Furo cronológico

O seu beijo quando era meu
O meu beijo quando era seu
Nosso beijo quando era nosso
E aquela vontade imatura e infantil
de que sua boca fosse apenas minha
E nós sorríamos com a convicção divina
de que seria exatamente assim
Fazíamos tudo como adultos fazem,
mas nossos sonhos eram pueris e puros
Como sinto saudades de nós juntos
Como penso em tudo toda hora
Pedi para que apagasse a vela
Pedi para que não me seguisse pelos vales
Pedi para que se lembrasse
de que a vida é bela
A magia está nos ares
A vida é maior do que
a lacuna das sequelas
Visite agora novos lugares
Olhe e veja como eu te vi pela primeira vez
Deixe que o manto da noite te cubra e descubra
Tudo o que você é capaz de fazer
Acredite e siga nos próprios trilhos
Quando fecho os olhos ainda vejo seu brilho
E se ilumina o meu rosto com a lembrança
do seu gosto e da perfeição do sorriso
O seu beijo quando era meu
O meu beijo quando era seu
E a nossa existência como Um
ainda que sempre fôssemos dois diferentes
Num tempo singular qual é particular
Você sobrevive e eu quero que continue assim
Mesmo que a vida mude
Mesmo que o sentimento mude
Mesmo que os desfechos esperados mudem
Eu sei que havia algo especial sobre nós
Eu sei que há algo especial entre nós
Eu sei que sempre haverá algo especial sobre nós
Talvez seja um pequeno furo na cronologia da vida
Talvez seja o tempo certo e outras versões nossas
estejam felizes em outro tempo e espaço
Eu quase posso tocá-las, pois ainda imagino
E alcanço memórias reais e ilusões perfeitas
É que eu ainda me lembro e intuitivamente sei
que nunca conseguirei deixar de me lembrar
O seu beijo quando era meu
O meu beijo quando era seu
Nosso beijo quando era nosso.

Sonho Lúcido

Flocos gelados despencam do céu
Derretem em contato com minha pele quente
Este sonho lúcido é muito antigo
Observo um campo florido e um lago
Reparo que o reflexo na água não é o meu
Eu enxerguei o seu rosto desde a primeira vez
Eu soube desde o primeiro encontro
que eu nunca me esqueceria do seu nome
Os batimentos cardíacos das estrelas estavam altos
A ansiedade do Universo criava uma tensão nova
Divindades matreiras falavam por metáforas
Será que algum dia estive acordado?
Flocos gelados despencam do céu
Derretem em contato com minha pele quente
A febre que sinto nunca mais passou
Os fantasmas que existem me zombam
Ridicularizam-me pelos grito que não gritei
e por todas as flores que amo e morrem
A vida é fugaz e o próximo verão se aproxima
Eu soube desde o primeiro encontro
que eu nunca me esqueceria do seu nome
A cadeira reclinável do avião estava quebrada
e eu queria te contar que vi colchões nas nuvens
Flocos gelados despencam do céu
Distantes da minha pele quente
A febre que sinto nunca mais passou
O futuro é uma brincadeira de mau gosto
Personificam em mim esperanças e promessas
Sorrio e a tristeza marca meu semblante
Sou como um Deus esquecido e não choro
Sou como um Deus esquecido e faço o que devo
Gotas de chuva despencam do céu
Molham minha pele durante a caminhada
Estou em uma praia de areia branca e mar bravo
Sou como um Deus esquecido e não sangro
O sal das lágrimas é igual ao sal do mar
Deixo pegadas por onde passo
Os fantasmas brincalhões me perseguem
E os cavalos nas dunas soam como um milagre
lúcido o bastante para dois mundos
Fecho os olhos e me perco das convicções
Este sonho lúcido é muito antigo
E eu soube desde o primeiro encontro
que eu nunca me esqueceria do seu nome
Agora a vida segue e me torno melancólico
Sou como um Deus esquecido e não choro
Estou conectado com algo imenso e terrível
O nome que preciso proferir ainda não foi inventado
Devo conhecer o nome dessa coisa antes de ir
Mergulhar na escuridão profusa do céu noturno
Essa jornada é extremamente solitária
Flocos gelados despencam do céu
E desejo sentir o gosto da neve
Ainda que morra congelado
Este sonho lúcido é muito antigo
O sangue escuro está em ebulição
Abandono todos para compreender
Livro-me de tudo para ir mais longe
Agora a vida segue e me torno melancólico
Tudo é fugaz e o próximo verão se aproxima
Mas eu soube desde o primeiro encontro
que eu sempre me lembraria do seu nome. 

O que tenho tentado dizer

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Sobre estes tantos ensaios dos quais tenho falado, recorda-se? Claro que sim, eu insisto em perguntar por teimosia, aprendi bem, cascas de cebola e coisa e tal, mas se descascarmos o bastante vamos amadurecer e chorar, certo? Claro, é óbvio, mas a cebola quase sempre faz uma diferença incrível no sabor dos pratos, não é?

Perceba, por favor, eu disse antes que todo mundo sangra igual, você ainda se lembra? Note que existe essa inevitabilidade das coisas inevitáveis, bem como há memória das coisas inesquecíveis, embora eu tenha lido uma pesquisa recente que afirma que somos capazes de adulterar quase trinta por cento de uma memória original. Bem, eu não sei quem são esses pesquisadores, mas torço para que estejam errados, se eu pudesse, você bem sabe, eu preservaria a integralidade de todas as minhas memórias mesmo depois da morte, sim, até o que mais me machucou eu guardaria, veja, o sofrimento já foi necessário como prova da minha existência, não, nada mais adiantava, eu beliscava minha própria pele para saber se ainda estava vivo e sentia uma quebra de expectativa da realidade quando eu mesmo tornava minha vida salgada através do choro. Bem, eu não sei se você vai acreditar nos pesquisadores, mas talvez valha a pena crer neles, afinal, é melhor acreditar em algo do que em nada e confesso que tenho verificado no cotidiano essa espécie de necessidade insistente em confiar nos números. A matemática e os cálculos e os gráficos revelam muitos dados, porém quase sempre ensinam pouco.

Não através de minha própria sensação, mas pela impressão que nutro pelo que é sensação alheia, eu sou Eu e simultaneamente sou outro. Choro pelas dores alheias como se elas não me fossem avulsas e me flagro atônico pela minha capacidade de desdobramento. Minhas lágrimas se unem com o choro de todos os outros seres vivos do mundo e os rios salgados escorrem em mim. Olha, eu talvez esteja me expressando mal, mas eu falo quase sempre tudo nas entrelinhas, eu sei, você é míope assim como eu e não deveríamos exigir tanto de nossos olhos, mas escute o que eu digo quando me calo e não procure oportunismo nas palavras que falo, não, não é um jogo, eu sou só ligeiramente invertido ou só e ligeiramente invertido.

Por sermos gigantescos e expansivos incorremos às contradições e é pela vastidão dessa imensidão de alma que tenho que ficar defronte ao Propósito. Espere, eu estou delirando, veja, antes isso era algo raro, mas começo discorrendo sobre uma coisa que subitamente se torna outra e quebro barreiras, sem me fingir e sem me fugir, cônscio de que sempre me alcanço, mas eu estava tentando falar sobre o que há de mais puro meu em mim e me peguei evitando um assalto óbvio, comemorando três gols no Atlético Mineiro e observando meu irmão fumar na sacada enquanto evitava uma vontade crescente de vomitar, eu sei que soou confuso, mas a vontade era minha e não do meu irmão e você precisa entender que isso nada tinha a ver com o cheiro da fumaça, mas sim com a minha alimentação irregular na última onzena.

Sabe, eu tenho tentado extravasar através dos textos a criatividade da minha alma e digo muito para falar algo que sinto em síntese. Nada em mim é minúsculo, mesmo assim não consigo me ver grande. Imagino-me diante do Propósito ou tagarelando em um bate papo sincero com o próprio Criador e me pergunto sobre essas coisas todas que nos colocam um sorriso no rosto e que nos dão uma satisfação ancestral. Conforto, carinho, prazer, segurança, amor. Que há na vida além do conforto, do carinho, do prazer, da segurança e do amor?

