Escrevo estes meus fracassos
com tinta, sangue e covardia
Sinto que tenho sido julgado
por falhar em ser perfeito
Anjo mau, indiferente, confundido
com qualquer diabo que sabe se portar
Um dia desses, se acordar diabo, fujam
Se este mundo porventura me dobrar pelo susto,
Tornar-me-ei assustador
Arranjarei um diabrete sorridente
que andará atrás de mim como um cão
Que tu pensas, velho caquético e bigodudo,
que tira o lixo pontualmente às sete e dez?
Faz do hábito uma oração para se enganar,
porém o ar lhe escapa e o peito dói
Um dia tirará o lixo, mas sequer estará ali
para ver o caminhão passar
Teus hábitos não engodam a cronologia
Tu também não escapas da morte
Que tu sonhas, mestra das artes?
Parece disposta a largar tua vida alinhada
e desaparecer para sempre no próximo bonde
Ninguém sabe da tua verdadeira estrada
nem dos segredos que o coração esconde
Que te inquieta, corsário ferido?
A mágoa velada que carrega no fundo dos olhos?
A raiva atrincheirada atrás da consciência?
A tua mudez que afastou todos que ama?
Escrevo estes meus fracassos
com sangue, covardia e impaciência
O que está quebrado, é claro, se quebrou
Este golpe forte no teu orgulho te matou?
Que te assombra, príncipe da eterna adolescência?
Traiu todos os teus amores e teme pelas consequências?
Esse ceticismo forçado é forjado pelo medo?
Há anos tu tens me evitado por ser capaz
de ler teus mais óbvios segredos?
No teu caso optei por nunca te escancarar
Mas porque teme o que sei, eu espero que trema
É sozinho que um dia você vai falhar
Eu vou me calar porque sinto pena
Que tu desejas, sombra cigana?
Transitando lentamente e evitando os domingos
Não há corrida para fora que nos salve
quando dentro estamos caindo
Justiceiros ébrios com seus punhais afiados
desconhecem os alvos que são perfurados
Escrevo estes meus fracassos
com vinho, impaciência e covardia
Pois ainda me lembro como abrir garrafas
Conhecimentos inúteis para um inútil completo
Problema inevitável de caso indiscreto
Estou me matando por tolos obstinados em arrogância
Estou tentando salvá-los de sua própria ignorância
Quando foi que eu me tornei tão valente?
Quero voltar a ser aquele moleque chorão e indecente
Acovardado atrás das pernas de minha mãe
Repleto de remelas nos olhos e caos nos ouvidos
Rezando para que o dia acabasse e eu
Escrevo estes relatos com covardia e honestidade
Lembram de quando a Tristeza bateu à minha porta
em uma madrugada solitária na cidade de Dourados?
Lembram de quando servi duas xícaras de café às três
em São Paulo e me esqueci de que estava sozinho?
Talvez eu esteja enlouquecendo o tempo inteiro
E inventando esse mundo estúpido com danças imbecis
Talvez essas tantas coreografias vexatórias me provoquem
Talvez eu esteja na beira por tentar ajudar quando deveria
estar pouco me fudendo para esses idiotas
Não compreendo como não me tornei misantropo
Todo o muito que sofri ainda assim é pouco?
Talvez eu esteja apenas cansado e confunda as coisas
Não, isso não, eu não confundo as coisas
Mesmo na beira do meu limite e das minhas dificuldades
Ainda que os pássaros amarelos me atormentem
Eu não confundo as coisas
Sofrerei vinte minutos e uma noite de sono
por todos os livros que ainda não escrevi
Sofrerei até outubro pelos livros que não publiquei
Prefiro a introspecção e me disseram inúmeras vezes
que queriam me ouvir falar
É um prazer imenso te ouvir falar
Ei, espere, eu não tenho monólogos hoje
Quem sabe eu só não queira ficar no meu canto
e esquecer de todos vocês enquanto escrevo obscenidades
Claro que vocês duvidam da sujeira dos meus dedos,
pois escreveria erotismo puro para me livrar de vocês todos
Sim, eu estou atento, ninguém lembra tanto das corujas
Nenhuma voz alcança tanto e eu vi o velho vulto perto das onze
Eu não estou enlouquecendo, eu estou chegando lá
Eu estou perto de começar a me entender,
Sim, eu entendi todo o resto e agora faço uma oração
Para quem oro? Ora, se isso interessa a qualquer um
Eu, na verdade, oro para quem me ouça
Que quem me escuta possa me ajudar porque ando exausto
Entendo toda essa gente pútrida que se move com a maré
E sou eu o alvo da ignomínia final
Sentenciado pelos réprobos por tê-los decepcionado
Sanguessugas ordinários, eu vou decepcionar todo mundo
Aguardem, oportunistas teatrais, eu falharei com todos
Vocês, que não são quem são, ainda hei de olhá-los sem máscaras
Cortarei os fios e acabarei com a graça dessa brincadeira
Olha nos meus olhos, titereiro
Estou fora de tuas cordas, meu velho amo
Estou dançando a minha própria música, seu imbecil
Não sou mais o teu fantoche e hoje vou me vingar de mim
Estou cansado de ser o anjo bom e previsível
Quero vê-los sofrer e começar do zero
Quero ser humano pelo menos por um dia
Se não puder ser humano, deixem-me retornar ao pó
Deixem-me virar matéria de poesia
Só não façam de mim o que fazem de todo o resto
Eu aceito o meu fim e a morte, mas se mentirem
Erguer-me-ei do cemitério em protesto
Esqueça o pedestal que tu mesmo ergueu e subiu
Você não é melhor do que ninguém
Tua vida perfeita também jaz por um fio
Pois quem deveria saber de ti não o sabe
Olha para mim, velha louca deitada na luxúria
Se tua realidade é tão alegre e opulenta,
por que não te desliga da tua nojenta fúria?
