Problemática

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática.

Uma criatura hedionda, sinistra, completamente vil, fita-me no escuro. Não sei dizer se ela é maligna, pois o tipo de tortura que me impõe é apenas verbal. Sussurra nomes antigos e evoca meus fracassos e traumas. O sorriso matreiro brinca em sua face e, às vezes, eu posso jurar que ela é uma espécie de contraparte minha, meu doppelgänger ou qualquer coisa que o valha. Quando estou muito ansioso a criatura parece adquirir mais poder, assim, devaneio com o meu reflexo no espelho do banheiro, penso que ele me lança olhadelas malignas e provocadoras, suponho que ele vá me puxar para dentro e sugar a minha vida e minha alma. Este vazio escuro me cerca e me consome, zomba das minhas decisões e chama o meu nome, eu reconheço a voz distinta e distante, é estranho, mas eu sei que essa noite alguém vai tentar me afogar.

Sobrevivo um pouco mais, eu aprendi a nadar há anos, quando ainda não passava de uma criança chorona. Recordo-me das aulas de natação nas quais eu era o único aluno que não trapaceava nas idas e voltas que a professora exigia. Todos tinham uma vontade urgente em anunciarem a tarefa como finalizada. A criatura alta ainda me fita e eu me torno soturno. Sinto o peso de milhões de dores que deveriam ser alheias e carrego o cansaço desta vida e de outras. Sou equiparado aos réprobos e ninguém me defende. Sou chamado de patético e ninguém me entende. Uma força medonha e invisível se insinua e eu recuo dois passos. A criatura continua prostrada perto da cama. Se há um Diabo, ele dança diante de meus olhos. Se este é o Deus único, certamente ele não é bondoso. Se abro os olhos não vejo nada na escuridão. Se fecho os olhos sinto meu corpo todo tiritar e os meus gritos são sufocados. Emudeço e sinto medo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me afundar.

Sob meus pés lama ou uma espécie de areia movediça, entretanto, passo ante passo, eu sigo firmemente e não me deixo ser sugado e nem provocado pelo que me atiça. Escrevo versos e conquisto minutos valiosos. Desejo viver. Perto dos finais cada segundo conta o dobro. Agora parece que minha vida significa algo, pelo menos por um instante. Escrevo para criar um interlúdio entre a realidade e o medo. Ouço perguntas milenares e impulsos solares me respondem que ainda é muito cedo. Eu sei que essa noite alguém vai tentar acabar comigo.

Brilho raro na escuridão. Memórias de pessoas que me inspiram e iluminam meu caminho ressurgem. Queimo como o sol e o relógio marca meia-noite, eu sei, ergo-me em improbabilidades tão certeiras que dificilmente me creem. Eu sei que essa noite alguém vai tentar me destruir e desconfio de quem seja.

Fito a criatura e me fito também, recito Incenso fosse Música, “isso de querer ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”. Pisco meus olhos e seco o choro. Outra crise de ansiedade e me concentro no que existe ao redor e escuto o ronco do cachorro. Não serei vencido tão facilmente por coisas assim. Como posso parar se ainda existem todos os sonhos do mundo em mim? A poetisa estava certa, o nosso maior medo não é o de sermos inadequados e sim o de sermos poderosos além da conta. Eu sei que essa noite a minha contraparte tentará me convencer de que eu não sou capaz de fazer coisas quais tenho certeza de que sou capaz. Intuo que o negrume da madrugada soará assustador, porém como um vaga-lume vou piscar e lumiar discretamente. Afastarei o breu para quem quer apenas seguir em frente.

Brilho raro na escuridão da existência para quem com paciência busca o seu lugar. A absoluta consciência de quem sabe que precisa se encontrar. Coragem e insistência para quem nasceu para iluminar.

Toda noite sofro com a mesma problemática, mas me descobri capaz de resolvê-la. Agora quando fecho meus olhos só me recordo do inigualável brilho das estrelas.

Eu sei que essa noite alguém vai tentar destruir a minha vida e sei também que vai falhar. Eu sei que muitos falarão sobre minhas ações, mas ninguém vai ser direto e me perguntar. Eu sei que já avisei quem me interessa que não sou feito de aço. Anunciei que ontem mesmo quase tive um colapso.

Eu sei que muita gente sabe de muita coisa e eu não sei de nada. Sei que parece fácil, mas será longa essa madrugada. A criatura vil voltará e sentirei a apoteose de meu abandono. A criatura violenta voltará buscando sangue e será difícil permanecer por uma hora em meu sono.

