Madrugada Antiga

Sofrimentos que cegam
Sentimentos que chegam de longe
Insisto na minha entrega
Você insiste em se manter distante

Fingiu para continuar
Continuei supondo que tu parasse de fingir
Você zomba, pois sabe que eu vou voltar
Acha que nunca irei partir

E me vitupera
Como frágil flor de primavera
É aí que erra
Não sou mais quem eu era

Eu avisei naquele silêncio
ensurdecedor da última madrugada
Se um dia eu me for
Não espere que eu volte para casa

Cai a noite.

Cai a noite.

Tiro a areia da louça, passo rodo no xixi da gata, lavo o cão com a bucha. O dia foi aceitável, certamente produtivo, mas não pude me livrar da bagunça. Escovo os dentes com o creme de barbear e amaldiçoo o miserável que teve a ideia de fazer os dois produtos com o mesmo aspecto, afinal, quem é que quer ler o que está escrito em uma pasta de dentes?

Revolvo-me para pensar, mas havia já pensado antes de revolver e a hipótese contemplativa que existe no exercício de olhar para dentro desaparece quando só vejo o que existe fora.

Tiro a areia do cachorro, lavo a gata com a bucha, passo o rodo na louça. Entretido com as catástrofes da minha desatenção, presto-me ao serviço inútil de me olhar sem realmente me ver. Gasto o meu tempo sem fazer nada prestativo. Procuro palavras para me ofender, mas não são proporcionais os adjetivos.

Revolvo-me, assim, repentinamente, pois imagino que seja o modo mais fácil de conseguir. As facilidades sempre escoam por entre os meus dedos, desfazem-se repentinamente centenas de segredos e o principal deles é sobre o meu fracasso. Falhei em tudo e nem mesmo o meu conhecimento sobre o conteúdo remove de mim o nariz de palhaço.

Este espetáculo circense parece infinito. É necessário que me ridicularizem para que eu tenha acesso ao meu lado mais bonito? Faço a barba só com uma lâmina velha e água gelada. O sangue que caiu na pia não significa nada. O talho no meu pescoço me traz de volta ao meu próprio corpo. Estou dividido e separado. Calado transmito minha mensagem para grandes públicos. Lento nos primeiros atos, eu contra-ataco de súbito.

Acerto o café e o bebo calmamente. A vida faz sentido, mesmo quando a gente se sente dormente. Hoje eu não me perdoaria acaso tivesse errado o café, e, cônscio deste fato, eu não me falhei. Desconfio de tudo, exceto das coisas que amo e amei.

Olho ao redor e constato: venci o dia.

Tiro a areia da gata, passo rodo no xixi do cão e lavo a louça com a bucha. O canino ronca deitado ao lado da geladeira. A gata dorme o seu sono leve perto do filtro de água. Lavo a louça como se deve e espero entrar no meu próprio estado soporífero. Escovo os dentes com a pasta de dentes. Guardo o creme de barbear. Deito-me na cama nova com travesseiros novos.

Cai a noite
e eu caio no sono.

Neblina Espessa

Essa neblina espessa, veja, eu sinto que posso tocá-la. Ontem senti sua falta pelos quatro cantos da nova casa. Esta casa atual é muito maior do que a outra, mas às vezes sinto saudades de quem eu era. Estranho, eu sei, como quem quer forçar o inverno em plena primavera. Inadequado, eu sei também, tal qual vestir uma antiga roupa que já não cabe mais, mas a gente possui essa estranha mania de querer o que se quer, não é? E às vezes aposta muito nos outros e pouquíssimo na nossa própria fé. Roupas ultrapassadas, apertadas, antigas. Talvez seja melhor doá-las. Memórias desgastadas e coisas esquecidas, esculpidas relativamente, desejos de fantasmas que estão mortos, mas ainda sentem, o apelo desesperado para que a alma seja notada. Você consegue perceber a sutileza deste sentir? Você consegue sentir falta de quem se foi, respirar com calma, perceber que está tudo bem e sorrir?