A personificação da inveja e da lamúria,
Olha-me nos olhos, megera, receba minha injúria
O vômito das minhas palavras no teu chão
Sente na minha bile a sinceridade do meu coração
Estou cansado de ser o anjo bom e previsível
Inventa algo novo, deturpa tudo e me detesta
Vitupera o que sobrar de mim em tuas festas
Estou cansado de ser o anjo cheio de qualidades
Grande, altruísta, preocupado e quase morto
Sim, eu estou cansado de tanto me ser
Esqueça a calma
Estava enganada na tua premonição de vida eterna
Ajoelha diante de mim e sente o gosto do meu esperma
Idolatra-me por uma noite como se eu fosse
o guitarrista medíocre da tua banda dos sonhos
Deifica-me por vinte e quatro horas e me entrega tudo
Quero que não sobre absolutamente nada
Absolutamente almejo ter até a sua alma
Não se desespera se porventura errar meu nome
Isso é definitivamente consequência de viver insone
Acordado por seis dias e meio e sonhando com
Qualquer coisa que me faça sentir vontade de
Insistir
Eu estou prestes a chorar
Eu estou prestes e desistir
Eu estou prestes a quebrar os espelhos
e emudecer de uma vez por todas
Minhas reflexões cessam com a memória
do punho atravessando a madeira do guarda-roupas
A vida não nos afasta de ninguém
Silêncio afasta, arrogância afasta,
Vontades recíprocas e orgulho obstinado afastam
Um ano atrás meu velho nos deixava
Queria sonhar em ter sua altivez
Os apertos de mãos dizem muito
e nunca apertei todas as mãos que gostaria
Os olhares vibrantes dizem muito
e nunca mais te olhei
Chame-me do que quiser, eu estou entendendo
Vocês precisam de um novo bode expiatório
Preparem um tipo especial de missa para o meu velório
Eu estou prestes a sonhar
Eu estou prestes a sorrir
Eu estou prestes a dar o salto derradeiro
para a morte ou para o voo que libertará minhas asas
Estou prestes a compreender a simplicidade
deste ódio que se fixa facilmente em pessoas rasas
E ainda quase todos subestimam a potência de um poema
Se não me escutam, deveriam ouvir o Valter,
“quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas”
Escreve algo humilde neste papel e escuta o silêncio
essa extravagância atroz está me deixando puto
Se eu morrer sem desatar esses nós,
Recuso suas lágrimas e seu luto
Até porque tenho lutado sozinho
por quem nunca me ouviu ou me leu
Estou longe da metade do caminho e lamento
Ninguém nunca me aprendeu
O louva-deus não ora por porra nenhuma
Fiéis e ateus desaparecerão na mesma bruma
E até os que são lembrados serão esquecidos
Nossos nomes se dissiparão e seguiremos ao limbo
Desce do teu trono, rei de espadas
Ninguém neste mundo é realmente teu inimigo
Qualquer santo perfeito em sua jornada
pode lhe apresentar um grande perigo
E se os vilões porventura forem sempre os outros
É melhor que olhe para dentro e tenha cuidado
Quando estamos ficando loucos é que tudo sucede o contrário
É bem provável que você seja o responsável
por esse seu declínio melancólico e deplorável
É bem provável que você seja um pedinte
Você pensa no final do livro, mas
nunca escreveu o capítulo seguinte
Tira os olhos do umbigo e cessa tua obsessão narcisa
O mundo não gira por você, embora eu admita
Sua ausência pesaria se um dia me faltasse
Ninguém neste mundo é realmente teu inimigo
Nossas ações revelam algo individual e intransferível
Nossas ações revelam a profundidade de nossos abismos
Cala-te agora, revolve devagar e olha para dentro
Aceita-se humano e desiste de se tornar uma lenda
Faça uma loucura espontânea e não se arrependa
Não espere nunca que todos te entendam,
mas agradeça acaso seja compreendido por um ou dois
Agradeça o dobro por quem nunca te deixa para depois
O destino lúgubre do ferro é que ele enferruja
Se um dia eu for moldado pela dor e acordar diabo
Fujam
Interlúdio e minutos para o intervalo
Guardo agora os sonhos nos bolsos
São 22h55 e sei que preciso dormir e trabalhar,
mas nesta véspera de segunda-feira,
Eu sei que dormirei sem me vingar de mim
Se eu dormisse covarde e acordasse corajoso
Faria da minha próxima manhã um novo jogo
Entretanto, tudo sucede lento e pesaroso
Sigo ostentando na pele e no peito
inquietações sinceras e verdades doloridas
Eu queria dizer que isso aqui é um poema,
mas estas palavras de merda não me resumiriam
Eu queria gritar que essa tragédia é um desabafo,
mas é só uma covardia
E eu, covarde de tudo, acocorado e aterrorizado pelo medo do escuro,
Eu sigo indignado com os impostos e as manchetes dos jornais
Eu sigo perturbado por quem se comunica apenas por sinais
Eu sigo indignado com os roubos e assassinatos
Eu sigo incomodado com a soberba
Eu sigo delicadamente furioso
Eu sigo delicadamente
Eu sigo covarde, mas
Eu sigo
Eu.
Saiba ser sozinho e adote um animal.
Eu me peguei refletindo sobre a persistência, sobre uma vontade insistente de agir e ser diferente, de não sucumbir diante das mazelas mundanas e concluí que não sabia se tinha esse tipo de força. Você sabe reconhecer suas fraquezas? Li ainda hoje na internet alguém dizer que sofreu centenas de traições e me imaginei assim tão traído. Acho que, se fosse o meu caso, eu me fecharia para todos e escolheria a solidão absoluta, em ordem de me manter seguro, sem me tornar ríspido, sem correr o risco de descontar as minhas frustrações nos outros. Nunca fui traído nos romances que tive e tampouco traí, assim, localizo-me distante deste local de fala, ainda assim, penso-me traído e nas traições que nunca foram e essa ira muda que sinto brevemente me leva para longe.
Os corações sensíveis assim o são, viciados na melancolia, acostumados com a voracidade alheia que contrasta com a paciência serena. Pessoas assim, tão furiosamente delicadas, não raramente são testadas, como se o ato único da vida, esse viver cotidiano, zombasse incessantemente da nossa fibra e nos guiasse para um hedonismo como solução geral. Se me permito a acreditar que devo viver a vida somente pelos prazeres, ignorando todo o resto, eu estou fatalmente perdido. Custam a aceitar, mas há muito mais envolvido. Quando criança e adolescente presenciei muitas traições, umas tantas ocorriam no ambiente familiar, envolvendo o que acontecia na minha própria casa ou nas casas dos meus amigos. Não tanto depois vi esses mesmos amigos copiando o comportamento de seus pais e dando sequência a um ciclo potencialmente infinito. Furioso e frágil, eu bravejava que escreveria minha história diferente. Não falhei, pelo menos não ainda e admito que por vezes não sei de onde tirei forças para ser exatamente quem eu sou. Não subestime a capacidade de ser autêntico. Ser exige esforço e persistência, pois é preciso ser continuamente. Ser é, sobretudo, navegar contra a maré e ter a consciência de si. Aos dezessete, certa feita, minha mãe me olhou e disse que eu estava me tornando um homem incrível e lindo. Aquelas palavras, poucas, retas e sinceras, foram suficientes e me serviram como combustível para que continuasse no caminho para ser alguém de quem eu sempre me orgulhasse, mas e se as pessoas que mais amo de repente me traíssem? E se o punhal ensanguentado removido de mim pudesse ter sido a arma de alguém que adoro? O que seria do Daniel nos dias de hoje?
Para ser honesto, eu não sei o que me seria e nem a minha argúcia intelectual pode de verdade prever uma realidade alternativa. Só o que foi realmente foi e todas as outras possibilidades morreram. A dualidade é incômoda e estranha. Fui e sou correto, sem exigir da vida recompensas, porém nunca esperei que houvesse tanta punição. Sim, se você for como eu, um maldito certinho, muitas vezes se sentiu mal por estar fazendo o bem, pois parece que agir direito é digno de castigo. Acho que é por essas e outras que tanto acabam cedendo aos tantos perigos ou sedentos pelos perigos. Eu até brincaria com fogo, entretanto, jamais incendiaria a casa. Sou o último acordado antes dos outros dormirem por sentir o dever de zelar pelos que convivem comigo. Tudo é vago e longe. Acreditava no Amor romântico e eterno e nas Amizades românticas e eternas, até que me dissuadiram destas crenças. Necessitei de quase três anos para, enfim, recuperá-las, mas não foi nada fácil. A vida nos testa ao contrário.
