Eu não fui…

Eu não fui daquelas crianças que corriam descalças no asfalto, como se as pedras lhes fossem alheias aos pés. Eu gostaria de ter sido, mas não fui. Eu me machucava com facilidade, recolhia-me para o meu mundo e me permitia desaparecer dentro de mim. Eu me buscava, mesmo muito antes de saber que existia uma possibilidade de me encontrar.

Eu acontecia invariavelmente de dentro para fora e controlava meus pensamentos na mesma medida. Esse processo ocorria até que a minha imaginação se forçasse além do que existia da racionalidade geralmente permitida. As pessoas não me entendiam e nem compreendiam como eu vivia longe, ainda que estivesse perto, ainda que parecesse tão próximo. Eu habitava o meu mundo e rezava para que os vislumbres de heroísmo que explodiam em minha alma um dia se forçassem diante da minha covardia externa.

Eu até caí de joelhos duas ou três vezes na rua, mas o exterior mundano nunca me soou confortável e eu vivia apavorado. Eu amava minha casa e meus videogames, a minha reclusão e o meu canto, era ali onde eu existia sozinho e sozinho criava companhias. Soube desde novo apreciar o que havia de especial em mim, assim, eu corria atrasado para buscar o que todos buscavam, mas me antecipei na rara busca do autoconhecimento.

Atrasei-me na vida. Longe das ruas, eu cresci no meu próprio tempo, observava as estrelas e a lua, bem como a vida que acontecia a todo o momento. Demorei para ver a primeira mulher nua e por essas e outras sempre me chamaram de lento. Costumava me adiantar até o dia que briguei com o tempo. Argumentava sobre a minha vida em solilóquios otimistas. Erguia o punho para combater os vigaristas. Ainda fraco, eu ostentava ao alto o meu coração. Sabia que um dia abriria mão de tudo pela minha missão.

Se o sofrimento significa a vida, eu escolho sofrer em solidão e encontrar meu próprio significado. Se conheço a verdade do que me é Certo, eu não posso me permitir escolher o Errado. Veja, eu sei bem o que acontece comigo, mas preciso tentar me explicar. Meu coração nômade anseia pela data qual ele vai se reencontrar. Até lá, eu dificilmente estabeleço morada e tudo o que chamo de casa realmente me conforta. Preciso escrever os novos livros e cruzar novas portas. Preciso ser quem eu não fui para evitar qualquer impulso pedante. Preciso ser quem eu fui para nunca mais ser o mesmo de antes. Nesta jornada pela busca do meu rosto verdadeiro, eu preciso me encontrar. Sofra se tiver de sofrer. Sangre se tiver de sangrar.

Porque lá no fundo a dor é uma velha conhecida. Ela me abraça e repousa em minha alma, apenas levemente adormecida. Desde criança deixo que a dor faça o seu papel. Desde pequeno atraso pontualmente ou me antecipo em dias invertidos. Se eu ainda soubesse explicar o que acontece comigo…

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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