Crôninca Pregressa #3

Receita

     Ouvi dizer que a felicidade era uma receita pronta. Bastaria que existisse dinheiro sobrando na conta. Ri do que supus ser presunção, mas sou eu o tolo de me preocupar tanto com a sensibilidade quanto com a razão? O tempo segue e eu não consigo deixar de me preocupar. Arrogantemente faço uma ideia virar certeza. Transformo-a em convicção. Agora sei que estou no caminho certo. Sei que os meus sonhos estão mais perto. Sei que este é o tempo perfeito para que eu viva a minha vida. Tenho uma fé grande em alguma grande coisa, mas não sei lhe dar nome. Geralmente converso com o Criador, mas as respostas não chegam como eu espero ou desejo. Tenho uma fé grande, mas não sei se Nele ou em mim. Não sei, enfim, se somos partes tão diferentes da mesma coisa ou partes iguais de coisas diferentes. Somos arquitetos, certo? Todos. 

     Tenho visto a vida em mim e nos outros. Somos avessos e ainda assim parecidos. Planejamos os passos seguintes, como se fosse possível. Temos a ilusão do controle, mas olhamos para trás e notamos que a vida passou rapidamente. Os dias, meses e anos voaram. Há coisas que perdemos e não há como recuperá-las. Amigos que se foram e nunca voltaram. Antes de ontem era natal, ontem páscoa e hoje maio. Ontem a mãe não admitia a gata em casa e hoje assiste a novela da noite lado a lado com a Nami. Os irmãos que assistiam animes juntos quando novos na sala estão em outra sala vivendo outras vidas e assistindo outras coisas. Rimos outros risos, discorremos sobre assuntos mais sérios e outros ainda mais bobos. Estou orgulhoso. Eu mesmo na infância odiei futebol e posteriormente reconheci no mesmo esporte o meu primeiro amor. O cão segue bem. Perfeitamente igual sempre, ele corre atrás dos seus brinquedos e faz o que sabe fazer: brinca, late e ama. Ainda bem que algumas coisas permanecem no lugar. Matamos algumas saudades, mas sabemos que ainda falta um específico abraço. Às vezes puerilmente impelimos o corpo à frente como se a pele fosse feita de aço. Viver machuca. Esquecemos do que importa e deixamos de ver com clareza. Forçamos para que morra a criança interna e insistimos que é impossível viver com leveza. Será? Não creio. Após a descrença bate na porta a velha hesitação.

Frequentemente falho. Sou soporífero na minha vez de montar guarda e cochilo nos momentos importantes. Fui surpreendido por um brilho solar em uma noite de carnaval e só queria ser capaz de dizer o que pensei ou pensar no que imaginei que disse. Tive medo de queimar minha mão, mas é o conselho da mão queimada que chega ao coração. Não deveria ter hesitado, certo? Não deveria valorizar quem acelera o tempo para fugir de mim. Não deveria menosprezar quem atrasa o relógio para passar mais tempo comigo. A hora não passa e eu conto os minutos para os finais de semana. Pelas novas manhãs, eu não tenho enrolado para sair da cama. Só vale a pena viver quando debruçado sobre as coisas que ama. Você ama sua vida ou vive para ser perfeito? Você é feliz assim ou força a felicidade de outro jeito?

     Eu costumava pensar que só seria feliz ao lado de alguém que pudesse ser legal comigo e que suprisse minha carência nos dias mais sombrios. Eu costumava pensar que nunca em minha vida eu seria capaz de ler mais que vinte livros. Também me enganei quando pensei que não poderia escrevê-los. Tentei imaginar um futuro pra mim, mas fui descobrindo minhas vontades e desbravando meu caminho à fórceps. Tive que me impor e lutar pelas minhas vontades. Eu me formei no curso errado e pensei que fosse a pessoa mais estúpida do universo, mas eu desconsiderei o quanto a experiência havia me lapidado. Eu melhorei. Passei a observar o mundo com meus melhores olhos, ainda que eles nunca tenham superado a miopia. Posso compreender o ódio. Já o senti. Posso compreender a tristeza. Certa época eu era a personificação da melancolia. Posso narrar a alegria. Sorri com a essência de minha alma para dezenas de desconhecidos em diversos aeroportos. A inveja não posso compreender. Nunca quis coisa que fosse dos outros e nem ser outro. Saber valorizar a vida que leva é um dos segredos que compõe o segredo maior. Às vezes acelero a vida e perco o que poderia ganhar, pois a pressa é inimiga da melhor visão. Quando a gente vive o dia atual com a lembrança de que este dia é especial e jamais se repetirá, bom, então o vivemos em plenitude. As árvores são mais verdes, os animais mais incríveis e até as refeições são mais saborosas.  Os sorrisos são mais largos, os abraços são mais longos e as brigas são mais curtas. Aproveitando como pode, você não deseja mais do que o que já acontece. E se você pudesse mesmo mudar algo na sua essência ou alterar algo que realmente fizesse a diferença?