Um dos grandes amigos que tive, uma vez, veio se gabar de uma mulher com quem havia transado. Eu o confrontei, sem dar bola para o assunto e o indaguei sobre o motivo de ter feito algo assim sendo que namorava com outra. O resultado desta satisfação foi catastrófico. Fui eu acusado de ser traíra, afastado do meu grupo de amigos e colocado em isolamento, apenas por não ser conivente com algo que nunca poderia tolerar. Passei anos com pouquíssimos amigos por ter a coragem do embate e meu prêmio foi a retaliação. A pior parte é que eu sentia falta desse meu amigo, ainda que não reconhecesse nele valor moral. Quem nunca deu um “foda-se” para a moral? Como dizia Victor Hugo, “que sejam maus e inconsequentes, mas corajosos e fiéis“. Ele era inconsequente e custo a utilizar a palavra “mau”, porém era covarde e não havia fidelidade dele aos amigos ou aos amores. Sofri pelo afastamento, sim, mais do que eu gostaria de admitir. Tantas horas compartilhadas e eu havia perdido o meu amigo para os meus próprios valores. É muito nesta vida questionar a veracidade de outros amores? Sim e não, entretanto, se alguém que amo passa dos limites, não estou obrigado de forma tácita a me posicionar? Se me silencio diante do errado, vejo-me conivente e aprendi há anos que há silêncios que envenenam. Quando quase havia me convencido de que ser duro, mesmo com as coisas certas, sempre nos afastava das pessoas, a vida finalmente me deu amigos novos, amigos significativamente melhores. Com esses novos eu poderia ser sincero sem correr o risco de que facilmente se ofendessem. Quem exige não se importa em ser exigido e com os meus novos amigos eu poderia esperar um caráter férreo em retribuição. Com essas novas pessoas que apareceram os conselhos eram verdadeiros e entravam direto no coração.
Antes disso, entretanto, aprendi a acreditar na solidão. Se há solidões maléficas, depressivas e sufocantes, há solidões largas, espaçosas, onde se encaixam todos os mundos com seus respectivos países, cidades e praças. Aprendi a acreditar no trabalho, embora não tenha me sentido mais digno. Eu, sempre sensível em escutar os outros, aprendi a escutar os meus silêncios e a amar os meus barulhos. Sem o grande afastamento, eu jamais teria amadurecido tanto. Fazia as coisas da maneira correta por instinto e me esticava para a compreensão alheia por ser empático, entretanto, só após ficar completamente solitário é que me entendi e se entender representa um passo importante para tentar entender a sociedade que me cerca. Não posso me considerar exceção de coisa alguma, se sou tão humano quanto os outros, mas quanto mais você vive e vê, mais chances surgem de encontrar pessoas que valham mais que o ouro. Aguardo o fim do expediente pensando nessas pessoas, outrora tão distantes ao ponto de serem inexistentes em imaginação, hoje tão próximas que posso as encontrar em algumas horas. Toda essa noção é estrangeira e confusa e sofro, porém, imagino-me feliz em breve ao chegar no meu próximo destino e, enfim, encontrar-me com pessoas que me tornam mais alegre e me tornam ainda mais efusivo, apenas por existir. Abraço-os ou aperto suas mãos e os nossos sorrisos são luminescentes. Sim, eu os amo e sou amado de volta. Ouvi muitas vezes sobre o quanto sou importante como amigo, filho, namorado e isso nunca fica enjoativo. Respiro essas tantas palavras e me sinto bem. As palavras e os gestos são, em regra, o único conforto.
A solidão de Dourados ensinou a mim tudo. A fábrica de tratores, os céus laranjas ou rosados, a poeira vermelha, o coelho branco perto do supermercado, a BR-163, a jornada de trabalho, tudo isso se consolidou em mim como uma amálgama de coisas inúteis dotadas de uma importância celestial. Numa tarde, naquele posto de rodovia, a abelha gigante que sobrevoava o meu energético venceu. Não sei se faria tão bem para seu corpo diminuto o energético e imaginei que o coração fosse uma coisa insignificante, mas a abelha bebeu e depois disparou rumo ao desconhecido, mostrando-me sua coragem selvagem, provando meu erro. Aquele coração suportava mais do que eu supunha. Eu nada entendia de abelhas. O Nada ensina muito sobre o Tudo. Só o silêncio que traz sentido aos barulhos. E então eu absorvia da vida a própria vida e me preparava para algo que não sabia. Acumulei decepções e fui o príncipe de horas sombrias e me vi esquecido e distante. Nas sextas e sábados e domingos eu trabalhava. Todo o resto fumava, bebia e fodia. Eu era o único esquecido pela humanidade e longe do que me fazia humano, eu me reinventava do zero, como se tivesse acabado de nascer ali. Busquei não me ressentir com os outros, pois eventualmente seriam eles isolados e eu me divertindo. Quem nunca pôde viver um período de isolamento não tem sequer um parâmetro mínimo, básico, para o autoconhecimento. A solidão nos ensina a buscar nós mesmos, conhecer essas pequenas e preciosas coisas que revelam nosso propósito de vida. Fui talhado por essas noites infinitas e vivi o sábado sem fim. Só por ser só é que ainda tenho todos os sonhos do mundo em mim. Por vezes, ainda que quatro anos tenham se passado, eu fecho os olhos e me enxergo preso naquele sábado dolorido.
Olhos fechados. Imersão. É sábado novamente, 2018. O que eu posso fazer além de ficar recluso? Ir na pizzaria? Entrar em uma festa como penetra? Não, eu não conheço ninguém nessa cidade. Sou muito afável e polido para as zonas; muito direto para o romance, muito tímido para fazer amizades e estou cansado de ser engando por mulheres nos aplicativos. Só eu sou quem sou e mais ninguém é quem deveria ser. Tantos questionamentos sem respostas e um bafo de morte me seduz dizendo que tudo se iguala e que um dia virarei pó. Eu, resignado com a solidão, devo aproveitar então a condição de ser só? Como se aproveitar se a solidão é assustadora? Tenho medo de mim ou do que não conheço ainda? Eu preciso acordar. Eu preciso me acordar. Alguém me sacuda agora. Eu quero muito sair daqui. Tanto faz Campo Grande ou Paris. Eu quero qualquer cidade que não seja essa e qualquer dia que não seja sábado. Alguém me acorda longe. Emersão. Olhos fechados.