Essa neblina espessa, eu sinto que posso tocá-la. A fumaça cansada lançou seu manto sobre a cidade e eu não vejo nada aqui desta sala.

Recordo-me das noites incomparavelmente melancólicas nas quais nunca houve outro ser humano que fosse mais triste do que eu. Recordo-me da voz de Lord Huron falando sobre fantasmas, prazos, fins e tudo aquilo que eu perdia, mas que hoje nem sei se me pertenceu.

A janela anunciava luzes e a cidade piscava convidativa. Esta noite qualquer apelo do corpo para lembrar a alma de que ela ainda está viva.

A janela de novo e minhas epifanias. Nestes vislumbres notei que a vista não era apenas feita de melancolia. Às vezes reparava em alguém que cruzava a rua durante a metade do dia. Mãe e filha de mãos dadas caminhando distraidamente até a igreja, o trabalhador em obras com a camisa suada e pensando em todas as suas despesas ou até mesmo eu de longe, distante da figura que tanto aprenderia a conhecer no futuro. Na janela de mim, observo-me passear com o cão Link pelas esquinas que serão esquecidas. Ele caga, eu recolho as fezes. O mundo seria melhor se todos nós fossem dispostos em recolher as fezes? Acumulo de revezes.

Acordo e vou até outra janela. Bom, eu confesso com uma infelicidade resignada que acordei 5h15 para esperar o nascer do sol. É o meu último dia neste prédio e ontem a noite havia decidido que não perderia essa chance. Quando temos a rara consciência do momento exato de nossas despedidas, podemos ser mais dedicados em torná-las especiais.

Os prédios não falam ou pelo menos eu nunca pude ouvi-los. Acordei cedo, mas ainda antes a neblina havia os engolido. Procurei uma caneta pela casa e não a encontrei. A angústia cresceu em meu coração subitamente. Precisava rabiscar sangue no papel. Esfreguei a ponta da caneta. Havia acabado o sangue. Usei a minha própria tinta para começar o texto até que percebi que não havia mais. Os dedos gelados agressivamente começaram a bater nos teclados e eu já não conseguia parar.

A janela continua perfeita, mas o céu se fez difícil na minha despedida. Talvez eu não mereça hoje essa melhor vista. A neblina e as nuvens esconderam completamente o céu, mas insisto nesta minha fé cega ou na pesquisa científica para acalmar meus nervos e repetir devagar em um intervalo de respiração. O sol aparece amanhã de manhã.

Sinto um calafrio que percorre toda minha pele. Sou quente e feito de emoção, batida rápida de coração e não há invernia que me gele.

Dominado pelo cansaço sinto um frio que ocupa todos os meus espaços e fecho meus olhos tendo a esperança de dormir. Abro os olhos e encaro meu erro crasso, é o dia final para a mudança, eu preciso correr e sair daqui.

Crônica de Segunda

Sinto uma espécie de preguiça que se alterna em raiva e lamúria. Queria dizer coisas bonitas, mas começo a minha crônica em fúria. Respiro fundo e desacelero o mundo sempre acelerado. A vida vai acontecendo, mas a letargia dos sentidos me faz pensar que não tenho feito o suficiente, que certamente não tenho sido bom o bastante.

Os que me conhecem o suficiente sabem me ler, mas quanto me conhecem tão bem? Quase ninguém. De repente noto que talvez não saibam o que fazer com a informação que adquirem na leitura dos meus gestos. Será que apenas não se importam? Bebo uma xícara de café e tento enfrentar o dia que se anuncia. O desemprego ainda me assombra e sinto uma vontade desesperada de trabalhar. O que é que devo fazer com o meu tempo quando não há sequer sinal de misericórdia da vida que se debruça sobre nós?

Sacudo os lençóis e vejo uma discreta nuvem de poeira. Prendo a respiração, mas não adianta. Tenho uma crise alérgica do mesmo jeito e agora sei que só vou parar de espirrar daqui a duas horas. Amanhã é o dia da mudança ou terça ou quarta. Eu quero sair logo daqui, mas vou sentir saudades deste apartamento e deste quarto e desta janela. Será que minha gata e meu cachorro vão se acostumar? Viver nos surpreende a cada momento e quando de ausências me entupo é que me sinto verdadeiramente farto. Do que sinto saudades, afinal?

