Água Salgada

Improvável filho
de uma força invisível
que não faz questão de ficar
Eterno andarilho
Incansável
Anda e anda e anda
Percorre os trilhos e sabe
Nunca vai voltar
Aprendeu
Catástrofes nos engolem
e temos sorte se esbarramos
em alguém que nos devolva
na boca o gosto da Vida
Lágrimas escorrem de meus olhos
sinto o sal na ponta da língua
Carregamos o oceano no âmago
O mundo se perdeu
Escuto e ouço centenas se repetirem
O mundo se perdeu, mas eu não
Sou acometido por náuseas e vertigens
Não vou vomitar
O fim é só um começo deturpado
Derrotamos o que supomos
fadado a dar errado?
Silêncio, ronco do cachorro,
estrelas urbanas nas calçadas,
carros em alta velocidade,
batida, semáforos, acidentes
Vale a pena sentir o que se sente?
O instinto da coragem te ergue
É preciso seguir em frente
Filho do mar se aproxima
sente a areia nos pés
Filho do mar, não existe sina
Ganhamos e perdemos
apostando na nossa fé
Fecho os olhos e
a areia me afunda
Estou enlouquecendo ou
tudo está acabando?
Sinto muito pelos erros que cometi
A minha vida passou voando
Por anos tive tantas certezas
Tento desfazer meus enganos
As nuvens anunciam a tempestade
Relâmpagos fazem brilhar o céu
É noite já e estou sozinho na praia
Fecho meus olhos e apago, mas
não sei dizer se estou dormindo
Na grande solidão do término do mundo
No ocaso mais tenebroso e escuro
Eu estava luzindo
Uma grande onda chega
Afogando tudo
Cada sentimento
Cada memória
com água salgada
Grito o seu nome e você não escuta
Será que grita o meu também?
Nossa prole também não nos ouve
Os corpos são lançados
em diversas direções
Na língua o forte gosto do sal
Nós nunca nos lembramos
Nós nunca existimos
Nós somos apenas
água salgada.

Fica agora comigo?

Fica agora comigo?
Traz teu corpo pra cá
Diz que é a minha chama
que não espera o final de semana
E que quer a minha cama hoje
Diz que adora o meu sorriso
Admite que quer ficar comigo
sem medo do tempo e pavor da demora
Mente que eu sou seu paraíso
E se permita atrasar até esquecer das horas
Fica hoje comigo e viajaremos para a lua
Dentro do meu carro vagando pela rua
Orbitando outras galáxias
Desmistificando ancestrais falácias
Abandonando tudo por um certo desejo
Diz que não pode esperar mais
Que amanhã tanto faz
E precisa imediatamente
do gosto do meu beijo
Ignore a gravidade e deixe a cidade
Em outros sistemas solares
voaremos juntos
Esmagaremos todos
os péssimos assuntos
Flutuando pelo espaço fora da Terra
Diz que quer dividir comigo sua paz
O resto todo tanto faz
Mas diz que por mim inicia guerras
Diz que eu sou louco de propor
a minha vida inteira
às 21h30 de uma segunda-feira
Ignore os maus pressentimentos e o medo
Sei que trabalhamos amanhã cedo
E talvez eu tenha enlouquecido
Quero te sussurrar meus segredos
Alegrar o seu tão previsível enredo
E se acordado não te encontrar
Espero pelo menos te achar
enquanto estiver dormindo.

Chão gelado.

Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Abra os braços para a memória doce

As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer

Dedica teu amor aos que te cercam
Supera tua história de trauma, querida
Liberta-se na imaginação e depois na vida

Não se esquece de que o Tempo é o único algoz
Entretanto viva momento por momento
Essa vida que vivemos passa veloz
Passam até os grandes arrependimentos

Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Desliza os dedos pela aspereza

As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer

Não se esquece de quem te inflama
E por ti arde em desejos
Revira tua vida e tua cama
Clama sempre por teus beijos

Deita-te no chão gelado de pedra
Se esta vida é o teu lugar
A resposta é sempre uma sentença
Tudo bem se você então mudar

Deita-te no chão gelado de pedra
Observa as várias cores da torre de sempre
Acredita no infinito contando estrelas

Lembra-te que tudo um dia se encerra                    
Até a torre de sempre um dia some
bem como todas as certezas

E a Dor surge como um fio de escuridão
no meio de tantas lembranças felizes
Siga em frente com orgulho do coração
que sobrevive com tantas cicatrizes

Antes que tudo isso se acabe
Deita-te no chão gelado de pedra
E nunca se esqueça
As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer.

Dor no peito.

