Discreto.

Inicio uma conversa franca
Defronte a uma imensidão branca
Sentindo uma enorme sede

A dor qual ela banca
Quando sozinha no quarto se tranca
E se atira contra a rede

Cogita desistir
Reluta em admitir
Não vê saída

Não sabe o que sentir
Esqueceu de como sorrir
Perdeu-se de sua vida

Escute-me hoje, por favor,
A face febril está em rubor
Tire o rosto da parede

A fase passa e também a dor
Recupera sua alegria e sua cor
A Tristeza têm olhos verdes

Aposto no que me aquece
Finjo crer nas minhas preces
Celebro minha existência

Príncipe que não se esquece
Demônio que se oferece
Anjo sem paciência

Abro um compartimento secreto
utilizando frases em outros dialetos
que encontrei em grimórios antigos

Concentro-me em pessoas e objetos
Sozinho sou e permaneço discreto
A infinitude de um caso perdido.

Caso Perdido

Nasce a alegria em mim e não há lua no céu.

É estranho admitir que é possível ser feliz, apesar dos pesares. É engraçado sorrir e anuir que posso me manter afastados dos bares, ainda que o coração sempre nostálgico poetize o sofrimento gerado pela ausência. Ah! Quantas saudades!

Adotei um ritmo saudosista de vida. Aos domingos e às quintas olho fotos antigas e me lembro de outros tempos. Àquelas épocas me soam agora como memórias de outra encarnação e eu que não me importo com o que a maioria se importa, só gostaria que nem toda lembrança minha fosse esquecida.

Vivemos a tragédia inenarrável do esquecimento. Os mais jovens não fazem questão da recordação e os velhos percebem apenas em idade avançada que talvez seja um pouco tarde demais para assumirem decisões realmente sábias na vida.

O que eu chamo de decisão sábia?

Algo semelhante ao clichê universal de dedicar a vida para algum propósito que realmente legitime o sentido de sentir. É empenhar ânimo, alegria e coragem no que neste mundo te faz sorrir. É alcançar o estado sublime do que te faz bem, realmente bem. Eu escrevo livros e você?

Bom, isso não é sobre ignorar a parte necessária da vida, pelo contrário. O trabalho é absolutamente necessário tanto quanto o dinheiro que se ganha para sobrevivência. Valorizo o trabalho, mas quase nenhum trabalho nos força em nós mesmos, quase nenhum trabalho nos impulsa ao protagonismo.

O que eu chamo de protagonismo? É assumir decisões na vida, sejam elas sensatas ou não, cruéis ou não, mas que busquem, pelo menos na medida do possível, a honestidade. A verdade é mais importante que a coerência.

Há muitos Dorian Gray por aí e outras tantas Sybil Vane. Há tantos que abrem mão da própria vida numa ilusão enfraquecida de que só há vida na vida alheia. Sinto uma vontade de gargalhar, mas reconheço que empalideci. Gostaria de saber o que ia falar, mas suponho que esqueci.

Uma tristeza indefinível recai em meus ossos. Sinto o cansaço de milhares, talvez milhões e penso nos que passaram por isso antes que eu. Sim, os antecessores que me erguem nos dias bons agora me enxotam nos dias desgraçados.

O pescoço travado é o sinal de que há algo incerto? Bobagem! Vincular sinais físicos de fadiga ao emocional é pura suposição. Inventar-me em teoria não me explica e nem me define na prática. Quero uma pesquisa que me desmistifique, mas, por favor, que seja uma pesquisa fática.

Penso sobre os outros que não pensam sobre mim. Sobre insuficiências, sobre vida, objetivo, ambição, dinheiro, ganância. Penso sobre os que não pensam em mim. Já fiz inimigos sem saber que eles existiam e me pergunto se me derramei em algum excesso anuviado de vaidade ou se fui perseguido injustamente?

Sorrio e me sinto feliz. Penso sobre os outros e admito sentir certo conforto em minha solidão. Debruço-me na janela e aguardo pelos pássaros. Penso-os em inglês e em japonês. Pássaro, bird, tori, como você preferir chamá-lo, mas eles passaram em um enorme bando voando convictos buscando um abrigo para a noite.

