Para onde seus olhos olham?

     Furacões de terras longínquas fizeram com que eu evitasse alguns caminhos. O dia todo decorria em câmera lenta. Anteciparia qualquer espécie de sinal divino acaso existisse, mas meus olhos ainda cansados não acharam nada tão diferente assim.

     Adianto-me nestes relatos até a parte qual não me pertence, mas me toca mais profundamente. Foi durante o almoço que fitei os olhos azuis de meu avô encarando fixamente a parede. Diversas vozes se conversavam na mesa parcialmente cheia, mas se o corpo do meu velho estava presente, sua memória parecia completamente alheia. Para onde seus olhos olhavam?

     Inigualavelmente distantes como poucas coisas que vi na vida. Contemplava tempos de antes e lembranças ainda não esquecidas? Tudo ali e você tão perto de nada. Altivo e enérgico outrora, olhos estranhos repousam olhares cheios de intenções sobre você agora. Ó Senhor Cruel chamado Tempo, o que foi que fizeste com os sacros momentos? Deus Maior que condena todos ao Esquecimento? Ele soa saudosista por melhores horas, mas não demonstra qualquer tipo de tristeza ou vileza. Aceita o fardo cobrado pela vida em um silêncio ensurdecedor. Para onde seus olhos olham? Buscam algum tipo de lembrança melancólica ou reabrem cicatrizes de dor? 

     Olho-o sem parar, mas ele ainda não me notou. Há algo na cor de oceano que me faz sentir que não me engano e tudo isso me leva a estremecer. Sei que vou falhar em tentar nos descrever. O que é que fica aprisionado aí dentro que não consegue mais buscar o seu lugar? O que restou quando todo o seu corpo começou a falhar?

     O que faz aí? O que tanto busca no passado? Será que procura novas maneiras para se ferir? Será que medita insistentemente sobre a hora de partir? Discreto como um personagem literário, antes, era como se ninguém soubesse desnudá-lo ou constrangê-lo. Parecia inequivocamente superior. Parecia certamente avesso à dor. Odeia o pedantismo. Prefere que brinquem com sua queda do que falem sobre o seu declínio. Não o machuquem mais. Acaso não percebeu que ele ainda é um sofredor silencioso?

     Nem todo mundo é pelas palavras e pelo alarde. Alguns morrem quietos enquanto outros tão escandalosamente ardem. Teus ideais agora rastejam no chão. Há quem te entenda e respeite, mas há poucos que não sintam qualquer comoção. Você odeia que sintam pena, mas procura com seus olhos perscrutadores quaisquer resquícios de negação. Para onde seus olhos olham, diga-me, senhor? Será que buscam a felicidade passageira e perdida em outras décadas esquecidas, descanso na loucura, doçuras perdidas, vestígios de amor?

     Teu porte agora é outro. Voz marcante, petulante e não obstante, seu novo eu é um sujeito rouco. Não. Sua risada grave ainda se espalha, mas você se sente migalha de algo que um dia foi inteiro. Pergunta-se se são preocupados por obrigação ou se são verdadeiros. Você se fere para saber se ainda sente algo pessoal? Você ainda ri de quem te olha de verdade? O que é que você quer nesses tantos instantes que antecederão ao fim? Que é que restou no mundo que você tanto deseja? Esses almoços te tornam feliz? Te orgulha ver a sua família reunida em volta da mesa? 

     Para mim são indiferentes os apelos das orações. Exagero-me na expressão de opiniões quais não tenho direito de me manifestar. Devemos falar sempre que sentimos a necessidade da fala ou estudar a hora certa de calar? Os próprios silêncios nos fazem mais sábios ou falsos? Os silêncios provam nossa maturidade ou nossa tolerância? Somos adeptos de qualquer vaga religião ou incertos em nossos absurdismos buscamos algo para tapear a solidão? Para onde seus olhos olham? Revolvem-se para dentro no intento de se perder da vida real? 

     Sol nefasto queima minha pele. Tantos oram pelos mortos, mas pelos vivos há quem zele? Cultura nova, obscura prova, compaixão, heróis, grãos de areia, lençóis, cantos de sereias, eles, nós, vil dança, inesperada criança, o jeito tão meigo que você sorri. Existe insegurança nos olhos mais bonitos que eu já vi? Não. Sombras o perseguem e você as enfrenta. Sabe que não pode vencê-las, mas ainda tenta. 