Quatro anos depois e me vejo lá naquele passado sem ter a menor noção de mim. O sábado infinito vive a uma janela do presente. Eu vivia em automatismos, quase robô de mim mesmo, com ações previsíveis e espelhadas. Nessa época, havia uma moça do supermercado que sorria para mim e só um ou dois anos depois percebi. Um jovem vagaroso, descuidado e inocente. Ela queria ser convidada para sair, porque aquele sorriso era exclusivo, íntimo e intransferível. Eu, ingênuo de tudo, confundia com uma simpatia natural, mas só em uma epifania notei que ela nunca sorria para os outros. Tudo o que não soube naquelas tardes, eu aprendi depois. Assim vai a vida. Acontece o tempo inteiro, mesmo quando não percebemos. Por vezes até supomos perceber e a ignoramos. Tudo é real, às vezes, até algumas mentiras e é preciso tomar cuidado com o que ensombra e é, na realidade, armadilha. Não é toda sombra de árvore que oferece descanso. Respiro e fecho os olhos. A fúria cessa e me sinto manso.
Se é na ausência que se percebe as tantas nuances da falta de alguém, pergunto-lhes, como é tão comum que nos relacionamentos distantes ocorram tantas traições? Como alguém, ao perceber extenuada a falta de outrem, preenche-se de coragem e consegue trair alguém? Vileza cruel e sombria! É por isso que me criei contra os relacionamentos ao longe, por ver neles a maior possibilidade de imaginação e amor, até se provarem mais venenosos do que a maioria. Cumprem a falta de um em qualquer outro e essa astúcia estética me soa perniciosa. Odeio os relacionamentos ao longe por deduzir que se encerrarão em dor e sofrimento. Se o amor precisa tanto de presença, crer na distância faz a diferença? Estamos apostando no desconhecido a nossa fé cega ou isso é outra coisa? Não entendo agora, portanto, não me meto. É mentira que cada um sabe o que faz, mas é verdade que geralmente não devemos meter o dedo. O que fazer para os esforços se revelarem válidos? Como conseguir a astúcia de tentar de novo após acumular tantos revezes? Como se regozijar com a memória de tantos fracassos? Respiro e medito. Há partes que entendo e repenso. Há partes que ainda não entendo e faço as pazes com o desconhecimento. Quem sabe daqui uma década eu seja sábio o bastante? Vou perder para a vida, mas pretendo existir longe.
Aprendi que a minha linguagem do amor é o tempo de qualidade, assim, esforço-me ao máximo para estar presente e ser uma boa companhia na vida das pessoas que me cercam. Todo o restante perde o encanto quando estão longe de mim ou quando, por algum motivo, estão presentes e simultaneamente distantes. A presença física, quando não acompanhada de sintonia emocional, pode ser nula. Não posso me acostumar a ser ignorado, principalmente quando, vez ou outra, sinto a latente necessidade de ser visto. Que fazer de mim quando quem me ama se esquece que eu existo? Respiro e medito. Persisto? Penso a vida inteira e encontro paz, mesmo que não encontre respostas. Cogito a condição de solidão para afiar meus pensamentos e afinar meus conhecimentos. Será que sozinho entenderia parte dessas tantas coisas que me escapam? Por vezes desejo ficar sozinho e me parece que o mundo se ofende, como se eu não tivesse direito de me pertencer. Sou mais dos outros do que meu? Sou overthinker por natureza e se não tento compreender, os pensamentos me matam (ou tentam). Tenho a impressão de que vim falar de sensibilidade e de que acabei por narrar tudo sobre a solidão, mas lhes pergunto: não seria a sensibilidade uma característica marcante de quem aprendeu a conhecer a solidão? Quem nunca se conhece corre o risco de viver fugindo de si mesmo, porém nossos pensamentos são mais rápidos que nós e nos alcançam. O que fazer para não viver eternamente sem esperanças?
“Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates. “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”, como neste relato agudo de Machado de Assis em Dom Casmurro. Aprendemo-nos sozinhos? Interlúdio e respiração ofegante e difícil. O peso ou a leveza? Não sei ainda. Meço meus desejos e posteriormente meus sonhos. Como li anteontem, “nossos sonhos merecem nossa disciplina”. Como tantas vezes falho até nas próximas rimas? Os meus romances aguardam mais palavras e mais coragem. A vida pungente quer me mostrar algo. O que estou deixando escapar? Não tenho convivido o bastante comigo mesmo. Estou sempre claudicante, exausto e queria me deitar em uma banheira de gelo, para restaurar meu corpo. Poderia o gelo restaurar também a minha mente? Qualquer detalhe faria a minha vida diferente. Que sejamos ocultos a quem é alheio e que toda a honestidade do mundo fira os outros, entretanto, quando se olhar no espelho nas manhãs, você deve dizer a si mesmo o que deseja, sem se avexar ou enrubescer. A vida exige que saibamos o que queremos querer.
Bem, sinto que cheguei ao fim destes relatos e sustento um orgulho tosco, quase vil, em apreciar o meu tempo sozinho. Tenho a impressão insistente de que quem não sabe ser só, simplesmente não se tolera e eu, mais do que me tolerar, aprendi desde cedo a me amar. Quem é que passeia no shopping e não repara nas famílias com filhos pequenos? Quem corre nos parques e não para numa apreciação lenta dos animais? Quem nunca se admirou com o sopro súbito do vento que faz as folhas dançarem? Quem nunca deitou no chão gelado de pedra e contemplou as tantas estrelas no teto do céu? Os meus gatos e o meu cão me ensinam todos os dias sobre a importância das coisas frágeis. Que mais me resta dizer?
Saiba ser sozinho, eu imploro, assim, você nunca correrá o risco de se perder das coisas que são realmente importantes na sua vida. E se não tiver animais de estimação, eu recomendo fortemente que arranje um. Em princípio, você sentirá que precisará cuidar deles, mas a realidade que se prova é avessa. Nossos bichos cuidam mais de nós e nos ensinam em menos tempo muito mais sobre a delicadeza, o carinho e o amor, portanto, enfim, altero a minha sentença final. Retifico-a e digo:
– Saiba ser sozinho e adote um animal!
Na manhã de hoje
Na manhã de hoje acordei com uma raríssima vontade de continuar dormindo. Tenho o hábito de ser vagaroso e só por ver lento e enxergar devagar é que compreendo um décimo da natureza das coisas frágeis. Repito há anos sobre maneiras e métodos de prestar atenção, embora eu tenha meu déficit acentuado. Quando criança ninguém sabia do que me chamar, pois eu era distraído, desinteressado, mole e até fútil, pelo menos segundo a língua alheia, entretanto, agora que sou adulto, eu tenho esperança de que as novas crianças sofram menos por serem diagnosticadas com TDAH. Já passei da fase que odiava todos os estudantes de medicina da cidade e superei também a outra fase na qual parecia que todas as estudantes de medicina cultivavam um interesse legítimo em mim. Que é que quer a medicina com a literatura? Não sei e suponho que nunca saberei, entretanto, apesar da arrogância pomposa da maioria dos candidatos a médico, eu sou grato a eles por todos os avanços científicos, especialmente aos neurologistas por nos oferecerem uma saída ao déficit de atenção. Fútil me cabe bem, mas não sou mole e desinteressado, pelo contrário, bem como diz um trecho do Livro do Desassossego “tudo me interessa e nada me prende”. Reconheço em mim essa tendência mutável e a respeito em ordem de me respeita e sentir que faço sentido aos meus próprios olhos.