     A novidade é que você pode. Tudo é a respeito da nossa jornada e sobre o quanto somos decididos sobre nós mesmos. Você pode se manter como está ou mudar e a mágica na simplicidade deste fato é que você pode fazer isso quando quiser. Eu escrevo livros e isso não me envergonha, embora muitos subestimem minha capacidade e superestimem a possibilidade de que eu passe fome futuramente. Punge-me apenas o fato de que ainda não fui analisado, mas é mais do que necessário ter esperança. Ainda chega a minha vez.

Enquanto isso faço outras coisas também e tento ser prático e criativo e profissional, mas deveria mudar toda a minha vida apenas para me encaixar no que uma imensa quantidade de gente infeliz considera ideal? É claro que não! Deveria escutar música baixa e tentar aquietar meus instintos de dragão? Não! Deveria esconder os defeitos que me tornam mais humano? Não! Deveria esconder os enganos se foram justamente eles que me fizeram crescer? Não. Ultimamente você pensa mais que os grandes filósofos e faz mais cálculos que Pitágoras. Nas noites mais intensas seus dilemas são profundos e você se preocupa com o futuro da humanidade. Às vezes é mais sensível que todos, às vezes é mais insensato. Às vezes baseia sua vida em imaginação e às vezes prefere os fatos. Qual é a grande maldade em admitir que somos inconstantes e oscilamos? Qual é a dificuldade em reconhecer que há enganos?

A felicidade está ao nosso alcance, por incrível que pareça. É possível tocá-la, senti-la, vê-la, se há um esforço razoável. Você, enfim, nota. Não precisa de minha ajuda para reconhecer que você apenas se limita ao que se sujeita. Nós todos temos mudado tanto e vivemos tão bem esses últimos anos que é fundamental ignorar a tal receita. Não escute o que todos falam. É preciso sentir para viver e também viver para sentir. Cada um descobre sozinho um jeito pessoal e exclusivo de ser realmente feliz. 

Para mudar o mundo

Para mudar o mundo, primeiro, é preciso admitir a insatisfação com as coisas. Se este não é o cenário ideal, reconheça ansiar por mudanças, reconheça-se em seu papel de mudar seu destino e tome bastante cuidado, pois o sonho de mudar o mundo às vezes muda o sonhador (Humberto Gessinger).

Não se preocupe por estar no chão. Os melhores e os piores já caíram e estiveram exatamente no mesmo lugar qual você se encontra. Não é sobre permanecer a vida inteira em sobriedade, imaculado ou livre de constrangimentos e consternações. É sobre entender a leveza e o peso, a liberdade e a responsabilidade, a tristeza e a felicidade, o caos inevitável e a paz absoluta. Certas coisas vão se repetir até o nosso derradeiro amadurecimento. Quando aprendemos, é raro cometermos os mesmos erros.

Se os homens fossem constantes seriam perfeitos, afirmou Shakespeare, mas somos factivelmente falhos e frequentemente nos despedaçamos. Quase todos se escondem com o pretexto de não conseguirem enxergar, mas quando todas as máscaras caem, você realmente fixa os seus olhos naquilo que vê?

Recolher cacos é sempre um trabalho penoso e talvez você dê sorte em estar perto de alguém que saiba tomar cuidado com vidro, pois é difícil remontar, reerguer, reestruturar. Quando ainda no chão suas pontas afiadas estão prontas para ferir a mão de quem ousar tocar, de quem se sujeitar, de quem for suficientemente louco para cruzar os limites e assumir o risco de sangrar por você. Se você é o catador de cacos, eu recomendo apenas cuidado com as hemorragias. Há quem fira pelo prazer de ferir.

