Sem título

Eu não sinto até que me machuque de vez em quando, ei, por favor, machuque-me esta noite, não, eu não quero que essa seja uma canção que se encerra no refrão ou antes mesmo disso, eu quero que possamos ser escutados através do tempo-espaço infinito, eu vou voltar para assombrar seus pesadelos quando você estiver longe de alcançar os sonhos meus e, eu vou sorrir enquanto te observo à luz daquele antigo segredo e a vejo cair nas contradições das promessas que nunca prometeu, mas disse sem dizer e a comunicação tácita também firma compromissos, eu te observo daqui, velha amiga, companheira, companheiro, veja, eu vejo que palavra é essa tão bonita, eu escuto a voz que começa mansa e termina viperina na madrugada abafada, o meu grito se abafa e tudo se esquenta, mas minha alma nunca pareceu tão gelada e, rogo, baixinho, para que me entenda quando eu falar e, discreto, movo um objeto e mudo de lugar o sofá. Sento-me então como se a posição da poltrona fizesse a diferença neste deserto ermo qual vivo e sobrevivo e aguardo na resposta certa a calma de que tanto preciso. Abismo. Quando você encara a imensidão do abismo, a imensidão do abismo te encara de volta. Tento não me inflamar pelas reações erradas, você vê, você pensa que eu penso muitos nos livros e eu penso que é melhor do que pensar na TV, mas achamos tantas coisas dos outros que acabamos com o melhor tipo de particularidade que existe na solidão da existência contínua, forçamo-nos ao poema e ao encaixe falso de uma rima e, alguém por aí ri de mim nesta madrugada sem fim e eu me sinto plácido, distancie-se de mim nestas horas escuras, meu paladar talvez esteja ácido e um cuspe seria capaz de corroer a pele mais dura, eu digo e repito, distancie-se de mim em minhas horas mais escuras, pois o verdadeiro bom é aquele que sabe a potencialidade que possui para fazer o mal e o nega, é aquele que nunca turva visão e nunca se cega, ainda que o mundo real como se apresenta nos remova toda motivação de sermos quem somos e de querer seguir em frente, não com rara frequência, a vida é cansativa e tudo o que a gente precisa às vezes é um pouco mais de paciência. Ei, seu tolo, você pode correr, mas não pode escapar e nem pode se salvar, é que todo mundo é vítima do amor e do ódio e da dor e da tristeza e mesmo os mais pomposos se ajoelham, sim, querida, eu vi sua bela face narcisa se ajoelhar em face de uma figura patética e mirrada apenas pelo amor puro, mas você tão cheia de si e repleta de beleza, veja, você estava de joelhos e de quatro por alguém quase invisível, eu sei, é complicado, nós chamamos um pouco da atenção pra nós, nós amamos melhores quando estamos sós e há uma mania que persiste em anular a própria personalidade em prol de alguém, não tremo, diante da dor subitamente me pego sereno, distante eu a vejo, de longe eu aceno e a dor dói e algumas coisas só são sentidas no estado mais sublime do Feliz ou do Triste e ignorei todas minhas notas pessoais e foquei em tudo o que existe. Eu, em mim, por mim, tentando escancarar minhas covardias e viver uma vida de coragem, tentando me embrenhar na mata só para provar meu instinto selvagem e me ver sangrando como alguém que também é capaz de fazer sangrar, de estar cônscio do momento certo ou errado de me afastar e ser proibido de tomar café, pois a audição de repente corre risco e a taxa de cafeína no sangue zera, mas nunca para esse maldito chuvisco e me arrisco de novo, bebo o cafezinho, pois talvez a vida só valha a pena se for assim. Insisto no que me faz, ainda que sutilmente, a continuar, viver feliz assim.

E me importo com todos
e quase ninguém se importa comigo.

Devo ter uma estrela no lugar do coração
e todo meu brilho deve ter sido engolido.

E me importo com todos
até nos dias de nuvens cinzentas.

E se projeta o meu corpo como escudo
de tudo o que considero uma atitude violenta.

E me importo com todos
Consciente de que isso não é saudável.

E sigo em frente, inconsequente,
Ainda que cada dia menos afável.

No próximo poente tão quente
Talvez o cenário seja mais favorável.

E me importo com todos,
mesmo que ninguém se importe comigo
ou com minhas estúpidas raízes.

É a sina de quem é feito de fogo
Ser esquecido e sobreviver
repleto de cicatrizes.

E eu tentei avisar que não é preciso esperar até os setenta anos para nos tornarmos sábios. E tentei avisar que a vida é agora e que não vale a pena apostarmos no que é claramente plágio. Ágil, eu acenei indicando a minha despedida. Fracasso, mas me pertenço e faço o que faço com a minha cabeça erguida.

Go then. There are other worlds than these.

E o meu coração hoje feliz segue sempre por um triz.
E a minha alma dança inspirada.
E o meu coração hoje feliz segue por um triz.
E a minha essência engrandece calada.
E o meu coração hoje feliz segue.
E eu que não sei dançar danço.
E o meu coração hoje é feliz.
E feliz eu finalmente canto.

Por mim.

E pelos outros.

Nunca meu tanto poderá ser tão pouco.

Com carinho e amor,

Daniel Rosa Possari.

4h30

Entre os vivos
Eu era o mais morto
Entre os direitos
Eu era o mais torto
Póstumo será o próximo relato
A ficção soa distante,
embora também seja fato
E eu me vejo em lugares distantes
Defronte aos opulentos pórticos
Mera partícula do Universo infinito
E tão real quanto meu sonho
Entre os mortos
Eu era o mais vivo
Entre os decididos
Eu era o mais indeciso
Mas caminhava com a segurança
sutil de quem aprendeu a aprender
Conhecer o mundo e suas pessoas
virou partina da rotina e meu lazer
Talvez cantem canções sobre minh’alma
Talvez os trovões todos
se transmutem em calma
Quando eu passar
Talvez flores desabrochadas voltem
e precisem nascer de novo
Talvez nesta era de trevas
Eu apresente meu jogo
E sem coroas, eu reine
Lado a lado com milhares
de vivos realmente vivos
Para que um dia eu avance
para o lado dos mortos
que realmente não voltarão
Esta meia vida perturbadora
É cheia de nós dos quais a gente se esquece
E numa súplica constrangedora
a gente fecha os olhos e agradece
Mesmo sem saber direito o que é digno de gratidão
E lança outra prece para que a luz diurna
espante os males da escuridão
O Eu Real enfrenta
O Eu ideal
Eu me encontro
Sorrio e choro ou
choro e aí sorrio
Arrepio
Morro se for preciso
mas me vivo
Morro se for preciso
mas canto
Morro se for preciso
mas luto
Escrevo o que sou
Escrevo o que são
E para onde vou
Escrevo com a tinta do coração
E molho a pena ou renovo a tinta
da caneta com o meu próprio sangue
Dedico-me, até ser dominado pela preguiça
Continuo e meus pelos se eriçam
O mais vivo entre os mortos
O mais morto entre os vivos
O meio termo que nunca se equilibra
A faca de um gume só que corta e fere
O sangue derramado e a sombra de perigo
A luz solar e o calor para oferecer ao mundo abrigo
A insensatez do amor verdadeiro
Partícula real, porém desconhecida
Uma canção não inventada
que vale a pena ser cantada
Mesmo nas despedidas
Vou e fico ou
fico mesmo quando vou
A sombra do que sintetizo
Qualquer coisa sutil
como amor
Escrevo e talvez leiam
sobre o mais vivo entre os mortos
E sobre o mais mortos entre os vivos
Escrevo porque as palavras representam o que sou
Escrevo porque é tudo o que eu preciso
Talvez cantem canções sobre…