Os estudantes de direito ficam em segundo no pódio da chatice e podem ser absurdamente desagradáveis em seus tratos advocatícios tagarelas. Falam mil horas por dia e trocam segredos de profissão sem enrubescer. Quando estão cercados de qualquer pessoa estranha, percebi, seus modos se tornam ainda mais afetados, como se o orgulho fosse excessivamente grande para caber no peito. Dotados de um conhecimento exclusivo, falam alto como se falassem russo, para exibição do ego. Confesso, caríssimos leitores, que sou formado no curso, portanto, bacharel, porém é um segredo tão bem guardado que se depender de mim nunca mais falo juridicamente para o resto da vida. Revelar isso me exigiu um quanto de energia.
Outra coisa que constantemente incomoda quem é alheio é o fato de eu nunca ter tentado me tornar um advogado, afinal, qual é o ponto do curso se não vai advogar? Eu fiz o curso, prezados leitores, tendo a única convicção de estar perdido. Passei entre os dez primeiros para Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, porém fui persuadido de que seria um adulto miserável e faminto. Com a fome não se brinca e a minha ingenuidade comprometeu uma das grandes escolhas da vida. É preciso ver, sem hesitação, o copo meio cheio. Foi na metade da faculdade que acabei escrevendo “O Livro de Geffen” e este é ainda até hoje um dos projetos dos quais eu mais me orgulho. Por detestar o direito, procurei maneiras de evitar o curso e fugi da casca, de tudo o que havia externamente e mergulhei fundo em mim, para descobrir. Encontrei motivos bastante concisos para escrever e motivos mais belos para continuar escrevendo. Em regra, eu não cultivo o hábito de me importar com o que os outros pensam de mim, mas se não escrevo, eu sofro e se sofro, pergunto-me de que vale uma vida inteira sem poder se sentir, ao menos uma vez, absolutamente dono de si. Será que uma hora a gente se cansa de ser tão menos por nós mesmos? Aqui e agora, percebo essas nuances trevosas, pessimistas e acho que é porque ainda queria estar dormindo. Seria melhor ter evitado esse dia. A gente subestima uma noite adequada de descanso.
Meu coração não é meu.
Meu coração não é meu,
embora me pertença desde que nasci
Quando estreei no mundo
já tinha uma identidade estética
O meu rosto aprendi a conhecer porque
crescemos todos cercados por espelhos e reflexos,
Entretanto, busco ainda a face original da alma que tenho
Só quem se desvê realmente se conhece um pouco
É preciso mergulhar fundo para deixar de ser oco
Sou um inútil e me chamam de idiota por acreditar
Eles não sabem que todos somos idiotas, acreditando ou não
Suspiro, deito na pedra e fito o céu sem usar fitas
Analiso a forma de uma nuvem branca
Ela dança e se divide até se dissipar
Existe nuvem que quer chover
como se quisesse chorar
Existe nuvem que vai desaparecer
depois de tanto dançar
Os físicos explicarão o fenômeno segundo suas Leis
Só que não há muitos fisicistas que bailem
Fecho os olhos e enxergo novas coisas
Tudo o que saiu da minha cabeça é meu
Amo os espaços vazios e sou incompreendido
Quando me observavam, ainda criança,
vagando e divagando pelo quintal
sempre se perguntavam: – Que será que está fazendo?
Eu apenas fazia, entendendo-me menos ainda
O que acontece dentro do peito é estreito
Confesso que nunca me soube tão bem
Queria ser convicto de tudo, entretanto, emudeço
Será que os desajustados vão além?
Sou uma espécie de confusão acumulada
prestes a irromper em uma certeza
Se soubesse qual parafuso me falta
eu mesmo me martelava até me consertar
Só que sinto que sei quando algo está com defeito
Reconheço tudo que está quebrado
Eu só estou do meu jeito
E tudo o que não surgiu
da minha mente é estrangeiro,
mas não necessariamente mentira
A única verdade que creio é que o mundo gira
Meu coração não é meu,
embora me pertença desde que nasci
Sou eu tudo o que vi
Sou eu tudo o que vivi
Sou eu ainda tudo o que não sei
Sou eu, enfim,
tudo o que nunca saberei
Este coração que não é meu desaparecerá
no dia que o meu corpo se decompor
Sou inútil a ponto de acreditar, que mesmo morto,
sobreviverão os meus versos de amor.
E aí?
Já estava chegando em casa quando o celular tocou e uma voz familiar me disse, e aí, estacionei o carro e respondi e aí o que, honestamente eu não sei, estranha, não tanto quanto você, acho que você tá certa, mas é que você sempre foi bom em ser honesta, eu não tenho sido tão honesta assim e acho que a minha terapeuta tá me julgando por isso, então você finalmente tá fazendo terapia, eu estou, que bom, é bom, sim, e você, eu fiz e parei, não se para terapia, pois eu parei, embora sinta saudade do meu terapeuta, é só voltar, claro que não, claro que sim, então quando se sente falta é só andar de trás para frente e voltar? Não é como se uma ligação rompesse a distância, eu disse rapidamente e só depois senti que a frase tinha sido afiada, quase agressiva, compartilhamos um silêncio estendido e escutei a chuva que começava, e aí, eu disse por reflexo, onde você está, ela perguntou, numa rua, eu respondi, qual rua, acho que você não conhece, a cidade é grande, respondeu azeda, não tanto para quem está de carro, o que isso quer dizer, ela me perguntou e o estado azedo saltou para o melífluo em instantes, nada especial, respondi e senti o ânimo dela arrefecer, nada especial, sabe, eu nunca pensei que você ligaria, eu sei que não, claro, você tinha essa mania de saber, tenho, eu ri e a respiração ficou leve do outro lado, as coisas mudam, sim, muito, o que mais mudou em você, eu não vivo para impressionar ninguém e nem tenho uma pedra na ponta da garganta, eu acho que entendo, algum escritor disse que o estado pleno de liberdade é equivalente a você descer a avenida nu, você está nu, a pergunta dela havia sido capciosa, mas abafei o riso, eu só dirigi pelado uma vez e não foi hoje, agora foi ela que riu e aquele som atravessou passado, presente e futuro, olha, para onde, não, sério, olha, não consegui grandes coisas na vida, porém por enquanto acho que consegui pessoas grandes, pessoas, ela perguntou numa mistura de ceticismo e confusão, sim, eu desci a avenida metaforicamente pelado e exposto em absoluto fui capaz de atrair gente para perto de mim, ela riu, você ficou pelado e atraiu pessoas, perguntou em zombaria, atraí as melhores pessoas da cidade, no mínimo, não digo que do mundo porque o mundo é muito grande e não o vi inteiro, entendo, foi a minha vez de rir, entende mesmo, ela tornou a ficar séria, acho que não, um dia quem sabe, um dia, é, mas não hoje, você quer me dizer alguma coisa, pergunto, é que a garoa está virando tempestade, que garota, garoa, eu repito, ah, ela arqueja, seria uma ideia interessante essa não acha, pergunto-lhe, uma garota virando tempestade, ela pergunta indecisa, toda mulher é meio tempestade, inclusive