Meus olhos brilham quando falo de livros e você deveria ter sabido, bom, eu acho que na verdade você sempre soube, eu nunca escondi de ninguém, exceto de mim quando não conseguia confessar nem em sussurros o que berrava interiormente no meu âmago.

Olha, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, percebe? E tenho sofrido em silêncio, pois acredito que a dor precisa ser entendida para ser compartilhada e, bom, eu não sinto como se os outros pudessem realmente me entender. Sabe, eu às vezes imagino o passado, anos antes, tudo o que houve através das décadas e localizado atemporal, percebo-me no presente momento e compro uma certeza de que existiram milhões de seres incompreendidos. Às vezes soa como um castigo que só piora quando é dito em voz alta, pois à luz da explicação tudo se torna ainda mais baço e confuso aos outros. A minha clareza parece ser antagônica ao meu destino. Esforço-me, mas de quando em quando me sinto só mais um menino.

E invejo o Peter Pan que pôde nunca crescer.

Na Terra do Nunca guardei teus melhores sorrisos, mas o Nunca crescia avassalador para tantas pessoas que tive a presunção de me imaginar capaz de fazer algo pelos tantos que se esquecem da própria individualidade e que refutam qualquer chance de correr atrás dos sonhos. Há resgate para quem não se resgata?

Convenço-me de que o rapaz Davi queria me assaltar. Eu estava “dando mole” ou “de bobeira” na praia às 6h18 da manhã escutando Lord Huron e me sentindo um fantasma personificado, quando ele surgiu subitamente. Não, na realidade não foi tão súbito assim, eu o vi quatro ou cinco segundos antes quando ele descia de uma duna de areia e deslizava rapidamente até o meu encontro, mas o esperei. Como evitá-lo em alguns segundos? Havia motivos para não aguardar por este encontro inédito?

– Oi, eu sou o Davi.
– Oi, Davi.
– Eu tenho 23 anos e você?
– 28.
– Você é daqui?
– Sim.
– Daqui da região?
– Sim. Daqui da região.
– Mora aqui perto?
– Sim. Davi, eu não tenho o costume de parar minhas caminhadas matinais para falar com estranhos. Vou indo pra lá. Pra casa. Tchau.
– Poxa! Vamos conversar mais um pouquinho. Ei! Vamos conversar!

Reli o diálogo sem destacar minhas impressões e nu de todas elas encontrei inocência no papo rápido com o jovem rapaz. Evitei relatar que ele me olhava com uma particularidade estranha e que exibia no cenho uma expressão vitoriosa, como o caçador que observa a caça e sabe que não há como perdê-la. Omiti que Davi estava demasiado perto e que falava como se me sondasse. Sondava? Não sei dizer, mas quando um velho de peito cabeludo passou em uma corrida matinal, eu aproveitei a chance de deixar o rapaz para trás e segui o atlético idoso. Que se passava na cabeça de Davi? Será que era realmente possível que ele estivesse tentando assaltar alguém não muito depois do sol nascer? Se não era este o caso, pergunto-me o que fazia o rapaz na praia? O que ele pretendia com o diálogo? Desconheço o sujeito e não posso supor opiniões por ele, ainda que eu tente.

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Sobre se colocar no lugar do outro e sobre nunca ser o outro e tenho tentando ainda mais, você nota? Discorrer sobre a importância dos contos de fadas que nos ensinam sobre como é fundamental conhecer um caminho e seguir por ele, ainda que o caminho mude e você mude também. Olha, se toda história contada não revela algo do contador em contraste com o leitor. Olha, se o que aprendemos de um jeito não aprendemos de outro. Olha e veja, se pequenas decisões não fazem grandes revoluções e se os menores já não mudaram o destino do mundo. Olha, eu fiquei acordado até mais tarde para tentar esvaziar meus pensamentos, mas acontece que toda vez que eu os escrevia, eu pensava ainda mais, não só nos pensamentos anteriores como em alguns outros tantos inéditos, assim, sem cessar de cogitar ideias, eu persistia insone e distante das distrações. Quero me distanciar? Certamente não.

Tenho pensado em coisas que são apenas o que são e que jamais se revestiram de outra coisa qualquer. O valor de uma amizade desinteressada, mas nunca desinteressante, destes amigos que se olham nos olhos como iguais e se escutam e se compreendem, sem vícios ou segundas intenções. A relação do satisfeito homem do campo com a terra, o balanço entre a vida e a morte, a idolatria das crianças pelos adultos e o constante desejo dos adultos pela infância. Cada coisa é o que é, ainda que em tudo se detecte uma vontade vadia de ser outra coisa ou de fazer querer parecer outra coisa. Como então solucionamos tantas divagações?

Talvez não sejamos capazes. Não fosse suficiente sentir náuseas por tantas horas consecutivas, percebi-me piorar com a notícia do escárnio dos poderosos que se ergueram acima do Bem e do Mal. Sentenças inéditas envergonham o país e o povo e não parece existir esperança para coisa alguma.

Olha, eu tenho tentado não pensar nos demais males do mundo, você bem sabe, eu tenho tentado não me assustar, mas sonho com guerras e sou acordado por diabos, atormentado por fantasmas e lidero a perseguição contra a minha paralisia. Quero abraçar responsabilidades e fazer algo pelos outros, mas sinto que só sei escrever e, para ser honesto, às vezes até em escrever me falho.

Olha, eu sei que você quer esquecer discretamente e se entregar ao sono e, bom, eu sei que você percebeu tudo o que quase todos ignoraram. Juntos retirávamos do mundo impressões mais positivas do essas todas que foram deixadas para trás. Ainda assim, eu espero que você não durma muito tarde e nem que acorde muito cedo e que se alimente bem e que nunca se esqueça que os animais precisam de atenção. Eu sei sobre algumas de suas impressões, sim, às vezes eu também quero segurar na mão de alguém que não seja falso e correr por um campo verdejante anunciando meu desespero incessante neste mundo sofrível. Paro e respiro. Eu preciso de ar para continuar a uma sequência profusa de pensamentos parecem despencar de uma egrégora invisível. Sinto como se mil espíritos sibilassem algo em meus ouvidos e os batimentos cardíacos das estrelas me convencem do impossível.

Tudo que é agora logo menos será outra coisa
Perco-me na tentativa de preservação
do que não se pode preservar
Temo perder tudo e afundar em solidão
Cesso o raciocínio e me entrego ao acaso
Imagino minhas entranhas se rasgando
E extraio de uma única alma a irrefutável verdade
Ouço sussurros milenares me preenchendo
E extraio de minha própria alma o segredo incognoscível
Fecho os olhos e se revela o mistério da existência

Pulsa em mim o desejo de não ter desejos
Ajoelho-me em uma poça de meu próprio sangue escuro
Compreendo idiomas quais nunca estudei
Transpiro a inutilidade do existencialismo
Sorrio com a gelidez corpórea da estreia de um ator no palco
Caminho pela praia com a serenidade de uma gaivota
O que sou nada representa ou significa
Sou só o que sou até o dia que não mais serei

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Que me lembro até quando me esqueço e de que o conhecimento que tenho é tão inútil quanto o conhecimento que ainda não tenho. De quando em quando acerto bons textos e eles se apresentam como inutensílios para pessoas que precisam se distrair. Sabe, eu capto gestos, detalhes, observo instantes e os guardo, pois a lembrança discreta pode ser mais valiosa do que a duradoura. Há gestos mínimos realizados em uma noite que deverão sobreviver na memória por anos. Seus olhos sempre olham e enxergam e este é o único orgulho que se pode ter dos olhos. Seus trajes protegem contra o frio perfurante e esta é a única serventia dos trajes. Divido-me entre o sono e a vida e, assusto-me ao pensar que o mundo todo continua acontecendo enquanto eu durmo. Talvez seja a razão por eu dormir cada dia menos.

Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? E quando eu saí pela porta da frente foi por necessidade e para que a vida não tire de mim o pouco que sei que preservei apesar dos pesares. Sofro como sofro, amo como amo e escolho como escolho. A coragem de perseguir cegamente uma missão é uma loucura sem precedentes. Ainda assim gargalhei destes dias, apesar dos tantos acidentes. Se um piloto morre nos céus, ele morre fazendo o que amava. Nada mais que o voo lhe importou nem mesmo a própria vida que lá deixava. E alguns o chamarão de herói ou anjo, mas ele era apenas um homem determinado. Algumas pessoas são diferentes, certo, Rivière? Essas noites, hã? Melhor tomar cuidado com elas.

Sabe, eu tenho tentado lembrar de algo que li, bom, que todo mundo é feito de carne e pensamentos e só pode alcançar a beira da extensão, mas nunca o todo. Muitas coisas desaparecem, mas perceba que elas permanecem vivas como marcas de traumas ou de felicidades inenarráveis, veja que muitas coisas desaparecem, mas persistem existindo como símbolos imortais e imutáveis de algo que nos faz lembrar de ser o que somos, ainda que sejamos capazes de mudar sempre. Olha, pois o Sempre é uma esquina repetida e ficaremos uns dias ou uns meses ou uns anos sem nos encontrarmos, mas talvez eu ainda te veja todos os dias, todos os meses, todos os anos, mesmo que você não saiba. Olha, não é sobre vínculos, é sobre a docilidade sutil de algo que se prova e de que não se enjoa, veja, é sobre conforto, carinho, segurança, prazer, amor e muito mais. Olha, é sobre essas coisas que fazem os humanos mais humanos e menos exatos e que nos lembram que somos poeira de estrelas e de que Deus existe e possui um estranho senso de humor e que somos feitos de carne e osso e que inevitavelmente morremos no final, pelo menos por enquanto. Em qual esquina foi que eu li o letreiro com o Nome da Vida? Nada vale a pena. Tudo vale a pena. O amanhã é um deus morto até se tornar presente e realidade. Eu me sinto só, mesmo com tanta gente e praia nessa cidade.

Sabe, eu tenho tentando dizer essas coisas todas.

Mas não tenho conseguido.

Nada disso importa

A vitória, a derrota, nada disso importa. A extravagância da realidade sendo apenas o que é me coloca um sorriso no rosto. Eu me sinto renovado, veja, eu não sei há quantos dias tenho me sentido triste, mas sei de maneira convicta sobre essas novas decisões.

Nunca fui uma pessoa de meias medidas. Sou o que sou e me carrego pelos lugares quais passo numa ânsia febril de não deixar de Ser. Metades são ilusórias e acredito honestamente no meu próprio cansaço. O mundo pode ser imenso para quem vê mais do que enxerga e para quem realmente vê o que enxerga. O meio termo entre os dois opostos é uma banalidade de gestos e um desperdício de ideias.

Deserto de sofrimento sem fim nos interlúdios que faço de mim. Só vale a pena perguntar quando a resposta é útil?

Confesso que, às vezes, flagro-me em demasiadas perguntas. Quero saber dos gostos e preferências e paixões. Quero ouvir sobre músicas, amores, ódios, quedas terríveis e subidas ao pódio. Deixo que deitem metaforicamente no meu colo e escuto tudo o que falam. Memorizo os gestos e essas tantas coisas frágeis que muitos não acham importante. Capturo gigantescos tesouros revelados discretamente e me sinto pirata na existência. A luz solar me atinge e fecho os olhos. Absorvo a sutileza das coisas frágeis e esqueço o restante.

A vitória, a derrota, nada disso importa. O que faz sentido para a existência é o que me prova vivo neste mundo mecanizado onde todos soam iguais e só podem se admitir discretamente diferentes. Celebro os que optam por não serem iguais e se sobressaem. Aplaudo os que se levantam apesar da zombaria. Somos todos frutos da Beleza original, porém sinto que há quem nasça neste mundo apenas para a destruição. Controlo a vontade de chorar por detectar a maldade nas pessoas. As mais raras são as escrachadas e andam de cabeça erguida, apesar de tudo. Estas, ainda que a índole seja reprovável, inspiram algum respeito, pois poucos são o que são. As mais comuns são pessoas que praticam o mal em anonimato, que enxergam outras pessoas como degraus, que fingem se importar e esquecem, que vituperam todos pouco a pouco. Há ainda os mais degradantes. Estes se escondem atrás de um muro de propósitos supostamente maiores.

Andei pela praia de areia branca e observei gaivotas. Algumas delas pareciam me observar de volta, mas duvido de que minha aparência realmente as distraísse. Imaginei como seria voar e me interrompi pela inutilidade do pensamento. Eu nunca vou voar e as gaivotas, embora possam raciocinar, jamais escreverão versos. Nos céus ninguém saberá de mim, mas na terra talvez saibam o que penso sobre gaivotas, embora nenhuma delas seja o que penso delas, embora cada uma delas seja apenas o que é. Sinto-me repleto de impressões sobre tudo.

Essas coisas bonitas todas, bom, elas não parecem feitas para durar. Sei que levarei esta parte impossivelmente bela para sempre comigo, mas não sei se levarão a minha parte bela por aí. Não sei se deveria me desgastar com tantas preocupações sem rumo e com tantas coisas infundadas. Todas as memórias estão ao alcance na juventude e elas hão de me alcançar. O meu amor é a flor que rompe o asfalto, assim, não devo me preocupar.

A vitória, a derrota, o passado, o futuro, a alegria, a tristeza, nada disso importa. Eu só quero ser quem eu sou sem imaginar quem eu poderia ser.

Sendo muito fui pouco
Sendo são fui louco
Estava invertido
Comemorava o que havia sofrido
Sofria o que a maioria só podia celebrar
Um dia, alegria, enfim, meu lugar
Você não é o primeiro
E não vai ser o último também
Quando os amigos somem
Extenua-se o perigo e a imagem dos homens
Revela um reflexo conhecido
A morte ensombra a vida
A dor prova a existência
Você se desespera por uma saída
Basta ter paciência
E todo mundo sofre
E todo mundo dorme
E todo mundo dorme
Quis me acreditar diferenciado,
mas compartilhava demasiados inutensílios
Quis me acreditar singular,
mas outros como eu já haviam nascido
Existo do contrário e me aceito
Optam pelos atalhos confortáveis
Eu faço sempre do meu jeito
E me despeço com soluços
consciente da vituperação
Fui feliz aqui e nada foi em vão
Que eu seja lembrado
antes do esquecimento eterno
Pela coragem do meu coração

Dois estranhos se despedem e choram, mas de alguma maneira se amam. Sobrevivem na linda expectativa do reencontro. A vida é perder um metrô ou um grande amor. A vida é odiar dias nublados e desprezar o sol. A vida é nada mais que um detalhe que deixamos passar. É melhor que se preserve antes da queda. O que quebra se cola, mas é melhor tentar manter tudo intacto. Há diversas variáveis quando ocorre o impacto. 
Ele não notou o corte do cabelo. Ela não detectou o cansaço no olhar. E não houve comunicação. E não houve fim. Infelizmente se deixaram pela metade. Infelizmente nada disso importa agora, mesmo que importe. 


