Improvável filho
de uma força invisível
que não faz questão de ficar
Eterno andarilho
Incansável
Anda e anda e anda
Percorre os trilhos e sabe
Nunca vai voltar
Aprendeu
Catástrofes nos engolem
e temos sorte se esbarramos
em alguém que nos devolva
na boca o gosto da Vida
Lágrimas escorrem de meus olhos
sinto o sal na ponta da língua
Carregamos o oceano no âmago
O mundo se perdeu
Escuto e ouço centenas se repetirem
O mundo se perdeu, mas eu não
Sou acometido por náuseas e vertigens
Não vou vomitar
O fim é só um começo deturpado
Derrotamos o que supomos
fadado a dar errado?
Silêncio, ronco do cachorro,
estrelas urbanas nas calçadas,
carros em alta velocidade,
batida, semáforos, acidentes
Vale a pena sentir o que se sente?
O instinto da coragem te ergue
É preciso seguir em frente
Filho do mar se aproxima
sente a areia nos pés
Filho do mar, não existe sina
Ganhamos e perdemos
apostando na nossa fé
Fecho os olhos e
a areia me afunda
Estou enlouquecendo ou
tudo está acabando?
Sinto muito pelos erros que cometi
A minha vida passou voando
Por anos tive tantas certezas
Tento desfazer meus enganos
As nuvens anunciam a tempestade
Relâmpagos fazem brilhar o céu
É noite já e estou sozinho na praia
Fecho meus olhos e apago, mas
não sei dizer se estou dormindo
Na grande solidão do término do mundo
No ocaso mais tenebroso e escuro
Eu estava luzindo
Uma grande onda chega
Afogando tudo
Cada sentimento
Cada memória
com água salgada
Grito o seu nome e você não escuta
Será que grita o meu também?
Nossa prole também não nos ouve
Os corpos são lançados
em diversas direções
Na língua o forte gosto do sal
Nós nunca nos lembramos
Nós nunca existimos
Nós somos apenas
água salgada.
Categoria: Diversos
Fica agora comigo?
Fica agora comigo?
Traz teu corpo pra cá
Diz que é a minha chama
que não espera o final de semana
E que quer a minha cama hoje
Diz que adora o meu sorriso
Admite que quer ficar comigo
sem medo do tempo e pavor da demora
Mente que eu sou seu paraíso
E se permita atrasar até esquecer das horas
Fica hoje comigo e viajaremos para a lua
Dentro do meu carro vagando pela rua
Orbitando outras galáxias
Desmistificando ancestrais falácias
Abandonando tudo por um certo desejo
Diz que não pode esperar mais
Que amanhã tanto faz
E precisa imediatamente
do gosto do meu beijo
Ignore a gravidade e deixe a cidade
Em outros sistemas solares
voaremos juntos
Esmagaremos todos
os péssimos assuntos
Flutuando pelo espaço fora da Terra
Diz que quer dividir comigo sua paz
O resto todo tanto faz
Mas diz que por mim inicia guerras
Diz que eu sou louco de propor
a minha vida inteira
às 21h30 de uma segunda-feira
Ignore os maus pressentimentos e o medo
Sei que trabalhamos amanhã cedo
E talvez eu tenha enlouquecido
Quero te sussurrar meus segredos
Alegrar o seu tão previsível enredo
E se acordado não te encontrar
Espero pelo menos te achar
enquanto estiver dormindo.
Fome e Memória
Aproveitar esses mágicos instantes
Essa doçura com face de paraíso
Se nessa vida tudo fosse constante
optaria todo dia pelo teu sorriso
Trouxe-me tantas alegrias inesperadas
Fez-me voar alto para a imensidão
Fecho os olhos e nos vejo de mãos dadas
dentro da velha loja em destruição
Quero te beijar como se fosse o primeiro beijo
Te amar com toda a fome do meu desejo
Viver contigo por cento e dez eternidades
Quero ser no dia a dia assim risonho
Assustado acordo de um distante sonho
Chorando por velhas memórias e saudades
Aos que acharem meu corpo.
Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido
Tentei até o último instante
Diga que certas vezes me apavorei
Até errei o meu caminho
Algumas vezes iludido pensei
que faria tudo melhor sozinho
Diga aos médicos legistas
que fui um homem de poucos medos
Peça para que sejam detalhistas
e cuidadosos com meus segredos
Diga que nunca consegui me recompor
E que nunca mais pude ser quem fui
A sombra de uma versão melhor
certas vezes ainda me possui
Diga aos que acharem o meu corpo
que não permaneçam em luto por mim
Se estou estirado e morto
é porque tinha que acabar assim
Diga aos que acharem o meu corpo
que eu sempre maldisse os descuidados
Que notava a vituperação provinda do porco
ainda que ele jurasse ser meu aliado
Diga que eu vi a argêntea adaga
antes de ser tingida por meu sangue rubro
O golpe traiçoeiro de uma amiga espada
nunca pode ser parado por um escudo
Diga que eu sofri pela latência da dor,
E admita que não gemi por sequer um momento
Narre que humilhado despenquei de joelhos
no vazio imenso do silêncio violento
Diga que parti com certa humanidade
Carregando sentimentos estranhos
Confesse que deixei esta vida com dignidade
Sustentada por meu férreo olhar castanho
Peça para que não lamentem
nossas tantas manhãs e tardes de café
Diga para apostarem no que sentem
E que tenham sempre aquela velha fé
Diga para acreditarem nas próprias forças
como eu um dia acreditei
Diga que minha alma flutua por eternidades
Ensombrando a existência de quem ainda existe
Diga que aparecerei na velha cidade
quando o coração ecoar demasiado triste
Diga que eu fui para nunca mais voltar
Fantasma errante e viajante sempre fora de lugar
Diga aos que acharem o meu corpo
Que ele já não é mais meu
Que tudo que um dia tive
Jamais me pertenceu
Diga aos que acharem meu corpo
para que queimem meus restos
ou me arremessem em uma vala
Peça que desliguem todos os dias
a televisão que fica na sala
Diga para os que jazem funestos
que nenhum morto fala
Diga que foi por um triz
Mas que fui muito feliz
Antes de abraçar o Nada
Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido
Tentei até o último instante
Ser melhor do que antes
Não foi o bastante
Esforços inúteis,
ainda que válidos
Diga para que sigam em frente
Que eu apenas fui primeiro
Sigam como se nada tivesse acontecido
Depois da morte há outro continente
Não há razão para o desespero
E eu reverei todos os meus amigos
Diga aos que acharem o meu corpo
não há nada que devam dizer
Neste mundo imprevisível e louco
só lhes resta continuar a viver.
Chão gelado.
Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Abra os braços para a memória doce
As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer
Dedica teu amor aos que te cercam
Supera tua história de trauma, querida
Liberta-se na imaginação e depois na vida
Não se esquece de que o Tempo é o único algoz
Entretanto viva momento por momento
Essa vida que vivemos passa veloz
Passam até os grandes arrependimentos
Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Desliza os dedos pela aspereza
As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer
Não se esquece de quem te inflama
E por ti arde em desejos
Revira tua vida e tua cama
Clama sempre por teus beijos
Deita-te no chão gelado de pedra
Se esta vida é o teu lugar
A resposta é sempre uma sentença
Tudo bem se você então mudar
Deita-te no chão gelado de pedra
Observa as várias cores da torre de sempre
Acredita no infinito contando estrelas
Lembra-te que tudo um dia se encerra
Até a torre de sempre um dia some
bem como todas as certezas
E a Dor surge como um fio de escuridão
no meio de tantas lembranças felizes
Siga em frente com orgulho do coração
que sobrevive com tantas cicatrizes
Antes que tudo isso se acabe
Deita-te no chão gelado de pedra
E nunca se esqueça
As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer.
