vejo-me, apenas quando deixo de ver o restante do mundo. Observo-os e me sinto arrefecer. Não me observo e sinto a minha ausência. Escrevo para diminuir a distância entre quem sou e quem sinto que deveria ser? Que é que deveria fazer para me aproximar mais de quem está tão distante? Existe drama qual devo me render que faça minha vida simplória mais elegante?

O silêncio devastador é interrompido pelo ronco incessante do motor do ar-condicionado. A gata preta desfila atravessando o espaço curto da mesa. Segue o seu rumo com passos delicados, repletos de requinte e, sem se encostar em nada, deita no meu travesseiro e só mexe eventualmente suas atentas orelhas.

O sono dos felinos, as sinas e destinos, os instantes de descansos breves e seculares, a inevitabilidade, a boa utilização do tempo, a individualidade, os lugares, tudo me torna mais leve e tudo também me torna mais pesado. Não divido meus fardos e nem os meus hábitos. Sei que preciso da solidão para sobreviver.

Abstraio-me do Universo e de tudo o que compõe a Vida e me sinto integrar o ambiente. Dura apenas um vislumbre de segundo, um intervalo tão fugaz, que nem o sinto na pele, mas é essa capacidade de me ver longe do mundo que me faz nutrir amor verdadeiro pelo verdadeiro Mundo.

Indago-me sobre Vida e Morte e sobre as próximas vidas que hão de existir após nossas próximas mortes. Haverá espaço e tempo para que tudo seja vivido e aproveitado? Haverá tempo hábil para que possamos realizar os sonhos que sonhamos? Haverá outras versões das nossas mesmas personalidades? Poderei deitar meu julgamento completamente subjetivo sobre a minha maneira de enxergar a existência? Outra vez me perco de mim. Enxergo todas as pessoas, menos a minha. Enxergo todas as dores, exceto a minha. Enxergo a felicidade dos mais próximos e não a minha. Que é que deveria eu fazer para me livrar deste insistente estado soporífero? Estou destinado a sofrer por um mundo que me ignora?

Príncipe diurno e deslocado de melhores horas. Sonhei-me regente em um mundo qual tudo era visto de dentro para fora. Vomitei os segredos da existência. Mergulhei no gélido oceano e me transformei em uma lontra comedora de ouriços-do-mar.

Acordo-me no mundo real, se é que faz sentido distinguir o território dos sonhos do território cotidiano. Sou o Senhor do Lago e devo fazer o que bem entender. Visto meu protagonismo como um super-herói veste sua roupa especial. Trago em mim todo o tipo de esperança vã e estúpida que me faz acreditar que posso modificar severamente os amanhãs. Onde estará meu futuro se me falho em modificar o presente?

Falho de novo e de novo. Sinto uma raiva que dura pouco. Sinto uma tristeza que persiste. A alegria pode ser disfarçada, mas não o sofrimento. Penso sobre as coisas que não posso tolerar e quase me pego chorando. Agradeço ao Acaso Divino que me fez estar com tanto sono.

Lá de longe me vejo e aceno. Estou defronte para as janelas límpidas com vistas enfumaçadas de uma fábrica que expele nuvens de fumaça branca, mas me sinto sereno. Lá de longe me vejo e não há engano. Há qualquer lugar qual sou novo filho do mar e desta vez sei que me amo. Lá de longe me vejo no clima impossivelmente gelado e distante. Talvez uma parte minha congele, mas eu sei que não volto o mesmo de antes. Lá de longe me vejo falando em japonês com os japoneses. Talvez eu me embriague em Tóquio enquanto canto meus maiores reveses.

Lá de longe me vejo acompanhado.

Lá de longe me vejo sozinho.

Lá de longe me vejo.

Lá vou eu outra vez.

Lá vou eu agora.

Lá vou eu outro dia.

Lá vou em uma nova velha vida.

Partícula irreal e incompreensível. Falhei na vida e no devaneio de minhas hipóteses. Falhei na imaginação e no sonho. Dormi acordado e vivi dormindo. Nunca encontrei o que me fosse agradável como qualquer tipo de resposta. Surgem mais perguntas e outra vez me vejo. Não há mais ninguém. Deixo de me ver e a vida inteira brilha e surgem mais uma vez as coisas todas que faltam.