Madruga para ver o mar
Espera encontrar respostas
Quando ouve uma voz a sussurrar
no ouvido sobre uma antiga aposta

Oração insistente de marinheiro
Cada noite mais calejado e sofrido
Nunca hesita o velho timoneiro
Coração mais resistente que o vidro

Sua sorte é a descoberta da nova terra
Seu espírito livre nunca se encerra
Para tudo nessa vida se dá um jeito

Esteve em tantos lugares
E só nos mais selvagens mares
É que alivia sua eterna dor no peito.

Nunca mais saia de perto.

Pudera neste ínterim lúcido compreender
A diferença sutil dos diversos amores
Quisera neste íntegro ser surpreender
com o perfume adocicado das flores

Lumia repentinamente milhares
que jazem esquecidos na escuridão
Teus gestos simples são espetaculares
Tua presença fora de imaginação

Teu corpo me leva ao delírio
Teus olhos são o meu colírio
Personificação perfeita do meu desejo

Nunca mais saia de perto
Sem você o errado é certo
Cobre-me infinitamente de infinitos beijos.

Monólogo para um ouvinte calado

            Sonho que sou o inventor deste mundo e faço uma mistura questionável das conclusões que obtenho antes de acordar. Quando acordo, sinto-me estranho e o peso da realidade destoa do que me é costumeiro. Que se pesa mais no decorrer dos dias?

            Há este ponto confuso onde me vejo Perfeito e Imperfeito e a contraposição de ideias que me parecem impossíveis em coexistência certamente coexistem. Como alego ser Feliz e Triste? Como vou do Tudo ao Nada? Como penso apenas nos outros ou apenas em mim? Como admito ter encontrado a satisfação suprema e necessitar abrir mão disso por compreender, seja precipitado ou não, que o regozijo da calmaria me afasta de um Propósito tão grandiloquente? Você está me acompanhando aqui, senhor?

            Esqueço os propósitos, as missões e os anseios por coisas que julgo serem boas e, faço-me terreno, humano e mortal, como fingia não saber que sempre fui. Experimento a vituperação e o sabor amargo de uma realidade que não me é comum. Sofro por julgar que o sofrimento é a conclusão mais real da vida. Outra vez deito meus pensamentos para o Bem e o que é Bom, exatamente para essas coisas livres de vícios ou falsas virtudes. É possível alcançar isso senão em pensamentos? Que é que vejo quando fecho os olhos e não há mais o que ver?

            Que se convençam do que podem, eu me convenço da dureza das coisas e me puno com o que julgo errado. Se ajo errado, certo ou incerto, castigo-me por tempo indeterminado. Minhas punições podem durar eras quando eu sou o carrasco, mas tenho aprendido a perdoar rápido os outros. Deveria? Não há coisa que se deva nessa vida, há? Não sei. Creio que em situações de dúvida apostar no instinto seja a melhor opção. Ensaio uma despedida antecipada, mas em breve vou me despedir definitivamente. E daí se eu nunca mais voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem é que pode se preocupar realmente comigo?

            Não, estes não são os caminhos, embora seja difícil ver com clareza. O hedonismo é tão cego quanto a religião. Que prazeres recompensam uma vida sem recompensas? Que realidades compensam uma vida hipoteticamente sublime? Há necessidade de desejar algo assim tão distante e distinto? Compensaria optar pela Abstração?

Neste ínterim de insanidade, mergulha-se o peito num mundo-fundo vazio e me afogo em coisa nenhuma. Meus questionamentos não mudam. E daí se eu nunca voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem vai pular no oceano gélido para me resgatar se eu estiver afundando?

            Qual subjetividade humana te satisfaz, senhor? Qual te faz mais completo? A simplicidade? O entendimento limitado nos permite fixar raízes mais fundas em nossas relações interpessoais? A amálgama que faço de diversificados assuntos me assusta. Creio que parte de mim já tenha enlouquecido. Perdi meu senso de objetividade? Não sorrio e nem choro. Estático olho pela janela e vejo telhas, telhados e árvores. O céu vai mudando de cor e prevejo que a noite será incalculavelmente longa. Já esteve preso em uma dessas, senhor? Noites que duram meses ou até anos?

O que há para enxergar quando cai a noite? A luz da lua, o brilho das estrelas e as nuvens cinzas nas noites mais claras? Os olhos se acostumam com o céu noturno e me pego sentado perto da piscina que está esvaziada pela metade. Não é um caso de copo meio cheio, meio vazio. A piscina pela metade não faz sentido, entretanto, é a piscina que eu tenho na casa qual vivo. Se hoje a piscina é lar de novos seres, assim seja, brindamos às realidades quais podemos suportar! E se não pudermos suportar? Reticências, suspense, continuação sem continuidade. E daí se eu deitar na pedra e dormir? E daí se eu não acordar? E daí se eu nunca mais voltar?