Meet Criativo de fim de ano: Coletivo Um Tinteiro debate sobre o ato de escrever
Realizáveis
De quando em quando penso que me lembro
Daquela distante manhã no mês de março
E invejo a força que tinha antes de me limitar
Nasci com uma ambição ferrenha e determinada
Chorei até que me alimentassem duas vezes consecutivas
Reclamei o que era meu por direito e nunca me desculpei
Pego-me debruçado na sacada e olho a cidade que dorme
Todos os outros seres humanos também parecem ter vidas
Celebro a confusão estética dos estilos mundanos
Comemoro a profusão poética dos instintos mais insanos
Ainda debruçado na sacada lanço noite afora impressões
Sonho constante em um reino distante: tenho vários corações
Despido de minhas tantas sensações me sinto abstraído
Nu para alheias comoções e atraído pelo perigo
Ainda assim uma fraqueza cósmica cresce no meu peito
completamente expansiva e apodrece meu discernimento
E invejo a força que tinha antes de me limitar
De quando em quando penso que me lembro
Do nome que eu tinha antes de ter nome
Da verdade que existia antes que eu fosse homem
De tudo o que flui, de tudo que fui e de tudo o que ainda serei
Cogito sem sombra de melancolia a raridade da existência
Perco-me propositadamente de tudo que levei anos para conquistar
De quando em quando penso que personifiquei o Tempo
Sinto que posso controlar o horário de minhas dores
Mestre de tudo sei que não posso fugir do sofrimento
Nem da sombra de meus antigos amores
E invejo a força que tinha antes de me limitar
Pego-me debruçado na sacada e olho para o relógio
Olho nos olhos de minhas maiores ambições e sorrio
Os outros pensam que podem me pensar insano e estão certos
O pensamento deles, porém não me faz mais ou menos nada
Sou o que sou, ainda que a impressão de cada um difira
Contemplo meus sonhos e objetivos tão realizáveis
E invejo a força que tinha antes de me limitar
Tivesse eu essa força que tive um dia e já estaria pronto
Ainda não tenho e me perco do que deveria ser suave
Contemplo meus instintos bélicos feitos da verdade mais pura
Esforços homéricos são feitos para o que nunca perdura
Que há de especial nas pessoas que me faz querer o bem delas?
Quando não estou tão alheio confesso sentir medo
Embora o temor me soe irracional nesta prolixidade de existência
Carrego chaves, talismãs, crucifixos, mas nunca segredos
Há algo que sabe de mim mesmo antes de eu me saber
Há algo que penso que me chamou pelo nome quando ainda não tinha um
Sinto que a vida é um desperdício constante para quem a vive em hipóteses
O que é real e palpável só existe neste instante alongado
De quando em quando me perco do hoje e olho para o futuro que não existe
E invejo a força que tinha antes de me limitar
Quando tudo se resumia ao desejo necessário de sobreviver e me alimentar
De quando minhas ambições soavam mais realizáveis
De quando era fácil optar pelo caminho que me saciaria
Saciar a fome de um bebê é como saciar a alma de um adulto
Instintivamente quando não sabemos raciocinar
Clamamos aos berros pelo que nos manterá vivos
Quando o desenvolvimento prossegue nos perdemos de nossos ritmos
Há um trabalho difícil e invisível em buscar a própria alma
Busco conhecer o meu verdadeiro rosto antes
E invejo a força que tinha antes de me limitar
E invejo a determinação que tinha em não hesitar
Escolher o caminho e abraçar o que me dilacera
Aceitar o destino antes do fim da primavera
E nunca se esquecer do quanto os outros podem nos fazer melhor
Parece pouco, mas uma pessoa transforma tudo ao redor
E invejo a força que tinha antes de me limitar
Bajulação vespertina e viperina qual não posso suportar
Sonho lúcido durante o dia e devaneio sobre onde devo estar
Busca repentina e divina pelo que parece ser meu lugar
Na mente apenas a clareza do objetivo ao qual me proponho
A única certeza é de que até o que amo deve surgir após o sonho
E invejo a minha fome de recém nascido que me tornava perfeito
Essas ambições que eu tenho são todas realizáveis e eu espero fazer direito
De quando em quando penso que me lembro
Daquela distante manhã no mês de março
Quando o passado ainda era presente
E penso que me lembro de cada manhã
de minha não tão longa vida
A memória é um privilégio e eu não posso me esquecer
Minhas ambições são realizáveis e eu ainda preciso vencer.