você, ela ri por um segundo e paralisa sem saber se deveria ficar lisonjeada ou ofendida, foi um elogio, ela bufa e responde, eu sei, mesmo, eu duvido em um provocação, claro que sei, não confundo afeto com ataque, que bom, é bom, sim, é, você me ligou por alguma razão específica, liguei porque ainda lembrava do seu número e pensei em te perguntar como é ficar sozinho por tantos anos, eu amo estar sozinho o mesmo tempo que odeio estar sozinho, quase uma década se passou, não vencemos o tempo, ela afirmou com dureza, não vencemos nada, eu complementei, você pioraria o clima de um velório, ela acusou, eu ri e dei de ombros, afinal, talvez fosse verdade, como é passar tanto tempo assim sozinho, eu ri e expliquei com calma, realmente eu não estou sozinho, você foi casado no Ragnarok quando era adolescente e hoje é casado com as palavras, escrever é uma sina maldita e as frases são traiçoeiras, ou seja, eu jamais cairia no papo do texto, eu estou precisando de um interlúdio, ela respondeu, estradas para locais seguros, eu respondi, ela suspirou e o silêncio predominou. E aí, e aí o que, ainda ninguém, isso não é da sua conta, ninguém nunca antes, isso não é mesmo da sua conta, e aí, fica na sua, tá bem. Eu nunca pensei que me ligaria, você nunca me perguntou, ela disse, o que, se estava tudo bem comigo assim que atendeu a ligação, arqueei as sobrancelhas me esquecendo de que ela não podia me notar, tudo bem com você, mais ou menos e aí, mais ou menos também, não me julgue egoísta, mas fico aliviada, eu suspiro e estranhamente entendo o que ela quer dizer, eu espero que as coisas melhorem pra você, respondo, eu também, ela diz e o silêncio se prolonga até ela rir, quero dizer, espero que as coisas melhorem não só pra mim, mas também pra você, eu sorrio sem emitir sons, elas vão melhorar, eu acho, tomara que você esteja certo, eu não vejo a hora de me aposentar e me dedicar integralmente às palavras, você nunca muda, eu mudei, é claro que não, você não teria como saber, isso é verdade, mas nisso eu estou certa, você é sempre você, lá no horizonte o mundo acabando e você não liga, é o quarto apocalipse e você está no seu canto cuidando do seu gato e dos seus livros e das suas palavras, você diz isso como se fosse ruim, ela pensa antes de responder, não é de todo ruim, e aí, eu indago começando a ficar impaciente, a chuva aperta lá fora e tenho medo de ser assaltado, é uma rua que ela não sabe qual é, mas é perigosa na madrugada, eu liguei para ter notícias, ela diz, quem liga geralmente dá notícias, mas eu não tenho notícia nenhuma para dar, exceto que vai chover amanhã também, não vou lavar minhas roupas então, respondo, eu vou desligar, fica bem então, fica bem você também, o silêncio seguiu prolongado e percebi que outrora ele poderia ter sido preenchido por palavras, eu talvez te ligue outro dia, menti, ela suspirou com um ar descrente antes de desligar o telefone, claro, ainda sabia quando eu mentia. Outrora ainda haveria o que dizer, palavras para preencher o silêncio, porém a tempestade dizia tudo. Outrora, repeti em voz alta e saí com o meu carro para a solidão do apartamento.
Um apelo.
Eu queria fazer um apelo, mas o problema dos apelos é que eles são todos direcionados e ando sem direção ultimamente. O Seu Raimundo ontem me lembrou que se perder é o único jeito de realmente se achar e nessa amálgama de confusões, perco-me e despenco para dentro. Ainda não achei nada no porão de mim. Será que deveria ficar preocupado?
Queria que o meu próximo não, a minha próxima recusa fosse firme. Tenho sido de muitos sins aos outros e recebido raríssimos sins de volta. Eu queria fazer um apelo, um apelo de receber pelo menos alguns sins em troca. É engraçado que o plural da afirmação remeta ao pecado em outra língua, assim, vejo-me obrigado a ser enfático: quero sua anuência e não o seu pecado, porém como vai chegando o meu aniversário, entrega-me o que quiser.
Eu queria fazer um apelo, mas o problema é que todos são direcionados. Queria poder apelar para Deus e dizer que queria uma vidinha simples de escritor, preso em um loft, fadado ao tédio da minha própria companhia. É claro que de vez em quando acordo metade dragão e carbonizo todas as ervas daninhas, porém o dano colateral reflete a morte das flores e isso me lembra que eu também queria fazer um apelo para quem pensa que não vai sobreviver a essas tantas dores. Somos todos talhados para a sobrevivência. O sofrimento tirou o meu ar e a minha paciência, porém ainda estou aqui. Eu me remendei e voltei a sorrir.
Eu queria fazer um apelo, mas o problema dos apelos é que eles são todos direcionados e ultimamente ando sem direção. Que se danem os apelos. O jeito é confiar no meu coração.
o jardineiro.
Avancei para averiguar a avenca
Era uma coisinha diminuta, porém bela
Eu especialista nas inutilidades antevi
que poderia crescer por onde e como quisesse
O trabalho do correto é cometer acertos, assim,
pus-me a regar a planta todos os dias
Sorria enquanto a aguava e lhe pedia paciência
É claro que sabia que um dia poderia estar tão alta
que nunca mais olharia para mim
Também estava cônscio de que talvez me esquecesse,
embora no meu peito entendesse que jamais a esqueceria
É estranho que se me marque a violência
Que me recordem através dos impulsos reativos
Justo eu que sempre me ajoelhei para afagar os seres vivos
Eu que deitei meu olhar dócil para o bosque sem fim e
que me vi acocorado e grato por existir
O peso da sensibilidade exacerbada, da empatia, é fatal
Ainda que você melhore a vida dos outros
São poucos que se lembram que você um dia existiu
Que é essa tanta aversão ao costume?
O que é esse cheiro de memória repleto de perfume?
Que faço para recuperar meu antigo lume?
Esqueço-me, sim, essa é a resposta
Estou vivo, mas oco, sem novas apostas
Condenado ao peso de nunca poder me sentir leve
Em sonhos áureos sou feito de sol e neve
Despenco sem a pressão de ser cobrado e não solto o ar
porque, enfim, tornei-me o ar e parti
Sou invisível ou argênteo, astronauta de prata
Interplanetário não impressionável
Contemplo outros mundos e galáxias e estrelas e sonhos
Quando avistares um animal com a cor do cobre
Quiçá se lembrem de um vislumbre do meu coração nobre
que de tanta nobreza constante e dureza férrea
fez lânguido e embriagado o meu corpo outrora forte
A minha vastidão me fazia invencível, porém
a honra me prostrava de joelhos e defronte aos espelhos
chorava pela solidão e sentença de só poder ser eu mesmo
Suspiro profundo no escuro e eu dentro dos eixos
Por que o breu me assusta se é Nele que existe o Amor?
Por que nada me ofusca esse tanto de dor?
Talvez seja a verdade que uns nascem para se cumprir
enquanto outros nascem para assistir
Quem sabe possa me fazer satisfeito
apenas por me reconhecer e me saber imperfeito?