Crônica Pregressa #5

Convite

Gata preta que traz boa sorte, arco-íris de chão. Eu peguei só a geladeira, a cama e o desgastado colchão. Segurei as mãos dela e me calei. Quando falo muito sempre digo pouco.

Não pretendia que as coisas fossem assim, mas é que de tanto pretender acabei perdendo o que acontecia bem diante de mim. Choveram estrelas na noite passada, você notou? Incontáveis, cadentes, repletas de pedidos, esperanças e milagres, mas igualmente incapazes diante da sombra da ideia do amor. Havia esmeraldas na escuridão, você as pegou? Soltei os fantasmas do porão. Algum deles te assustou? Tantos olhos embriagados vagaram pela madrugada buscando uma distração. Você pode dizer que achou?

Houve um boato na noite passada. Confessaram-me vários segredos, mas nenhum que me desse arrepios. A noite nublada também era enluarada e expunha tantos fatos e medos, mas só os solitários notaram os tantos espaços vazios. Onde é que você estava quando a dor se tornou tão pungente? Soprei a última luz de vela e encontrei uma bela fada endiabrada no momento em que se alimentava de uma estrela cadente. Quem é que não mente quando falta o que dizer? Quem é o que sente quando tenta não sentir o que quer esquecer?

Encontrei um velho amigo em sonhos e ele me olhou divertido e risonho. Fui feliz. Encontrei o primeiro beijo sentado em uma árvore derrubada, mas quando abri os olhos havia menos que nada. Fui feliz também. Sempre jogo apostando, exceto quando o assunto é amor. O que é que ganho ao deixar outros provarem meu sabor? Sou singular e o resto que se dane, pois estou me lavando agora. De vocês, dos sonhos, planos e das velharias. Vou dominar o idioma francês e abrir minha própria cafeteria. Batuco meu peito e pareço tão oco. Queria oferecer-lhe o Universo, mas esta noite sou tão pouco.

Sou feito da poeira mais pura. Todos os meus pensamentos belos e idiotas são feitos de matéria que perdura. Transformo-me em vidro e sou quebrado. Por que importa ser certo em um mundo que aprecia só o que se faz de errado? Estilhaço, quebro, espalho-me no chão. Quase ninguém toma cuidado e menos da metade de quem nota não evita um novo pisão. O que fazer se é tão frágil meu coração? Cuidado se resolver tentar a sorte e me remontar. Meus cacos são tão afiados que mesmo sem intenção posso machucar. Corte de gastos, orçamento, contabilidade. Falta-me a habilidade para desapegar dos sentimentos, mas construo aqui meus novos atos, sem vaidade, enfim, é o meu momento. Quando as estrelas despencaram como gotículas, os brilhos foram louvados e ninguém sentiu vontade de apagar o outro.

Gata branca de estrada, cachorro da mais bela alma, arco-íris de chão. Eu peguei só o pouco que tinha e lhe entreguei o meu coração. Não sabia como era o misterioso rosto dela, mas eram quentes suas pequenas mãos. Olhei para aquela chance de aventura morando em um ponto de interrogação. Sorri docilmente com meus olhos em chamas, mas de alguma forma ofereci também o mais confortável abrigo. Respirei fundo e perguntei a ela, para a incógnita dos dias que virão, você está disposta a partir comigo?

Refúgio

Ele se adianta e não consegue fugir.

Está
cansado
da
fuga.

Não sabe dizer quando parou de cair.

Será
mesmo
que
parou?

É que quando você passa muito tempo no chão corre o risco de se esquecer da diferença entre os patamares e os ângulos e todas essas perspectivas.

Ele
revolve
para
dentro
.

Há muito o que olhar. Às vezes sente como se a realidade alheia fosse irreal se comparada com a sua. De quando em quando, observa-se, contempla-se e se permite ficar em seu próprio quarto. O ambiente se torna o Universo e ele se torna o Deus daquele mundo tão particular.

Ele
pensa
melhor
sem camisa.

Assim tira a camiseta primeiro e a joga no chão. Colocá-la no cesto de roupas sujas é algo que pode esperar. Agora bebe água, cerveja, chá, suco e faz do ato de ingerir qualquer líquido uma distração. Distração para quê? Distração do quê?

Ele
pensa
em voz alta
Às vezes se
enraive com
quem não quer
buscar seus caminhos
Tantos preferem atalhos

Como explicar?

Ele liga o videogame e joga. Recorda-se dos primeiros anos e dos primeiros jogos e sorri. A sua infância tem um gosto doce e ele desce alegremente e sem se preocupar com a conveniência de pegar suas estradas para locais seguros. Está defronte ao Super Nintendo, ao Gameboy de tela verde, ao Playstation I. Os videogames o fazem feliz. A solidão o faz feliz. Ele olha com a atenção necessária os jogos, as pessoas e os espaços vazios. Observa a vida e a alegria. Cresce no peito do garoto uma vontade de ser maravilhoso.

O que
quer dizer com
ser maravilhoso?

Quem realmente sabe? Um dia o garoto apostará em si mesmo. Acreditará em sonhos, pessoas e amor. Acreditará nos exercícios físicos e na cafeína, nos contos, romances e rimas. Quem poderá desvendá-lo? Ninguém? Nunca? Ele escolhe suas companhias e se frustra quando sente que não pode optar pela solidão.

Às vezes
ele deseja
a solidão.

Entretanto, é consciente, pontual, exceto no que concerne a chegar nos horários marcados. Desafie-se, inverte cenas, faz o que duvidaram que tinha a capacidade de fazer.

Ficava
apavorado
em conversar
com mulheres.

Hoje é natural.

Sentia-se
muito alheio
Também bastante
feio, ainda que soubesse
que a verdadeira feiura
nunca seria estética
neste mundo vil.