Desejo

Desejo o que desejo sem sentir vergonha de desejar
Anseio pela satisfação da alma que talvez nunca se satisfaça
Busco o que busco pelo prazer de buscar e me entrego
A vitória, a derrota, não, nada disso interessa
Os meus versos e a minha vida, entretanto, são fundamentais
Ando pela praia e observo o mar com os ouvidos e com os olhos
Contemplo a imensidão de água salgada
As gaivotas andam como patos, mas voam como gaivotas
Uma delas insiste em comer um pedaço de plástico
É como desferir murros em pontas de facas
Eu sei que ela vai se machucar
Ela talvez não saiba
Quem soca algo afiado também se fere
A gaivota solta o plástico e sinto um súbito alívio
Um dia ela morrerá e outro dia eu morrerei
A consciência da situação é perfeita, porém sinto
como se o fardo do plástico não nos pertencesse
Na volta da praia decido usar outro caminho
Convicto enveredo por uma rua que nunca vi
E que nunca mais irei ver
Veja, mas preste bem atenção neste detalhe

Outra rua em outro bairro em outra cidade em outro estado
Alguns dirão que é o mesmo país e o mesmo mundo,
mas quem é que pode garantir uma impressão tão real assim?
O mesmo Eu andando por aí em lugares desconhecidos
O mesmo Eu apreciando tudo como se fosse a primeira vez
Há uma casa roxa da qual me esquecerei
E há um gato bicolor que desce pela janela da casa ao lado
Uma explosão de sentimentos me ocorre por dentro
Por fora apenas respiro e continuo a caminhada 
Mesmo dias depois quando parei

Eu pude sentir que havia continuado andando
Este Caos de que sou feito nunca cessa
Exponho a verdade de meu coração sem qualquer pressa
Cansado das impressões que tenho sobre o que me é alheio
Revolvo para dentro como uma tartaruga que entra no casco
Sinto uma espécie de febre e outra vez estou alheio
Há um abismo entre o que tenho e o que quero
E para ter o que quero tenho que abrir mão de coisas que tenho
Faço o que for preciso e insisto em crer que vou ficar bem
Desejo o que desejo sem sentir vergonha de desejar
Anseio pela satisfação da alma que talvez nunca se satisfaça
Os meus acertos e equívocos significam tudo para a impressão que tenho
da Canção de Mim Mesmo que nunca para de tocar
Tempestades agitam minhas entranhas
Desconfortos cósmicos me afastam do sono
Monstros inexistentes me provocam pesadelos sombrios
Sofro tudo quando deveria reagir com desdém
Busco o que busco e sei que vou ficar bem.

Antes de sair do quarto.

Hoje preciso ser sozinho. Reconheço-me em um estado profundo de torpor e uma profusão de cores anuvia minha mente. Perco momentaneamente a capacidade de distinguir e pensar. Desnudo de pudores, preconceitos e longe do vício das primeiras impressões, eu observo o mundo primeiro para depois observar e analisar a pequenez de minhas diversas versões.

Eu olho para o menino, olhe para o menino também, ria dele comigo, sustente seu mais afiado olhar de desdém. Agora observe o menino de novo e veja como ele absorve os detalhes, como se algo pudesse existir de significativo ou importante, como se a vida fosse mais que a concentração de egos em um jogo extravagante, olhe-o, vamos, por favor, ria comigo de como ele se debruça no parapeito da sacada e fita o brilho vespertino da cidade. Deite seu olhar mais pacífico sobre a figura do menino, que agora é adolescente, que amanhã será adulto e que nunca poderá ser velho, pois a velhice só chega para quem derrota a própria imaginação até que não possa mais imaginar. Olhe para o menino e extravase a dó que você sente, vamos, ele é completamente apaixonado por um mundo doente e, aos trancos e barrancos, não é capaz nem de cuidar da própria vida, mas sonha com um mundo decente e com sua capacidade em encontrar diversas saídas. Ora, pobre menino, como insiste se pode se reconhecer pequeno? Como desafia o destino com este sorriso sereno? Renda-se ao inevitável sabor do veneno e desista. Observaremos você beijar o chão e gargalharemos quando seus lábios cuspirem a terra vermelha, mas será tarde, o sabor da poeira vai repousar para sempre na ponta de sua língua. Lamentavelmente o menino se levanta todo sujo de terra e, sem lamentação, sem comiseração, sem perdão, nós todos rimos do seu instinto revolucionário que supõe ter o poder de provocar guerras.

Respiro-me e me situo, recuo dois passos tentando recuperar meu espaço. Que fazia eu ao rir do menino ou era eu próprio a rir de mim em uma insinuação banal de vitalidade? Eu era o menino ou o sujeito que gargalhava do menino ou ainda os dois coexistindo simultaneamente? Que penso na metafísica ou na astrologia se buscar significado é diretamente contra a simplicidade que deveríamos buscar para sermos felizes? De que adianta nessa vida criarmos raízes se não lidamos com cicatrizes? Que provoca esse desassossego sem fim? Puxo o ar e o solto depois em uma tentativa bem sucedida de recuperar o controle de minha própria respiração. Ergo a cabeça e no céu noturno vejo o voo de um gigantesco avião, que antecipo ser gigante por já tê-lo visto de perto. A visão engana e de longe a miragem o faz menor que a minha mão destra. Os espelhos refletem nossa imagem e nos viciamos em nos observar. Cuida-se tanto a aparência que o que deveríamos ver somos incapazes de enxergar. A alma implora por alimentos, mas tudo o que posso oferecer é vulgar.

Encerrei a reflexão para tentar cessar os pensamentos, aconteço, porém, contra todas as perspectivas. Não há conclusão nesta vida. Todas as histórias continuam sem parar e o tempo nunca para de passar, assim, os relógios dos ponteiros fictícios que criamos e hoje chamamos de real existem apenas para que sejam congelados quando nos despedimos desta Vida para o que chamamos de Morte. Alguns desejam a eternidade. A Eternidade é real ou projeção de uma vontade de júbilo duradouro? Nada na vida é constante. Nada disso existe e menos ainda do que as coisas que vemos e sentimos é realmente real. Quando fecho os olhos, imagino o quarto que vi por último. Lembro-me de quando meus olhos estiveram abertos e há uma imagem quase nítida. O frio que eu sinto é real como uma sensação particular minha, mas não o sinto como se ele existisse, exceto se vejo os outros vestindo garbosos casacos e roupas elegantes e resfriados coletivos. Não fosse os outros como comprovação do frio, eu não sei nem se poderia afirmar a realidade deste mesmo frio, ainda que eu morresse por hipotermia.

Veja, a vida segue e os corpos envelhecem e os anos continuam passando e nossas peles lindas um dia serão secas e feias e nossos corpos um dia serão murchos e só nos restará a qualidade de enxergar, mesmo quando não vemos, com a profundidade que o enxergar existe. Futuramente, quando o amanhã for o presente, você vai perceber como a dor molda nossa personalidade e como o que fazemos com a dor reflete nas nossas mais drásticas atitudes. Não chore pelos caminhos não percorridos, por favor, alegre-se pelas estradas seguras e pelos momentos bons e lúcidos e reais que viveu no que agora já é passado. Chore e tire isso tudo do seu peito, eu sei, eu também estou cansado, mas ainda penso nos outros, revolto-me, minha empatia complica minhas ideias e sinto uma espécie inédita de nojo de mim. Como vou conquistar meus objetivos se persistir assim? Como conviver com este asco insistente?

Queria poder me simplificar, mas não posso. Queria poder entender o meu lugar, mas sinto um frio de inverno que me faz congelar todos os ossos. Que há de errado em mim? Que há de errado neste desejo prolixo e demorado por solidão? Sozinho posso sanar o que grita em meu coração?

Um pássaro caiu do céu e o percebi morto entre a rua e a calçada. Penso na ave como penso na vida e me pergunto se o pássaro costumava voar sozinho ou acompanhado, se havia morrido caçando comida ou se já havia se alimentado, se deixou filhotes no ninho e, a complexidade da minha mente me enche de pavor e sinto uma vontade inenarrável de chorar. Não, eu não estou de luto pela morte do pássaro, era apenas um pássaro como outros milhares, estou cônscio, entro em estado de luto por tudo o que isso me significa e não deveria significar. Meu desespero é crescente e medito sobre os desesperados. O infortúnio é pensar sobre o que existe na vida quando deveríamos apenas vivê-la. A miséria do homem é só lembrar do que deixa como dívida e se esquecer de olhar as estrelas. Planetas acenam suas cores distantes para os minúsculos e deselegantes seres da Terra. Os corpos dos mortos retornam ao solo e se transformam em adubo e ervas.