Você já sentiu a convicção de um animal que sempre sabe o que faz?

Localizo-me no Universo e no meu quarto e na minha expansividade. Vejo-me só, solitário como quase sempre fui, sozinho como quase sempre serei, abandonado me senti, mas torci para não ser achado. Agora torço e realmente me pego com os olhos marejados quando confesso que procurei muitas coisas que sempre existiram dentro. Por quê compramos essa ilusão de que a felicidade só existe no mundo lá fora? O interno não aguenta tinta.

Busca vã que atravessa galáxias em busca de propósito. O meu, real ou sonhado, há anos soa bastante óbvio.

Luas, planetas, luares, galáxias, cometas, magia, reencontros, contos, febril, tonto, eu olhei o mundo com a maior sinceridade possível. Quase enlouqueci quando defronte às tragédias e quase achei que já havia visto o bastante quando vi a felicidade.

Então se lembre equivocadamente, mas se lembre. Deturpe algumas das memórias, mas não se esqueça dessas tantas histórias que criamos. Quanta coisa acontece em menos de um ano, vê?

Achados e perdidos, tesouros esquecidos, túneis secretos, barulhos discretos e silêncios milenares. Os eternos viajantes que vagam conhecem seus lugares?

Chamo a minha tristeza e ela não some. Abraço-a e a chamo pelo nome. Agora só eu posso lidar com essa Tristeza. A importância de personificar os sentimentos próprios ou apenas senti-los, o que fazemos, o que esquecemos, o que sempre está nos definindo.

Muita gente pensa sobre muitas coisas, mas você sabe sobre você. Muitas vezes sabe por antecipação até o que vão dizer. Foda-se a opinião alheia, você brada, mas sua força é na verdade fraca. O peso e a leveza; o lampião mais aceso é às vezes o primeiro que fraqueja.

Caminhada vespertina pela orla da praia. Não há nada aqui que distraia minha alma.

Creio, não sei com que intensidade, não crer em absolutamente coisa alguma. Creio, ainda que fira minha vaidade, ser um viajante perdido no reino dos sonhos e das densas brumas. Reconheço, não sei por qual razão, a minha incoerência e a minha incapacidade de ser sucinto. Vejo-me, oscilo, mas não minto.

A cachoeira dos desastres deságua em minha cabeça e me pego de joelhos. Sinto por vezes uma necessidade de estilhaçar todos os espelhos que existem neste mundo tão imenso. Choro ao me ver inútil, fútil e outra vez me perco em pensamentos.

A tristeza vai e vem.

A felicidade segue o mesmo ritmo também.

Discreto sofro a angústia sólida de ser quem eu sou. Guardo um recado secreto que desvenda tudo o que nesta vida é escravo do Amor.

Continuar, desistir, cantar, partir, ficar, esquecer, chorar, repetir, ver e escalar montanhas metafóricas como quem galga o trajeto correto até o segredo da existência.

Nesta madrugada me pego centrado e em seguida perdido, mas conservo minha paciência e peço para que os impacientes pacientes aguentem um pouco mais e insistam no caminho do bem.

Isso de querer ser quem se é ainda vai nos levar além.

Surge a lua no céu e a capto entre as folhas de uma árvore. Estou feliz. Sou feliz.

Discreto, enfim, sorrio e saio de cena. Meu coração vagante e vadio bate sem parar insistindo que a vida vale o preço da tinta e o peso da pena.

E choro, sorrio, esquento, esfrio. Torno-me Nada e Tudo. Desfaço-me da forma e do conteúdo. Sou Vazio e simultaneamente Preenchido.

Sou o que os céticos e sérios vão chamar sempre de…

Caso perdido.

Antecessores

Aos novos desafiantes se apresentam geralmente os velhos desafios. Quase todos se deparam com grandes problemáticas, dramas, questionamentos intelectuais, morais, emocionais e, creio que talvez se demorar em uma espécie de meditação nesta mutação de busca por um ponto de equilíbrio seja um grande desafio, entretanto, é provavelmente um daqueles passos gigantes que damos nas caminhas fundamentais.