Tornou-se expansivo. Mais do que antes, ele sempre anda por aí com alguns amigos e é amado. Tornou-se bonito também, ainda que não tenha se esquecido que a beleza verdadeira nunca seria a estética neste mundo vil. Revolve para dentro e deixa que os outros percebam o que ele já sabe. É bonito nos lugares que mais importam.

Ele quase
nunca dorme.

É que sua cabeça está sempre no dia seguinte e na luta. Não é fácil, mas segue firme em sua conduta e crê que pode vencer o mundo com calma e sem malandragem.

Essa
aposta
é maluca,
mas

Coragem!

Fecha os
olhos, pois
sabe que ainda
que a vida seja foda
ninguém dorme
de olhos abertos.

Anda para lá e para cá pensando em soluções que resolvam conflitos. Fracassa em aparecer com novas soluções e sufoca um grito. Não chora, não é pessoa assim tão sensível, mas reconhece que chegou a hora de dormir. Espera que pelo menos em sonhos não exista alguém franco e que não tenha a intenção de o ferir.

Boa
noite.


  • V

Interplanetário

A escada
de saída
da Terra
O cheiro
de flores
e ervas
O voo
no rabo
do cometa
A chance
de escapar
deste planeta
A magia
O caderno
No fundo
da gaveta
A lenda
dos que
morriam e
viravam estrelas
Versos extintos
Textos distintos
Prolixos e
também sucintos
Escritos apenas
pela tinta
da caneta
A música
Os animais
que cantam
O sono
tão profundo
de Deus
que não
se levanta
A miséria
A dor
O destino
de sofrimento
A matéria
A cor
O solo
O firmamento
O universo
que começa
e termina
na Lua
Os mistérios
que não
se findam
O tempo
congelou em
uma rua
Endireita o
seu porte
Olha o
que há
no futuro
Um corte
A morte
O sol
A sorte
Tudo muda
no escuro
A chuva
tão leve
A orientação
de Marte
A fuga
na neve
A consideração
O descarte
Saturno chama
Soturno menino
Ele não
deixa a
confortável cama
Continua dormindo
A Galáxia
O Vazio
O Tudo
O Nada
O quente
O frio
O início
A chegada
Vênus convoca
Uma mulher
de coragem
Ela aposta
e provoca
Sempre selvagem
Poeira estelar
Brisa pueril
Sono compartilhado
A paixão
A paciência
O amor
O certo
O errado
A ciência
O paciente
O doutor
O que
realmente é
E o
que deve
ser assim
A vida
A fé
O começo
O fim.

Trabalho

Canto
desconhecendo a composição
Componho
desconhecendo a métrica
Pediram-me por um padrão
A contramão do instinto poeta
Querem me fazer de vilão
só por ter julgado a ideia tétrica
Não aceitei o trabalho
Descrevo-me, escrevo-me,
Sei do meu potencial
Quem sabe um dia você
Verá meu rosto na sua TV
Em um longo e chato comercial?
Não sei, mas não me regro
Não me fecho em contradições
Enraiveço-me quando me sinto cego
Outra vez me ergo rei das solidões
Conheço senhoras e ando por sertões
Desta vida conheço as veredas
Corro, ainda que
não me sinta apressado
Quando acordo meus
olhos fitam a escuridão
Encarcerados em um mundo
que chamo de passado
A vida é em frente
nem adianta temer
Melhor confiar no que se sente
E apostar na improvável chance
de vencer.