Olho de longe os ingênuos e os imbecis. Os primeiros acreditam em todos os amores, todas as alegrias, todos os sonhos. Os segundos creem que podem levar uma vida de enganações, de armações, de cenas e isso sem nunca cair do cavalo. E eu sou o ridículo por escrever romances, contos e poemas. Sou eu que eles querem ver escoando pelo ralo.

A ridicularização dos outros nunca para e devo insistir em acreditar em mim. Querem nos impor uma vida normal, logo ali, a camisa pesada entorta o varal e eu sei que deve ser assim. Resisto ao vento.

Vigia de marfim do choro silencioso em uma madrugada discreta. Há quem toque profundamente nossas feridas secretas?

A prolixidade me faz continuar, ainda que eu não saiba bem para onde seguir. Às vezes queria estar na praia, no passado, no futuro e até em Paris. O passado é suave, mas está onde deve estar. Tiro de pistola na cara das lembranças. Não volte, não me incomode, não implore. Uma epifania me acomete e sei que estou exatamente no tempo qual devo habitar.

Lá em cima uma estrela despenca. É só a morte do brilho ou a chance de um desejo?

Almoço placidamente e assisto alguma coisa na TV. Lancho placidamente e tento olhar para a direção qual ninguém quer ver. Pessoas que se evitam e nunca se combatem às vezes me assustam. Como encorajá-las se preferem fingir que não há problema?

A cena se reinventa e eu sigo meu dia sozinho. Escrevo para me gastar, sinto que preciso me cansar e não quero deixar nada no caminho. Meus bichos me dedicam hoje o amor que tanto preciso. E bebo mais uma xícara de café, pois é o que me faz suspirar e oferecer meu sorriso.

Outrora muito elogiaram meu sorriso por aí. Nos bares, nas esquinas e nas palavras de gente que talvez eu devesse me lembrar, mas só me recordo de que esqueci. Alongo meu corpo e faço trinta, noventa, duzentas e cinquenta flexões. Quem dera o exercício físico fosse o suficiente para me livrar das alucinações.

E escrevo assim como bebo café. Preciso e gosto e gosto de precisar.

Qualquer conto acontece e muda o panorama dos dias atuais. O livro que a gente agora entende no instante seguinte não entende mais. E quem não se valha geralmente falha e se esforça em compensar para nunca deixar de surpreender. É na leveza que reside a verdadeira beleza e todos seus caminhos sempre te levam de volta até você.

Escuto minhas palavras e percebo que estou falando comigo. Já é segunda-feira e chega o fim da tarde e ainda agora eu jurei que era domingo. Estou preso em algum lugar sem acesso? Precisarei do Guia para avançar com sucesso? Neblina. Observo-me sem me ver, pois dificilmente tenho conseguido enxergar muito em frente. Às vezes este mundo vil pesa nas minhas costas, mas não desisto de ser diferente.

Quatro horas da tarde é a hora da sexta refeição do dia. Um pedaço de bolo, uma fatia de pão integral com manteiga de amendoim, uma maçã mais gostosa do que bela e outra xícara de café. Meus dedos se sentem apaixonados pelo teclado e ensaio meu único tipo de fé.

Em alguns dias algumas coisas acontecerão e honestamente não sei o que se sucederá. Espero o livro de contos vendidos, o extermínio do Corona Vírus, um abraço nos amigos e assistir jogos de futebol sentado no sofá. Agradeço por quem me ampara quando o mundo me balança e me lança ao chão. Agradeço por quem se separa para dividir o fardo deste meu coração.

E há notícias maravilhosas que me fazem ter um respingo de otimismo, além do lançamento do livro. Daqui uns meses meu sobrinho chega por aqui e o nome dele vai ser Rodrigo.

Sinto meu corpo se impelir, o dia é ruim, mas vale a pena continuar. Carrego grandes ambições e sei que não posso falhar.