Erro frases, erro palavras, perco-me do que torna meu texto nexual, sim, às vezes me perco e às vezes perco além da minha própria pessoa. Olho de fora como se fosse mesmo impossível me reconhecer por dentro. Há algo de errado? Não, não existe algo definido e por silogismos não me defino também. Acertei quando tive convicção dos meus equívocos e me peguei falhando quando estava presunçoso sobre o que não podia ser diferente do que eu imaginava. Sempre pode. Quantos antecessores quebraram a cara antes? Quantos tantos almejaram escrever livros e falharam? Quantos tantos almejaram escrever e sucederam? O resultado final importa?

É pelo que sintetiza a paixão e exulta o amor. É a coragem de viver e dar um novo passo, fazer algo realmente único e especial. Se nunca consegui, só nunca consegui até hoje e tenho uma vida como oportunidade.

Os outros realmente influenciam na extensão do meu sentimento?

Não deve ser assim. Temos pessoas que nos empurram e que nos puxam, mas dependendo da sua perspectiva, você pode enxergá-las de maneira invertida. Entregaria tudo por algo? Desistiria de tudo por um sonho? Morreria, antes da hora, acaso precisasse para que os seus ideais alcançassem após a morte algo que nunca alcançariam em vida? Quantos fizeram o mais difícil? Quantos hesitaram e falharam? Quantos hesitaram e venceram a hesitação? Como agiram aqueles tantos que estiveram por aqui antes? Quem é capaz de enxergar suas tantas nuances? Quem um dia vai ser capaz de determinar o seu alcance? Vá e vá longe.

A tremedeira nas mãos e nas pernas não é um sinal de desistência.

Quando me pego trêmulo pela ansiedade dos novos desafios, eu geralmente sorrio. É o que me coloca de volta em mim. Quando o meu coração se acelera e eu fico ofegante, eu sussurro para mim, para que essas batidas, esse tumdum tumdum apenas continue, para que eu possa continuar vivo. Quero viver e ter a consciência de que não tenho apenas sobrevivido. Quero ver o que sonho nas noites pelos dias estar cumprido. E realizar minhas coisas e viver minhas histórias, pois os contos nascem dos nossos corações estrelas. A última ambição do sonhador é uma recompensa que nunca poderá obtê-la?

Ainda assim, eu sonho do meu quarto. Destes meus tantos devaneios que cruzam essas incontáveis madrugadas nunca estou farto. Imagino-me, refaço-me, torno-me mais forte para conquistar meus objetivos. Talvez o mundo todo ainda se demore em olhar para o meu sorriso.

Na contracapa de um livro, numa revista conceitual ou até mesmo na televisão. Se aquele tumdum tumdum continuar, quem sabe onde vou parar, quem sabe o que vai ser do meu coração? Só que ele é forte e pressinto que vou sobreviver. Olho e creio que vejo, pergunto-me, quantos tantos aguentaram antes de você?

Tumdum-tumdum-tumdum. O mundo aguarda minha próxima investida.

Tumdum-tumdum-tumdum. Ainda tarda para a minha despedida.

Tumdum-tumdum-tumdum. Coragem. Abandone tudo o que te prende. É tempo de se arriscar.

Tumdum-tumdum-tumdum.

É a tradução do coração.

Você ainda pode continuar.

Siga em frente até o dia em que falhar.

Crônica Pregressa #5

Convite

Gata preta que traz boa sorte, arco-íris de chão. Eu peguei só a geladeira, a cama e o desgastado colchão. Segurei as mãos dela e me calei. Quando falo muito sempre digo pouco.

Não pretendia que as coisas fossem assim, mas é que de tanto pretender acabei perdendo o que acontecia bem diante de mim. Choveram estrelas na noite passada, você notou? Incontáveis, cadentes, repletas de pedidos, esperanças e milagres, mas igualmente incapazes diante da sombra da ideia do amor. Havia esmeraldas na escuridão, você as pegou? Soltei os fantasmas do porão. Algum deles te assustou? Tantos olhos embriagados vagaram pela madrugada buscando uma distração. Você pode dizer que achou?