O café da madrugada

Aproxima-se no seu próprio ritmo
Sabe que está tudo bem assim
Pega a xícara e sorve um gole de café
Primeiro é noite e ele está sozinho
Na manhã seguinte ele continua sozinho
Na terceira noite chove muito forte
e ele sente uma imensa vontade de chorar
Bebe lentamente o seu café e não se esquece de o apreciar
É a primeira vez que odeia um feriado prolongado
Será que ele sempre esteve isolado assim
solitário na existência obrigatória e inútil dos dias?
Será que em sua vida inteira fez morada na fragilidade
escancarada de um castelo de cartas?
Será que sua miopia dos olhos era acompanhada
por uma espécie de cegueira total dos sentidos?
Será que a cafeína é sua única aliada?
Os pensamentos sombrios o atraem e depois o traem
A insegurança o domina e ele reconhece que
talvez apenas dessa vez fosse adequado,
Que palavra maldita, imunda e trágica, mas
talvez fosse adequado dividir o apartamento
Ali ele ganha dinheiro, mas não há ninguém
Quase não há com o que gastar o dinheiro também
Os idiotas todos dirão que ele poderá guardar
Dirão que poderá atravessar a fronteira quando quiser
Ele ri, pois sabe identificar um idiota de longe
Há coisas simplesmente inalcançáveis e
ele faz flexões incansavelmente até que se canse
Depois de mil flexões ele então bebe suco de limão
Não qualquer suco de limão, mas aquele mais caro
da prateleira alta no mercado e que quase
anuncia sua exclusividade para os que são ricos
Ele não se sente afortunado, pelo contrário,
Uma sombra cresce de maneira irrefreável
mesmo quando não há luz para que ela se propague
Há coisas simplesmente inalcançáveis, ele repete,
Concentrado agora deseja que sua alma se expanda
E assombre a noite dos miseráveis que estão
espalhados por aí bebendo, fodendo e se divertindo
Todos estão entregues e não se importam
Entregam seus corpos por pura distração
Seguem um desejo viciado e compulsivo e alheio
Pessoas encaradas como oportunidades e
uma espécie de conforto no conformismo
Na reflexão irrefletida do toque, do beijo, do sexo
Um no outro e outro no um e tudo isso
para inebriar o pesadelo que representa a solidão
A solidão é a única opção daquele homem naquela madrugada
Ele nem tem a chance de ser compulsivo ou impulsivo
Ele nem tem a chance de ser irrefletido ou irresponsável
E se tivesse será que trairia a si mesmo por reflexo?
É tarde da madrugada e ele segue absolutamente sozinho
Olha para as chaves do carro e está consciente
Não há nada para ele nas ruas alagadas e esburacadas
Aproxima-se da chave, segura-a, é o seu carro
O carro que comprou com o esforço do seu trabalho e dinheiro
Aqui, enfim, ele vê o sentido real do dinheiro como coisa certa interna
No restante do tempo são apenas cédulas, papéis impressos, o que se gasta
pelo consenso secular e tácito de que deveríamos estipular valores
Ninguém está errado e ninguém está certo,
Ele sabe que a solidão é a verdadeira mestra e assim como na escola
os únicos bons alunos são os que possuem a disposição de ouvir o professor
Ele nunca foi dos melhores alunos, porém escuta
Absorve lições no silêncio externo que extenua
o concerto desorganizado e barulhento que internaliza
Ele não se observa nos espelhos do apartamento, mas se nota
A profusão de suas comoções se extingue
Agora todos os caminhos o levam para um
Seu carro, seu apartamento, seu café, sua solidão
Vedado, cego, está enclausurado no fundo do poço
Ele segura o segredo ancestral do Universo
Ainda que em idade seja apenas mais um moço
Há dois grupos de pessoas que existem
Os que estão acordados e vivos e felizes
E os que estão dormindo com ou sem sonhos
Ele não pertence a grupos e não é lembrado
Está acordado em um ponto onde a realidade oscila
Não alterna, é ele mesmo, continua esquecido, sofre,
É caro, ele repete, mas paga o preço, até quando?
É caro, ele insiste e diz de novo,
Até quando resisto e faço com as
circunstâncias meu próprio jogo?
De repente nas profundezas do âmago
ele sente algo estranho e profundo e se divide
A alma é tão expansiva que pode ser fragmentada,
embora seja de conhecimento geral que isso não é saudável
Ele chove junto com a chuva e olha para a sacada
Nada na cidade se move, exceto a água
Ele não escuta nem a própria respiração
Indaga-se subitamente se morreu e acorda em um susto
mesmo reconhecendo que nunca tivesse dormido
Um raio cai e ele não recua nem mesmo um milímetro
Sempre teve admiração e medo de raios
Será que está mesmo vivo?
Subitamente senta de pernas cruzadas
Em seguida se levanta e vai preparar mais café
Sabe que precisa adotar um gato ou vai morrer
Entende que um dia deve morrer, mas espera morrer velho
Sabe que o cão sente a sua falta e o sentimento é recíproco
Possui o coração justo e não trouxe o amigo na mudança
Ele precisa de muita atenção para viver feliz e o homem
jamais teria mais de duas horas por dia para dividir com o bicho
Ele está mais feliz lá longe na outra cidade
Os homens podem se acostumar com a infelicidade
O rapaz trabalhador é miserável em todos os aspectos
O amor também se foi outrora e ele não acredita em distrações
Provavelmente mandaria embora uma bela mulher
ainda que ela batesse desesperada em sua porta clamando por sexo
Gargalha subitamente como um maníaco e pensa sobre absurdos
Isso nunca acontece e nem nunca vai acontecer
Está cronologicamente equivocado
Vai acontecer por meados de janeiro
No futuro alguém vai pegar um ônibus
para passar o final de semana com ele
Vai entregar tudo, mas esperando algo em troca
Ele avisou antes que não barganha sentimentos
Vá embora, eu não posso te dar o que você quer
A frase dura será dita, ele é compelido a ser sincero,
O futuro nem existe ainda e ele ri
Isso nunca acontece e nem vai acontecer,
mas acontecerá mais de uma vez
Ele estava preparado para a eternidade
Vai até a sacada e grita e xinga alto
Talvez nunca mais possa falar com uma mulher
Tampouco acredita que possa amá-las,
ainda que saiba que está disposto a ser honesto
Ninguém é sincero, mas ele seguirá assim
O homem que matou o charme
Sabe que é desajeitado, confuso e não entende nada de flerte
Essas coisas se aprendem?
Não acredita muito em aprendizado
Crê que pessoas possam aprender idiomas,
mas não crê que pessoas possam se aprimorar
Podem? Não, isso não é sobre outras pessoas
É apenas sobre ele mesmo que agora senta no sofá
Quantas malditas horas cabem em apenas uma madrugada?
Outra noite de solidão profunda e vazio existencial
ou será que ainda é a mesma?
Não interessa realmente quando não há aliados
Ele quer se sentir dono de si,
Quer se ver no controle da vida ao menos uma vez,
mas reconhece que talvez ninguém seja dono
de absolutamente porra nenhuma
E se soubesse o que quer o que saberia?
Abre uma lata de cerveja, bebe tudo de uma vez,
Amassa a lata e a coloca no lixo reciclável
Talvez tudo seja inútil, mas é melhor separar o lixo
Separa então o lixo como quem separa a si mesmo
Recorda-se por um instante de um bar e de gente
Recorda-se de sorrisos e de uma mulher tão concentrada
no próprio celular que parecia forçar a invisibilidade na vida
Ela falha como todo mundo costuma falhar, pois meses depois
na solidão daquele apartamento um homem revive a memória
E lembra dos olhos tão vidrados na tela
Ele anda pelo apartamento e paga as contas em dia
É uma delícia morar sozinho
É um pesadelo morar sozinho
Esquenta a água e cozinha cinco ovos
Come os cinco ovos, bebe mais uma cerveja
e tenta se lembrar se já praticou exercícios físicos hoje
Não está se sentindo disposto para ler
Pega o celular e pensa em enviar mensagens
É quando se recorda de que ninguém liga se está vivo ou morto
O importante é que está ganhando dinheiro
Ele se conforta com o pensamento dos outros
Como são estúpidos os raciocínios dos que nem se conhecem
e ainda acreditam que possam aconselhar sobre a vida alheia
Presunção, arrogância, intolerância de gente que se odeia
e às vezes nem percebe, pois há quantias suficientes
para comprar uma distração um pouco mais duradoura
O homem ri, mas sem achar graça
Faltam os outros, mas não falta ele mesmo
Está se descobrindo mais e mais
De repente um desejo cresce
inesperado e repentino
Decide bater uma punheta
Leva seu próprio tempo nisso
Só quem se masturba decide
fazer as coisas de modo rápido ou demorado
Se alguém batesse em sua porta ele não abriria
Está pelado e confuso
Não sabe em que momento tirou suas roupas
Lava as mãos e fita seu rosto cansado no espelho do banheiro
O seu corpo é bonito e conseguiria alguma atenção se o utilizasse
Nunca enviou fotos pelado e nunca as recebeu
Nem tenta se convencer de que isso é vulgar porque não o é
As fotos podem significar tantas coisas, mas raramente vulgaridade
Ele não deixa sua falta de oportunidade viciar uma impressão
de uma vida que nunca teve apenas porque não pôde ter
Nunca enviaria fotos pelado, pelo menos nunca de maneira repentina,
porém por algum instinto ancestral crê que algum dia irá receber
E a mulher então lhe dirá
Me desculpe, eu mandei essa foto por engano,
não conte para ninguém, por favor
”,
E ele não contará, mas se lembrará da foto
O homem ri novamente e já parece embriagado, mas não está
A lucidez que acompanha a sua sobriedade é um castigo
Nem todas as coisas são para todo mundo
Nem tudo que existe está disponível para todas as pessoas
Há os vaidosos e inteligentes e eles também se ajoelham
Odeiam ter que admitir, mas são escravos à sua própria maneira
Há os que erram e se desculpam, há os que erram e não se desculpam
e até os imbecis idólatras de espelhos que só sabem venerar o reflexo
Narcisistas empoderados, grosseiros e insuficientes 
Há toda a vida e toda a esperança
Há desesperança pura e caos
Há quem tenha sido esquecido em vida e lembrado em morte
Há tristeza profunda e duradoura, felicidade fugaz e sorte
Há os que fazem o que querem com quem querem
Há os que fingem a indolência e permitem
que os outros façam o que bem entenderem
Aceitam o papel de utilidade em uma espécie de resignação
crendo que na vida é melhor ter uma função do que nenhuma
Aceitam os trocados, não importa o valor metafórico pago,
Estão escancarados à venda ou para serem levados de graça
Não ficaram sozinhos o bastante e não se perceberam
Não possuem senso de valor individual e acreditam
que o amor e a felicidade que possuem seja
diretamente condicionado ao que merecem
Eles não fazem ideia do que merecem
O homem solitário se divide outra vez e se perde em suas partes
Um resquício de empatia o impele a explicar sobre o amor
que todos realmente merecem
Uma réstia de empáfia faz com que uma frase flutue
“Que se fodam os outros. Os outros não importam”
Ele quebra seus pedaços em pedaços menores
Talvez na manhã seguinte, se é que haverá manhã seguinte
ele tome xícaras de café forte e recolha seus próprios cacos
O amanhã não interessa por ora
Ele bebe mais duas cervejas e se indaga sobre capacidades
Às vezes o sexo será lento e seguirá uma rota sutil
É preciso saber exatamente o que fazer
Às vezes será agressivo, forte, animalesco
Uma vez se perguntará o que está fazendo ali
e se interromperá propositadamente no meio do ato
porque não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo
Há vitórias com gosto de fracasso
E há fracassos não tão amargos assim
Todo ser humano é capaz de ser fenomenal e patético
Ele já havia cumprido ambas as funções antes e cumpriria depois
Veja, ele tenta observar a parte externa de outra maneira
Troca a vista da sacada pela janela
e uma janela por outra janela
Faz isso como quem quer se convencer
de que a vida inteira muda se a perspectiva é distinta
O amor é medido sem medidas e ainda
é descartado quando sua utilidade se encerra?
Sonho febril e primaveril de infinitos
que sobrevivem aos anos e guerras
Não há insetos nessa noite de chuva
Talvez a aranha que mora em um canto esquecido
ainda esteja lá esperando pelos insetos também
Talvez estivesse fazendo companhia desde o começo
Talvez a solidão fosse apenas sua ilusão
Tudo é ilusório?
Ainda não se encontrou com os Fundadores
A chuva continua chovendo
Ele pega a caderneta e lê alguns versos horrorosos
O único consolo é de que realmente foram escritos por ele
Agora escreve uma frase que não lhe diz coisa alguma e a lê
Com que verdade falo sobre mim se nem me escuto?
Irrita-se com a confusão e prolixidade de seu raciocínio
Quem é você agora enquanto a vida explode mundo afora?
Equiparam-se aos réprobos estes solitários das madrugadas
que só podem ser um, mas são simultaneamente vários