Eu não sou o único
Eu não sou o único viajante
Eu não sou o único
Eu não sou
Eu
Eu aguentarei
Eu aguentarei até
Eu aguentarei até o crepúsculo
Eu aguentarei até
Eu aguentarei
Eu
Eu vou
Eu vou conquistar
Eu vou conquistar o que busco
Eu vou conquistar
Eu vou
Eu
Eu não
Eu não me assusto
Eu não
Eu
Eu não
Eu não sou o único
Eu não sou o único viajante.
O que tenho tentado dizer
Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Sobre estes tantos ensaios dos quais tenho falado, recorda-se? Claro que sim, eu insisto em perguntar por teimosia, aprendi bem, cascas de cebola e coisa e tal, mas se descascarmos o bastante vamos amadurecer e chorar, certo? Claro, é óbvio, mas a cebola quase sempre faz uma diferença incrível no sabor dos pratos, não é?
Perceba, por favor, eu disse antes que todo mundo sangra igual, você ainda se lembra? Note que existe essa inevitabilidade das coisas inevitáveis, bem como há memória das coisas inesquecíveis, embora eu tenha lido uma pesquisa recente que afirma que somos capazes de adulterar quase trinta por cento de uma memória original. Bem, eu não sei quem são esses pesquisadores, mas torço para que estejam errados, se eu pudesse, você bem sabe, eu preservaria a integralidade de todas as minhas memórias mesmo depois da morte, sim, até o que mais me machucou eu guardaria, veja, o sofrimento já foi necessário como prova da minha existência, não, nada mais adiantava, eu beliscava minha própria pele para saber se ainda estava vivo e sentia uma quebra de expectativa da realidade quando eu mesmo tornava minha vida salgada através do choro. Bem, eu não sei se você vai acreditar nos pesquisadores, mas talvez valha a pena crer neles, afinal, é melhor acreditar em algo do que em nada e confesso que tenho verificado no cotidiano essa espécie de necessidade insistente em confiar nos números. A matemática e os cálculos e os gráficos revelam muitos dados, porém quase sempre ensinam pouco.
Não através de minha própria sensação, mas pela impressão que nutro pelo que é sensação alheia, eu sou Eu e simultaneamente sou outro. Choro pelas dores alheias como se elas não me fossem avulsas e me flagro atônico pela minha capacidade de desdobramento. Minhas lágrimas se unem com o choro de todos os outros seres vivos do mundo e os rios salgados escorrem em mim. Olha, eu talvez esteja me expressando mal, mas eu falo quase sempre tudo nas entrelinhas, eu sei, você é míope assim como eu e não deveríamos exigir tanto de nossos olhos, mas escute o que eu digo quando me calo e não procure oportunismo nas palavras que falo, não, não é um jogo, eu sou só ligeiramente invertido ou só e ligeiramente invertido.
Por sermos gigantescos e expansivos incorremos às contradições e é pela vastidão dessa imensidão de alma que tenho que ficar defronte ao Propósito. Espere, eu estou delirando, veja, antes isso era algo raro, mas começo discorrendo sobre uma coisa que subitamente se torna outra e quebro barreiras, sem me fingir e sem me fugir, cônscio de que sempre me alcanço, mas eu estava tentando falar sobre o que há de mais puro meu em mim e me peguei evitando um assalto óbvio, comemorando três gols no Atlético Mineiro e observando meu irmão fumar na sacada enquanto evitava uma vontade crescente de vomitar, eu sei que soou confuso, mas a vontade era minha e não do meu irmão e você precisa entender que isso nada tinha a ver com o cheiro da fumaça, mas sim com a minha alimentação irregular na última onzena.