Houve um boato na noite passada. Confessaram-me vários segredos, mas nenhum que me desse arrepios. A noite nublada também era enluarada e expunha tantos fatos e medos, mas só os solitários notaram os tantos espaços vazios. Onde é que você estava quando a dor se tornou tão pungente? Soprei a última luz de vela e encontrei uma bela fada endiabrada no momento em que se alimentava de uma estrela cadente. Quem é que não mente quando falta o que dizer? Quem é o que sente quando tenta não sentir o que quer esquecer?

Encontrei um velho amigo em sonhos e ele me olhou divertido e risonho. Fui feliz. Encontrei o primeiro beijo sentado em uma árvore derrubada, mas quando abri os olhos havia menos que nada. Fui feliz também. Sempre jogo apostando, exceto quando o assunto é amor. O que é que ganho ao deixar outros provarem meu sabor? Sou singular e o resto que se dane, pois estou me lavando agora. De vocês, dos sonhos, planos e das velharias. Vou dominar o idioma francês e abrir minha própria cafeteria. Batuco meu peito e pareço tão oco. Queria oferecer-lhe o Universo, mas esta noite sou tão pouco.

Sou feito da poeira mais pura. Todos os meus pensamentos belos e idiotas são feitos de matéria que perdura. Transformo-me em vidro e sou quebrado. Por que importa ser certo em um mundo que aprecia só o que se faz de errado? Estilhaço, quebro, espalho-me no chão. Quase ninguém toma cuidado e menos da metade de quem nota não evita um novo pisão. O que fazer se é tão frágil meu coração? Cuidado se resolver tentar a sorte e me remontar. Meus cacos são tão afiados que mesmo sem intenção posso machucar. Corte de gastos, orçamento, contabilidade. Falta-me a habilidade para desapegar dos sentimentos, mas construo aqui meus novos atos, sem vaidade, enfim, é o meu momento. Quando as estrelas despencaram como gotículas, os brilhos foram louvados e ninguém sentiu vontade de apagar o outro.

Gata branca de estrada, cachorro da mais bela alma, arco-íris de chão. Eu peguei só o pouco que tinha e lhe entreguei o meu coração. Não sabia como era o misterioso rosto dela, mas eram quentes suas pequenas mãos. Olhei para aquela chance de aventura morando em um ponto de interrogação. Sorri docilmente com meus olhos em chamas, mas de alguma forma ofereci também o mais confortável abrigo. Respirei fundo e perguntei a ela, para a incógnita dos dias que virão, você está disposta a partir comigo?

Refúgio

Ele se adianta e não consegue fugir.

Está
cansado
da
fuga.

Não sabe dizer quando parou de cair.

Será
mesmo
que
parou?

É que quando você passa muito tempo no chão corre o risco de se esquecer da diferença entre os patamares e os ângulos e todas essas perspectivas.

Ele
revolve
para
dentro
.

Há muito o que olhar. Às vezes sente como se a realidade alheia fosse irreal se comparada com a sua. De quando em quando, observa-se, contempla-se e se permite ficar em seu próprio quarto. O ambiente se torna o Universo e ele se torna o Deus daquele mundo tão particular.

Ele
pensa
melhor
sem camisa.

Assim tira a camiseta primeiro e a joga no chão. Colocá-la no cesto de roupas sujas é algo que pode esperar. Agora bebe água, cerveja, chá, suco e faz do ato de ingerir qualquer líquido uma distração. Distração para quê? Distração do quê?

Ele
pensa
em voz alta
Às vezes se
enraive com
quem não quer
buscar seus caminhos
Tantos preferem atalhos

Como explicar?

Ele liga o videogame e joga. Recorda-se dos primeiros anos e dos primeiros jogos e sorri. A sua infância tem um gosto doce e ele desce alegremente e sem se preocupar com a conveniência de pegar suas estradas para locais seguros. Está defronte ao Super Nintendo, ao Gameboy de tela verde, ao Playstation I. Os videogames o fazem feliz. A solidão o faz feliz. Ele olha com a atenção necessária os jogos, as pessoas e os espaços vazios. Observa a vida e a alegria. Cresce no peito do garoto uma vontade de ser maravilhoso.

O que
quer dizer com
ser maravilhoso?

Quem realmente sabe? Um dia o garoto apostará em si mesmo. Acreditará em sonhos, pessoas e amor. Acreditará nos exercícios físicos e na cafeína, nos contos, romances e rimas. Quem poderá desvendá-lo? Ninguém? Nunca? Ele escolhe suas companhias e se frustra quando sente que não pode optar pela solidão.

