Os pais não nascem velhos

Os pais não nascem velhos, eu pensei qualquer dia desses, após ouvir os relatos nostálgicos de minha mãe. Contemplava um pãozinho de batata e me disse que, à sua época, a minha avó lhe dizia para comprar o pão lá no Bulicho. Na nossa cidade hoje Bulicho é o nome de uma conveniência com todos os aspectos de um boteco, mas os cidadãos que lá frequentam não me agradam. Talvez seja pelo fato de que aqui na cidade Euclides da Cunha represente uma rua nobre. Viver é adaptar-se, disse ele uma vez e sorrio com essa recordação desconexa. Vívida esta memória do boteco Bulicho, qual por meus motivos desgosto, sejam eles banais ou não, reflito sobre o tanto que conheço sobre a vida de meus pais.

Contei para a mãe, dia desses, que em janeiro viajaria para a praia com os amigos. Ela franziu o cenho e me respondeu: isso é bom de se pesquisar antes. Eu e seu pai nos metemos em uma fria uma vez. Na época eu estava grávida de você, seis meses já e dormi sentada enquanto os homens todos dormiram no chão. Meus olhos brilharam com o interesse genuíno em uma história em que eu conhecia de tanto desconhecer. E como foi isso, mãe? Ela então me contou que alugaram um lugar que já estava alugado e por duas noites ela dormiu em lugares nada confortáveis. Azar maior foi o dos homens que tiveram que se espremer dentro do carro. E onde foi isso, mãe? Ela pensou rapidamente e respondeu Matinhos, sabe? Lá no Paraná. Bons tempos.

Achei divertido. Antes de nossos pais serem velhos, eles eram adultos e antes ainda jovens que viajavam com os próprios amigos para praias. Não havia GPS, mas havia boa vontade e entusiasmo. Contei mais sobre a minha expectativa de viajar e ela sugeriu alternativas, ainda que soubesse que eu não iria ouvi-las: Guarujá, Bertioga, Riviera são três praias boas no litoral de São Paulo. Fomos para Itapema algumas vezes, você se lembra? Era bem gostoso também. Bombinhas na minha época era uma praia tranquila, boa para banho. Santos, não! As praias de Santos não são boas.

Rememorei com certo saudosismo minhas idas para Santa Catarina com a família. Não me lembro de muita coisa, mas além de ser filho do César e da Etti, eu sempre fui desses filhos do mar. Acaso permitissem e eu passaria o dia todo na areia ou no mar. Construía meus castelos de areia e lutava com lendárias criaturas marinhas. Havia um restaurante no qual eu amava ir e foi lá que desde pequeno iniciei minha mania de provar os pratos exóticos. Não devia ter nem dez anos quando comi lula pela primeira vez. Só o meu pai me acompanhava nessas aventuras.

Voltando um pouco, meus pais existiam antes de eu existir, se é que por aí eu não existia de alguma outra forma ou jeito. Minha mãe contou que o conheceu em uma reunião do grupo da igreja que decidia coisas sobre essa excursão para Santos. E foi em Santos, vejam bem, que meus pais se apaixonaram e ficaram juntos. Duas de minhas tias, irmãs de meu pai, ficaram extremamente emburradas durante o passeio.

Meus pais casaram e primeiro veio o Caio. Depois muitas outras coisas viriam a acontecer, eu uma das mais importantes, é claro, mas quantas histórias e universos couberam neste caminho? Quanto se prende no filtro singular da memória? Quanto segue existindo num mundo particular? Futuramente eles se divorciariam, mas o que me pergunto é sobre quantas histórias não sabemos das pessoas que achamos que conhecemos sempre tão bem? O mundo é tão apertado para nos recusarmos a ouvir a história de mais alguém?

Hoje vivo minhas histórias. Sou composto por uma soma grande de fracassos e alguns momentos de pura glória. Oscilo entre dois pontos. Entre eles crio poemas, histórias e contos. Abraço estranhos com a intimidade que não se força, mas se derrama. Abandonei e fui abandonado. Um dia serei eu a narrar coisas aos meus filhos? Por aí sou quem posso ser. A maioria se apraz em me conhecer.

A grandeza suprema da vida talvez seja a de conhecer e viver os meus próprios dilemas. Minhas atitudes nunca são pequenas. Às vezes me arrependo. Outras vezes não. Meus amigos e minha família carrego sempre comigo daquele jeitinho que se diz: no coração. Que coisas prometem a praia no verão? A primeira vez eu somente com meus amigos. Espero que viva tudo o que possa ser vivido.

Os velhos todos, os pais, os avós ou nossas próprias versões futuras, sabem que por fora vamos envelhecendo dia após dia, olham-nos de perto, mas distantes com notável nostalgia. Os ciclos da vida mudam. Os pais não nascem velhos. Ninguém nasce velho. Os sortudos podem envelhecer. Os mais azarados morrem cedo.

A vida passa rapidamente. Você também sente quem te ama ou só ama o que sente? Deixo reflexões filosóficas de lado. Ninguém pode realmente filosofar em um texto feito em dez minutos. Olho pela janela e o dia é cinza. Sorrio. Quero comer pipoca, mas decido fazer o café primeiro. A cafeína é essencial e o resto não tanto. As palavras sempre me aliviam. Quem um dia me lerá nas entrelinhas? Há algo importante que certamente me esqueci de dizer, mas minhas ideias se transformam em fumaça. Aproveite tudo o que acontece, pois a vida passa.

“Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma”. Gabriel García Márquez.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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