O sono é o meu único Deus e rezo para que durma rápido. Divido-me entre a ânsia de sonhar e a vontade apressada de me lembrar detalhadamente dos sonhos. Pudesse eu me compreender nas partes quais não me compreendo e tudo poderia ser diferente. O que fiz de mim se calei quando deveria ter dito? O que ainda faço de mim se falhei em fazer deste um mundo mais bonito? O que fui falar quando não tinha mais o que dizer?

Amo como posso e sigo em frente. Sou como sou agora, mas talvez um dia escolha ser diferente. Que me julguem com ferocidade! Que me julguem com um caráter férreo e que eu seja alvejado! Que eu sofra com os dramas e dores do mundo! Um dia eu ainda melhoro! Um dia eu ainda mudo…

Andarilho cósmico,

Interplanetário,

Eu vi a escada de saída da Terra,
Eu também senti o cheiro de flores e ervas

Eu sei que há circunstâncias de melhorias e que eu não quero e nem posso morrer de um jeito estúpido ou banal. Não aqui. Talvez com essas pessoas. Talvez longe delas.

Quero falar outras línguas e admirar outros sotaques.

Quero que todos vejam na minha representação externa toda a capacidade estética e interna da minha alma. Quero a explosão do mundo em absoluta calma.

Hoje nenhum pedaço do planeta foi feito pra mim.

Um dia.

Ferro, vinho, romantismo, sono compartilhado e lucidez. Não sei quando, mas ainda chega minha vez. Até lá me valho dos inutensílios que encontro ao longo dos dias mais longos para continuar bem.

Isso de querer ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além.

Gastando palavras até que os dedos doam para confrontar qualquer resquício de vaidade. O sono me chama e em sonhos quero ficar face a face com a única Verdade.

Boa noite.

Você vai sentir esse peso

– Você vai sentir esse peso.

O conselho soava despropositado, tosco, fora de hora, longe do nexo, ainda assim, os ombros agora carregavam uma bagagem que não havia anteriormente. Por quê? Não sabia dizer. A gente é tudo aquilo que pode? A gente é aquilo que nunca mente?

– Que é esse peso? – Pergunto e me deparo com o silêncio em resposta. O conselheiro se foi.

Contrariado, ergo-me e bebo um copo de água gelada. Até nas noites o clima quente atrapalha. Se pudesse escolher, eu hoje tomaria uma garrafa de vinho tinto. Se eu pudesse me entender, beberia tudo sozinho. A gente é aquilo que nunca mente e o que pesa internamente antes do novo dia ter amanhecido? A sinceridade é o melhor caminho para não sair ferido?

A noite ainda é longa, porém, reconheço-me distante da excitante luz solar. Reconheço-me com estranheza, mas sigo inconsciente sobre a minha beleza. O brilho fraco das estrelas é a única coisa que me impede de (me) apagar. Venço o estado soporífero. Escuto vozes, velozes, pessoas correndo, fazendo barulho, frenesi louco, ebriedade costumeira, cruzam a madrugada, todos atravessam, arriscando-se, morrendo porque desejam viver. Se eu pudesse recuperar tudo aquilo que havia perdido. Se eu ainda tivesse as chaves para voltar para a orgia de meu sofrido mundo proibido. Se as coisas simplesmente não doessem como doem.

– Você vai sentir esse peso e conhecer essa dor.

A dor não se evita. Acendo uma vela e fito a chama acesa. Este momento é meu, embora nada mais me pertença. A luz bruxuleante queima a cera e toda a minha esperança ingênua se projeta na sombra. Não sei explicar, mas falta algo lúcido e próximo, possível e real, algo esquecido e deixado de lado pela prece de horas sombrias. Não posso ser o foco, entretanto, desejo ser a fogueira que queima através do tempo-espaço, o fogo que nunca apaga e que ilumina caminhos. Jogam-me água. Os que se importam logo desistem e os que apenas não ligam o suficiente se utilizam das situações. Sinto o peso de me sentir solitário em uma existência compartilhada por bilhões.

– Você vai sentir esse peso. Vive no mesmo mundo que eles. Carrega o inevitável fardo de compartilhar seus êxitos e revezes.