     A imensidão azul do par de olhos recai sobre mim. Observa-me apenas alguns instantes e logo solta a sentença: “Você está prestando atenção em mim. Acha que eu não entendo o que acontece por aqui“. Docemente lhe respondo que a conversa alheia me enche de assombro e que estou tão imerso em outro plano que de tudo o mais me esqueci. Ele me olha sem temor ou hesitação. Quase sentiu um lampejo de raiva quando supôs que o que eu via nele era pena. Quando percebeu a verdade se distraiu e sorriu como quem sabe que inexiste confusão que valha a continuação da cena. 

     Ele se levantou com ajuda e eu me fiz de apoio até que ele estivesse em sua poltrona na sala. Sentamos lado a lado e ele não disse nada, mas me lembrei de quando ele havia dito que supunham que ele precisava de ajuda para fazer tudo. O sabor da memória me fez mudo. Cada idade têm seu prazer e sua dor, mas falho em antecipar da velhice esse sofrimento. Não há empatia minha que me faça alcançá-lo. Não me testo e tampouco pretendo testá-lo. O café está pronto e vou buscá-lo. 

     Uma vida de tantos trabalhos e tantos esforços. A recompensa que todos alcançam é a debilidade dos já tão cansados corpos? A coluna se entorta, novos problemas surgem e encaramos a vida em contagem regressiva. Os ciclos se renovam e a vida precisa ser vivida. 

     Raridade secreta reside na solidão discreta e tentamos narrar nossos segredos, mas ninguém nos entende. Nas entrelinhas anunciei todos os meus medos, mas ninguém nunca me aprende. Hoje sou melhor e consigo mostrar um pedaço do meu valor. Algum dia alguém irá contemplar a imensidão do meu amor? Terei eu na velhice uma mesa cheia assim? Fixarei meus olhos castanhos em mundos tão estranhos enquanto me distraio de mim?           

Furacões de terras longínquas agora se acalmam. Não sei se perdi os sinais divinos ou se eles simplesmente desapareceram. Todo o resto pareceu perder o brilho também. Sinto novas pontadas de dores, mas meus novos amores sempre vão e vêm. Um milhão e meio de pensamentos passam pela minha cabeça, eu tropeço e caio. Continuo vivendo de improviso, faço drama, mas nunca me ensaio. 

     Incógnita irreal me faz tentar ter a empatia para com tudo, mas às vezes opto pela compaixão com nada. Sou essencialmente bom, mas mudo quando me mudo e persisto muito mais voraz nas longas madrugadas. O sono aos poucos se apodera de meu corpo. Um deus invisível afaga meus cabelos, mas me vejo sozinho no reflexo do espelho. Um instinto de loucura sobe, mas ninguém nota. Já estou quase dormindo quando percebo que ainda não sei para onde aqueles olhos olham. 

Os pais não nascem velhos

Os pais não nascem velhos, eu pensei qualquer dia desses, após ouvir os relatos nostálgicos de minha mãe. Contemplava um pãozinho de batata e me disse que, à sua época, a minha avó lhe dizia para comprar o pão lá no Bulicho. Na nossa cidade hoje Bulicho é o nome de uma conveniência com todos os aspectos de um boteco, mas os cidadãos que lá frequentam não me agradam. Talvez seja pelo fato de que aqui na cidade Euclides da Cunha represente uma rua nobre. Viver é adaptar-se, disse ele uma vez e sorrio com essa recordação desconexa. Vívida esta memória do boteco Bulicho, qual por meus motivos desgosto, sejam eles banais ou não, reflito sobre o tanto que conheço sobre a vida de meus pais.

Contei para a mãe, dia desses, que em janeiro viajaria para a praia com os amigos. Ela franziu o cenho e me respondeu: isso é bom de se pesquisar antes. Eu e seu pai nos metemos em uma fria uma vez. Na época eu estava grávida de você, seis meses já e dormi sentada enquanto os homens todos dormiram no chão. Meus olhos brilharam com o interesse genuíno em uma história em que eu conhecia de tanto desconhecer. E como foi isso, mãe? Ela então me contou que alugaram um lugar que já estava alugado e por duas noites ela dormiu em lugares nada confortáveis. Azar maior foi o dos homens que tiveram que se espremer dentro do carro. E onde foi isso, mãe? Ela pensou rapidamente e respondeu Matinhos, sabe? Lá no Paraná. Bons tempos.

