Discreto.

Inicio uma conversa franca
Defronte a uma imensidão branca
Sentindo uma enorme sede

A dor qual ela banca
Quando sozinha no quarto se tranca
E se atira contra a rede

Cogita desistir
Reluta em admitir
Não vê saída

Não sabe o que sentir
Esqueceu de como sorrir
Perdeu-se de sua vida

Escute-me hoje, por favor,
A face febril está em rubor
Tire o rosto da parede

A fase passa e também a dor
Recupera sua alegria e sua cor
A Tristeza têm olhos verdes

Aposto no que me aquece
Finjo crer nas minhas preces
Celebro minha existência

Príncipe que não se esquece
Demônio que se oferece
Anjo sem paciência

Abro um compartimento secreto
utilizando frases em outros dialetos
que encontrei em grimórios antigos

Concentro-me em pessoas e objetos
Sozinho sou e permaneço discreto
A infinitude de um caso perdido.

Metáfora

     Muito bem, vou começar. Não, na verdade, nada bem aqui. Nada bem comigo. Como eu poderia falar dela e me sentir bem? Parece piada que eu tenha dito algo assim, mas vou tentar organizar as ideias na minha cabeça antes que elas pareçam mais ridículas do que em qualquer outra cabeça ou lugar. Esqueça isso também. É preciso me expor completamente e ser ridículo é só uma condição básica para o que acontecer a seguir se tornar crível, portanto, para que minhas palavras tenham a mínima credibilidade, eu vou dizê-las em voz alta diante do espelho. Prometi a metáfora, muito bem, mas não é como se eu fosse capaz de metaforizar alguém como ela. Alguém que sabe sorrir com os olhos e abrilhantar uma noite escura com apenas um vislumbre. Nela há promessas de coisas que o mundo nunca viu. Sei, sei bem o quanto isso é brega, mas o que perco que já não perdi antes? Embaralho-me em mim. Juro que meus próprios pensamentos voam em círculos contrários e se chocam e se misturam e se confundem… Eu não sei o que acontece depois. Eu sei que algumas mulheres já roubaram a minha voz quando pretendi dizer algo agradável ou suficientemente inteligente. Meus pensamentos, de repente, eram mais vagos do que uma folha de papel inteiramente em branco. O que ocorre, porém, é que com ela, as palavras nunca me fugiram. Elas bailavam na minha frente como se eu estivesse dentro de um mundo perfeito. Entende? É claro que não. Como alguém entenderia?

      Vou supor que ela nunca leia este rascunho e me certificar, ao menos, mentalmente, que ela nunca escute isso quando eu falar. Engraçado que eu a vi apenas uma vez e foi quase uma década antes, mas não era como se eu me lembrasse. Será que foi desatenção minha ou será que a vi somente em sonhos e inventei tudo isso? Quando criança vivia absorto em mim, preocupado apenas com minhas fantasias. O tempo passou, mas eu não passei. Quando mulheres assim, olhavam-me, bem, eu corava e desviava os olhos. O irônico é que me tornei hoje alguém capaz de suster o olhar de volta e coincidentemente nos reconhecemos tantos anos depois.

      Naquele dia eu já havia concluído que ela era absolutamente incrível e sua presença era calorosa e expansiva, ao que, qualquer pessoa gelada, seja por analogia ou por nascença, pode presumir e antecipar o degelo das próprias emoções. Sei que neste instante soo absolutamente imbecil, mas é impossível fazer isso e transmitir a mensagem sendo racional. Eu nunca perdi meus pensamentos na presença dela e meu coração, por incrível que pareça, torna-se cada vez mais e mais feliz conforme nos encontramos. É como se a cada novo encontro, eu pudesse captar um novo detalhe. Guardo esse romantismo infantil para os tempos em que se fizer necessário em minha velhice senil, mas, por favor, digo a mim, nunca se esqueça de nunca dizer isso a ela. Você sabe que ela merece ouvir algo que nunca disseram, mas seria como tentar acariciar um gato de rua. Os felinos são, por natureza, fugidios e ariscos. É preciso saber como manter alguém como ela por perto. Eu que sou bastante tolo e inadequado nas minhas adequações, eu me aproximo dela só quando minha mente termina de formular complexas equações. Como não afastá-la? Ainda assim não há matemática que baste, mas isso deveria me impedir de tentar? As estrelas são, por natureza, inalcançáveis, mas será que ela vai rir se eu disser que a gente precisa lutar pelo que sente? Seria vexatório tentar derrubar uma estrela com uma pedra apenas para torná-la cadente?