Toda noite sofro com a mesma problemática, porém aprendi a esperá-la com calma. Uma boa dose de meditação, instantes lúcidos de orgulho do próprio coração e a insistência no que alimenta minha alma.

Eu sei que essa noite alguém tentará me matar, mas eu não vou morrer. Sei que tudo se repetirá, mas eu só preciso aguentar um dia por vez.

Toda noite antes de dormir sofro com a mesma problemática. Um dia isso passa…

Eu não escrevi essa crônica

Eu,

Eu não escrevi essa crônica. Esses casos românticos acumulados e deixados para trás em um boteco com o cinzeiro cheio de bitucas não são meus.

Eu não escrevi essa crônica. Eu não estava com quatro amigos babacas em um bar em setembro de 2017 praguejando sobre as injustiças da vida e muito menos injustiçando quem não tinha nada a ver com o meu praguejar.

Eu não escrevi essa crônica. Eu não fiquei bêbado e vomitei no chão do banheiro e lavei tudo depois enquanto escutava Gigantes do Samba.

Eu não escrevi essa crônica. Eu nunca me arrependi de nada e todos os que se arrependem são fracos. Eu fiz o que quis e Carpe Diem na bunda desses tantos otários.

Eu não escrevi essa crônica e não preciso aguentar o peso do seu julgamento e nem o fervor da sua carência.

Eu não escrevi essa crônica e não sou responsável por essa sua sensibilidade e muito menos por sua falsa decência. O que você quer de mim?

Eu não escrevi essa crônica, pois vá reclamar com o filho da puta do autor que escreveu essas histórias sombrias e tocou nos seus pontos fracos, entretanto, eu sugiro que tome mais cuidado para não se ferir com os seus próprios cacos.

Eu não escrevi crônica nenhuma e muito menos usei a palavra “suma” para pedir ou exigir algo de alguém. Eu não me escondi na bruma e nem mesmo lembro se você fuma, mas sei que posso viver sem.

Sem você e sem essa crônica que eu nunca escrevi e que você insiste em me dizer que eu escrevi, pois o lapso da sua memória se confunde com a extravagância dos seus pensamentos mais vis e inúteis. Queria dizer que não, mas estaria mentindo, eu tenho sim paciência para inutilidades, mas não para as suas e nem para esse papo torto de crônica, cônica, catatônica e nem para essa sua consciência inconsciente e esse discurso todo desesperador.

Eu não escrevi essa crônica, mas você insiste em me culpar pela sua dor.

Olha, meu bem, entenda que há coisas que entendemos e coisas que não entendemos e que Deus, se Deus existe ele faz o mesmo juízo de nós, bons, maus, ricos, pobres, altos, baixos, o mesmo juízo, eu disse, sim, se não fizesse juízo igual ou parecido uns morreriam e outros não, mas, enfim, no fim todos morremos. Percebe a beleza disso? Prolongamentos? Não os merecemos.

E não sei ainda qual a razão de que alguns crescem ruins e que traem e que ferem e que se aprazem das vilezas, mas me mantenho firme em acreditar no que meus olhos enxergam como beleza.

Imagino-me caminhando sozinho e falando em japonês com japoneses. Ainda tenho uma estrada longa pela frente, mas quem sabe essa isso ainda não ocorra? E talvez para os lados de lá eu escreva crônicas minhas, entretanto, ressalto que essa última não é de minha autoria.

Eu não escrevi essa crônica. Eu não apago o pouco brilho da escuridão que vejo no mundo. Eu sou aquele que desconsidera a forma e vê o conteúdo.

Eu não escrevi essa crônica e por isso tenho o direito e o dever de me irritar. Eu não escrevi essa crônica e por isso resolvi digitar.

Para você.

Mas a outra crônica não é minha. Só me traduzi através dessas últimas palavras. Afiadas? Eu sou assim, borboleta, eu sou assim mariposa, é, é que eu sou assim, meio relâmpago no céu antes da chuva.

Você acha mesmo que eu escreveria uma crônica vil baseada na minha experiência? Eu que não feri uma pessoa. Espere. Você quer saber se nunca fiz algo de errado?

Uma vez eu vi uma senhora cega quase ser atropelada no trânsito. Eu respirei fundo para correr, mas minhas pernas não se moveram. Eu gritei com a minha mente e não saí do lugar. Tentei rezar, mas havia esquecido como se fazia uma oração. Subiu uma vontade de vomitar e o ritmo do meu coração enlouqueceu.