            Não sei, confesso sempre ter me sentido bastante distanciado da sensação de inveja, mas olha-me, eu às vezes queria ter resoluções mais simples, exatamente como o senhor. As nuvens são nuvens, o céu é o céu e os animais precisam dos potes de ração cheios ou morrerão de fome. Os aviões são apenas aviões e tudo é apenas o que é, bem como, certamente por seus olhos certeiros, eu sou apenas o que sou. Se me perguntasse, porém, quem eu sou ou como sou, como poderia eu me explicar? Percebe a diferença de nossas maiores diferenças? Queria ver simples, ser simples, desejar simples. Queria ser sintetizado. Recente, te juro, senti Amor maiúsculo e quanto mais eu sentia, menos eu era quem eu era, pois não fui quem eu precisava ser antes de me encontrar com isso. Há hora errada para essas coisas todas? Amor maiúsculo cessa de sentir? Desta vez parece-me impossível. Perco-me nesta divagação confusa? Se eu te perguntasse quem você é, você riria e responderia “apenas eu”, resumindo a falta de necessidade da prolixidade em uma pergunta tão direta e boba. Desanuvio a mente e volto para a pergunta que me fiz agorinha. Há horas erradas?

            Se há hora errada, eu nunca me errei, mas ainda vou, pois todos se equivocam grande ou pequeno, estreito ou largo, ao longo da vida. Você sabe melhor do que eu, senhor, nossas estradas são apenas estradas, mais ou menos esburacadas, com mais ou menos acidentes, que importa? Fases feias que vão e vêm, vômito, vergonha, asco, raiva, tristeza, miséria, mas e daí? Alguns se erram jovens, outros velhos e ainda há os que erram jovens e também velhos. São estradas esburacadas e acidentadas simplesmente. Nota o poder da dualidade que há nelas? Abre-se a janela e a vida se significa em uma brisa dentro de um carro em alta velocidade. Perde-se do reflexo de motorista e a vida se encerra em uma batida violenta. A dualidade de tudo me apavora. Qualquer um pode me destruir. Eu posso destruir qualquer um. Ter consciência do poder é perigoso. Talvez a falta de consciência seja ainda mais aguda e fatal.  

Meu relato soa tão confuso, senhor, estranho que você ainda não tenha me pedido pausas, mas se está me compreendendo, vejo-me na obrigação de seguir. Prometo maneirar com meus tantos silogismos. Lágrimas? Gotículas repentinamente escorrem por meus olhos. É, sim, o sal do mar que habita os oceanos de nossa humanidade. Que é que há? Choro por não conseguir aplicar o descaso no descaso e sinto a minha prolixidade sentimental envenenar minha alma e minhas futuras escolhas. E daí se eu furar todas as minhas bolhas? E daí se eu optar pelo desconforto? E daí se vivo, eu às vezes sinto, como se estivesse morto? E daí se eu me machucar? E daí se eu partir e não voltar?

Venho dizendo em alta voz uma frase estranha, ouça bem, digo que todo mundo sangra igual, você também consegue perceber, senhor? Assim não se importe com o quanto me venho trôpego, o quanto pareço retalhado, faz-se necessário essa dureza de espírito e essa frigidez de não mudança para alcançar certas coisas tão incertas assim. Caí e quebrei. Agora, por ora, é a minha vez de ser um caco quebrado pontiagudo e pronto a ferir. Afaste-se, senhor, pois eu não te invejo, mas se me der escolha de prontidão, verá que eu te machuco sim. Não é o momento, senhor, mantenha-se longe, eu posso te fazer sangrar.

            Queria ver simples, eu disse, desejar simples, eu também disse, mas quando Deus ou eu mesmo, que inventei o mundo, vi-me diante desta hipótese, recusei-a. Explica-se aos outros o que nem completamente se entende para si? A vida se interrompe enquanto observo a gata se divertir preguiçosamente na janela. Ela não precisa de ninguém, mas busca ficar perto de mim, quando eu estou em casa. O companheirismo velado vale tanto quanto o barulhento, senhor? Dividir a estrada é possível, mesmo quieto, mesmo de tão longe? Nem todos os companheiros fazem alarde?

            Senhor, eu lhe disse antes, inveja não é a palavra certa, escute, você vê um avião e vê apenas um avião. Eu vejo a máquina terrível e majestosa que transporta pessoas ao redor do globo. Senhor, você dentro do avião apenas cochila sabendo que vai acordar no seu destino! Eu? Eu nem sei se o avião chegará e toda vez que me pego pensando em destinos finais, vejo-me em seguida em conjecturas sobre acasos, vidas e mortes. Você não olha para a janela, senhor e eu agora confesso que observo àquelas tantas cidades em miniaturas e àquelas luzes tão distantes que enchem meu peito de algo que não sei o que. Você sabe, senhor?