Desta forma garantiria meu pedido. Onde é que eu estava com a cabeça quando confessei que você era como uma metáfora aos meus sentidos?

      O carnaval te vestiu bem. Não. Você vestiu bem o carnaval. Dentre todas aquelas pessoas, você parecia ser a única especial. Certamente brilhava de um jeito diferente. Cintilava de um jeito que fazia com que meus olhos não conseguissem permanecer completamente abertos. Você era o carnaval e o carnaval só era o que era por sua causa. Isso. Isso se aproxima um pouco do que eu gostaria de falar. Você realmente estava no carnaval naquela noite de lua? Talvez eu tenha apenas imaginado, mas me recordo do que preciso. Apoteose solar no tempo-espaço do seu sorriso. Eu me senti afundar em um oceano que sequer existia. Quais mistérios será que residem em seus beijos? Quais são as chances de que sumam de mim, sem que eu os mate, esses tantos desejos? E se eu te dissesse que diante da sua presença à época, ninguém se importaria com a fuga de Helena para Troia? E se eu dissesse que heróis e vilões não notaram a mais brilhante das joias? E se eu dissesse que o mestre Oscar Wilde se engana? E se eu dissesse que ele errou quando disse que a gente sempre destrói o que mais ama? E se eu forçasse o inglês nas minhas palavras e nós brincássemos de seek and hide? E se still in english fôssemos news Bonnie & Clyde? Tudo bem, não vou exagerar, não vou falar sobre Romeu ou Julieta, mas presumo que toda lagarta que a veja voar, em seguida, deseja logo se tornar uma incrível borboleta. Seria bom poder te acompanhar no seu mundo, voar junto, ainda que só de vez em quando. Duvido que… Não sei ainda se me faço entendido. Você entenderia se eu dissesse novamente que você é como o sol? Entenderia se dissesse que você seria minha Sophie se eu fosse o mago Howl? Vou tentar, enfim, pela última vez. Eis a situação… Você percorreu atalhos até o meu coração. Sempre que eu a vejo, indago se sou eu o meu próprio algoz. Poeta que perde a rima pelo desejo; homem falante que perde a voz. Noutra noite de carnaval me cedeu brilho, pois o sol não se preocupa em se dividir. Como um trem desgovernado descarrilho toda vez que a observo sorrir. Você é mais vasta que a imensidão do céu azul. Dona de si sempre se basta: it’s all about you. Perdi a metáfora e a fala… Perdi meu rumo e tudo o que almejo. Quando a loucura sobe, a boca cala. Lamento que nunca com o gosto do seu beijo. Sei que novamente esmurro pontas de facas, mas o que posso fazer? É melhor ser ridículo e falar do que dormir sem ter dito o que pensei em dizer. L’amour est un chien du diable, mais c’est mieux être mordu! Acho que concordo com o trecho acima referido. O amor é um cão dos diabos, mas eu prefiro ser mordido. 

      Essa foi a loucura mais brega que eu já disse na minha vida.
Você me pediu a sua metáfora. Espero que não esteja arrependida.

      Novamente surto. Sussurro que amo vultos, embora saiba que são apenas sombras pálidas de coisas inexistentes. Amo, na verdade, a palidez da alma de quem não tenta ser mais do que sente. Amo ainda que meu amor seja criação de minha própria mente. É duro vagar solitário em mundo que se faz quase sempre indiferente.