Penso nos outros que ousaram ter coragem em épocas mais sombrias e continuaram lançando-se em horizontes densos e escuros, engolidos por violentas tempestades, resistindo, sobrevivendo, minuto a minuto, entre a vida e a morte. Ansiando pelo futuro e contando apenas com a sorte. Sobreviviam pelo ofício, pela recompensa ou pelos que os esperavam? Penso nos que pensaram além de si mesmos, nestes raríssimos que deixaram o egoísmo de lado e se preocuparam primeiramente com a missão do que com os louvores individuais. Penso ainda que nenhum pensamento é único e a repetição é a única tendência infinita na existência, pelo menos enquanto existirmos. Vai desistir da sua vida como se ela não se importasse? Fortaleça-se!

– Você vai sentir esse peso e vai decidir. Chegará o momento em que vai entender se vai se erguer ou se vai sucumbir.

As dúvidas serão incontáveis, o conselheiro avisou, mas se a missão deve ser cumprida é porque talvez exista algo maior do que o próprio amor? Quiçá para uns, certamente não para outros. Silêncio do conselheiro compartilhado por aquele que foi aconselhado. Se existe algo maior, ele sente que deve descobrir e resgatar. Conclui descuidadamente com uma frase de efeito: aquele que sacrifica a felicidade individual para que o mergulho nos aprendizados seja intenso e lúcido o bastante será recompensado e nas profundezas de nossos próprios lagos, enfim, poderá achar suas próprias respostas, acaso não seja assim tão raso. Risca um S.O.S na areia e pensa em quantos pedidos de socorro foram feitos nos areais, céus e mares. Quantos pediram ajuda e morreram antes dos heróis chegarem?

– Você vai sentir esse peso, garoto.

Disse-me, entretanto, certamente sem notar que doze fios de cabelos grisalhos despontavam em minha cabeça. Sou contra comemorar novos aniversários para que eu nunca mais envelheça. A idade atual se esvai, assim como a chama da vela, sim, ela ainda queima e sobrevive diante de outra aurora, defronte a outra despedida. Regente da madrugada, príncipe de melhores horas, ele se levanta poderoso e aproveita o breve momento de reinar. Sabe que eventualmente vai padecer. Está cônscio da possibilidade de falhar. Dragão das manhãs, réprobo do crepúsculo, quase sempre me senti fora do lugar. Segui sentindo na pele todo o mundo que nunca me sentiu, notando e abraçando quem não faz questão de se importar. Sofro a angústia inevitável de ser quem eu fui e choro. Às vezes a comoção abarca o Universo e às vezes resumo a felicidade em um verso solitário que escrevo quando estou sozinho. Às vezes a vida o fustiga e o frustra. Às vezes é melhor continuar na busca. As fatalidades exteriores não existem? Qual é o verdadeiro sentido que nos guia?

Sinto o peso do que não vejo e ainda vive em mim. E sinto os desejos que tenho desde que nasci. E sinto o ensejo do caminho que escolhi. Eu vou carregar esse peso. Verei de perto situações degradantes, cafajestes, trastes, viciados e bajuladores. Superarei o medo e não vou me acovardar. Vou ver a maldição do mundo e me recordar dela em uma lembrança olfativa e adocicada que me causará ânsias de vômito. E vou observar o caótico cenário político e diversos documentários e crises e fins de mundo tão terríveis e chocantes quanto à continuidade da vida. A alma agora se embriaga, mas a essência antes perdida, parece-me, enfim, encontrada. Ninguém vive nesse mundo longe dos perigos. Podemos evitar e chamamos de inevitável. Desvios de rotas são imperdoáveis. Choro melhor quando choro sozinho.

Dirijo meu carro e os olhos marejados tornam as luzes de faróis parecidas com as estrelas. Ofereço um breve aceno tentando entretê-las. É uma metáfora literal, mas vejo a vida conforme atravesso uma nova porta. Alguém situado lá em cima me nota? Retorno-me ao ponto de não retorno, ignorando a placa da proibição. Cada olho enxerga uma realidade diferente. Há tantas realidades assim? O que você seria sem as pessoas que você conheceu? Eu perdi a minha pedra de signo e o meu dado de vinte faces. Nunca mais me encontrei. Nunca mais encontrei os objetos. Aguento o dia árido. Vou sobreviver hoje mesmo tendo sentido o peso. Vou entender que a minha felicidade depende do que faço de mim e, assim, farei algo. O protagonismo, a vela, o fogo, a vida, o jogo, o que sufoca e o que nos torna leves, as responsabilidades e quem decidimos ser, o gosto podre de fracasso, a inebriante sensação de vencer. Muss es sein? Es muß sein! Tomas não tinha certeza. Quanta certeza cada indivíduo pode ter? As mortes de todos os antecessores e parentes queridos, as vidas inúteis de tanta gente que se machuca sem nunca ter merecido, as traições, as angústias, eu quero carregar esse peso. O inferno, a luxúria, a oportunidade não é menos do que o que vejo. Perito em enfrentar os problemas, eu me ergui fora de lugar. Não existe moldura qual eu possa me encaixar?