Às vezes
ele deseja
a solidão.

Entretanto, é consciente, pontual, exceto no que concerne a chegar nos horários marcados. Desafie-se, inverte cenas, faz o que duvidaram que tinha a capacidade de fazer.

Ficava
apavorado
em conversar
com mulheres.

Hoje é natural.

Sentia-se
muito alheio
Também bastante
feio, ainda que soubesse
que a verdadeira feiura
nunca seria estética
neste mundo vil.

Tornou-se expansivo. Mais do que antes, ele sempre anda por aí com alguns amigos e é amado. Tornou-se bonito também, ainda que não tenha se esquecido que a beleza verdadeira nunca seria a estética neste mundo vil. Revolve para dentro e deixa que os outros percebam o que ele já sabe. É bonito nos lugares que mais importam.

Ele quase
nunca dorme.

É que sua cabeça está sempre no dia seguinte e na luta. Não é fácil, mas segue firme em sua conduta e crê que pode vencer o mundo com calma e sem malandragem.

Essa
aposta
é maluca,
mas

Coragem!

Fecha os
olhos, pois
sabe que ainda
que a vida seja foda
ninguém dorme
de olhos abertos.

Anda para lá e para cá pensando em soluções que resolvam conflitos. Fracassa em aparecer com novas soluções e sufoca um grito. Não chora, não é pessoa assim tão sensível, mas reconhece que chegou a hora de dormir. Espera que pelo menos em sonhos não exista alguém franco e que não tenha a intenção de o ferir.

Boa
noite.


  • V

Interplanetário

A escada
de saída
da Terra
O cheiro
de flores
e ervas
O voo
no rabo
do cometa
A chance
de escapar
deste planeta
A magia
O caderno
No fundo
da gaveta
A lenda
dos que
morriam e
viravam estrelas
Versos extintos
Textos distintos
Prolixos e
também sucintos
Escritos apenas
pela tinta
da caneta
A música
Os animais
que cantam
O sono
tão profundo
de Deus
que não
se levanta
A miséria
A dor
O destino
de sofrimento
A matéria
A cor
O solo
O firmamento
O universo
que começa
e termina
na Lua
Os mistérios
que não
se findam
O tempo
congelou em
uma rua
Endireita o
seu porte
Olha o
que há
no futuro
Um corte
A morte
O sol
A sorte
Tudo muda
no escuro
A chuva
tão leve
A orientação
de Marte
A fuga
na neve
A consideração
O descarte
Saturno chama
Soturno menino
Ele não
deixa a
confortável cama
Continua dormindo
A Galáxia
O Vazio
O Tudo
O Nada
O quente
O frio
O início
A chegada
Vênus convoca
Uma mulher
de coragem
Ela aposta
e provoca
Sempre selvagem
Poeira estelar
Brisa pueril
Sono compartilhado
A paixão
A paciência
O amor
O certo
O errado
A ciência
O paciente
O doutor
O que
realmente é
E o
que deve
ser assim
A vida
A fé
O começo
O fim.

Trabalho

Canto
desconhecendo a composição
Componho
desconhecendo a métrica
Pediram-me por um padrão
A contramão do instinto poeta
Querem me fazer de vilão
só por ter julgado a ideia tétrica
Não aceitei o trabalho
Descrevo-me, escrevo-me,
Sei do meu potencial
Quem sabe um dia você
Verá meu rosto na sua TV
Em um longo e chato comercial?
Não sei, mas não me regro
Não me fecho em contradições
Enraiveço-me quando me sinto cego
Outra vez me ergo rei das solidões
Conheço senhoras e ando por sertões
Desta vida conheço as veredas
Corro, ainda que
não me sinta apressado
Quando acordo meus
olhos fitam a escuridão
Encarcerados em um mundo
que chamo de passado
A vida é em frente
nem adianta temer
Melhor confiar no que se sente
E apostar na improvável chance
de vencer.