A névoa densa outra vez toma conta da cidade e você deixa de enxergar todo o resto. Sua angústia cresce quando repentinamente só enxerga seu próprio corpo, estranho, irregular, quase como se ele não lhe pertencesse. Você age, mas não se sente dentro de você. Uma espécie de monstro estranho tomou posse e suas memórias sobre certas fases são ébrias e entrecortadas. Descemos uma cortina diante das coisas que evitamos ver nos outros e em nós mesmos. Despreparados para a troca de pele, escolhemos nos igualar por baixo, fazemos incentivados por pessoas alheias, guardamos souvenires em recônditos secretos, sejam eles materiais ou não. Você pode se esconder bem, mas nada te afasta do seu reflexo. No fundo, você sabe bem quem é. Talvez secretamente acredite que mereça um prêmio ou uma punição pelas suas atitudes. Se eu não mudar o mundo talvez o mundo me mude. Alguns se regozijam pela autopercepção, outros cantam em voz alta suas lamúrias. Você se envergonha ou se orgulha de quem é?

Levantou já? É manhã outra vez. A escuridão que sugeria infinitude, enfim, morreu. Você estava apavorado, eu notei, mas me imaginou mais forte do que eu realmente sou, pois o negrume da madrugada jogou seu pesado cobertor em cima de mim também e eu senti uma sufocante vontade de chorar. Não chorei. Fiz-me forte, pois eu precisava ser o mais forte, orgulho bobo de quem se levanta quando o resto se deita, de quem se ergue para o sacrifício, de quem levanta correndo para ouvir o barulho estranho dentro de casa, de quem sabe que deve ser o primeiro na linha de combate, ainda que este geralmente seja o primeiro a morrer.

Você sente medo e eu sinto também. Não é diferente com qualquer outra pessoa. Muda-se a forma do medo, mas eventualmente todos se sentem aterrorizados. Já congelou em momentos decisivos? Fraquejou quando deveria ser mais agressivo? Acalme-se e respire fundo uma, duas ou dez vezes. Você é mais do que suas angústias e revezes. Está pronto para tentar de novo? Recomece amanhã. Por hoje, eu apenas recomendo que faça um café forte, beba muita água, coma sua comida favorita, saboreie chocolates amargos, veja a beleza de algo sutil e durma bem.

Nós somos o que fazemos de nós e não o que deixamos fazerem de nós. Não seja aquilo que tentam fazer de você e seja mais amplo nas suas angústias. Você não é o único atormentado por problemas e com a vida complicada. Não pode sofrer pelos outros, mas tampouco deve agir como se você fosse a única pessoa relevante no universo inteiro. Evite o pedantismo, precaução com os silogismos, cuidado com o que come, pois é preciso cuidar do corpo e da alma. Vá em frente, vá sempre, mas vá com calma. Acorde após sua curta noite de sono, consciente de que amanhã tudo começa de novo, até o dia em que, enfim, a vida termina. Para mudar o mundo é preciso estar bem disposto, então, acorde e lave o rosto, desafie o que lhe foi imposto como sina.

Para mudar o mundo precisamos aceitar quem somos, sem perder, entretanto, a consciência de que sempre é possível mudar para uma versão melhor. Seja você.

Poesia em Trânsito – Dirigi meu carro branco

Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Em um tempo você não sabe quando
Num universo nem eu sei onde 
As vias eram de mãos quádruplas, mas
os faróis amarelados de meu carro eram as únicas luzes na escuridão 
Onde estavam os motoristas e passageiros?
Onde estavam os determinados caminhoneiros?
Dirigi e escutei algumas novas e velhas músicas
Algumas você sabe quais, porém, outras nunca conheceu
Você duvida, mas eu posso ser surpreendente 
Vá se ferrar, eu penso e
concluo que o pensamento é errado
Alimento-me com amendoins torrados 
e algumas memórias que me ferem 
Não deveria ter exagerado, pois
os dois alimentos irritam a minha pele
Coço o meu cabelo e continuo 
com meus olhos vidrados na pista
Você não vem hoje, meu bem
Você me fez ontem, refém, 
Desista, pare, faça o retorno, 

Os sinais estão todos espalhados 
Um relâmpago ilumina o céu 
Eu sempre quente me mantenho morno
Choro e gargalho, pois vejo além, 
Choro de novo sem nem me entender
Transformo ouro em frases no papel
Eu disse que vejo além, notou?
Não preciso das suas migalhas de amor
Não como um dia eu precisei
As coisas mudaram, exceto o meu carro
Quem sabe em outros tempos?
Soube que eu gostei de outras duas?
Você amou um, mas e daí? 
Sou ainda o seu rapaz da rua com o nome de motel?
As secretárias dos médicos fazem caretas 
E em voz alta entoam seus revezes 
Eu me mudei de casa sete vezes 
Aprendi o sotaque dos ingleses 
Troquei de pele até que a carne antes macia
fosse então dura como uma couraça
Tudo que antes existia: fumaça
Por meados da virada do ano
Eu vou te deixar para sempre
Sou ainda o que fui um dia?
Sim, sou, sou sim, sei que sou
Em algum tempo sei lá quando
Em algum lugar sei lá onde
Até o dia em que não serei mais 
Esse dia é hoje e foi ontem
Provavelmente agora 
Certamente nunca