Eu inventei o mundo e queria contar um pouco sobre as coisas que descobri sobre todo o resto. Eu inventei o mundo ou será que apenas sonhei isso? Minha alma quiçá possui o mesmo tamanho da egrégora deste planeta? Perdi-me de novo, senhor, suplico que me desculpe. Confesso não me recordar mais da diferença entre sonho e realidade e nem do que realmente é e do que realmente não é. Esta dicotomia entre planos astrais e reais, este valor subjetivo qual etiquetamos a alma, tudo isso soa tão vago como os que imploram por clemência.

            Em termos gerais, escolho um caminho de sofrimento individual.

            Os começos, certo? Estou a começar pelas estranhas maneiras que agimos ou deixamos de agir, pelas manifestações tão absurdas e incoerentes e certeiras.

            É que essas coisas belas estão por aí e existem, olha, eu sinto que poderia falar sobre pelo menos uma delas o dia inteiro, veja, não é sobre conquistas, fracassos, dor, mira? É sobre ser e apenas ser, nesta tortuosidade má e insana que a gente carrega de vez em quando para com a visão do mundo, eu não me entendo, quando criei o mundo eu ainda era jovem e não percebi a desnecessidade de imprimir maldade nele? Entende sobre a maldade, senhor? Só sendo mal que se entende ela?

            Eu criei o mundo e fui derrotado pela melhor impressão que já encontrei. Soa hoje esquisito me ouvir falar disso? Escute bem, pois é com duas orelhas e dois olhos que mandei fazer essa gente toda e assim de carece de ter que confiar mais no que escuta e no que vê e é bom, realmente bom a gente tomar cuidado com o que fala, veja, outra noite tu também vais perceber que língua corta tanto quanto espada e minha mãe me falava isso sobre duas orelhas e dois olhos e agora já não sei qual de nós dois inventou essa confusão caótica de existência.

            Ainda está me escutando, senhor? Sustento a impressão certeira de que escutou pouco ou nada, mas tudo bem. Gente simples escuta pela metade ou nem escuta e sabe ser feliz com menos da metade que escuta e com menos da metade de coisas que todo mundo sonha em ter.

            Senhor, eu te juro, não é inveja que isso chama, não, nutro honesta admiração por ti e por toda essa sua maneira de ser, prática, obsequiosa, elegante, sim, senhor, todo homem simples é mais elegante e, veja, você não consegue ver as coisas como eu vejo e nem eu como você vê e deve ser bom nunca ter sonhado que inventou o mundo e nunca nem ter saído do quintal de casa e não passado frio muito longe daqui, meu caríssimo senhor e bem, eu não sei, mas você deve saber… Está farto deste monólogo, senhor? Pois percebi que é um ouvinte calado e fala pouco com a boca e muito com expressões, não estou certo? Seus olhos são comunicativos e me admiro com essa capacidade de transmitir ideias sem dizê-las. Eu não sei se sei o que sei, mas respeito a sua sabedoria, senhor e você deve saber muito mais que eu…

            Gente simples se basta exatamente com a vida que vive, mesmo que ocorram vários pormenores ao longo dela.

            Gente complicada igual eu, senhor, está sempre tentando mais, buscando fazer melhor, arriscando tudo… mesmo sem ter a certeza do que significa tudo, mesmo sem ter a certeza que esse tanto de riscos vale a pena.

            Você acha que vale, senhor?

Milagre

Surge como uma espécie única
Criatura rara que prova a existência divina
Comoção alegre, objetiva e insuspeita
Personificação de um milagre
formado por mil lágrimas
Aparece como quem estreia
em uma peça teatral gigantesca
Não treme, não hesita, não se perde
Uma estrela cadente com pernas e olhos
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Suas decisões são sempre puras,
ainda que tenha tomado algumas ruins
Destas feitas choro, lágrimas e violência
Aposta na resistência e com paciência sobrevive
Continua firme, pôr do sol púrpura,
Raposa lépida, selvagem e imprevisível
Ergue a cabeça, flor do asfalto,
pois você desabrochou bela na feiura do mundo
Venceu todos os obstáculos e andou nas brasas
sem sequer ter notado que eram tão quentes
As noites de chuva querem banhar seu corpo
e escorrer por sua pele lisa
Os ecos de memória clamam por você
Chamam exclusivamente seu nome
Continua firme, anja sensual
Lusco-fusco tardio em plena meia-noite,
Ergue a cabeça, sereia cósmica
Flutua pelo Espaço Sideral como se fosse o seu Mar,
pois você é maior que todos os oceanos somados
Inunda-se pela coragem solar do pensamento reto,
Signifique sua vida fitando o rosto de sua alma
Acalme-se e busque não compreender o que não precisa
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Sinta o que tiver de sentir e saiba
Essa dor é imensa e não há onde caiba,
porém você se expande e se aprimora e evolui
Cada dia mais ampla poderá então comportar tudo
Abarca em abraços ternos novos mundos
Continua firme, fantasma feliz
Sua prole ainda chega para alegrar o Universo
Ergue a cabeça, rainha do tabuleiro de xadrez,
Não esquece que metáforas jamais são esquecidas
e que certas coisas desafiam a lógica definida
Cuida da tua saúde e tinge vidas alheias
com essa capacidade singular de amar
Lembra do Sangue que flui em suas veias
E nunca deixa de lutar
Borboleta lendária que chega da floresta,
Segue tua jornada completamente leve
Muitos por aí te carregaram e ainda te carregam
O que você obviamente não percebe
Continua lumiando o breu profundo
de quem se sente absolutamente sozinho
Nos eventos mais iracundos, isola-se,
e se permite sofrer também baixinho
Ergue a cabeça, milagre ancestral
Você é a prova de que existe um sentido
profundamente oculto na Beleza e na Dor
Milagre das mil lágrimas que nasceu neste mundo
para provar a improbabilidade do Amor.


