A dor dói

A dor dói
Repito e repito e repito
Apenas por mentir
ou por repetir?
O que se constrói
também se destrói
Repito e repito e repito
até que eu possa sorrir
Wilde disse que sempre
destruímos o que mais amamos
Sabia ele algo sobre amor?
Talvez sua especialidade
fosse apenas destruição
Quiçá um perito bem vivido
em longínquos tempos de dor
E solidão
Diria ele então que a dor dói
E se repetiria apenas por se repetir?
O que se destrói apenas se destrói
E zombaria da minha visão
ao sorrir
A dor certamente dói
A indecisão indubitavelmente fere
Não há neste mundo super-herói
Que aguente o sofrimento do mundo na pele
E que tentemos nos manter calmos
Em face do que nos traz a noite escura
Do chão estamos à sete palmos
Epitáfio lúgubre em eterna gravura
A memória recorda e guarda lembranças
A chuva me acorda e perco esperanças
Quando ficou tão difícil
de falarmos a mesma linguagem?
A compreensão de quem compreende
Rede nas janelas
Sono felino
Sequelas
e velas
Cachorro
dormindo
Dormido
distante
da dor que
tanto dói
Outro cão
mija na estante
Sinto a cabeça
que dói
Confusão
Dor que dói
Como a dor antiga
na outra madrugada de temor
Em minha lápide jaz esquecida
a mais bela história de amor
E os tristes seguem tristes
E a felicidade dos felizes passa
A minhoca se entorta e foge
do pássaro predador que a caça
A dor dói
A felicidade é feliz
E qualquer coisa
é qualquer coisa
Se eu sei de algo
É por saber que sei de nada
É preciso tomar cuidado
quando a voz cala
E a intenção segue
Insinuada
Nada
a ser dito
Nada
bonito
Madrugada
gelada
Desespero
E grito
Talvez
se a dor
não doesse
Meu sentimento
fosse mais pequeno
Talvez um dia entenda
o que hoje parece ameno
Que sinta e olhe e saiba
que não se força onde não caiba
E que falar é necessário
A cena descreve
um poema
A vergonha
envenena
a tinta e a pena
O rumo e
o destinatário
Assim se vai
a dor que dói
Após sentirmos
Ela ao extremo
De longe eu a vejo
Distante eu aceno
Os demônios do fogo dormem
todos de olhos abertos
Imito seus rituais
tentando me sentir esperto
Os sentidos todos se escapam
O sentido objetivo também
Estas reflexões me matam,
mas revivo e vou além
A dor dói e eu repito a frase
Que eu não morra cedo e com medo
de sempre ser QUASE
A dor dói, mas me situo
Reparo, enfim, que tremo
De longe eu a vejo
Distante eu aceno
De perto eu a beijo
Aberto e sereno
A solidão que sinto
poetiza todo o meu cansaço
Nunca mesmo eu minto
Busco o meu próprio espaço
De Vidas me tornei faminto
Afrouxo quando me aperta o laço
Entretanto, sigo firme e distinto
Na indecisão de cada novo passo
O sofrimento bate na porta fechada,
mas a melancolia
é a rainha desta nova madrugada
A dor realmente dói
e chega o sono
para quase todos
O resto do mundo dorme
Exceto os demônios do fogo
Entretanto, estes nunca estão aos prantos
Assim nunca se esquecem de lembrar
A dor realmente dói
Aqui ou em qualquer lugar.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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