Pergunta-se sobre quem ele é e responde sem hesitar
Alguém com dinheiro e que pode tomar o suco de limão caro
A raiva cresce irrefreável, o instinto de violência se amplia
Se tudo fosse vão e sem sentido,
se não houvesse continuação após essa vida e tudo fosse
simplesmente simples e frívolo e irrelevante
você acha que agiria diferente?
Você não é diferente
Escreve no papel para tentar se convencer e falha
Sente-se completamente diferente 
Como não seria diferente se ele lida com a solidão
enquanto os outros optam pela distração?
Todo mundo se arrepende posteriormente
de tanta coisa que disse ou fez
Ele se pergunta se algum dia chegará a sua vez
Acende um incenso e liga uma música para meditar
Bebe mais uma cerveja e se sente zonzo
A meditação definitivamente está funcionando,
ainda que a chuva atrapalhe com seus ruídos essa música
que nunca mais vai parar de tocar
Percebe em seguida que é a música que atrapalha a chuva
Desliga a música, mas sente que ela continuará tocando
Aquele instante lúcido e nauseabundo parece eterno
Reflete sobre a música que atrapalhou a chuva
Outra vez inverte perspectivas e assume hipóteses
Tenta entender os outros que se parecem com ele, mas não o são
Vai até a geladeira e come metade de uma barra de chocolate
Encontra a sua verdade nos cafés e nos chocolates
Repara no beiral da janela, ainda sem insetos
As gotículas de água, porém, insistem em invadir pela janela
Na insistência ganham, mas é uma vitória quase insignificante
O homem joga um pano no chão perto da janela e controla a situação
Abre a despensa e olha para o que comprou com desinteresse
Antes de abrir o armário sabia que não queria nada
Ainda assim decidiu abrir aquelas minúsculas portas
Escapa-lhe o sentido da inutilidade do próprio gesto
que por antecipação sabia ser completamente inútil
Não é incoerente com suas crenças
Não procura desculpas para quem é
Não inventa dramas para sua dor, embora
sua dor seja uma epopeia dramática e sufocante
Desejarão amá-lo, mas dificilmente o alcançarão
Talvez seja ele a escolher quem pode cuidar do seu coração
Não é um homem fácil, mas é mais fácil que os outros
Entrega na coerência e na sinceridade sua alma
todos os dias no mesmo horário, no lusco-fusco,
Às vezes sua expansividade o torna brusco, mas
ele só reza para os santos em que realmente acredita
E só prega na geladeira regras e sugestões
que sabe ter a capacidade de cumprir
Franze o cenho e range os dentes para os que se repetem
O arrependimento deles é geralmente falso
e assim forçam os erros que tanto cometem
Entra em um frenesi na madrugada e se sente quente
A noite lá fora é gelada e instantes antes seus dedos doíam
Pensa em soluções, mas há quem não queira solucionar coisa alguma
Todos entram na mesma mira
Ninguém comete o mesmo erro de maneira mais leve
por conta de uma intimidade maior ou de um lanço sanguíneo
Avalia seu próprio extremismo e pensa se é realmente extremo
Respira fundo e recupera um ar mais calmo e sereno
Bebe uma cerveja e sente um arrepio que acompanha o temor
Odiará os hipócritas até o dia em que se tornará um
Se tornará um? Ele chora, pois parece inevitável
Nunca conheceu alguém que não fosse hipócrita,
mas pelo menos não fará parte dos que são assim no cotidiano
Ninguém sente seu drama e ninguém o entende
Ele se expurga passando por todos os processos
Nunca pega atalhos e nunca evita a dor
Se sente machucado e sozinho na madrugada
sabe que precisa sobreviver o quanto for
Talvez amanhã tenha alguma companhia,
Talvez amanhã respondam suas mensagens ou
ele mesmo resolva conversar com quem optou ignorar
Ele respira fundo e ergue a voz para dizer
“Eu sei que vou conseguir”
Há milhões de coisas que passam por sua mente
A luta livre armada, o futebol, os animes,
Os hobbits, anões, elfos e os filmes Ghibli,
As dezenas e centenas de filmes e mangás,
As pessoas, os lugares, os bares
A Nova Zelândia, os japoneses e o Japão
Será que um dia começará a fazer aulas?
Será que se comunicará e viajará?
Será que poderia ser professor, escritor ou filologista?
Será que com tantos ímpetos de heroísmo
pudesse se converter em um vigarista?
Ele pensa em mais coisas que não pensam nele
Os insetos que hoje não tentaram invadir o apartamento
talvez voltem amanhã
O filho não sabe se quer ter, mas sabe que seria
o pai mais espetacular de todos os tempos
Não opina sobre sua vontade de nascer neste mundo odioso
Repleto de desgraças e desigualdades e com vislumbres,
Apenas vislumbres de uma alegria duradoura
Ele sabe que a tristeza se ajeita em qualquer lar,
mas a felicidade requer muitos pressupostos
Mas ele leria histórias para sua criança dormir bem
E ensinaria que os filósofos todos parecem prolixos,
mas que possuem lições importantes a ensinar
E que ele não pode e nem deve ignorá-los,
Mesmo os que são entediantes no Ensino Fundamental
Ele desliga a cafeteira e vai até o quarto
Liga um filme para ninguém assistir
Conta para todo mundo que perdeu o medo do escuro,
mas sempre dorme com a televisão ligada
E daí?
Cambada de filhos da puta
Murmura, mesmo sem se entender
O café da madrugada acabou e a cerveja também
Ele olha para a sacada e depois analisa
o espaço do apartamento
Reconhece que poderia ter pelo menos três gatos
Há muito espaço para ser sozinho
Ele é expansivo, mas confia no que dizem sobre os gatos
Eles gostam do próprio espaço
O próprio homem se sente um pouco felino
Precisa adotar um gato ou vai morrer nas rodovias
Olha para a cama de casal e sabe que terá que dormir sozinho
E dormirá se juntando ao grupo dos que estão dormindo,
pois não pode se distrair
Será que em sonhos terá a paz que merece?
Reza para que outra vez volte a ter companhia, mas
roga para que seja alguém que lhe dê espaço
Não é um dragão personificado, mas não divide seus hábitos
Espirra e lava o nariz e olha para a cama de novo
A oração foi em vão porque ele não acredita em Deus
Acredita em camas de casal para solteiros e na solidão
Acredita em atalhos, fugas e distrações
Acredita no chocolate, na cerveja e no café
Acredita ser capaz de não se contradizer e
de não tornar mentiras óbvias sua própria religião
Acredita nas batidas do próprio coração
Sente-se solitário, mas ao mesmo tempo bem
Isso de querer ser exatamente o que se é
Ainda vai o levar além
Ele não faz ideia do quanto vai sofrer
e tampouco desconfia do quanto vai evoluir
Derruba seu corpo no sofá e se esquece da TV
até que, enfim, consegue dormir
Quando acorda de manhã com uma
leve dor de cabeça sabe que tudo ficará bem
Segue no seu próprio ritmo até a cafeteira
Pega a xícara e sorve um gole de café.