Decidi que não falharei.

Crônica de segunda-feira, 06 de julho de 2020.

O fogo

O fogo queimou
minhas vísceras e
meu peito
Inflamei
do início ao fim
O beijo mais doce
repentinamente
Amargurou
a minha vida
E tudo o que se destinou
subitamente ruiu
A dor cruzou fugaz
Voraz
Carro em alta velocidade
avançando pela cidade
Batendo na primeira esquina
Avenidas
Ilusão boba é crer
que o verdadeiro amor
É o que vive por um fio
Que fio segura
duas pessoas
que querem
se esquecer?
Que mãos unem
E depois alumiam
as sombras do que
era um dever?
O fogo é estável e denso
Não possui duração ou idade
Hoje acordei propenso
Intenso, porém, os que me leem
Escolhem sua interpretação
Ambiguidade
Que se faz quando
tudo o que se faz
soa inútil para quem
você quer se provar?
Que jornada nos faz ir Além
sem sequer sair do lugar?
O que está escrito
em tinta é definitivo
Certas jornadas nunca
nos pertencerão.

Nove x Segunda

Nove vezes segunda
Digo e espero mudanças
A rua continua imunda
Eu sigo sem esperanças
O mundo vai mal
Tudo fica mais vexatório
Agonizamos até o final
em nossos próprios velórios
Nove vezes segunda
Repito sem qualquer apreço
Nunca sei o que dizer
A gente apenas se afunda
Isso não é o que eu mereço
Preciso me entender
Nove horas da segunda-feira
Esta especialmente feia e eu
Já sorvi minha quarta xícara de café
Minha alma aventureira devaneia
com a solidão que me permeia em outro continente
Um longo passeio a pé
Nove vezes segunda
Nada mais será como antes
Troque galhos, mantenha raízes
Um dia especial na Barra Funda
Passados e ontens tão distantes
Outra vez seremos felizes
E por nove vezes nesta manhã
Juro quase ter desistido sem tentar
Por nove vezes segurei minhas pontas
E mantive a cabeça no lugar
Tudo parece vil e infante
neste instante, porém,
Vou Além, pois sei,
A vida vai melhorar.

Poesia é nada e também é tudo

Poesia é nada e também é tudo 
É exposição do corpo sem alma 
Da forma sem conteúdo 

Ao mesmo tempo é isso junto,
avesso e também separado 
A poesia falha em fazer sentido 
por ser apenas expressão natural 
Poesia é sorriso de um amigo 
Jantar na noite de natal 
Poesia é esperteza ligeira 

de quem sabe valorizar o que têm 
É a delicadeza da pureza 
Canto dos pássaros
Barulho de trem
É silêncio ensurdecedor que fere
Gota de orvalho evaporando na pele

Poesia é palavra apoteótica forte
Capaz de falar sobre morte 
Esvanecer todos os medos seus 
É vislumbre de sorte 
Poder para você
ser seu próprio Deus

Poesia é tatuagem feita sem precisar significado
para significar

Poesia é arte abstrata,
profunda ou rasa 

Tela em branco
Quadro fora de lugar 

Poesia é o jeito
que você me olha toda vez que me encontra

É o jeito que você ri
quando eu te chamo de tonta

É qualquer coisa bela,
mas também vulgar 

É cinza, é aquarela,
É qualquer jeito de amar.

Antevisão e Cansaço de Fim de Mundo

Estava meio trôpego, instável, qualquer um poderia notar. Um instante era o bastante para se lembrar do que houve antes e simplesmente deitar e chorar. Se choro, pergunto-me, a razão das lágrimas. Se me demoro, é por entender tanto de lástimas. Se ainda estou parado há de ser por não ter virado a página.

Qual máquina metafórica reside dentro de mim? Que é que me traz ao paladar este gosto de fim? Deve existir um parafuso solto, uma engrenagem torta ou qualquer funcionalidade mecânica quebradiça. É que às vezes vou seguir e sinto que volto, algo me corta e os meus pelos se eriçam. Estático, prostro-me feito bicho selvagem. Enfático, aguento o peso da abordagem. Crescido como sou, eu nunca sou quem agride, mas a vida me tornou alguém pronto para o revide.