Otário

            Engana-se quem pensa que é impossível assaltar um otário logo pela manhã. A aurora favorecia os êxitos.

            João Miguel subiu na duna mais alta para observar atentamente os transeuntes, porém não parecia interessado neles, afinal, nem eram tantos assim. Seu ar era despreocupado e sua face não demonstrava a mínima intenção do que pretendia fazer. Seus olhos grandes e agudos encaravam o esverdeado mar de Cabo Frio. João sempre se convencia de que era um grande ator, embora ninguém nunca tivesse lhe dito isso especificamente, mas entender o que se passava em seus pensamentos era algo especialmente complicado, principalmente pelo fato de que agia costumeiramente por instinto e ignorava grandes reflexões. Passou a faca da mão destra para a canhota em gestos distraídos. Havia a utilizado o instrumento vezes demais para não saber como agir e reagir. Cada dia que passa chego mais cedo na praia. Não consigo mais ficar em casa. É claro que não consegue, seu otário, cale a boca, gringo. Vai fazer alguma coisa? Foi o que eu pensei. Cale a boca, otário. Isso… me obedeça. É melhor chegar cedo do que tarde. Deus ajuda quem cedo madruga, mas está muito cedo. Não sei se adianta chegar aqui tão cedo. Não sei se…

João olhou para o relógio que marcava 5h57 e refletiu que os cidadãos com jornadas ordinárias de trabalho geralmente começavam às sete ou sete e meia ou até mesmo às oito horas no período matutino. Era justo categorizar e estereotipar ladrões como indivíduos que queriam uma vida fácil se alguns deles se levantavam antes de todo o resto? João riu e se lembrou de não mostrar muito os dentes. Sua presença era discreta, mas seu sorriso era perfeito e brilhante, luzia, assim, sorrir era um gesto impossível. A mãe e a irmã com os dentes tortos e amarelados se enraiveciam pelo que parecia ser um capricho de Deus para o filho caçula que nunca havia ido ao dentista. Os olhares atentos continuavam sua função e em movimentos lestos, João acompanhava a movimentação pela areia. Definitivamente os velhos com suas panças redondas e seus peitorais grisalhos e cabeludos eram predominantes em quantidade àquele horário na praia. Muitos iam na direção da Praia do Forte, quase todos, na realidade e, apenas uns pouquíssimos percorriam o sentido contrário. João estimava que uma centena de idosos já tivesse percorrido a praia logo cedo, quase todos homens, bom, as mulheres estavam certas, eram alvos relativamente mais fáceis e deveria caminhar pelo calçadão onde se avistava viaturas da polícia com notável periodicidade. Elas podem reagir, você bem sabe, quase se fodeu por causa disso, você sabe, é melhor não tentar fazer tudo o que você vê os outros fazendo, otário, você não passa de um otário, mereceu o chifre que levou, otário, segure a onda, o problema é que você é frouxo, cuidado, tome cuidado, não, você só precisa ser um pouco mais vingativo, sim, mais resoluto e duro e irritadiço. Cada dia que passa chego mais cedo na praia… estou pensando muito. Desse jeito vou ficar com dor de cabeça. Preciso parar de pensar.  

Outra vez o relógio: 6h25. Um grupo de mulheres passa e mais alguns velhos em seguida. João reflete que Cabo Frio é realmente uma cidade de aposentados e não fosse pelo mar, a cidade certamente cheiraria a naftalina, pelo menos em baixa temporada. Obviamente em alta temporada qualquer cidade atulhada de gente cheira a suor e lixo. João sorri por alguns segundos, mas retoma o semblante sério com a aparição de seu alvo. Um homem jovem com o celular na mão, erro de principiante, um típico otário dando mole. Guarda a faca no bolso e deixa as mãos segurarem a alça da mochila. Sempre leva uma mochila para o caso de furtar algum objeto grande, mas há só uma garrafa d’água dentro dela. João nunca se planeja e a mãe costuma lhe dizer que isso é um erro grave e que será sua grande ruína, mas com uma espécie de birra insistente na cabeça, João desliza pela duna de areia e desce subitamente, sem pensar, sem se preparar e apenas improvisa no que pretende ser outro assalto.