Eu não escrevi essa crônica

Eu,

Eu não escrevi essa crônica. Esses casos românticos acumulados e deixados para trás em um boteco com o cinzeiro cheio de bitucas não são meus.

Eu não escrevi essa crônica. Eu não estava com quatro amigos babacas em um bar em setembro de 2017 praguejando sobre as injustiças da vida e muito menos injustiçando quem não tinha nada a ver com o meu praguejar.

Eu não escrevi essa crônica. Eu não fiquei bêbado e vomitei no chão do banheiro e lavei tudo depois enquanto escutava Gigantes do Samba.

Eu não escrevi essa crônica. Eu nunca me arrependi de nada e todos os que se arrependem são fracos. Eu fiz o que quis e Carpe Diem na bunda desses tantos otários.

Eu não escrevi essa crônica e não preciso aguentar o peso do seu julgamento e nem o fervor da sua carência.

Eu não escrevi essa crônica e não sou responsável por essa sua sensibilidade e muito menos por sua falsa decência. O que você quer de mim?

Eu não escrevi essa crônica, pois vá reclamar com o filho da puta do autor que escreveu essas histórias sombrias e tocou nos seus pontos fracos, entretanto, eu sugiro que tome mais cuidado para não se ferir com os seus próprios cacos.

Eu não escrevi crônica nenhuma e muito menos usei a palavra “suma” para pedir ou exigir algo de alguém. Eu não me escondi na bruma e nem mesmo lembro se você fuma, mas sei que posso viver sem.

Sem você e sem essa crônica que eu nunca escrevi e que você insiste em me dizer que eu escrevi, pois o lapso da sua memória se confunde com a extravagância dos seus pensamentos mais vis e inúteis. Queria dizer que não, mas estaria mentindo, eu tenho sim paciência para inutilidades, mas não para as suas e nem para esse papo torto de crônica, cônica, catatônica e nem para essa sua consciência inconsciente e esse discurso todo desesperador.

Eu não escrevi essa crônica, mas você insiste em me culpar pela sua dor.

Olha, meu bem, entenda que há coisas que entendemos e coisas que não entendemos e que Deus, se Deus existe ele faz o mesmo juízo de nós, bons, maus, ricos, pobres, altos, baixos, o mesmo juízo, eu disse, sim, se não fizesse juízo igual ou parecido uns morreriam e outros não, mas, enfim, no fim todos morremos. Percebe a beleza disso? Prolongamentos? Não os merecemos.

E não sei ainda qual a razão de que alguns crescem ruins e que traem e que ferem e que se aprazem das vilezas, mas me mantenho firme em acreditar no que meus olhos enxergam como beleza.

Imagino-me caminhando sozinho e falando em japonês com japoneses. Ainda tenho uma estrada longa pela frente, mas quem sabe essa isso ainda não ocorra? E talvez para os lados de lá eu escreva crônicas minhas, entretanto, ressalto que essa última não é de minha autoria.

Eu não escrevi essa crônica. Eu não apago o pouco brilho da escuridão que vejo no mundo. Eu sou aquele que desconsidera a forma e vê o conteúdo.

Eu não escrevi essa crônica e por isso tenho o direito e o dever de me irritar. Eu não escrevi essa crônica e por isso resolvi digitar.

Para você.

Mas a outra crônica não é minha. Só me traduzi através dessas últimas palavras. Afiadas? Eu sou assim, borboleta, eu sou assim mariposa, é, é que eu sou assim, meio relâmpago no céu antes da chuva.

Você acha mesmo que eu escreveria uma crônica vil baseada na minha experiência? Eu que não feri uma pessoa. Espere. Você quer saber se nunca fiz algo de errado?