Batalha de egos travada no vale do fim do mundo. O sujeito está equivocado, porém, faz da falsa razão o seu escudo. Como se mede o alcance do orgulho? Provou seu ponto, mas perdeu a argumentação, como se não fosse o suficiente, foi em frente e promoveu a retaliação.

Copiosa marcha para o mistério da morte no vale das sombras. Afrontosa arrogância em baixa, vitupério proferido por esporte, é melhor que se cale nas caminhadas longas. Que tenho tão insistente que tanto me incomoda se não tomo boas ações? Que espécie de regente me vejo nos reinos dos sonhos translúcidos repletos de emoções?

Há pessoas no deserto. Não sou mais esperto que elas. Há pessoas congelando de frio sem cama, teto ou janelas. Não sou mais miserável que elas também. Há pessoas sendo assassinadas. Quanto é que me perseguem? Certamente jamais me atacaram por causa da minha cor de pele.

Shakespeare acreditava que o problema dos homens era a inconstância. A minha aposta é que o cerne das catástrofes seja a arrogância. Fosse eu mais feliz em sonhos, abandonaria o plano físico para dormir e hibernaria durante o inverno. Seguissem os dias enfadonhos e após a invernia transformaria meu descanso temporário em eterno.

Cansaço de fim de mundo. Sorri, embora meu coração chorasse, antevendo a minha despedida de tudo. Vejo-me de fora, revolvo para dentro. A vida é agora, embora, quase todos se percam do presente momento.

Crônica Pregressa #4

22 minutos

Não há comoção que me demova e nem desconforto que me mova. Sou o que costumo dizer, mas, evito falar para que possa viver sem ter a pressão das minhas próprias palavras em mim. Sou sério e cético, geralmente. Creio, porém, nas humanidades mais desumanas e nos sentimentos alheios e invariavelmente afetados, como o amor. É impressionante o que se faz em nome de uma emoção, principalmente quando você batiza o sentimento com um nome. Você pronuncia o nome, o rosto se vira em sua direção e ali há o universo. Você repete o nome numa despretensiosa e chuvosa manhã de sábado qual acorda antes e observa o amor dormindo tão pacificamente ao seu lado. Lá fora chove, mas dentro o silêncio é adequado. De repente você sorri, pois descobre que o amor também ronca. A memória de uma lembrança perfeita se vai, pois perfeição não há e nem existe continuidade que continue suficientemente. O relógio é inimigo. Tudo se desfaz lentamente.

A narrativa se quebra e as reviravoltas da vida te atingem. Você recomeça, mas nunca mais ousa a batizar alguém com o nome do sentimento. Há agora uma quantidade impressionante de cicatrizes antigas, todas as rugas de cansaço, todos os receios tão sutilmente invasivos flutuando pelo espaço. Você sabe que tudo está visível para quem enxerga bem. Há ali o resto do que ainda não se foi, mas discretamente também persiste a sombra do que um dia foi amor. Eu que olho e vejo, percebo-a como algo tão inútil, mas dou de ombros por saber que não há ali nada de errado. Todos somos insistentes no que já deveria estar ultrapassado. Sou especialista em gente, principalmente em pessoas amargas e gargalho sonoramente de quem cria personagens fictícios para se representar numa realidade que parece insuficiente. Confesso que rio deles, pois às vezes me pego nesta identificação recíproca. Ser um não basta. Queremos nos fragmentar para que exista uma chance mínima de que alguém compreenda nossas completudes. Somos seres vastos, raramente magnânimos, mas quando inundados por uma coragem súbita, buscamos imediatamente o que faz palpitar mais rápido o coração.  