– Oi. – João diz e posiciona o corpo de uma maneira que dificulte a reação de fuga do homem. Será que ele é desses que foge ou que encara?

– Oi. – Resposta seca. Não é um bom sinal. Já está desconfiando das minhas intenções. Talvez eu devesse ter sacado a faca antes.

– Meu nome é Davi e o seu? – A desconfiança cresce. João pressente que será mais trabalhoso do que pensara. Não conseguiu reparar tão bem no modelo do celular. A tentativa de furto com a possibilidade de confronto vale mesmo o risco? O rapaz é mais alto e musculoso que ele.

– Victor. – Isso não vai nada bem. Tenho que resolver isso logo. Já consegui muito tempo sem que um idoso aparecesse.

– Você é daqui, Victor?

– Sou.

– Daqui mesmo? Daqui?

– Daqui mesmo. Moro perto daqueles prédios ali, viu? – João não se virou. Victor não parecia ser o cara mais inteligente do mundo, na verdade, tinha uma cara de otário e estava sendo mais perspicaz do que João supunha que poderia ao apontar uma direção. O celular qual segurava descuidadamente instantes antes agora estava longe do alcance das mãos de João. O ladrão estava travado. – Davi, com licença, mas eu não tenho o hábito de parar minhas corridas matinais para tagarelar com estranhos e eu nunca te vi na vida. Vou nessa! – O sujeito correu atrás de um desses atletas idosos que passava no mesmo momento. Se fosse tentar algo no desespero também teria que lidar com o velho.

– Peraí! Vamos conversar um pouquinho! – Disse, mas a voz perdeu a força com surpreendente velocidade e o homem foi diminuindo conforme se afastava para partes distantes da praia.

João Miguel retoma seu posto após escalar outra vez a duna. Havia tempos que uma tentativa de furto não se revelava tão destrambelhada. O homem era alto e parecia capaz de revidar ou perseguir, mas se ele tivesse descido com a faca na mão a história seria outra. Por que diabos havia hesitado? O problema não estava na vítima e sim nele. Os pensamentos falavam mais alto do que nunca e João já não conseguia se evitar. As tantas noites anteriores vinham com um lembrete de susto e as imagens eram vívidas. A mãe espanca a filha porque acha que o comportamento dela é indecente. Ela pensa que a filha é uma vagabunda desde pegou o namorado argentino dela se masturbando espiando a garota na porta do quarto. A culpa não podia ser do namorado, mas podia ser da irmã. João tenta inflamar a irmã com a mesma raiva que sente, sugere que saiam de casa, a irmã dá de ombros, diz que Pablo já a espiona há anos e não há o que fazer e, além do mais, a mãe está velha e é melhor não comprar briga, João cerra os punhos como se fosse socar alguém ou alguma coisa, sente uma raiva latente da própria irmã, mas quer mesmo matar Pablo, João provoca novamente a irmã e ela dá de ombros, larga disso seu garoto otário, agora João desconfia de que a irmã e o argentino tenham relações sexuais, João pergunta para a irmã se ela e Pablo compartilham de alguma intimidade, ela manda ele ir tomar no cu, João insiste de maneira truculenta, ela revela que namora Hugo, João pergunta se Hugo não era o melhor amigo gay, se ele fosse gay não me comia, João fica em silêncio e perde a animosidade, mas pergunta o que ela esconde sobre Pablo, a irmã manda João ir pra casa do caralho, a mãe escuta a gritaria e chega xingando a garota, pois sente raiva dela, João não aguenta mais tanto barulho…

João Miguel restabelece agora sua conexão com a realidade. Odeia quando pensamentos insistentes surgem na cabeça e não o deixam. Sabe que faria qualquer coisa para não pensar. Odeia a irmã. Era sua pessoa favorita no mundo e agora não passa de uma vagabunda que dá para o argentino escroto e para o namorado viadinho. Odeia a mãe. Espanca a irmã gratuitamente só por acreditar que ela dá trela para o gringo fudido e vagabundo. Uma vez a mãe deformou a face da irmã de tanta pancada. Odeia Pablo acima de tudo e de todos. Sabe que o argentino espanca a mãe quando chega bêbado. O desgraçado do argentino já bateu nele também. Na irmã não bate, mas possui intenções secretas. Pablo é mais robusto, mais imponente e se comporta como se não tivesse medo de morrer. A próxima vítima surge diante de seus olhos.