Madrugada Antiga

Sofrimentos que cegam
Sentimentos que chegam de longe
Insisto na minha entrega
Você insiste em se manter distante

Fingiu para continuar
Continuei supondo que tu parasse de fingir
Você zomba, pois sabe que eu vou voltar
Acha que nunca irei partir

E me vitupera
Como frágil flor de primavera
É aí que erra
Não sou mais quem eu era

Eu avisei naquele silêncio
ensurdecedor da última madrugada
Se um dia eu me for
Não espere que eu volte para casa

Neblina Espessa

Essa neblina espessa, veja, eu sinto que posso tocá-la. Ontem senti sua falta pelos quatro cantos da nova casa. Esta casa atual é muito maior do que a outra, mas às vezes sinto saudades de quem eu era. Estranho, eu sei, como quem quer forçar o inverno em plena primavera. Inadequado, eu sei também, tal qual vestir uma antiga roupa que já não cabe mais, mas a gente possui essa estranha mania de querer o que se quer, não é? E às vezes aposta muito nos outros e pouquíssimo na nossa própria fé. Roupas ultrapassadas, apertadas, antigas. Talvez seja melhor doá-las. Memórias desgastadas e coisas esquecidas, esculpidas relativamente, desejos de fantasmas que estão mortos, mas ainda sentem, o apelo desesperado para que a alma seja notada. Você consegue perceber a sutileza deste sentir? Você consegue sentir falta de quem se foi, respirar com calma, perceber que está tudo bem e sorrir?

Essa neblina espessa, eu sinto que posso tocá-la. A fumaça cansada lançou seu manto sobre a cidade e eu não vejo nada aqui desta sala.

Recordo-me das noites incomparavelmente melancólicas nas quais nunca houve outro ser humano que fosse mais triste do que eu. Recordo-me da voz de Lord Huron falando sobre fantasmas, prazos, fins e tudo aquilo que eu perdia, mas que hoje nem sei se me pertenceu.

A janela anunciava luzes e a cidade piscava convidativa. Esta noite qualquer apelo do corpo para lembrar a alma de que ela ainda está viva.

A janela de novo e minhas epifanias. Nestes vislumbres notei que a vista não era apenas feita de melancolia. Às vezes reparava em alguém que cruzava a rua durante a metade do dia. Mãe e filha de mãos dadas caminhando distraidamente até a igreja, o trabalhador em obras com a camisa suada e pensando em todas as suas despesas ou até mesmo eu de longe, distante da figura que tanto aprenderia a conhecer no futuro. Na janela de mim, observo-me passear com o cão Link pelas esquinas que serão esquecidas. Ele caga, eu recolho as fezes. O mundo seria melhor se todos nós fossem dispostos em recolher as fezes? Acumulo de revezes.

Acordo e vou até outra janela. Bom, eu confesso com uma infelicidade resignada que acordei 5h15 para esperar o nascer do sol. É o meu último dia neste prédio e ontem a noite havia decidido que não perderia essa chance. Quando temos a rara consciência do momento exato de nossas despedidas, podemos ser mais dedicados em torná-las especiais.

Os prédios não falam ou pelo menos eu nunca pude ouvi-los. Acordei cedo, mas ainda antes a neblina havia os engolido. Procurei uma caneta pela casa e não a encontrei. A angústia cresceu em meu coração subitamente. Precisava rabiscar sangue no papel. Esfreguei a ponta da caneta. Havia acabado o sangue. Usei a minha própria tinta para começar o texto até que percebi que não havia mais. Os dedos gelados agressivamente começaram a bater nos teclados e eu já não conseguia parar.

A janela continua perfeita, mas o céu se fez difícil na minha despedida. Talvez eu não mereça hoje essa melhor vista. A neblina e as nuvens esconderam completamente o céu, mas insisto nesta minha fé cega ou na pesquisa científica para acalmar meus nervos e repetir devagar em um intervalo de respiração. O sol aparece amanhã de manhã.

Sinto um calafrio que percorre toda minha pele. Sou quente e feito de emoção, batida rápida de coração e não há invernia que me gele.

Dominado pelo cansaço sinto um frio que ocupa todos os meus espaços e fecho meus olhos tendo a esperança de dormir. Abro os olhos e encaro meu erro crasso, é o dia final para a mudança, eu preciso correr e sair daqui.