Percebo-me e me sinto vazio
Quantas bocas preciso beijar até que passe esse frio?
Eu me tornei quem eu não era
A invernia com maquiagem de primavera 
O pacifista intelectual que sempre pondera
Quando deveria partir para a ação
Ainda assim sou a presença que ninguém espera
Quando atiçado me transformo em fera 
Bicho solto com instinto louco de destruição
Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Pisei no acelerador e me senti ágil, mas paguei caro no pedágio para voltar
ao tempo na velocidade estável de 122km/h 
Certas lembranças eram como aquaplanagem
para os pneus do meu carro 
Outras com gosto de esperança
Faziam com que eu me atolasse
Cada vez mais fundo no barro
Metáforas desmedidas e esforços tão tortos 
São necessárias as partidas para enterrarmos os espaços mortos
Você não veio ontem, meu bem
Não vem hoje também
E eu não peguei os sinais da pista, sabe?
É a sina de quem possui bons olhos 
Perde-se a ingenuidade e a candura
Perde-se o carinho e deforma-se a figura 
Perde-se coisas que nunca imaginou apenas para
poder ganhar o que poucos poderiam ousar
Olha, quem vem chegando ao fim da esquina
É o pedaço quebrado ao peito apontado 
Denomina-se sina 
Os sinais trocam as cores
Na letargia e cegueira da vida
Você ainda não trocou seus amores 
Você personifica flores
que já estão murchas e mortas
A felicidade está distante em outros países ou
você só finca os pés no chão como se fossem raízes? 
Talvez seja a sina de quem sabe ler os sinais
Dar de ombros em um falso tanto faz 
Sinalizar que ao final é tudo sobre sina 
E que as sinas não impedem sequer um sinal 
Tampouco nos impedem das mais trágicas rimas 
A noite caiu dentro de mim e não há lua
Dirigi meu carro branco por uma estrada escura
Dirigi meu carro branco fingindo estar a sua procura
As estrelas refulgiam alegremente no céu ou 
seriam apenas postes disfarçando minha esperança?
Que se dane!
O que importa é a luminosidade 
Ao longe vejo luzes de apartamentos numa cidade
Temperança, repito, soturno 
Aos poucos perdia o meu medo da morte 
Na estrada (eu) desempenhava o meu papel 
O som do carro anunciava a minha sorte 
Dirigi meu carro branco por instantes seculares
Dirigi meu carro branco e atropelei segredos milenares
Apaguei os últimos resquícios seus em minha memória 
Eu estou tão feliz, triste e aliviado, pois
com você ao lado jamais poderia iniciar outra história 
Sou mais do que as partes que me formaram
É tempo de novos inícios já, certo?
Dirigi meu carro branco por novos caminhos 
Assumindo completamente o risco de me perder (e tudo bem)
Ainda dirigia e pelo retrovisor me vi sorrir 
Lembrei do conselho do gato de Lewis Carrol 
Para quem não sabe para onde vai
Não importa qual direção seguir 
Desde que não volte,
acrescentei baixinho 
Acelerei e cruzei a madrugada
Dirigindo o meu carro branco e sentido a alma gelada 
Divagando por inéditas e perigosas estradas 
Pela primeira vez em muito tempo
Satisfeito completamente 
Completamente sozinho.

Leve

Aparece e sorri
Sou feliz e leve, mas sou
Além do que era
Mais do que se espera
Primavera antecipada
Sorri e desaparece
Vê-me agora
E me esquece
Fui tudo
Sou nada

Nada que valha a pena
Que é que isso quer dizer?
Sorri na Vila Madalena
E também antes de nascer
E na estação da Sé
E entrando no estádio
Sorrio para quem me acena
Renovo minha fé
É um novo estágio

E devo viver
Abraço mais

Ando mais
Testo minhas pernas
Sorrio mais e cativo mais
Não há quem não se renda

Sou árvore avulsa no meio da plantação
ou tulipa perdida no centro urbano
Sou também a lágrima que
salga ainda mais o oceano
Se me perseguem, que me persigam,
Se me amam, que me amem,
Se querem me forçar o peso,
eu contra-ataco com a leveza
É fundamental, porém, valorizar a luta
A repetição reforça o poder da conduta
A grama bem cortada cheira bem
O matagal alto assusta
São a mesma coisa
Em leveza agora vejo
a beleza pura
Sem sentir medo
Ando firmemente
Torno-me insubstancial
Qualquer resto de poeira estelar
Flutuo e me refaço
Em outros tempos
e outros espaços
Sempre que parto
é para nunca voltar
Não pertenço a ninguém
Ainda assim

o mundo todo
É o meu lugar
.

