Interplanetário

A escada
de saída
da Terra
O cheiro
de flores
e ervas
O voo
no rabo
do cometa
A chance
de escapar
deste planeta
A magia
O caderno
No fundo
da gaveta
A lenda
dos que
morriam e
viravam estrelas
Versos extintos
Textos distintos
Prolixos e
também sucintos
Escritos apenas
pela tinta
da caneta
A música
Os animais
que cantam
O sono
tão profundo
de Deus
que não
se levanta
A miséria
A dor
O destino
de sofrimento
A matéria
A cor
O solo
O firmamento
O universo
que começa
e termina
na Lua
Os mistérios
que não
se findam
O tempo
congelou em
uma rua
Endireita o
seu porte
Olha o
que há
no futuro
Um corte
A morte
O sol
A sorte
Tudo muda
no escuro
A chuva
tão leve
A orientação
de Marte
A fuga
na neve
A consideração
O descarte
Saturno chama
Soturno menino
Ele não
deixa a
confortável cama
Continua dormindo
A Galáxia
O Vazio
O Tudo
O Nada
O quente
O frio
O início
A chegada
Vênus convoca
Uma mulher
de coragem
Ela aposta
e provoca
Sempre selvagem
Poeira estelar
Brisa pueril
Sono compartilhado
A paixão
A paciência
O amor
O certo
O errado
A ciência
O paciente
O doutor
O que
realmente é
E o
que deve
ser assim
A vida
A fé
O começo
O fim.

Trabalho

Canto
desconhecendo a composição
Componho
desconhecendo a métrica
Pediram-me por um padrão
A contramão do instinto poeta
Querem me fazer de vilão
só por ter julgado a ideia tétrica
Não aceitei o trabalho
Descrevo-me, escrevo-me,
Sei do meu potencial
Quem sabe um dia você
Verá meu rosto na sua TV
Em um longo e chato comercial?
Não sei, mas não me regro
Não me fecho em contradições
Enraiveço-me quando me sinto cego
Outra vez me ergo rei das solidões
Conheço senhoras e ando por sertões
Desta vida conheço as veredas
Corro, ainda que
não me sinta apressado
Quando acordo meus
olhos fitam a escuridão
Encarcerados em um mundo
que chamo de passado
A vida é em frente
nem adianta temer
Melhor confiar no que se sente
E apostar na improvável chance
de vencer.

Madrugada Antiga

Sofrimentos que cegam
Sentimentos que chegam de longe
Insisto na minha entrega
Você insiste em se manter distante

Fingiu para continuar
Continuei supondo que tu parasse de fingir
Você zomba, pois sabe que eu vou voltar
Acha que nunca irei partir

E me vitupera
Como frágil flor de primavera
É aí que erra
Não sou mais quem eu era

Eu avisei naquele silêncio
ensurdecedor da última madrugada
Se um dia eu me for
Não espere que eu volte para casa

Neblina Espessa

Essa neblina espessa, veja, eu sinto que posso tocá-la. Ontem senti sua falta pelos quatro cantos da nova casa. Esta casa atual é muito maior do que a outra, mas às vezes sinto saudades de quem eu era. Estranho, eu sei, como quem quer forçar o inverno em plena primavera. Inadequado, eu sei também, tal qual vestir uma antiga roupa que já não cabe mais, mas a gente possui essa estranha mania de querer o que se quer, não é? E às vezes aposta muito nos outros e pouquíssimo na nossa própria fé. Roupas ultrapassadas, apertadas, antigas. Talvez seja melhor doá-las. Memórias desgastadas e coisas esquecidas, esculpidas relativamente, desejos de fantasmas que estão mortos, mas ainda sentem, o apelo desesperado para que a alma seja notada. Você consegue perceber a sutileza deste sentir? Você consegue sentir falta de quem se foi, respirar com calma, perceber que está tudo bem e sorrir?

Essa neblina espessa, eu sinto que posso tocá-la. A fumaça cansada lançou seu manto sobre a cidade e eu não vejo nada aqui desta sala.

Recordo-me das noites incomparavelmente melancólicas nas quais nunca houve outro ser humano que fosse mais triste do que eu. Recordo-me da voz de Lord Huron falando sobre fantasmas, prazos, fins e tudo aquilo que eu perdia, mas que hoje nem sei se me pertenceu.

A janela anunciava luzes e a cidade piscava convidativa. Esta noite qualquer apelo do corpo para lembrar a alma de que ela ainda está viva.