E o cansaço de alma que me persegue avisa que espera por uma chance de me sobrepujar e me vencer. Sinto-me triste, exausto, cansado e indefeso. Ainda assim, eu vou me levantar e lutar. Eu decidi carregar esse peso.

E o conselheiro sorriu com sinceridade em resposta. Sussurrou sua confissão:
– Essa sempre foi a minha aposta. Confia no teu coração.

E as luzes piscam para àqueles que sempre estão com os olhos acesos nas janelas amarelas das cidades. Não importa a carga, ele quer carregar o peso. Essa é a sua única verdade.

Se a vida fosse fácil assim…

A madrugada se inicia e tudo parece meio estremecido quando eu repouso meus olhos no teclado. Observo minhas mãos, meus dedos, minhas marcas. Derramei quase dois litros de água fervendo na mão direita; quebraram o meu polegar da mesma mão no portão do colégio na infância; oito anos atrás, um espelho desabou em mim e quando pulei para trás, uma lasca pontiaguda fez um corte profundo no meu dedinho da mesma mão direita. É impressionante que nada de grave tenha acontecido com a minha destra, pois todos os castigos parecem direcionados. Fito-a como se ela fosse mais interessante do que é e penso nas ciganas espalhadas por aí que leem o futuro das pessoas apenas olhando as linhas das mãos. O que será que elas diriam de minhas linhas e do que me reservam os próximos anos?

Não é muito ortodoxo isso de arrependimento e menos ainda o arrependimento pelo que a maioria consideraria banal. Fui abordado na praia e não paguei R$ 10,00 para que lessem meu futuro. Quantas vezes não gastei mais dinheiro com coisas menos importantes que isso? Quanto poderia me antecipar ao que vivi acaso tivesse investido esse valor na previsão?

Os bons hábitos e as boas atitudes são geralmente recompensados. É certo que uma ação ruim gera inúmeras consequências e o efeito dominó pode ser terrível e assustador. A ação boa pode se encerrar nela mesma, mas fica a certeza que dela não pode nascer o mal legítimo. Ainda assim, eu às vezes me sinto tomado por indecisões. Ilusões antigas de poderes que nunca terei me atormentam. Qualidades honestas e não valorizadas nos estremecem na sequência do caminho do bem.

Se a vida fosse fácil assim…

Os ombros pesam com uma dor abrupta e violenta na madrugada que transforma um sábado outra vez em domingo. Quem saberá se um dia um sábado virou outra coisa? A força invisível e medonha se avulta pelas minhas costas. O ritmo da vida oscila, a melodia do tempo continua tocando e, perco-me. Se eu não sei o caminho, bem, qualquer estrada revela um novo começo, certo? Ainda que eu esteja sozinho, isso não quer dizer que caminhar sozinho nos faça estar em um deserto.

Creio em coisas pueris e sinto o peso do meu coração juvenil nas minhas decisões. Ter convicção é coisa para os malucos e ter coragem é coisa para os insanos. A sina pela qual geralmente responsabilizamos o destino é apenas um reflexo das maiores ideias, enfim, buscadas. Esperança é para os intrépidos que arriscam tudo, ainda que possam ficar sem nada.

Acendo-me na escuridão. Percebi-me apavorado na ausência de luz e não havia lâmpada que me resgatasse do breu absoluto. Todo grito chegava até mim como um sussurro fraco, semimorto. Toda voz era inaudível. Toda tentativa de resgate era vã, ninguém nunca me achava. No momento qual notei que ninguém poderia ser a luz que eu tanto procurava, eu brilhei e iluminei meu próprio caminho. Eu podia fazer mais do que supunha sozinho, ainda que a luz própria tenha sua verdadeira essência transmitida em auxiliar outras almas.