Libero a minha respiração e recobro o ar
Estava aprisionado dentro da minha ansiedade
Estava insano dentro da minha sanidade
O escuro é onde mora Deus
O escuro é onde mora todo o resto também
Queria ser objetivo e traçar e realizar um plano
Sou errado demais para ser humano
Sou exato demais para ser humano
Estou exausto demais para ser humano
Que me sobra então para ser?
Uma sombra qualquer que se alegra com a jardinagem
A cautela com as flores, a sutileza com os amores,
é o remédio para o meu coração selvagem
Essa expansividade deveria ser domesticada?
Essa vontade de longevidade deveria ser remediada?
Avancei para averiguar a avenca
Tenho regado muitas plantas ao longo da vida
Especialistas nas inutilidades sorri satisfeito
ao notar que haviam se modificado radicalmente
Palmeiras, sequoias, salgueiros, figueiras, sibipirunas
Cada qual enorme e deslumbrante e perfeita
Não adivinhava fragilidade nelas
E fiquei com cara de bobo com a lembrança da fragilidade
No fundo, nas raízes fixadas na terra, ainda têm a mesma idade
Entretanto, altas e imponentes, não se lembram de mim
Engulo meu orgulho tosco e percebo que essa é minha sina
Criar coisas belas, regar, ser esquecido
e seguir para a próxima rima.
Overthinker.
Escrevo por impulso e insistência, por necessidade e descaso, por prazer e por alívio, por tudo e por nada. Acontece é que penso muito o tempo inteiro, overthinker, qualquer coisa não tão alongada assim, conjecturas esticadas, mas não o suficiente para alcançar o mundo inteiro. Existir sem pensar é exercício de liberdade total. Pensar é sofrer e admito que sou tomado por dores até quando doer não faz sentido. Um grito reverbera no fundo da consciência, mas eu o ignoro. É que nunca esperaram pouco de mim e por isso vivi pressionado. Sou tudo e nada, portanto, é difícil me descrer em absoluto. Vi muita televisão ao longo da vida e agora sou tolo o bastante para acreditar. Eu preciso me desapegar da ilusão de que posso alcançar o que chamo de totalidade. Sou irremediavelmente eu e há dias que me canso. Há noites que me canso e.
É possível mesmo individualizar um desprezo fulgurante para a figura de um ou outro homem enquanto concomitantemente o amor maiúsculo pela humanidade segue em uma crescente? Li alguns ensaios sobre isso, estudos ou filosofias (ou só discussões) de homens que odiaram um homem em específico e se derramaram em amores pela humanidade. A ideia me faz rir, mas não me arrisco ao teste. Tenho me perguntando qual é a relação minha com os outros e me vejo em um labirinto. O que é que faço do elo com os outros da mesma espécie que eu, esses tantos tão iguais e tão ridiculamente diferentes, que é que me conecta? A conexão que busco é vã ou a ilusão de conexão é necessária para sobrevivermos? O que devo aos outros tacitamente por ser também humano? Os deveres, mesmo os básicos e claros, poderão ser ignorados por uns, ainda que sejam essenciais em um quadro maior? Temos escolha ou somos eternamente vítimas das escolhas que fizeram antes que fôssemos independentes o bastante para escolhermos por nós mesmos?
Contenho meus impulsos de violência, sim, enraivecido estou, entretanto, liberto-me em pensamentos. Sou livre e me admito imperfeito. Hipócrita? Não, mesmo que me contradiga vez ou outra. Suspiro e liberto do peito o peso do Universo. Fui tudo por saber que sou nada. Se tudo lhes parece sem sentido, isso não me afeta. Não preciso me atribuir sentido para seguir em frente. Acordo e torno a dormir sem motivos e sigo em frente. Erro ou acerto e sigo em frente. A vida é apenas seguir em frente. Estou sendo deixado para trás por muita gente, mas de que isso interessa? Só preciso seguir em frente obstinadamente como sempre o fiz. A felicidade chega e passa. A tristeza chega e passa. A raiva me manteve alerta e o meu orgulho ferido me fez dar um passo adiante e viver coisas inesperadas e bonitas. Toda história triste acaba. Toda história feliz também. Eu hoje me regozijo pela sorte de viver minhas melhores horas. Estão me esquecendo. Estão me deixando para trás e há pouquíssimos que notam. Estão fazendo tudo isso e.
Para ser honesto, eu não tenho uma resposta para isso. Tudo me escapa, entretanto, capto tudo (mesmo o que me escapa) em um retrato mental fracionado. A minha memória vai se esquecendo de coisas desimportantes e, ainda assim, tenho a capacidade de me lembrar das melhores lutas da WWE, dos melhores gols do Palmeiras, das maiores crises de riso na adolescência, do maior medo da infância. A família por parte de pai era rica e a família por parte de mãe era pobre. Era excitante transitar entre os dois mundos e deixar flutuar a sensibilidade que sentia. Nada que os opulentos me deram valeu um dia mais do que os tomates com sal. Era tudo o que a minha avó poderia me oferecer, mas ela sabia que ao me entregar aqueles tomates, que eram apenas tomates, estava ali recebendo toda a minha gratidão e o meu amor. Sei que divago, sim, claro que sei. Tudo se perde entre minhas fantasias e ficções, entre realidades e encenações, não obstante, eu repito o que li anteontem em uma crônica de Clarice. Tudo o que escrevo está ligado, pelo menos dentro de mim, à realidade em que vivemos.
Se não lhes parece, que não lhes pareça. Não vivo para comprovar o vínculo, entretanto, insisto em lhes contar que essa convicção genuína que sinto, esses impulsos livres e amorosos, fazem-me acreditar em heróis, filósofos, santos, loucos e até em mim mesmo. Sim, tornei-me ousado o suficiente para me amar e até para me crer. Se não lhes parece que a minha mente e o meu coração estão ligados à escrita, bem, parecer é menos importante do que ser e sou, sem dúvidas, escritor. Escrevo por impulso e insistência, por necessidade e descaso, por prazer e por alívio, por tudo e por nada. Acontece é que penso muito o tempo inteiro. Penso desde que era criança e acredito que vou pensar até meus últimos segundos de vida. Penso em mais milhares de coisas que não caberão neste texto ou nessa vida. Sorrio e me distraio antes de suspirar. Os pensamentos logo voltarão. Como é frustrante ser um overthinker.
MANCHA.