A janela de novo e minhas epifanias. Nestes vislumbres notei que a vista não era apenas feita de melancolia. Às vezes reparava em alguém que cruzava a rua durante a metade do dia. Mãe e filha de mãos dadas caminhando distraidamente até a igreja, o trabalhador em obras com a camisa suada e pensando em todas as suas despesas ou até mesmo eu de longe, distante da figura que tanto aprenderia a conhecer no futuro. Na janela de mim, observo-me passear com o cão Link pelas esquinas que serão esquecidas. Ele caga, eu recolho as fezes. O mundo seria melhor se todos nós fossem dispostos em recolher as fezes? Acumulo de revezes.

Acordo e vou até outra janela. Bom, eu confesso com uma infelicidade resignada que acordei 5h15 para esperar o nascer do sol. É o meu último dia neste prédio e ontem a noite havia decidido que não perderia essa chance. Quando temos a rara consciência do momento exato de nossas despedidas, podemos ser mais dedicados em torná-las especiais.

Os prédios não falam ou pelo menos eu nunca pude ouvi-los. Acordei cedo, mas ainda antes a neblina havia os engolido. Procurei uma caneta pela casa e não a encontrei. A angústia cresceu em meu coração subitamente. Precisava rabiscar sangue no papel. Esfreguei a ponta da caneta. Havia acabado o sangue. Usei a minha própria tinta para começar o texto até que percebi que não havia mais. Os dedos gelados agressivamente começaram a bater nos teclados e eu já não conseguia parar.

A janela continua perfeita, mas o céu se fez difícil na minha despedida. Talvez eu não mereça hoje essa melhor vista. A neblina e as nuvens esconderam completamente o céu, mas insisto nesta minha fé cega ou na pesquisa científica para acalmar meus nervos e repetir devagar em um intervalo de respiração. O sol aparece amanhã de manhã.

Sinto um calafrio que percorre toda minha pele. Sou quente e feito de emoção, batida rápida de coração e não há invernia que me gele.

Dominado pelo cansaço sinto um frio que ocupa todos os meus espaços e fecho meus olhos tendo a esperança de dormir. Abro os olhos e encaro meu erro crasso, é o dia final para a mudança, eu preciso correr e sair daqui.

O fim dos poetas

Perdidas no vácuo precedente à existência
Flutuavam no espaço espécies estranhas de flores
Coisa alguma tinha sua respectiva aparência
Ainda surgiam discretamente as primeiras cores
Um grito de ninguém ecoou de maneira serena
Vibrou na existência inexistente o primeiro poema
Qualquer coisa como magia
Antes do primeiro dia de tudo nascia
Em 173 antes do nascimento do planeta
Houve uma explosão onde tudo foi exposto
Três mil e cem anos depois abri uma gaveta
E nela achei o meu verdadeiro rosto
Chamei-o de meu e chamei-a de alma
A última lembrança por volta de 1992
Explodi em uma fúria que nunca se acalma
Até que arrefeci e deixei a ira para depois
Ensinaram-me dentro de minha casa
Certas coisas certamente importantes
Aprendi a amar sob um confortável teto
Garoto curioso que não se contentava
Desprovido de ambições, mas sem ideias rasas
Oscilava entre seriedade e princípios infantes
Fui e sou próximo de qualquer coisa que dizem inexistente
Continuo por perto, pois sinto tudo o que me sente
Amigo do vento, das plantas e insetos
Flamejante, mas apenas brasa
Confiante, mas demasiado reto
Chama acesa que nunca se apagava
Na predominância da suavidade
Eu era puro concreto
Em 2000 e qualquer coisa fui triste
A Existência me humilhava de repente
Mantenha sua espada em riste, pois
Nenhum dano é permanente
Quando a gente é capaz e insiste
Combate tudo por um eternamente
que talvez faleça ao pôr do sol
Qual talvez se esqueça escondido no lençol
Caí e me levantei e caí de novo
De novo caí e me levantei vagaroso
Mais uma vez levantei apenas para cair
Ouvi de longe um cachorro latir
Lamentei o meu estorvo
Quase desisti de tudo por volta de 2018
Mas a vida é tão cruel quanto bela
Errei tantas vezes por ser afoito
Li meu destino ao fundo de uma tigela
De Nescau Cereal
Veja como a vidência é algo irracional
Você possui exatamente Nada
O que se perde quando está por um triz?
Não é percorrendo as mesmas estradas
que achará o caminho para ser feliz
Sincronicidade em sintonia
Não me vejo feliz, mas transbordo alegria
Às 22h22 em 29 de junho de 2019 no Brasil
Já era dia 30 lá no Japão
Tudo o que ontem a gente sentiu
Num tempo longínquo não gera a menor comoção
Tenha cuidado, mas não se afaste
Sempre que a vida gritar sobre os riscos e perigos
Às vezes é num jogo improvável que iniciaste
que fará verdadeiros e novos amigos
Alguns anos depois e ao último suspiro
O sentimento é de sorte, pois naquelas épocas
Ainda era inevitável receber o beijo da morte