Enfrento a covardia, pois já fui covarde. Enfrento o medo, pois já fui medroso. Espalho mensagens de coragem porque o mundo é suficientemente venenoso. E necessito da minha solidão para me recuperar. Há quem se mergulhe tanto nas distrações que se perca do seu próprio lugar. Sinto-me livre daquele velho cansaço de alma e não sei dizer o que me incomoda tanto. Seria o clima quente ou como se apresenta de repente o pranto.

Se a vida fosse fácil assim…

A vida poderia ser mais fácil, os patrões poderiam pagar melhores salários aos empregados e os trabalhos poderiam ser mais tranquilos. Eu poderia acordar todos os dias como nos domingos desempregados e assistir aos jogos da Premier League e depois emendar na sequência os jogos do Brasileirão. A vida poderia ser mais fácil e eu poderia ter um computador que me permitisse ter um pouquinho de qualidade ao jogar meus poucos jogos e aqui, repito-me, a vida poderia ser mais fácil, eu não sou muito exigente, mas meu computador parece prestes a explodir.

Sinto-me superaquecido muitas vezes, assim, penso que posso imitar a máquina e desligar de repente. Certamente eu sentiria muita falta do meu computador, ainda que hoje ele só me facilite a vida por detalhes. Se, assim como o meu computador, eu pifasse, quantos sentiriam falta dos meus detalhes? Sinto falta das minhas manias mais absurdas e diminuí tanto a cafeína que quase não me reconheço. Há uma vida que valha a recompensa de não se viver como quer? Algo causa irritação. Inquieto-me. Que é que há? Alguém tenta me enganar.

Se a vida fosse fácil assim…

Se a vida fosse fácil talvez todos fossem honestos e independentes e eu não me sentisse tão preso ao que há e às promessas do que ainda haverá. O que é que acontece comigo que me pego no início de domingo pensando no que deveria acontecer para que a minha vida fosse mais fácil? Eu sei, entretanto, o número dos que vivem uma vida mais difícil é tanto incalculável quanto impossível. Que é que há comigo então? O que explica a minha sensibilidade tão insensível?

Desafogo-me das ocupações. É domingo. É preciso entender o tipo de dia, mas a semana soa estranha antes mesmo de ter se iniciado. Fito o caos do Universo pela janela fechada do meu quarto. Tudo ocorre distraidamente, imperceptivelmente, longe do terreno dos cálculos e ainda assim nos desdobramos para calcular. Temos um desejo insistente e ferrenho em gastar tempo com inutilidades, assim, tentamos calcular o amor, tentamos testar o valor das nossas amizades, tentamos antecipar os fins e inícios, tentamos protelar o inadiável e adiantar o que sabemos impossível trazer antes. Desafogo-me de novo, mas desta vez sinto a brisa fresca que me traz vida, a recuperação do fôlego, a necessidade da respiração, os pulmões funcionando e o peito arfando com a expectativa de sobrevivência. A consciência é a de que precisamos nos treinar, esforçarmo-nos em aprender a deixar partir tudo o que tememos perder. O único jeito de ter uma boa vida é formando uma convicção, uma firmeza férrea no autoaprendizado sobre a morte e sobre as coisas frágeis. Quando nos lembramos de que a vida pode ser apenas um sonho que se acaba, o que deixamos para trás?

Se a vida fosse fácil ninguém morreria. Estar cônscio de que um dia deixaremos este mundo para novas jornadas é um jeito não tão prático de admitir que talvez uma jornada só não seja o bastante. Quando terminarmos aqui estaremos felizes e satisfeitos? Se a vida fosse fácil todas as conclusões seriam lógicas. Demore-se um instante em observar o mundo. Analise se o conceito de que “todo ricaço é feliz“. Realmente corresponde com o reflexo da sociedade em que vivemos? Compramos os melhores sapatos para evitar o barro, não gostamos na sensação de pisar na lama, mas fingir que a lama não existe é algo mais fácil ou difícil do que aceitá-la e passar por cima dela, calçado ou não?

O mundo gira e eu giro também. Penso em coisas quais muitas pessoas alimentam o desdém. O Universo repara na nossa existência ou todos vivemos randomicamente e insignificantes? Mudamos em essência ou somos sempre os mesmos que fomos antes? Os dragões foram reais um dia ou são apenas metáforas? Eles cheiram a alecrim e manjericão? Eles carbonizam e esfumaçam tudo ou são apenas um vislumbre rápido e mágico de alegria? São sombras gigantes e verdadeiras ou só a personificação de um dos maiores mitos manifestados das nossas fantasias?