Crônica Pregressa #2

Gole de amor

Há uma frequente subvalorização em estar sozinho.

Antes de tudo, deixe-me ser bem claro sobre o que eu quero dizer. Torço para que você tenha pelo menos cinco bons amigos e que estes sejam tão preocupados com você que refutem o próprio ego.  Espero que respeitem suficientemente a sua solidão para entendê-la, mas que jamais se façam de cegos. Honestamente torço para que não se esqueçam de que você também precisa de companhia. Que esses cinco possam te alcançar, ainda nos momentos em que você pareça impossivelmente distante. Que estes cinco, ao menos eles, possam definitivamente arrancar o mais difícil dos sorrisos quando o mundo se apresentar estranhamente cruel, maldoso ou inexoravelmente injusto.  

Todos os clichês também surgem de experiências e não há senão conselhos baseados nas coisas que vivemos. Há quem ache que o generalista ou o amplo é sempre absurdamente vago, mas é como se desconsiderassem a repetição das experiências. Você acredita que uma experiência perde valor por acontecer de maneira repetitiva? Acha que algo extremamente parecido invalida o que acontece depois? Toda experiência é nova. Você gasta sua inteligência na tentativa de arranjar provas e desgosta de quem é capaz de refutar essa versão de qualquer coisa representada tão inteligentemente por você. 

Veja, é preciso saber ser e estar sozinho. Ontem mesmo lá por volta das 18h15 fui dar uma volta e mais tarde peguei um cinema sozinho. Cheguei poucos minutos antes da sessão. Aguardei, vi o filme e saí. Eu estava vestindo uma bonita camiseta com uma dupla referência: O Pequeno Príncipe e o Senhor dos Anéis – Le Petit Hobbit. Sinto, porém, que dificilmente alguém me notaria. Dei de ombros como quem não liga tanto, mas ainda assim sei que preferia ser notado pela roupa. Há nisso algo de errado? Não encontrei rostos conhecidos no passeio e é bastante improvável que mesmo quem saiba meu nome pudesse entender minha camiseta. Existi ali por aproximadamente meia hora. Olhei com ternura e carinho para o mundo que acontecia. 

Andei pelo shopping sozinho. Resolvi que merecia comprar um café, um livro e um chocolate. A ordem que fiz a aquisição das coisas pouco importa, mas eu senti que me aproveitei. Olhei algumas pessoas nos olhos, contemplei a correria nos pés apressados de quem parece estar sempre atrasado e notei ainda a estranha e sem explicação calmaria que os apaixonados de mãos dadas sentem quando observam as vitrines das lojas. Há quem possa pagar pelas coisas caras e há quem sempre as vislumbrará, mas vejo que se unem silenciosamente na concordância que R$ 430,00 é muito dinheiro para uma blusa de seda com o desenho de um tigre. Bebês se divertiram e se irritaram sem qualquer motivo aparente, mas nos risos deles o universo se renovou. O que me leva a crer que eu também preciso de renovação? O que os bebês nos ensinam?

Meus sonhos são tão inflexíveis que às vezes duvido que a utilização da palavra sonho seja o termo correto qual deveria empregar. O que me faz crer que eu posso levar amor ao coração das pessoas? Que espécie de instinto absurdo me faz crer que sou capaz de tão grandioso feito se na maioria das vezes eu consigo falhar mesmo nas missões próprias e solitárias que possuo? Não sou um rio, mas rio, sinto-me mais leve e fluo. 

Quando não sonhamos, creio, alimentamo-nos de sonhos alheios para preencher a lacuna própria da existência que exige que se sonhe. Quem aceita existir sem ter para onde ir? Quem é que insiste em viver feliz em uma realidade tão pungente? Quem é que crê em um mundo no qual o Tempo parece tratar tudo como um jogo e que tudo o que te cerca está doente?