A humanidade cometeria o erro
de impedi-la posteriormente
É o fim que define o rumo a se seguir
E determina a firmeza do que se sente
Em 2173 depois de Cristo o amor ainda existia
Embora tivessem sido extintos os poetas
Era um futuro onde todos de tudo sabiam
Todos os seres transformados em ascetas
Como, porém, podem não acreditar?
Eu perguntava aos homens futuristas
Se não existe vida sem o amor?
Suas faces repulsavam num esgar
Seguido por sorrisos matreiros de vigaristas
Cada um escolhe sua ilusão e sabor
Em 2425 depois de mim
Já não havia planeta Terra
A vida no planeta acabara, enfim,
Depois de resistirmos à Quarta Guerra,
Dentre os destroços e corpos queimados
Dentre pilhas de ossos e sonhos carbonizados
A personificação da mortalha e um vulto eterno de destruição
É um sonho que já vivi algum dia
Mataram os poetas, mas não a poesia
Resistiremos até a última respiração
Sobreviveremos (ainda que mortos)
Até as batidas findas do último coração…

Do meu jeito

Porque você sempre pensava que sabia o que eu pensava, mas não é como se algum dia tivesse passado perto.

Eu, por outro lado, acreditava também que entendia como você se sentia, bom, pelo menos enquanto ainda sentia, até que deixou de sentir.

Olha, você enumerou os tantos problemas e os transformou em matemática simples, mas cruzou os braços quando me disse com aspereza, não, eu não entendo a matemática e não sei fazer contas.

Quem discute com a racionalidade? Agi como um idiota, pois tentei te ensinar equações quando você não queria se debruçar em soluções lógicas e dizia, não, não adianta, eu já disse que não sei fazer contas. Não tenho respostas.

Quando minha ausência cresceu, ora, por necessidade de crescer, quando a distância passou a ser obrigatória e não eventual, você me substituiu. Sua humanidade repentinamente dormiu no mecanismo da inevitabilidade das ações. Contradições.

Antes pensava que ser trocado assim era o mais triste dos fardos, porém, hoje vejo que você nem sabe o que usa para colar o buraco que deixei. Não, não me perdi, mas confesso, usei muitas coisas e certamente não devo me orgulhar da maioria delas. Tomei o extremo cuidado de ser cuidadoso.

Ainda assim a dor que realmente doeu foi a de ver seus braços não cruzados. Você, sempre tão péssima em matemática, enfim, raciocinou de maneira absolutamente lógica no pretexto para matar sua carência e solidão. Debruçou-se em cima de teoremas, contas fez em centenas, tudo para que fechasse a equação. E de repente amor, não é?

Você nem sabe, mas isso não a impediu. Pendurou-se em algo ou na ideia de algo, para que não fosse obrigada a crescer de uma vez só. Fez o que disse que não faria, mas e daí? Funcionou. Os fins justificam os meios.

Não, não foi isso que eu fiz, sim, eu estava carente, não, não foi por carência, sim, é, não, é que talvez você não entenda, cada um de um jeito, eu sei. Você sempre enrola, não, eu não queria que você fosse tão enrolado, sim, quis dizer não, mas nem tanto, eu não queria mudar o seu jeito. Queria apenas que você sumisse.

Sinto que envelheci, mas, sim, por aqui continuo bem. Não admito mais, juro que não. Você sempre me preteriu. Meus animais não são da sua conta e nem a minha família. Você pode deixar o fingimento para depois, sim, exatamente como fazia comigo.

Esqueceu que sou melhor para identificar mentiras do que para contá-las? Assim, admito, você me tirou do sério duas vezes com relatos falsos. Na primeira chorei. Na segunda gargalhei.

As discussões com os amigos continuam, não, nem todas vão terminar bem. Os problemas no trabalho se multiplicam, mas você é forte e os resolve, ainda que canse. Tudo pesa. A loucura nunca acaba, mas você já sabia. Você inventou uma fuga.

O que supus leve de repente pesou uma tonelada. É melhor soltar nossas amarras e flutuar por aí ou abraçar as responsabilidades do mundo e nunca sair do chão?

Ontem eu quis te mandar uma mensagem. Hoje foi sua vez. Bloqueei seu número, você sabe bem que mereceu. Falou sobre futuro como se ficcionista fosse, e, bem sabemos, eu sou o homem das fantasias por aqui.

Não, desta vez não dá para ser diferente, não, não vou desbloquear, não, não vamos conversar, sim, deve ser drama, não, não seremos amigos. Você não entende sobre amizades. Chega de ilusões baratas.

Lá vou eu ao banco. A fila está enorme. Você trabalha e se mantém fiel ao que chama de compromissos. Todos eles. Absolutamente racional até na irracionalidade. Infantil e boba, irreconhecivelmente exata.