Quando eu era novo, eu apenas agia ou deixava de agir. Nunca havia tempo para o pensamento demasiado e qualquer distração se preenchia de maneira suficientemente confortável. Quando a dor ocasionada pela solidão era exagerada, isolava-me em outros mundos. Fechava portais quais nunca deveriam ter existido em reinos distantes, vertendo-me numa utopia na qual eu personificava a coragem infinita do próprio menino que carregava a chave do reino dos corações. Gostava da poesia de sentir que as coisas estavam próximas, mas incrivelmente distantes. Não me cumpri em ideais, mas idealisticamente me tornei incomparável. Fiquei mais velho e mais sério. O trabalho dignifica o homem, mas o desgasta. Envelhecer dói e há ressentimento para com o relógio, principalmente quando sentimos que a vida está mais rápida ou lenta do que deveria. Captamos a distância entre nossas oscilações e compreendemos nossos ritmos, mas não existem mais ações impensadas (não completamente). Sabemos e temos a segurança do conhecimento, entretanto, às vezes escolhemos o escuro e a ignorância. Quando novo eu, não raramente, derramava-me por hábito. Não havia caixas guardadas em um porão secreto com coisas não ditas àqueles que se revelaram menos amigos do que supus que seriam; dos amores que não amaram; das pessoas que compraram a ilusão de que seriam amadas por mim e se decepcionaram. Não havia preocupação com quem se transformasse em cinzas no meio de meus tantos fogos cruzados e manias inequivocamente equivocadas, mas ao mesmo tempo tão singularmente minhas. Evito hoje o rastro de destruição por onde passo, mas talvez o faça mais por conta de meu próprio cansaço. Conservo minhas excentricidades de outros tempos e as novas, mas não sou mais qualquer príncipe de melhores horas. Meço sucessos e fracassos sem ter a menor preocupação em diferenciá-los. O que se parece às vezes é igual. Tudo termina de modo semelhante para os que se cumprem e para os que falham.
Metáfora prolongada do brilho das estrelas. Outra vez calei minhas palavras com a impressão de que deveria dizê-las.

Pensei numa frase extremamente romântica, mas escolhi o silêncio, pois à época achei melhor não dizê-la. Quem sabe o receio tenha me afastado do brilho espetacular das estrelas. Como aprendi em quase um ano sobre mãos, sorrisos, bocas e gestos. Como entendi que quase ninguém me apreciaria por me derramar do meu jeito honesto. Bebi para perder o rumo, quando senti que o rumo era muito certo e quando não havia rumo, solidarizei-me com estranhos desconhecidos que sempre andam preguiçosamente em círculos sem saber para onde vão. Quando não havia ninguém, eu amei vultos que encontrei pelo caminho. Era preferível a ilusão do que crer em uma jornada feita por um homem sozinho. No Distrito Federal andava mais vagarosamente até o meu quarto de hotel e esperava que uma das tantas portas escancarasse de súbito um destino novo pra mim. Nada nunca acontece, exceto internamente. A imaginação inata é o nosso maior escudo contra a realidade, mas por vezes com certa crueldade deforma e piora o que já nos ataca. Um vacilo ao coração e repentinamente você se mata.

Mas olha… Tenho cinco minutos para terminar o texto e não sei o que devo escrever. Mas olha, eu queria te dar uma dica, mas nenhum conselho se fixa. Não sei o que vou fazer. Olha como a vida muda e as pessoas insubstituíveis somem e outras aparecem e você se acostuma. Olha como fica a saudade daquela memória embaçada na densa bruma. 

Tive 22 minutos para dizer algo precioso, mas falhei. Observei a minha família e fui feliz. Comi pizzas e fui feliz. Na minha boca, porém, gostaria de sentir outros sabores nos quais se reinventam vidas e renascem esperanças em amores… Queria acreditar que… Que entender a razão de… Queria querer menos do que quero ou queria querer diferente do que espero. Posso ser feliz de outros jeitos, eu sei, mas ainda não assimilei tanto assim como. Tenho um comichão que me faz estremecer. Queria ter um amigo para conversar, mas hoje é daqueles dias que todos desapareceram. Bebo água sozinho. Bebo vinho sozinho. Logo mais beberei cappuccino (também sozinho) e vou dormir com o meu cachorro. Eu morri hoje, mas amanhã eu não morro.