Vou distante ou voo distante e, sinto-me livre. Meus pensamentos podem se dispersar sem qualquer compromisso com a realidade. Vago para campos verdes e cachoeiras e montanhas nevadas e lugares quais nunca vi. Sinto o peso de uma espada e o fio de sua lâmina. Poderia lutar agora, se a luta fizesse sentido, mas certamente não faz. Se as pessoas se amassem mais, fossem mais diretas, menos abjetas, mais constantes, menos briguentas, mais empáticas, se os patrões pagassem melhor e se preocupassem com os funcionários, se não enfiássemos tantas distrações no meio das coisas importantes, se olhássemos para os planetas e para as estrelas e para a lua, se não nos esquecêssemos do nome das pessoas e nem detalhes das ruas, se cuidássemos das coisas frágeis, se prestássemos a atenção nas cores e nos animais, se dançássemos conforme o caos da desordem sem nexo, se não nos comportássemos como bichos selvagens em relação ao sexo, se observássemos mais a forma que o conteúdo, se não usássemos o pretexto divino e o próprio Deus como escudos, se encarássemos um dia por vez, se não fôssemos tão obcecados em falar inglês, se tudo o que fizemos errados pudesse ser refeito pelo menos uma vez.

Se a vida fosse fácil assim…

Crônica Pregressa #6

Contradição

     Começo este relato sem a devida lembrança de onde ele se inicia. Falho com o mínimo, porém, não me desanimo tanto. A prolixidade dos meus sentidos contradiz a preguiça do meu corpo. Mal me sinto capaz de caminhar ou de comer, entretanto, obstinado, sigo batendo os meus dedos no teclado. Observo-me, não sem certo estranhamento, quase estático. A minha mente nunca descansa da realidade ou da irrealidade. Sinto uma vontade de gritar até perder a voz, mas estou cercado. Saiam, por favor. Não é da boca para fora, por favor, saiam. Sou dominado por um instinto de isolamento e sinto uma vontade crescente de desaparecer.

     Resisto, incertamente intrigado, mas certamente contente. Tenho falhado sim e errado como um mestre em errar. Domino os equívocos e nunca me basto deles. Quando alguém me diz para não viver tudo hoje, eu sorrio e assumo uma expressão zombeteira, ainda que não me perceba tão irônico assim. Chamar-me de cínico é a única coisa realmente imperdoável. Ouvi discorrerem sobre minhas ações de maneira generalizada e cada um pensava algo diferente. Assim, eu fui honesto comigo e com os outros. Nunca pude controlar o que esperavam de mim. 

     A exaustão percorre meus ossos. Dizem que eu não tenho motivos para estar exausto. Talvez eles estejam certos, mas, olha, eu não tenho que me explicar quando quaisquer tipos de explicações fogem rapidamente do meu controle. Preciso me afastar um pouco. Posso me perder de tudo, até perder uma ou outra pessoa querida, mas minha própria ausência me desespera. Não penso em boas frases para finalizar um texto. Não há nada mais que eu sinta ou que faça sentido. 

     Um bichinho de luz aparece e me incomoda, mas sinto muita preguiça para me livrar dele e minha bondade ingênua me impede de esmagá-lo. Talvez eu devesse ser mau de vez em quando. Neste final de tarde ainda não posso. Apago a luz e torço para que ele vá. Não desejo companhia. Espero dormir e me esquecer de quem me esqueceu e apenas hoje também de quem ainda se recorda de mim. Quero apenas existir sozinho.  

Quem é você?

