Na manhã de hoje

Na manhã de hoje acordei com uma raríssima vontade de continuar dormindo. Tenho o hábito de ser vagaroso e só por ver lento e enxergar devagar é que compreendo um décimo da natureza das coisas frágeis. Repito há anos sobre maneiras e métodos de prestar atenção, embora eu tenha meu déficit acentuado. Quando criança ninguém sabia do que me chamar, pois eu era distraído, desinteressado, mole e até fútil, pelo menos segundo a língua alheia, entretanto, agora que sou adulto, eu tenho esperança de que as novas crianças sofram menos por serem diagnosticadas com TDAH. Já passei da fase que odiava todos os estudantes de medicina da cidade e superei também a outra fase na qual parecia que todas as estudantes de medicina cultivavam um interesse legítimo em mim. Que é que quer a medicina com a literatura? Não sei e suponho que nunca saberei, entretanto, apesar da arrogância pomposa da maioria dos candidatos a médico, eu sou grato a eles por todos os avanços científicos, especialmente aos neurologistas por nos oferecerem uma saída ao déficit de atenção. Fútil me cabe bem, mas não sou mole e desinteressado, pelo contrário, bem como diz um trecho do Livro do Desassossego “tudo me interessa e nada me prende”. Reconheço em mim essa tendência mutável e a respeito em ordem de me respeita e sentir que faço sentido aos meus próprios olhos.

Os estudantes de direito ficam em segundo no pódio da chatice e podem ser absurdamente desagradáveis em seus tratos advocatícios tagarelas. Falam mil horas por dia e trocam segredos de profissão sem enrubescer. Quando estão cercados de qualquer pessoa estranha, percebi, seus modos se tornam ainda mais afetados, como se o orgulho fosse excessivamente grande para caber no peito. Dotados de um conhecimento exclusivo, falam alto como se falassem russo, para exibição do ego. Confesso, caríssimos leitores, que sou formado no curso, portanto, bacharel, porém é um segredo tão bem guardado que se depender de mim nunca mais falo juridicamente para o resto da vida. Revelar isso me exigiu um quanto de energia.

Outra coisa que constantemente incomoda quem é alheio é o fato de eu nunca ter tentado me tornar um advogado, afinal, qual é o ponto do curso se não vai advogar? Eu fiz o curso, prezados leitores, tendo a única convicção de estar perdido. Passei entre os dez primeiros para Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, porém fui persuadido de que seria um adulto miserável e faminto. Com a fome não se brinca e a minha ingenuidade comprometeu uma das grandes escolhas da vida. É preciso ver, sem hesitação, o copo meio cheio. Foi na metade da faculdade que acabei escrevendo “O Livro de Geffen” e este é ainda até hoje um dos projetos dos quais eu mais me orgulho. Por detestar o direito, procurei maneiras de evitar o curso e fugi da casca, de tudo o que havia externamente e mergulhei fundo em mim, para descobrir. Encontrei motivos bastante concisos para escrever e motivos mais belos para continuar escrevendo. Em regra, eu não cultivo o hábito de me importar com o que os outros pensam de mim, mas se não escrevo, eu sofro e se sofro, pergunto-me de que vale uma vida inteira sem poder se sentir, ao menos uma vez, absolutamente dono de si. Será que uma hora a gente se cansa de ser tão menos por nós mesmos? Aqui e agora, percebo essas nuances trevosas, pessimistas e acho que é porque ainda queria estar dormindo. Seria melhor ter evitado esse dia. A gente subestima uma noite adequada de descanso.

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Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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