Honorável revelação do destino: o meu futuro são meus sonhos de menino. O gato disse que qualquer rumo serve para quem desconhece o caminho. Basta que continue andando e logo chega a hora da colheita. Nem tudo acaba como esperamos, mas certamente tudo se ajeita. 

Haverá um tempo em que os corações não poderão quebrar mais do que já estão quebrados. As lágrimas secarão e haverá pessoas esperando por você. Provavelmente serão poucas, mas elas estarão ali apenas por você. As tempestades vêm e vão. Você fica. Lembra da minha metáfora sobre tinta e coração? Você diz que não, mas eu sei que no fundo acredita. Os homens são tão pequenos e sabemos que haverá um tempo melhor a seguir. Quando a tempestade passa e as nuvens se vão, enfim, encontra-se uma o sol à luzir.      

Veja, eu sou um sujeito um tanto quanto criativo. Meus desejos práticos são coisas das quais eu sei que nem mesmo preciso. Mataram o amor, mas eu voltei a acreditar. Ainda que não sinta o mesmo, ele parece me cercar. Com uma espécie de preguiça ancestral que me obriga a ser hoje melhor do que ontem. O que é que sei dessa vida que nada sei? Ouro, prata e madeira significam a mesma coisa? Quais os metais mais valiosos? Quais os corações mais valorosos? Do que sou feito?      

Alguns estão desistindo. Diga para mim que você segue firme. Eu só preciso saber que você vai continuar.      

Outros de nós, pertencentes aos melhores, renderam-se antes da quinta noite de sofrimento e estão entregues ou partidos. Você é como eu. Somos diferentes. Nossos corações são feitos de material mais forte que o vidro.      

Ainda há quem fracassará e dará meia volta para causar tormenta infinita. Não os odeie. Se puder, entenda-os e seja sutil. O interno não aguenta tinta. O inverno torna a alma mais sucinta. Ninguém é tão grosseiro assim. O valor é relativo, mas pode acreditar em mim. Todos têm valor.      

Até a alma mais cansada, suplica perto do fim da estrada, por um mero gole de amor. 

Para onde seus olhos olham?

     Furacões de terras longínquas fizeram com que eu evitasse alguns caminhos. O dia todo decorria em câmera lenta. Anteciparia qualquer espécie de sinal divino acaso existisse, mas meus olhos ainda cansados não acharam nada tão diferente assim.

     Adianto-me nestes relatos até a parte qual não me pertence, mas me toca mais profundamente. Foi durante o almoço que fitei os olhos azuis de meu avô encarando fixamente a parede. Diversas vozes se conversavam na mesa parcialmente cheia, mas se o corpo do meu velho estava presente, sua memória parecia completamente alheia. Para onde seus olhos olhavam?

     Inigualavelmente distantes como poucas coisas que vi na vida. Contemplava tempos de antes e lembranças ainda não esquecidas? Tudo ali e você tão perto de nada. Altivo e enérgico outrora, olhos estranhos repousam olhares cheios de intenções sobre você agora. Ó Senhor Cruel chamado Tempo, o que foi que fizeste com os sacros momentos? Deus Maior que condena todos ao Esquecimento? Ele soa saudosista por melhores horas, mas não demonstra qualquer tipo de tristeza ou vileza. Aceita o fardo cobrado pela vida em um silêncio ensurdecedor. Para onde seus olhos olham? Buscam algum tipo de lembrança melancólica ou reabrem cicatrizes de dor? 

     Olho-o sem parar, mas ele ainda não me notou. Há algo na cor de oceano que me faz sentir que não me engano e tudo isso me leva a estremecer. Sei que vou falhar em tentar nos descrever. O que é que fica aprisionado aí dentro que não consegue mais buscar o seu lugar? O que restou quando todo o seu corpo começou a falhar?

     O que faz aí? O que tanto busca no passado? Será que procura novas maneiras para se ferir? Será que medita insistentemente sobre a hora de partir? Discreto como um personagem literário, antes, era como se ninguém soubesse desnudá-lo ou constrangê-lo. Parecia inequivocamente superior. Parecia certamente avesso à dor. Odeia o pedantismo. Prefere que brinquem com sua queda do que falem sobre o seu declínio. Não o machuquem mais. Acaso não percebeu que ele ainda é um sofredor silencioso?

     Nem todo mundo é pelas palavras e pelo alarde. Alguns morrem quietos enquanto outros tão escandalosamente ardem. Teus ideais agora rastejam no chão. Há quem te entenda e respeite, mas há poucos que não sintam qualquer comoção. Você odeia que sintam pena, mas procura com seus olhos perscrutadores quaisquer resquícios de negação. Para onde seus olhos olham, diga-me, senhor? Será que buscam a felicidade passageira e perdida em outras décadas esquecidas, descanso na loucura, doçuras perdidas, vestígios de amor?