Vejo o que vejo como vejo, mas fico atento para não transformar o que existe como coisa real em apenas um reflexo falso baseado nas minhas impressões pessoais. Sigo os movimentos felinos da gata preta e me sinto longe da capacidade de prever suas ações. Sou brevemente feliz por não saber o que acontecerá em seguida. Nenhum dos movimentos dela depende dos meus e celebro essa distância que há entre nós como um segredo ancestral que carrego no peito e na vida. Ouço a música e os ritmos e sorrio por não saber criar músicas e por não conhecer todos os ritmos. O que me escapa é o que torna feliz, assim, alegro-me com coisas que eu nunca quis. Fiz de mim um sujeito uniforme, que é retilíneo e corajoso, ainda que machuque pessoas pelas estradas desta vida. Quem sai impune? Não ajo com falsidade, pois a sinceridade se tornou natural e extravasa na ponta da língua. Observo o lusco-fusco sem sol e as janelas solitárias ornam com ruas que conheço como a palma da mão, mas que não são minhas. Eu sou mais do que as coisas que tive e sei disso e me regozijo por enfrentar minhas lutas singulares, não, hoje percebo que não posso e nem preciso vencer todas as lutas, posso caminhar junto, ainda que nem sempre deva, mas canso de restringir minhas capacidades ao que me é alheio e me incendeio por um futuro qual eu dependa exclusivamente de mim.

Deito-me no colchão que foi fabricado e no piso do segundo andar que foi construído e, enfim, deito-me na terra que estava e sempre esteve ali. Escapa-me o mundo, porém, sinto-me mais conectado com a Verdade da minha alma e sei que apenas minhas palavras podem alimentá-la. Procuro o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto que a resposta se aproxima a cada novo trecho, conto e verso, assim, escrevo-me pela liberdade que desejo possuir, escrevo, pois escrever é mais importante do que sorrir e agora anseio pela solidão desacompanhada e nem meu amor, nem minha imaginação, nem minha gata, nem meu cão, ninguém mesmo pode me confortar. As palavras soltas talvez possam. Não, nem mesmo as palavras e os textos. Fecho os olhos e sinto tudo me deixar.

Abraço a Verdade do meu mundo como quem olha para um vislumbre da Beleza original pela primeira vez na vida. A luz é muito forte e me cega temporariamente e fecho meus olhos, sem precisar imaginar uma beleza inventada pela minha poderosa imaginação. Nunca envelhecerei, nunca morrerei, pois nunca nem soube se algum dia estive vivo. Será que estive?

Escuto a Voz do mundo me resgatando da Escuridão e do Vazio e ela se parece com a sua voz. Sinto saudades, mas não quero ser resgatado. Confesso que bem correria para os braços que quero que me abracem, mas qualquer conforto é oposto ao que tenho mirado. Pelos outros, eu vou correr no sentido contrário. A minha missão encontra sua conclusão do outro lado. Desejo fervorosamente superar meu medo do escuro e juro que ainda nesta vida este pavor some. Juro pela honra jamais esquecida e pelo valor de meu próprio nome. Pois nomes são importantes, devemos recordá-los e não podemos perder a identidade. Repito e ecoa o silêncio que me afasta ainda mais da vaidade.

Não me finjo, mas talvez eu exista exagerado, demasiado, expansivo, estranho, prolixo, muito. Não me finjo. O cumprimento da missão não teria sentido, acaso minha missão fosse centrada apenas na autorrealização e não evoco esta palavra como mantras culturais e sim como o desejo de se impor, de vencer sozinho. Os que só pensam em seus umbigos nunca sabem para onde vão e, ainda que muitos destes sejam ótimos oradores, fervorosos nos discursos contra os contos de fadas, no âmago deles repousa contraditoriamente uma vontade púrpura de voar. Preciso me tornar quem eu nasci para ser e encontrar o rosto que eu tinha no momento da Criação. Necessito vislumbrar a Verdade qual existe além da verdade que conheço. Posso encontrá-la antes do fim? Claro, principalmente tendo a consciência de que o fim pode não ser exatamente o fim. Não sinto nada e em seguida sinto tudo. Diante da violência assustadora, eu permaneço mudo e pego impulso para o maior dos saltos. Quero combater a vileza, apesar dos meus vestígios de cansaço.

E sofro o sofrimento vulgar de bilhões, pois meu coração está despedaçado, decidido e dividido. Sofro internamente os ventos incessantes de furacões que surgem e não posso salvar todos e nem oferecer abrigo. Resigno-me totalmente e me vejo diante de uma situação fatalista qual não posso fugir, correr, evitar ou disfarçar. Essa é a vida e este sofrimento me faz ter a certeza de que não sonho. O vento amaina, mas não para, assim como a minha respiração.

Os movimentos dos animais, o constante correr das horas, as coisas frágeis, tudo o que foge ao controle, tudo isso existe como a representação simbólica e discreta da fragmentação divina da vida. Deus não fala em voz alta, mas os teístas seguem suas palavras. Será que o melhor presente divino foi a oportunidade de apreciar o silêncio?

Sinto o cheiro da chuva e sei que ele pode ser uma impressão do que eu gostaria que acontecesse. Só quando as gotas despencarem do céu terei a certeza se a minha impressão foi baseada na realidade fática ou apenas na minha vontade. Penso os pensamentos proibidos e me destoo dos tantos vulgares que cogitam uma espécie de limitação intelectual pré-estabelecida. Não compartilho meus hábitos e procuro a minha solidão. Hoje preciso ser sozinho. Hoje preciso existir sozinho.

Escuto um barulho interno e é o meu próprio corpo, existindo como coisa real, que me alerta da fome. Eu não como nada há horas e é preciso obedecer a uma ordem que surge de dentro. Poderia dizer não a mim, como muitas vezes já o disse, mas mereço um jantar discreto. Sigo aqui enquanto meus dedos não se descansam e eu teclo. Se tivesse disposição e não sentisse dores de cabeça, eu dirigiria para longe do meu computador e dos meus problemas. Tenho coisa nenhuma e coisa nenhuma me tem. Perco-me, enfim, até das ilusões do Mal e do Bem. A ilusão pode ser o primeiro dos prazeres, mas só é prazer porque nos deleitamos também com o que é falso. O que é memória, verdadeira ou falsa, pode se manter em nosso encalço. Canso-me de minhas impressões e de minhas próprias histórias e de minhas próprias palavras.

Quero vagar por aí como um anjo sem asas.

Quero que o mundo para chamar de quintal de casa.

Quero tudo, mas não posso ser egoísta e devo escolher meus caminhos.

Um dia ainda mudo, mas hoje preciso existir sozinho. Ligo a televisão e apago a luz antes de sair do quarto. Desço as escadas e este é o fim.

Eu não fui…

Eu não fui daquelas crianças que corriam descalças no asfalto, como se as pedras lhes fossem alheias aos pés. Eu gostaria de ter sido, mas não fui. Eu me machucava com facilidade, recolhia-me para o meu mundo e me permitia desaparecer dentro de mim. Eu me buscava, mesmo muito antes de saber que existia uma possibilidade de me encontrar.

Eu acontecia invariavelmente de dentro para fora e controlava meus pensamentos na mesma medida. Esse processo ocorria até que a minha imaginação se forçasse além do que existia da racionalidade geralmente permitida. As pessoas não me entendiam e nem compreendiam como eu vivia longe, ainda que estivesse perto, ainda que parecesse tão próximo. Eu habitava o meu mundo e rezava para que os vislumbres de heroísmo que explodiam em minha alma um dia se forçassem diante da minha covardia externa.

Eu até caí de joelhos duas ou três vezes na rua, mas o exterior mundano nunca me soou confortável e eu vivia apavorado. Eu amava minha casa e meus videogames, a minha reclusão e o meu canto, era ali onde eu existia sozinho e sozinho criava companhias. Soube desde novo apreciar o que havia de especial em mim, assim, eu corria atrasado para buscar o que todos buscavam, mas me antecipei na rara busca do autoconhecimento.

Atrasei-me na vida. Longe das ruas, eu cresci no meu próprio tempo, observava as estrelas e a lua, bem como a vida que acontecia a todo o momento. Demorei para ver a primeira mulher nua e por essas e outras sempre me chamaram de lento. Costumava me adiantar até o dia que briguei com o tempo. Argumentava sobre a minha vida em solilóquios otimistas. Erguia o punho para combater os vigaristas. Ainda fraco, eu ostentava ao alto o meu coração. Sabia que um dia abriria mão de tudo pela minha missão.