Sabe, eu tenho tentado extravasar através dos textos a criatividade da minha alma e digo muito para falar algo que sinto em síntese. Nada em mim é minúsculo, mesmo assim não consigo me ver grande. Imagino-me diante do Propósito ou tagarelando em um bate papo sincero com o próprio Criador e me pergunto sobre essas coisas todas que nos colocam um sorriso no rosto e que nos dão uma satisfação ancestral. Conforto, carinho, prazer, segurança, amor. Que há na vida além do conforto, do carinho, do prazer, da segurança e do amor?
Meus olhos brilham quando falo de livros e você deveria ter sabido, bom, eu acho que na verdade você sempre soube, eu nunca escondi de ninguém, exceto de mim quando não conseguia confessar nem em sussurros o que berrava interiormente no meu âmago.
Olha, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, percebe? E tenho sofrido em silêncio, pois acredito que a dor precisa ser entendida para ser compartilhada e, bom, eu não sinto como se os outros pudessem realmente me entender. Sabe, eu às vezes imagino o passado, anos antes, tudo o que houve através das décadas e localizado atemporal, percebo-me no presente momento e compro uma certeza de que existiram milhões de seres incompreendidos. Às vezes soa como um castigo que só piora quando é dito em voz alta, pois à luz da explicação tudo se torna ainda mais baço e confuso aos outros. A minha clareza parece ser antagônica ao meu destino. Esforço-me, mas de quando em quando me sinto só mais um menino.
E invejo o Peter Pan que pôde nunca crescer.
Na Terra do Nunca guardei teus melhores sorrisos, mas o Nunca crescia avassalador para tantas pessoas que tive a presunção de me imaginar capaz de fazer algo pelos tantos que se esquecem da própria individualidade e que refutam qualquer chance de correr atrás dos sonhos. Há resgate para quem não se resgata?
Convenço-me de que o rapaz Davi queria me assaltar. Eu estava “dando mole” ou “de bobeira” na praia às 6h18 da manhã escutando Lord Huron e me sentindo um fantasma personificado, quando ele surgiu subitamente. Não, na realidade não foi tão súbito assim, eu o vi quatro ou cinco segundos antes quando ele descia de uma duna de areia e deslizava rapidamente até o meu encontro, mas o esperei. Como evitá-lo em alguns segundos? Havia motivos para não aguardar por este encontro inédito?
– Oi, eu sou o Davi.
– Oi, Davi.
– Eu tenho 23 anos e você?
– 28.
– Você é daqui?
– Sim.
– Daqui da região?
– Sim. Daqui da região.
– Mora aqui perto?
– Sim. Davi, eu não tenho o costume de parar minhas caminhadas matinais para falar com estranhos. Vou indo pra lá. Pra casa. Tchau.
– Poxa! Vamos conversar mais um pouquinho. Ei! Vamos conversar!
Reli o diálogo sem destacar minhas impressões e nu de todas elas encontrei inocência no papo rápido com o jovem rapaz. Evitei relatar que ele me olhava com uma particularidade estranha e que exibia no cenho uma expressão vitoriosa, como o caçador que observa a caça e sabe que não há como perdê-la. Omiti que Davi estava demasiado perto e que falava como se me sondasse. Sondava? Não sei dizer, mas quando um velho de peito cabeludo passou em uma corrida matinal, eu aproveitei a chance de deixar o rapaz para trás e segui o atlético idoso. Que se passava na cabeça de Davi? Será que era realmente possível que ele estivesse tentando assaltar alguém não muito depois do sol nascer? Se não era este o caso, pergunto-me o que fazia o rapaz na praia? O que ele pretendia com o diálogo? Desconheço o sujeito e não posso supor opiniões por ele, ainda que eu tente.
Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Sobre se colocar no lugar do outro e sobre nunca ser o outro e tenho tentando ainda mais, você nota? Discorrer sobre a importância dos contos de fadas que nos ensinam sobre como é fundamental conhecer um caminho e seguir por ele, ainda que o caminho mude e você mude também. Olha, se toda história contada não revela algo do contador em contraste com o leitor. Olha, se o que aprendemos de um jeito não aprendemos de outro. Olha e veja, se pequenas decisões não fazem grandes revoluções e se os menores já não mudaram o destino do mundo. Olha, eu fiquei acordado até mais tarde para tentar esvaziar meus pensamentos, mas acontece que toda vez que eu os escrevia, eu pensava ainda mais, não só nos pensamentos anteriores como em alguns outros tantos inéditos, assim, sem cessar de cogitar ideias, eu persistia insone e distante das distrações. Quero me distanciar? Certamente não.
Tenho pensado em coisas que são apenas o que são e que jamais se revestiram de outra coisa qualquer. O valor de uma amizade desinteressada, mas nunca desinteressante, destes amigos que se olham nos olhos como iguais e se escutam e se compreendem, sem vícios ou segundas intenções. A relação do satisfeito homem do campo com a terra, o balanço entre a vida e a morte, a idolatria das crianças pelos adultos e o constante desejo dos adultos pela infância. Cada coisa é o que é, ainda que em tudo se detecte uma vontade vadia de ser outra coisa ou de fazer querer parecer outra coisa. Como então solucionamos tantas divagações?
Talvez não sejamos capazes. Não fosse suficiente sentir náuseas por tantas horas consecutivas, percebi-me piorar com a notícia do escárnio dos poderosos que se ergueram acima do Bem e do Mal. Sentenças inéditas envergonham o país e o povo e não parece existir esperança para coisa alguma.
Olha, eu tenho tentado não pensar nos demais males do mundo, você bem sabe, eu tenho tentado não me assustar, mas sonho com guerras e sou acordado por diabos, atormentado por fantasmas e lidero a perseguição contra a minha paralisia. Quero abraçar responsabilidades e fazer algo pelos outros, mas sinto que só sei escrever e, para ser honesto, às vezes até em escrever me falho.
Olha, eu sei que você quer esquecer discretamente e se entregar ao sono e, bom, eu sei que você percebeu tudo o que quase todos ignoraram. Juntos retirávamos do mundo impressões mais positivas do essas todas que foram deixadas para trás. Ainda assim, eu espero que você não durma muito tarde e nem que acorde muito cedo e que se alimente bem e que nunca se esqueça que os animais precisam de atenção. Eu sei sobre algumas de suas impressões, sim, às vezes eu também quero segurar na mão de alguém que não seja falso e correr por um campo verdejante anunciando meu desespero incessante neste mundo sofrível. Paro e respiro. Eu preciso de ar para continuar a uma sequência profusa de pensamentos parecem despencar de uma egrégora invisível. Sinto como se mil espíritos sibilassem algo em meus ouvidos e os batimentos cardíacos das estrelas me convencem do impossível.
Tudo que é agora logo menos será outra coisa
Perco-me na tentativa de preservação
do que não se pode preservar
Temo perder tudo e afundar em solidão
Cesso o raciocínio e me entrego ao acaso
Imagino minhas entranhas se rasgando
E extraio de uma única alma a irrefutável verdade
Ouço sussurros milenares me preenchendo
E extraio de minha própria alma o segredo incognoscível
Fecho os olhos e se revela o mistério da existência
Pulsa em mim o desejo de não ter desejos
Ajoelho-me em uma poça de meu próprio sangue escuro
Compreendo idiomas quais nunca estudei
Transpiro a inutilidade do existencialismo
Sorrio com a gelidez corpórea da estreia de um ator no palco
Caminho pela praia com a serenidade de uma gaivota
O que sou nada representa ou significa
Sou só o que sou até o dia que não mais serei
Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? Que me lembro até quando me esqueço e de que o conhecimento que tenho é tão inútil quanto o conhecimento que ainda não tenho. De quando em quando acerto bons textos e eles se apresentam como inutensílios para pessoas que precisam se distrair. Sabe, eu capto gestos, detalhes, observo instantes e os guardo, pois a lembrança discreta pode ser mais valiosa do que a duradoura. Há gestos mínimos realizados em uma noite que deverão sobreviver na memória por anos. Seus olhos sempre olham e enxergam e este é o único orgulho que se pode ter dos olhos. Seus trajes protegem contra o frio perfurante e esta é a única serventia dos trajes. Divido-me entre o sono e a vida e, assusto-me ao pensar que o mundo todo continua acontecendo enquanto eu durmo. Talvez seja a razão por eu dormir cada dia menos.