Achei divertido. Antes de nossos pais serem velhos, eles eram adultos e antes ainda jovens que viajavam com os próprios amigos para praias. Não havia GPS, mas havia boa vontade e entusiasmo. Contei mais sobre a minha expectativa de viajar e ela sugeriu alternativas, ainda que soubesse que eu não iria ouvi-las: Guarujá, Bertioga, Riviera são três praias boas no litoral de São Paulo. Fomos para Itapema algumas vezes, você se lembra? Era bem gostoso também. Bombinhas na minha época era uma praia tranquila, boa para banho. Santos, não! As praias de Santos não são boas.

Rememorei com certo saudosismo minhas idas para Santa Catarina com a família. Não me lembro de muita coisa, mas além de ser filho do César e da Etti, eu sempre fui desses filhos do mar. Acaso permitissem e eu passaria o dia todo na areia ou no mar. Construía meus castelos de areia e lutava com lendárias criaturas marinhas. Havia um restaurante no qual eu amava ir e foi lá que desde pequeno iniciei minha mania de provar os pratos exóticos. Não devia ter nem dez anos quando comi lula pela primeira vez. Só o meu pai me acompanhava nessas aventuras.

Voltando um pouco, meus pais existiam antes de eu existir, se é que por aí eu não existia de alguma outra forma ou jeito. Minha mãe contou que o conheceu em uma reunião do grupo da igreja que decidia coisas sobre essa excursão para Santos. E foi em Santos, vejam bem, que meus pais se apaixonaram e ficaram juntos. Duas de minhas tias, irmãs de meu pai, ficaram extremamente emburradas durante o passeio.

Meus pais casaram e primeiro veio o Caio. Depois muitas outras coisas viriam a acontecer, eu uma das mais importantes, é claro, mas quantas histórias e universos couberam neste caminho? Quanto se prende no filtro singular da memória? Quanto segue existindo num mundo particular? Futuramente eles se divorciariam, mas o que me pergunto é sobre quantas histórias não sabemos das pessoas que achamos que conhecemos sempre tão bem? O mundo é tão apertado para nos recusarmos a ouvir a história de mais alguém?

Hoje vivo minhas histórias. Sou composto por uma soma grande de fracassos e alguns momentos de pura glória. Oscilo entre dois pontos. Entre eles crio poemas, histórias e contos. Abraço estranhos com a intimidade que não se força, mas se derrama. Abandonei e fui abandonado. Um dia serei eu a narrar coisas aos meus filhos? Por aí sou quem posso ser. A maioria se apraz em me conhecer.

A grandeza suprema da vida talvez seja a de conhecer e viver os meus próprios dilemas. Minhas atitudes nunca são pequenas. Às vezes me arrependo. Outras vezes não. Meus amigos e minha família carrego sempre comigo daquele jeitinho que se diz: no coração. Que coisas prometem a praia no verão? A primeira vez eu somente com meus amigos. Espero que viva tudo o que possa ser vivido.

Os velhos todos, os pais, os avós ou nossas próprias versões futuras, sabem que por fora vamos envelhecendo dia após dia, olham-nos de perto, mas distantes com notável nostalgia. Os ciclos da vida mudam. Os pais não nascem velhos. Ninguém nasce velho. Os sortudos podem envelhecer. Os mais azarados morrem cedo.

A vida passa rapidamente. Você também sente quem te ama ou só ama o que sente? Deixo reflexões filosóficas de lado. Ninguém pode realmente filosofar em um texto feito em dez minutos. Olho pela janela e o dia é cinza. Sorrio. Quero comer pipoca, mas decido fazer o café primeiro. A cafeína é essencial e o resto não tanto. As palavras sempre me aliviam. Quem um dia me lerá nas entrelinhas? Há algo importante que certamente me esqueci de dizer, mas minhas ideias se transformam em fumaça. Aproveite tudo o que acontece, pois a vida passa.

“Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma”. Gabriel García Márquez.