     Teu porte agora é outro. Voz marcante, petulante e não obstante, seu novo eu é um sujeito rouco. Não. Sua risada grave ainda se espalha, mas você se sente migalha de algo que um dia foi inteiro. Pergunta-se se são preocupados por obrigação ou se são verdadeiros. Você se fere para saber se ainda sente algo pessoal? Você ainda ri de quem te olha de verdade? O que é que você quer nesses tantos instantes que antecederão ao fim? Que é que restou no mundo que você tanto deseja? Esses almoços te tornam feliz? Te orgulha ver a sua família reunida em volta da mesa? 

     Para mim são indiferentes os apelos das orações. Exagero-me na expressão de opiniões quais não tenho direito de me manifestar. Devemos falar sempre que sentimos a necessidade da fala ou estudar a hora certa de calar? Os próprios silêncios nos fazem mais sábios ou falsos? Os silêncios provam nossa maturidade ou nossa tolerância? Somos adeptos de qualquer vaga religião ou incertos em nossos absurdismos buscamos algo para tapear a solidão? Para onde seus olhos olham? Revolvem-se para dentro no intento de se perder da vida real? 

     Sol nefasto queima minha pele. Tantos oram pelos mortos, mas pelos vivos há quem zele? Cultura nova, obscura prova, compaixão, heróis, grãos de areia, lençóis, cantos de sereias, eles, nós, vil dança, inesperada criança, o jeito tão meigo que você sorri. Existe insegurança nos olhos mais bonitos que eu já vi? Não. Sombras o perseguem e você as enfrenta. Sabe que não pode vencê-las, mas ainda tenta. 

     A imensidão azul do par de olhos recai sobre mim. Observa-me apenas alguns instantes e logo solta a sentença: “Você está prestando atenção em mim. Acha que eu não entendo o que acontece por aqui“. Docemente lhe respondo que a conversa alheia me enche de assombro e que estou tão imerso em outro plano que de tudo o mais me esqueci. Ele me olha sem temor ou hesitação. Quase sentiu um lampejo de raiva quando supôs que o que eu via nele era pena. Quando percebeu a verdade se distraiu e sorriu como quem sabe que inexiste confusão que valha a continuação da cena. 

     Ele se levantou com ajuda e eu me fiz de apoio até que ele estivesse em sua poltrona na sala. Sentamos lado a lado e ele não disse nada, mas me lembrei de quando ele havia dito que supunham que ele precisava de ajuda para fazer tudo. O sabor da memória me fez mudo. Cada idade têm seu prazer e sua dor, mas falho em antecipar da velhice esse sofrimento. Não há empatia minha que me faça alcançá-lo. Não me testo e tampouco pretendo testá-lo. O café está pronto e vou buscá-lo. 

     Uma vida de tantos trabalhos e tantos esforços. A recompensa que todos alcançam é a debilidade dos já tão cansados corpos? A coluna se entorta, novos problemas surgem e encaramos a vida em contagem regressiva. Os ciclos se renovam e a vida precisa ser vivida. 

     Raridade secreta reside na solidão discreta e tentamos narrar nossos segredos, mas ninguém nos entende. Nas entrelinhas anunciei todos os meus medos, mas ninguém nunca me aprende. Hoje sou melhor e consigo mostrar um pedaço do meu valor. Algum dia alguém irá contemplar a imensidão do meu amor? Terei eu na velhice uma mesa cheia assim? Fixarei meus olhos castanhos em mundos tão estranhos enquanto me distraio de mim?           

Furacões de terras longínquas agora se acalmam. Não sei se perdi os sinais divinos ou se eles simplesmente desapareceram. Todo o resto pareceu perder o brilho também. Sinto novas pontadas de dores, mas meus novos amores sempre vão e vêm. Um milhão e meio de pensamentos passam pela minha cabeça, eu tropeço e caio. Continuo vivendo de improviso, faço drama, mas nunca me ensaio. 

     Incógnita irreal me faz tentar ter a empatia para com tudo, mas às vezes opto pela compaixão com nada. Sou essencialmente bom, mas mudo quando me mudo e persisto muito mais voraz nas longas madrugadas. O sono aos poucos se apodera de meu corpo. Um deus invisível afaga meus cabelos, mas me vejo sozinho no reflexo do espelho. Um instinto de loucura sobe, mas ninguém nota. Já estou quase dormindo quando percebo que ainda não sei para onde aqueles olhos olham. 