Sabe, eu tenho tentado dizer essas coisas todas, você percebe? E quando eu saí pela porta da frente foi por necessidade e para que a vida não tire de mim o pouco que sei que preservei apesar dos pesares. Sofro como sofro, amo como amo e escolho como escolho. A coragem de perseguir cegamente uma missão é uma loucura sem precedentes. Ainda assim gargalhei destes dias, apesar dos tantos acidentes. Se um piloto morre nos céus, ele morre fazendo o que amava. Nada mais que o voo lhe importou nem mesmo a própria vida que lá deixava. E alguns o chamarão de herói ou anjo, mas ele era apenas um homem determinado. Algumas pessoas são diferentes, certo, Rivière? Essas noites, hã? Melhor tomar cuidado com elas.
Sabe, eu tenho tentado lembrar de algo que li, bom, que todo mundo é feito de carne e pensamentos e só pode alcançar a beira da extensão, mas nunca o todo. Muitas coisas desaparecem, mas perceba que elas permanecem vivas como marcas de traumas ou de felicidades inenarráveis, veja que muitas coisas desaparecem, mas persistem existindo como símbolos imortais e imutáveis de algo que nos faz lembrar de ser o que somos, ainda que sejamos capazes de mudar sempre. Olha, pois o Sempre é uma esquina repetida e ficaremos uns dias ou uns meses ou uns anos sem nos encontrarmos, mas talvez eu ainda te veja todos os dias, todos os meses, todos os anos, mesmo que você não saiba. Olha, não é sobre vínculos, é sobre a docilidade sutil de algo que se prova e de que não se enjoa, veja, é sobre conforto, carinho, segurança, prazer, amor e muito mais. Olha, é sobre essas coisas que fazem os humanos mais humanos e menos exatos e que nos lembram que somos poeira de estrelas e de que Deus existe e possui um estranho senso de humor e que somos feitos de carne e osso e que inevitavelmente morremos no final, pelo menos por enquanto. Em qual esquina foi que eu li o letreiro com o Nome da Vida? Nada vale a pena. Tudo vale a pena. O amanhã é um deus morto até se tornar presente e realidade. Eu me sinto só, mesmo com tanta gente e praia nessa cidade.
Sabe, eu tenho tentando dizer essas coisas todas.
Mas não tenho conseguido.
Nada disso importa
A vitória, a derrota, nada disso importa. A extravagância da realidade sendo apenas o que é me coloca um sorriso no rosto. Eu me sinto renovado, veja, eu não sei há quantos dias tenho me sentido triste, mas sei de maneira convicta sobre essas novas decisões.
Nunca fui uma pessoa de meias medidas. Sou o que sou e me carrego pelos lugares quais passo numa ânsia febril de não deixar de Ser. Metades são ilusórias e acredito honestamente no meu próprio cansaço. O mundo pode ser imenso para quem vê mais do que enxerga e para quem realmente vê o que enxerga. O meio termo entre os dois opostos é uma banalidade de gestos e um desperdício de ideias.
Deserto de sofrimento sem fim nos interlúdios que faço de mim. Só vale a pena perguntar quando a resposta é útil?
Confesso que, às vezes, flagro-me em demasiadas perguntas. Quero saber dos gostos e preferências e paixões. Quero ouvir sobre músicas, amores, ódios, quedas terríveis e subidas ao pódio. Deixo que deitem metaforicamente no meu colo e escuto tudo o que falam. Memorizo os gestos e essas tantas coisas frágeis que muitos não acham importante. Capturo gigantescos tesouros revelados discretamente e me sinto pirata na existência. A luz solar me atinge e fecho os olhos. Absorvo a sutileza das coisas frágeis e esqueço o restante.