          Eu havia me classificado para a quarta etapa de um campeonato de videogame. Inadvertidamente um menino de uns 11 ou 12 anos de idade comia Doritos perto de mim e, observava ao meu desempenho no jogo com uma espécie de interesse preguiçoso. A nova geração poderia ser um pé no saco, eu pensei, mas mantive a acidez de meus pensamentos distante da radicalidade com a qual eles se insinuavam. Do lado oposto ao comedor de Doritos, outro menino jogava videogame também, creio que Super Metroid, para Super Nintendo. Costumava durante à infância admirar meus primos Rafael e André, principalmente este último, por ser quem mais se dispunha a zerar os jogos difíceis. Àquela época eu acreditava que crianças mais novas não eram capazes de vencer em determinados jogos, coisa qual descobri pouco tempo depois ser pura bobagem. Uma sirene soou e os jogos todos foram pausados imediatamente. Havia cerca de quinze crianças e eu. Cogitei ser uma criança sem ter me notado assim, confesso, mas não me recordo agora como, mas não sinto como se a minha idade pesasse no ambiente. Parecia, no entanto, somente um daqueles adultos tidos como estranhos, tão deslocados em uma festa que se dispunham a jogar videogame com as crianças. É preciso alimentar simpatia para com quem opta pela honestidade e pelos jogos. A sirene produzia um barulho escandaloso que impeliria pessoas comuns a taparem os ouvidos, mas não foi o que fizemos. Estendemos as palmas das mãos, como quem aguarda um pedaço de pão ou algum tipo de recompensa e, permanecemos calados. Sujeitos altos trajados com uma vestimenta que lembrava uma roupa de astronauta entraram e utilizaram aparelhos que faziam grandes bipes para medir nossas temperaturas. Quando chegou a minha vez, o aparelho reagiu e emitiu um bipado diferente, um bipado que soava como um alerta de perigo. Os astronautas todas entraram em desespero, mas não perderam a organização no Modus Operandi. Aos gritos de isolem as crianças, deixem só o contaminado, traga a outra máquina, eu observei estático o alarde que faziam sobre a minha vida. Não me mexi. Dois astronautas trouxeram uma máquina mais pesada e a posicionaram diante de mim. Ainda estava imóvel. Quando ligaram a máquina, um ruído insistente, chato, iniciou-se. O zumbido durou apenas alguns instantes. Um dos astronautas deu um passo para frente, repousou sua mão enluvada no meu ombro esquerdo e disse: era alarme falso. Você não está com o vírus.

           Andei com rapidez por uma galeria e quando me dei conta, eu estava já em um shopping. Enfurecido com o resultado falso positivo do teste e a acusação da minha irreal contaminação, eu abandonei as outras crianças com os videogames. Tomei uma pequena xícara de café expresso e resmunguei sobre pagar o que havia pago, assim, eu reconheci que, no mínimo, eu deveria ter me negado esta oportunidade. Distraí-me com o pensamento inútil sobre a verdadeira natureza da liberdade. Esta consistiria em ceder aos impulsos ou controlá-los? Deitei, logo na sequência, minhas preocupações todas para algo mais afastado da subjetividade, também me sentia sem paciência para discutir a metafísica, assim, quando a atendente me perguntou sobre a secura do tempo, ganhou de brinde o meu sorriso mais largo e sincero. Eu a chamei pelo nome, ela enrubesceu e, eu sorri mais uma vez antes de me despedir.

            Mal havia me virado para sair do Café do Ponto e, quase trompei com uma vendedora. Eu a conhecia, provavelmente, na realidade, confesso me perder aqui e agora na sinceridade deste tópico. Eu a conhecia? Não importa, mas ela agia como se me conhecesse. Quando alguém te chama pelo nome, sabe de todas as usas necessidades e te guia com um toque suave nas mãos, você aceita de bom grado o passeio, ainda que o item qual ela queira te vender seja a última coisa qual você realmente queira comprar. Foi assim que uma vez me vi na cidade de Brasília com óculos-escuros novos, ou seja, é preciso tomar cuidado com gente muito decidida. A vendedora da vez disse, nesta ocasião, que sabia exatamente o que eu precisava. Descemos para o primeiro piso do shopping e ela olhava para trás, de minutos em minutos, conferindo se eu ainda estava a segui-la.

            – Para falar de assuntos assim, somente em lugares sérios, Guilherme.

            – Como você sabe o meu nome?

            – Ora, nestes dias, que vendedora que se preze não conhece o cliente?

            – Está bem. Onde vamos?

            – Chegamos. Este é o lugar ideal para a nossa conversa. – Quando me dei conta, estávamos subindo a escada rolante que fora feita para pessoas descerem. A minha perplexidade deve ter ficado nítida no rosto, porém ela disfarçou com maestria o exagero da reação. Exagero? Perguntei-me e respondi, claro que não, afinal, eu estava andando e ela também, ambos os dois sem sair do lugar.

            – Uma escada rolante?

            – Não se prende nos detalhes não importantes, meu bom homem.

            – Certo, isso está estranho, mas suponho que não seja o fim do mundo. Posso me concentrar em andar e falar com você, mas teremos problemas se alguém resolver descer.