Se o sofrimento significa a vida, eu escolho sofrer em solidão e encontrar meu próprio significado. Se conheço a verdade do que me é Certo, eu não posso me permitir escolher o Errado. Veja, eu sei bem o que acontece comigo, mas preciso tentar me explicar. Meu coração nômade anseia pela data qual ele vai se reencontrar. Até lá, eu dificilmente estabeleço morada e tudo o que chamo de casa realmente me conforta. Preciso escrever os novos livros e cruzar novas portas. Preciso ser quem eu não fui para evitar qualquer impulso pedante. Preciso ser quem eu fui para nunca mais ser o mesmo de antes. Nesta jornada pela busca do meu rosto verdadeiro, eu preciso me encontrar. Sofra se tiver de sofrer. Sangre se tiver de sangrar.

Porque lá no fundo a dor é uma velha conhecida. Ela me abraça e repousa em minha alma, apenas levemente adormecida. Desde criança deixo que a dor faça o seu papel. Desde pequeno atraso pontualmente ou me antecipo em dias invertidos. Se eu ainda soubesse explicar o que acontece comigo…

Um dia…

É necessário certo desprendimento intelectual para conjecturar hipóteses que sejam desconfortáveis. Olha, eu nasci neste lugar, mas não há nada que me prenda aqui, exceto os falsos aprisionamentos quais são obras ficcionais da minha tão criativa mente e aos quais me submeti. Olha, pois o mundo é grande e nele cabe quase toda ambição que tive, mas veja, há impossibilidades para o plano real das coisas, assim, conjecturo-me em cenários novos, diferentes, distante me vejo e reconheço o desejo, fora cresço, ainda distinto e decente, mas buscando outra vida e a realização de que posso encontrar o rosto que eu tinha antes da criação do Universo.

Sou o que posso e talvez amanhã possa ser mais por sentir que hoje ainda não posso ser exatamente o suficiente. Esta suficiência da qual falo objetiva unicamente o meu próprio agrado e a minha singular satisfação, pois como escreveu outrora Machado em Dom Casmurro, “se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo e, essa lacuna é tudo”.

O alcance deles é vasto e o meu pequeno. Quando as luzes se apagam, eu me pego tremendo. Sou obcecado com mudar o mundo para melhor e com a dieta diária do consumo de chocolates amargos e ovos mexidos. Mudo algo verdadeiramente? Faço ou poderei fazer coisas boas? Há os que me dizem de maneira objetiva que eu já faço a diferença e, eu me pergunto, eles geralmente gastam o tempo lendo os meus discursos ou elogiam mais por uma questão de decoro social? Quem sabe eles não pensem “você é péssimo, terrível, horroroso, mas eu sou legal e por isso vou te incentivar, vá, continue tentando, amigo”. Pergunto-me se a avaliação de uma estrela é sincera, pois é desacompanhada de explicações e, agora me pego estático e sério. Os corações das pessoas são cheios de revoltas e mistérios, assim, vejo-me com um desconforto. Nunca posso querer condenar o meu coração pelas inconstâncias e contradições. O que vale no fim do dia é ser honesto, certo?

Supostamente H. D. Thoreau disse certa vez: mais do que amor, do que dinheiro, do que fé, do que fama, do que justiça, dê-me a verdade.

O que significava essa obsessão com a Verdade? Nossa verdade equivale-se ao nosso propósito e tudo o que fica entre a Verdade e o Objetivo é frívolo? Penso, assim, sobre minhas próprias paranoias e principalmente sobre o que considero essencial ao que me condiciona como ser humano. Poderia dizer que viveria sem o ventilador, sem o ar-condicionado, sem comer quaisquer tipos de carne, mas qual é o sentido de abdicar de algo que torna a vida mais prática? Essas coisas todas, essas que tornam a existência facilitada e prática, elas de certa forma se transformam em vícios para que nós deixemos de ver o próprio protagonismo que deveríamos exercer na Vida? Disfarçamos nossas intenções reais inserindo distrações significativas antes delas? O que é que insistimos em não ver?

Vivo como se eu tivesse sempre mais um dia e isso me incomoda. Consciente deste mundo no qual sobrevivo, eu busco não me esquecer da fragilidade da vida. Ontem mesmo era começo do novo milênio e não muitos meses depois a minha avó falecia. Que me comove na morte de uma avó que se preocupava em me preparar tomates com sal e não me comove nas milhares de mortes cotidianas? Que me torna alheio quando, às vezes, sinto que deveria mergulhar no sofrimento mundano? As ideias, os pensamentos, o que me move, é tudo inversamente proporcional ao que me socorre. Tenho gastado minhas reflexões na esperança inútil de que meus pensamentos se esvaziem e de que eu possa encontrar paz após tanto meditar. Encontro-me com mais perguntas e mais contradições e mais percalços. O que é que há de admirável no quintal do vizinho para que ele seja tão exaltado se tenho o quintal tão bonito quanto? Não, não sou eu que faço essas comparações, admito que meu quintal me satisfaz, embora eu esteja notoriamente atrasado para arrancar a promessa de matagal que reside naquelas tantas ervas daninhas, mas suponho-me na existência alheia e busco entender o que por vezes considero incompreensível. A inveja, o vil, o torpe, o maligno, eu já tive vontade de incorporar essas características, porém olho o mundo e o vejo substancialmente negativo. Quão conveniente seria eu se agisse em lapsos de fúria e me tornasse uma espécie de hedonista, um sujeito egoísta, que só existe como indivíduo e individualmente? Há coisas mais importantes que os prazeres. Há funções mais importantes que sentimentos. Há só uma maneira de seguir de peito aberto e com a cabeça erguida, mas há um preço que se paga para ser assim. Eu pago.

Vejo-os, quando não me vejo. Desligo-me da existência para fazer parte de outra coisa e olhar melhor para a minha missão. Como tantos nascem e morrem sem sequer meditarem sobre a missão? A vida pode decorrer tediosa, vaga e sem propósito? Percebo pela minha capacidade de observação que muitos são extremamente dedicados ao trabalho, ainda que o trabalho lhes pague apenas dinheiro e humilhações. Devemos permitir que sejamos humilhados? Aceitam o trabalho, mesmo quando o trabalho é inerente ao declínio, mesmo que notoriamente a noção de cumprir o dever te sopre para a beira de um precipício. Os que caem demoram para se recuperar e os que não caem, creem puerilmente que nunca irão cair, assim, o melhor alimento da ilusão é a expectativa de poder e o melhor alimento da alma é a expectativa da realização de todos os nossos desejos, por mais que os desejos se extravasem na esfera singular da existência e necessitem de outras pessoas para que sejam realizados.

Sei pelo que determinadas pessoas me abandonariam, pois outras me abandonaram. Será que sou capaz de abandonar todos?

Nenhuma dor pelo dano (Leminski).

Há outros mundos além deste (S. King).

Tem que ser assim (M. Kundera).

Desde a infância respeito meus espaços particulares e preciso de doses pontuais de solidão para não amargar a vida. Se tenho o que necessito, eu transbordo a minha doçura e não é incomum que dissertem e narrem por aí sobre o quanto me sentem e me enxergam realmente doce. Sou uma espécie de sujeito comum com ímpetos de heroísmo e desafio improbabilidades fazendo das minhas cenas presentes minhas novas evoluções. Persegui o pôr do sol em janeiro, quando voltava com quase todos os meus melhores amigos para Campo Grande. Dirigi sozinho na ida e na volta, enfrentei a chuva e a neblina e desci e subi várias serras. Ao final do percurso da volta, eu decidi que chegaríamos em casa ainda de noite. Persegui o sol pelo que pareceram horas, mas os minutos nunca haviam passado tão lentamente. Um dos amigos estava exausto e dormia, outro seguia quieto e discreto no próprio canto e havia um que estava ansioso e tenso com a iminente chegada da noite. A escuridão engolia a estrada e o carro branco persistia vivo com os faróis acesos.