Ela é mais atenta que o primeiro rapaz qual abordara para assaltar, mas desta vez ele vai descer logo com a faca e vai pegar o que precisa e ir para casa. Não, talvez não vá para casa. Em casa eles estarão lá, todos os três, talvez mais gente, em casa eles vão me perseguir e me machucar e ninguém liga para os meus esforços e nem dá a mínima pra minha vida, não. João escorrega pela areia e desliza pela duna. Ninguém dá a mínima pra mim, duas vagabundas e um argentino brocha filho da puta, não, eu ainda chego com o que furto com o meu esforço e tenho que comprar comida pra todo mundo, foda-se, cambada de idiota, eu vou alugar meu canto e não ter que pensar em ninguém batendo em ninguém, vou arrumar uma namorada e… João continua seu avanço na direção da mulher. As namoradas que eu tive me traíram, é porque você não passa de um otário, não, não se pode confiar em mulher, minha mãe mesmo não confia na filha dela e talvez esteja certa, se ela tá dando pro gringo imagino pra quem mais ela não tá dando, não se pode confiar em mulher e agora aquele cara lá quer dizer que é meu pai, argentino filho da puta, meu pai sumiu quando eu nem me lembro, ninguém mais pode ser meu pai, ele nunca vai voltar, não se pode confiar nos pais também e nem nos homens, os homens são ainda menos confiáveis que as mulheres, droga, o que foi, seu otário? Cale-se! Eu tenho que fazer tudo sozinho e é isso, João para diante da mulher, ninguém me valoriza, ninguém é confiável, ninguém se importa e parece que ninguém liga para a minha vida, eu não tenho alguém que realmente me ame, eu, para agora, para de pensar, não grita, porra, eu odeio esse argentino cuzão, eu espero que ele morra e quero que minha mãe pague por espancar a minha irmãzinha de graça e quero que uma bomba, cala boca, para de pensar, eu quero que minha irmã fuja com o melhor amigo gay dela e morra com a bomba, ninguém nessa vida vale a pena, para, furta o que tem que furtar e vai pra casa, olha a cara dela, para de gritar, parou de gritar, ela não tá entendendo, fala alguma coisa, fala, vai dividir a recompensa com sua mãe, fala alguma coisa, o argentino viado tá de olho no que você trouxe, parou de gritar, caralho, não trava duas vezes no mesmo dia, não…

– Isso é um assalto! Calminha… Passa já suas coisas que eu não vou te machucar, eu prometo. – Nenhuma resposta. Você pensa que pode me ignorar? – Eu disse que isso é um assalto! Entrega suas coisas, puta! – Nenhuma resposta. João começa a sacodir vigorosamente o corpo da mulher e só então percebe que está deitado acima da cintura dela e os dois estão na areia da praia. O branco suave da praia tingido de escarlate e as ondas empurrando e puxando uma quantidade impressionante de sangue. João ainda se movimenta e nem percebe que está molhado por sangue e sal. Ele ainda desfere facadas sem nem perceber que está com a arma na mão. Os pensamentos não o alcançam e ele continua com uma facada após a outra. O braço ameaça travar e ele cai resignado acima do corpo morto da mulher.

Engana-se quem pensa que é impossível ser preso por assassinato na metade da manhã de uma quinta-feira.

O relógio marcava 8h12 e o rapaz João já estava algemado dentro de uma viatura policial. Não estava comovido com o assassinato ou desesperado com a prisão, mas as vozes que ecoavam no fundo de sua mente faziam com que ele tivesse vontade de se matar. Crianças cantavam em uníssono.

Otário, bundão,

não serve nem pra ser ladrão

Otário, bundão,

Partindo pra prisão,

Otário, cuzão,

Dentro do camburão,

Otário, imbecil

Até o argentino riu

Otário…

Otário.

Problemática

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática.

Uma criatura hedionda, sinistra, completamente vil, fita-me no escuro. Não sei dizer se ela é maligna, pois o tipo de tortura que me impõe é apenas verbal. Sussurra nomes antigos e evoca meus fracassos e traumas. O sorriso matreiro brinca em sua face e, às vezes, eu posso jurar que ela é uma espécie de contraparte minha, meu doppelgänger ou qualquer coisa que o valha. Quando estou muito ansioso a criatura parece adquirir mais poder, assim, devaneio com o meu reflexo no espelho do banheiro, penso que ele me lança olhadelas malignas e provocadoras, suponho que ele vá me puxar para dentro e sugar a minha vida e minha alma. Este vazio escuro me cerca e me consome, zomba das minhas decisões e chama o meu nome, eu reconheço a voz distinta e distante, é estranho, mas eu sei que essa noite alguém vai tentar me afogar.