Menos que antes

Menos que antes,
Muito mais que agora
Menos que mero instante
A vida crescendo lá fora
E pesa no meu peito
O que deixei por fazer
O que poderia ter dado jeito
e preferi esquecer
Menos do que o futuro
Muito mais que o presente
O jornalista busca o furo
O dentista arruma os dentes
Menos do que pude supor
Mais do que poderia doer
A imaginação me causa uma dor
que eu preferia não ter
Menos do que o merecido
Sobrepujado pelo cansaço
Fui suficientemente ferido
Confundem minha pele com aço
Até onde eu sei ainda há diferença
Todos parecem se importar com tudo,
Menos com a minha presença

Feitos para durar

Noutra noite de aventuranças
Vislumbrei
estranhas cenas
Tardios sonhos

de esperança
contidos nas

entranhas de poemas
Devaneio com um

corpo e uma valsa
Boca, toque, aproximação, pele
Sinto-me morto com uma lembrança falsa
Poucas roupas,

choque, vibração,
Estou entregue
Acordo entorpecido sem saber onde estou
Ela se aproxima e me dá um beijo de café
Esvanece o perigo diante do rosto do amor
Ela é sina e se denomina minha nova fé
Envolvo-a com meus braços e sussurro
quando envolve todo o espaço aquele perfume
Ainda que tudo soe escasso e escuro quando fracasso meus olhos encontram o lume
Na madrugada densa nos entregamos completamente
Espiados integralmente pela noite enluarada
Dada nossa sentença suspiramos lentamente
Suados e contentes não nos arrependemos de nada
A beleza hipnotizante some com o raiar do dia
Enquanto rascunho homenagens em meu caderno
Àquela que personifica o bailar e a poesia
Que se tornou o testemunho de um conto eterno
Os risos histéricos e invejosos ficam roucos
Pontualíssima sensação de que é impossível atrapalhar
Rios lodosos que afogam tantos loucos
Anunciam a conclusão: foram feitos para durar.

Contradição

     Começo este relato sem a devida lembrança de onde ele se inicia. Falho com o mínimo, porém, não me desanimo tanto. A prolixidade dos meus sentidos contradiz a preguiça do meu corpo. Mal me sinto capaz de caminhar ou de comer, entretanto, obstinado, sigo batendo os meus dedos no teclado. Observo-me, não sem certo estranhamento, quase estático. A minha mente nunca descansa da realidade ou da irrealidade. Sinto uma vontade de gritar até perder a voz, mas estou cercado. Saiam, por favor. Sou dominado por um instinto de isolamento e sinto uma vontade crescente de desaparecer.


     Resisto, incertamente intrigado, mas certamente contente. Tenho falhado sim e errado como um mestre em cometer erros. Domino os equívocos e nunca me basto deles. Quando alguém me diz para não viver tudo hoje, eu sorrio e assumo uma expressão zombeteira, ainda que não me perceba tão irônico assim. Chamar-me de cínico é a única coisa imperdoável. Ouvi discorrerem sobre minhas ações de maneira generalizada e cada um pensava algo diferente. Assim, eu fui honesto comigo e com os outros. Nunca pude controlar o que esperavam de mim. Nunca me importei tanto com isso também. Minhas decepções são somente minhas. Meus êxitos também.


     A exaustão percorre meus ossos. Dizem que eu não tenho motivos para estar exausto. Talvez eles estejam certos, mas, olha, eu não tenho que me explicar quando quaisquer tipos de explicações fogem rapidamente do meu controle. Preciso me afastar um pouco. Posso me perder de tudo, até perder uma ou outra pessoa querida, mas minha própria ausência me desespera. Não penso em boas frases para finalizar um texto. Não há nada mais que eu sinta ou que faça sentido. 


     Um bichinho de luz aparece e me incomoda, mas sinto muita preguiça para me livrar dele e minha bondade ingênua me impede de esmagá-lo. Talvez eu devesse ser mau de vez em quando. Neste final de tarde ainda não posso. Quem sabe um dia poderei? Apago a luz e torço para que ele vá. Não desejo companhia. Espero dormir e me esquecer de quem me esqueceu, mas também de quem ainda se recorda de mim. A falsa compreensão geral não me atinge, mas creio que cada ser humano já tenha passado pelo menos uma vez por isso. Hoje? Hoje quero apenas existir sozinho.