Se sei de algo, eu creio que agora possa confessar, é que não sei de coisa alguma. Sou capaz de lampejos de brilhantismo e atitudes heroicas, exagero-me quando me dedico e me sinto inflado por uma coragem tão poderosa e real que me aproxima da Coragem original. Sei também que em diversos momentos sou deprimente, fraco e inútil. Não admito vulgaridades e quando sou vulgar, excedo-me na raiva que sinto por mim, pois há certas características comportamentais quais não posso tolerar no meu próprio ser. Encontro-me com o meu reflexo várias vezes ao dia, seja nos retrovisores ou espelhos ou poças d’água. A autoimagem deve me agradar e se me vejo sujo, eu faço questão de nunca mais enveredar pelos caminhos quais me sujei.

Outra vez me consterno ao me encontrar no meu constante estado soporífero. Perto de sentir o sono, não me permito dormir. O sono é vão e a vida ocorre nos intervalos de meus piores pesadelos e de meus maiores sonhos. Sonhei-me majestade e fiz mais sentido podendo proteger o meu povo. Sonhei-me mendigo e me senti feliz ao dividir minha pouca comida com o meu cachorro. Sonhei-me gota de chuva em queda livre e fui feliz despencando do céu para o telhado de uma casa. Não muito depois evaporei e da minha presença nada restou. Sonhei-me como um gato entediado que dormia dezoito horas por dia. Todos os sonhos me apraziam mais do que a penosa realidade de ser apenas quem sou. Todos os sonhos me faziam ser algo mais, algo que nunca serei.

Trabalhei e ganhei dinheiro, conquistei pessoas, fui amado e juro que até amei. Perdi dinheiro, perdi amores, trabalhei e fui demitido, trabalhei e me demiti, pediram para que eu reconsiderasse o meu pedido de demissão, eu reconsiderei, mas por um dia e me demiti, juntei dinheiro, juntei afeto, fui amado e desamado e, enfim, amei de novo. O relógio da vida conta os meus minutos e eu conto a probabilidade de me entregar aos meus impulsos. Sou insistentemente racional e não me permito ser tão vil. Nunca traí meus amigos e nunca os trairei, ainda que admita, humanamente posso carregar essa vontade que até hoje nunca carreguei comigo. Espero que nunca carregue, mas sei posso. Espero não fazer o mal, mas sei também que posso e que uma atitude muda tudo. Espero não me render, mas sei que a maioria se rende.

O poder é a moeda do nosso verdadeiro valor. O poder aquisitivo, o poder sedutor, o poder do carisma, o poder de mudar o coração das pessoas, o poder de receber tudo e dar tudo. Ter a consciência dos diversos poderes que obtemos durante a vida e não os utilizar para propósitos egoístas, viciosos ou viciados, talvez seja o verdadeiro teste. Qual é o seu maior poder e como você se utiliza dele? É estranho. Quando ajudamos geralmente esperamos a reciprocidade no momento de dificuldade. Se emprestamos, esperamos que quitem as dívidas conosco. Se não há barganha, o que resta? O que entregamos de graça? O que acontece quando somos cônscios de nossos poderes e de nossas capacidades plenas e, subsistimos e insistimos em uma vida na qual sobrevivemos com educação e humildade? O quanto a tranquilidade não é confundida com a passividade? O quanto não nos subestimam por termos a capacidade de escolhermos os nossos próprios caminhos? A maioria dos ciclos se repete, mas por que diabos eu deveria me permitir a viver uma vida cíclica se me falho em repetir nas minhas constâncias e inconstâncias? Mudo e me aceito, ainda que desconfortável. Minhas mudanças são discretas ou extravagantes, mas são minhas. Aqui grita o meu protagonismo. Sinto uma distância incalculável para com as pessoas que vivem a vida para servir outras pessoas. Vivo a dizer que devemos ter sonhos e ambições individuais, mas reconheço, na verdade, que não tenho o direito de opinar sobre existências, sonhos e objetivos que me são alheios.

Pisco os olhos e respiro com somente uma de minhas narinas, pois a outra não é funcional. Observo tudo com um interesse crescente que subitamente se transforma em desinteresse. Capto imperfeições na pele, detalhes nos sorrisos, gestos de ansiedade transparecendo pelas mãos, vejo a roupa marcada pelo suor e noto como me notam. Uns me subestimam, outros torcem o nariz, ainda há quem me ache bonito ou alto e, até mesmo bonito e alto. Sou chamativo e não me envergonho. Sou como sou e não seria diferente, mesmo se pudesse escolher. Quase todos pensam que eu não os vejo, mas eu vejo quase sempre quase tudo.

Só o hoje me interessa. Só o hoje existe. O passado foi o presente antes e o futuro só acontecerá também no presente. Acordo em novos dias e a minha vida é uma página em branco. Ainda tenho a juventude ao meu lado. Posso mudar tudo, posso fazer tudo, posso focar na missão. Posso devanear e aprender novos idiomas, morar em outros países, abarcar novas civilizações e abraçar novas lições. Nunca me busquei, mas talvez este seja o tempo. Nunca busquei viver a minha vida, mas sou inundado por instintos de coragem que me forçam ao protagonismo. Sou dono de mim e mereço escolher o meu caminho. Mereço ser feliz, eu sei, mereço o amor, eu sei, mereço boas pessoas e sou cercado por elas, eu sei também, mas cresce subitamente em mim a ânsia de realizar a missão.

E se o primeiro avião desaparecer no negrume da noite, eu viverei meu luto em silêncio.

E na manhã seguinte sorrirei sabendo que outro avião partirá.

A vida, eu hoje penso, é uma jornada pelos caminhos já percorridos, mas que ainda nos são inéditos. Só eu posso me livrar do próprio tédio e encontrar o meu propósito. Oh, vida! Escuta a minha voz nesta terça-feira? Dê-me uma saída para que eu seja sério até nas minhas brincadeiras e, assim, que eu nunca desista do que me faz ser exatamente quem sou.

Ainda busco o rosto que eu tinha antes da criação do Universo, mas de maneiras diferentes. Pego a chave do meu carro, que é meu porque eu o comprei, e saio de casa. Hoje não vou perseguir o pôr do sol, mas sinto que persigo o meu âmago.

Acelero o meu carro no final da tarde
Os sons do trânsito caótico me confortam
Alegro-me em conviver com a poluição sonora
Obedeço aos sinais e confio no amarelo
A vida é pelo risco, mas dentro desta máquina
Confesso-me muito mais arisco e cauteloso
A vida é o que fazemos dela e isso me inquieta
A vida é o que fazemos dela e sorrio

A vida é o que ainda farei dela
Sigo dirigindo e tendo paciência
Existo como muitos que dirigem
solitários dentro de seus próprios carros
O meu carro branco se parece com outros,
mas certamente é único no mundo
Dentro dele eu sou o motorista
E o carro confere a mim uma função
qual não posso exercer sem ele
Eu me pareço com muitos outros,
entretanto, sei que sou único
Ouvi sobre o Bem e o Mal
E certa feita não vi bem e mal

Não compreendi a praticidade
desta fútil e insensata divisão
Conheci pessoas reais mais mentirosas
que o próprio Pinóquio e jurei
reconhecer o Gepeto vendendo doces em um bar
Ouvi sobre o Bem e o Mal
Ouvi sobre os ensaios de vileza,
mas não vi mais coisa alguma
Vi apenas outros carros
E outros motoristas e outros passageiros
A maioria agora veste máscaras
e isso tudo não é uma metáfora cafona
Vejo uma réstia do pôr do sol
e me recordo de que em janeiro o persegui
Se eu fosse o mago Howl
talvez até pudesse o engolir
Sonho cadente e secreto que sonho
qual sigo sentado no banco do carro
O objetivo ao que me proponho
pode ser difícil, mas nunca caro
Resisto nas hipóteses e nos fracassos
Persisto como quase ninguém persiste
De cabeça erguida, apesar do cansaço
Sinto falta do trabalho e do dinheiro,
mas não tanta falta de mim
Existia àquela época outro jeito?
Sim, não, tanto faz, mas tinha que ser assim
E devaneio-me em jornadas novas
Sou um andarilho sem cura e sem causa
A salvação não é para todos?
Podemos encarar a vida como um jogo?
Encontros como este são cada vez mais raros
Veja bem do que vai abrir mão
Não espero retornos, assim, nada retorna
Complico o simples e simplifico o complicado
Preciso aprender a falar japonês o quanto antes
Sinto vontade de beber água e cerveja
Sinto vontade de compartilhar minha intimidade,
mas nunca desejo dividir meus hábitos

