Cai a noite.

Cai a noite.

Tiro a areia da louça, passo rodo no xixi da gata, lavo o cão com a bucha. O dia foi aceitável, certamente produtivo, mas não pude me livrar da bagunça. Escovo os dentes com o creme de barbear e amaldiçoo o miserável que teve a ideia de fazer os dois produtos com o mesmo aspecto, afinal, quem é que quer ler o que está escrito em uma pasta de dentes?

Revolvo-me para pensar, mas havia já pensado antes de revolver e a hipótese contemplativa que existe no exercício de olhar para dentro desaparece quando só vejo o que existe fora.

Tiro a areia do cachorro, lavo a gata com a bucha, passo o rodo na louça. Entretido com as catástrofes da minha desatenção, presto-me ao serviço inútil de me olhar sem realmente me ver. Gasto o meu tempo sem fazer nada prestativo. Procuro palavras para me ofender, mas não são proporcionais os adjetivos.

Revolvo-me, assim, repentinamente, pois imagino que seja o modo mais fácil de conseguir. As facilidades sempre escoam por entre os meus dedos, desfazem-se repentinamente centenas de segredos e o principal deles é sobre o meu fracasso. Falhei em tudo e nem mesmo o meu conhecimento sobre o conteúdo remove de mim o nariz de palhaço.

Este espetáculo circense parece infinito. É necessário que me ridicularizem para que eu tenha acesso ao meu lado mais bonito? Faço a barba só com uma lâmina velha e água gelada. O sangue que caiu na pia não significa nada. O talho no meu pescoço me traz de volta ao meu próprio corpo. Estou dividido e separado. Calado transmito minha mensagem para grandes públicos. Lento nos primeiros atos, eu contra-ataco de súbito.

Acerto o café e o bebo calmamente. A vida faz sentido, mesmo quando a gente se sente dormente. Hoje eu não me perdoaria acaso tivesse errado o café, e, cônscio deste fato, eu não me falhei. Desconfio de tudo, exceto das coisas que amo e amei.

Olho ao redor e constato: venci o dia.

Tiro a areia da gata, passo rodo no xixi do cão e lavo a louça com a bucha. O canino ronca deitado ao lado da geladeira. A gata dorme o seu sono leve perto do filtro de água. Lavo a louça como se deve e espero entrar no meu próprio estado soporífero. Escovo os dentes com a pasta de dentes. Guardo o creme de barbear. Deito-me na cama nova com travesseiros novos.

Cai a noite
e eu caio no sono.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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