Alguém salvou a velha, mas não fui eu. Não é falta do heroísmo que me pune, mas sim a consciência de que naquela vez congelei. Nunca mais quero congelar e dali em diante me arrisquei aos heroísmos mesmo quando eu era mal compreendido e detestado. Nem sempre haverá alguém para salvar a velha, mas se outro jovem congelar com a cena, eu espero poder fazer o que naquele dia não fiz.

Essa história curta eu mesmo vivi, mas a crônica maldita e suja, não, ela não é minha. Se fosse, eu teria vergonha, mas admitiria.

Li a crônica do outro e tentei transcrevê-la. Bobagem! Como se eu pudesse sentir de longe! Como se eu pudesse compreender os que tanto escondem… Mas os segredos? Onde essas pessoas insistem em guardá-los? Guardam por vergonha, amor ou apego? Guardam por orgulho ou medo? Quem se priva de falar algo o reserva em um espaço especial secretamente cuidado e mantido? Quem se priva de enfrentar alimenta o que deveria ser esquecido?

Há alguma coisa que realmente mereça ser apagada para sempre? Talvez você tenha um pensamento pontual e viperino, algo secretamente venenoso ou escancarado e ferino, quem sabe, felino? Os segredos marcam os rostos e envelhecem suas peles. Costumamos orar pelos mortos, mas pelos vivos há quem vele?

As crônicas não são minhas, mas aqui me pego em devaneios existencialistas e solitários sobre segredos e me lembro do autor Patrick Rothfuss e de Teccam no Temor do Sábio. Sobre os segredos:

A maioria deles é da boca. Boatos compartilhados e pequenos escândalos sussurrados. Há segredos que se anseiam por se largar no mundo. Um segredo da boca é como uma pedra na bota. No começo, mal se tem consciência dela. Depois, torna-se irritante e, mais tarde, intolerável. Os segredos da boca vão crescendo à medida que são guardados, inchando até pressionar os lábios. Lutam para se soltar.

Os segredos do coração são diferentes. São privados e dolorosos e não há nada que se deseje mais do que escondê-los do mundo. Eles não inflam nem pressionam a boca. Vivem no coração e, quanto mais são guardados, mais pesados se tornam.

Diz Teccam que é melhor ter a boca cheia de veneno do que um segredo no coração. Qualquer idiota é capaz de cuspir veneno, diz ele, mas nós guardamos esses tesouros dolorosos. Engolimos em seco todos os dias para contê-los, empurrando-os para baixo, para nossas entranhas mais recônditas. Lá eles permanecem, ganhando peso, supurando. Com o tempo, não há como deixarem de esmagar o coração que os contém.”

Como foi que cheguei até essa parte? Como alguém transforma uma crônica sombria em arte? Eu honestamente não sei. Tudo bem para você não saber?

Não planto ideias maliciosas e tampouco sou malicioso, admito, entretanto, que a minha honestidade é própria ideia tolhida e não sutilmente implementada. Se é necessário lidar comigo, que seja da maneira crua. Que olhem para mim como outro cara qualquer passeando pelas ruas.

Ainda vale a pena sonhar com alguma coisa e acreditar em algo? Sinto-me cansado, mas talvez eu precise cumprir com outras obrigações. Vou tomar um banho gelado e pensar nos meus próprios problemas e soluções. Ainda há tempo para passar mais raiva hoje. O que será que você vai fazer?

Eu honestamente espero que se divirta e que apenas dessa vez não gaste o seu tempo em me ler.

Nota: eu não escrevi essa crônica.
Essa crônica foi escrita por: insira aqui qualquer nome que não seja o meu.

Ainda me pergunto o que o cara que escreveu diria na carta-crônica.

Ele apenas havia começado com…

Eu,

O que estaria para dizer?

Eu amo você ou
Eu sinto sua falta ou
Eu odeio você ou
Eu nunca mais apareço ou
Eu nem me lembro mais?

Não sei o que ele ia escrever, mas sei que ia e assim se encerra minha parte neste texto dualístico e confuso. Preciso descansar a minha cabeça ou vou entrar em parafuso, principalmente porque ainda necessito da raiva nessa noite de agosto.

Desgosto. Eu sei de mim, mas não sei dele… A única coisa que sei é que…

Eu.