Estou ficando sem tempo
por estar com muitas horas sobrando
Perambulo nu pelo apartamento
Estranhas coincidências me fizeram
morar sempre no andar mais alto dos prédios
Outras casualidades me colocaram ao lado de igrejas
Vizinho de Deus e alto como os anjos
Gargalho destas notas mentais e bebo cerveja preta
Sou acometido por uma memória sexual
e dedico um tempo na rima mais óbvia
Entro em um banho gelado na madrugada
saio com as costas molhadas e fito o reflexo
Sei que estou ficando sem tempo
Perambulo pelo apartamento, úmido, sutil
Depois ligo a música alta e ignoro os vizinhos
Eventualmente adotarei um gato de rua
Medito sobre o futebol, a poesia e a morte
Abro a porta da geladeira e como chocolates amargos
Os chocolates, os ovos mexidos, o suco de limão
são os primeiros pilares da minha independência
Gargalho de como é ridículo o termo “independência”
Ninguém nunca poderá existir realmente sozinho
Nesta quinta-feira que já foi sábado
Neste início de março que outrora foi coisa nenhuma
Suspiro e solto o peso todo de minha existência inútil
Filho, parece que você carrega o Universo inteiro no peito
Não conte aos outros, mãe, é verdade, eu carrego
Desdobro-me pelas pessoas importantes e
me reconheço esquecido em meus tantos cacos
Mania repulsiva de me deixar para mais tarde
A música romântica toca na televisão distante
Um bicho que não é uma aranha escorrega pelas teias
A metáfora do ferro e do vinho me abandona
As lições de Rivière agitam minhas moléculas
O propósito é uma loucura obstinada dos teimosos
Pelo menos nós temos a coragem para pensar e gritar
Esses tolos emudecidos pela ilusão do dever de passividade
Como me irritam os que engoliram o manual das boas maneiras
Querem matar qualquer um que seja autêntico
Disseram-me que o fracasso traz lições e falho em aprender
A minha atenção divaga ao sentir o vento ou notar as cores
Distraio-me da vida quando me agacho e cheiro as flores
Excessivamente curioso acabo perfurado pelos espinhos
O sangue rubro pinga no tapete branco
Não é preciso perdoar os tolos imprudentes
Não é realmente necessário ser independente e rico
Os melhores enganadores mergulham os distraídos em truques
Os feios são belos, os vulgares são polidos e tudo é ao contrário
Ver a verdade é uma infelicidade tremenda
Contenho meus impulsos de distanciamento
Convicções irrefutáveis se agigantam na consciência
Eu sei que há feridas que nunca se fecham
e há manchas que não saem com a lavagem.
A CIDADE FEIA
Talvez por qualquer distração minha, eu nunca me cumpra. A culpa pode ser do TDAH, da memória, da inconstância, não importa. Não se realizar traz uma clareza sobrenatural sobre a vida. Nunca deixo de sentir que continuar é falhar, ainda assim, algo me impele, por reflexo ou também por distração, a seguir em frente. Quem dera os meus (nossos) mistérios fossem facilmente solucionáveis e a gente não precisasse aumentar o volume da cabeça para continuar processando a quantidade avassaladora de mudanças que ocorrem. Mudo de opiniões, porém me flagro em um esforço hercúleo para preservar minha essência. O que não contradiz o âmago, de um jeito ou de outro, resguarda-me. Há vezes, entretanto, que me pergunto a razão de me resguardar tanto, a razão de não me admitir desarrazoado e cometer loucuras, porque isso tudo flutua distraidamente na nossa cabeça e tudo se sucederá súbito e semelhante enquanto todos compartilharmos o mesmo fim. Despropósito pessoal e outra enxurrada de informações. Na vida a gente aceita migalhas de amor, mesmo sabendo que são migalhas. Queremos todas as lutas, mesmo quando é vazio o valor da batalha. Queremos desesperadamente vencer e sermos lembrados. Precisamos da ilusão de que seguiremos aqui, mesmo depois de mortos, ainda que em um vulto distante de lembrança, um detalhe passageiro na recordação de alguém. É difícil contemplar o reflexo no espelho e ver ninguém.
São Paulo é uma cidade ambivalente. A realidade crua choca e aterroriza. Pessoas deitadas e esquecidas, muitas delas dormindo, algumas outras pedindo insistentemente e ao mesmo tempo surgem artistas produzindo belas músicas e paisagens únicas e significações. Tudo está ali quase como se não estivesse. O Beco do Batman, agora Buraco de Minhoca, abriga secretamente aventura e prazer, mas me flagro andando solto, distraído e leio uma frase “você se orgulha de quem tanto tenta ser”. A frase me comove e na releitura percebo que esqueci a interrogação, mas tudo fica bem porque há perguntas que são certezas no meu coração. São Paulo é uma cidade feia e intrigante, eu digo com certeza que em quesito beleza não se compara com a minha Campo Grande. Que há nesta cidade antiga e suja que me atrai? Julgo ser a capacidade de tornar tudo indiferente. Existe uma obrigação tácita, algo nas entrelinhas, que te força a abrir mão da vaidade em um limite extremo. Há méis que são venenos. Será que eu abandonaria a minha sensibilidade tão constante acaso morasse em um lugar assim? A feiura não deve ser romantizada, entretanto, percebo-me deificando os especialistas na indiferença como se a abstração definisse quem sabe realmente viver a vida. Quem se aprofunda demais em tudo acaba afogado e foi assim, quase sem ar, vomitando água que parecia nunca terminar, que me desfiz da convicção de que se importar é sempre benéfico. Se olho para todos com a intenção de zelo, eu contenho meus impulsos que urgem por retribuição. Todo ato de amor deve ser genuíno, direto e sem intenções, mas posso eu controlar meu âmago, a minha sede de justiça? Vez ou outra me vituperaram por me assumir cru, incontível e incontido, escancarado. Quando zombam o meu sonho sacro de escrever livros, quando escarnecem dos contos ou crônicas, quando me provocam, eu retribuo com agressividade. Sinto que sou e sempre serei furiosamente delicado e essa indolência, essa indiferença paulistana é inatingível pra mim. Até mesmo os vendedores, que por antecipação supomos que agirão com delicadeza, destratam os clientes tranquilamente, como se a grosseria fosse motivo de celebração. Ah, São Paulo! Tão inigualável nas noites e tão ridícula nos modos! Ah, São Paulo! Tão triste, agitada e comovente… A cidade feia é repleta de magia. Chame do que quiser, mas aprendi que há algo de especial nesta feiura. Julgo que a personalidade da cidade é fria e dura.
Flagro-me pensativo sentado dentro do carro e observo o céu e as pichações. Muros, paredes, pontes, prédios, tudo alvo da arte de rua. Quem é que sobe tão alto para desenhar um símbolo que pouquíssimos saberão o significado? Não, claro, eu deveria saber melhor. Quem sobe alto sobe por conta própria e por si. É sobre fazer o que deve ser feito, ainda que os outros não entendam. Julgo que os grafiteiros e os pichadores e os artistas ajam todos por instinto, pois só o que é feito por instinto representa realmente arte autêntica. Sofrer é pensar, assim, para a criação de coisas frágeis é preciso se entregar de corpo e alma ao trabalho. Se mudará vidas ou não, isso não pode interessar, mas quando algo belo e legítimo cruzar a minha mente, que meus dedos desnudem minhas verdades e me narrem por inteiro. Talvez por qualquer distração minha, eu nunca me cumpra, mas isso não interessa. Quando não puderes mais permanecer neste mundo, erguerei a cabeça, recobrarei o ar e seguirei caminhando. A jornada não acaba enquanto eu puder continuar sonhando. Talvez eu nunca me cumpra e isso não faz diferença. Não há fatalidades e a liberdade é a minha única sentença.