A vitória, a derrota, nada disso importa. O que faz sentido para a existência é o que me prova vivo neste mundo mecanizado onde todos soam iguais e só podem se admitir discretamente diferentes. Celebro os que optam por não serem iguais e se sobressaem. Aplaudo os que se levantam apesar da zombaria. Somos todos frutos da Beleza original, porém sinto que há quem nasça neste mundo apenas para a destruição. Controlo a vontade de chorar por detectar a maldade nas pessoas. As mais raras são as escrachadas e andam de cabeça erguida, apesar de tudo. Estas, ainda que a índole seja reprovável, inspiram algum respeito, pois poucos são o que são. As mais comuns são pessoas que praticam o mal em anonimato, que enxergam outras pessoas como degraus, que fingem se importar e esquecem, que vituperam todos pouco a pouco. Há ainda os mais degradantes. Estes se escondem atrás de um muro de propósitos supostamente maiores.
Andei pela praia de areia branca e observei gaivotas. Algumas delas pareciam me observar de volta, mas duvido de que minha aparência realmente as distraísse. Imaginei como seria voar e me interrompi pela inutilidade do pensamento. Eu nunca vou voar e as gaivotas, embora possam raciocinar, jamais escreverão versos. Nos céus ninguém saberá de mim, mas na terra talvez saibam o que penso sobre gaivotas, embora nenhuma delas seja o que penso delas, embora cada uma delas seja apenas o que é. Sinto-me repleto de impressões sobre tudo.
Essas coisas bonitas todas, bom, elas não parecem feitas para durar. Sei que levarei esta parte impossivelmente bela para sempre comigo, mas não sei se levarão a minha parte bela por aí. Não sei se deveria me desgastar com tantas preocupações sem rumo e com tantas coisas infundadas. Todas as memórias estão ao alcance na juventude e elas hão de me alcançar. O meu amor é a flor que rompe o asfalto, assim, não devo me preocupar.
A vitória, a derrota, o passado, o futuro, a alegria, a tristeza, nada disso importa. Eu só quero ser quem eu sou sem imaginar quem eu poderia ser.
Sendo muito fui pouco
Sendo são fui louco
Estava invertido
Comemorava o que havia sofrido
Sofria o que a maioria só podia celebrar
Um dia, alegria, enfim, meu lugar
Você não é o primeiro
E não vai ser o último também
Quando os amigos somem
Extenua-se o perigo e a imagem dos homens
Revela um reflexo conhecido
A morte ensombra a vida
A dor prova a existência
Você se desespera por uma saída
Basta ter paciência
E todo mundo sofre
E todo mundo dorme
E todo mundo dorme
Quis me acreditar diferenciado,
mas compartilhava demasiados inutensílios
Quis me acreditar singular,
mas outros como eu já haviam nascido
Existo do contrário e me aceito
Optam pelos atalhos confortáveis
Eu faço sempre do meu jeito
E me despeço com soluços
consciente da vituperação
Fui feliz aqui e nada foi em vão
Que eu seja lembrado
antes do esquecimento eterno
Pela coragem do meu coração
Dois estranhos se despedem e choram, mas de alguma maneira se amam. Sobrevivem na linda expectativa do reencontro. A vida é perder um metrô ou um grande amor. A vida é odiar dias nublados e desprezar o sol. A vida é nada mais que um detalhe que deixamos passar. É melhor que se preserve antes da queda. O que quebra se cola, mas é melhor tentar manter tudo intacto. Há diversas variáveis quando ocorre o impacto. Ele não notou o corte do cabelo. Ela não detectou o cansaço no olhar. E não houve comunicação. E não houve fim. Infelizmente se deixaram pela metade. Infelizmente nada disso importa agora, mesmo que importe.