Sobrevivo um pouco mais, eu aprendi a nadar há anos, quando ainda não passava de uma criança chorona. Recordo-me das aulas de natação nas quais eu era o único aluno que não trapaceava nas idas e voltas que a professora exigia. Todos tinham uma vontade urgente em anunciarem a tarefa como finalizada. A criatura alta ainda me fita e eu me torno soturno. Sinto o peso de milhões de dores que deveriam ser alheias e carrego o cansaço desta vida e de outras. Sou equiparado aos réprobos e ninguém me defende. Sou chamado de patético e ninguém me entende. Uma força medonha e invisível se insinua e eu recuo dois passos. A criatura continua prostrada perto da cama. Se há um Diabo, ele dança diante de meus olhos. Se este é o Deus único, certamente ele não é bondoso. Se abro os olhos não vejo nada na escuridão. Se fecho os olhos sinto meu corpo todo tiritar e os meus gritos são sufocados. Emudeço e sinto medo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me afundar.

Sob meus pés lama ou uma espécie de areia movediça, entretanto, passo ante passo, eu sigo firmemente e não me deixo ser sugado e nem provocado pelo que me atiça. Escrevo versos e conquisto minutos valiosos. Desejo viver. Perto dos finais cada segundo conta o dobro. Agora parece que minha vida significa algo, pelo menos por um instante. Escrevo para criar um interlúdio entre a realidade e o medo. Ouço perguntas milenares e impulsos solares me respondem que ainda é muito cedo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar acabar comigo.

Brilho raro na escuridão. Memórias de pessoas que me inspiram e iluminam meu caminho ressurgem. Queimo como o sol e o relógio marca meia-noite, eu sei, ergo-me em improbabilidades tão certeiras que dificilmente me creem. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me destruir e desconfio de quem seja.

Fito a criatura e me fito também, recito Incenso fosse Música, “isso de querer ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”. Pisco meus olhos e seco o choro. Outra crise de ansiedade e me concentro no que existe ao redor e escuto o ronco do cachorro. Não serei vencido tão facilmente por coisas assim. Como posso parar se ainda existem todos os sonhos do mundo em mim? A poetisa estava certa, o nosso maior medo não é o de sermos inadequados e sim o de sermos poderosos além da conta. Eu sei que essa noite a minha contraparte tentará me convencer de que eu não sou capaz de fazer coisas quais tenho certeza de que sou capaz. Intuo que o negrume da madrugada soará assustador, porém como um vaga-lume vou piscar e lumiar discretamente. Afastarei o breu para quem quer apenas seguir em frente.

Brilho raro na escuridão da existência para quem com paciência busca o seu lugar. A absoluta consciência de quem sabe que precisa se encontrar. Coragem e insistência para quem nasceu para iluminar.

Toda noite sofro com a mesma problemática, mas me descobri capaz de resolvê-la. Agora quando fecho meus olhos só me recordo do inigualável brilho das estrelas.

Eu sei que essa noite alguém vai tentar destruir a minha vida e sei também que vai falhar. Eu sei que muitos falarão sobre minhas ações, mas ninguém vai ser direto e me perguntar. Eu sei que já avisei quem me interessa que não sou feito de aço. Anunciei que ontem mesmo quase tive um colapso.

Eu sei que muita gente sabe de muita coisa e eu não sei de nada. Sei que parece fácil, mas será longa essa madrugada. A criatura vil voltará e sentirei a apoteose de meu abandono. A criatura violenta voltará buscando sangue e será difícil permanecer por uma hora em meu sono.

Toda noite sofro com a mesma problemática, porém aprendi a esperá-la com calma. Uma boa dose de meditação, instantes lúcidos de orgulho do próprio coração e a insistência no que alimenta minha alma.

Eu sei que essa noite alguém tentará me matar, mas eu não vou morrer. Sei que tudo se repetirá, mas eu só preciso aguentar um dia por vez.

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática. Um dia isso passa…

Tanto fez, tanto faz.

Tanto fez, tanto faz
A beleza é relativa
Menos às vezes é mais
O que é belo também se finda

Por quês e por quais
Síntese profética de sina
Transformo tudo em sinais
ou simplesmente em rimas

Cresci bem e cresci forte
Porém ainda temo o escuro
Por onde passo faço minha sorte
Sentimos falta do seu barulho

Ouvi isso mais de uma vez
A insistência das palavras
Tanto faz, tanto fez
Mas o silêncio dessa casa

É que quando você some
Tudo parece esperar por você
O cachorro faz greve de fome
A gata chega a adoecer

É que mesmo quando você sai
Nem tudo você leva
O que fica nos distrai
No sapato a velha pedra

É que a vida agora me chama
para bem longe daqui
Vou atrás do que a alma clama
É o que devo a mim

Tanto fez, tanto faz
É hora de partir
Desta vez não volto atrás
É tempo de luzir.

Tanto faz, tanto fez
Adiante com o cansaço
Era uma vez minha existência
no meu próprio tempo-espaço.