Uma vez eu vi uma senhora cega quase ser atropelada no trânsito. Eu respirei fundo para correr, mas minhas pernas não se moveram. Eu gritei com a minha mente e não saí do lugar. Tentei rezar, mas havia esquecido como se fazia uma oração. Subiu uma vontade de vomitar e o ritmo do meu coração enlouqueceu.

Alguém salvou a velha, mas não fui eu. Não é falta do heroísmo que me pune, mas sim a consciência de que naquela vez congelei. Nunca mais quero congelar e dali em diante me arrisquei aos heroísmos mesmo quando eu era mal compreendido e detestado. Nem sempre haverá alguém para salvar a velha, mas se outro jovem congelar com a cena, eu espero poder fazer o que naquele dia não fiz.

Essa história curta eu mesmo vivi, mas a crônica maldita e suja, não, ela não é minha. Se fosse, eu teria vergonha, mas admitiria.

Li a crônica do outro e tentei transcrevê-la. Bobagem! Como se eu pudesse sentir de longe! Como se eu pudesse compreender os que tanto escondem… Mas os segredos? Onde essas pessoas insistem em guardá-los? Guardam por vergonha, amor ou apego? Guardam por orgulho ou medo? Quem se priva de falar algo o reserva em um espaço especial secretamente cuidado e mantido? Quem se priva de enfrentar alimenta o que deveria ser esquecido?

Há alguma coisa que realmente mereça ser apagada para sempre? Talvez você tenha um pensamento pontual e viperino, algo secretamente venenoso ou escancarado e ferino, quem sabe, felino? Os segredos marcam os rostos e envelhecem suas peles. Costumamos orar pelos mortos, mas pelos vivos há quem vele?

As crônicas não são minhas, mas aqui me pego em devaneios existencialistas e solitários sobre segredos e me lembro do autor Patrick Rothfuss e de Teccam no Temor do Sábio. Sobre os segredos:

A maioria deles é da boca. Boatos compartilhados e pequenos escândalos sussurrados. Há segredos que se anseiam por se largar no mundo. Um segredo da boca é como uma pedra na bota. No começo, mal se tem consciência dela. Depois, torna-se irritante e, mais tarde, intolerável. Os segredos da boca vão crescendo à medida que são guardados, inchando até pressionar os lábios. Lutam para se soltar.

Os segredos do coração são diferentes. São privados e dolorosos e não há nada que se deseje mais do que escondê-los do mundo. Eles não inflam nem pressionam a boca. Vivem no coração e, quanto mais são guardados, mais pesados se tornam.

Diz Teccam que é melhor ter a boca cheia de veneno do que um segredo no coração. Qualquer idiota é capaz de cuspir veneno, diz ele, mas nós guardamos esses tesouros dolorosos. Engolimos em seco todos os dias para contê-los, empurrando-os para baixo, para nossas entranhas mais recônditas. Lá eles permanecem, ganhando peso, supurando. Com o tempo, não há como deixarem de esmagar o coração que os contém.”

Como foi que cheguei até essa parte? Como alguém transforma uma crônica sombria em arte? Eu honestamente não sei. Tudo bem para você não saber?

Não planto ideias maliciosas e tampouco sou malicioso, admito, entretanto, que a minha honestidade é própria ideia tolhida e não sutilmente implementada. Se é necessário lidar comigo, que seja da maneira crua. Que olhem para mim como outro cara qualquer passeando pelas ruas.

Ainda vale a pena sonhar com alguma coisa e acreditar em algo? Sinto-me cansado, mas talvez eu precise cumprir com outras obrigações. Vou tomar um banho gelado e pensar nos meus próprios problemas e soluções. Ainda há tempo para passar mais raiva hoje. O que será que você vai fazer?

Eu honestamente espero que se divirta e que apenas dessa vez não gaste o seu tempo em me ler.

Nota: eu não escrevi essa crônica.
Essa crônica foi escrita por: insira aqui qualquer nome que não seja o meu.

Ainda me pergunto o que o cara que escreveu diria na carta-crônica.

Ele apenas havia começado com…

Eu,

O que estaria para dizer?

Eu amo você ou
Eu sinto sua falta ou
Eu odeio você ou
Eu nunca mais apareço ou
Eu nem me lembro mais?

Não sei o que ele ia escrever, mas sei que ia e assim se encerra minha parte neste texto dualístico e confuso. Preciso descansar a minha cabeça ou vou entrar em parafuso, principalmente porque ainda necessito da raiva nessa noite de agosto.

Desgosto. Eu sei de mim, mas não sei dele… A única coisa que sei é que…

Eu.

Crônica de Terça

Eu sempre parto para o ataque tentando frear quem lhe golpeia por suas vilezas, mas eu avisei antes e repito agora, você precisa ter mais clareza. Eles disseram que a culpa era sua, bom, eu insisti em te defender, mas não se vomita na sala de estar da casa dos outros, eu não lhe avisei? A culpa era realmente sua.

Não avisei? Eu sei que avisei e havia mais gente por perto. Agora você pode bater sua cabeça e pode também beber sua cachaça, seu gim, suas cervejas, eu juro que por mim pode até vomitar, entretanto, você não é um novato e conhece as regras, sem vômito na sala e sem trocar o canal da televisão. Tanto faz porra nenhuma! Etiqueta, seu idiota, você entende a minha fala. É preciso ter um pouquinho de bom senso. Eu sei, você é assim porque a vida é foda e tornou você assim, você sentiu falta de amigos e uma família mais dedicada e empenhada em te ver bem e feliz. Claro, eu sei, a culpa não é sua, eu posso pedir desculpas e você? Sei bem, eu me lembro bem, não foi criado assim, certo? Orgulho e boca grande em uma boca pequena. Cale a boca, por favor. Achegue-se mais perto para um conselho.

Ele se aproxima e quando está perto lhe acerto um safanão na testa. Agora desconfio que ele realmente tenha aprendido a lição. Há quem prefira do jeito mais difícil, certo? Não que ele fosse teimoso ou burro, bem longe disso, mas tinha uma mania de ser particularmente obstinado na produção dos próprios erros. Tudo era um espetáculo.

É uma tarde de terça-feira normal, mas ainda assim é diferente. Meus pés estão gelados, mas o dia está quente. Não temo ficar doente, pois tomo mel. Rio dessa piada que só eu sou capaz de compreender. Bom, terça-feira, o que existe de particular hoje? Sim, eu não me esqueci, hoje é aniversário do meu irmão, mas para a gata é só mais um dia e para o cão também, aliás, para eles não é dos melhores dias, pois eu não me sinto tão bem e eles se movimentam mais de acordo com a minha dinâmica. O amor que os dois nutrem por mim precisa de estímulos, sim, exatamente como qualquer amor. Alguma vez você já reparou como isso é curioso? Na falta da minha atenção, contentam-se ambos os bichos com a solidez da minha presença. A minha existência faz diferença para eles, ainda que para a hipótese do meu falecimento, eu me conforte em saber que eles seguirão acompanhando os outros membros da minha família. Respiro e observo os detalhes com atenção. A brisa passa por mim, mas eu também passo por ela. O cão escolhe o chão e fica bem próximo das rodas da cadeira giratória enquanto a gata dorme na janela.