Afaste-se e me deixe em paz
Queria mais café com a chuva caindo
e a paisagem me soou como um quadro
O deserto do Atacama é o mais árido do mundo
E ainda assim nele há vida
Não importa o quão você tenha ido fundo
há sempre uma saída
Tudo pode ser,
desde que tenha paciência
Tudo pode acontecer,
desde que lide com as consequências
Isso é a vida ou é um novo sonho?
Espero comer chocolates amargos ao final do dia
Espero estar em Londres ou em Londrina ou em Lisboa
quando o meu cansaço me roubar a consciência e a subjetividade
Espero ficar aqui onde estou seguro
Espero ficar longe onde estou desprotegido
Espero tudo e admito que não espero nada
Confio a vida nos pneus do meu carro e no motor
Confio que há coisas tão importantes quanto a Felicidade e o Amor
Preciso continuar insistindo neste Amor
Preciso perpetuá-lo, não importa como,
Pois vive em mim o desejo de tornar o mundo mais bonito
Enquanto não encontro soluções medito dentro de meu carro
Dirigindo para um rumo certo ou para o deserto infinito
Quando tudo se perdeu e

me notei distante do que queria
Sussurrei toda minha esperança

defronte aos medos
Um dia.

Abstração

A representação da vida como coisa real geralmente nos escapa.

Localizo-me no meu quarto e sinto o suor escorrendo pelas minhas costas e pelo meu antebraço. Anoiteceu outra vez e me pergunto sobre o que seria da minha vida acaso não houvessem novas noites. Poderia eu seguir tranquilamente em um mundo que só comporta o lume ou necessito da escuridão e da densidade noturna para certificar de que sigo cônscio e no controle de minhas próprias ações?

Tragédia mundana qual me sinto destinado. Posso acertar minhas próprias ações ou estou fadado a dar errado?

Vejo-os, principalmente quando não me vejo. Vejo-me, apenas quando deixo de ver o restante do mundo. Observo-os e me sinto arrefecer. Não me observo e sinto a minha ausência. Escrevo para diminuir a distância entre quem sou e quem sinto que deveria ser? Que é que deveria fazer para me aproximar mais de quem está tão distante? Existe drama qual devo me render que faça minha vida simplória mais elegante?

O silêncio devastador é interrompido pelo ronco incessante do motor do ar-condicionado. A gata preta desfila atravessando o espaço curto da mesa. Segue o seu rumo com passos delicados, repletos de requinte e, sem se encostar em nada, deita no meu travesseiro e só mexe eventualmente suas atentas orelhas.

O sono dos felinos, as sinas e destinos, os instantes de descansos breves e seculares, a inevitabilidade, a boa utilização do tempo, a individualidade, os lugares, tudo me torna mais leve e tudo também me torna mais pesado. Não divido meus fardos e nem os meus hábitos. Sei que preciso da solidão para sobreviver.

Abstraio-me do Universo e de tudo o que compõe a Vida e me sinto integrar o ambiente. Dura apenas um vislumbre de segundo, um intervalo tão fugaz, que nem o sinto na pele, mas é essa capacidade de me ver longe do mundo que me faz nutrir amor verdadeiro pelo verdadeiro Mundo.

Indago-me sobre Vida e Morte e sobre as próximas vidas que hão de existir após nossas próximas mortes. Haverá espaço e tempo para que tudo seja vivido e aproveitado? Haverá tempo hábil para que possamos realizar os sonhos que sonhamos? Haverá outras versões das nossas mesmas personalidades? Poderei deitar meu julgamento completamente subjetivo sobre a minha maneira de enxergar a existência? Outra vez me perco de mim. Enxergo todas as pessoas, menos a minha. Enxergo todas as dores, exceto a minha. Enxergo a felicidade dos mais próximos e não a minha. Que é que deveria eu fazer para me livrar deste insistente estado soporífero? Estou destinado a sofrer por um mundo que me ignora?

Príncipe diurno e deslocado de melhores horas. Sonhei-me regente em um mundo qual tudo era visto de dentro para fora. Vomitei os segredos da existência. Mergulhei no gélido oceano e me transformei em uma lontra comedora de ouriços-do-mar.

Acordo-me no mundo real, se é que faz sentido distinguir o território dos sonhos do território cotidiano. Sou o Senhor do Lago e devo fazer o que bem entender. Visto meu protagonismo como um super-herói veste sua roupa especial. Trago em mim todo o tipo de esperança vã e estúpida que me faz acreditar que posso modificar severamente os amanhãs. Onde estará meu futuro se me falho em modificar o presente?

Falho de novo e de novo. Sinto uma raiva que dura pouco. Sinto uma tristeza que persiste. A alegria pode ser disfarçada, mas não o sofrimento. Penso sobre as coisas que não posso tolerar e quase me pego chorando. Agradeço ao Acaso Divino que me fez estar com tanto sono.

Lá de longe me vejo e aceno. Estou defronte para as janelas límpidas com vistas enfumaçadas de uma fábrica que expele nuvens de fumaça branca, mas me sinto sereno. Lá de longe me vejo e não há engano. Há qualquer lugar qual sou novo filho do mar e desta vez sei que me amo. Lá de longe me vejo no clima impossivelmente gelado e distante. Talvez uma parte minha congele, mas eu sei que não volto o mesmo de antes. Lá de longe me vejo falando em japonês com os japoneses. Talvez eu me embriague em Tóquio enquanto canto meus maiores reveses.

Lá de longe me vejo acompanhado.

Lá de longe me vejo sozinho.

Lá de longe me vejo.

Lá vou eu outra vez.

Lá vou eu agora.

Lá vou eu outro dia.

Lá vou em uma nova velha vida.

Partícula irreal e incompreensível. Falhei na vida e no devaneio de minhas hipóteses. Falhei na imaginação e no sonho. Dormi acordado e vivi dormindo. Nunca encontrei o que me fosse agradável como qualquer tipo de resposta. Surgem mais perguntas e outra vez me vejo. Não há mais ninguém. Deixo de me ver e a vida inteira brilha e surgem mais uma vez as coisas todas que faltam.

O sono é o meu único Deus e rezo para que durma rápido. Divido-me entre a ânsia de sonhar e a vontade apressada de me lembrar detalhadamente dos sonhos. Pudesse eu me compreender nas partes quais não me compreendo e tudo poderia ser diferente. O que fiz de mim se calei quando deveria ter dito? O que ainda faço de mim se falhei em fazer deste um mundo mais bonito? O que fui falar quando não tinha mais o que dizer?

Amo como posso e sigo em frente. Sou como sou agora, mas talvez um dia escolha ser diferente. Que me julguem com ferocidade! Que me julguem com um caráter férreo e que eu seja alvejado! Que eu sofra com os dramas e dores do mundo! Um dia eu ainda melhoro! Um dia eu ainda mudo…

Andarilho cósmico,

Interplanetário,

Eu vi a escada de saída da Terra,
Eu também senti o cheiro de flores e ervas

Eu sei que há circunstâncias de melhorias e que eu não quero e nem posso morrer de um jeito estúpido ou banal. Não aqui. Talvez com essas pessoas. Talvez longe delas.

Quero falar outras línguas e admirar outros sotaques.

Quero que todos vejam na minha representação externa toda a capacidade estética e interna da minha alma. Quero a explosão do mundo em absoluta calma.

Hoje nenhum pedaço do planeta foi feito pra mim.

Um dia.

Ferro, vinho, romantismo, sono compartilhado e lucidez. Não sei quando, mas ainda chega minha vez. Até lá me valho dos inutensílios que encontro ao longo dos dias mais longos para continuar bem.

Isso de querer ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além.

Gastando palavras até que os dedos doam para confrontar qualquer resquício de vaidade. O sono me chama e em sonhos quero ficar face a face com a única Verdade.

Boa noite.