Lá vai você continuar crescendo do seu jeito e vou me orgulhar em breve pelos seus avanços, mas não vou me permitir acompanhá-los. Meus olhos estarão descansando em outros países.

O mundo vai mudando conforme a gente muda. Tá olhando tudo?

Não, é óbvio que não me esqueci das coisas boas, embora uma tonelada de coisas ruins tenham sido forçadas em cima do que restava de agradável. Que absurdo é querer falar em amizade. Não basta de hipocrisia? Chorei abraçando uma figura pequenina e preta. Recebi o amor que restava de quem amor ainda tinha. O que ainda havia para quebrar, enfim, quebrou.

A minha cegueira da vista cresce. Os meus ímpetos são ainda mais honestos. A parte minha que tanto foi sua, assim, de repente, não é mais. Liberdade.

Condenarão minha prolixidade sentimental, eu sei, vejo e noto, assim como condenam minha prolixidade textual. Para que me estender?

Bem, eu não sei, mas é que precisa ser do meu jeito e ninguém pode opinar. Perdi umas tantas coisas, mas sou mais meu. Conheço e entendo o meu lugar. Ao que ficou para trás digo adeus.

Sumiço

Desde que decidi sobre o que evitava decidir, certas coisas mudaram de aspecto. Acontece que decidir é necessário, mesmo quando a gente se cansa, mesmo quando a gente ainda quer saber. Todo mundo decide e em dado momento você vai perceber que não há exceções. O não decidir de quem se diz indeciso move o mundo na estagnação da mesma forma que o move na decisão. Nada permanece parado.

O que calha mencionar, aqui me repito e não peço perdão, pois me cerco pelas coisas que olho nos caminhos quais percorro, é que, sem dúvidas, a vida pode se tornar mais leve quando nossas decisões são mais pesadas. Ou simplesmente mais definitivas. Quanto mais você se demonstra firme, a dureza das suas decisões ajuda diretamente a formar a solidez do seu caráter. Você sabe que a irrelevância não combina com seus tons. É preciso se entender no comando da própria vida.

Olha, não posso ser exatamente como querem que eu seja. Se outro dia não pude aceitar este fato, se outrora isso pesara como o pior dos fardos, enfim, admito que posso viver em paz com o que escolhi. Liberdade e libertação. Não golpeei primeiro. O ato mais pérfido não foi meu, mas me vi avulso e na tristeza do lusco-fusco, notei-me capaz de tudo. Posso reagir. Posso agir. Tenho a capacidade até de ser um sujeito vil. No mergulho profundo nas experiências consigo sentir o mundo que nunca me sentiu.

Tudo isto já em pauta, reforço-me em convicções minhas. Tão verdadeiras ou falsas são elas como quaisquer outras convicções poderiam ser. Sou jovem, mas honestamente me sinto velho diante das situações. Às vezes me falta o ar e me pego a lembrar de situações. Esqueço-as e me lembro de mim. As coisas acontecem e deve ser assim.

A segunda-feira chega. Todos parecem tão cansados. Os meus olhos doem, o sono se perde e acordo bem cedo. Não preciso sair de casa. Respiro fundo e deixo-me estar por um instante prolongado. Percebo a beleza do universo quando a manhã se empoleira em meus ombros. Ou teria sido eu que me empoleirei na Vida?

Os pássaros cantam baixo. As máquinas das obras produzem barulhos mais altos. Lá vão os operários ao trabalho. Lá vão eles construir todas as coisas que se constroem. Já notou que toda criação é barulhenta? Assim como toda decisão que é suficientemente importante para fazer permanecer ou fazer desvincular. O silêncio diz muito. O barulho também.

Ouço ao longe alguém chorar. Chore, eu digo para quem quer que seja, chore, pois até no choro existe beleza. Há quem perca a capacidade de notar suas tão claras qualidades. Há quem te force a escuridão quando você se torna a personificação da claridade. Decida-se. Afaste-se.

Amanhã é tarde demais. A gente espera, tenta e insiste. Trezentos e sessenta, crônica, poema, outra cena de música triste. Às vezes há muita coragem quando a gente então desiste. A decisão foi tomada em silêncio, surpreendendo-me com a ausência de alarde. Era tão discreta que nem soava como uma decisão minha, mas me decidi.

Eu avisei que minha última aparição seria naquela tarde. Quem sabe não me tornarei uma memória que machuca e arde. Como diria Caio Fernando Abreu, nada em mim foi covarde. Talvez nos seus melhores sonhos, eu seja o fantasma que um dia você foi. Um espectro que assusta e aterroriza, que da dor se regozija, sombra esquecida de um esquecido amor.

Você pergunta quando e onde, como se brincássemos de esconde-esconde, como se tudo não passasse de um jogo bobo para você. Você decidiu e eu também. Nunca mais vou aparecer.