            – Ninguém vai descer, Guilherme. Vamos falar da minha razão de estar aqui?

            – Graças a Deus! Eu estou curioso a respeito disso faz alguns minutos.

           – Então sua curiosidade dura pouco já que está me seguindo faz algumas horas, Guilherme. – Ela sorriu um sorriso de boneca e senti um calafrio. – As maquiagens, Guilherme, separei as que melhor se encaixam como presente para aquela sua amiga.

            – É mesmo?

            – Ou era para sua namorada?

            – Não me lembro ao certo.

           – Você disse que uma tal de Francisca estava muito interessada em maquiagens para mulheres negras. Você quer ver os produtos?

            – Quero.

            – Diga lá, Guilherme. Sua namorada é negra? – Meditei sobre a minha resposta. Não, Francisca não era uma mulher negra, mas estava fazendo pesquisas para o trabalho de conclusão de curso que questionavam e explicavam a ausência destes produtos e o que deveria ser feito por algumas marcas para que essa lacuna fosse suprida. Em países como os Estados Unidos, mulheres negras não encontravam tantos problemas com isso, mas no Brasil, por exemplo, era quase impossível que uma mulher negra encontrasse uma maquiagem adequada à coloração da pele.

            – Não… Na verdade, não.

            – Então você não pretende comprar comigo, Guilherme?

            – Bem, eu…

            – Diga-me agora o seu propósito. Estou aqui para lhe ajudar, como sempre.

            – Eu só tenho uma curiosidade legítima a respeito do assunto.

            – Ainda bem que me disse! Eu pensei que fosse me enrolar durante a tarde inteira. Eu sei suas respostas, Guilherme, sei da sua paixão por solidão, sei dos seus segredos e sei, sei mesmo até os produtos que você quer comprar e eu poderia te vender, mas se hoje estamos aqui por causa de uma curiosidade legítima, siga-me.

            A vendedora indicou para que eu descesse a escada rolante e foi o que eu fiz. Ela passou por mim e deu uma piscadinha. Chamou-me para segui-la e lá me vi atrás da mulher outra vez. Passamos por várias mesas de ponta cabeça em várias praças de alimentação. O visual lúgubre era comum aos que saíam tardes das sessões de cinema. Guilherme, outrora, estimulava a tradição sagrada de ir aos cinemas em todas as segundas. Os olhos marejaram e ele nem teve tempo de pensar sobre. Continua seguindo a mulher, que andava ligeira e os dois passaram por dezenas de lojas fechadas. Enfim, a vendedora entrou em uma loja e seguimos rumo ao estoque que estranhamente levava até a rua. Na saída para a sociedade, porém, havia arcos altos que surgiam do asfalto e diminuí o ritmo quando fui, vagarosamente, atravessando-os.

           – O que está acontecendo aqui?! – Tudo havia ficado mais obscuro. Algo sinistro pairava nas sombras, aguardando. A voz da vendedora respondeu fracamente de longe.

            – Você está no local que me pediu, Guilherme. Bem-vindo.

            – Que porra é essa?! O que você quer comigo?!

            Abri os olhos e vi a televisão do quarto. O filme A Viagem de Chihiro entrava nos seus últimos trinta minutos e eu me peguei suado na minha cama. Fechei os olhos como que para aceitar que eu estava sonhando e fui transportado de volta aos arcos. A voz novamente surgiu.

            – Vamos, Guilherme. Faça o que tem que fazer. Não era isso?!

            – Quem é você, vendedora?!

         – Quem é você, Guilherme?! – A pergunta o revirou e ele sentiu subitamente uma vontade de vomitar. Desta vez não era a voz da vendedora e sim a sua própria voz.

            – Quem é você, Guilherme?!

            Guilherme se sentou ao banco e sentiu que um monstro se levantava do chão. Tudo era incerto, tudo era irregular. Abriu os olhos e estava sentado na cama. Olhou para a televisão e agora ela estava apagada. Acendeu as luzes porque estava assustado. Acendeu as luzes porque, nesta noite, talvez não existisse um pedaço de escuridão que fosse saudável. Acendeu as luzes porque a pergunta ainda revirava e ele relutava, mas falhava em ter uma resposta concreta. Quem é você, Guilherme? Acendeu as luzes porque não sabia responder a uma simples pergunta.