Ando pela casa sem camisa e penso. Carrego quatro livros na mão direita, porém me falho no meu propósito. Tinha o objetivo de fazer o que mesmo? Olho para os livros, é isso, eu provavelmente queria ler e não consegui. Falhei outra vez em cessar minhas atividades e me concentrar em alguma outra coisa que, bom, eu talvez devesse me distrair ou talvez devesse me embeber de filosofias ou talvez devesse andar sozinho pelo mundo conhecendo e contando histórias e…

E respiro para me concentrar no que restou da tarde. Bebo uma xícara de café. Checo o site, vejo que não vendi muitos livros ainda, porém um sorriso escapa de meu rosto empedernido e frio. Eles gostam das minhas histórias e eu me pergunto o motivo. Não sei bem, mas se estabelece com mais firmeza aquele mesmo sorriso.

Não faço exercícios. Está muito quente e o meu nariz sangrou pela manhã. Consumi mais de cinco mil calorias ontem e antes de ontem e só tenho gastado energia nas noites quando sento na minha cadeira e teclo no meu teclado. Quero crer no mundo, mas ele parece todo errado. Quero fugir daqui? Quero mudar? Quero me apegar ao que sei não funcionar para manter a melhor ilusão de funcionamento? Não planto ideias por malícia ou interesse. Gosto do cru das pessoas e descubro na hora e pelo brilho no olhar sobre o que finjo que esqueço. Por essa percepção sensitiva eu sempre agradeço. Tornei-me o tipo sábio de pessoa que entende como a confiança é um prato que se come frio, porém insisto em confiar antes da hora para mudar o que vejo como reflexo deste mundo vazio. Preciso ser diferente para ansiar pela diferença, porém sei que a minha ingenuidade reverbera pela cidade o peso da sentença. Aceito o preço, escolho viver e sento outra vez. Escrevo.

Escrevo porque preciso conhecer mais do que o tudo
que eu já sei
Escrevo porque escrever é a única maneira de me tornar
quem sempre sonhei
Escrevo, ainda que existam muitas coisas melhores
para se fazer
Escrevo porque sou escritor e preciso me dedicar
ao sonho que tenho
Escrevo e vou continuar escrevendo e quanto ao resto
eu me abstenho
Talvez eu encorpore minha única

semelhança com Christopher Green
E saia sozinho para longe

para descobrir o que falta em mim
Talvez não falte coisa alguma

E escrevo
para que a minha originalidade
nunca suma
para que não mudem
os meus desejos
Escrevo-me porque quero e
para registrar minhas andanças
Escrevo-me, pois às vezes temo a morte
Quem sabe com um pouco de sorte
Postumamente eu causa alguma mudança.

Sinto fome e é hora de consumir mais calorias. Sinto-me feliz, pois elas se deixam ser consumidas e utilizadas. Já que não faço isso com ninguém, eu encontrei nas calorias estranhas aliadas. Sorrio triste ou entristeço sorrindo? Digito qualquer bobeira sentado nessa cadeira e admito que o dia seria melhor se eu estivesse dormindo.

A dor dói

A dor dói
Repito e repito e repito
Apenas por mentir
ou por repetir?
O que se constrói
também se destrói
Repito e repito e repito
até que eu possa sorrir
Wilde disse que sempre
destruímos o que mais amamos
Sabia ele algo sobre amor?
Talvez sua especialidade
fosse apenas destruição
Quiçá um perito bem vivido
em longínquos tempos de dor
E solidão
Diria ele então que a dor dói
E se repetiria apenas por se repetir?
O que se destrói apenas se destrói
E zombaria da minha visão
ao sorrir
A dor certamente dói
A indecisão indubitavelmente fere
Não há neste mundo super-herói
Que aguente o sofrimento do mundo na pele
E que tentemos nos manter calmos
Em face do que nos traz a noite escura
Do chão estamos à sete palmos
Epitáfio lúgubre em eterna gravura
A memória recorda e guarda lembranças
A chuva me acorda e perco esperanças
Quando ficou tão difícil
de falarmos a mesma linguagem?
A compreensão de quem compreende
Rede nas janelas
Sono felino
Sequelas
e velas
Cachorro
dormindo
Dormido
distante
da dor que
tanto dói
Outro cão
mija na estante
Sinto a cabeça
que dói
Confusão
Dor que dói
Como a dor antiga
na outra madrugada de temor
Em minha lápide jaz esquecida
a mais bela história de amor
E os tristes seguem tristes
E a felicidade dos felizes passa
A minhoca se entorta e foge
do pássaro predador que a caça
A dor dói
A felicidade é feliz
E qualquer coisa
é qualquer coisa
Se eu sei de algo
É por saber que sei de nada
É preciso tomar cuidado
quando a voz cala
E a intenção segue
Insinuada
Nada
a ser dito
Nada
bonito
Madrugada
gelada
Desespero
E grito
Talvez
se a dor
não doesse
Meu sentimento
fosse mais pequeno
Talvez um dia entenda
o que hoje parece ameno
Que sinta e olhe e saiba
que não se força onde não caiba
E que falar é necessário
A cena descreve
um poema
A vergonha
envenena
a tinta e a pena
O rumo e
o destinatário
Assim se vai
a dor que dói
Após sentirmos
Ela ao extremo
De longe eu a vejo
Distante eu aceno
Os demônios do fogo dormem
todos de olhos abertos
Imito seus rituais
tentando me sentir esperto
Os sentidos todos se escapam
O sentido objetivo também
Estas reflexões me matam,
mas revivo e vou além
A dor dói e eu repito a frase
Que eu não morra cedo e com medo
de sempre ser QUASE
A dor dói, mas me situo
Reparo, enfim, que tremo
De longe eu a vejo
Distante eu aceno
De perto eu a beijo
Aberto e sereno
A solidão que sinto
poetiza todo o meu cansaço
Nunca mesmo eu minto
Busco o meu próprio espaço
De Vidas me tornei faminto
Afrouxo quando me aperta o laço
Entretanto, sigo firme e distinto
Na indecisão de cada novo passo
O sofrimento bate na porta fechada,
mas a melancolia
é a rainha desta nova madrugada
A dor realmente dói
e chega o sono
para quase todos
O resto do mundo dorme
Exceto os demônios do fogo
Entretanto, estes nunca estão aos prantos
Assim nunca se esquecem de lembrar
A dor realmente dói
Aqui ou em qualquer lugar.